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Odisseia

01 de agosto de 202631min
0:00 / 31:21

A lendária Guerra de Troia marcou fundamentalmente a sociedade grega. As histórias sobre o conflito serviram não apenas para narrar fatos históricos, mas também para definir os parâmetros sociais helênicos. Até mesmo a volta pra casa de um dos soldados, Odisseu (ou Ulysses), se tornou uma das maiores fontes históricas sobre como os gregos entendiam a família, os deuses, a guerra e a vida como um todo. Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre o que foi a Odisseia.

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Apresentação: Prof. Vítor Soares.

Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)

REFERÊNCIAS USADAS:

- HOMERO. Odisseia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

- FINLEY, M. I. O Mundo de Ulisses. Lisboa: Presença, 1988.

Participantes neste episódio1
V

Vítor Soares

HostProfessor de história
Assuntos6
  • Adaptação da Odisseia de HomeroOdisseia · Homero · questão homérica · tradição oral
  • A jornada de OdisseuPilatos · Poseidon · Atena · Ítaca · Cíclopes · Circe · Sereias · Sila e Caríbdis
  • A Ilíada e a Guerra de TroiaIlíada · Guerra de Troia · Pilatos · Agamenon · Heitor
  • O Massacre de Hinterkaifeckdisfarce de mendigo · concurso do arco · massacre dos pretendentes · João Barradas
  • O encontro com Polifemoteste da cama · identidade
  • Odisseia e IlíadaJoão Barradas · Telêmaco e Penélope em Ítaca · pretendentes
Transcrição4 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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VSVítor Soares

We are outgunned and we are outmanned, but we have each other. FX's The Bear, the final season. All episodes now streaming on Disney Plus. Existe uma história que tem quase 3 mil anos e que você provavelmente já conhece em alguma versão, mesmo sem saber. Ela aparece em filmes de Hollywood, em romances modernos, em séries de televisão e até em videogame. Eu tô falando da Odisseia, o poema épico atribuído ao Homero que narra a tentativa de um homem de voltar para sua casa depois de 10 anos de uma guerra.

Parece algo simples, mas essa jornada mostra algo de muito humano em um personagem escrito há pelo menos quase 3 mil anos. Mil anos. E hoje, com esse episódio, eu quero detalhar essa história e te mostrar como que ela moldou a nossa literatura. Meu nome é Vitor Soares, eu sou professor de história, e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora. Pra gente começar a falar de uma obra literária, é muito comum começar apresentando o seu autor.

Se você perguntar quem escreveu A Odisseia, a resposta padrão é Homero, claro. Mas se você perguntar quem foi Homero, a a resposta fica bem mais complicada. A tradição greco-romana o retrata como um poeta cego, provavelmente nascido na Jônia, na costa ocidental da atual Turquia, por volta dos séculos 9 ou 8 antes de Cristo. Porém, praticamente nenhum detalhe biográfico sobre o Homero é possível de ser verificado, pelo menos não do ponto de vista arqueológico.

Várias cidades diferentes da antiguidade reivindicavam ser o seu local de nascimento. Não existe um registro contemporâneo a ele que confirme a sua existência. E tudo que sabemos com alguma certeza é que os poemas Ilíada e Odisseia foram atribuídos a um autor chamado Homero por volta do século 6 antes de Cristo. A chamada questão homérica é um dos debates mais antigos da filologia e dos estudos clássicos. Em resumo, a pergunta é: a Ilíada e a Odisseia foram compostas por uma única pessoa à frente do seu tempo, ou foram resultado de uma longa tradição oral de múltiplos poetas que foi sendo costurada e eventualmente atribuída ao Os chamados analistas do século 19 argumentavam que as inconsistências internas nos poemas provavam que a Ilíada e a Odisseia eram obra de várias mãos diferentes.

Já os chamados unitaristas respondiam que as inconsistências eram compatíveis com uma obra oral de grande fôlego. O debate definitivamente ainda não tá totalmente encerrado, mas o consenso atual entre os estudiosos está inclinado para a ideia de que sim, existe uma autoria unificadora. Talvez um poeta de grande talento que trabalhou com material de uma tradição oral que já existia antes e o moldou numa forma coerente. Inclusive, essa tradição oral é fundamental para a gente entender o que que a Odisseia é.

