Medusa
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Uma das criaturas mais antigas da história da civilização humana é reinterpretada e usada como uma prova da desigualdade de gênero que, pelo menos desde a Antiguidade, ronda o mundo ocidental. Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre a história e a mitologia da górgona Medusa
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Apresentação: Prof. Vítor Soares.
Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)
REFERÊNCIAS USADAS:
- OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução: Domingos Paschoal Cegalla. São Paulo: Cultrix, 2010.
- HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Tradução: Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 2009.
- HAMILTON, Edith. Mythology. Boston: Little, Brown & Company, 1940.
- HILGERT, Luiza Helena. O arcaico do contemporâneo: Medusa e o mito da mulher. Lampião — Revista de Filosofia, UFAL, v. 1, n. 1, p. 41-70, 2020.
- BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Fatos e mitos. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.
- BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. A experiência vivida. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967.
- CIXOUS, Hélène. O riso da Medusa. In: CIXOUS, H.; CLÉMENT, C. The newly born woman. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1986.
- FREUD, Sigmund. A cabeça de Medusa. Tradução: Ernani Chaves. Clínica & Cultura, v. II, n. II, p. 91-93, 2013.
- KAROGLOU, Kiki. Dangerous Beauty: Medusa in Classical Art. The Metropolitan Museum of Art Bulletin, New York, v. 75, n. 3, 2018.
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Oi, eu tenho aqui um recado do Léo Santana pra você. Escuta aí. O GG na área pra dizer o seguinte. O Magalu e eu queremos convocar todos os brasileiros pra gente voltar a se ver do tamanho. Que de fato somos gigante. Chega de se ver pequenininho. Bora botar o Brasil no telão. Ouviu? E mais. Em qualquer compra a partir de R$199, você ainda pode concorrer a uma sala completona. São seis salas por dia até a nossa estreia.
E se o monstro mais famoso da mitologia grega não fosse um monstro? E se ele fosse a vítima? Aliás, ela. E essa diferença de gênero faz muita diferença no episódio de hoje. Hoje eu quero te falar sobre a história da medusa, mas também sobre um outro tipo de monstro, aquele tipo que parece alguém muito bem intencionado. Meu nome é Vitor Soares, eu sou professor de história e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora.
A Medusa é uma das figuras mais antigas e mais persistentes de toda a mitologia ocidental. Ela aparece em vários autores, como Homero, Exíodo, Píndaro, Ovidio, e cruza toda a Idade Média, passa pelo Renascimento até atravessar a Modernidade. E hoje em dia ela aparece em ficções e até em debates feministas do século XXI. Poucas personagens da Antiguidade sobreviveram por tanto tempo e com tanta força.
E essa sobrevivência não é um mero acidente. Para entender tudo isso, a gente precisa começar bem do comecinho. A gente precisa entender o mundo em que a medusa foi criada. A Grécia Antiga não era um país, era um conjunto de cidades-estado que estavam espalhadas pelo mar Egeu, da Península Grega até a costa da atual Turquia, passando por ilhas, colônias no norte da África e assentamentos na Península Itálica.
Cidades como Atenas, Esparta, Corinto, Mileto e Siracusa tinham cada uma as suas próprias leis, os seus exércitos, os seus costumes e as suas moedas. O que unia todas essas cidades não era um estado comum, mas uma língua compartilhada, práticas religiosas semelhantes e um conjunto de histórias que todos reconheciam como próprias, os mitos.
Os mitos gregos podem equivaler àquilo que hoje nós chamamos de religião, ciência, filosofia moral e código legal, tudo isso misturado. Quando o Exíldo escreveu sobre a origem dos deuses e do mundo, ele não estava inventando histórias.
ele estava registrando explicações que a sociedade grega usava para compreender por que o mundo é como é. Por que certas coisas são certas e outras erradas? Quem tem o poder e por quê? Qual é o lugar de cada um na ordem das coisas? E essa questão de o lugar de cada um incluía a questão do lugar da mulher.
