Batalha de Londres
A batalha que fez com que Londres fosse destruída, acabou ajudando os próprios britânicos? Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre a história da Batalha da Grã-Bretanha e Batalha de Londres
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Apresentação: Prof. Vítor Soares.
Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)
REFERÊNCIAS USADAS:- BEEVOR, Antony. A Segunda Guerra Mundial. Record, 2015.
- BEEVOR, Antony. Berlim 1945: a queda. Record, 2002.- HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Impérios: 1875–1914. Paz e Terra, 2011.
- HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: o breve século XX. Companhia das Letras, 1995.
- KEEGAN, John. A Segunda Guerra Mundial. Companhia das Letras, 2019.
- EVANS, Richard J. O Terceiro Reich em Guerra. Planeta, 2012.
- Batalha de LondresFase urbana da Batalha da Grã-Bretanha · Bombardeios noturnos e abrigos · Impacto na população civil · Estratégia e táticas aéreas · Blitz Spirit e propaganda
- História da França na Segunda Guerra MundialInvasão da Polônia e Blitzkrieg · Ocupação da Europa pela Alemanha · Evacuação de Dunkerque · Isolamento da Grã-Bretanha · Winston Churchill e resistência
- Legado e ConsequênciasFracasso alemão em dominar os céus · Fortalecimento para a continuidade da guerra · Bombardeios estratégicos aliados · Mudança de foco para a Operação Barbarossa
- Batalha InútilLuftwaffe vs. Força Aérea Real · Operação Leão Marinho · Sistema de radar Chain Home · Caças Supermarine Spitfire e Hawker Hurricane · Falta de pilotos experientes
- Chegada e adaptação nos EUAUso de abrigos subterrâneos e estações de metrô · Blackout e seus efeitos · Racionamento de alimentos · Evacuação de crianças (Operação Pied Piper)
- O Blitz SpiritNarrativa de calma e coragem · Discursos de Winston Churchill · Propaganda de guerra britânica · Análise de Angus Calder
- Desafios iniciais na AlemanhaBombardeio acidental de bairros residenciais · Retaliação britânica a Berlim · Foco em centros urbanos
- Tecnologia e Logística na Guerra AéreaVantagem do radar britânico · Limitações dos bombardeiros e caças alemães · Autonomia de combustível dos caças alemães · Navegação por rádio alemã e interferência britânica
Como que uma cidade resiste quando o céu inteiro vira inimigo? O que acontece com uma população? Durante 57 dias, os londrinos, pela noite, tinham que sair correndo para abrigos subterrâneos, em um dos episódios mais intensos e reveladores da Segunda Guerra Mundial. Isso aconteceu no que a gente chama de Batalha de Londres, e hoje eu quero resumir todo esse evento para você em meia horinha. Meu nome é Vitor Soares, sou professor de história, e seja muito bem-vindo ao História em meia hora.
O que a gente chama de Batalha de Londres é, na verdade, a fase urbana de um conflito aéreo maior, conhecido como Batalha da Grã-Bretanha. Esse conflito foi travado, em geral, por aviões. De um lado, a Força Aérea Britânica, e do outro, a Luftwaffe, a Força Aérea Alemã, que decidiu bombardear Londres em setembro de 1940.
Só que para a gente entender tudo isso, a gente precisa voltar alguns meses no tempo, porque foi o momento em que a Europa estava praticamente de joelhos para a Alemanha nazista, e a Inglaterra se viu quase sozinha no conflito. Em setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia e deu início à Segunda Guerra Mundial. Nos meses seguintes, a máquina de guerra nazista mostrou ao mundo uma estratégia que parecia impossível de parar. Eu estou falando do ataque relâmpago, que os alemães chamavam de Blitzkrieg.
Essa forma de fazer guerra consistia em usar a artilharia, tanques e aviões, tudo ao mesmo tempo, e de uma forma bem coordenada para atacar o inimigo tão rapidamente que ele não tivesse tempo de reagir. Em abril de 1940, a Dinamarca e a Noruega foram ocupadas em poucos dias. Em maio, as forças alemães cruzaram a Bélgica e os Países Baixos e contornaram as defesas da Linha Maginot, o sistema de defesas que a França havia construído na fronteira.
acreditando que deteria qualquer invasão. O que seguiu foi um colapso sem precedente. O exército francês era considerado um dos mais poderosos do mundo naquela época, e ele foi desorganizado e cercado em questão de semanas.
