Constantinopla
Uma cidade que conta a história de diversos povos diferentes e que são fundamentais pra toda a história do mundo. Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre a história de Constantinopla!
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Apresentação: Prof. Vítor Soares.
Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)
REFERÊNCIAS USADAS:
- RUNCIMAN, Steven. A Queda de Constantinopla. Tradução de Lauro Machado Coelho. São Paulo: Imago, 2002.
- OSTROGORSKY, Georg. História do Estado Bizantino. Tradução de Benedito Pereira Neto. São Paulo: Edusp, 2011.
- GIBBON, Edward. Declínio e Queda do Império Romano. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
- CROWLEY, Roger. 1453: A Guerra Santa pelo Coração do Mundo Medieval. Tradução de Ângela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Record, 2008.
- BERNARDO, Guilherme Welte. Identidade romana no Império Bizantino: novas perspectivas de um problema de alteridade. Epígrafe, São Paulo, v. 6, n. 6, pp. 67-104, 2018.
- DANTAS, Arthur Gabriel dos Santos. Os impactos da expansão do islamismo nos séculos VII-VIII nos arredores do Império Bizantino na intensificação da Controvérsia Iconoclasta. Pneuma: Revista Teológica, Curitiba, v. 04, n. 01, 2025.
- Transição da Era Medieval para a Era ModernaMehmed II · Cerco de Constantinopla (1453) · Canhão de Urbano · Constantino XI Paleólogo
- Colonialismo e ImperialismoImpério Romano do Oriente · Império Otomano · Império Bizantino · Identidade Romana
- Constantinopla como Centro Comercial e CulturalRota da Seda · Comércio Medieval · Transmissão de Conhecimento · Diversidade Religiosa e Étnica
- Legado da Queda de ConstantinoplaGrandes Navegações · Renascimento Italiano · Igreja Ortodoxa · Santa Sofia
- Papel da religião em conflitos armadosMuralhas de Teodósio · Fogo Grego · Quarta Cruzada · Saque de Constantinopla (1204)
- Império Romano e HelenismoJustiniano I · Corpo Júri Civilis · Basílica de Santa Sofia · Peste de Justiniano
- Fundação e Nome de ConstantinoplaBizâncio · Constantino I · Nova Roma
Istambul, Bizâncio, Nova Roma, Constantinopla, vários nomes diferentes para descrever a mesma cidade. Só que a mesma cidade em momentos diferentes. Hoje eu quero te contar a história de Constantinopla, uma das mais importantes cidades de toda a Idade Média.
Inclusive, se vocês gostarem desse formato, eu posso fazer episódios contando a história de outras cidades. Sei lá, um episódio sobre Paris, sobre Londres, sobre Teheran, sobre o Rio de Janeiro. Enfim, eu fico no aguardo do feedback de vocês. Meu nome é Vitor Soares, eu sou professor de história e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora.
Quando falamos de Constantinopla, a gente está falando de uma cidade que foi capital de dois dos maiores impérios da história. O primeiro a gente chama de Império Romano do Oriente, e o segundo a gente chama de Império Otomano. Estamos falando de uma cidade que ficou de pé enquanto Roma caía, enquanto o mundo islâmico se expandia e enquanto as cruzadas aconteciam.
Constantinopla nos chama a atenção, porque a gente está falando de uma cidade que era ao mesmo tempo europeia, asiática, cristã, multicultural, romana e grega. Sim, tudo isso misturado, tudo junto. Mas calma que eu vou explicar tudo isso para você no vídeo de hoje. Antes de ser Constantinopla, o lugar se chamava Bizâncio.
Bizâncio era uma cidade grega fundada por volta do século VII a.C. E, de acordo com a tradição, o fundador dessa cidade foi um homem chamado Bizas de Megara. A localização dessa cidade desde a sua origem foi um grande destaque. E o motivo é que estamos falando de uma península que está em uma região em contato entre a Ásia, a Europa e a África.
Para quem vinha do Mar Negro em direção ao Mediterrâneo, Bizâncio era uma passagem obrigatória. Quem controlava aquele estreito acabava controlando o fluxo de mercadorias, de exércitos e de informações entre os dois continentes. Era uma das posições geográficas mais valiosas do mundo antigo.
Por muitos séculos, Bizâncio existiu como uma cidade grega até que próspera, disputada por macedônios, persas e romanos. Quando Roma finalmente a dominou no século II d.C., a cidade cresceu, mas ela continuava sendo mais uma entre as muitas cidades no Grande Império Romano.