A sociedade grega clássica, especialmente a ateniense, era profundamente patriarcal. As mulheres atenienses não participavam da vida política. Elas não podiam votar, não podiam falar nas assembleias, não podiam representar a si mesmas em contratos ou processos judiciais.
Elas viviam sob a tutela legal permanente de um homem, primeiro o pai, depois o marido e depois o filho mais velho. O espaço feminino era o interior da casa, o oikos, e a virtude feminina suprema era sofrosine, uma palavra difícil de traduzir que combina moderação, autocontrole e castidade. Uma mulher boa era uma mulher invisível que ninguém de fora da família visse ou visse.
Isso não quer dizer que as mulheres gregas não tivessem nenhum espaço. Elas participavam de rituais religiosos. Algumas até lideravam cerimônias sagradas, como as sacerdotisas de Atena, em Atenas, evidentemente, e as pitonisas de Delfos. Elas tinham um papel central na vida pública. Em Esparta, as mulheres tinham mais liberdade de movimento e eram, ao menos, parcialmente educadas fisicamente, assim como os homens.
Em outras cidades, em outros períodos, as condições mudavam. E é dentro desse mundo que os mitos sobre as mulheres foram criados. A filósofa Simone de Beauvoir analisou esse processo com uma precisão cirúrgica em O Segundo Sexo, de 1949.
Beauvoir mostrou que a história da humanidade foi escrita por homens que se colocaram como sujeito absoluto e, ao fazerem isso, automaticamente transformaram a mulher no outro, no ser que existe em função da perspectiva masculina. Como ela escreve, abre aspas, a representação do mundo como o próprio mundo é a operação dos homens.
Eles o descrevem do ponto de vista que lhes é peculiar e que confundem com a verdade absoluta". Fecha aspas. Os mitos gregos são dos mais antigos e mais duradouros exemplos desse processo. Junto à Medusa, nós temos outros exemplos, como Pandora, que na mitologia grega é a primeira mulher.
Zeus a criou especificamente para ser um castigo para a humanidade após Prometeu roubar o fogo. Ela recebe beleza, sedução, curiosidade, e a sua curiosidade é a que abre a caixa de Pandora e libera todos os males do mundo. A culpa de todos os males da humanidade é de uma mulher.
Agora, pensa na Eva, que de acordo com a tradição hebraico-cristã, ela também é seduzida, no caso pela serpente, ela também desobedece uma ordem divina e também libera o sofrimento para a humanidade. Como destaca a filósofa Luisa Helena Hilgert em seu artigo sobre a Medusa, as mulheres nesses mitos fundadores são sempre a porta de entrada do mal no mundo.
Olha só o que ela diz, abre aspas. A medusa entra justamente nessa galeria. Mas com uma diferença que daqui a pouco eu vou explicar melhor. A história dela é um pouco mais complicada.
Para a gente entender a Medusa, a gente precisa entender que ela pertence a uma geração de seres que antecede até mesmo os deuses olímpicos. Zeus, Atena, Apolo, Hermes, todos vieram depois desses seres que a Medusa pertence. Ela é filha de forces e Ceto, divindades marinhas primordiais. Seu avô é Gaia, a própria Terra, e o seu bisavô é o caos primordial.
De acordo com o poema Teogonia, de Hesíldo, um poema que organiza toda a genealogia dos deuses gregos e que foi escrito por volta do século 8 a.C., as Górgonas fazem parte dessa primeira geração de seres que existiu antes da ordem olímpica se estabelecer. Elas são Esteno, Euríale e Medusa, sendo a Medusa a única mortal das três. Suas irmãs existirão para sempre, já ela pode ser morta.
