Demônio
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O verdadeiro mal encarnado tem uma origem em comum em todas as religiões? Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre a origem histórica da figura do demônio.
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Apresentação: Prof. Vítor Soares.
Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)
REFERÊNCIAS USADAS:
- NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no Imaginário Cristão. São Paulo: Ática, 1986.
- FORSYTH, Neil. The Old Enemy: Satan and the Combat Myth. Princeton: Princeton University Press, 1987.
- RUSSELL, Jeffrey Burton. O Diabo: as percepções do Mal da Antiguidade ao Cristianismo primitivo. Rio de Janeiro: Campus, 1991.
- MESSADIÉ, Gerald. História Geral do Diabo. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.
- Lições sobre demônios e JesusNovo Testamento · Lúcifer · Inferno · Orígenes · Tertuliano
- Demonio e MorteFausto de Goethe · Mephistófolis · Paraíso Perdido · O Exorcista · A Profecia · Lucifer (Netflix) · Doom · Diablo
- JudaísmoZoroatrismo · Ahura Mazda · Angra Mainiu
- Demonios e PossessaoTupaguerra · Uma Tupá no Tempo · História em Meia Hora · Sociologia · Antropologia · História
Feche os olhos e pensa num demônio. Eu aposto que a imagem que você está vendo é a mesma para a maioria das pessoas. Uma figura vermelha com chifres grandes, curvados, um rabo pontudo, um tridente na mão e uma expressão de maldade absoluta. Talvez você tenha se lembrado do diabo em um filme de terror ou de algum personagem que aparece na série que você assiste. E agora vem a pergunta que é a pergunta central para todo esse episódio. Da onde que veio essa imagem?
Ela sempre foi assim? O demônio sempre foi essa figura com chifres que todo mundo conhece? A resposta é não. E a história de como chegamos até essa imagem é muito mais antiga, muito mais complexa e muito mais reveladora sobre a própria humanidade do que qualquer filme de terror consegue contar. Meu nome é Victor Soares, eu sou professor de história e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora. Olha o demônio ali, ó.
Esse episódio é um pouco diferente, eu quero falar sobre a história da ideia de demônio. Mas definitivamente não pelo olhar da teologia ou pela crença pessoal de alguém. Eu tô falando da história do demônio pelo processo histórico e cultural, de como diferentes sociedades, em diferentes épocas, construíram as suas versões desse mal sobrenatural. E eu sei que a visão que muitos têm sobre isso é desse ser.
com chifres e um tridente. Mas, para começar, eu quero ir para uma das primeiras culturas de onde essa imagem surgiu. Bora viajar no tempo para a Mesopotâmia. Na Mesopotâmia, os sumérios, acádios, babilônios e assírios desenvolveram ao longo de milênios um universo religioso rico e sofisticado que incluía uma categoria de espíritos malignos.
Esses seres, eles não eram a encarnação do mal. Eles eram forças perigosas, caóticas, hostis ao bem-estar humano e podiam até causar doenças, loucura, pesadelos e até morte. Um desses seres mais conhecidos é Pazuzu, um demônio assírio-babilônico com corpo humano, cabeça de leão, às vezes cachorro, garras de águia, asas e uma cauda de escorpião.
O Pazuzu era uma espécie de rei dos ventos do sudeste. E, de acordo com a crença da época, eram esses ventos que traziam tempestades de areia, secas e doenças. Mas aqui vem um detalhe importante. O Pazuzu não era simplesmente um ser do mal.
ele era invocado como proteção contra outros demônios e contra Lamastu, uma demônia que atacava mulheres grávidas e bebês. Amuletos com a imagem do Pazuzu eram usados para afastar o mal. Era como se você usasse um monstro para espantar outros monstros. No Egito Antigo, se existe algo que a gente pode comparar com demônios, eram as forças do caos que ameaçavam a ordem cósmica. Essa ordem cósmica era chamada de Maat.
A maior rival da Maat, ou seja, aquilo que iria trazer o caos, era Apophis, uma serpente gigantesca que morava no fundo das águas primordiais e que todas as noites tentava engolir a barca solar de Rá durante a sua jornada pelo submundo. Todos os dias, o Rá precisava vencer a Apophis para que o sol pudesse nascer.