O que mudou tudo foi uma decisão política tomada por um único homem no início do século IV, o imperador Constantino I. Nesse período, Roma estava passando por um período de instabilidade. E para conter essa crise, o império foi dividido em quatro partes. Era chamada tetrarquia. E cada uma dessas partes tinha um líder. Em 324 d.C., após vencer os seus rivais e unificar o Império Romano sob o seu comando,
Constantino precisava de uma nova capital. Roma estava com um problema sério. A cidade era longe demais das fronteiras mais ameaçadas. Além disso, Roma estava sobrecarregada de nobres que não queriam mudanças estruturais e tinha uma logística complicada para um império que se estendia do Atlântico até a Mesopotâmia.
Bizâncio, por outro lado, era uma região perfeita para os problemas que Roma estava tendo que lidar. Constantino mandou construir uma cidade inteiramente nova sobre as fundações gregas antigas. Encomendou muralhas, palácios, fórum, hipódromo, igrejas e muito mais.
Transferiu obras de arte de toda parte do império para decorar as suas ruas e praças. Trouxe famílias de Roma, dando incentivos bem generosos. No dia 11 de maio do ano 330 d.C., a nova capital foi inaugurada oficialmente.
Foi uma cerimônia que combinou rituais romanos tradicionais com elementos cristãos, uma vez que o Constantino havia se convertido ao cristianismo poucos anos antes. A cidade foi chamada de Nova Roma, mas acabou ficando mais conhecida como Constantinopla, a cidade de Constantino.
Os habitantes também a chamavam de Apólis. Constantinopla foi construída como uma espécie de segunda Roma. Tinha sete colinas, assim como Roma. Tinha fórum, termas, aquedutos, um senado. Tinha também o seu famoso hipódromo, que era um grande estádio onde ocorriam as famosas corridas de bigas.
centenas de milhares de espectadores se reuniam. Era o grande coração da vida pública em Constantinopla, o lugar onde o imperador se mostrava ao povo e onde as tensões políticas e sociais se concentravam. Uma outra data importante na história da cidade foi o ano de 395.
Nesse ano, o imperador Teodósio I dividiu o Império Romano em duas partes. Era o Império Romano do Ocidente, que tinha Roma, lá na Itália, como a sua capital, e o Império Romano do Oriente, que tinha Constantinopla como capital. Quando a parte ocidental caiu em 476, Constantinopla continuou de pé. O Império Romano do Oriente, que ficou mais famoso como o Império Bizantino, sobreviveu por quase mais mil anos.
Mas tem um detalhe importante que, às vezes, o pessoal acaba deixando passar. Os habitantes desse império, do Império Bizantino, nunca se chamaram de bizantinos. Eles se chamavam de romanos. O estado que governavam era chamado, em grego, de Basileia ton Romayon, que significa o Império dos Romanos. E Constantinopla era chamada também de România, a Terra dos Romanos. O pesquisador Guilherme Welter Bernardo explica que o termo bizantino
É uma invenção europeia ocidental muito posterior. Nas palavras do professor Bernardo, abre aspas, os chamados bizantinos sabiam exatamente quem eram romanos e do que queriam ser chamados, mas são um povo medieval cujo nome os historiadores modernos se recusam a usar. Fecha aspas. O termo bizantino foi cunhado no século XVI pelo humanista alemão Jerônimo Zwolf, que precisava de um nome para esse império oriental que o ocidente se recusava a chamar de romano. Veja a chamar de romano.
E isso porque o Ocidente, pelo menos desde Carlos Magno, reivindica para si o título de herdeiro legítimo de Roma.
Chamar os habitantes de Constantinopla de Romanos complicaria essa narrativa. Então, eles foram chamados de gregos, ou mais tarde, de bizantinos. Ou seja, quando a gente chama o Império Romano do Oriente de Império Bizantino, a gente está valorizando a identidade grega desse território. Essa questão identitária é importante para a gente entender Constantinopla. Ela explica por que a cidade não se via como o resquício de um império em decadência.
