História da Venezuela
Um país construído na base de golpes, conflitos, petróleo e tanto em apoio aos EUA quanto em completo repúdio a eles. Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre a História da Venezuela.
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Apresentação: Prof. Vítor Soares.
Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)
REFERÊNCIAS USADAS:
REFERÊNCIAS USADAS
- CARRERA DAMAS, Germán. El culto a Bolívar: esbozo para un estudio de la historia de las ideas en Venezuela. Caracas: Universidad Central de Venezuela, 2006.
- CORONIL, Fernando. El Estado mágico: naturaleza, dinero y modernidad en Venezuela. Caracas: Editorial Nueva Sociedad, 2002.
- LÓPEZ MAYA, Margarita. Del viernes negro al referendo revocatorio. Caracas: Alfadil Ediciones, 2005.
- COELHO, André; ROSA, Beatriz; MENDES, Edson. “Maduro, Chavismo e Bolivarianismo: continuidade ou ruptura?”. Revista Desigualdade e Diversidade; n 21. 2021
- Crise econômica e hiperinflação sob MaduroInflação descontrolada · Escassez de produtos básicos · Crise de serviços públicos · Migração em massa · Desestruturação do país
- Crise Política na VenezuelaProtestos e saques em Caracas · Aumento nos preços dos transportes · Repressão estatal brutal · Morte de milhares · Colapso da legitimidade política · Crise de confiança nas instituições
- Política EconômicaDescoberta de reservas petrolíferas por volta de 1914 · Empresas estrangeiras · Abandono da economia agrária · Construção de refinarias e oleodutos · Urbanização acelerada · Juan Vicente Gómez
- Guerra de independência e Simón BolívarJunta de Governo de 1810 · Primeira República Venezuelana · Revoltas internas · Liderança de Bolívar · Educação europeia e ideais republicanos · Campanhas militares · Gran Colombia
- Caudilhismo e instabilidade do século XIXLíderes militares regionais · Disputas por poder · Golpes e revoltas · Guerras civis · Fragilidade do estado · Guerra Federal 1859-1863
- Tentativa de golpe de Hugo Chávez em 1992Chávez como jovem oficial do exército · Golpe fracassado · Aparição na televisão · Símbolo de resistência · Legitimidade política
- Crise de dois presidentes em 2019Juan Guaidó se auto-proclama presidente · Reconhecimento dos EUA · Apoio de países ocidentais · Disputa de legitimidade · Maduro mantém controle do estado
- Sancoes Economicas IraSanções dos EUA · Congelamento de ativos · Restrições ao setor energético · Aprofundamento da crise · Narrativa de agressão externa
- Transicao Administrativa GovernamentalQueda de Marcos Pérez Jiménez · Pacto de Punto Fijo · Estabilidade democrática relativa · Sistema de dois partidos · Ação Democrática e Copei · Oligarquia política
- Atuação de Lucia na políticaAproximação com Cuba · Aliança com governos de esquerda · Denúncia do imperialismo americano · Política externa agressiva · Influência na América Latina
- Racismo EstruturalTráfico de escravizados · Trabalho nas plantações · Cacau como produto principal · Mistura racial e mestizagem · Hierarquia social · Resistência e fugas
- Crise de Combustíveis BrasilEconomia baseada em petróleo · Importação de produtos · Queda dos preços internacionais · Colapso econômico · Falta de diversificação
- Crise InstitucionalRiqueza abundante · Instituições fracas · Estado centralizado · Dependência de flutuações internacionais · Vulnerabilidade econômica
- Colonialismo e ImperialismoChegada de Colombo · Origem do nome Venezuela · Fundação de povoados · Violência contra indígenas · Doenças europeias · Sistema de encomienda
- IndependenciaBatalha de Carabubo 1821 · Gran Colombia · Separação em 1830 · Morte de Bolívar · Legado de Bolívar
Sabe aquele vizinho que sempre se mete em confusão? Que a polícia bate na casa dele porque o dono da casa está sempre aprontando? Então, o Brasil tem um vizinho igual a esse. Eu estou falando da Venezuela, um país que a gente vai estudar um pouquinho mais no episódio de hoje. Meu nome é Vitor Soares, sou professor de História e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora. Muito antes da Venezuela existir como um país, o território já era habitado por diversos povos nativos. Quando os europeus chegaram ao norte da América do Sul, no final do século XV,
encontraram uma região cheia de diversidade humana. Ali viviam povos como os Aruaques, os Caribes e os Timotokuicas. Eles estavam espalhados por áreas de floresta, montanha, litoral e planícies. Os Aruaques estavam presentes principalmente em áreas costeiras e nas ilhas do Caribe. Eles eram agricultores, pescadores e comerciantes, que mantinham redes de troca com outros povos da região. Já os Caribes eram conhecidos pela sua mobilidade e por conflitos frequentes com grupos vizinhos.
