Episódios de História em Meia Hora

Césio-137 e Goiânia

24 de março de 202632min
0:00 / 32:44

(PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 21 DE AGOSTO DE 2024)

Um acidente trágico que marcou a história do país na década de 1980. Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) o que foi o acidente radiológico com Césio-137 em Goiânia.

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Apresentação: Prof. Vítor Soares.

Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)

REFERÊNCIAS USADAS:

- AIEA. The radiological accident in Goiânia. Viena, [s.n.]1988.

- CRUZ, A. D. da; GLICKMAN, B. W. Monitoring the genetic health of humans accidentally exposed to ionizing radiation of Cesium137 in Goiania (Brazil). In: International Conference/ Goiania 10 years later: the radiological accident with Cs137. Goiânia – Brasil, Brasil. Anais…Rio de Janeiro, RJ: CNEN, p. 131-137,1997.

- CNEN. Comissão Nacional de Energia Nuclear. Relatório do Acidente Radiológico em Goiânia. 1988.

- Depoimentos verbais dos pacientes GGS, RSA, DAF. Julho 1989.

- PESSÔA, J. 'A gente não vive, vegeta': vítimas do césio-137 relatam dor 33 anos depois. TAB UOL. 18 set. 2020

Assuntos15
  • Descoberta do Césio-137 no Ferro VelhoRemoção do equipamento radiológico · Busca por sucata · Abertura da cápsula · Brilho azul da radiação
  • Acidentes FataisLeide das Neves Ferreira · Maria Antônia · Punição Abel Ferreira · Funcionários do ferro velho · Causa e Circunstancias da Morte
  • Contaminacao AmbientalExposição familiar · Espalhamento entre vizinhos e amigos · Absorção do Césio pelo corpo · Distribuição descontrolada da substância
  • Punição Abel FerreiraDescoberta do acidente radiológico · Medição de radiação · Prevenção de contaminação do rio · Isolamento da área
  • Instituto Goiano de RadioterapiaEquipamento radiológico · Cápsula de Césio-137 · Abandono e desativação · Segurança inadequada
  • Sintomas de Contaminação RadiológicaVômitos e diarreias · Feridas na pele · Medo de Incêndios · Alopecia (perda de cabelo) · Hemorragia interna
  • Gabinete Crise GovernamentalOcultamento de informações · Afirmações falsas sobre vazamento de gás · Falta de amparo às vítimas · Priorização do evento esportivo
  • Bomba Atômica e Segunda GuerraHiroshima e Nagasaki · Impacto da radiação · Efeitos na população civil · Primero uso de arma nuclear
  • Morte de CelebridadesCaixão especial de chumbo · Medo da população · Tumulto no cemitério · Bloqueio da rua
  • Saude ClinicaReações alérgicas · Doenças de pele · Erro de identificação · Falta de conhecimento médico
  • Consequências Psicológicas e de Saúde Pós-AcidenteDepressão de sobreviventes · Desenvolvimento de câncer · Doenças pulmonares · Culpa e trauma emocional
  • Narrativa e EstruturaCaso de Leide das Neves · Pintor de 42 anos · Socio de Devair · Visitantes na casa · Empregados do ferro velho
  • Propriedades Físicas do Césio-137Brilho azul no escuro · Higroscopicidade · Aderência a superfícies · Toxicidade · Contaminação interna
  • Emergência RadioativaMarie Curie e Pierre Curie · Polônio · Rádio · Urânio · Pesquisa científica no século XIX
  • Guerra Fria e Corrida NuclearEstados Unidos e União Soviética · Desenvolvimento de armas nucleares · Medo nuclear global · Tensões geopolíticas
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agenciadepodcast.com.br. A energia nuclear é realmente segura? Qual é o limite entre novas tecnologias e um risco à própria humanidade? Essas são apenas algumas perguntas que podemos nos fazer quando estudamos com mais atenção o acidente radiológico com Césio 137 em Goiânia. Esse foi um dos episódios mais trágicos da nossa história recente e, infelizmente, não é algo muito conhecido.