Na Grécia arcaica, antes da escrita se disseminar, havia poetas chamados aedos que compunham e recitavam longas narrativas épicas de memória, usando fórmulas ritmas que eram expressões padronizadas que facilitavam a memorização, como o Odisseu de Múltiplos Artifícios ou a Aurora de Dedos Róseos. Isso aqui não é apenas um discurso estético da cultura oral, mas era uma forma de contribuir pra que os ouvintes gravassem as informações.

Esse aspecto é central pra gente entender por que que os poemas que são atribuídos ao Homero têm algumas certas características. A repetição ao longo dos discursos, as descrições detalhadas de combates e de banquetes não são redundâncias narrativas. Elas fazem parte de uma tradição oral pensada pra ser ouvida e não lida em silêncio. O ritmo, a musicalidade e até a previsibilidade ajudavam o público a acompanhar a narrativa. Um outro ponto importante é que essas histórias não falavam apenas de um passado distante, elas também ajudavam a organizar o presente.

Não sabemos exatamente como que os poemas passaram de performance oral para textos escritos. A estabilização provavelmente foi gradual e as variantes continuaram circulando mesmo depois da introdução da escrita. Bom, mas agora indo um pouco mais para história, a obra do Homero não começa com a Odisseia. A Odisseia se passa narrativamente depois dos acontecimentos associados à Guerra de Troia, mas ela definitivamente não é simplesmente a parte 2 da Ilíada.

A Ilíada e a Odisseia são dois poemas épicos distintos que estão inseridos numa tradição mais ampla de histórias sobre a guerra e sobre o retorno dos combatentes. Inclusive, deixa eu fazer um resumão do que foi a Ilíada para a gente poder entrar nos detalhes e na narrativa do que foi a Odisseia. A Ilíada não é, como muita gente imagina, a história completa da Guerra de Troia. Ela é um recorte específico de cerca de 50 dias do décimo ano dessa guerra, focado em um único ponto: a ira Aqueles.

E isso tá escrito logo no começo da Ilíada. Aquiles era filho da deusa Tétis e do mortal Peleu. E o Aquiles era considerado o guerreiro grego mais poderoso diante de Troia. E a tal ira de Aquiles tem uma causa concreta, que é o fato do Agamenon, que é o líder dos gregos e o comandante do grande exército. O Agamenon vai humilhar o Aquiles ao tomar dele uma escrava chamada Briseida, que havia sido dada ao Aquiles em um espólio de guerra.

Pro Aquiles, aquilo não era apenas uma perda material, era também uma afronta pública à sua honra. E por isso, o Aquiles se recusou a lutar pelo Agamenon. A decisão do Aquiles de se retirar da Guerra de Troia desencadeia uma sequência de desastres pros gregos. Sem o seu melhor guerreiro em campo, os troianos, que tinham como o seu líder o príncipe Heitor, começam a empurrar os gregos de volta até as praias, ameaçando queimar os seus navios.

O sofrimento dos companheiros não move o Aquiles. E as súplicas dos embaixadores gregos também não o convencem. A Ilíada vai explorar com bastante profundidade O que acontece quando o homem coloca a honra pessoal acima de qualquer outro valor, inclusive a lealdade dos seus companheiros. O Aquiles é heróico e egoísta ao mesmo tempo, e o Homero não resolve essa contradição. Pelo contrário, ele a expõe. A virada do poema chega com a morte do Pátroclo, o amigo mais íntimo do Aquiles.

De acordo com algumas interpretações, ele era amigo, mas também era amante do Aquiles. O Pátroclo entrou em batalha usando a armadura do Aquiles para tentar intimidar os troianos e acabou sendo morto pelo Heitor. E é nesse momento que a Ilíada atinge a sua camada mais profunda. A ira de Aquiles muda de natureza. Não é mais uma ira por uma honra ferida, é a ira pela dor da perda. Um luto que o transforma em uma força de destruição quase sobre-humana.