Constantinopla se via como Roma, a Roma verdadeira, a única que havia sobrevivido. Os imperadores de Constantinopla eram sucessores diretos de Augusto, de Trajano, do próprio Constantino. O direito romano continuava sendo a lei. O latim continuou sendo usado em documentos oficiais por muitos séculos.
antes de gradualmente ser substituído pelo grego. E a razão central dessa sobrevivência era a dupla, a posição geográfica da cidade e as suas muralhas. As muralhas de Teodósio, construídas no início do século V, eram uma obra de engenharia militar impressionante para o mundo medieval. Qualquer exército que tentasse tomar Constantinopla, pelo menos por terra,
acabava enfrentando aquelas muralhas. E se fosse pelo mar, a cidade tinha acesso a suprimentos e reforços enquanto o inimigo se desgastava. Essa combinação foi por muitos séculos impenetrável. O grande auge do império veio com o imperador Justiniano I, que governou de 527 a 565. Justiniano tinha uma ambição muito clara, que para alguns é interpretada como algo ousado demais.
Basicamente, o imperador queria reconquistar as terras que o Império Romano do Ocidente perdeu para os povos germânicos. Os seus generais, principalmente Belisário, retomaram o norte da África, a Itália e parte da Espanha. Por um breve momento, o Mediterrâneo voltou a ser um lago romano.
Justiniano também reformou o direito romano, no que ficou conhecido como Corpo Júri Civilis, a compilação de leis que se tornou a base do direito civil em quase toda a Europa continental e que influencia até hoje o sistema jurídico brasileiro, francês, italiano e de dezenas de outros países. Quem estuda direito ou vai estudar futuramente com certeza passa pelo Corpo Júri Civilis.
Foi o Justiniano que mandou construir a obra que marcou a história de Constantinopla para sempre. Eu estou falando da Basílica de Santa Sofia, consagrada em 537 d.C. Quando ele entrou na Basílica, depois de ter finalizado a obra, o Justiniano teria dito, Salomão, eu te superei. A cúpula de Santa Sofia, com quase 56 metros de altura, ficou sendo a maior do mundo por quase mil anos. Ela ainda existe, mas hoje é uma mesquita muçulmana.
Mas o reinado de Justiniano também trouxe o primeiro grande colapso. Entre 541 a 549, a peste de Justiniano foi provavelmente a primeira grande epidemia de peste bubônica documentada na história, varrendo o Mediterrâneo e matando entre, presta bem atenção, entre 25 a 50 milhões de pessoas.
Se hoje esse número é assustador, imagina 1500 anos atrás. Constantinopla perdeu quase metade da sua população. As conquistas ocidentais do Justiniano, que exigiam muitos recursos para serem mantidas, foram pouco a pouco sendo perdidas.
O império sobreviveu, mas acabou menor e mais frágil. E a questão da identidade cristã também entrou em crise. As pressões dessa época, com o Islã expandindo nas fronteiras do império, alimentaram uma das disputas religiosas mais intensas da história de Constantinopla, que foi o debate iconoclasta. Um debate sobre o uso de ícones na adoração cristã. A iconoclastia dividiu o império por mais de um século, entre os séculos 8 e 9.
Inclusive, esse é um tema bem interessante, e eu vou explicar mais sobre ele no episódio exclusivo para os apoiadores dessa semana. Se você quiser ouvir esse e os outros mais de 200 episódios exclusivos que já tem por lá, basta assinar o apoia.se barra História em Meia Hora. Bem, para entendermos por que Constantinopla importava tanto para o mundo medieval,
E por que tantos exércitos e povos tentaram tomá-la? É preciso entender a sua posição no sistema econômico global daquela época. A península onde ficava Constantinopla estava muito além de uma região importante militarmente.
Era o ponto em que passava uma fração enorme do comércio entre a Europa e a Ásia. A Rota da Seda tinha múltiplos caminhos, mas um dos principais portos ocidentais era a Constantinopla. Seda chinesa, especiarias indianas, marfim africano, âmbar báltico, escravos do Mar Negro, grãos do Egito, ouro sudanês. Tudo isso se encontrava em Constantinopla, ou pelo menos passava por ela. O mercado de Constantinopla era provavelmente o mais cosmopolita do mundo medieval.
Documentos do século X e XI descrevem mercadores venezianos, mercadores genoveses, árabes, persas, armênios, georgianos, russos, búlgaros e egípcios. Todos eles negociando lado a lado nas ruas do bairro comercial. O Estado bizantino controlava o comércio com uma burocracia sofisticada.
que cobrava impostos, regulava pesos e medidas e garantia a qualidade dessas mercadorias. Existiam funcionários do império que eram responsáveis por fiscalizar categorias inteiras de produtos. Havia contratos bilíngues, em grego e árabe, ou em grego e latim. Tinha também uma troca constante de moedas de 12 diferentes sistemas monetários. Era uma economia de mercado regulada que antecipou, em séculos, estruturas que o ocidente só desenvolveria durante a idade moderna.