que hoje é te contar o que aconteceu em Goiânia, mas acima de tudo, analisar esse evento a partir de uma noção mais ampla, observando como que o Brasil estava inserido no contexto global quando o assunto é radiação. Como sempre, eu quero lembrá-los que eu uso fontes e autores confiáveis que você pode e deve consultar na descrição do episódio. Por mais que o acidente radiológico que a gente vai analisar hoje tenha acontecido em Goiânia,

centro-oeste, muito menos no Brasil. Para entendermos esse acidente com o Césio, temos que ir para a Polônia. Foi nesse país, em 1867, que nasceu Marie Sklodowska, mais conhecida como Marie Curie. A polonesa fez carreira como cientista na França, onde conheceu seu marido Pierre Curie. Juntos, eles se concentraram em analisar de que forma uma

Ainda em 1895, um homem chamado Wilhelm Reutgen descobriu a existência dos raios-x. Em seguida, um outro cientista chamado Henri Becquerel descobriu que sais de urânio emitem raios que são parecidos com os raios-x. Essa descoberta foi importante porque ele conseguiu demonstrar que essa radiação não dependia de uma fonte externa de energia e parecia surgir espontaneamente do próprio urânio.

Influenciada por essas duas importantes descobertas, Currie decidiu considerar os raios de urânio como um possível campo de pesquisa para uma nova tese. Ela usou uma técnica nova para investigar as amostras estudadas. Há algum tempo antes, Pierre Currie e o seu irmão tinham desenvolvido um equipamento chamado eletrômetro, que servia para medir cargas elétricas.

raios de urânio faziam com que o ar em torno de uma amostra conduzisse eletricidade. Usando essa técnica, o seu primeiro resultado foi descobrir que a atividade dos compostos de urânio dependia apenas da quantidade de urânio presente. Ela levantou a hipótese de que a radiação não era o resultado da interação de moléculas, mas seria uma característica do próprio átomo. E essa hipótese foi um passo

átomos eram indivisíveis. Por mais que essas pesquisas fossem relevantes e inovadoras, Marie Curie não tinha um espaço adequado para trabalhar. E isso tinha uma série de consequências, como, por exemplo, a exposição a materiais perigosos para a saúde. E isso, mais pra frente, vai ser bem importante. Em seus estudos, ela chegou ao seguinte ponto que foi registrado em seu diário, abre aspas.

Fecha aspas. Ou seja, em seu trabalho, ela levantou a hipótese de existir um outro elemento químico naquela reação que naquela altura não era nomeado, porque ninguém conseguia identificar. Marie Curie decidiu focar os seus esforços na investigação desse elemento misterioso. E em julho de 1898, Marie Curie e Pierre Curie publicaram um documento em conjunto,

a existência de um novo elemento, chamado polônio, batizado em homenagem à terra natal da cientista. No mesmo ano, no dia 26 de dezembro de 1898, os Currie anunciaram a descoberta de mais um elemento, o rádio, que teve esse nome por conta da palavra latina raio. Foi a partir do trabalho do casal Currie com esses elementos, principalmente o rádio, que surge o termo radioatividade.

A própria Marie Curie entendeu que a descoberta desses elementos poderiam gerar uma grande transformação na sociedade por conta do impacto energético que eles causariam. O que não demorou a acontecer foi a transformação desses itens em uma arma de guerra de grandes proporções. Foi o que aconteceu nos dias 6 e 9 de agosto de 1945. Foram nesses dias que os Estados Unidos bombardearam as cidades de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, com duas bombas atômicas.

e assim colocaram um ponto final na Segunda Guerra Mundial. Foi a primeira vez na história que um país usou esse tipo de armamento contra civis em uma guerra, e os estragos foram terríveis. Os impactos da radiação na população que sobreviveu ao lançamento das bombas foram muito traumáticos. Peles queimadas, doenças graves e o crescimento no índice de câncer entre os sobreviventes