Ele volta à batalha, mas não para ganhar a Guerra de Troia, e sim para matar o Heitor. E ele consegue. O final da Ilíada relata um momento muito bonito e muitas vezes impensável. O velho rei troiano Príamo, o pai do Heitor, entra sozinho no acampamento grego, no meio da noite. E ele pede o corpo do filho ao Aquiles. Os dois homens choram juntos, o assassino e o pai do morto. E o Aquiles devolve o corpo. O poema termina com os funerais do Heitor, não com a vitória grega.

É no final da Guerra de Troia que o Odisseu, ou Ulisses pros romanos, assume um papel decisivo. E guarda esse nome, porque ele vai ser o protagonista da Odisseia. Segundo a tradição, foi dele a ideia de construir um cavalo de madeira pra enganar os troianos. Acreditando que o objeto Como se fosse uma espécie de presente ou oferenda deixada pelos gregos, os troianos levaram o cavalo pra dentro da cidade. Durante a noite, os guerreiros, escondidos no seu interior, saíram e abriram os portões pro restante do exército grego, que invadiu, saqueou e destruiu Troia.

A Ilíada termina antes da queda da cidade e da vitória dos gregos. A Odisseia menciona o cavalo de Troia e recorda a tomada da cidade, mas se concentra principalmente na difícil viagem do Odisseu de volta pra casa. A narrativa detalhada da queda de Troia que chegou até nós tá no livro 2 da Eneida, do Virgílio. Porém, antes da gente entrar na história propriamente dita, na Odisseia, é importante entendermos que na Odisseia os deuses do Olimpo não são forças distantes e abstratas.

Eles são personagens ativos que intervêm diretamente na vida dos mortais. Eles têm personalidades, brigas, preferências e até guardam rancor dos humanos. E a trajetória do Odisseu vai ser definida por um conflito divino que tá no centro de tudo. Atena, deusa da sabedoria e da estratégia, simplesmente ama o Odisseu. Ele é o tipo de herói que ela aprecia, porque ele é inteligente e sabe muito bem usar sua lábia para se dar bem. Ao longo de toda a Odisseia, a Atena aparece disfarçada, orientando e protegendo os interesses do Odisseu.

Por outro lado, o Poseidon, deus do mar, ele odeia o Odisseu, e ele odeia com todas as suas forças. O motivo é simples: o Odisseu cegou o filho do Poseidon, o ciclope Polifemo. Poseidon passou 10 anos fazendo o regresso do Odisseu ser o mais difícil e mais longo possível. A Odisseia é, entre muitas coisas, é claro, a história de um homem tentando navegar de volta pra sua casa com a ajuda de uma deusa e indo contra um outro deus.

O cenário que isso acontece é o Mediterrâneo oriental, mas é um Mediterrâneo que mistura geografia real com lugares míticos. Ítaca, que é a ilha que o Odisseu quer voltar, a sua casa, de onde ele é rei, de fato ela existe. A moderna Itáqui é tradicionalmente identificada como a Ítaca do Odisseu, embora a correspondência exata entre a geografia homérica e a moderna continue discutida. Mas a Terra dos Ciclopes, a Ilha de Circe e a entrada do Hades são lugares que fazem parte da mitologia do Homero.

E essa mistura é claramente proposital, porque cria uma sensação de que o universo é muito maior e muito mais perigoso do que qualquer mapa poderia mostrar. A Odisseia chegou até nós dividida em 24 cantos, identificadas pelas letras do alfabeto grego. Inclusive, a origem dessa divisão é uma origem bem discutida. Uma tradição antiga a associava aos gramáticos ligados a Aristarco, em Alexandria, mas também existem hipóteses de divisões anteriores.

Não há evidência segura do sistema de 24 cantos antes do século II a.C. O poema possui um pouco mais de 12 mil versos, compostos em hexâmetro datílico, o metro tradicional da poesia épica grega. Um fato que causa muita estranheza para as pessoas que começam a ler a Odisseia Odisseia é que ela meio que já começa no meio da ação. Não tem uma introdução formal à história como a gente tá acostumado hoje em dia. Esse recurso narrativo se chama in medias res, que significa começo no meio das coisas, ou algo assim.