Nas histórias mais antigas que a gente tem, as Górgonas vivem em uma ilha distante, além do oceano, nos confins do mundo conhecido. Elas não atacam, não saem em busca de vítimas, não ameaçam ninguém. Elas estão lá, na periferia do mundo habitado. Nas versões mais antigas, elas não aparecem perseguindo humanos, mas de fato são descritas como mortais para quem se aproxima. E isso é importante, porque fala muito sobre a cultura grega.
como que ela concebia certos seres femininos. São poderosos, mas contidos nas margens, longe do centro civilizado. A ameaça que elas representam é a ameaça de quem se aproxima demais, de quem invade o espaço delas. A górgona não vai até você, você vai até ela.
Homero, nos poemas épicos mais antigos, que chegaram até nós, menciona as Górgonas, mas sem dar nome. Na Ilíada, o rosto da Górgona é descrito como algo que gera terror nos inimigos. Na Odisseia, quando Ulisses desce até o Hades, que é o mundo dos mortos, ele teme que Perséfone possa enviar a cabeça da Górgona contra ele antes que ele consiga escapar.
Em Homero, as górgonas são figuras de horror, instrumentos de terror, sem personalidade ou até sem história. São mais uma força do que um ser. Foi o Exíldo, na Teogonia, quem começou a dar substância ao mito. Depois foi Píndaro, no século V a.C., quem acrescentou uns elementos perturbadores e poéticos. Ele acrescentou os lamentos das irmãs quando Perseu matou Medusa.
Também acrescentou a ideia de que os gritos de dor de Euryale inspiraram Atena a inventar a flauta. Existe uma alegoria bonita nesse mito. Um instrumento musical usado para alegrar banquetes e rituais por muitos séculos teria nascido da tentativa de uma deusa de reproduzir o choro de uma irmã ao ver uma outra ser assassinada. As primeiras representações visuais dessas górgonas
que chegaram até nós, são de cerâmica, do período arcaico grego. Algo por volta do século VII e VI a.C. O que vemos nessas imagens é radicalmente diferente do que imaginamos hoje, quando pensamos na medusa. A górgona arcaica tem olhos saltados, dentes como presas de javali, língua de fora, pele escamada, mãos de bronze e asas de ouro. Absolutamente nada disso é humano. O objetivo era aterrorizar.
O rosto da górgona, o gorgoneio, era usado como amuleto apotropaico, que era basicamente um objeto com o poder de afastar o mal. Você coloca o monstro na entrada da sua casa, no seu escudo de guerra, na proa do seu navio, justamente para que o seu inimigo veja e tema.
O rosto da medusa nessa fase não é o rosto de uma mulher, é uma máscara de puro terror, uma força da natureza com feições de pesadelo. O arqueólogo Adolf Furtwängler, estudando as representações artísticas da medusa ao longo dos séculos, identificou o que ele chamou de um modelo evolutivo em três fases, o arcaico, o médio e o belo. Na fase arcaica, ela é esse monstro grotesco que eu acabei de descrever.
Na fase média, que começa a aparecer durante o período clássico grego, os traços vão se humanizando. O rosto fica mais simétrico, as feições mais delicadas, ainda que a expressão se mantenha aterrorizante. Já na fase bela, principalmente nas representações helênicas e romanas tardias,
A Medusa se tornou uma figura ligada à beleza para os padrões da época. Ela tinha pele clara, traços mais harmoniosos, cabelos de serpente que parecem quase um penteado. Ela tinha olhos que têm tanto de sedutor quanto de ameaçador. Beleza, mas qual é a história de Medusa e Perseu?
Para contá-la com cuidado, eu vou seguir a reconstrução que a mitóloga Edith Hamilton fez no século XX a partir das diferentes fontes greco-romanas, que hoje é uma reconstrução moderna bastante difundida. A história começa não com a medusa, mas com o Perseu, e isso já é uma informação. Nos mitos canônicos, a medusa nunca é a protagonista da sua própria história.