Era uma luta cósmica que se repetia diariamente. Mas cuidado, tá? Porque não era exatamente uma luta entre o bem e o mal. Pelo menos não o bem e o mal absoluto como a gente entende hoje. Era uma luta entre a ordem e o caos, entre a estabilidade e a destruição, entre o universo funcionando e o universo se dissolvendo.
Mas o ponto central dessas tradições antigas é que não existia a ideia de um grande inimigo absoluto, um inimigo único e pessoal de Deus, do bem. Existiam muitos seres perigosos, caóticos, hostis, mas cada um com a sua função específica, o seu território, o seu poder limitado.
O universo era habitado por forças que precisavam ser honradas, acalmadas ou combatidas, mas não existia um vilão central que concentrasse todo o mal do cosmos. Essa ideia de um grande ser do bem versus um grande ser do mal vai ser algo bem posterior na história humana. Quando a gente lê a Bíblia hebraica, pelo menos com atenção histórica,
Uma das primeiras coisas que surpreende é a ausência de um diabo que faz coisas viz. A figura que muitos associam automaticamente ao diabo bíblico, o Satanás, aparece no texto hebraico de uma forma bem diferente do que muita gente pensa. Em hebraico, a palavra Ha-Satan significa, literalmente, o adversário ou o acusador. Não é um nome próprio, é uma função que alguém cumpre. Na estrutura do pensamento jurídico do mundo antigo do Oriente Próximo,
o Satã era uma figura processual, ou seja, alguém que apresenta acusações, que testa, que questiona. Era uma espécie de promotor de justiça da corte divina, e não o inimigo de Deus. A evidência mais clara disso está no livro de Jó, um dos textos mais antigos e mais sofisticados da Bíblia hebraica.
No livro de Jó, Satanás aparece na corte celestial entre os filhos de Deus, ou seja, entre os seres divinos que compõem o conselho de Deus. Deus, então, pergunta a Satanás de onde ele vem, e Satanás responde que andou pela terra.
Deus pergunta se ele notou Jó, um homem justo e íntegro. Satanás responde falando que o Jó só é tão virtuoso porque Deus o protege e o abençoa. Se Deus retirasse essa sua proteção, Jó condenaria o próprio Deus.
Em outras palavras, Satanás está fazendo exatamente o seu papel, que era de questionar, testar e acusar. Deus aceita o desafio e permite que o Satanás submeta a Jó a provações terríveis. Em nenhum momento do texto de Jó, Satanás está em rebelião contra Deus. Ele opera dentro da estrutura divina.
com permissão da divindade suprema. Nos textos mais antigos do judaísmo, ainda não existe esse grande vilão cósmico que o diabo vai se tornar. Existem espíritos perigosos, forças malignas e essa figura de adversário que testa. Mas tudo isso está dentro de uma cosmovisão, onde o Deus de Israel é soberano absoluto e não tem nenhum rival à sua altura.
A transformação dessa figura em uma espécie de antagonista rebelde e extremamente poderoso vai acontecer sob uma influência que muita gente nem conhece. Eu estou falando da influência persa na cultura judaica. Quando o Império Persa conquistou a Babilônia em 539, o rei Ciro o Grande libertou os judeus do exílio babilônico, permitindo, então, o seu retorno a Jerusalém.
A partir desse momento, temos um dos encontros culturais mais importantes da história da religião. Os judeus haviam vivido décadas em contato com a cultura babilônica e agora entravam em profundo contato com a cultura persa. Eles foram expostos a uma tradição religiosa totalmente diferente das que conheciam o Zoroatrismo.
O Zoroatrismo foi fundado pelo profeta Zaratustra, que provavelmente viveu entre os séculos 7 e 9 a.C. Ele viveu onde hoje fica o Irã. O Zoroatrismo é uma das primeiras religiões da história a propor um universo dividido entre dois princípios opostos em conflito. Ahura Mazda, um senhor sábio, a força da luz, da verdade e do bem, contra Angra Mainiu, um espírito destrutivo, força das trevas, da mentira, do mal.
Esses dois princípios estão em guerra permanente pelo universo e pela alma humana. E os seres humanos devem escolher de qual lado estão. No final dos tempos, o Ahura Mazda vencerá de forma definitiva. O mal vai ser completamente destruído e o universo vai ser renovado.