Antes da rendição total da França, uma operação para evacuar os soldados, principalmente os britânicos, precisou ser organizada. Entre 26 de maio e 4 de junho de 1940, a operação conhecida como evacuação de Dunkerque retirou mais de 338 mil soldados britânicos e aliados que estavam encurralados pelo avanço alemão.
Mesmo sendo um grande esforço logístico que deu resultado, isso também evidencia uma espécie de derrota, uma vez que o exército britânico voltou para casa sem boa parte do seu equipamento pesado, como tanques, artilharia e veículos.
Sem a França, a Grã-Bretanha estava praticamente sozinha. A União Soviética nessa época mantinha um pacto de não agressão com Hitler, desde 1939. Os Estados Unidos permaneciam oficialmente neutros, com a opinião pública dos Estados Unidos dividida entre os que queriam entrar na guerra e os que queriam ficar de fora.
O novo primeiro-ministro britânico Winston Churchill assumiu o cargo no dia 10 de maio de 1940. E desde o início, o Churchill recusou qualquer negociação com os nazistas. Em um discurso no parlamento, que ficou bastante conhecido, ele falou que a Grã-Bretanha lutaria nas praias, nos campos, nas ruas e nas colinas, e que nunca se renderia.
Do outro lado do Canal da Mancha, Hitler ordenou o planejamento da Operação Leão Marinho, que era baseada numa invasão terrestre à Grã-Bretanha. Mas para que ela fosse possível, havia uma condição. Primeiro, a Alemanha precisava dominar os céus britânicos. Entre julho e agosto de 1940, a Força Aérea Alemã, a Luftwaffe, lançou uma campanha para destruir a Força Aérea Real.
O plano era simples, pelo menos na teoria. Bastava eliminar a capacidade aérea britânica de defesa para que os aviões de transporte com soldados alemães pudessem cruzar o canal sem serem atacados.
Sem superioridade aérea, a Operação Leomarinho seria arriscada demais. Se os aviões ingleses fossem abatidos, a invasão seria viável. Os alemães atacaram aeroportos, bases de caças, fábricas de aviões e as estações de radar ao longo da costa sul e leste da Inglaterra. Essa rede de radar, que era chamada de Chain Home, era a maior vantagem tecnológica britânica.
Ela permitia detectar aviões inimigos ainda sobre o Canal da Mancha e direcionar esquadrões de defesa com precisão, sem desperdiçar combustível e nem pilotos patrulhando o céu às cegas. O comandante da caça britânica, o Marechal do Ar Hugh de Downing, construiu um sistema de comando e controle integrado, que transformava as informações de radar em ordens de missão em questão de minutos. Era uma vantagem que os alemães nunca conseguiram neutralizar.
Os caças britânicos Supermarine Spitfire e o Hawke Hurricane eram aeronaves de alta tecnologia para a época. O Spitfire, em especial, era comparável ao melhor caça alemão. E em algumas condições, até o superava. Mas a Força Aérea Real sofria um grave problema. A falta de pilotos experientes.
Cada combate aéreo custava homens que levavam meses para se treinar. Ao longo de agosto, as perdas britânicas em pilotos chegaram ao ponto bem preocupante. O próprio comandante Dowdinger reconhecia, em seus relatórios internos, que se a Lutwaffe mantivesse o ritmo de ataques contra as bases aéreas, a força aérea real poderia ser desgastada além do ponto de recuperação em questão de semanas.
Foi nesse momento crítico, em agosto de 1940, com a Força Aérea Real no limite, que aconteceu um evento que mudou toda a direção da guerra aérea. Na noite do dia 24 de agosto, bombardeiros alemães que buscavam alvos industriais no entorno de Londres
atingiram, por engano, alguns bairros residenciais da capital. Churchill ordenou uma retaliação imediata. A Força Aérea Inglesa decidiu atacar Berlim. O impacto militar foi quase nulo, porque poucos aviões chegaram ao alvo e os danos foram bem pequenos.