facilidade pelo Caribe, atacavam e também eram atacados. Por isso, quando os espanhóis começaram a ocupar a região, muitos desses confrontos aconteceram principalmente com esses povos. Nos Andes venezuelanos, viviam os Timotocuicas, um grupo que tinha formas de organização mais complexas. Eles construíam terraços agrícolas, sistema de irrigação e aldeias fixas. Cultivavam milho, batata, feijão e outros alimentos, o que permitia uma vida relativamente estável em regiões montanhosas.
Essa diversidade mostra que a Venezuela pré-colonial não era um espaço vazio esperando por europeus. Na verdade, era um território vivo, ocupado e com histórias próprias. A chegada dos espanhóis mudou tudo de forma bem radical. Em 1498, durante a sua terceira viagem, Cristóvão Colombo navegou pela costa do que hoje é a Venezuela. Poucos anos depois, outros exploradores seguiram aquele caminho, atraídos por relatos de riqueza, pérolas e ouro.
significa pequena Veneza e teria surgido quando alguns espanhóis compararam algumas casas indígenas construídas sobre estacas à cidade italiana. Mas por trás desse nome estava o início de um processo de conquista bem violento. Os espanhóis começaram a fundar povoados e a impor o sistema colonial. Como não encontraram grandes impérios organizados, como os aztecas e os incas, a conquista da Venezuela foi feita em etapas, com confrontos constantes contra povos indígenas.
fugiram para áreas mais afastadas ou foram simplesmente exterminados. Doenças trazidas da Europa, como a varíola e o sarampo, também dizimaram populações inteiras. Com o tempo, os colonizadores implantaram a lógica do Império Espanhol, ou seja, a terra era distribuída aos colonos, os indígenas eram obrigados a trabalhar, e quando essa mão de obra começou a faltar, africanos escravizados passaram a ser trazidos em grande escala.
de três grandes grupos, europeus, indígenas e africanos. E essa foi uma relação marcada pela desigualdade e também pela violência. A economia colonial venezuelana se estruturou em torno da exportação, principalmente do cacau. O produto era muito valorizado lá na Europa e transformou regiões da Venezuela em grandes áreas de plantação. Para trabalhar nessas fazendas, milhares de africanos foram escravizados e trazidos para a região.
deixou marcas profundas na cultura e na sociedade venezuelana. Ao mesmo tempo, se formou uma elite local de grandes proprietários, descendentes de espanhóis, conhecidos como mantuanos. Eles controlavam as terras, as pessoas escravizadas, o comércio e, com o tempo, a política local. Já a maior parte da população era composta por escravizados, indígenas submetidos e mestiços pobres, sem direitos e com pouca possibilidade de ascensão social.