Existem semelhanças entre essa crença com o que a gente encontra depois no judaísmo e no cristianismo. Os estudiosos debatem qual foi o real tamanho dessa influência. Mas há um consenso de que o contato com o zoroatrismo durante o período persa foi um dos principais fatores que moldaram o desenvolvimento do pensamento judaico.
e através dele do Cristianismo e mais tarde do Islã. É nos textos judaicos do período após a libertação por Ciro, entre os séculos IV a.C. e I d.C., que a gente começa a ver a transformação de Satanás, de acusador que opera dentro da estrutura divina.
ele começa a se tornar um ser que escolheu a rebelião, que lidera os outros anjos caídos, que é o governante de um reino das trevas oposto ao reino divino. A narrativa dos anjos que se rebelaram contra Deus estava tomando forma. E essa narrativa vai ser uma das bases de todo o cristianismo. No Novo Testamento, a figura de Satanás vai ganhar uma centralidade que não tinha nos textos anteriores.
Nos Evangelhos, Jesus é tentado por Satanás no deserto. E essa é uma cena que marca o início do ministério de Jesus como um confronto com o adversário. Satanás é chamado de príncipe deste mundo no Evangelho de João.
Depois, em Lucas, Jesus diz ter visto Satanás cair do céu como um raio. Em Apocalipse, que é o último livro do Novo Testamento, Satanás aparece como um dragão vermelho. A serpente antiga, o acusador dos irmãos, que vai ser finalmente lançado em um lago de fogo no julgamento final.
É muito comum que as pessoas associem Satanás ao personagem de Lúcifer. O nome Lúcifer vem do latim e significa portador da luz ou estrela da manhã. Ele aparece no livro de Isaías, no Antigo Testamento, numa passagem que, originalmente, parece ser uma crítica ao rei da Babilônia.
como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da aurora". No contexto original, é uma metáfora política. O rei arrogante que acreditava ser tão brilhante quanto a estrela da manhã e foi derrubado. Mas, ao longo dos séculos, essa passagem foi relida como uma referência à queda de um anjo rebelde. E o Lúcifer passou a ser identificado com o Satanás.
Essa identificação não estava no texto original hebraico. Foi uma construção da tradição cristã a partir dos escritos de Orígenes e Tertuliano, no século III d.C. O cristianismo também desenvolveu, com muito mais sofisticação, a ideia de inferno como um local de punição eterna. O Antigo Testamento tem o Shell, que é uma espécie de mundo subterrâneo dos mortos, sombrio e sem distinção entre os justos e injustos.
No Novo Testamento, Jesus cita um lugar que é conhecido pelos judeus e que era fora de Jerusalém. E segundo a tradição, sacrifícios humanos eram realizados ali. Ele vai dizer que essa região era uma espécie de metáfora para o lugar de punição dos ímpios.
Com o tempo, o inferno cristão foi se tornando um lugar de fogo, trevas, de tormentos, que é governado por Satanás e os seus demônios. É muito importante notar que esse desenvolvimento não aconteceu de forma imediata. Ele foi um processo de séculos, com diferentes autores, diferentes tradições, diferentes ênfases. Paulo de Tarso, no século I d.C., tem uma visão de Satanás diferente da de João no Apocalipse.
Agostinho de Hipona, no século IV, elaborou muito mais do que os evangelhos. A visão medieval do diabo vai ser diferente da visão dos primeiros cristãos. O satanás do catolicismo barroco do século XVII é uma figura muito mais elaborada do que o satanás do Novo Testamento.
Na verdade, se há um período histórico em que a figura do demônio foi destaque, esse período definitivamente foi a Idade Média Europeia. A Igreja Católica, que estruturava a vida social, política, econômica e até mental da Europa medieval, tinha nos demônios e no diabo uma ferramenta teológica e política de grande utilidade. O medo do inferno e do diabo eram dos principais mecanismos de controle social e de manutenção da autoridade eclesiástica.
