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Revolução Sandinista

25 de abril de 202631min
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A Nicarágua teve uma história muito marcada por conflitos políticos. Algumas figuras, principalmente Augusto César Sandino, se tornaram ícones de um nacionalismo e anti-imperialismo que até hoje reverbera em todo o continente. Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre o que foi a Revolução Sandinista.

- BOOTH, John A. The End and the Beginning: The Nicaraguan Revolution. Boulder: Westview Press, 1985.

- LAFEBER, Walter. Inevitable Revolutions: The United States in Central America. New York: W. W. Norton, 1993.

- ZIMMERMANN, Matilde. Sandinista: Carlos Fonseca and the Nicaraguan Revolution. Durham: Duke University Press, 2000.

- KINZER, Stephen. Blood of Brothers: Life and War in Nicaragua. Cambridge: Harvard University Press, 2007.

- JUNIOR, Nelson Kautzner Marques. Breve história da revolução Sandinista na Nicarágua. REBELA-Revista Brasileira de Estudos Latino-Americanos, v. 9, n. 2, 2019.

- GOBAT, Michel. Confronting the American Dream: Nicaragua under U.S. Imperial Rule. Durham: Duke University Press, 2005.

- HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

- PÉREZ-STABLE, Marifeli. The Cuban Revolution: Origins, Course, and Legacy. New York: Oxford University Press, 1999.

- GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2010.

Participantes neste episódio1
V

Vítor Soares

HostProfessor de história
Assuntos2
  • História da NicaráguaIntervenções estrangeiras · Ditadura de Somoza · Resistência de Sandino · Frente Sandinista de Libertação Nacional · Guerra Civil de 1979
  • Revolução SandinistaCruzada Nacional de Alfabetização · Reforma Agrária · Guerra contra a Contra · Escândalo Irã-Contras · Eleições de 1990
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Você já parou para pensar o que acontece quando um país pequeno, pobre e sem o exército moderno decide se rebelar contra a maior potência do mundo? O que acontece quando um punhado de guerrilheiros derruba uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos e decide construir uma nova sociedade praticamente do zero? Essa é a história da Revolução Sandinista, um dos episódios mais dramáticos, controversos e fascinantes da América Latina no século XX.

E há também uma história que nos diz sobre como o mundo funciona até hoje. Meu nome é Vitor Soares e sou professor de história. E seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora.

A Nicarágua é um país que a maioria dos brasileiros conhece bem pouco. É o maior país da América Central em extensão territorial. Ela faz fronteira com Honduras ao norte e ao sul com a Costa Rica. E tem pouco mais de 7 milhões de habitantes. A Nicarágua tem uma história marcada por uma sequência de intervenções estrangeiras, ditaduras e resistências populares. Para entendermos a Revolução Sandinista de 1979, precisamos voltar no tempo.

para ver como que a Nicarágua chegou até aquele ponto. Até porque uma revolução não surge do nada. Elas são resultado de décadas, às vezes de séculos, de tensões acumuladas. A história moderna da Nicarágua começa com uma figura que parece saída de um romance de aventura.

William Walker, um estadunidense do Tennessee que, em 1856, invadiu a Nicarágua com um grupo de mercenários. Depois, ele se autoproclamou presidente do país, restaurou a escravidão que havia sido abolida décadas antes e transformou a América Central numa extensão do sul escravista dos Estados Unidos. William Walker foi derrotado por uma coalizão de países centro-americanos e fuzilado em Honduras em 1860.

Mas o episódio estabeleceu um padrão que se repetiria, a Nicarágua como um território disponível para os projetos e interesses estrangeiros. Nas décadas seguintes, o país foi governado por uma série de líderes que alternavam entre liberais e conservadores, num ciclo de instabilidade que os Estados Unidos observavam com um crescente interesse estratégico.

O canal interoceânico era o grande tema geopolítico da época. Antes do canal do Panamá, a Nicarágua era a rota favorita para ligar o Oceano Atlântico ao Pacífico. Em 1893, o general José Santos Zelaya assumiu o poder e governou a Nicarágua por 16 anos.

Zelay era uma espécie de modernizador autoritário, que construiu estradas, expandiu a educação, unificou o território e tentou afirmar a soberania nicaragüense frente às pressões dos Estados Unidos.