Inclusive, eu quero contar a história de algumas pessoas que sobreviveram ao lançamento das bombas atômicas no Japão no episódio exclusivo dessa semana para os apoiadores do podcast lá no Apoia-se. Se você quiser ouvir esse e os outros mais de 160 episódios exclusivos que já tem por lá, basta assinar o apoia.se barra história em meia hora, porque além de você receber vários conteúdos exclusivos, você também ajuda o meu trabalho a continuar de pé.

entre as grandes potências, como os Estados Unidos e a União Soviética. Como essas duas nações tinham esse tipo de armamento, nunca entraram em um conflito direto, fazendo com que toda a metade do século XX fosse conhecida como a Guerra Fria. Apesar da não existência de batalhas envolvendo diretamente os dois países, o medo das armas nucleares e da radiação se espalhou pelo mundo. Para vocês terem uma ideia, quando a União Soviética começou a desenvolver

suas armas nucleares em 1953, os Estados Unidos fizeram uma série de pronunciamentos para acalmar a população, dizendo que isso não seria um problema para eles. Eles também desenvolveram alguns produtos que, teoricamente, protegeriam a população de um ataque nuclear e criaram protocolos de treinamento para a população aprender a se proteger. Citando o historiador Eric Hobsbawm, abre aspas,

nucleares globais, que acreditava-se firmemente, podiam estourar a qualquer momento e devastar a humanidade. O conflito não aconteceu, mas por cerca de 40 anos, pareceu uma possibilidade diária. Fecha aspas. Como eu disse, desde a descoberta da radiação, se sabia que o seu uso poderia ser muito variado. Se em um primeiro momento o contexto mundial fez com que esse recurso fosse transformado em uma arma,

Usinas e equipamentos de saúde passaram a usar a radioatividade dos elementos químicos para suprirem as suas necessidades. O que se descobriu com isso foi que usar a radiação na vida comum poderia ser tão perigoso quanto usá-la em uma guerra. Em 1972, a União Soviética iniciou a construção de uma usina nuclear, com o objetivo de ter uma fonte mais limpa e principalmente mais potente de energia.

mas a energia em uma usina nuclear é extraída a partir da quebra do núcleo de um átomo de um elemento instável, no caso, o urânio. Esse processo se chama fissão nuclear e é a tecnologia desenvolvida para extrair a energia dessas usinas. Esse processo é perigoso porque o urânio é um elemento radioativo, ou seja, ele faz muito mal ao ser humano caso tenhamos contato com ele.

A química Líria Alves resumiu muito bem o funcionamento de uma usina. Ela falou o seguinte, abre aspas,

Gera energia elétrica. Fecha aspas. Em resumo, é assim que uma usina nuclear funciona. A usina de Chernobyl era muito grande. A construção dela, inicialmente, demorou seis anos. E em 1978, já funcionava com dois reatores nucleares. Por mais que a estrutura dessa usina fosse muito grande, por um conjunto de fatores, um desses reatores explodiu no ano de 1986,

muito grande de radiação na atmosfera. Todos os envolvidos na tentativa de apagar o fogo ficaram gravemente feridos. E por conta do contato com a radiação, tiveram problemas sérios, como câncer e demais doenças terminais. Ao todo, estima-se que quase 800 mil pessoas foram convocadas para trabalhar na contenção de danos após a explosão. Grande parte dessas pessoas que tiveram contato com toda essa

vieram a falecer anos mais tarde. É impossível averiguar o número certo das vítimas, mas existe uma estimativa que diz que até 16 mil pessoas desenvolveram câncer por conta dessa exposição à radioatividade. Por mais que esse acidente tenha sido muito grave, ele não foi o único. Os anos 80 foram cruéis para o Brasil. Nossa nação ainda vivia sob uma ditadura no início dessa década,