Por outro lado, o impacto político foi bem grande. Afinal, Berlim havia sido bombardeada, a cidade que o regime nazista apresentava como intocável, como o coração do terceiro Reich. Agora, ela tinha marcas de bombas britânicas.
De acordo com alguns relatos, o Hitler ficou furioso com essa ação. E ele tomou uma decisão que os seus próprios generais consideraram um erro estratégico grave. Hitler mandou a Luftwaffe parar de atacar as bases aéreas e concentrar os bombardeios em Londres. No sábado do dia 7 de setembro de 1940, às quatro e meia da tarde, os radares da costa sul da Inglaterra detectaram algo chegando.
Uma formação de mais de 350 bombardeiros alemães, escoltados por cerca de 600 caças, cruzando o Canal da Mancha em direção a Londres. Era a maior força aérea que a Luftwaffe havia enviado contra a Grã-Bretanha até então.
Os controladores da Força Aérea Real direcionaram todos os esquadrões disponíveis para interceptação, mas a frota alemã era grande demais para ser detida. O primeiro alvo foi o East End, a região portuária e industrial que acompanha o rio Tamiza ao leste da cidade. As docas de Surrey, Mewall e West India...
estavam entre os maiores complexos portuários do mundo, e por isso faziam sentido como alvo. Armazéns de madeira, borracha, açúcar e rum explodiram em chamas que dava para ver em boa distância. À noite, uma segunda onda de mais de 250 bombardeiros usou o clarão dos incêndios ainda ativos como guia de navegação, e atingiu as mesmas áreas logo em seguida.
Moradores de bairros do outro lado da cidade viam o horizonte iluminado, como se fosse o pôr do sol. Naquela noite, 436 civis morreram e 1.600 ficaram gravemente feridos. Aquele seria apenas o primeiro dos 57 dias consecutivos de bombardeio. O período que se seguiu ficou conhecido como Blitz, em referência a Blitzkrieg.
E isso foi meio irônico, porque ao invés de um ataque rápido e pontual, o ataque a Londres aconteceu em praticamente dois meses, noite após noite. Então, para quem viveu sob essa chuva de bombas, os dias demoraram a passar.
Sempre que um ataque se aproximava, as sirenes tocavam para avisar a população. As pessoas tinham aprendido a reconhecer os dois sons, o alerta de ataque e o sinal de fim de ataque. Entre um e outro podiam passar horas. E aqui vale um ponto importante sobre a escala do que a gente está falando.
O East End, em 1940, não era um bairro de elite. Era onde viviam os trabalhadores das docas, os estivadores, os operários das fábricas, as famílias de imigrantes judeus que haviam chegado do leste europeu nas décadas anteriores. Eram pessoas sem espaço para abrigo privado, sem recursos para sair da cidade, sem conexões políticas.
Quando os primeiros bombardeios caíram com força sobre esses bairros, moradores do East End foram às ruas protestar contra a percepção de que as áreas mais abastadas da cidade recebiam proteção melhor. Ou seja, isso indica que a Blitz não foi uma experiência igual para todo mundo. E esse dado importa para a gente entender tanto a história social britânica quanto os limites da narrativa oficial de unidade nacional que viria depois.
Agora, tem um ponto interessante que a gente pode pensar um pouco aqui agora. Como que uma cidade de 8 milhões de pessoas se adapta a ser bombardeada toda noite? O governo britânico havia se preparado para possibilidades de ataques aéreos antes mesmo da guerra começar. O governo distribuiu abrigos metálicos para famílias com quintal. Eram básicas, barulhentas durante os bombardeios e alagavam quando chovia.
Mas a verdade é que elas de fato protegiam, principalmente contra estilhaços e explosões próximas. Mais de 2 milhões e meio de abrigos foram instalados em Londres. O problema era que a maior parte da população do East End não tinha nenhum tipo de quintal. As pessoas dessa região viviam em cortiços, em sobrados.
Quando as sirenes tocavam, a melhor opção era descer para o porão. A solução que a própria população encontrou, em boa parte sem autorização prévia, foi tomar as estações de metrô. O governo ficou preocupado com as questões logísticas e com a possibilidade de pânico em espaço fechado. Mas diante dos londrinos aparecendo em massa com colchões e cobertores nas plataformas, as autoridades ficaram sem ter o que fazer.
