Episódios de Podcast Rebelião Saudável

Cássio Siqueira: Mitos do Movimento e do Sistema Locomotor

07 de maio de 20261h16min
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Nessa live conversei com o fisioterapeuta Cássio Siqueira (@cassio_siqueira). Conversamos sobre os principais mitos do movimento e sistema locomotor.

Cássio é Fisioterapeuta mestre e doutor pela USP. 

Apaixonado pelo movimento humano na teoria e na prática.

No Clube de Leitura, exploramos juntos obras que desafiam o senso comum — livros que unem ciência, filosofia e ancestralidade — sempre com uma visão crítica e prática para transformar o conhecimento em ação.

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Assuntos7
  • Adaptação e escolha de tênis de corridaAmortecimento previne lesões · Impacto como causa de lesões na corrida · Lesões comuns em corredores · Estudo de Daniel Lieberman sobre impacto e amortecimento · Tênis minimalistas · Corrida com amortecimento aumenta impacto
  • Mitos sobre posturaPostura não importa · RPG e educação postural global · Neurociência da dor · Correlação entre postura e dor lombar · Posição prona para pacientes com COVID-19 · Impacto da postura na ventilação pulmonar · Impacto da postura na digestão e deglutição · Impacto da postura na comunicação e credibilidade · Postura militar vs. postura suave
  • Padrões de corrida e performanceCorrida ancestral e caça por persistência · Adaptação do pé ao solo · Diferença entre performance ancestral e moderna · Corrida em antepé vs. calcanhar-ponta · Transformação de energia vertical em rotação · Corrida de longa distância vs. velocista · Importância do foco e propósito na corrida · Variações de velocidade na corrida ancestral
  • Mitos sobre alongamentoAlongamento previne lesões · Alongamento como aumento de performance · Comprimento ótimo do sarcômero · Alongamento passivo vs. ativo · Fuso neuromuscular e sua adaptação · PNF (Facilitação Neuromuscular Proceptivo) · Alongamento para mobilidade
  • Definição de Transtorno MotorMovimento como cumprimento de tarefas · Foco e propósito no movimento · Homúnculo sensorial · Dinâmica do homúnculo · Controle voluntário vs. medular
  • Dor como informação corporalDor do treino vs. dor de lesão · Dor muscular protetora e limitação de mobilidade · Torcicolo e dor lombar · Papel da musculatura profunda e superficial · Transverso abdominal e estabilização
  • Reabilitacao FisicaIntersecção entre neurociência e esporte · Controle motor e
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Boa tarde, boa tarde, boa tarde. Sejam todos muito bem-vindos a mais uma Live Rebelde. Hoje estarei com o meu amigo Cássio Siqueira, professor de fisioterapia na USP. E nós vamos conversar um pouquinho sobre mitos relacionados ao sistema locomotor, mitos relacionados ao movimento. Então vai ser uma live super interessante. O Cássio é uma das pessoas que eu conheço.

que mais entende sobre esse assunto e tem um viés que combina muito comigo, que é um viés ancestral. Nós vamos bater esse papo aqui, eu tenho certeza que vocês vão gostar. Antes da gente começar, o Cássio já está chegando aí na área, antes da gente começar, deixa eu falar rapidamente para vocês do...

de alguns pontos que eu gostaria de citar sobre as nossas mídias sociais. Não sei se vocês sabem, mas nós temos um canal no YouTube, a descrição do canal, o link do canal vai estar na descrição desse vídeo, e o nosso canal do YouTube está muito próximo de chegar nos 20 mil inscritos, uma marca muito importante para a gente. Então se você ainda não segue, não se inscreveu ainda no nosso canal do YouTube, tem quase 900 vídeos lá para você analisar, para você conhecer. Esse vídeo aqui vai ficar gravado lá também,

E assim, nossa meta, quem sabe, chegar a 50 mil inscritos até o final do ano. Estamos longe ainda, ainda falta mais da metade, mas com o apoio de vocês a gente consegue. Então se vocês puderem divulgar o link, mandar no grupo da família e tal, isso ajuda bastante. Outra coisa que eu queria falar para vocês é do Substack. O Substack é uma rede social.

que na realidade pra mim é mais um blog do que uma rede social. Mas ele tem características de rede social, ele permite interação e essa coisa toda. E pra mim é a rede com a qual eu mais me identifico. Por quê? Primeiro porque é uma rede baseada em textos. Eu gosto muito de textos. Não é uma rede de ficar gravando vídeo, de ficar fazendo dancinha, de ficar fazendo essas coisinhas que o pessoal faz por aí pra ganhar like e pra ganhar comentário e pra ganhar seguidor.