Uma forma que a gente tem para observar isso foi o processo de demonização dos deuses pagãos. À medida que o cristianismo se expandia pela Europa e encontrava populações com tradições religiosas próprias, como os celtas, germânicos, eslavos e escandinavos,
Os missionários e teólogos cristãos precisavam dar uma resposta ao que fazer com os deuses e seres sobrenaturais dessas culturas. E a resposta que prevaleceu foi uma resposta bem simples. Esses deuses não são falsos no sentido de inexistentes. Eles até existem, mas são demônios. Seres malignos que se passam por divindades para enganar e corromper os seres humanos.
Espíritos da natureza, entidades associadas à fertilidade ou seres do folclore local, todos eles passaram pelo filtro da teologia cristã medieval e saíram do outro lado como demônios ou servos do diabo. E aqui a lista é grande, tá? Fadas irlandesas, duendes germânicos ou até mulheres que tinham práticas medicinais diferentes foram todos tratados como demoníacos.
Dentro desse processo, a gente tem que citar a caça às bruxas. Entre os séculos XV e XVII, dezenas de milhares de pessoas foram julgadas, torturadas e até executadas sob acusação de fazer pacto com o diabo. Às vezes, de participar de rituais noturnos, voar em vassouras e até mesmo causar eventos sobrenaturais. O manual que sistematizou a demonologia e os procedimentos para identificar bruxas foi o Maleus Maleficarum, que significa o martelo das bruxas.
publicado em 1487 pelos inquisidores Heinrich Kramer e Jacob Sprenger. Foi também na Idade Média que surgiu o campo da demonologia, o estudo sistemático dos demônios dentro da teologia cristã.
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Bem, pouca gente sabe, mas o Islã tem a sua própria tradição sobre o demônio, os demônios. Mas ela é bem diferente das versões judaica e cristã. A figura central é Iblis, e a história de Iblis aparece no Alcorão em vários lugares. Essa história mostra uma perspectiva teológica bem diferente. Quando Alá criou Adão e ordenou todos os anjos que se prostrassem diante da nova criatura, todos eles obedeceram.
menos Iblis. Ele se recusou, argumentando que era superior ao Adão, porque segundo a tradição, ele havia sido criado de fogo, enquanto o Adão era apenas argila. O Iblis não se rebelou contra o Alá por querer tomar o seu lugar. Ele se recusou a obedecer uma ordem que considerava injusta ou absurda.
E eu sei que parece uma diferença pequena, mas teologicamente falando, ela é enorme e muito importante. Porque a desobediência de Iblis é de uma natureza diferente da rebelião de Satanás, né? Comparando com o modelo cristão. Expulso da presença divina, Iblis pediu a Alá um prazo até o dia do julgamento para tentar desviar os seres humanos do caminho correto. Alá concedeu e o Iblis passou a ser chamado de Shaitan, quando atuava como tentador.
Ele é uma criatura que recebeu a permissão para tentar, mas a sua derrota final é certa. Essa estrutura é, de certa forma, mais próxima do satanás do livro de Jó do que do diabo todo poderoso e rebelde do imaginário popular cristão.
Outra categoria importante do pensamento islâmico são os jins. Os jins são seres criados por Allah a partir do fogo sem fumaça, anteriores à criação dos seres humanos. Os jins têm livre arbítrio, assim como os humanos, e podem ser muçulmanos ou não-muçulmanos, bons ou maus, neutros ou perigosos. O próprio Iblis, em algumas interpretações islâmicas, era um jins de grande devoção que foi elevado à Companhia dos Anjos.
O que explicaria a sua capacidade de desobedecer? O que seria diferente dos anjos que, no pensamento islâmico, não têm livre-arbítrio? O sistema islâmico é um pouco mais complexo do que uma simples divisão binária entre bem e mal. Existem bem mais tons de cinza.
Bem, agora que a gente entendeu como diferentes culturas interpretam a figura do demônio, a gente pode passar para o campo científico que estuda esses demônios, a demonologia. E quem vai falar mais sobre isso é uma pessoa bem mais preparada. Eu convidei a Tupaguerra, do podcast Uma Tupá no Tempo, que é especializada justamente nesse tema. Se você é micro, pequena ou média empresa e quer ir ainda mais longe, bora com a Claro Empresas.