Porém, foi nesse mesmo período que a economia entrou em um período de grande instabilidade por conta de decisões tomadas nos anos anteriores. Muitos economistas definem os anos 80 como a década perdida, com índices altíssimos de inflação, desemprego e crises generalizadas. Em um cenário como esse, várias empresas e instituições acabam decretando falência,

não conseguem recursos para manterem as portas abertas. Foi nesse cenário que o Instituto Goiano de Radioterapia atuou na capital do estado de Goiás. Por ser um centro de radioterapia, pessoas que buscavam tratamento para diferentes tipos de câncer buscavam esse local. E para a realização dos exames, o laboratório usava um equipamento radioterapêutico, capaz de identificar as células cancerígenas. Só que, para fazer isso, esse equipamento

continha elementos radioativos dentro de uma cápsula com cloreto de césio-137. Você já está imaginando para onde eu vou, né? Por ser algo muito perigoso, esse material era protegido com uma cápsula de aço e chumbo. De acordo com os registros, esse equipamento estava com o Instituto desde os anos 70 e sem nenhum tipo de problema. As coisas começaram a piorar em 1985, quando o Instituto Goiano de Radioterapia

O Instituto foi para outro endereço, mas deixou para trás boa parte dos seus equipamentos, inclusive o de radioterapia. A maior parte das edificações pertencentes à clínica foi demolida, mas algumas salas foram mantidas em ruínas, inclusive aquela em que se localizava o aparelho. O lugar ficou abandonado e, com o tempo, o prédio foi tomado pelo mato.

E foi nesse cenário que dois rapazes decidiram entrar nas antigas instalações do Instituto Goiano de Radioterapia para ver se encontravam ali alguma oportunidade de negócio. Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira chegaram na sala do equipamento radioterapêutico e acharam que conseguiriam vender aquela peça por um bom preço.

equipamento da clínica e levaram para a casa de Roberto. O conjunto das peças pesava aproximadamente 200 quilos, e por isso a dupla achou que conseguiria um bom valor no ferro velho. Naquele mesmo dia, Roberto dos Santos e Wagner Mota começaram a apresentar sintomas de contaminação radioativa, como tontura, náuseas e vômitos. Porém, eles acreditaram que esses sintomas foram provocados por excesso de ingestão de alimentos.

Wagner teve o seu quadro clínico agravado por diarreia, enquanto já se formava alguns machucados em uma de suas mãos. No dia 18, ao solicitar auxílio médico no Hospital São Lucas, Wagner teve o seu mal-estar diagnosticado como sendo uma reação alérgica à ingestão de alimentos estragados, e foi aconselhado a permanecer em repouso pelo período de uma semana. Durante os três dias seguintes depois da chegada do equipamento radioativo em sua casa,

Roberto dos Santos, sem se dar conta da gravidade do que estava acontecendo com seu amigo, trabalhou na retirada do revestimento de chumbo que protegia a cápsula de aço, dentro de onde se encontrava o Césio-137. Ainda no dia 18, Roberto conseguiu tirar uma tampa de vidro grossa, conseguindo retirar uma parte do revestimento de chumbo, deixando de lado a cápsula em que estava o material radioativo.

das pessoas que moravam com ele, e o equipamento ficou na casa de Roberto por cinco dias. Foi depois desse período que ele e Wagner concordaram em levar o equipamento para vender no ferro velho. Como eu falei, o material que eles tinham era muito pesado, então a expectativa era que isso rendesse a dupla um bom dinheiro. Foi exatamente no ferro velho que eles perceberam que, de fato, o que existia ali poderia ser algo bem importante.

foi a mesma coisa que trouxe muita dor e sofrimento para os envolvidos nesse processo. Pessoal, eu já quero falar mais sobre como que Goiânia foi impactada pela radiação e qual foi a resposta para a crise que se instalou em seguida. Mas me dá um minutinho aí, tá, gente? Que daqui a pouco a gente volta e eu falo um pouco mais sobre radiação, brilho, riqueza, morte e sobrenatural. Segura aí que é um minutinho só. Fala, pessoal. Tô passando aqui rapidinho pra avisar vocês

. . . .

e ajudar o meu trabalho a continuar de pé. Abre aspas. A Lady me chamou. Titia, vem ver a pedrinha brilhante que o papai trouxe. Aí eu entrei no quarto e ela mesma apagou a luz. Realmente brilhava muito. Parecia até soltar raios. Fecha aspas. As palavras que você acabou de ouvir foram ditas por Luisa Odete, uma mulher que acompanhou com atenção a chegada de algo diferente do ferro velho. Como disse no bloco anterior,

E foi a partir daí que as coisas pioraram muito. O dono do ferro velho se chamava Devair Ferreira. Quando ele andava pelo seu pátio durante a noite, ele percebeu uma coisa estranha. E quando se aproximou, viu que algo estava brilhando. O brilho era azul e estava saindo de uma cápsula de aço. Depois de um certo esforço, ele conseguiu abrir a cápsula.