profundamente desigual, em que a origem, a cor da pele e a riqueza determinavam o lugar de cada um. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, a Venezuela deixou de ser apenas uma fronteira distante do Império Espanhol e passou para um lugar mais definido dentro da economia atlântica. A produção de cacau e depois de café fez da região uma área de interesse comercial. Navios saíam dos portos venezuelanos carregados de produtos tropicais e voltavam da Europa trazendo mercadorias,
luxo e novas ideias. Nesse processo, cidades como Caracas, Maracaíbo e Valência se tornaram centros políticos e econômicos. Caracas virou o coração administrativo da colônia. Ali viviam os mantuanos, a elite branca descendente de espanhóis. Eram donos de terras, de pessoas escravizadas e tinham muitas conexões comerciais. Eles controlavam os cargos públicos, a igreja, o comércio e a vida política local. Essa elite colonial tinha uma relação complexa com a própria Espanha. Por um lado,
dependiam do império para garantir os seus privilégios. Por outro, se ressentia das restrições impostas pela metrópole, como impostos altos, monopólios comerciais e limitações à autonomia local. Esse ressentimento só cresceria com o tempo e seriam dos combustíveis da independência. Abaixo dessa elite estava a maior parte da população, africanos e indígenas escravizados e mestiços livres mais pobres.
quase nenhum poder político. A desigualdade social da Venezuela colonial era profunda e as tensões entre esses grupos eram constantes. A escravidão africana marcou a cultura e a demografia do país. Milhares de homens e mulheres foram trazidos à força da África para trabalhar nas plantações e nos portos. Eles criaram comunidades, resistiram, fugiram e, em muitos casos, se misturaram com indígenas e europeus, formando uma sociedade mestiça mais hierarquizada.
Ao mesmo tempo, ideias vindas da Europa começaram a circular entre os mantuanos. O Iluminismo, a Revolução Francesa e a independência dos Estados Unidos mostravam que era possível questionar reis, impérios e ordens estabelecidas. Aos poucos, uma parte da elite venezuelana passou a ver a Espanha não como protetora, mas como obstáculo aos seus próprios interesses. Assim, quando o Império Espanhol entrou em crise no início do século XIX, a Venezuela já estava pronta para mudar.
O colonial tinha criado riqueza, desigualdade e elites ambiciosas. Bastava um empurrão para que tudo isso se transformasse em um movimento de ruptura. No início do século XIX, o mundo atlântico estava em forte tensão. Esses grandes eventos que eu citei na Europa e a independência dos Estados Unidos haviam abalado a ordem política. A Espanha, que estava enfraquecida pela invasão do Napoleão, perdeu o controle efetivo de muitas de suas colônias. Foi nesse cenário que a Venezuela entrou em sua fase mais dramática.
pela independência. Em 1810, a elite de Caracas aproveitou esse vácuo de poder na Espanha para criar uma junta de governo local. Pouco depois, em 1811, a Venezuela declarou oficialmente a sua independência, se tornando uma das primeiras colônias espanholas da América do Sul a dar esse passo. Nascia, então, a Primeira República Venezuelana, mas ela não duraria muito tempo. A Nova República enfrentou revoltas internas, falta de apoio popular e ataques das tropas realistas
Espanha. É nesse contexto que surge a figura de Simón Bolívar. Filho de uma família rica de Caracas, Bolívar havia sido educado na Europa e absorvido ideias iluministas e republicanas. Ele acreditava que a América Latina deveria se libertar da dominação espanhola e construir estados independentes. Para Bolívar, a independência não era apenas política, mas também uma forma de romper com a hierarquia colonial que favorecia a Espanha e a elite tradicional. A guerra de
violenta. Patriotas e realistas travaram batalhas sangrentas e devastaram cidades e campos. Em vários momentos, o Bolívar foi derrotado e obrigado a fugir, mas ele sempre retornava. Aos poucos, ele conseguiu apoio em outras regiões da América do Sul e construiu um exército ainda mais forte. O grande sonho de Bolívar era criar uma grande nação, a Gran Colômbia, que uniria Venezuela, Colômbia, Equador e Panamá. Para ele, somente um Estado grande e unido
e até mesmo aos Estados Unidos. Em 1819, após uma campanha militar impressionante, Bolívar derrotou os espanhóis em várias frentes e consolidou a independência de grande parte do norte da América do Sul. Em 1821, a independência da Venezuela foi praticamente garantida com a vitória na Batalha de Carabobo. Poucos anos depois, a Grã-Colômbia foi oficialmente criada. Pela primeira vez, a Venezuela fazia parte de um projeto político continental. Mas o sonho do Bolívar não durou muito tempo.