As estações do metrô se tornaram dormitórios coletivos, chegando a abrigar 177 mil pessoas em uma única noite. A cidade também mudou fisicamente.
O blackout, que é o apagão total das luzes à noite, foi implementado desde o início da guerra para dificultar a navegação dos bombardeiros alemães. Nenhuma janela podia deixar a luz vazar. Postes de iluminação pública estavam apagados. Faróis de carros usavam capas especiais que deixavam passar apenas uma pequena claridade. O resultado era uma cidade de 8 milhões de pessoas.
mergulhada em escuridão completa toda noite. Os acidentes de trânsito triplicaram. Pessoas caíam em escadas e valetas. Crimes comuns, como roubos, aumentaram. Outro ponto importante a tratar foi o racionamento de alimentos, que entrou em vigor em janeiro de 1940.
mas se intensificou ao longo da Blitz. Carne, açúcar, manteiga, queijo, ovos e chá eram distribuídos de forma extremamente controlada. As filas em frente, açougues e mercearias faziam parte de algo que se tornou comum para os londrinos. Existe até uma história que possivelmente é uma lenda.
mas ilustra muito bem como que uma guerra mais prolongada afeta a vida da população comum. Uma senhora londrina, ao ser informada por uma vizinha de que uma bomba havia distribuído à padaria da rua, teria respondido, que horror, e agora, onde que eu vou comprar pão? Como se a questão prática imediata importasse mais do que o drama de uma guerra maior.
Desde o início da guerra, o governo havia organizado a evacuação de crianças das grandes cidades para o interior. Em Londres, mais de 800 mil crianças foram enviadas para as casas em regiões rurais da Inglaterra, país de Gales e Escócia, em um programa chamado Operação Pied Piper. Se você gosta de literatura e conhece as Crônicas de Nárnia, escrita pelo C.S. Lewis...
Você deve lembrar que as crianças da história foram retiradas de Londres e mandadas para o interior. As crianças saíam em grupos organizados pelas escolas, com etiquetas de identificação penduradas no pescoço, como bagagens postais, muitas delas vendo os pais pela última vez por meses ou anos.
Algumas se adaptaram bem às famílias anfitriães do interior. Já outras sofreram bastante com o isolamento. Algumas voltaram para Londres antes do previsto, porque os pais não aguentaram a separação ou até as crianças que fugiam. As estações de metrô durante a Blitz estavam cheias também de crianças que haviam ficado ou voltado. É aquela coisa, o Hitler e o Churchill comandavam a batalha, mas era a população comum que sofria o baque das mudanças.
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Pessoal, nenhum elemento da Batalha de Londres é mais debatido pelos historiadores do que o que ficou conhecido como o Blitz Spirit, que significa basicamente o espírito do Blitz. Basicamente, a Blitz Spirit é o fato da população londrina estar submetida a bombardeios noturnos.
Mas ela respondia com calma, com humor, com solidariedade e até coragem. Por incrível que pareça, poucas pessoas entravam em pânico. O Churchill entendeu desde o começo que a guerra psicológica e comunicacional era tão importante quanto a guerra que estava acontecendo nos céus.
Os seus discursos pelo rádio eram eventos nacionais. A BBC transmitia para o país inteiro e a voz do Churchill havia se tornado o som da resistência britânica. No dia 18 de junho de 1940, após a queda da França, o Churchill disse ao parlamento que aquele seria o momento em que o Império Britânico mostraria para todos do que ele era capaz. E que se a ilha sobrevivesse, as pessoas olhariam para aquele período e diriam essa foi a sua melhor hora.
A frase virou o símbolo de um estado de espírito coletivo que o governo trabalhou ativamente para construir e manter. As fotografias oficiais dessa época foram selecionadas para criar uma imagem de resistência. Mas não se engane, tá? O Blitz Spirit foi um projeto organizado e planejado para criar na população esse sentimento de calma.
É claro que existiram pessoas que se desesperaram ou recorreram a crimes para conseguir dinheiro. Mas tudo isso foi meio que apagado ou não colocado em evidência para não manchar a visão que estava construindo da população inglesa. A historiadora Angus Calder fez a análise mais cuidadosa desse processo. Calder não nega que houve solidariedade real, coragem e até humor durante o Blitz.