E o objetivo inicial era reaproveitar o aço, algo valioso para um ferro velho. Devair notou também que o que produzia a luminosidade era um pozinho, parecido com sal de cozinha. O que ele não sabia é que aquilo era césio-137, um material altamente radioativo e perigoso para a saúde. Devair ficou encantado com o pó que emitia um brilho azul no escuro.

ela, bem como o distribuiu para familiares e amigos. Durante os dias 19, 20 e 21, vários vizinhos, parentes, amigos e conhecidos foram convidados a ver aquele pozinho azul como sendo uma curiosidade. O irmão de Devair, Ivo Ferreira, levou um pouco de césio para sua filha, Lady das Neves, que tocou na substância e ingeriu as partículas do césio junto com o ovo cozido que a sua mãe havia preparado para jantar.

Tudo isso aconteceu enquanto as pessoas começaram a ter os primeiros sintomas de intoxicação pela radioatividade, como vômitos e enjoos. Outro irmão de Devair também teve contato direto com a substância. Pelo fato desse sal ser higroscópico, ou seja, absorver a umidade do ar, ele facilmente adere a roupa, pele e qualquer utensílio, podendo contaminar os alimentos e o organismo internamente.

No domingo do dia 20, crianças foram para a casa de Devair para brincar com as outras crianças que viviam ali. Elas ficaram aproximadamente três horas naquele ambiente, se expondo à radioatividade. Na manhã da segunda-feira, dia 21, Devair recebeu a visita de um amigo pintor de 42 anos. O visitante ficou muito empolgado com a descoberta do dono do ferro velho.

E o levou para sua casa, levando a radioatividade para outra parte da cidade. Mais tarde, ele ofereceu um pouco do que possuía o seu irmão de 47 anos, morador de uma outra área de Goiânia. Esse homem também colocou o Césio no bolso da calça, enquanto não chegava ao seu destino final. Ainda nesse mesmo dia, Devair Ferreira se sentindo muito feliz por possuir algo que parecia de outro mundo ou até sobrenatural.

distribuiu mais algumas porções a outros dos seus familiares. Por essa razão, várias pessoas fascinadas pelo brilho do material radioativo pintaram o próprio corpo com fragmentos do Césio 137. Infelizmente, muitas dessas pessoas estavam com seus dias contados. Ainda no dia 21, a saúde de Maria Gabriela, esposa do Devair, começou a ficar ruim.

constantes. Procurando atendimento médico no Hospital São Lucas, ela recebeu o mesmo diagnóstico dado ao Wagner, reação alérgica à ingestão de alimentos estragados. A mãe de Gabriela, ao saber que a filha não se sentia bem, saiu de Inhumas, cidade próxima à Goiânia, para oferecer uma ajuda. Durante os dias 22, 23 e 24 de setembro, os empregados do Ferro Velho manusearam os

de remover o restante do chumbo. No dia 23, Wagner, aquele primeiro que retirou o equipamento do instituto abandonado, não apresentava melhoras em seu quadro de saúde. Por isso, ele foi internado no Hospital Santa Maria, localizado no centro de Goiânia. Lá ele permaneceu até o dia 27, quando os efeitos da exposição radioativa na sua pele foram diagnosticadas como sendo uma doença de pele. Por essa razão, providenciaram a sua remoção

