O que é História?
A história da História (pois é) nos ensina muito mais do que simplesmente História! A forma de enxergar e analisar o passado mudou muito e muita gente não sabe como funciona até hoje. Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre o que é História.
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Apresentação: Prof. Vítor Soares.
Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)
REFERÊNCIAS USADAS:
- BLOCH, Marc. Apologia da História, ou, O ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
- BLOCH, Marc. Os reis taumaturgos: o caráter sobrenatural do poder régio. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
- BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Filipe II. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
- BURKE, Peter. A Escola dos Annales: 1929–1989. São Paulo: Unesp, 1997.
- FEBVRE, Lucien. O problema da incredulidade no século XVI: a religião de Rabelais. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
- LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Unicamp, 1990.
- LE GOFF, Jacques (org.). A História Nova. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
- VENANCIO, Renato Franco; XAVIER, Regina da Luz Moreira. História: a disciplina e seus métodos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.
- DOSSE, François. A História em Migalhas: dos Annales à Nova História. Tradução de Dulce A. Silva Ramos. São Paulo: Ensaio; Campinas: Editora da Unicamp, 1992.
- O que é História?Definição e evolução do conceito de história · Heródoto de Halicarnasso · Tucídides
- Método historiográfico com fontes primáriasTipos de fontes históricas · Crítica externa e interna · Marc Bloch e a interrogação das fontes
- Alimentacao EscolarFundadores da Enter · Filosofia do Tempo Histórico · História das mentalidades e microhistória
- Historiografia Moderna e ContemporâneaLeopold von Ranke e o historicismo · Positivismo · Materialismo histórico de Marx e Engels · Historicismo de Dilthey e Droysen
- Representação política históricaHistória oficial e narrativas de poder · História dos vencidos e marginalizados · Negacionismo histórico · Políticas de memória
- Transição da Era Medieval para a Era ModernaConcepção providencialista · História da salvação · Santo Agostinho
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Come join us, Sam's Club. História não é simplesmente o que aconteceu. Muita gente tem um entendimento bem errado do que de fato é história. E tá tudo bem porque a resposta é realmente bem confusa e diversos historiadores dedicaram toda a sua vida, toda a sua obra para tentar responder o que é história. E o meu objetivo com esse episódio é pelo menos dar um bom panorama para você a respeito do que a gente entende por história, como ela foi interpretada ao longo do tempo e quais ferramentas podemos usar para conseguirmos entender o que de fato aconteceu no passado ou não.
Meu nome é Vitor Soares, eu sou professor de história e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora. Eu quero começar discutindo um pouco sobre a maneira como os seres humanos lidam com o passado, principalmente como que eles lidaram, como que eles registraram e como que eles interpretaram o que aconteceu. A resposta evidentemente varia muito de acordo com cada época e cada lugar. Desde os gregos da antiguidade até os debates contemporâneos, a história não foi apenas um repositório de fatos e sim um campo de interpretações, disputas e métodos.
Um dos marcos convencionais da historiografia grega e da tradição historiográfica histórica ocidental é Heródoto de Halicarnasso, que viveu entre os anos 484 antes de Cristo até 425, também antes de Cristo. Para vocês terem uma ideia de como que ele é importante, o Heródoto é conhecido simplesmente como o pai da história. Sua obra, suas histórias, têm como objetivo explicar as guerras entre gregos e persas, mas ela acabou indo muito além disso.
O seu texto apresenta uma narrativa bem rica de costumes, geografias, mitologias e relatos orais. Para Heródoto, entender o passado era preservar a memória direitos humanos e dos eventos extraordinários. Vale lembrar que entre os gregos era comum a crença de que os deuses interferiam na vida dos seres humanos. Se você estuda um pouco a mitologia grega, isso fica muito evidente. A trajetória dos mortais é sempre alterada a partir da atuação de Zeus, Poseidon e outras divindades.
O Heródoto não separava o mito, religião, tradição oral e relato factual, pelo menos não segundo os critérios da historiografia moderna. Ainda assim, ele frequentemente comparava versões, identificava informações recebidas de terceiros e manifestava dúvidas sobre aquilo que narrava. De qualquer forma, o seu trabalho incorporava elementos míticos e religiosos, demonstrando que na antiguidade a história tava profundamente conectada à cultura oral e à tradição.