Mas Constantinopla não era apenas um ponto comercial. Era também um ponto de contato e de transmissão de conhecimento entre civilizações que raramente se comunicavam diretamente. A Biblioteca Imperial preservava manuscritos gregos clássicos que tinham desaparecido do Ocidente após a queda de Roma. Filósofos, matemáticos e médicos do Bagdá, Cairo e Pérsia
frequentavam a cidade e deixavam as suas ideias circularem. O pensamento de Aristóteles, que a Europa Ocidental redescobriu durante o século XII, principalmente através de traduções árabes, estava disponível em grego original em Constantinopla muitos anos antes.
O sistema de numeração indo-arábico, a álgebra, a astronomia islâmica, tudo isso chegou ao ocidente também, por meio dos contatos que passavam pela cidade de Constantinopla. A escola imperial de Constantinopla era o maior centro de ensino superior do mundo cristão, com aulas de filosofia, gramática, retórica, aritmética, geometria, astronomia e até música. A diversidade religiosa e étnica da Constantinopla medieval era algo completamente único para os padrões da época.
Em Constantinopla, tinha bairros judeus com comunidades estabelecidas já há séculos. Tinha também algumas igrejas armênias, siríacas e cóptas ao lado das igrejas ortodoxas gregas. Havia também mesquitas para os comerciantes muçulmanos. O Império Bizantino era oficialmente cristão ortodoxo e, frequentemente, perseguia heresias com muita força. Mas a necessidade econômica de manter Constantinopla aberta ao comércio
acabava criando uma tolerância prática que não se encontrava facilmente em outras capitais medievais. Quando o viajante marroquino Ibn Battuta visitou a cidade lá no século XIV, que inclusive já era o seu declínio, ele ficou impressionado com a diversidade de povos, línguas e práticas que coexistiam naquele espaço.
No seu relato, ele descreveu uma cidade dividida em três partes. A Constantinopla, propriamente dita, o bairro de Galata, dos mercadores genoveses, e o bairro dos judeus, cada uma com seus próprios costumes, mas todas funcionando dentro de um mesmo sistema urbano.
Pessoal, essa dinâmica comercial e cultural tinha consequências geopolíticas diretas. Os imperadores de Constantinopla usavam o comércio como um instrumento diplomático, concedendo ou retirando privilégios alfandegários para atrair ou punir aliados. Veneza e Gênova construíram fortunas imensas graças às concessões comerciais que receberam do Império Bizantino, principalmente a partir do século XI.
Os russos realizavam expedições regulares à Constantinopla para negociar. E quando as negociações falhavam, eles tentavam atacar a cidade. O príncipe Oleg de Kiev chegou diante dos muros de Constantinopla em 907. Ele chegou com uma frota e com um exército. E ali, ele negociou um tratado comercial que garantia aos mercadores russos o direito de entrar na cidade sem pagar impostos.
e também de ser abastecidos gratuitamente pelo governo imperial. Era o poder econômico da cidade transformado em ferramenta de política externa.
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Pessoal, um ponto importante que a gente pode trazer nesse episódio sobre Constantinopla é sobre a sua história militar. Constantinopla viveu por muitos e muitos anos tentativas frustradas de captura. E a cada fracasso, o inimigo reforçava a aura de invencibilidade da cidade.
Os persas tentaram em 626 d.C., em uma operação coordenada com os ávaros pelo lado europeu. E como você imagina, eles fracassaram. Mas foram os árabes que testaram a cidade mais vezes. O pesquisador Arthur Dantas descreve os dois cercos árabes da seguinte forma, abre aspas.
Entre os anos 674 e 678, os Omíadas fizeram o primeiro cerco à Constantinopla. E graças à marinha bizantina, que foi tão eficiente que foi chamada de fogo grego, o cerco muçulmano falhou. E novamente em 717 e 718, graças à marinha bizantina reorganizada por Leão III, os bizantinos conseguiram repelir o ataque. Fecha aspas.