Quando ele começou a negociar com a Alemanha e com o Japão sobre uma possível concessão de um canal, Washington decidiu entrar no jogo. No ano de 1909, os Estados Unidos apoiaram abertamente uma rebelião que derrubou o Zelaya. O país entraria então num longo período de instabilidade, seguido por uma ocupação militar direta. Entre 1912 e 1933, os fuzileiros navais dos Estados Unidos ocuparam a Nicarágua quase que continuamente.

Essa ocupação tinha um objetivo duplo, que era garantir os interesses econômicos dos Estados Unidos, principalmente das empresas bananeiras e cafeicultoras, e também pedir que qualquer governo nicaragüense se tornasse suficientemente independente para ameaçar esses interesses. E foi durante essa ocupação que os Estados Unidos criaram a Guarda Nacional Nicaragüense, uma força militar treinada e equipada pelos Estados Unidos que deveria manter a ordem após a retirada dos soldados.

Essa decisão teria consequências sérias para Nicarágua nas décadas seguintes. Mas a ocupação encontrou resistência. E a resistência tinha um nome que ficaria gravado para sempre na história da América Latina. Eu estou falando de Augusto César Sandino.

Sandino era filho de um proprietário de terras de classe média e de uma trabalhadora rural indígena, uma origem mestiça que moldou a sua visão de mundo. Ele havia trabalhado no México nos anos 20, onde foi exposto às ideias da Revolução Mexicana e do movimento operário internacional.

Quando ele voltou a Nicarágua e encontrou o seu país ocupado por tropas estrangeiras, ele decidiu que não podia ficar parado. Em 1927, enquanto a maioria dos líderes militares nicaragüenses aceitava um acordo com os norte-americanos, o Sandino recusou.

Com um pequeno grupo de camponeses e trabalhadores rurais, ele foi para as montanhas da região, ao norte do país, e começou uma guerrilha que duraria seis anos. O que o Sandino fez foi extraordinário. Sem acesso a armas modernas, sem treinamento formal, sem apoio externo, o seu exército defensor da soberania nacional manteve os soldados dos Estados Unidos na defensiva, e isso por anos. Esse feito foi grandioso porque, naquele momento,

Essa força militar dos Estados Unidos era uma das mais fortes do mundo. Sandino usava o terreno montanhoso com bastante maestria. Ele atacava e desaparecia. Ganhava o apoio das comunidades camponesas com uma mistura de carisma pessoal, discurso anti-imperialista e redistribuição de terras nas regiões sob o seu controle.

O jornalista dos Estados Unidos, Scarleton Beals, o entrevistou nas montanhas em 1928. E as suas reportagens transformaram Sandino numa figura conhecida internacionalmente. Sandino passou a ser chamado de o General de Homens Livres. Em Washington, ele era descrito como um bandido e, claro, um comunista.

Mas, para os camponeses nicaragüenses, ele era um herói. Em 1933, as tropas dos Estados Unidos finalmente se retiraram da Nicarágua, em parte por pressão da opinião pública internacional e, em parte, pelo custo crescente da ocupação em plena Grande Depressão, causada pela crise de 1929. O Sandino negociou um acordo de paz e depois as armas.

Mas a paz durou pouco tempo. Em fevereiro de 1934, o Sandino foi convidado para jantar com o presidente nicaragüense. E ao sair desse encontro, ele foi capturado e assassinado por membros da Guarda Nacional.

O manante do assassinato era o chefe da Guarda Nacional, Anastasio Somoza Garcia. Dois anos depois, Somoza daria um golpe e iniciaria uma das dinastias ditatoriais mais duradouras da história da América Latina. A família Somoza governou a Nicarágua por mais de 40 anos.

de 1936 a 1979. Primeiro, Anastasio Somoza Garcia. Depois, o seu filho, Luís Somoza de Baile. E, finalmente, o seu outro filho, Anastasio Somoza de Baile, que seria, inclusive, o último da dinastia. Foi uma...

ditadura familiar que funcionava basicamente como uma empresa. Os Somoza eram proprietários de aproximadamente um quinto de toda a terra cultivável da Nicarágua. Eles controlavam as principais empresas do país, monopolizavam o comércio de exportação e usavam o estado como uma espécie de extensão do patrimônio familiar.