A Grã-Colômbia era grande demais, diversa demais e politicamente bem frágil. Líderes regionais chamados de caudilhos passaram a disputar o poder. Em 1830, a Venezuela se separou e se tornou um país independente. Simão Bolívar morreu no mesmo ano, completamente amargo, dizendo que havia arado o mar. A independência trouxe liberdade formal, mas não resolveu os problemas estruturais do país. A escravidão continuou por décadas, a desigualdade permaneceu
por líderes militares regionais. Ainda assim, Bolívar se tornou o grande símbolo da nação venezuelana. Seu nome, sua imagem, as suas ideias seriam usados mais de um século depois por Hugo Chávez para construir a Revolução Bolivariana. Inclusive, no episódio exclusivo dessa semana, para os apoiadores do História Meia Hora, eu vou falar sobre os usos políticos da imagem do Simão Bolívar. Se você quiser ouvir esse e os outros mais de 200 episódios exclusivos que já tem por lá, é só assinar o apoia.se
Quando a Venezuela se separou da Grã-Colômbia, em 1830, ela se tornou oficialmente uma república independente. Na prática, o país herdou quase todos os problemas do período colonial e também da Guerra de Independência. O novo Estado era frágil, a economia estava destruída e a sociedade estava bem dividida. Em vez de estabilidade, o século XIX venezuelano seria marcado por uma sequência de conflitos internos. O poder passou a ser disputado por caudilhos, aqueles líderes militares regionais.
Eles controlavam territórios, tropas e redes de apoio pessoal. Esses caudilhos não representavam partidos ou até projetos nacionais bem claros. Eles representavam, acima de tudo, os seus próprios interesses e os interesses dos seus seguidores. A política venezuelana se tornou uma sucessão de golpes, revoltas e guerras civis. É exatamente o que defende o historiador venezuelano Germán Carreira Damas. A independência da Venezuela não significou de imediato a libertação das suas maiorias sociais.
mas sim a substituição de uma elite dominante por outra. Fecha aspas. A mais destrutiva dessas guerras foi a chamada Guerra Federal, entre 1859 a 1863. Esse conflito colocou de um lado os liberais, que defendiam maior autonomia regional e reformas sociais, e do outro lado conservadores, que queriam manter a velha ordem centralizada e elitista. A guerra devastou o país, matou dezenas de milhares de pessoas
Enquanto isso, a economia continuava baseada na exportação agrícola, principalmente de café e cacau. Grandes fazendeiros controlavam a vida econômica, enquanto camponeses e trabalhadores viviam em condições precárias. O Estado tinha pouca capacidade de arrecadar impostos ou oferecer serviços. A Venezuela era formalmente uma república, mas funcionava como uma colcha de retalhos de poderes locais. Essa instabilidade política criou uma cultura de liderança forte,
e também de desconfiança nas instituições. A ideia de que apenas um homem forte poderia trazer ordem ao país se tornou cada vez mais comum. No final do século XIX, a Venezuela começou a se estabilizar sob governos mais centralizadores, governos que buscavam controlar os caudilhos regionais. Mas essa estabilidade ainda era frágil e dependia muito mais da força do governo do que das instituições democráticas sólidas. Esse século XIX turbulento deixou uma herança pesada, com um Estado fraco,
uma sociedade desigual e uma política acostumada à violência. Tudo isso preparou o terreno para a grande transformação que viria no século XX, a descoberta do petróleo, que mudaria completamente o destino da Venezuela. Muita gente não sabe, mas o História em Meia Hora tem um jogo de tabuleiro, é o Imperialismo América. É um jogo muito simples, basicamente um X1 ou até 2X2, mas isso a gente conversa depois, onde um lado joga com os Estados Unidos e o outro joga com a América Latina.
a América Latina durante a Guerra Fria, e a América Latina tá tentando expulsar os Yankees pra casa deles. As cartas são baseadas em eventos históricos, tem uns pontinhos aqui, tem o dinheiro que você compra a carta, compra não sei o quê, aí tem, ó, token de indústria, token de político, tem líder aqui, ó, John Kennedy. Cara, o jogo tá muito maneiro, tá muito bonito. E a gente fez uma campanha de financiamento coletivo lá na Póia-se, deu muito certo, a campanha deu mais de mil pessoas apoiando e todo mundo vai receber. Mas o que que acontece, rapaziada?