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A universidade sempre esteve conectada com o demônio, em alguma medida, é claro, né? É muito prazer, meu nome é Tufaguerra, eu sou historiadora e demonóloga, e primeiro eu queria agradecer muito o convite para poder vir aqui conversar um pouquinho com vocês e falar um pouquinho sobre o meu trabalho, que no fim das contas tem tudo a ver com o episódio de hoje, né? Porque se a gente está falando de demônios, a gente tem que também pensar quem que estuda demônio, como que a gente sabe quem são os demônios, como que a gente sabe como essas coisas se organizam.
E, no fim das contas, a universidade e os demônios estão muito conectados. Na verdade, a universidade e o estudo de demônios. Porque o modelo que a gente tem de universidade, esse modelo ocidental, esse modelo europeu, ele é muito baseado também nos estudos de teologia. Até porque a universidade tinha um pouco essa ideia de estudar o mundo e a criação de Deus.
E quando você acredita que demônios fazem parte desse mundo e dessa criação de Deus, a demonologia e o estudo do mal fazem parte da universidade. Isso lá desde o começo. Claro que hoje você não vai encontrar um curso, né? Tipo, ah, esse é um curso de demonologia. Você não vai encontrar isso por aí. O que você vai encontrar é cursos em outras áreas e pessoas que estudam demonologia dentro dessas outras áreas.
Eu diria que, primeiro, não é muita gente, mas você tem, sim, gente estudando dentro da teologia, e daí é uma questão mais de fé, e daí vai ser muito mais um estudo a partir da perspectiva de crença, de fé. E você tem outras áreas, como sociologia, antropologia, história, que vão tentar entender como que esse fenômeno afeta os seres humanos e como que isso modifica a nossa sociedade.
Eu, inclusive, já vi um artigo de ciência política pensando em demônios e a crença em demônios e como que isso afetou as eleições dos Estados Unidos. Ou seja, a conexão, a crença em demônios, ela afeta quem nós somos e a sociedade em que a gente vive.
E isso acontece há muito tempo. Então, em outros momentos da história, se a gente pensar ali no final da Idade Média, no Renascimento, no Maleus Maleficarum, em outros textos que vão falar de bruxas e demônios, enfim, nesse período, o estudo dos demônios estava muito mais voltado na ideia de tentar entender como eles existem e como eles afetam as pessoas e como que eles colocam as garrinhas nas pessoas.
Hoje em dia é possível que ainda tenha esse estudo, mas dentro do mundo acadêmico a gente estuda muito mais como que eles afetam, como que a crença deles afeta o dia a dia das pessoas, mas não porque a gente quer provar se eles existem ou não. Essa parte está fora do nosso escopo, a nossa ideia justamente é estudar.
o efeito do mal do demônio, porque no fim das contas isso fala sobre quem nós somos, isso fala sobre a nossa sociedade, né, você não vai encontrar o curso de demonologia, mas você vai encontrar vários capirotólogos capirólogos, mochila de criançólogos enfim, se você achou interessante quer saber um pouquinho mais sobre demônios sobre antiguidade sobre história em geral, na verdade eu convido vocês a conhecerem o meu canal Uma Tupá no Tempo, em todas as plataformas onde se ouvem esse tipo de coisa, e vê também, porque também tem vídeo, muito, enfim Desculpe, Desculpe, Desculpe Desculpe, Desculpe
Mas vocês são muito bem-vindos para conhecer o meu trabalho e o meu programa. Eu agradeço de novo a oportunidade. Obrigada, Vitor, e até mais, gente.
Obrigado, Tupá. E, por favor, gente, não se esqueçam de conferir o podcast Uma Tupá no Tempo. Bom, depois de todo esse processo, o demônio que chegou até o século XX, e ao século XXI também, não é mais o grande agente do terror religioso medieval. Ao longo dos últimos 100 anos, a figura do demônio passou por uma transformação cultural muito grande, deixando de ser o vilão absoluto para ser um personagem mais complexo, e, em algumas situações, até mesmo sedutor.
Essa transformação começa com a literatura. O Fausto de Goethe, publicado em 1808, apresenta Mephistófolis, o diabo que faz um pacto com o doutor Fausto. E o Mephistófolis não é um monstro estúpido e aterrorizante. Ele é um ser elegante, irônico e inteligente. O diabo de Goethe é bem mais interessante do que a grande maioria dos personagens humanos dessa história.
John Milton, ainda no século XVII, havia criado em Paraíso Perdido um Satanás que muitos leitores achavam o personagem mais divertido do poema.