A frase atribuída ao primeiro Somoza resume bem a lógica do regime. Quando ele foi questionado sobre uma possível eleição fraudulenta, ele teria dito que, abre aspas, você ganhou as eleições, mas eu ganhei a contagem dos votos. Fecha aspas. O apoio dos Estados Unidos ao Somoza foi constante e entusiasmado por muitas décadas. O presidente Franklin Delano Roosevelt teria dito sobre o primeiro Somoza que, abre aspas, pode ser um filho da p***, mas é o nosso f***.

Desculpa falar essas palavras, gente, mas essa frase resume bem a lógica da Guerra Fria, só que aplicada à América Central. Não importava se os Somoza fossem corruptos, violentos e antipopulares. O que importava é que eles eram anticomunistas. Eles abriam o país ao capital norte-americano e garantiam a estabilidade regional que Washington desejava.

A oposição ao regime somozista existia, mas era sistematicamente reprimida pela Guarda Nacional, que funcionava como força policial, exército e milícia pessoal dos Somoza, tudo ao mesmo tempo. Estudantes universitários, trabalhadores, camponeses, intelectuais e setores da Igreja Católica que estavam ligados à teologia da libertação

foram construindo uma oposição crescente ao longo dos anos. E foi dentro desse caldeirão de descontentamento que nasceu em 1961 a Frente Sandinista de Libertação Nacional, a FSLN. A FSLN foi fundada por um pequeno grupo de estudantes e intelectuais de esquerda que buscavam inspiração tanto em Sandino quanto na Revolução Cubana, que havia triunfado dois anos antes. Carlos Fonseca Amador, o principal fundador e ideólogo da organização,

foi quem recuperou e reinterpretou o legado de Sandino, o transformando no símbolo unificador do movimento. A FSLN passou seus primeiros anos na ilegalidade, sofrendo derrotas militares pesadas, perdendo líderes para a repressão e para os embates armados com a Guarda Nacional. Carlos Fonseca foi morto em combate em 1976.

Mas a organização sobreviveu, aprendeu e foi crescendo lentamente ao longo de toda a década de 70. O ano de 1972 foi um ponto de virada na história da Nicarágua. Em dezembro, um terremoto destruiu grande parte de Managua, a capital, matando entre 10 a 20 mil pessoas e deixando centenas de milhares desabrigados.

A catástrofe poderia ter sido uma oportunidade de reconstrução e reforma, mas o que aconteceu em vez disso foi um escândalo de proporções gigantescas. Anastasio Somoza de Baile e o seu círculo desviaram a ajuda internacional que chegava do mundo todo, como alimentos, medicamentos e dinheiro, para os bolsos da família e dos aliados. Empresas controladas pelo Somoza lucraram com os contratos de reconstrução.

A ajuda dos Estados Unidos foi canalizada para a Guarda Nacional em vez de para as vítimas. O nível de roubalheira foi tão grande que até setores das elites nicaragüenses, que haviam convivido pacificamente com a ditadura, começaram a se distanciar do regime.

A crise se afundou ao longo da década. A FSLN ganhou visibilidade internacional em 1974, quando fizeram uma operação ousada. Um grupo de guerrilheiros tomou como reféns vários membros da elite nicaragüense durante uma festa diplomática e negociou a libertação de presos políticos, resgate milionário e uma transmissão de um comunicado político pela Rádio Nacional.

Somoza cedeu a todas as exigências e depois se vingou com uma campanha de repressão nas regiões camponesas onde a FSLN tinha apoio. Uma campanha que incluiu massacres, torturas e desaparecimentos documentados por organizações internacionais de direitos humanos.

Em janeiro de 1978, um evento que ninguém planejou acelerou ainda mais o colapso do regime. Pedro Joaquim Chamorro, editor do jornal La Prensa, e o principal porta-voz da oposição moderada ao somozismo, foi brutalmente assassinado. O assassinato gerou uma explosão de indignação popular. Greves espontâneas paralisaram o país. Manifestações tomaram as ruas.