Perseu é filho de Zeus e de Danae, uma princesa de árguas. Seu avô materno é Acrísio e ele recebeu uma profecia de que ele seria morto pelo neto. E para evitar isso, ele trancou a filha em uma torre de bronze. Zeus entrou pela janela numa forma de uma chuva de ouro e Danae engravidou. Quando Acrísio descobriu o bebê, ele colocou mãe e filho em um baú e o jogou no mar.
Essa era uma forma de matar que dava ao rei a possibilidade de negar responsabilidade direta. O baú aportou na ilha de Séryphus, onde o pescador Dictis os acolheu. Dictis tinha um irmão chamado Polidectes, que era o rei da ilha. E Polidectes se apaixonou por Danae. O jovem Perseu cresceu na ilha, e com ele cresceu o principal obstáculo aos planos do rei. Polidectes era inteligente. Em vez dele confrontar o Perseu diretamente, ele armou uma cilada usando a vaidade do jovem.
Ele convocou todos os homens da ilha para uma festa e pediu que cada um contribuísse com um presente de núpcias. Perseu não tinha posses, mas era cheio de orgulho. Ele prometeu trazer o que fosse pedido. Então, Polidectes pediu a cabeça da Górgona. Era uma missão que, de acordo com o Polidectes, era uma missão impossível.
O plano era se livrar de Perseu e ficar com a Danae sem resistência. Mas com a ajuda divina, o herói consegue o que lhe precisa. O deus Hermes lhe dá uma espada forjada por Hefesto, a mais afiada do mundo. Atena, que em algumas versões posteriores, teria punido a Medusa.
Presentei a Perseu com um escudo polido como espelho, que permite ver o reflexo da medusa sem olhar diretamente para ela. As ninfas do norte fornecem sandálias voadoras, além do elmo da invisibilidade de Hades e uma bolsa mágica que pode guardar a cabeça cortada sem petrificar quem a carregue. Com esse arsenal, o Perseu chega à Gruta das Górgonas. Ele identifica a medusa pelo reflexo no escudo e a decapita enquanto ela dorme.
E olha que curioso, das feridas do pescoço cortado nascem o Pégaso, o cavalo alado, e o Crisaor, um guerreiro dourado. Ambos eram filhos que a medusa carregava do índice de Poseidon. Pois é, na versão romana do Ovidio, a medusa é violentada por Poseidon.
Perseu usa a cabeça da medusa como uma arma durante toda a viagem de volta. Em algumas versões do mito, ele transforma o Titã Atlas em uma montanha ao mostrar o rosto da Górgona. Ele também salva Andrômeda, uma princesa etíope que estava acorrentada em uma rocha como um sacrifício ao monstro marinho. Ele usa a cabeça para petrificar o monstro e depois casa com ela.
De volta a Sérifus, ele encontra Polydectes em uma festa com os seus convidados. E então, ele os petrifica, mostrando a todos eles a cabeça da Medusa. Finalmente, ele presenteia a cabeça para Athena, que a fixa em um espaço de homenagens junto do seu escudo sagrado, que a acompanha em batalha.
A cabeça da medusa passa a ser uma arma de guerra nas mãos da mesma deusa que a havia transformado em monstro. É importante pausar nesse momento e fazer uma leitura que a tradição raramente faz. O Perseu, nessa história, invade territórios alheios, engana mulheres cegas roubando o olho que elas compartilham entre si, mata uma mulher adormecida que não representava ameaça nenhuma à comunidade e usa o corpo dela como um instrumento de poder pelo resto da jornada.
A filósofa Luisa Helena Hilgert propõe um exercício, abre aspas. Se os acontecimentos fossem narrados pela Medusa, ou pelos povos por onde passou Perseu, é bastante provável que o filho de Zeus figuraria como vilão invasor, assassino e cruel que destrói, engana, saqueia e mata povos pacíficos e pessoas inocentes por motivos torpes e fúteis. Fecha aspas.
A narrativa que chegou até nós foi escrita pelo lado de Perseu, e essa, definitivamente, é uma escolha política, não é uma verdade natural. Só que essa não é a única versão da história.