No cinema, a gente também tem algo um pouco parecido. Os grandes filmes de terror das décadas de 1870, como O Exorcista, em 73, e A Profecia, em 76, usavam o demônio como um agente do terror e como, de fato, o mal absoluto. Mas já nos anos 80 e 90, começaram a aparecer alguns demônios com bem mais nuances dramáticas.
no cinema e na televisão dos anos 2000 em diante, o demônio como um personagem complexo se tornou algo extremamente comum. Lucifer, tanto nos quadrinhos do Neil Gaiman quanto na série da Netflix, é apresentado como um ser que se recusou a ser o que Deus pretendia que ele fosse. E só nesses dois exemplos, a gente tem uma figura de um ser demoníaco como um anti-herói.
No mundo dos videogames, pelo amor de Deus, os demônios estão em vários lugares. De Doom a Diablo, passando por dezenas de RPGs, onde às vezes o jogador tem a opção de combater os demônios, fazer pactos com eles ou até jogar, como um. No RPG de mesa, o D&D, os demônios têm histórias próprias e motivações complexas.
Nos quadrinhos, nos mangás japoneses, seres demoníacos são frequentemente protagonistas, heróis, ou às vezes um aliado dos humanos. Essa transformação cultural reflete mudanças mais profundas na sociedade como um todo.
À medida que a autoridade religiosa institucional foi perdendo a sua centralidade na vida das pessoas, pelo menos nas sociedades ocidentais, o demônio vai perder o seu poder de aterrorizar enquanto ameaça teológica real, pelo menos para muita gente. E quando uma figura perde o seu poder de aterrorizar, é possível ressignificá-la, é possível reapropriá-la, é possível transformá-la em algo diferente.
Por isso que o demônio não é mais algo que assusta. Às vezes, é só a ironia de algo que deveria assustar, mas acaba divertindo a gente. Pessoal, eu vou recomendar três episódios aqui do podcast, que você pode procurar aqui no feed do Estar em Meia Hora, e eles vão servir de complemento para esse episódio que você acabou de ouvir, beleza? O primeiro episódio se chama Inquisição, o segundo se chama Mitologia Grega, e o terceiro se chama Inferno. E agora, bora fazer aquele resumão de um minutinho para você relembrar o que você aprendeu hoje. Vamos lá!
Quando falamos dos demônios, estamos falando de uma ideia que é muito mais antiga e muito mais complexa do que a figura vermelha com chifres que o imaginário popular geralmente pensa. Na Mesopotâmia e no Egito, existiam seres malignos e forças do caos, mas não um grande vilão único que representa tudo o mal. Pazuzu, por exemplo, era de fato perigoso, mas também protetor.
Apófis era o caos que ameaçava a ordem cósmica todas as noites. No judaísmo antigo, o Satanás, do livro de Jó, era um acusador que operava dentro da estrutura divina, não era um rebelde. Foi o contato com o zoroatrismo persa, com a sua ideia de luta cósmica entre o bem e o mal, que vai começar a transformar essa figura em um antagonista de Deus.
O cristianismo vai levar essa transformação até o satanás virar o inimigo da salvação humana e Lúcifer vai virar o seu nome alternativo. O inferno se torna o seu reino. A Idade Média amplificou tudo isso, pois a igreja transformou os deuses pagãos em demônios e a demonologia classificou e hierarquizou esses seres. O medo do diabo vai se tornar uma ferramenta de controle social.
A aparência que a gente conhece hoje, com chifres, pele vermelha, tridente... Tudo isso foi montada aos poucos, pegando emprestado de Pan, de Poseidon e da iconografia do fogo. O Islã vai criar o seu próprio modelo, com o Iblis e os jeans, com bem mais nuances do que uma divisão binária cristã. Já no mundo contemporâneo, o demônio virou personagem de série, herói de videogame e ícone da cultura pop, refletindo uma sociedade que não o teme mais da mesma forma.
O que a gente pensa sobre o demônio ou os demônios acaba mudando conforme a própria sociedade muda. E é por isso que momentos de crise servem também para que novos medos sejam criados, seja medo de um demônio ou de um imigrante ilegal. Mas isso já é um papo para uma outra meia hora.
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