Ainda assim, a sua tentativa de registrar e sistematizar acontecimentos marca um divisor de águas no modo de como que as sociedades ocidentais passaram a olhar para trás, para o passado. Algo parecido aconteceu algumas décadas mais tarde com um grego chamado Tucídides, que viveu entre os anos 460 a.C. até 400 a.C. Tucídides desenvolveu uma abordagem distinta da do Heródoto, concentrada em um conflito contemporâneo e marcada por uma crítica mais explícita dos testemunhos.
Mas é importante perceber que isso não representa uma ruptura absoluta, porque ambos recorreram à investigação, à comparação de relatos e à reflexão sobre as causas dos acontecimentos. Em sua obra História da Guerra do Peloponeso, ele declarou que o seu trabalho era fruto da observação, da experiência e da investigação racional. O Thaddeus evitava utilizar intervenção divina como explicação causal direta. E privilegiava decisões humanas, relações de poder, medo, interesse, prestígio e condições materiais.
A religião, porém, continuava presente em sua narrativa como crença e como força histórica atuante entre os gregos. Ele também introduziu uma noção de que a história poderia servir como uma lição pro futuro. Segundo ele, abre aspas: A minha obra foi escrita pra ser uma aquisição pra sempre. E não um concurso passageiro de ouvintes. Essa visão inaugurou um método mais rigoroso e empírico, se aproximando, mesmo que ainda bem distante, de um ideal de racionalidade que vai ser só retomado com força durante o Iluminismo e o Positivismo, como eu vou explicar mais para frente.
Mas é muito importante pontuar que tanto Heródoto quanto Tucídides viveram em momentos importantíssimos para a cultura grega, e isso teve impacto muito grande em suas obras e, consequentemente, na maneira que entendemos o passado. Enquanto Heródoto buscou conhecer e escrever sobre diferentes povos além dos gregos, o Tucídides escreveu sobre uma guerra do seu próprio tempo, da qual ele participou, mas ele não se limitou ao que ele presenciou.
Tucídides comparou depoimentos, reconheceu falhas de memória, reconheceu falhas de parcialidade e reconstruiu acontecimentos que não observou diretamente. É claro que do ponto de vista teórico muita coisa mudou, mas o trabalho desses dois gregos abriu caminho para várias outras interpretações sobre o que é história. Na historiografia cristã da Europa especialmente a tradição latina, interpretações providencialistas tiveram grande importância.
Muitos autores relacionavam os acontecimentos ao plano divino, embora também apresentassem explicações políticas, morais, dinásticas e materiais. A tradição cristã medieval concebia a história da salvação como um percurso entre criação, encarnação, juízo final e a consumação dos tempos. Essa temporalidade linear coexistia com calendários litúrgicos cíclicos, com cronologias dinásticas e com diferentes formas de organizar explicar o tempo histórico.
Grandes pensadores, como o próprio Santo Agostinho, viam a história como parte do plano de Deus para a humanidade. Essa concepção frequentemente atribuía à história uma função moral e religiosa, mas os autores medievais também procuravam explicar causas, responsabilidades, conflitos políticos, sucessões dinásticas, derrotas militares e transformações sociais. Os seus critérios de causalidade e até de verdade não eram idênticos aos atuais.
Monges e clérigos tiveram um papel central na preservação produção de crônicas, anais, hagiografias e histórias eclesiásticas, sobretudo porque eles dominavam a cultura escrita. Entretanto, também existiram cronistas ligados a cortes, administrações urbanas e grupos leigos. Esses autores empregavam critérios de autoridade, testemunho e autenticidade, critérios próprios do seu tempo e que não devem ser confundidos com a ausência de preocupação com a verdade.
Entre o humanismo renascentista, a Reforma Protestante, a erudição antiquária, a crítica filológica dos séculos XVI e XVII, e principalmente do Iluminismo do século 18, a escrita da história passou por transformações importantes. Lembrando que essas mudanças não formaram uma evolução simples e nem eliminaram imediatamente as interpretações religiosas. Essa tendência ganhou força no século 19 com a profissionalização da história nas universidades.
Leopold von Ranke foi uma figura central da historiografia acadêmica alemã e do historicismo, enquanto um outro movimento, o positivismo, teve mais diretamente associado autores como Augusto Comte e também a outras tentativas de aproximar mais ciências humanas das leis das ciências naturais. O Hanke defendia que o historiador deveria procurar mostrar como que as coisas efetivamente haviam sido, submetendo os documentos a uma crítica rigorosa e evitando julgar o passado apenas pelos valores do presente.