Mesmo os empresários que haviam tolerado Somoza por décadas decidiram sair em protesto. O regime havia cometido um erro que não poderia ser desfeito. Eles tornaram um opositor em Marte. A partir de 1978, a situação na Nicarágua evoluiu de uma guerrilha de baixa intensidade para uma insurreição nacional em larga escala. Em agosto daquele ano, um grupo de guerrilheiros sandinistas

tomou o Palácio Nacional em plena sessão da Assembleia Legislativa, fazendo reféns mais de mil pessoas, incluindo parlamentares, funcionários e familiares de membros do governo. A operação foi comandada por Eden Pastora, que ficou conhecido como Comandante Zero.

Mais uma vez, Somoza cedeu às exigências como a libertação de presos políticos, transmissão de outro comunicado sandinista, um resgate e um salvo conduto para Cuba. A imagem do regime havia sido destruída publicamente. O ano de 1979 foi de guerra civil aberta. A FSLN lançou uma ofensiva final em junho e cidades de todo o país se levantaram.

apenas a guerrilha combatendo, eram bairros inteiros. Jovens de apenas 16 anos construindo barricadas com pedras e garrafas. Mães escondendo combatentes. Padres transmitindo mensagens pelo rádio. A Guarda Nacional respondeu com bombardeios aéreos em bairros populares, massacrando civis e com execuções sumárias.

O número de mortos naqueles meses finais ficou estimado entre 30 a 50 mil pessoas. Lembrando que estamos falando de um país com pouco mais de 2 milhões de habitantes na época.

a comunidade internacional começou a abandonar o Somoza. O presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, pressionado pelos relatórios de violações de direitos humanos e pela evidência que o regime estava perdendo, tentou negociar um Somosismo sem Somoza, ou seja, uma transição que preservasse a Guarda Nacional, tirasse o Somoza do poder, mas mantivesse.

a influência norte-americana. A proposta foi rejeitada, tanto pela FSLN, quanto pela oposição moderada nicaragüense. No dia 17 de julho de 1979, Anastasio Somoza de Baile fugiu para os Estados Unidos, carregando o que conseguiu levar do Tesouro Nacional. Dois dias depois, as colunas sandinistas entraram em Managua.

A revolução havia vencido. Somoza seria assassinado no exílio no Paraguai, em 1980. Provavelmente por um comando sandinista, mesmo que isso nunca tenha sido provado oficialmente. O que os sandinistas fizeram com o poder é tão importante quanto como eles chegaram até ele.

A Junta de Reconstrução Nacional que assumiu o governo era uma coalizão heterogênea. Havia comandantes guerrilheiros da FSLN, mas também empresários moderados, intelectuais liberais e representantes da igreja. Era um sinal de que a Revolução, pelo menos inicialmente, não pretendia seguir o modelo cubano de partido único e de estatização total.

A FSLN dominava o poder militar e grande parte do poder político, mas havia espaço, ainda que limitado e tenso, para outras forças. A ideia, a partir desse momento, era de remodelar todo o país.

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Bem, as primeiras medidas do governo revolucionário sandinista foram ambiciosas e, em vários aspectos, até surpreendentes. A chamada Cruzada Nacional de Alfabetização, lançada em 1980, mobilizou mais de 80 mil jovens voluntários que foram às regiões mais distantes do país para ensinar a população rural a ler e escrever.

E em apenas cinco meses, a taxa de analfabetismo caiu de aproximadamente 50% para 13%. Um resultado surpreendente que a Unesco reconheceu publicamente como um dos maiores esforços de alfabetização em massa da história.

A reforma agrária distribuiu terras, as terras das propriedades do Somoza e de latifundiários ausentes, e elas foram transferidas para cooperativas e direto também para camponeses. O sistema de saúde foi expandido com a construção de postos de saúde em região que nunca haviam tido atendimento médico. Cuba também participou desse processo. A ilha enviou médicos e professores.