Então é uma rede para leitores, que é exatamente como eu identifico vocês que me seguem aqui no Instagram, que se inscrevem no canal do YouTube, é como leitores. Então eu gosto muito de escrever e eu tenho feito um trabalho bem intenso lá.

no Substack. São quatro textos semanais, sendo dois textos gratuitos, um sobre ciência e outro sobre filosofia, e dois textos para assinantes pagos. Você pode fazer a assinatura gratuita, vai ter acesso ao texto de segunda e de quarta-feira, e se você resolver fazer a sua contribuição...

para manter esse trabalho gratuito que a gente faz aqui, lá no YouTube, principalmente manter a gente estudando e tudo mais, aí então você vai ter acesso a mais dois textos que estão sempre no ar, no dia de sexta e no dia de domingo. Então amanhã é dia de texto pago, inclusive amanhã o texto vai estar muito, muito bom.

E vale a pena vocês darem uma olhada por lá. O endereço do Substech também está, o site também está na descrição desse vídeo. E a última coisa que eu queria falar para vocês, hoje é dia, inclusive, é do Clube de Leitura. Clube de Leitura com Henrique Altran, que é um clube diferenciado. Então o Cássio já está por aqui, deixa eu já chamar ele aqui, enquanto a gente termina aqui de eu falar sobre o Clube de Leitura.

Você tem uma aula por semana, né? Inclusive o próprio Cássio já teve lá no Clube de Leitura, né Cássio? E aí meu amigo, tudo bem? Tudo bem e você? Tudo show de bola, cara. Prazerzão te ter aqui com a gente novamente. Prazer é meu. Legal demais, legal demais. Estava falando pro pessoal do Clube de Leitura, inclusive que você fez uma participação lá. Foi muito boa, né? Por sinal. Cara, fala um pouquinho sobre você, pro pessoal que não te conhece ainda.

Boa tarde a todos Eu sou o Cássio Siqueira, sou fisioterapeuta Ah, vou ter que me afastar um pouquinho Se não tá cortando minha careca aqui Sou fisioterapeuta Já formado no milênio passado Pô, tu é velho, hein, cara? Eu não era nem assim no milênio passado Pois é Pra ver se dá uma autoridade De senioridade

E trabalho Aqui na Universidade de São Paulo Na USP A principal função aqui É orientar os alunos de graduação Na fisioterapia esportiva Certo Lá entrei na faculdade Já pra fazer fisioterapia esportiva Eu sou um jogador de futebol frustrado E E

E aí porque o jogador de futebol frustrado tentou jogar e não se saiu bem ou se contundiu não porque não me saí bem não tinha não tinha habilidade que eu achava que eu tinha hora que eu cheguei no vamos ver foi é tive uma vivência no Guarani e a hora que chegou lá eu falei não não é minha praia não é minha praia negócio é estudar tá certo

E aí nesse processo de me tornar um fisioterapeuta do esporte, por conta de umas influências aqui da USP, de uma professora muito boa que era professora de Neurologia e de um cara um pouco mais velho que eu, que também já tinha seguido esse caminho, eu me especializei em Neurologia.

e esporte. Então, atendi muito paciente com derrame, com Parkinson, com parálise cerebral e fiz disso uma escola de aprendizagem motora, de controle motor. Como é que o sistema nervoso controla nossos movimentos e eu fiz essa especialização sabendo que o meu público não seria esse. Eu não queria ter como público-alvo o paciente neurológico.

mas eu queria aprender como é que é o controle dos movimentos para trazer para o esporte. E aí, durante um bom tempo da minha vida, você sabe aquela história do Oceano Azul? Sim. O livro lá da estratégia do Oceano Azul. Durante um tempo eu estava sozinho nesse Oceano Azul, que era essa intersecção da neuro com o esporte. Quem...