Para isso, era necessário recorrer a documentos oficiais, cartas, tratados e fontes primárias. A história, nesse sentido, era concebida como uma ciência objetiva, baseada em fatos verificáveis. Essa linha mais positivista teve uma enorme influência na formação do ensino histórico nas universidades sociedades europeias e latino-americanas. A história passou a ser ensinada como uma sucessão linear de eventos políticos, com foco em grandes personagens como reis, estadistas, batalhas e datas.
A narrativa era estruturada em torno da história política, com uma forte ênfase em nações e em instituições estatais. O Hanke defendia a crítica documental, a pesquisa em arquivos e o esforço em controlar o juízo do historiador. É claro que isso não eliminava a seleção, a interpretação e a construção narrativa, indispensáveis em suas próprias obras. Uma Uma característica dessa forma de interpretar esse estudo é que na historiografia acadêmica oitocentista, documentos escritos preservados em arquivos, especialmente os produzidos pelo Estado, receberam frequentemente prioridade sobre outros vestígios.
Isso favoreceu temas políticos e institucionais, embora não significasse que todo documento escrito fosse considerado verdadeiro e sem crítica. Mas não demorou para que a promessa de neutralidade e de objetividade fosse logo questionada. No mesmo século em que o positivismo floresceu, surgiu também uma abordagem revolucionária pra interpretação do passado. A perspectiva materialista histórica do Karl Marx e do Friedrich Engels.
Pra eles, a história era movida pelas contradições entre as classes sociais. E também pela luta em torno dos meios de produção. Uma formulação célebre aparece no Manifesto do Partido Comunista, publicado pelo Marx e Engels em 1848. Abre aspas: A história de todas as sociedades que existiram até os nossos dias tem sido a história das lutas de classes. No materialismo histórico, os indivíduos agem dentro de condições sociais e materiais que não escolheram livremente.
As estruturas limitam e condicionam a ação, mas é importante lembrar que elas não eliminam a agência, os conflitos políticos, as escolhas e as contingências. As relações de produção compõem uma estrutura econômica que condiciona as formas políticas, jurídicas e ideológicas. Essa relação, porém, não deve ser entendida como uma causalidade mecânica de mão única. Afinal, política, cultura, cultura, instituições e conflitos também exercem efeitos históricos.
A crítica marxista rompeu com o ideal positivista de neutralidade. A obra de Marx vinculou a interpretação histórica à crítica das relações sociais existentes. Posteriormente, muitas correntes da historiografia marxista entenderam a pesquisa histórica como uma forma de intervenção crítica no presente. A história passa a ser vista como um instrumento de transformação, não apenas como contemplação. Ao longo do século 20, essa abordagem foi refinada por autores como Antônio Gramsci, Cheirinho Bão, Edward Thompson e Perry Anderson, influenciando fortemente as ciências humanas e a historiografia latino-americana.
Um outro modo de pensar o passado que veio com força no século 19 foi o historicismo, que entre os principais nomes estão Wilhelm Dilthey e Johann Gustav Droysen. Essa corrente não via a história como ciência, pelo menos não nos moldes das ciências naturais, mas sim como um campo de compreensão voltado para interpretação da experiência humana no tempo. O historicismo valorizava as singularidades de cada época e a subjetividade dos atores históricos.
Contra o marxismo ou a objetividade positivista, os historicistas defendiam que o passado só poderia ser compreendido dentro do seu próprio contexto cultural. Parte da tradição historicista acredita que o historiador, por sua vez, não era um observador neutro, mas um intérprete que reconstruía os significados do passado a partir da sua posição no presente. Essa abordagem influenciou profundamente autores como Benedetto Croce e mais tarde Hans-Georg Gadamer.
Beleza, se a história não é simplesmente o passado, mas um conhecimento construído sobre ele, é fundamental a gente entender como que esse conhecimento é produzido. A matéria-prima do trabalho do historiador são as fontes históricas, e a base da sua prática tá no método de análise e interpretação dessas fontes. Uma fonte histórica é basicamente todo vestígio do passado que pode ser utilizado para construção de um conhecimento histórico.