A mortalidade infantil caiu nos primeiros anos de governo. Olha só o que diz o professor Nelson Kautzner Mark Jr. sobre esses avanços. Os primeiros benefícios da Revolução Sandinista foram a estatização das minas de ouro e de cobre e de pescado. Iniciou a reforma agrária e outros.

aconteceu a redução da taxa de analfabetismo de 52% para 12%. Isso foi conseguido através da Cruzada Nacional de Alfabetização. Para todo o país, foram recrutadas diversas pessoas que ensinaram os nicaraguenses a ler e escrever. E ainda eram informados sobre as ideias de Sandino e o risco do imperialismo para a Nicarágua.

A Cruzada Nacional de Alfabetização tinha 60% de mulheres para ensinar a ler e escrever, e 80% do sexo feminino que pertencia à Brigada de Saúde, que percorria por todo o país para tratar as pessoas do interior da Nicarágua com menores condições financeiras. Portanto, as mulheres continuaram a ter elevada importância durante os combates da Revolução Sandinista e no momento da implantação dos benefícios para o povo". Fecha aspas.

Mas o governo sandinista também apresentava contradições e autoritarismos que foram crescendo ao longo do tempo. A liberdade de imprensa era bem limitada. Grupos indígenas da costa atlântica, como os mesquitos, que tinham uma cultura e uma história distintas do resto da Nicarágua, entraram em conflito com o governo de Managua, que tentou impor uma visão de desenvolvimento e de integração nacional que não respeitava as especificidades dessas comunidades.

Havia setores da FSLN que claramente viam o partido como a vanguarda revolucionária, com o direito de liderar o processo, independentemente da vontade popular expressa em eleições. A questão religiosa também era complexa. A Nicarágua era um país profundamente católico, e a relação entre a Revolução e a Igreja...

foi ambígua desde o início. Setores da igreja, identificados com a teologia da libertação, de fato apoiavam o governo. Alguns sacerdotes ocupavam cargos ministeriais. Mas a hierarquia conservadora da igreja, liderada pelo cardeal Miguel Obando Ibravo, se tornou uma das vozes mais críticas do regime. O Vaticano, de João Paulo II, profundamente anticomunista, pressionou os sacerdotes que serviam no governo a abandonar os seus cargos.

A tensão entre igreja e revolução seria uma das marcas do período sandinista. Se o governo de Mikárter havia tentado gerenciar a transição nicaragüense com certa liberdade, o governo de Ronald Reagan, que assumiu em janeiro de 1981, não tinha nenhuma abertura ao diálogo.

Para Reagan e os seus assessores, a Nicarágua sandinista era uma ameaça comunista no quintal dos Estados Unidos. Um satélite cubano e soviético que precisava ser destruído. A política norte-americana mudou totalmente. Saiu do diálogo diplomático e entrou o apoio aberto a uma força antirevolucionária, que ficou conhecida como Contra.

A CONTRA, que é uma abreviação para Contra Revolucionários, foi criada, financiada, treinada e dirigida pela CIA. Era composta, em grande parte, por ex-membros da Guarda Nacional de Somoza, complementados por camponeses recrutados nas regiões fronteiriças com Honduras.

onde operavam as suas bases. Inclusive, Honduras se tornou a principal plataforma de lançamento das operações contra a Nicarágua. Tudo isso com o consentimento e o apoio do governo hondurenho, que recebia em troca uma ajuda militar dos Estados Unidos.

A Argentina, que também vivia, inclusive, sob uma ditadura militar, também forneceu treinamento e assessoria nos primeiros anos. A guerra travada pela contra foi brutal e voltada para a população civil. Ataques a cooperativas agrícolas, assassinatos de professores e trabalhadores de saúde, destruição de infraestrutura com minas terrestres em estradas rurais, enfim.

O objetivo foi tornar o custo da revolução insuportável para a população. Organizações de direitos humanos, incluindo a Anistia Internacional, documentaram massacres e atrocidades cometidos pela Contra. Em 1984, o governo dos Estados Unidos aprovou a emenda Bolland, proibindo o financiamento federal americano à Contra.

Reagan ignorou o congresso e o seu governo encontrou formas alternativas de continuar financiando os contra-revolucionários. E isso levaria ao escândalo Irã-Contras, um dos maiores escândalos da história norte-americana.