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A versão mais completa e mais influente do mito da Medusa foi escrita por Ovidio nas Metamorfoses, concluídas por volta do ano 8 d.C. Ovidio foi um poeta romano que viveu no período de Augusto, o primeiro imperador de Roma. E as Metamorfoses são uma obra que reúnem e reinterpretam os grandes mitos greco-romanos, os conectando pelo tema da transformação.
Toda a história do livro envolve alguém ou alguma coisa que se transforma em outra coisa. E é Ovidio a pessoa que conta com detalhes o que aconteceu com a Medusa antes do Perseus chegar. Na versão de Ovidio, a Medusa era a mais bela das três irmãs Górgonas. Tinha cabelos compridos e luminosos, que eram a sua maior glória.
e era uma jovem devotada ao templo de Atena, virgem e consagrada à deusa. Até que Poseidon, o deus dos mares, a violentou dentro do próprio templo sagrado. E então, Atena, em vez de punir o agressor, que era um deus de igual hierarquia e poder, voltou à sua ira contra a vítima. Os cabelos da medusa foram transformados em serpentes.
Seus olhos, que antes encantavam, se tornaram a arma que petrificava quem os encarava. Ela foi banida para uma gruta remota, isolada para sempre. Medusa estava grávida quando Perseus chegou. Pégaso e Crisaor nasceram do sangue que jorrou quando a sua cabeça foi decepada.
É uma imagem de violência. Uma mulher assassinada justamente no momento em que daria a luz. E a narrativa do Ovidio apresenta isso como parte natural da jornada heroica de Perseu, não como um horror moral. Por que a versão de Ovidio foi a que ficou? Bem, primeiro porque as metamorfoses foram copiadas, estudadas e comentadas durante toda a Idade Média e o Renascimento, sendo um dos textos latinos mais circulados da história europeia.
Segundo, porque a versão do Ovidio tem coerência narrativa. Ela explica a origem dos poderes da Medusa. Dar a ela uma história cria uma causalidade. E terceiro, porque ela é conveniente. Ao transformar a Medusa em uma vítima de um Deus, mas punida pela sua beleza, ela naturaliza a ideia de que a beleza feminina é perigosa e deve ser contida. Não é por acaso que essa versão sobreviveu.
Da Grécia ao Renascimento italiano, as representações da medusa passaram pela transformação que o arqueólogo Forte Wangler mapeou. Mas vale a pena explicar um pouco melhor sobre algumas visões sobre a medusa, dependendo de cada época. No período clássico ateniense, o rosto da Górgona já começa a aparecer em estudos e templos com traços mais humanizados. No Renascimento, quando os artistas italianos mergulharam nos textos clássicos,
A medusa se tornou um tema obrigatório. O escultor Benvenuto Cellini criou entre 1545 a 1554 o que muitos consideram a representação mais influente de toda a história desse mito, o bronze perceu com a cabeça da medusa, que até hoje fica na Praça della Signoria, em Florença.
A escultura é impressionante e perturbadora ao mesmo tempo. O Perseu está de pé sobre o corpo sem cabeça da Medusa, o sangue escorrendo com serpente e a expressão de Vitória. Na mão direita erguida, a cabeça da Medusa. Esse era o rosto que o Celine moldou com grande beleza.
O Selene até inseriu, no verso do próprio crânio de Perseu, um autorretrato, como se o herói carregasse o rosto do artista que o criou. O corpo pisoteado da medusa, ao contrário, tem uma expressão de algonia que nenhuma análise formal consegue neutralizar. Poucas décadas depois, em 1597, Caravaggio pintou a sua medusa. É um rosto humano, claramente feminino, num grito de horror absoluto no instante que ela percebe que foi decapitada.
sangue jorra na obra de arte. As serpentes se agitam, os olhos têm ainda a expressão de quem não acredita no que está acontecendo. É uma das imagens mais violentas da história da arte ocidental, apresentada como um objeto decorativo para um nobre.