Tradicionalmente, o ensino da história priorizou as fontes escritas, como documentos oficiais, cartas, diários, tratados, leis, jornais e outros. Isso porque Durante muito tempo, a história se concentrou em instituições políticas, guerras, tratados e governantes. Porém, ao passar do tempo, os historiadores foram ampliando o próprio conceito de fonte. Hoje em dia, é muito comum a gente dividir as fontes em algumas categorias. Primeiro, fontes orais: entrevistas, relatos de vida, depoimentos.
Segundo, as fontes visuais, como fotografias, filmes, obras de arte. Terceiro, fontes materiais: vestígios arqueológicos, edifícios, objetos cotidianos. Quarto, fontes iconográficas: ilustrações, símbolos, e meios de propaganda. E quinto, fontes digitais, como arquivos virtuais, postagens em redes sociais e bancos de dados eletrônicos. É importante lembrar que uma mesma fonte pode pertencer a mais de uma categoria. Um filme, por exemplo, ele é simultaneamente visual, sonoro, audiovisual e, dependendo do suporte, até mesmo digital.
Essa ampliação surge das transformações metodológicas do século 20, especialmente após o trabalho de uma corrente chamada Escola dos Análises, que daqui a pouco eu vou detalhar um pouco mais nesse episódio. Mas é importante lembrar que ter uma fonte não significa ter uma verdade pronta. É necessário submetê-la a uma análise rigorosa, dividida geralmente em duas etapas. A primeira etapa é a crítica externa, uma análise da autenticidade e da origem do documento.
Quem produziu? Quando? Em que contexto? É uma fonte original ou é uma cópia? Já a segunda etapa é a crítica interna, quando você interpreta o conteúdo do documento. O que que tá sendo dito? Qual é a intenção do autor? Tem omissão ou contradição? Como argumenta o Marc Bloch em Apologia da História, os vestígios não fornecem respostas automaticamente, é preciso saber interrogá-los a partir de perguntas históricas. O Bloch defendia que a dúvida, quando conduzida racionalmente, deixa de ser uma atitude puramente negativa e se transforma em instrumento de conhecimento.
Ou seja, a gente não deve aceitar as fontes de forma ingênua, mas examiná-las como produto do seu tempo, marcadas por interesse, visões de mundo e filtros ideológicos. Como eu disse, esse tipo de interpretação foi ampliado a partir da Escola dos Análises, uma das correntes mais importantes do século 20. Nas primeiras décadas desse século, uma nova geração de historiadores passou a questionar os limites da historiografia tradicional, centrada nos fatos políticos, nas grandes personalidades e em cronologias rígidas.
Eles queriam uma história mais aberta ao diálogo com outras ciências, menos preocupada com batalhas, com tratados e mais voltada para a compreensão das sociedades em sua totalidade. Vai ser desse desejo que nasceu uma das correntes mais influentes da historiografia moderna, a Escola dos Análises. Entre os seus principais fundadores está o francês Marc Bloch, e a sua vida e a sua obra simbolizam esse movimento de renovação. Marc Bloch nasceu em 1886 em Lyon.
Ele veio de uma família judia com tradição intelectual. O seu pai era professor de história antiga, o que claramente influenciou na sua formação desde pequeno. Ele estudou na Escola Normal Superior em Paris e teve a sua trajetória marcada pela Primeira Guerra Mundial, onde serviu como oficial do Exército francês. Essa experiência não apenas marcou a sua visão de mundo, mas também reforçou o seu senso de compromisso com a sociedade e com o papel público da história.
O Bloch acreditava que o que o historiador não deveria se enclausurar em bibliotecas e sim participar ativamente da vida do seu tempo. Em 1929, ao lado de Lucien Febvre, ele fundou uma revista e vai ser ela que vai dar o nome à escola historiográfica que vai transformar profundamente a disciplina. Dentre outras críticas, os dois compartilhavam a mesma insatisfação com a história positivista e política que era dominante nas universidades francesas da época.
Para eles era necessário alargar o objeto da história, era necessário integrar outras ciências humanas como sociologia, história, economia, até psicologia. Era necessário construir uma abordagem mais ampla, uma abordagem que compreendesse não apenas os eventos, mas também as estruturas sociais e mentais que os sustentavam. Uma das principais contribuições do Marc Bloch foi justamente essa defesa de uma história interdisciplinar.