O fogo grego merece uma explicação própria, porque era uma das armas mais extraordinárias da história militar medieval. Era basicamente uma substância incendiária que queimava sobre a água, o que tornava impossível apagá-la jogando mais água. E é óbvio que esse era o instinto natural dos marinheiros que viam as suas embarcações em chamas.
Os navios bizantinos tinham sifões especiais que lançavam essa substância em jatos sobre as embarcações inimigas. O efeito psicológico era tão devastador quanto o físico. Ou seja, ver o seu navio pegando fogo sobre a água.
sem que nada pudesse ser feito, quebrava na hora a moral de qualquer frota inimiga. A fórmula da produção do fogo grego foi mantida como segredo de Estado e nunca foi completamente revelada. Historiadores e químicos modernos ainda debatem sobre a sua composição exata. Provavelmente envolvia nafta, calviva, resina e talvez outros componentes. Era uma arma que a marinha bizantina monopolizou durante muitos séculos.
Cada vez que Constantinopla resistia a um cerco, o prestígio do Império Bizantino se renovava. Para o mundo medieval, uma cidade que havia sobrevivido a tantos inimigos tinha claramente uma proteção divina. O ícone da Virgem Maria, que a tradição dizia proteger Constantinopla, era carregado nas procissões dos muros durante os cercos como uma espécie de arma espiritual.
A sobrevivência da cidade alimentava a sua própria lenda, e a lenda alimentava a determinação dos defensores. Búlgaros, russos, persas e árabes tentaram destruí-la em diferentes momentos entre os séculos VII e X. Ninguém conseguiu, mas essa invencibilidade sofreu seu primeiro golpe, não de um inimigo externo, mas de aliados. Em 1204, a Quarta Cruzada chegou à Constantinopla.
Os cruzados haviam partido para reconquistar Jerusalém e, por uma série de dívidas, acordos diplomáticos e muito oportunismo, acabaram sitiando e saqueando a cidade cristã mais importante do mundo. Veneza havia financiado a frota em troca de serviços militares.
e queria aproveitar o momento para eliminar o seu maior concorrente comercial. Durante três dias, soldados que se identificavam como defensores da fé cristã pilharam igrejas, violaram mulheres, destruíram manuscritos e carregaram para o ocidente relíquias, ouro e obras de arte que haviam sido acumuladas por séculos. Os cavalos de bronze, que hoje estão na Basílica de São Marcos, em Veneza, foram roubados de Constantinopla naquele momento.
Os cruzados estabeleceram o chamado Império Latino de Constantinopla, que durou de 1204 a 1261, quando os bizantinos, que se reorganizaram no exílio em Nicéia, retomaram a cidade sob o general Miguel VIII, paleólogo.
Mas o dano foi irreparável. A população havia caído e os cofres estavam vazios. As redes comerciais haviam sido interrompidas. Os venezianos e genoveses, que haviam apoiado essa cruzada, saíram com privilégios comerciais que transformaram Constantinopla de centro independente numa praça de negócios completamente dominada por interesses italianos.
O Império Bizantino sobreviveria mais dois séculos, mas nunca mais voltaria ao que havia sido antes de 1204. No início do século XV, o Império Bizantino teve o seu território reduzido à própria Constantinopla, alguns arredores e algumas poucas ilhas. O Império Otomano havia engolido Anatólia, Bulgária, Sérvia e cercava a cidade por três lados.
Os imperadores bizantinos pediam socorro ao Ocidente, oferecendo até a reunificação das igrejas cristãs ortodoxa e católica, tudo em troca de ajuda militar. O socorro nunca veio, pelo menos não em quantidade suficiente. A população da cidade, que havia chegado a meio milhão de habitantes no seu auge, estava reduzida a algo em torno de 50 mil. Bairros inteiros estavam abandonados.
Em 1451, um jovem de 19 anos subiu ao trono otomano. Mehmed II havia sido educado por tutores que falavam de Alexandre Magno e de Júlio César. Ele lia grego e tinha uma obsessão documentada por Constantinopla, a cidade que nenhum sultão havia conseguido tomar.