Apoia.se barra imperialismoamérica pós campanha.
decidiu imprimir por conta própria essas 400 cópias a mais, porque as pessoas estavam pedindo. Então presta bem atenção, são só 400 cópias e a campanha vai ficar pouco tempo no ar. No dia 17 de março, tô conferindo aqui, dia 17 de março, acaba o apoia.se barra imperialismoamérica pós-campanha. É a última chance que você tem pra garantir a versão do financiamento coletivo, que é uma versão que vem com a moedinha de ferro da CIA, bem legal. Então entra agora em apoia.se barra imperialismoamérica pós-campanha,
sumindo 400 cópias a mais apenas, e dia 17 de março acaba de vez. Obrigado a todo mundo que apoiou a campanha, o jogo já tá na fábrica, já tá sendo produzido, e daqui a alguns mesezinhos vai chegar na sua casa, tá bom? Então é isso, valeu. No início do século XX, a Venezuela ainda era um país pobre, agrário e politicamente bem estável. Mas tudo mudou por volta de 1914, quando grandes reservas de petróleo começaram a ser encontradas e exploradas em seu território.
uma economia baseada em café e cacau e se transformou em um dos maiores exportadores de petróleo do mundo. Esse petróleo atraiu empresas estrangeiras, especialmente dos Estados Unidos e da Europa. Refinarias, oleodutos e portos foram construídos e o dinheiro do petróleo começou a fluir para o estado venezuelano. O país passou por um processo rápido de urbanização. As pessoas deixaram o campo e migraram para as cidades, principalmente Caracas, Maracaibo e Valência, em busca de trabalho.
tempo, o petróleo fortaleceu governos autoritários. A figura central desse período foi o ditador Juan Vicente Gómez, que governou de 1908 a 1935. Ele usou o dinheiro do petróleo para consolidar o seu poder, além de modernizar partes do país e esmagar a oposição. Embora, de fato, tenha trazido alguma estabilidade, ele fez isso à custa de repressão política e concentração de poder. A Venezuela entrou no que muitos chamam de
E olha só o que disse o historiador Fernando Coronil sobre esse assunto. Fecha aspas.
que consumia muito, mas produzia pouco fora do setor energético. Após a morte de Gomes, o país iniciou uma transição lenta para a democracia. Nos anos 40 e 50, houve avanços e retrocessos, incluindo uma outra ditadura militar. Mas em 1958, a Venezuela derrubou o último regime autoritário e inaugurou um período de democracia relativamente estável. Em 1958, a Venezuela viveu um momento muito importante,
que marcou o início de uma nova fase política. Depois de décadas de golpes e regimes autoritários, os principais partidos venezuelanos decidiram construir um sistema que garantisse uma certa estabilidade. Foi assim que nasceu o Pacto de Punto Firro, um acordo entre as principais forças políticas para respeitar as eleições, dividir o poder e evitar novas ditaduras. Durante alguns anos, o pacto meio que funcionou. A Venezuela se tornou uma das democracias mais estáveis da América Latina,
continente marcado por golpes militares. O petróleo garantiu recursos para financiar educação, infraestrutura e programas sociais. Caracas se transformou em uma metrópole moderna e a classe média cresceu. Mas essa estabilidade tinha um preço. O sistema político era bem fechado. Dois grandes partidos, a Ação Democrática e o COPEI, dominavam praticamente tudo. Corrupção, clientelismo e desigualdade social cresceram. O Estado distribuía a renda do petróleo para manter apoio político,
criou uma economia diversificada. Enquanto isso, a população urbana pobre só aumentava. Muitos venezuelanos viviam em favelas, sem acesso real aos benefícios do milagre petrolífero. A democracia funcionava para as elites, mas não funcionava para todo mundo. Quando os preços do petróleo caíram nos anos 80, o sistema entrou em colapso. O dinheiro acabou, mas as promessas continuaram. Isso levou à próxima grande ruptura. No final dos anos 80, a Venezuela enfrentava uma crise profunda.