Em sua obra Os Reis Taumaturgos, publicada em 1924, por exemplo, ele investigou a crença popular de que os reis franceses e ingleses tinham poderes de cura, unindo análise documental, antropologia e psicologia social. Mais do que simplesmente descrever o costume, o Bloch buscava entender as mentalidades coletivas, os sistemas de crença e os mecanismos simbólicos que estruturavam a sociedade medieval. Pessoal, uma pausa aqui rapidinho para convidar vocês a conhecerem o curso do professor Icles Rodrigues, o meu grande amigo.
O curso se chama O Ofício do Historiador para Marc Bloch e é um resumo completo do livro Apologia da História ou O Ofício do Historiador. E sendo bem honesto, uma leitura obrigatória para todo estudante de história ou futuro historiador. O curso, ele simplifica a linguagem do livro e explica de forma bem didática, e às vezes com exemplos mais atuais que não estão no livro. A ideia do curso é explicar todos os pontos do livro de uma forma mais contemporânea.
Ele acaba sendo um complemento ideal para quem leu e ficou com dúvida, ou até uma forma mais rápida de você relembrar o conteúdo do livro, principalmente para quem já leu há muito tempo e não tem muito tempo disponível para ler tudo de novo. Ah, mas é importante falar que o curso também funciona para quem nunca leu livro. Você vai entender todos os pontos, ainda que a leitura seja recomendada no final do curso. O valor é apenas R$29,90 e o acesso é vitalício enquanto durar a plataforma.
Então é isso, conheça o trabalho do meu amigo Icles Rodrigues, que apresenta o História FM, que inclusive já participei de vários episódios, e o link pro curso tá aqui na descrição do episódio.
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Abre aspas: o bom historiador se parece com o ogro da lenda, onde fareja a carne humana, sabe que ali tá a sua caça. Fecha aspas. Com essa metáfora, o Marc Bloch defendia que o verdadeiro objeto da história são os seres humanos em sua diversidade e em sua relação com o tempo. O Marc Bloch também foi um teórico da prática histórica. Em seu livro Apologia da História, ou O Ofício do Historiador, publicado após a sua morte em 1949, ele apresentou uma profunda reflexão sobre o trabalho trabalho do historiador.
Ali o Bloch afirma que o historiador deve interrogar o passado com perguntas claras e que uma das suas principais virtudes é a curiosidade, e que o método histórico se baseia na crítica das fontes, no rigor da análise e na consistência da subjetividade. Ele também critica a ideia de que a história deva se limitar ao estudo do político e defende a centralidade dos homens no tempo, isto é, das experiências humanas consideradas em sua diversidade e duração.
Com a ascensão do nazismo e a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o Bloch servir o exército francês. Após a ocupação da França pelos alemães, ele entrou para a resistência. Em 1944, entretanto, ele foi capturado pela Gestapo. Ele foi torturado e fuzilado um pouco antes de completar 58 anos. Porém, a sua morte trágica não apagou o seu legado. Pelo contrário, reforçou ainda mais a sua figura como símbolo do compromisso ético e intelectual do historiador.
Enquanto isso, Lucien Febvre e posteriormente Fernand Braudel dariam continuidade ao projeto dos Annales. No livro O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Filipe II, publicado em 1949, o Braudel propôs uma nova concepção do tempo histórico, fazendo uma divisão em 3 níveis: o tempo curto dos acontecimentos, o tempo médio das conjunturas econômicas e o tempo longo das estruturas geográficas e culturais. Essa visão ampliou radicalmente o objeto de estudo da historiografia, permitindo estudar processos de longa duração e temas que antes eram ignorados pelos historiadores tradicionais.
Com Braudel, a escola dos análises consolidou como uma referência internacional. Nas décadas seguintes, novos campos de pesquisa foram impulsionados por essa abordagem, como por exemplo a história das mentalidades, que busca entender como que as pessoas pensavam, sentiam e se comportavam em diferentes épocas. Tem também a microhistória, que foca em pequenos grupos ou indivíduos para compreender lógicas sociais mais amplas. Tem também a história da vida privada, que coloca em evidência alguns aspectos cotidianos e íntimos da experiência humana.