Mas ela mostra que o tal espírito do Blitz, como narrativa coesa, foi, em grande parte, uma construção bem mais tardia. Por isso, no episódio exclusivo dessa semana, eu quero falar mais sobre a propaganda de guerra do Reino Unido, tanto para recrutar os soldados, quanto para se manter de pé contra os nazistas. Se você quiser ouvir esse e os outros mais de 200 episódios exclusivos que já tem por lá, é só assinar o apoia.se barra história em meia hora.
Bem, mas o que é inegável é que a campanha de bombardeios não quebrou a vontade da população britânica de continuar essa guerra. E, inclusive, esse era o objetivo declarado do Hitler. O tiro saiu pela culatra. A experiência de ser bombardeado gerou raiva. E a raiva gerou determinação. Quando Churchill visitava alguns bairros destruídos, os moradores corriam até ele não apenas para demonstrar apoio, mas também para pedir ação.
A violência alemã, a violência nazista contra os civis, acabou os mobilizando em vez de desmoralizá-los. Os estrategistas alemães haviam apostado em uma teoria de guerra aérea desenvolvida nos anos 30, que dizia que populações urbanas submetidas a bombardeios intensos entrariam em colapso e pressionariam seus governos pela paz. A teoria estava errada e o Blitz provou isso de forma definitiva.
Para entender por que a Alemanha não conseguiu dominar os céus britânicos, é preciso olhar para a diferença tecnológica e logística entre os dois lados. O sistema de radar Chain Home cobria toda a costa sul e leste da Inglaterra, com uma rede de estações que detectava aeronaves a centenas de quilômetros de distância.
As informações chegavam a uma sala de operações central em Bentley Priory, perto de Londres, onde controladores moviam peças em um mapa físico como um jogo de xadrez em tempo real. Você já deve ter visto essa cena em alguns filmes, né? Onde os comandantes vão mexendo as peças num mapa grande que está na mesa na frente deles.
Os esquadrões da Força Aérea Real decolavam em emergência só quando havia informação precisa sobre a rota e a altitude dos bombardeiros alemães. Enquanto isso, a Luftwaffe não tinha nada disso. Seus bombardeiros foram projetados para apoio tático a operações terrestres e não para campanhas estratégicas longas contra centros urbanos defendidos.
Os alemães precisavam de escolta de caças, mas o principal caça alemão tinha uma autonomia de combustível muito pequena, que mal permitia 20 minutos de voo sobre Londres. Em pouco tempo, ele precisava voltar para suas bases na França. Qualquer combate aéreo prolongado sobre a capital britânica significava caças alemães retornando com os tanques no limite ou até não retornando.
Em agosto de 1940, quando a Luftwaffe concentrou ataques contra as bases aéreas da Força Aérea Real, os alemães estavam chegando perto de um resultado decisivo. Como eu disse, as perdas britânicas em pilotos eram insustentáveis no ritmo que estavam acontecendo, e os comandantes sabiam disso.
Só que quando Hitler fez a mudança do foco para Londres, como eu falei no começo desse vídeo, ele acabou retirando a pressão exatamente de onde ela estava fazendo mais efeito. Dessa forma, as bases aéreas da Força Aérea Real tiveram semanas para se recuperar. Novos pilotos foram treinados, aviões danificados foram reparados, e a janela de oportunidade alemã acabou se fechando.
Ainda pensando sobre essa questão tecnológica, o fato dos bombardeios serem noturnos também passa por uma lógica e por uma estratégia militar. Pela noite, a interceptação pela força aérea real era bem mais difícil. Por outro lado, os ataques noturnos acabam também diminuindo a precisão dos bombardeiros alemães.
Eles não tinham referências visuais confiáveis, e as bombas caíam em padrões bem mais aleatórios. Os sistemas alemães de navegação por rádio, como o Nikkebay e depois o X-Gerat, foram parcialmente neutralizados pelos engenheiros britânicos, que descobriram como interferir nas frequências.