as dívidas externas só aumentaram e o Estado já não conseguia sustentar o modelo baseado em gastar muito e produzir pouco. Para tentar resolver a situação, o governo de Carlos Andrés Pérez adotou medidas recomendadas pelo Fundo Monetário Internacional, FMI, como corte de gastos, redução de subsídios e aumento dos preços. Em fevereiro de 1989, a população reagiu. O aumento no preço dos transportes e dos alimentos detonou uma onda de protestos e saques
cidades. O episódio ficou conhecido como Caracaso. Durante dias, milhares de pessoas ocuparam as ruas. O governo vai responder com o exército e a repressão foi brutal. Centenas, talvez milhares de pessoas foram mortas. O Caracaso destruiu a legitimidade do sistema político. A democracia do Pacto de Ponto Firro deixou de ser vista como protetora do povo. Para muitos venezuelanos, o Estado havia demonstrado que ele servia mais aos bancos e aos interesses internacionais do que
própria população. E é nesse clima de descrença e revolta que surge Hugo Chávez. O Caracaso deixou uma marca profunda na sociedade venezuelana. A violência do Estado contra a própria população e o colapso do modelo econômico abriram espaço para novas lideranças. Em 1992, um jovem oficial do exército, Hugo Chávez, liderou uma tentativa de golpe contra o governo. O golpe fracassou, mas antes de ser preso, Chávez apareceu na televisão assumindo a responsabilidade.
disse que havia falhado por agora. Essa frase o transformou em um símbolo de resistência. Após ser libertado, Chávez entrou na política e venceu as eleições de 1998. A sua vitória foi histórica. Pela primeira vez em décadas, alguém de fora do sistema tradicional chegava ao poder. Hugo Chávez prometia acabar com a corrupção, combater a desigualdade e devolver ao país, ao povo. Ele convocou uma nova Constituição, aumentou o papel do Estado e usou o dinheiro do petróleo
O conflito com os Estados Unidos só aumentou, principalmente após o golpe fracassado de 2002, que contou com o apoio indireto de Washington.
A Venezuela, Diogo Chávez, deixou de ser apenas um país latino-americano em crise para se tornar um ator político internacional. O alto preço do petróleo permitiu que o governo tivesse recursos para agir fora das suas fronteiras. Chávez passou a usar o petróleo como instrumento de diplomacia e de influência política. A relação com Cuba foi a mais simbólica. A Venezuela enviava petróleo barato para a ilha e Cuba enviava médicos, professores e técnicos.
de um bloco político de esquerda na região. Chávez também apoiou governos como o de Evo Morales na Bolívia e de Rafael Correa no Equador, ajudando a financiar projetos e campanhas. Ao mesmo tempo, a Venezuela se aproximou de potências que rivalizavam com os Estados Unidos. China e Rússia passaram a investir no setor energético e também a vender armas ao país. Para Washington, isso era um sinal claro de que a Venezuela estava se afastando da sua área de influência tradicional. Chávez também criou alianças regionais,
Alba, que buscava integrar países latino-americanos fora da lógica dos Estados Unidos. Seu discurso em fóruns internacionais era sempre o mesmo, denunciar o imperialismo e defender a soberania dos povos. Por isso que é importante a análise da historiadora Margarita López Maia sobre esse governante, abre aspas.
do Pacto Democrático construído após 1958, da incapacidade dos partidos tradicionais de responder às demandas sociais e da frustração de amplos setores populares diante de décadas de desigualdade, corrupção e exclusão política. Chávez conseguiu articular esse descontentamento em um discurso que combinava nacionalismo, redistribuição da renda petrolífera e apelo direto às massas, reconfigurando as relações entre Estado, sociedade e poder. Fecha aspas.