Ao assumir o poder, uma das suas primeiras decisões foi começar a planejar o cerco. Ele mandou construir a fortaleza de Rumeli-Rissari, no ponto mais estreito do Bósforo, ao norte da cidade, para cortar o abastecimento vindo do Mar Negro. Ele contratou um engenheiro húngaro chamado Urbano para construir um canhão enorme que o mundo nunca havia visto. O canhão de Urbano tinha mais de 8 metros de comprimento e lançava projéteis de pedra com mais de 500 quilos.
levava 60 bois para ser transportado e uma hora para ser carregado. Ele era lento e quebrava com frequência, mas para as muralhas de Teodósio, que haviam sido projetadas para resistir a qualquer arma do século V, o canhão de Urbano era uma novidade. Em abril de 1453, Mehmed II chegou diante de Constantinopla com um exército estimado entre 80 a 150 mil homens.
A cidade, naquele momento, tinha apenas entre 7 a 10 mil defensores, incluindo um contingente de voluntários ocidentais, principalmente genoveses, que haviam vindo por conta própria. O último imperador, Constantino XI, paleólogo, sabia que o fim era provável.
Ele escreveu cartas pedindo socorro a todos os governantes cristãos da Europa. E a maioria nem respondeu. Alguns voluntários chegaram, e o mais importante foi uma tropa genovesa, liderada pelo Giovanni Giustiniani Longo, que se tornou o braço direito do Constantino nessa defesa. Por 53 dias, os defensores resistiram.
Os canhões abriam brechas durante o dia e os defensores resistiam com madeira e terra durante a noite. A frota otomana não conseguia penetrar no chifre de ouro, que estava fechado por uma corrente. Mehmet II, então, ordenou uma operação que entrou para a história. Ele fez os seus navios serem arrastados por terra.
em rolos de madeira engraxada por cima de uma colina e colocados dentro do chifre de ouro, contornando a corrente de defesa. Na madrugada do dia 29 de maio de 1453, Mehmed II ordenou o ataque final. Justiniani foi ferido nas primeiras horas e retirado pelos seus homens.
Sem ele, a coordenação da defesa se enfraqueceu. Os otomanos encontraram um portão secundário, a chamada Quercoporta, e entraram pela retaguarda dos defensores. Constantino XI, ao ver que a cidade estava perdida, fez o que os imperadores romanos faziam diante da derrota. Tirou o seu traje imperial e foi para a luta. O seu corpo nunca foi encontrado.
A lenda ortodoxa grega diz que um anjo o transformou em pedra e que ele dorme dentro de uma caverna sob a cidade de ouro, esperando o dia em que despertará para libertar Constantinopla. Mehmed II entrou na cidade ainda no dia 29 de maio. Sua primeira visita foi à Santa Sofia, que ele mandou converter em mesquita no mesmo dia. E os afrescos cristãos foram cobertos com cal.
Mesmo assim, o Mehmed II não destruiu a cidade. Ele compreendeu o valor do que ele havia conquistado. Ele se declarou herdeiro dos imperadores romanos e algumas fontes registram que ele assinou documentos como Kaiser Irum, que significa algo como imperador dos romanos.
No poder, ele mandou repovoar a cidade, afinal, ela havia diminuído bastante a sua população nos últimos séculos de declínio. Mehmed II deu proteção à comunidade ortodoxa grega e ao patriarca ecumênico, que permaneceu em Constantinopla. Essa continuidade não foi um acidente, foi claramente algo pensado. Mehmed II precisava de legitimidade e o patriarca era parte dessa legitimidade.
A cidade que os turcos chamavam de Constantinie, e que o mundo conheceria gradualmente como Istambul, se tornou a capital do Império Otomano e voltou a ser, em pouco tempo, um dos maiores centros urbanos do mundo. A lógica era a mesma de sempre. Quem controlava o Bósforo, controlava o comércio entre Europa e Ásia.
Os otomanos entenderam isso tão bem quanto Constantino havia entendido mais de mil anos antes. A cidade continuou sendo um ponto de encontro de rotas comerciais e um grande centro cosmopolita, mas agora com uma camada islâmica acima das camadas gregas, romanas e orientais anteriores. Mas a queda de Constantinopla teve uma consequência que ninguém previu na época.
Com os otomanos controlando o Bósforo e as rotas terrestres para a Ásia, as mercadorias que chegavam ao Mediterrâneo Oriental tinham que passar por intermediários otomanos, que cobravam impostos pesados. Para os mercadores europeus, principalmente para os portugueses e espanhóis, isso era um grande problema. A seda e as especiarias que vinham da Ásia ficavam bem mais caras. A busca por rotas alternativas que contornassem o controle otomano foi um dos principais motores das grandes navegações.