Quando Odisseia começa, a Guerra de Troia já acabou há 10 anos. O Odisseu já tá há 7 anos preso na ilha de Ogigia com a ninfa Calipso. Ítaca tá sendo devorada pelos pretendentes que assediam a Penélope. O filho do Odisseu, chamado Telêmaco, já é adulto e não pode ajudar o pai. Como eu disse, a narrativa não vai voltar ao começo, não de forma linear. Ela vai acumulando o contexto e, aos poucos e ao longo da jornada, vai fazendo alguns flashbacks e assim vai explicando as lacunas que ficaram para trás.

Esses contos do passado ocupam 4 cantos dentro do poema. Essa forma de contar histórias foi repetida e reelaborada por outros autores clássicos, como Virgílio na Eneida e por Dante Alighieri na Divina Comédia. É reconhecível em qualquer filme que começa com um personagem em crise e depois conta como que ele chegou até essa crise. Bom, existem dois fios narrativos paralelos que a Odisseia costura ao longo dos seus cantos. O primeiro segue Odisseu tentando voltar para casa e o segundo segue o Telêmaco, o filho que cresceu sem o pai e que parte em busca de notícias.

Como você pode imaginar, em um determinado ponto da Odisseia as duas narrativas vão se conectar. Não demora muito tempo na Odisseia para que a história chegue a Ítaca. E o que vemos é uma situação de degradação lenta e muito dolorosa. O palácio do Odisseu tá ocupado por mais de 100 pretendentes que há anos cortejam a sua esposa, a Penélope. Eles comem e bebem à custa do patrimônio da família e presumem que o Odisseu já tá morto.

A Penélope resiste ao casamento com bastante inteligência, dizendo que só vai escolher o marido quando terminar de tecer uma mortalha pro sogro Laerte. A mortalha é uma espécie de tecido que é colocado num cadáver no seu velório. Pra evitar que a sua tarefa chegue ao fim, de noite ela desfaz tudo que ela teceu durante o dia. E esse truque funcionou por 3 anos antes dela ser descoberta por uma criada. Telêmaco tem cerca de 20 anos e é humilhado diariamente pelos pretendentes no próprio palácio do pai.

É nesse momento que a Atena aparece sob aparência de Mentes, que é o chefe dos táfios, e encoraja o Telêmaco a agir. Ela o aconselha que ele viaje em busca de notícias sobre o Odisseu. No canto 2, ela assume aparência de mentor o amigo a quem Odisseu havia confiado a sua casa. Essa parte do poema, que é chamada pelos estudiosos de Telemáquia, cobre os primeiros 4 cantos e serve a múltiplos propósitos narrativos. Ela mostra a situação caótica de Ítaca antes do Odisseu chegar.

Ela dá ao leitor informações sobre o fim da Guerra de Troia e também informações sobre o destino de outros heróis gregos. E ela apresenta o Telêmaco como um personagem em crescimento. Ele é um garoto que precisa encontrar o pai, mas também precisa encontrar a si mesmo. No canto 5, a narrativa finalmente encontra o Odisseu. Ele tá na ilha de Ogigia há 7 anos como cativo de Calipso, uma deusa imortal que o mantém na ilha e deseja transformá-lo em seu marido.

Calipso oferece a Odisseu algo extraordinário: a imortalidade. Se ele ficar com ela, ele nunca mais morrerá. Mas Odisseu recusa. Ele passa os dias sentado na beira do mar, olhando pro horizonte e chorando. Isso diz muito sobre quem é o Odisseu. Ele escolhe uma vida mortal e um lar distante em vez de uma eternidade num paraíso. Para ele, o pertencimento e a identidade ligada a um lugar e a sua família vale mais que a imortalidade sem raízes claras.

Atena convence Zeus a intervir. Zeus então manda Hermes, o mensageiro dos deuses, até Ogigia com uma ordem: Calipso deve deixar o Odisseu partir. A ninfa obedece com mágoa e ajuda o Odisseu a construir uma jangada. Ele navega por 17 dias e então o Poseidon, retornando de uma viagem, avista o Odisseu no mar e desencadeia uma tempestade. A sua jangada destruída, quase levando à morte do Odisseu. Com ajuda de uma divindade marinha chamada Leucoteia, o Odisseu consegue alcançar a foz de um rio na terra dos Feáceos.