O que diz sobre uma cultura o fato de presentear alguém com a imagem de agonia de uma mulher decapitada? E não para por aí. Rubens pintou a cabeça cortada de medusa num quadro que hoje está em Viena. O quadro tem um realismo anatômico que inclui até sangue coagulando, insetos e cobras nascendo do pescoço.
Leonardo da Vinci, segundo o biógrafo Vasari, teria pintado uma medusa decapitada numa obra que se perdeu. Estamos vendo a cabeça cortada de uma mulher como tema artístico constante, celebrado e colecionado por séculos. Isso não é coincidência, é um padrão.
E é um padrão que a filósofa Helene Cixous identificou com precisão quando escreveu em 1975 que os homens precisaram transformar a medusa no monstro porque a figura de uma mulher com poder real os aterroriza. E a resposta ao terror é a fantasia da decapitação, do silenciamento definitivo.
Mas a representação da Medusa não ficou só nas artes visuais. Vale citar aqui como o pensamento filosófico grego, que é a base de toda a filosofia ocidental, construiu uma visão da mulher que não é muito diferente da que o mito da Medusa expressa. Em Platão, existe um diálogo entre um personagem e um demiurgo, que é basicamente um deus artesão que cria o mundo. E esse artesão faz apenas uma coisa específica, homens. E eu estou falando aqui do gênero e não da espécie humana.
Os homens que viveram uma vida justa retornam ao seu astro de origem numa existência feliz. Já os homens que viveram de forma injusta ou covarde renascem como mulheres na segunda geração. A mulher, em Platão, é literalmente a encarnação de uma alma masculina fracassada.
Como aponta a Luisa Helena Hilgert, abre aspas, a inferioridade feminina repousa assim, ontologicamente, na constituição do seu ser e lhe é impossível melhorar, aprender, aprimorar-se para alcançar algum tipo de evolução ou avanço. Fecha aspas. O Aristóteles foi ainda mais direto ao definir a mulher como um homem incompleto, um ser que a natureza é ser governada.
Esses textos filosóficos e esses mitos não existiam de forma isolada. Eles se alimentavam, construindo juntos uma visão de mundo em que a subjugação da mulher tinha fundamento tanto na razão quanto no sagrado. Existiram outros filósofos que interpretaram a figura da medusa.
E eu vou contar melhor sobre essas versões no episódio exclusivo para os apoiadores do podcast lá na Apoia-se. Se você quiser ouvir esse e os outros mais de 200 episódios exclusivos que já tem por lá, é só assinar o apoia.se barra história em meia hora. Bom, talvez a reflexão mais legal da Hilgert seja sobre o silenciamento. Em todas as versões do mito, em todos os séculos de representações artísticas e literárias, a Medusa nunca fala. Nunca ouvimos a sua versão.
ela existe apenas como objeto do olhar de Perseu, como uma arma nas mãos dos outros, como um ornamento no escudo de Atena. A filósofa conecta isso à análise de Beauvoir sobre os mitos, abre aspas. Todo mito implica um sujeito que projeta as suas esperanças e os seus temores num céu transcendente. As mulheres, não se colocando como sujeito, não criaram um mito viril em que se refletissem seus projetos".
Os mitos foram criados pelos homens, sobre os homens, para os homens. As mulheres habitam esses mitos apenas como coadjuvantes, como obstáculos, como prêmios ou como ameaças. Mas nunca como quem conta a história. Hilgert propõe o que ela chama de Constituição Perseica, a operação pela qual narradores constroem heróis, transformando vilões em heróis e vítimas em monstros, simplesmente porque a narrativa foi escrita pelo lado do agressor.