protagonismo internacional, reforçou o chavismo internamente, mas também aumentou o conflito com os Estados Unidos. Quando Hugo Chávez morreu em 2013, a Venezuela já começava a demonstrar sinais de desgaste. O país havia se tornado extremamente dependente do petróleo e importava quase tudo que consumia. Quando o preço do barril caiu no mercado internacional, a economia entrou em colapso. O sucessor de Hugo Chávez, o Nicolás Maduro, não tinha o mesmo carisma e nem a mesma base de apoio.
Quando eleito, Maduro fez um discurso apaziguador, tentando acalmar os ânimos venezuelanos. Ele disse o seguinte, abre aspas,
Após um ano do seu governo, as pesquisas mostravam um bom índice de aprovação popular do governo de Maduro. Cerca de 61% dos venezuelanos aprovavam a sua gestão e 70% acreditavam que as medidas econômicas tomadas pelo novo governo eram boas e eficazes. Nessa mesma época, um projeto que se iniciou no governo de Chávez, mas que foi finalizado por Maduro, ajudou na sua popularidade. O projeto habitacional Cidade Zamora, localizado no estado de Miranda,
um esforço para enfrentar o déficit habitacional no país e buscava fornecer moradias dignas para pessoas de baixa renda. Esse projeto fazia parte de um grande programa nacional de habitação, conhecido como Gran Mission Vivienda Venezuela. As residências do conjunto habitacional eram construídas pelo Estado e disponibilizadas por meio do financiamento subsidiado ou programas de crédito habitacional. Em 2014, o programa atingiu 600 mil casas construídas. Porém, com uma crise econômica interna,
Impulsionada também por questões internacionais, a inflação explodiu. Produtos básicos desapareceram das prateleiras e os serviços públicos entraram em crise. Milhões de venezuelanos deixaram o país, criando uma das maiores migrações da história da América Latina. Politicamente, Maduro respondeu, endurecendo ainda mais o regime. O governo passou a reprimir protestos, prender opositores e a controlar instituições. Eleições foram contestadas por organismos internacionais.
tornado uma ditadura. Para os seus apoiadores, era um país sitiado por forças externas. Os Estados Unidos e vários países impuseram duras sanções econômicas, que agravaram ainda mais a situação. O governo venezuelano culpava as sanções pela crise. Os Estados Unidos diziam que as sanções eram respostas ao autoritarismo. Durante muito tempo, Nicolás Maduro precisou governar a Venezuela, tendo como comparação os anos em que o país foi governado por Hugo Chávez. E se liga no que a professora Margarita Lopes
sobre essa situação. A continuidade de um mercado petroleiro instável e deprimido, um presidente agora sem carisma e politicamente fraco, e uma orientação governamental errática, polarizada e sem qualquer reconhecimento do crescente descontentamento da população, marcam a gestão de Maduro. Nos últimos dois anos, a esse desempenho governamental se agregou a baixa dos preços do barril de petróleo no mercado mundial, contribuindo para que o chavismo venha perdendo importantes respaldos políticos,
expressados no enfraquecimento do seu apoio eleitoral, na diminuição da popularidade do presidente e na aparição de dissidências políticas internas. Fecha aspas. Essa é uma análise bastante dura em relação ao governo de Maduro, que mesmo enfrentando um momento de crise econômica, não consegue ter forças políticas para reverter essa situação complicada e se apoia no autoritarismo para se manter no poder. Se a relação entre Estados Unidos e Venezuela já estava ruim,
ficaram bem piores. Washington passou a tratar a Venezuela como um problema central de segurança e política externa no continente. Sanções econômicas foram ampliadas, ativos venezuelanos no exterior foram congelados e o governo dos Estados Unidos passou a questionar publicamente a legitimidade nas eleições venezuelanas. Em 2019, a crise atingiu um novo patamar, quando Juan Guaidó, então presidente da Assembleia Nacional, se autoproclamou presidente interino do país.