Ele fica momentaneamente sem força, mas depois se recupera, procura abrigo numa mata próxima e dorme sob uma camada de folhas. E se eu te disser que dá para viajar no tempo? E digo mais, é viajar no tempo comigo, com o João Pedro do Operação Barbarossa e com Vogel do Vogalizando Nós três temos um canal chamado História e Cinema e junto com a Inclusive Travel a gente tá te convidando aqui oficialmente para uma viagem para Grécia e Roma.

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No fim do canto 8, depois de revelar a sua identidade, o Odisseu começa a narrar as suas aventuras. Esse relato ocupa os cantos 9 a 12 e vai da partida de Troia até a sua chegada a Ogigia. Ele não descreve propriamente todos os 10 anos longe de Ítaca, porque 7 deles foram passados para a ilha de Calipso. A primeira parada foi a terra dos Cícones, na Trácia. Odisseu e os seus homens saquearam uma cidade aliada dos troianos, mataram os homens, tomaram as suas mulheres e riquezas.

Mas em vez de embarcar logo, os homens ficaram bebendo na praia. Os Cícones reagruparam forças e atacaram ao amanhecer. Odisseu perdeu 72 homens nessa batalha. A segunda parada foi a terra dos Lotófagos, um povo que se alimentava de um alimento chamado lótus, descrito como um fruto doce como mel. Quem o comia perdia o desejo de levar de buscar notícias e de regressar, esquecendo o caminho de casa. Alguns homens do Odisseu comeram lótus e acabaram esquecendo completamente de querer voltar para casa.

Odisseu teve que arrastá-los de volta ao navio à força. A terceira e mais famosa aventura foi o encontro com Polifemo, o Ciclope. Odisseu e 12 companheiros entraram na caverna de um Ciclope, aquele que era filho do Poseidon, e eles entraram em busca de hospitalidade. Polifemo os aprisionou e começou a comer 2 deles O Odisseu elaborou um plano para sair dali a salvo. Um ponto importante dessa história é que o Odisseu acabou revelando o seu nome verdadeiro ao Ciclope, que pediu ajuda ao seu pai Poseidon, e por isso esse deus persegue o Odisseu até o fim da sua jornada.

Inclusive, eu vou explicar com detalhes como que foi o encontro do Odisseu com Polifemo. Eu vou fazer isso no episódio exclusivo para os apoiadores dessa semana. Se você quiser ouvir esse e os outros quase 250 episódios exclusivos que já tem lá, é só assinar o apoia.se/historiameiahora. Mas enfim, depois veio a ilha de Elo, que é o filho de Hipotes e o senhor dos ventos. O Elo presenteou Odisseu com um saco de couro onde ele prendeu todos os ventos desfavoráveis, deixando apenas um vento favorável para garantir uma viagem segura de volta para casa.

Ítaca já estava à vista quando os homens que estavam curiosos e certos de que o saco continha ouro o conseguiram. Os ventos escaparam e a tempestade empurrou os navios de volta ao ponto de partida. Elo recusou ajudar de novo e interpretou o acontecido como um desejo dos deuses. Em seguida, os Lestrigões, que eram gigantes canibais, destruíram 11 dos 12 navios do Odisseu. Eles arremessaram pedras imensas lá dos penhascos em cima dos navios.

Em seguida, eles comeram as tripulações. Sobrou apenas o navio do próprio Odisseu, que tava ancorado fora do porto. Dos 12 navios que haviam partido de Troia, Restava apenas o do Odisseu. O Odisseu e os seus homens, os poucos que restaram, chegaram então à ilha de Circe, uma deusa feiticeira. Circe era filha de Hélio e Pérsia. Metade dos homens foi explorar a ilha e Circe os transformou em porcos. Hermes viu Odisseu e lhe deu uma erva que o tornaria imune ao feitiço.

Odisseu foi até Circe, ele resistiu à sua magia e a forçou a reverter o encantamento. Ele ficou na ilha de Circe por um ano, então depois veio o episódio mais o encontro com os mortos, conhecido como Néquia. Seguindo as instruções de Sísifo, Odisseu navegou até a terra dos cemérios, junto ao rio oceano. Ele abriu uma cova e realizou um ritual de invocação. As almas saíram do Érebo e se aproximaram do sangue oferecido. Odisseu não percorreu fisicamente o mundo subterrâneo.