O Perseu invade, engana, mata e é chamado de herói. A medusa foi violentada, punida, assassinada e é chamada de monstro. Essa inversão não é natural. É uma escolha narrativa que reflete os valores e os interesses de quem escreve. E o projeto feminista para Hilgert passa necessariamente por identificar essas constituições perseicas, identificá-las em todos os lugares onde aparecem.
nos mitos antigos, nas notícias de hoje em dia, nas decisões judiciais, nos memes das redes sociais e, em seguida, denunciá-las. Vale notar que essa análise tem um cuidado em não cair numa simplificação fácil. Hilgert é explícita ao dizer que não quer transformar a Medusa num novo ícone do feminismo.
não quer celebrá-la de forma acrítica como um símbolo de resistência. O objetivo é bem mais sutil, de acordo com ela abre aspas, demonstrar como o fato, a cultura grega, colaborou para a criação de um mito, o do segundo sexo". Fecha aspas. O que está em jogo não é apenas uma releitura de um mito antigo.
é o reconhecimento de que os mitos constroem vivências reais, que as histórias que uma cultura conta sobre quem é perigoso e sobre quem é herói moldam como as pessoas agem, julgam e se veem. A medusa monstruosa das cerâmicas e a mulher silenciada na gruta de Ovidio são pedras fundadoras do mesmo edifício que ainda habitamos.
Essas narrativas ajudam a estruturar formas de violência que ainda existem até hoje. Às vezes é a mesma estrada que leva à misoginia e até ao feminicídio. Pessoal, eu vou recomendar três episódios aqui do podcast que você pode procurar aqui no feed do História em Meia Hora. Eles vão servir de complemento desse episódio que você acabou de ouvir, beleza? O primeiro episódio se chama Mitologia Grega, o segundo se chama Homero e o terceiro se chama Feminismo.
E agora, bora fazer aquele resumão de um minutinho para você relembrar o que você aprendeu hoje? Vamos lá.
Quando falamos da Medusa, estamos falando de uma das figuras mais antigas e mais conhecidas de toda a mitologia ocidental e de um dos casos mais claros de como os mitos não são histórias neutras, mas ferramentas de construção de poder. Na mitologia grega, a Medusa pertencia ao grupo das Górgonas.
Diferentemente das suas irmãs imortais, a medusa era mortal e ficou famosa pelo seu olhar, que era capaz de transformar qualquer pessoa em pedra. Tradicionalmente representada com serpentes no lugar dos cabelos, a sua imagem se tornou um símbolo de terror, mas também de poder e proteção na cultura antiga.
Segundo o mito mais difundido, a Medusa nem sempre foi um monstro. Ela teria sido uma jovem de grande beleza, que servia como sacerdotisa no templo da deusa Atena. Após ser violentada por Poseidon dentro desse templo, ela foi punida por Atena, que a transformou em uma criatura monstruosa. Esse aspecto do mito costuma ser interpretado como uma reflexão sobre poder, punição e injustiça dentro da mitologia.
A medusa foi derrotada pelo herói Perseu, que conseguiu decapitá-la usando um escudo como espelho para evitar o seu olhar. Mesmo após a sua morte, a sua cabeça continuou com os seus poderes, sendo utilizada como arma e símbolo de proteção. O mito da medusa atravessou séculos e continua sendo reinterpretado, especialmente em debates modernos sobre gênero, violência e representação feminina na cultura ocidental.
A cultura pop a transformou em vilã de videogame ou em logo de grife de moda. E só recentemente, com pensadoras como Helene Cixous e filósofas como Luisa Helene Hilgert, apoiadas em Simone de Beauvoir, começamos a inverter a lógica e pensar como que seriam as coisas se elas fossem contadas pela ótica da própria medusa.
Por isso que falar da Medusa é pensar também na lógica da violência contra a mulher. Mesmo que a gente esteja falando de uma produção literária, estudar a Medusa indica que a arte pode ser uma boa lente para enxergar a realidade. Assim como várias séries e filmes que até não têm a intenção de falar sobre um grande tema, acabam sem querer falando. Um grande exemplo é Vingadores Guerra Civil, que nos ajuda a compreender o mundo depois do 11 de setembro. Mas isso já é um papo para uma outra meia hora.
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