Bombardeiros que acreditavam estar sob docas industriais acabavam mandando bombas em campos abertos e em áreas periféricas. É claro que a destruição ainda era enorme, mas muito menos precisa do que os alemães planejavam. O blitz não terminou em outubro de 1940, que foi a data final da chamada Batalha de Londres. Ela se manteve por alguns meses, com variações de intensidade.
Algumas noites eram mais tranquilas, enquanto outras eram traumáticas. Por exemplo, a noite de 29 de dezembro de 1940, que ficou conhecida como a segunda grande noite de fogo. A Luftwaffe usou bombas incendiárias em larga escala, e o vento seco daquela noite transformou incêndios pequenos em um cenário completamente caótico. O coração histórico de Londres, a área ao redor da Catedral de São Paulo, foi totalmente destruído.
Dezenas de igrejas históricas foram destruídas, assim como essa. Só nessa noite, mais de 160 incêndios foram registrados. Lembra que eu falei da produção de fotos do Churchill para a propaganda do país? Então, essa catedral teve um papel central. A catedral tinha uma equipe de vigias permanentes, voluntários que ficavam no telhado durante os bombardeios, apagando as bombas incendiárias antes que elas se espalhassem.
Naquela noite, dezenas de bombas incendiárias caíram sobre a cúpula e foram apagadas uma a uma. Uma única bomba que explodiu atravessou o teto da igreja, mas não incendiou. Foi nesse lugar que alguns registros foram feitos e espalhados por toda a Inglaterra, com o intuito de manter o ânimo de uma guerra que estava se estendendo ainda mais. Os 57 dias da Batalha de Londres pareceram uma eternidade.
Mas como a guerra estava longe de acabar, mais bombardeios foram feitos na Inglaterra. Em março e em abril de 1941, os bombardeios pesados voltaram com força, dessa vez expandidos para outras cidades britânicas, como Coventry, Birmingham, Liverpool, Bristol, Plymouth e Belfast. Coventry, por exemplo, já tinha sido praticamente toda destruída em novembro de 1940, mas mesmo assim acabou recebendo novos ataques.
Os alemães chamaram esse tipo de ataque total de Coventrierem, transformando o nome da cidade num verbo que significa destruir completamente. A Força Aérea Real tentou ataques de retaliação contra algumas cidades alemães, mas naquele momento ainda não tinha capacidade de causar destruição comparável.
Mas isso vai mudar nos anos seguintes. O último grande ataque do Blitz sobre Londres aconteceu na noite do dia 10 de maio de 1941. Foi o mais destrutivo de toda a campanha. 550 bombardeiros lançaram 700 toneladas de explosivos e 87 mil bombas incendiárias sobre a cidade. Mais de 1.400 pessoas morreram naquela noite.
O parlamento, o Museu Britânico e o Hospital St. Thomas foram atingidos. Todos pontos importantes e simbólicos também para Londres. A partir desse ataque, mais de 2 mil incêndios foram registrados. Um terço das ruas de Londres ficaram totalmente bloqueadas.
Esse foi um dos ataques mais violentos e mortais, mas curiosamente foi a partir dele que as batalhas aéreas diminuíram. Não porque a Grã-Bretanha havia sido derrotada, mas porque a Alemanha tinha um novo destino para sua força aérea. No dia 22 de junho de 1941, a Alemanha lançou a Operação Barbarossa.
que tinha como objetivo a invasão da União Soviética. Era a maior operação militar de toda a história, com mais de 3 milhões de soldados alemães avançando numa frente de quase 3 mil quilômetros. A Luftwaffe foi deslocada em massa para o leste, e Londres deixou de ser prioridade.
O saldo final da Blitz é algo que merece a nossa atenção. Entre setembro de 1940 a maio de 1941, os bombardeios sobre a Inglaterra mataram mais de 43 mil civis. E dentro desse número, mais de 28 mil estavam em Londres. Mais de 1 milhão de casas londrinenses foram danificadas ou destruídas. E 1,4 milhão de pessoas ficaram desabrigadas na capital.
Do ponto de vista militar, a Batalha da Grã-Bretanha pode ser considerada uma derrota alemã. A Luftwaffe não conseguiu a superioridade aérea necessária para a tal Operação Leão Marinho. A invasão foi adiada e acabou nunca acontecendo. A Inglaterra manteve o seu status de ser uma ilha difícil de ser invadida.