Ele fez uma invocação dos mortos construída a partir do tema tradicional da descida ao Hades. Bem, no Hades ele encontrou sombras dos mortos que conhecia, como o companheiro Élpenor, que era recém-morto acidente, a sua própria mãe, a Anticleia, que morreu de saudade durante a sua ausência, e até o espírito de Aquiles, que falou para ele que ele preferia servir como trabalhador assalariado de um homem pobre do que ser rei de todos os mortos.

De volta ao mundo dos vivos e partindo da ilha de Circe, o Odisseu enfrentou as sereias, que eram criaturas que atraíam os marinheiros com o seu canto irresistível. Seguindo o conselho da Circe, o Odisseu mandou os homens taparem os ouvidos com cera e ordenou que o amarrassem ao mastro para que ele pudesse ouvir o canto sem poder agir sobre impulso. Logo depois, ele encarou Sila e Caríbdis, dois monstros que se preparavam para atacar.

Caríbdis era uma criatura monstruosa que sugava a água salgada e depois expelia 3 vezes por dia. Odisseu escolheu passar perto da Sila, perdendo 6 homens, um por cabeça, em vez de arriscar o navio inteiro com Caríbdis. A penúltima parada foi a ilha de Hélio, deus do sol, onde pastavam os seus rebanhos sagrados. Odisseu havia sido avisado tanto pelo Tirésias quanto pela Circe para não tocar nas vacas do Hélio. Os seus homens Entretanto, estavam presos na ilha por ventos contrários e estavam morrendo de fome.

Por isso eles desobedeceram enquanto Odisseu dormia. Hélio vai exigir punição e Zeus destruiu o navio com um raio. Todos os companheiros do Odisseu morreram. Ele sobreviveu agarrado aos destroços, foi arrastado de volta até Caríbdis e depois de dias à deriva chegou a Ogigia, a ilha de Calipso, onde a narrativa começou. Como eu disse, tudo o que eu narrei foram com os ex que estavam contando as aventuras anteriores do Odisseu. Bem, de volta ao presente da narrativa principal, o Odisseu dormiu porque ele tava exausto.

Ele dormiu na costa da Isquéria. De manhã, ele acordou com barulho de moças jogando bola na beira do rio. Era Nausicaa, a filha do rei dos Feáceos. O rei se chamava Alcino, que havia ido lavar roupas com as suas servas. O Odisseu surgiu coberto de sal e de folhas. Ele tava completamente nu. Apesar da situação embaraçosa, ele conseguiu com a sua lábia ganhar simpatia de Nausicaa sem assustá-la. Nausicaa o ajudou a se apresentar decentemente e orientou até o palácio do pai.

Os Feáceos são descritos como um povo excelente em navegação, riquíssimo e hospitaleiro. Alcino então recebeu Odisseu com todos os rituais da hospitalidade grega. Em um banquete, um aído cego chamado Demódoco cantou primeiro uma disputa entre o Odisseu e o Aquiles. Odisseu chorou escondendo as lágrimas sob o manto, mas o Alcino percebeu e interrompeu o banquete para organizar os jogos. Mais tarde, a pedido do próprio Odisseu, o Demódoco cantou o episódio do cavalo de madeira.

Odisseu voltou a chorar, e então Alcino pediu para que o estrangeiro revelasse o seu nome. O Alcino queria saber de onde ele vinha e qual era a razão do seu sofrimento. Odisseu então revelou o seu nome e então contou ao longo de 4 cantos todas as aventuras que acabamos de percorrer. Os Feáceos prometeram levar Odisseu de volta a Ítaca e de fato cumpriram o combinado. Eles o colocaram adormecido em uma praia de Ítaca, com presentes generosos ao redor.