O escândalo Irã-Contra, que foi revelado em 1986, era de uma complexidade quase inacreditável. Funcionários do governo de Ronald Reagan venderam armas secretamente para o Irã. Aí um detalhe, o Irã estava sob embargo dos Estados Unidos. O governo Reagan usou os lucros para financiar a Contra na Nicarágua, burlando completamente a proibição do Congresso.

No centro do esquema estava o Tenente-Coronel Oliver North, assessor do Conselho de Segurança Nacional. O escândalo abalou o governo de Ronald Reagan, mas não o destruiu. O Reagan alegou que não sabia de todos os detalhes. O problema é que se isso fosse verdade, levantaria questões sérias sobre quem realmente governava os Estados Unidos.

Eu vou falar mais sobre escândalos de corrupção no governo dos Estados Unidos em um episódio exclusivo para os apoiadores dessa semana. Se você quiser ouvir esse e os outros mais de 200 episódios exclusivos que já tem por lá, é só assinar o apoia.se barra história em meia hora.

Bem, os efeitos combinados da guerra contra contra, da guerra contra contra, é difícil de falar, e do bloqueio econômico dos Estados Unidos foram cruéis para a economia nicaragüense. Os Estados Unidos pressionaram o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento a cortar empréstimos à Nicarágua. Eles impuseram o embargo comercial direto em 1985.

O custo da guerra consumia entre 40% a 60% do orçamento nacional em certos anos. A inflação atingiu níveis catastróficos e, em 1988, chegou a mais de 36 mil por cento ao ano. Uma das maiores imperiflações da história da América Latina. O desabastecimento era algo cotidiano. A economia que os sandinistas haviam herdado já era fraca. A que estavam gerenciando em meados dos anos 80 estava completamente em colapso.

Mas olha, o governo sandinista também cometeu seus próprios erros de gestão econômica, como controle de preços mal aplicados, coletivização forçada em algumas regiões, que inclusive gerou uma resistência camponesa e uma burocracia estatal extremamente inchada. Mas é impossível separar esses erros do contexto de uma guerra de desgaste financiada pela maior potência do mundo.

Como avaliou o historiador Walter Lafebvre, a pergunta relevante não é por que a economia nicaragüense colapsou, mas como o governo sandinista conseguiu manter qualquer coisa funcionando durante tanto tempo, sob tanta pressão. Em 1984, no meio da guerra, os sandinistas realizaram eleições. Observadores internacionais, incluindo delegações europeias e de organizações não governamentais,

consideraram as eleições relativamente livres e competitivas para os padrões da região. Daniel Ortega foi eleito presidente com 67% dos votos. O governo Reagan se recusou a reconhecer o resultado e pressionou o principal candidato de oposição a se retirar antes das eleições, para que os resultados não tivessem legitimidade. A manobra diz muito sobre o quanto a questão nicaragüense para Washington era menos sobre democracia e bem mais sobre geopolítica.

Em 1987, o presidente da Costa Rica, Oscar Arias, lançou um plano de paz para a América Central, que previa cessar fogos, anistia, redemocratização e fim do apoio externo a forças insurgentes na região. O plano Arias foi assinado pelos presidentes da Costa Rica, Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua. Arias recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1987 por esse esforço.

O plano, de fato, abriu caminho para negociações que levariam ao desarmamento gradual da Contra e também à convocação de novas eleições para Nicarágua, para 1990. As eleições de 25 de fevereiro de 1990 foram um dos momentos mais surpreendentes da história recente da América Latina.

A candidata da coalizão de oposição Violeta Barrios de Chamorro derrotou o Daniel Ortega com 55% dos votos contra 41%. O resultado chocou os sandinistas e surpreendeu os analistas do mundo inteiro.

A explicação mais honesta é dolorosa, porque após uma década de guerra, bloqueio, hiperinflação e sacrifícios imensos, a maioria da população nicaragüense queria paz e queria que o conflito com os Estados Unidos terminasse, mesmo que o preço fosse tirar os sandinistas do poder.

Os sandinistas aceitaram o resultado e saíram do poder pacificamente. Numa região e numa época em que governantes derrotados nas urnas frequentemente tentavam se agarrar ao poder por meios não democráticos, a transferência pacífica do poder em Managua foi notada e reconhecida internacionalmente. Daniel Ortega declarou que abre aspas, governar é obedecer, sabemos governar e sabemos obedecer ao povo. Fecha aspas.