E podemos ir um pouco além até. A vitória simbólica dos ingleses os fortaleceu para apoiar a força aliada na continuidade da guerra. Por exemplo, foi do território inglês que vários aviões partiram para bombardear a Alemanha e o próprio Diadê contou com o planejamento e atuação direta das forças inglesas. É um consenso entre os historiadores que isso só foi possível graças ao que aconteceu na Batalha de Londres, graças aos seus desdobramentos.
Churchill soube usar esse evento politicamente, ao homenagear os pilotos da Força Aérea Real, em um discurso que ficou entre os mais citados da língua inglesa. Ele disse o seguinte, abre aspas, Fecha aspas.
Essa frase, por mais que seja uma frase até curta, ela fez referência a um feito bem marcante da aeronáutica inglesa. Em agosto de 1940, no auge dos combates aéreos, a Força Aérea Real tinha menos de mil caças operacionais e 1.400 pilotos ativos. Do outro lado, a Luftwaffe mobilizou mais que o dobro do efetivo total britânico. Os pilotos britânicos chegavam a fazer 3, 4 missões de combate por dia. Foi um feito impressionante.
O legado da Batalha de Londres foi tecnológico e ideológico também. O Blitz demonstrou de forma definitiva que bombardeios aéreos sobre cidades não necessariamente quebram a moral da população. Pelo contrário, algumas vezes podem acabar fortalecendo. Os britânicos e os americanos usaram bombardeios estratégicos contra cidades alemães a partir de 1942, causando mortes civis em escala ainda maior.
Por exemplo, o famoso bombardeio de Dresden, em fevereiro de 1945, matou entre 22 a 25 mil pessoas numa única operação. A lógica que a Alemanha havia aplicado sobre Londres foi aplicada de volta, aplicada com força.
A Guerra Aérea havia se tornado parte do cotidiano do conflito moderno, e infelizmente isso não desapareceu com o fim da Segunda Guerra Mundial. Pessoal, eu vou recomendar três episódios aqui do podcast, que você pode procurar aqui no feed do História em Meia Hora, e eles vão servir de complemento para esse episódio que você acabou de ouvir, beleza?
Eu citei dois eventos históricos que tem episódios, que é a retirada de Dunkerque, tem um episódio sobre isso, e também a Operação Barbarossa. Mas eu acho que os mais importantes são esses três. Primeiro, o episódio chamado Churchill. Segundo, o episódio que se chama Segunda Guerra Mundial. E por último, o episódio que se chama Alemanha na Segunda Guerra.
E agora bora fazer aquele resumão de um minutinho pra você relembrar tudo que a gente aprendeu hoje. Vamos lá. Quando falamos na história da Batalha de Londres, estamos falando de um conflito que aconteceu no contexto da Batalha da Grã-Bretanha, entre 1940 a 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha nazista intensificou alguns bombardeios aéreos contra a capital britânica.
Depois de não conseguir derrotar a Força Aérea Real em combates diretos, Hitler autorizou a Luftwaffe a atacar centros urbanos, iniciando o período que conhecemos como Blitz, isso em setembro de 1940. Durante 57 dias, Londres sofreu ataques noturnos praticamente toda noite. Áreas industriais, portos, ferrovias e bairros residenciais foram atingidos diretamente, causando milhares de mortes.
e grande destruição material. Apesar do impacto devastador, a resistência britânica foi decisiva. A Força Aérea Real conseguiu conter a superioridade aérea alemã, impedindo uma invasão terrestre da ilha. A liderança do primeiro-ministro Winston Churchill foi bem importante para manter o moral da população, com discursos que enfatizavam a resistência e a unidade nacional. Imagens de Londres em chamas, mais ainda de pé, se tornou símbolo da determinação britânica.
A Batalha de Londres marcou um ponto de virada na Segunda Guerra Mundial. A Alemanha fracassou em dominar os céus britânicos, adiando de forma definitiva os seus planos de invasão. E isso mostra pra gente que uma guerra não é só vencida por armas, mas também por discursos e propaganda, algo que vai se repetir durante todo o período da Guerra Fria. Mas isso já é um papo pra uma outra meia hora.