Poseidon tava furioso com os Feáceos por ajudarem o seu inimigo e ele transformou o navio deles em pedra ao entrar no porto. Odisseu tava finalmente em casa depois de 20 anos e não sabia de imediato onde que ele tava. Atena o envolveu em uma névoa para que ele não fosse desconhecido. Ela o disfarça como mendigo velho e fala para ele não revelar a sua identidade, para ele avaliar a situação primeiro. Odisseu obedeceu. Ele foi primeiro até a cabana de Eumeu, o porqueiro, um escravo fiel que nunca perdeu a lealdade ao senhor desaparecido e que cuidava do rebanho de porcos enquanto os pretendentes consumiam de tudo.

Odisseu ficou com Eumeu por um tempo, ouvindo e avaliando. Telêmaco, o seu filho, retornou da sua viagem a Pilos Esparta, escapando por pouco de uma emboscada armada pelos pretendentes. Eles queriam eliminá-lo. Atena o orientou a ir primeiro à cabana de Eumeu antes de entrar no palácio. Lá, o pai e o filho se encontraram depois de 20 anos. Odisseu revelou a sua identidade para Telêmaco em um momento bem emocionante. Os dois choraram juntos e logo começaram a montar um plano para o retorno definitivo do Odisseu.

No palácio, disfarçado de mendigo, Odisseu provou tudo. Os pretendentes eram arrogantes e extremamente violentos. Eles jogavam ossos no mendigo, zombavam dele e o tratavam com um tipo de desrespeito que viola todas as regras da hospitalidade grega. Só um ser reconheceu Odisseu imediatamente: o seu velho cão Argos, que havia esperado 20 anos pelo dono. Ele levantou as orelhas ao ver o mendigo, abanou o rabo e logo em seguida morreu.

O episódio ocupa um pequeno espaço no canto, mas mexe com o coração de qualquer leitor que já teve um cachorrinho, né, Argos? Fala comigo. Brincadeira, o nome dela é Kiara. Bem, a Penélope recebe o mendigo desconhecido e conversa com ele pedindo notícias do marido. O Odisseu, que ainda tá disfarçado, vai mentir com uma história elaborada, mas ele deu a ela esperança dizendo que o Odisseu voltaria em breve. A Penélope não sabia quem tava diante dela, mas o mendigo descreveu Odisseu com tantos detalhes corretos que ela chorou.

Então Odisseu começa a colocar em prática o seu plano. Ele queria organizar um concurso. Quem conseguisse envergar o arco do Odisseu e disparar uma flecha através de 12 machados enfileirados se casaria com ela. No dia do concurso, um a um, os pretendentes tentaram envergar o arco do Odisseu e todos eles falharam. Então o mendigo pediu para tentar. Os pretendentes se opuseram, eles insultaram o mendigo e o ameaçaram. A Penélope defendeu o direito do estranho de competir e o Telêmaco, com uma autoridade recém-adquirida, mandou Penélope se retirar para os seus aposentos.

E ela foi. Ela ficou surpresa com a firmeza do O mendigo pegou o arco, o examinou com a calma de quem o conhece e conseguiu fazer o lançamento sem esforço. Em seguida, ele virou o arco para os pretendentes com o Telêmaco ao seu lado, e o Telêmaco já tava armado com uma lança e com uma espada. As portas do salão foram trancadas pelo Eumeu e por um outro servo fiel, e a matança começou. O massacre dos pretendentes é um dos episódios mais violentos da Odisseia.

Odisseu e Telêmaco O Telêmaco, com dois servos fiéis, mataram mais de 100 homens em um salão fechado. A violência é descrita com muitos detalhes. No fim, as criadas que haviam se deitado com os pretendentes foram forçadas a limpar o salão e depois foram enforcadas pelo Telêmaco. Leitores mais modernos têm um desconforto com essa parte porque se trata de uma vingança sem misericórdia. Então, finalmente, veio o reencontro mais esperado do poema.

Penélope desceu ao salão onde os corpos estavam sendo removidos e encontrou o estranho, agora não mais disfarçado. Ele tava lavado, vestido, ele tava devolvido à aparência de homem nobre. Mas a Penélope não se jogou nos braços dele, ela ficou parada em silêncio, olhando. Os servos tentavam a pressionar a falar com seu marido, mas ela falou que precisava de um sinal. Odisseu reclamou que a Penélope ainda não havia recebido e pediu que lhe preparasse um lugar para dormir.