Quem quer esporte desde o princípio como eu, é o cara que domina a biomecânica, a parte física da coisa, alavanca as forças e anatomia. O cara que gosta de neuro, ele gosta de controle motor, de neurofisiologia, mas ele não gosta da...

da parte de biomecânica. Então, são duas áreas que dentro da faculdade não se conversam. O professor que dá uma, não sabe nada da outra e vice-versa. E você aprende sistema nervoso esquecendo que tem um aparelho locomotor embaixo dele. E quem aprende aparelho locomotor esquece que tem um cérebro que comanda isso. Então, durante um bom tempo eu estava praticamente sozinho nesse oceano azul. E essa pegada que...

mais evolutiva, mais ancestral, vem disso, né? Se a gente tá falando de sistema nervoso, se a gente tá falando de corpo humano, não tem como não olhar pra onde isso surgiu, né? Então, essa linguagem que a gente fala que é meio próxima, vem daí. Legal, legal. Tu afirmaram há quanto tempo já, cara? Eu me formei em 99.

Caramba, faz um tempão. Faz um tempão. Legal. Legal demais. E aí, a tua pegada foi sempre dar aula? Eu sei que você montou uma clínica. Hoje você não tem mais, não é isso? É. Eu peguei uma fase da fisioterapia que foi um boom de novas faculdades surgindo. Então, eu comecei a dar aula com 23 anos. A maioria dos meus alunos era mais velho que eu, na faculdade particular.

Então a minha carreira foi meio invertida, comecei a ensinar antes de eu saber fazer quase. E aí também fiz mestrado, doutorado, mas sempre com algum... Eu não acredito muito em ensinar fisioterapia sem saber fazer, na verdade. Então sempre com a mão na massa, na prática. Aí terminei o mestrado, a gente resolveu empreender, abrimos uma clínica chamada Care Club. Certo.

Uma clínica que é muito grande aqui em São Paulo hoje em dia. E é bem inovador. Nosso propósito era trazer estrutura de atleta profissional para o atleta amador. Entendi. Então o maratonista de fim de semana, ele tinha lá dentro uma estrutura que era de atleta profissional. E cresceu muito, mas em 2015 eu...

saí da sociedade, continuei atendendo até 2022, quando minha filha nasceu. Aí eu optei por trabalhar meio período. Depois daqui eu vou pra casa, fico com a minha filha. Aí, período da tarde, minha função é ser pai. Legal. Melhor decisão que eu tomei na minha vida. Muito massa. Muito massa. Muito massa. E eu sei também que você tem um podcast, né? Fala um pouquinho sobre ele. O podcast chama Movimento em Foco.

O nosso público-alvo principal é de profissionais estudantes da área do movimento. Então, fisioterapeuta, educador físico, nutricionista vai ter alguma coisa que interessa lá. Mas o leigo também, nosso lema era profundo, leve e descontraído. Então, a gente aprofunda, mas de uma forma sempre leve e descontraída. Então, o leigo também aproveita de alguns temas que...

forem de interesse lá, acho que vale também dar uma olhada. Inclusive, tô com a camiseta do podcast. Como a proposta era falar de mitos, eu já trouxe um aqui, ó, postura importa. Que é um mito que não vem do leigo. Esse é um mito que os fisioterapeutas atuais estão criando. Que é um mito que postura não importa. E a gente tem essa...

Essa hashtag aqui. Bom, falando em postura importa, deixa eu já me ajeitar aqui. Deixa eu te perguntar. Então vamos lá, vamos cair nesse lance dos mitos. Na tua opinião, qual é o mito... Assim, eu queria dois mitos pra gente começar. Aquele que é o mais ridículo de todos, que é tipo assim, você olha pra ele e diz assim, cara, como é que isso virou?

Como é que apareceu isso? Tipo assim, vou te dar um paralelo dentro da nutrição. O paralelo dentro da nutrição pode ser tipo, proteína faz mal aos rins. É um mito tão ridículo, tão ridículo, tão ridículo, que às vezes você olha e diz, como é que pode? Como foi que alguém teve essa ideia e acabou colocando, entendeu? E pegou essa ideia, né? É, exato. E de repente o troço se alastra como se fosse fogo em mata seca.