O outro ponto importante da escola dos Annales foi a valorização das estruturas sociais e econômicas na análise histórica. Em vez de apenas narrar os eventos, os historiadores passaram a investigar os padrões de longa duração, como organização agrária, as redes de comércio, as práticas religiosas, as rotinas de trabalho e os hábitos alimentares. Isso permitiu uma visão mais completa das sociedades, considerando não apenas os grandes feitos, mas também o cotidiano, os anônimos, as margens.
Além disso, os Annales uma nova forma de escrita da história. Eles evitavam a narrativa linear, dramática e teleológica típica da historiografia tradicional. Eles preferiram uma análise mais densa, mais argumentativa e apoiada, claro, em dados. A escrita perdia parte do peso literário e passava a dialogar com gráficos, mapas, estatísticas e registros culturais. O objetivo era tornar a história mais próxima das outras ciências, sem abrir mão do seu rigor interpretativo.
Apesar do sucesso, a Escola dos Análises também recebeu críticas. Alguns historiadores argumentaram que o foco excessivo em estruturas econômicas e sociais deixava de lado os conflitos políticos, as rupturas, os sujeitos históricos. Outros criticaram a suposta impessoalidade da abordagem, que diminuiria o papel da ação individual. Nas últimas décadas, houve uma reaproximação entre os métodos dos análises e os temas tradicionais, como a política, mas com novos focos, como a história cultural do poder ou a análise simbólica das instituições.
Hoje, o legado dos análises permanece vivo em boa parte da historiografia contemporânea. Muitos dos temas e dos métodos propostos pelo Bloch, pelo Febvre e pelo Brodel se tornaram parte do repertório básico da formação de historiadores. A ideia de que a história deve dialogar com outras disciplinas, que deve olhar para o cotidiano, que deve questionar o óbvio e que deve dar voz aos silenciados é hoje um princípio largamente compartilhado, inclusive fora da academia.
No Brasil, a influência francesa e o contato com historiadores associados aos Annales remontam pelo menos à fundação da Universidade de São Paulo na década de 30, quando Fernand Braudel integrou a Missão Francesa. Essa influência se ampliou e se diversificou, especialmente a partir das décadas de 60 e 70, principalmente nas áreas de história econômica, social e cultural. Historiadores brasileiros como Lauro de Melo e Souza, João Fragoso, Ronaldo Wainfas e outros dialogam com os Annales em maior ou menor grau.
Também houve uma adaptação do modelo francês ao contexto latino-americano, com foco em temas como escravidão, colonização, religiosidade popular e existência cultural. Uma prova do legado desse tipo de análise histórica é entender que ela é profundamente prática, mas sem deixar a sua parte teórica de lado. Por exemplo, existem algumas etapas que podem ser seguidas dentro desse método de trabalho. A primeira etapa é da formulação de um problema histórico.
Toda pesquisa parte de uma pergunta ou de uma inquietação. Em seguida, a gente pode partir para o levantamento e para seleção de fontes. O historiador busca documentos pertinentes à sua investigação. A terceira etapa é a contextualização, que é a dimensão do tempo e do espaço a que se referem as fontes. Em seguida, a gente pode partir para as análises e para as interpretações, com uma leitura crítica das fontes e com cruzamento de informações.
E finalmente, a gente pode construir a narrativa histórica apresentando os resultados da investigação em forma de texto. Já no seu espaço mais teórico, a história sempre girou em torno de um dilema, que é o status de verdade da pesquisa histórica. O historiador não tem acesso direto e integral ao passado. Ele constrói conhecimentos e interpretações sobre o passado a partir dos vestígios disponíveis. Isso significa que todo conhecimento histórico é, em certa medida, uma interpretação influenciada pelo contexto do historiador, pelos métodos utilizados e pelas perguntas formuladas.
Alguns historiadores, como Hayden White, argumentou que a escrita histórica possui uma dimensão narrativa e retórica. Os historiadores selecionam, organizam e configuram acontecimentos em formas de enredo. Mas não me entenda mal, isso não significa por si só que história e ficção sejam equivalentes ou que as evidências não imponham limites. Michel de Certeau destacou que a operação historiográfica articula um lugar social, práticas de pesquisa e uma escrita.
Roger Chartier, por sua vez, insistiu que a dimensão narrativa da história não elimina a sua pretensão de produzir representações controladas e fundamentadas do passado. A história é de fato interpretativa, mas o historiador não possui licença para fabricar documentos. Ele não inventa acontecimentos ou evidências. Suas hipóteses e as suas narrativas devem permanecer submetidas às fontes, à crítica, à argumentação e ao debate público entre especialistas.