Então a Penélope armou um teste. Ela mandou Euricléia retirar do quarto o leito construído Odisseu e prepará-lo do lado de fora. Odisseu então vai reagir com indignação porque a cama não podia ser movida. Ele havia construído o quarto ao redor de uma oliveira viva e transformado o tronco numa das colunas da cama. Ninguém sabia disso exceto os dois e uma única criada. Penélope ouviu a descrição da cama e desabou em choro. Qualquer impostor poderia alegar ser o Odisseu após 20 anos, mas só o verdadeiro Odisseu saberia desse detalhe íntimo casal.

O abraço que se seguiu foi, segundo Homero, como de um náufrago que finalmente toca a terra. O poema termina com o reencontro do Odisseu com o velho pai Laerte, e também tem uma breve ameaça de conflito com a família dos pretendentes mortos, mas isso é resolvido por uma intervenção da Atena, que manda parar a violência, e Ítaca volta à paz. 3.000 anos depois, a Odisseia continua sendo lida, estudada e adaptada. É uma história que toca em algo muito fundamental, que é a volta voltar para casa.

O Odisseu é um tipo de herói diferente do Aquiles. Ele é inteligente, ele é capaz de mentir e enganar sem culpa quando necessário, ele é capaz de chorar sem vergonha, e o mais importante, ele consegue resistir às tentações mesmo em uma condição adversa. Ele é um herói que o mundo moderno reconhece mais facilmente do que o modelo de força bruta. A lista de obras que bebem diretamente da Odisseia é interminável. Eu citei durante o episódio Virgílio e o Dante, mas temos autores modernos como a Margaret Atwood, que recontou a história Essa é uma narrativa que o mundo não consegue parar de revisitar, porque as perguntas que ela faz— o que que é casa?

O que que é identidade? O que que significa voltar ao que se era? Essas são perguntas que cada geração precisa responder de novo pra si mesma. Pessoal, eu vou recomendar 3 episódios aqui do podcast, que você pode procurar aqui no feed do História em Meia Hora, e eles vão servir de complemento pra esse episódio que você acabou de ouvir, beleza? O primeiro episódio se chama Guerra de Troia, o segundo se chama Grécia Antiga, e o terceiro se chama Homero.

E agora bora fazer um quiz. Vamos para um resumão de 1 minutinho para você relembrar o que você aprendeu hoje? Vamos lá! Quando falamos da Odisseia, estamos falando de um poema épico com quase 3.000 anos, um poema atribuído ao Homero, um poeta que provavelmente compilou e moldou o material de uma longa tradição oral. O poema narra os 10 anos em que o Odisseu levou para voltar de Troia à Ítaca, perseguido principalmente pelo ódio de Poseidon e protegido por Atena.

A narrativa começa no meio da ação, com Odisseu preso na ilha de Calígula, Também tem Telêmaco, que ele tá crescendo sem pai num palácio tomado por pretendentes. E também tem a esposa do Odisseu, a Penélope, resistindo com sabedoria. As aventuras do Odisseu envolvem criaturas como ciclopes, feiticeiras, sereias, silas, caríbdes e muitos outros. Essas aventuras foram contadas por flashbacks, quando ele as narra para os feáceos.

De volta à Ítaca e disfarçado de mendigo, o Odisseu se reencontra com o filho. Ele observa os inimigos e cria um plano para derrotar os pretendentes ao seu trono. O reencontro com Penélope é marcado por um último teste que apenas o verdadeiro Odisseu consegue desvendar. E finalmente ele consegue abraçar e ser abraçado pela sua esposa. 3000 anos depois, a Odisseia ainda é lida e adaptada em diferentes mídias, como videogames e principalmente o cinema.

Que inclusive no ano que eu tô lançando esse episódio, 2026, tem uma nova versão do Christopher Nolan. Uma versão que tá sendo muito criticada por uma galera porque a Helena, a personagem personagem, ela tá sendo interpretada por uma atriz negra. Isso não respeitaria a etnia original do poema homérico. Só que o que é curioso é que nenhum ator ou atriz da Odisseia do Nolan tem a etnia respeitada do poema homérico. Não tem nenhum grego.

Por que será que é só Helena que tá incomodando essa galera? Mas isso já é um papo para uma outra meia hora.

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