para o Hospital de Doenças Tropicais, o HDT, localizado no setor Parque das Laranjeiras. No dia 24, o sócio de Devair foi para o Ferro Velho para conhecer o pozinho que brilhava que estava todo mundo comentando. Depois de ter sido presenteado pelo Devair, esse sócio colocou o Césio em sua calça e foi para sua casa para mostrar o item brilhante para sua família. Na hora do almoço, ele colocou os fragmentos do Césio 137 sobre a mesa,

todos da sua família pudessem ver enquanto se alimentavam. Sua filha caçula de seis anos manuseou o material radioativo por diversas vezes. Devido ao fato de estar se alimentando com as mãos, a criança acabou ingerindo pequenas porções de césio. Os demais familiares, bem como alguns amigos presentes no local, também manusearam o material radioativo enquanto se alimentavam, mas com uma menor frequência.

bem mais que os adultos que estavam ali. O padrão que se seguiu a partir dali foi as pessoas que tiveram contato com o Césio começarem a passar mal e, em seguida, procuraram farmácias, postos de saúde e, em casos mais graves, hospitais. Pessoal, naquela época o SUS ainda não existia, então o acesso à saúde era um pouco diferente do que temos hoje. E até por isso, a identificação do que realmente estava acontecendo demorou. Os profissionais da saúde,

observando os sintomas, pensaram se tratar de algum tipo de doença contagiosa desconhecida, medicando os doentes em conformidade com os sintomas descritos. Maria Gabriela desconfiou que aquele pó que emitia um brilho azul era o responsável pelos sintomas que ocorriam na sua família. Ela e o empregado do Ferro Velho levaram a cápsula de césio para a vigilância sanitária. E a cápsula de césio ficou abandonada sobre uma cadeira na

dias. Ao ser atendida pelos médicos, a esposa do dono do ferro velho relatou para a junta médica que os vômitos e a diarreia se iniciaram depois que o seu marido desmontou o que ela chamou de aparelho estranho. Foi nesse momento que um dos heróis dessa história entrou em cena. O físico Walter Mendes Ferreira foi a primeira pessoa a descobrir que se tratava de um acidente radiológico. Walter

Assim que ele ligou, o aparelho acusou um índice altíssimo de radiação, independentemente da direção que lhe apontava. O físico achou que tinha algum erro e trocou o equipamento, e esse outro equipamento apontou a mesma coisa. Por conta de alguns protocolos do hospital, os bombeiros também foram chamados para atender a ocorrência do tal pó brilhante. Quando eles chegaram, tiveram como ideia descartar o pó em um rio da cidade,

isso acontecesse. O Césio não foi jogado no Rio e o físico fez com que o corpo de bombeiros e a polícia militar isolassem o prédio da vigilância sanitária, impedindo o acesso de qualquer pessoa nas suas dependências. Em seguida, Walter, juntamente com uma equipe, foram para o Ferro Velho para avaliar a situação e os equipamentos marcaram mais uma vez níveis altíssimos de radiação. Demorou um bom tempo para que ele convencesse Devair

que ele e sua família precisavam de cuidados imediatos caso quisessem continuar vivos. A partir de então, os órgãos do Estado foram chamados para limpeza da área e também para o cadastramento das pessoas que tiveram contato com o Césio. O governo da época tentou minimizar o acidente, escondendo dados da população, que foi obrigada a comparecer no Estádio Olímpico Pedro Ludovico para passarem pelos equipamentos que medem radiação.

O governo não deu o amparo necessário e boatos começaram a se espalhar. A memória recente que o mundo tinha sobre radiação era Chernobyl, que mesmo com dificuldades de acesso, colocou muitas pessoas em alerta. Para a mídia, o governo de Goiânia afirmava que o problema que estavam tratando era de um vazamento de gás. Uma razão que vale ser destacada para o fato do governo não querer muitas manchetes sobre isso

de Prêmio Internacional de Moto Velocidade no Autódromo Internacional Ayrton Senna. E o governador do estado, Henrique Santillo, não queria que o pânico fosse instalado nos estrangeiros. Mesmo com todas essas ações, o Césio 137 fez algumas vítimas fatais em Goiânia. A primeira foi Lady das Neves Ferreira, a filha de Ivo Ferreira de seis anos, e foi a vítima com a maior dose de radiação do acidente. Quando uma equipe internacional