reconheceram imediatamente Juan Guaidó, seguidos por alguns países da América Latina e da Europa. A Venezuela passou a viver uma situação em que tinha dois presidentes reivindicando legitimidade ao mesmo tempo. Na prática, Maduro manteve o controle do Estado, das Forças Armadas e das instituições. Esse episódio escancarou o conflito geopolítico. De um lado, os Estados Unidos e os seus aliados defendendo a necessidade de uma transição democrática. Já do outro, o governo Maduro, apoiado por Rússia,
China, Irã e Cuba, denunciando uma tentativa de golpe e de intervenção estrangeira. A Venezuela se transformou em um palco de disputa global bem maior, em que potências competem por influência, recursos e posições estratégicas. As sanções dos Estados Unidos tiveram efeitos duros para a Venezuela. A economia venezuelana, já fragilizada, sofreu ainda mais. O petróleo, que era a principal fonte de renda do país, passou a enfrentar restrições de venda e acesso a mercados.
o governo utilizava essas sanções como argumento político, reforçando a narrativa de que o país estava sendo sufocado por um inimigo externo histórico. Esse confronto também reativou discursos antigos da política externa dos Estados Unidos, como a doutrina Monroe, agora apresentada como defesa do hemisfério contra a influência de potências rivais. O passado colonial e imperial voltava a moldar decisões do presente. O petróleo transformou a Venezuela em uma potência energética,
acabou criando uma dependência. A democracia do século XX trouxe estabilidade, mas excluiu grande parte da população. O chavismo surgiu como resposta a essa exclusão, prometendo justiça social e soberania, mas acabou abrindo caminho para um regime cada vez mais autoritário sob Maduro. A trajetória da Venezuela mostra como que o passado colonial continua presente, mostra como que recursos naturais podem ser bênção e também maldição ao mesmo tempo,
pois, quando se radicalizam, podem levar sociedades inteiras ao limite. Entender a história da Venezuela é, em grande parte, entender os desafios da própria América Latina no mundo contemporâneo. Pessoal, eu vou recomendar três episódios aqui do podcast, que você pode procurar aí no feed do História em Meia Hora, e eles vão servir de complemento desse episódio que você acabou de ouvir, beleza? O primeiro episódio se chama Simão Bolívar, o segundo se chama Estados Unidos e Venezuela, e o terceiro se chama Maduro. Também tem uma playlist muito boa chamada
Quando falamos na história da Venezuela, estamos pensando em um território que existe muito antes da chegada dos europeus, com povos indígenas vivendo no território há milhares de anos. A partir de 1522, o território foi colonizado pelo Império Espanhol e incorporado à América Espanhola, apesar da forte resistência indígena, se tornando uma das
províncias mais importantes do vice-reino, com a exploração de recursos naturais e mão de obra escrava indígena e, depois, africana. No início do século XIX, influenciada pelos movimentos de independência na América Latina e pela invasão napoleônica à Espanha, a Venezuela iniciou a sua luta pela liberdade. No dia 19 de abril de 1810, a Revolução em Caracas derrubou as autoridades coloniais, abrindo caminho para a Declaração de Independência, no dia 5 de julho de 1811.
chamados realistas, lideranças como Simón Bolívar desempenharam o papel decisivo no processo. A independência foi consolidada em 1830, quando a Venezuela se separou da Gran Colômbia e se tornou um Estado soberano. Ao longo do século XIX, o país enfrentou instabilidade política e conflitos internos, dominados por caudilhos e disputas regionais. No século XX, a descoberta do petróleo transformou a economia venezuelana radicalmente, conduzindo a um crescimento urbano e a participação global no mercado energético.
Nas últimas décadas, governos como o de Hugo Chávez e Nicolás Maduro provocaram mudanças políticas e sociais profundas, com impactos econômicos e tensões diplomáticas que podem reeditar uma guerra de proporção mundial. Mas isso já é um papo para uma outra, né?