Se essas palavras eram sinceras ou meramente táticas, é algo que o futuro iria revelar de formas complexas.

Nos anos seguintes, a Nicarágua enfrentou as dificuldades típicas da transição pós-conflito. A desmobilização de combatentes sandinistas e da Contra criou grupos de ex-soldados armados sem emprego e sem perspectiva, que alimentaram ondas de violência. A chamada pinhata, como ficou conhecida a transferência de poder, gerou acusações de corrupção que mancharam a imagem do sandinismo por anos.

A Nicarágua mergulhou numa combinação de neoliberalismo imposto pelos credores internacionais, fragmentação política e crise econômica crônica, que durou toda a década de 90. Daniel Ortega tentou voltar ao poder em 1996 e depois em 2001, perdendo ambas as eleições.

Mas em 2006, numa Nicarágua exausta de anos de governo conservador e de crises econômicas, ele finalmente venceu com 41% dos votos, numa eleição bem fragmentada. Ele voltou ao poder bem diferente. O revolucionário de 1979 havia se reconciliado com o cardeal Obando e Bravo, adotando posições conservadoras sobre o aborto e o divórcio.

e formando uma aliança com setores empresariais, que outrora eram seus inimigos. A FSLN ainda usava a simbologia sandinista, mas o projeto político havia mudado substancialmente. O que aconteceu com Ortega no poder a partir de 2007 é um capítulo difícil e controverso, que merece inclusive um episódio próprio. Se você quiser, deixe um comentário aqui embaixo, que com certeza, se muita gente comentar, eu faço muito em breve.

Bem, o líder que havia aceitado a derrota eleitoral em 1990 foi, ao longo dos anos 2010, construindo um sistema de controle político crescente. Em 2018, teve protestos contra reformas da Previdência e eles foram reprimidos com violência. Mais de 300 pessoas morreram.

Líderes de oposição, jornalistas, empresários e até ex-comandantes sandinistas foram presos ou forçados ao exílio. Em 2021, Ortega prendeu os principais candidatos de oposição antes das eleições presidenciais e foi reeleito num processo que praticamente nenhum governo democrático do mundo reconheceu como legítimo.

O homem que havia encarnado a resistência ao Somosismo construiu, segundo os seus críticos, um novo governo autoritário, usando como desculpa a própria Revolução. Pessoal, eu vou recomendar três episódios aqui do podcast, que você pode procurar aqui no feed do História em Meia Hora, e eles vão servir de complemento para esse episódio que você acabou de ouvir, beleza? O primeiro episódio se chama Revolução Cubana, o segundo se chama Guerra Fria, e o terceiro se chama Revolução Mexicana.

E agora bora fazer aquele resumão de um minutinho pra você relembrar o que você aprendeu hoje. Vamos lá. Quando falamos da Revolução Sandinista, estamos falando de um processo que tem raízes profundas na história de um país pequeno e pobre, que foi durante décadas tratado como quintal dos Estados Unidos. A resistência de Sandino nos anos 1920 e 1930 plantou uma identidade de luta anti-imperialista que a FSLN resgatou e transformou em projeto político. A ditadura do Somoza, apoiada por Washington por 40 anos,

acumulou contradições e injustiças que explodiram em 1979, numa revolução que reuniu camponeses, estudantes, trabalhadores, religiosos e setores da classe média. Os sandinistas no poder fizeram avanços reais em alfabetização, saúde e reforma agrária.

mas também cometeram erros e autoritarismos. A guerra travada pelos Estados Unidos através da Contra e o bloqueio econômico esgotaram o país e contribuíram decisivamente para a derrota eleitoral em 1990. A transmissão pacífica do poder...

foi um momento raro e valioso. O retorno de Ortega ao poder no ano de 2006 e a sua transformação num governante cada vez mais autoritário nas décadas seguintes, adicionou uma última camada de tragédia a uma história já cheia delas.

A Revolução Sandinista continua sendo um dos episódios mais debatidos da história recente da América Latina, principalmente porque o governo Ortega é constantemente acusado de infringir direitos humanos perseguindo adversários. Mas isso já é um papo para uma outra meia hora.

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