Ela se ancora em evidências, confronta argumentos e busca consistência interna. Como afirma Jorni Hilsen, um dos principais teóricos da historiografia contemporânea, a consciência histórica produz sentidos para experiência temporal e oferece oferece formas de orientação para a vida prática. Jacques Legoff destacou que as relações entre passado, memória e presente são historicamente construídas e frequentemente atravessadas por interesses sociais e políticos.
De fato, a história nunca é neutra, ela é sempre escrita a partir do presente, com seus dilemas, disputas e interesses. Por isso que entender a prática do historiador também implica em refletir sobre os usos públicos da história, o papel da memória e o combate de reacionismo. A história não é apenas uma disciplina acadêmica interessada em reconstruir o passado, ela é também um campo de disputas de memória, de narrativas e de identidades.
Ao longo do tempo, o conhecimento histórico foi utilizado para consolidar regimes, legitimar poderes, apagar memórias, e também como instrumento de resistência. Por isso que é impossível que a gente compreenda a história sem reconhecer a sua dimensão política. Desde o século 19, com a formação dos estados-nação na Europa, o ensino da história passou a ocupar um papel central para a construção das identidades nacionais. Escolas, livros didáticos e monumentos passaram a celebrar heróis nacionais, datas fundadoras e grandes eventos glorificados.
A história acabou se tornando uma ferramenta para criar um sentimento de pertencimento e de unidade, muitas vezes ao custo da exclusão de vozes contrárias ou marginalizadas. No Brasil, por exemplo, o ensino da história durante o Império e mais tarde na Primeira República foi moldado para exaltar figuras como Pedro Álvares Cabral, como Dom Pedro I e os militares da Proclamação da República, enquanto silenciava a participação de indígenas, mulheres, africanos escravizados e de camponeses.
Essa forma de contar a história, centrada no poder, é chamada informalmente de história oficial. Ela busca apresentar o passado como uma linha contínua, sem rupturas, promovendo uma visão idealizada do progresso e da ordem. Mas essa definitivamente não é a única maneira de narrar o passado. A partir da segunda metade do século 20, especialmente com os avanços das movimentos sociais e das correntes historiográficas críticas, começaram a ganhar força formas diferentes de fazer história, mais voltadas para os de baixo, para os marginalizados, para quem foi vencido.
Surgiu então uma historiografia preocupada em reconstituir o papel de sujeitos historicamente invisibilizados, como mulheres, trabalhadores, negros, indígenas e populações periféricas. Esse movimento não apenas ampliou o campo de pesquisa da história, como também desafiou os consensos construídos pela história oficial. É claro que essa nova não foi recebida sem resistência. E o motivo é simples: o controle sobre a narrativa do passado é também uma forma de poder.
A partir das reflexões do Michel Foucault, podemos analisar como que os saberes, as instituições, os discursos e as relações de poder participam da produção de regimes de verdade e de formas de controle social. Por isso que a disputa pela história é também uma disputa pelo presente e, por que não, pelo futuro. Um exemplo exemplo emblemático desse embate ocorre no debate sobre os monumentos públicos ao redor do mundo, especialmente após os movimentos como Black Lives Matter.
Muitos monumentos erguidos em homenagem a figuras ligadas ao colonialismo, escravidão ou repressão em geral passaram a ser questionados. As estátuas deixaram de ser vistas como símbolos neutros do passado e começaram a ser identificadas como instrumentos de poder que perpetuam narrativas opressoras. Essas disputas mostram para gente como que a interpreta viva, sendo constantemente reinterpretada, questionada e algumas vezes reescrita.
Além disso, recentemente observamos o crescimento de discursos negacionistas, distorções deliberadas do passado, principalmente em redes sociais. Mas é importante distinguir esse fenômeno do revisionismo histórico legítimo, pelo qual interpretações anteriores são revistas diante de novas fontes, perguntas ou argumentos. O negacionismo não apenas reinterpreta um evento histórico, mas frequentemente nega evidência consolidada. Muitas vezes tira a legitimidade de pesquisas científicas e espalha desinformação.