Quando Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança em 1488 e Vasco da Gama chegou à Índia em 1498, eles estavam resolvendo um problema que havia sido criado, em parte, pela queda de Constantinopla, em 1453.
E não menos importante, forçando um pouco a barra, quando Pedro Álvares Cabral chegou aqui, onde hoje é o Brasil, em 1500, ele estava navegando numa rota que só existia porque Constantinopla havia caído. Há uma linha direta entre o fim de uma grande cidade medieval e o achamento do Brasil.
Um outro legado foi cultural e intelectual. Nas décadas que antecederam e se seguiram a queda, muitos intelectuais e filósofos gregos fugiram de Constantinopla para a Itália, levando manuscritos gregos clássicos que o Ocidente havia perdido. Textos de Platão, Aristóteles, Euclides, Arquimedes e muitos outros chegaram à Florença, Roma e Veneza em quantidades que aceleraram objetivamente o Renascimento. O humanismo italiano, da segunda metade do século XV, bebeu diretamente dessa herança.
Figuras como Bessarion eram homens de Constantinopla que, ao fugirem, levaram consigo séculos de cultura que o Ocidente havia perdido. O Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, sediado em Istambul até hoje, ainda é considerado a primeira honra entre os patriarcados da Igreja Ortodoxa Mundial. O direito canônico ortodoxo, a liturgia, a arte sacra...
e a arquitetura religiosa de países como Grécia, Rússia, Sérvia, Bulgária e Romênia derivam diretamente da tradição de Constantinopla. Moscou, anos mais tarde, se autodenominou Terceira Roma após a queda da cidade, argumentando que havia herdado o papel de guardiã da fé cristã ortodoxa. Em 2020, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan reconverteu a Santa Sofia de Museu em uma mesquita ativa.
A decisão gerou protestos internacionais, principalmente do mundo ortodoxo e da Grécia. O debate em torno de Santa Sofia é um debate sobre a própria história de Constantinopla. Afinal, quem tem direito a essa herança? É um edifício romano, grego, cristão ou islâmico? A resposta honesta é que é tudo isso ao mesmo tempo. E é justamente por isso que ela continua sendo um objeto de disputa quase 600 anos após a queda da cidade.
Pessoal, eu vou recomendar três episódios aqui do podcast que você pode procurar aqui no feed do Estar em Meia Hora. E eles vão servir de complemento para esse episódio que você acabou de ouvir, beleza? O primeiro episódio se chama Império Romano. O segundo se chama Cruzadas. E o terceiro se chama Grandes Navegações.
Agora, vamos fazer aquele resumão de um minutinho para você relembrar o que você aprendeu hoje. Vamos lá. Quando falamos de Constantinopla, estamos falando de uma cidade fundada no ano de 330 d.C. pelo imperador Constantino sobre a antiga Bizâncio, numa posição geográfica única no Estreito do Bósforo, passagem obrigatória entre Europa e Ásia, entre o Mediterrâneo e o Mar Negro.
Capital do Império Romano do Oriente, ela sobreviveu à queda de Roma Ocidental em 476 d.C. e continuou sendo o maior centro urbano da Europa por séculos. E é sempre bom lembrar que os seus habitantes nunca pararam de se chamar romanos. O seu auge veio com Justiniano I, que construiu Santa Sofia, codificou o direito romano e quase reunificou o Império.
Pela sua posição geográfica, Constantinopla foi o maior entreposto comercial do mundo medieval, onde seda, especiarias, ouro e conhecimento de três continentes acabavam se encontrando. A cidade resistiu a dezenas de cercos durante mil anos.
mas foi saqueada pelos próprios cruzados em 1204, um golpe do qual nunca se recuperou. Em 1453, o sultão otomano Mehmed II a conquistou depois de 53 dias de cerco, usando canhões gigantescos e uma manobra naval bem ousada.
A queda fechou as rotas comerciais para a Ásia e empurrou os europeus a buscar novos caminhos, estimulando as grandes navegações e, indiretamente, o próprio achamento do Brasil. Os intelectuais gregos que fugiram levaram manuscritos clássicos que acabaram alimentando o chamado renascimento italiano. E o legado jurídico, religioso e arquitetônico de Constantinopla?
ainda está presente em dezenas de países. E até hoje influenciam como tribunais votam, como é o caso, inclusive, do nosso STF. Mas isso já é um papo para uma outra meia hora.