chegou para tratá-la, ela estava confinada a um quarto isolado no hospital porque os funcionários estavam com medo de chegar perto dela. Ela desenvolveu inchaço na parte superior do corpo, perda de cabelo, danos nos jeans, pulmões e hemorragia interna. Ela morreu no dia 23 de outubro de 1987 de infecção generalizada no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Ela foi enterrada em um cemitério comum em Goiânia, em um caixão

especial de fibra de vidro revestida com chumbo, para evitar a propagação da radiação. Apesar dessas medidas, ainda houve tumulto no cemitério, onde mais de duas mil pessoas, temendo que o cadáver da criança envenenasse toda a área, tentaram impedir seu enterro usando pedras e tijolos para bloquear a rua do cemitério. Depois de dias de impasse, Lady foi enterrada em um caixão de chumbo lacrado, erguido por um guindaste, tudo para conter a radiação

o corpo da menina. Além dela, a Maria Gabriela também faleceu no dia 23 de outubro. Dois funcionários do Ferro Velho morreram porque manusearam o equipamento que continha o pó de césio. O próprio Devair veio a falecer. Se sentindo culpado pelo que aconteceu, ele se tornou alcoólatra e, por conta da radiação, desenvolveu câncer e morreu em 1994. Uma outra morte trágica foi a de Ivo Ferreira, que entrou em uma depressão

profunda após a morte da sua pequena lady. Ele passou a fumar seis maços de cigarro por dia e desenvolveu enfisema pulmonar em 2003, o levando à morte. A Associação das Vítimas do Césio 137 afirma que até o ano de 2012, quando o acidente completou 25 anos, 104 pessoas haviam morrido nos anos seguintes pela contaminação, seja por câncer ou por outros problemas.

aqui no podcast, que você pode procurar aí no feed do História em Meia Hora, e eles vão servir de complemento pra esse episódio aqui, beleza? O primeiro episódio se chama Chernobyl, o segundo se chama Marie Curie, e o terceiro se chama Guerra Fria. Agora, bora fazer aquele resumão de um minutinho pra você relembrar o que você aprendeu hoje, vamos lá. Quando falamos na história do Césio 137 Goiânia, precisamos pensar esse evento a partir de um olhar mais amplo. O século XX foi marcado pelo

E logo, a comunidade científica trabalhou para transformar isso em uma arma. Após a Segunda Guerra Mundial, o período de tensões entre Estados Unidos e União Soviética, a Guerra Fria, garantiu que nenhuma explosão acontecesse pela chance de uma destruição mútua. A partir de então, a radiação se tornou foco para o ramo energético e da saúde. No Brasil, o abandono, sem o descarte devido de materiais com elementos radioativos,

em Goiânia, após alguns catadores de lixo encontrarem o equipamento radiológico. A aparência do Césio acabou chamando a atenção de pessoas próximas a um dono do ferro velho, e com isso foram contaminadas. A curiosidade deu lugar ao medo e em seguida ao luto. O Brasil, que já passava por uma situação difícil, foi impactado por mais esse problema, que levou à morte de muitas pessoas.

de fato acontecendo. E isso nos leva a refletir o papel da mídia e das autoridades em grandes crises como essa e em pandemias como a do Covid-19 no ano de 2020, que o governo não só também escondeu informações, como também disse que não havia pandemia, depois falou que era só uma gripezinha e, por último, defendeu um tratamento precoce que não tinha comprovação científica. Mas isso já é um papo pra uma outra meia hora.

Obrigado por terem ouvido até aqui. Meu nome é Vitor Soares, eu sou professor de História e você acabou de ouvir o História em Meia Hora. Segue a gente aí na sua plataforma de áudio favorita pra não perder nenhum episódio. Se você estiver ouvindo no Spotify ou na Apple Podcast, avalia o nosso podcast aí com 5 estrelinhas, tá bom? Quero lembrá-los também que a melhor forma de apoiar o podcast é assinando o nosso Apoia-se, tá bom?

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