O negacionismo histórico, como no caso do Holocausto ou da ditadura militar no Brasil, não busca ampliar a compreensão do passado, mas sim manipulá-lo para fins políticos, ideológicos, identitários ou propagandísticos. Esse fenômeno reacende um antigo debate sobre o papel do historiador na sociedade. Será que o historiador é um mero relator dos acontecimentos ou alguém que deve se posicionar politicamente diante do uso indevido do passado.
Autores como Yorni Hilson e o Carlo Ginsburg destacam, por caminhos diferentes, a responsabilidade pública do conhecimento histórico, a importância das evidências e os limites impostos pela crítica documental. Não se trata de fazer militância, mas de defender o compromisso com a verdade, com a complexidade e com a pluralidade das experiências humanas. Esse papel ganha ainda mais relevância em sociedades marcadas por traumas coletivos, como guerras, ditaduras ou genocídios.
Nesse tipo de situação, a pesquisa histórica e as políticas de memória podem contribuir para esclarecer acontecimentos, reconhecer vítimas, documentar crimes e sustentar processos de justiça e reparação. Mas elas não garantem por si mesmas reconciliação social. É nesse contexto que surgem políticas de memória, comissões da verdade e o trabalho de preservação de testemunhos, como no caso da Comissão Nacional da Verdade no Brasil ou dos arquivos sobre apartheid na África do Sul.
Um outro aspecto importante dessa dimensão política da história é o seu uso no dia a dia das lutas sociais. Grupos feministas, indígenas, negros e LGBTQIA+ frequentemente recorrem à história para reconstruir as suas trajetórias, para afirmar identidades e para contestar as narrativas dominantes. A história, nesse sentido, torna-se um instrumento de empoderamento coletivo e de transformação social. Por isso que é sempre necessário correto é afirmar que a história é sempre política.
Não significa que ela seja partidária, mas que tá inserida em contextos sociais, culturais e ideológicos. O historiador, por mais rigoroso que seja, não escreve de um lugar neutro. Ele escreve a partir da sua formação, do seu tempo e de suas perguntas. Isso não invalida a sua pesquisa, só exige consciência metodológica e responsabilidade pública. Como diria o próprio Marc Bloch, abre aspas: a incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado.
Fecha aspas. E é justamente por isso que o domínio da história é tão disputado, porque ele nos permite compreender melhor quem somos, de onde viemos e quais caminhos podemos seguir. Pessoal, eu vou recomendar 3 episódios aqui do podcast que você pode procurar aqui no feed do História em Meia Hora, e eles vão servir de complemento para esse episódio que você acabou de ouvir, beleza? O primeiro episódio se chama Grécia Antiga, o segundo se chama Marxismo, e o terceiro se chama Segunda Guerra Mundial.
E agora bora fazer aquele resumão de um minutinho para você relembrar o que você aprendeu hoje. Vamos lá! Quando falamos em história, estamos falando de uma disciplina que investiga as experiências humanas no tempo por meio de perguntas, métodos e da análise crítica de vestígios. Muitos historiadores a definem como uma ciência humana, mas o seu estatuto epistemológico não é idêntico ao das ciências naturais. Mais do que uma simples cronologia de a história busca compreender os processos sociais, políticos, econômicos e culturais que moldaram as sociedades ao longo do tempo.
O seu objetivo não é apenas registrar acontecimentos, mas interpretá-los, considerando os contextos em que ocorreram, os interesses envolvidos e os diferentes pontos de vista. Ao longo dos séculos, diversas formas de interpretar a história ganharam força, expondo diferentes metodologias e focos de análise. A história é dinâmica e plural, permitindo diferentes leituras sobre os mesmos eventos, mas essas interpretações não são igualmente válidas.
Elas precisam ser compatíveis com as evidências, com os métodos empregados e com o debate historiográfico. Além de nos ajudar a entender o passado, a história é fundamental para refletirmos sobre o presente e sobre o futuro. Ela contribui para a formação da memória coletiva, da identidade cultural e da consciência crítica. Nesse sentido, estudar história é também um exercício de E por isso regimes autoritários frequentemente procuram controlar currículos, perseguir professor, perseguir pesquisador, procurar censurar interpretações e impor narrativas oficiais, como ocorreu tanto na Alemanha nazista quanto na ditadura militar brasileira. Mas isso já é um papo para uma outra meia hora.
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