Então, eu queria o mito que você acha mais ridículo, né? E aquele mito que você acha que é mais difícil de quebrar. Aquele que, assim... Pô, se você perguntar pra um professor de fisioterapia, pra uma pessoa do teu nível, é arriscado ele falar besteira. Vou te dar o exemplo dentro da nutrição. Feijão é uma excelente fonte de ferro. Pô, pergunta pra 10 nutricionistas, 9 vão dizer que feijão é uma excelente fonte de ferro. Entendeu?

A pergunta é difícil. Até você precisa escolher, né? Aí é outro. Às vezes eu tenho dificuldade de lembrar desses mitos, mas a hora que alguém fala, eu falo, isso é um mito violento. Teve um que a gente já discutiu, que é a questão do amortecimento. Pronto, vamos começar com isso, isso é bom. A pessoa pensar que o tênis bom de corrida é que ele tem muito amortecimento.

Deixa eu já colocar outros. Alongamento como sendo algo essencial e que previne lesões e que o alongamento traz saúde, alongamento muscular. E um que é gerado pela nova ciência da fisioterapia, a nova ciência da dor crônica atualmente, as pessoas estão distorcendo alguns achados que são verdadeiros, mas trazendo para a prática uma bobagem que é, por exemplo, postura não importa.

acho que são três mitos o leigo, é engraçado porque se você perguntar pra um leigo é importante ter boa postura? o leigo vai falar, lógico, é, e aí ele se arruma e tal, vai falar, eu não consigo, eu não tenho boa postura, mas é importante o fisioterapeuta atualmente, por incrível que pareça o fisioterapeuta que lida com dor crônica é o que fala que postura não importa e... é porque ele tá querendo cliente, né? pior que não, é pior que é e...

limitação de compreensão mesmo. É quando pega uma verdade que foi uma verdade científica e extrapola para algo que não tem absolutamente nada a ver. Esse é o pior aqui. Tem algumas horas que eu fico meio irritado com essas coisas. Eu falo para os meus alunos que é fazer cagada baseada em evidência.

Pois é. Vamos começar com esse. Eu vi que esse aí te tocou mais. Vamos começar com essa história da postura. De onde é que vem essa história? Você falou que o cara pegou uma evidência e extrapolou para outro lugar. Me conta aí a origem disso. A ciência da fisioterapia é uma ciência bem jovem. Como curso de nível superior. Muito em comum com a própria nutrição. A ciência da nutrição também é bem jovem.

Sim. A fisioterapia como curso de nível superior no Brasil, ela é de 69. É muito recente. Os primeiros mestres e doutores da área aqui no Brasil são os meus professores. Eu sou a segunda geração. Esses professores desbravaram, foram muito guerreiros. E, na verdade, eles não fizeram... A serbo.

mestrado, doutorado na área da física, porque não existia. Eles foram fazer em anatomia, em áreas correlatas, e depois eles criaram. Aqui na USP eu sou a primeira turma de mestrado do departamento de fisioterapia. Então é muito novo mesmo. Então tem muita coisa que não se sabe.

E quando você não tem essas respostas, a minha visão é de olhar naquilo que é matéria básica, naquilo, vamos olhar na biologia, vamos olhar na evolução, vamos olhar na física, na... E... Nos lugares mais óbvios que deveriam estar, né? E que são estabelecidas, né? Então, era algo que veio de até um senso comum, a postura importa,

No começo, nessa época que eu me formei na fisioterapia, o que estava em alta era RPG. Então, para qualquer dor nas costas, qualquer coisa, vai fazer RPG. E o RPG, o nome é muito bonito, né? Educação Postural Global, ele trouxe uma visão.

Foi importante na nossa área, que é sair do segmento, tem dor nas costas, olhar só para as costas e entender que as costas não estão isoladas. Tem todo um corpo em volta dessa coluna. Só que o RPG como técnica, ela é fraca, porque ela é muito baseada em posturas passivas. Então, deita a pessoa e fica alongando o corpo inteiro dela sem gerar uma ação muscular. E, então...

trazia poucos resultados. Então, o RPG, ou depende de muito longo prazo para dar algum resultado, o RPG foi morrendo. E a neurociência da dor evoluiu também de algo que era periférico, a dor como sendo algo que nascia na periferia.

Então, bati o braço. Tem receptores de dor no braço que vão avisar o cérebro. Quando essa informação chega no tálamo, você começa a ter consciência de ah, meu braço está doendo. Mas então a dor nasceu na periferia e o cérebro só tomou ciência dele. A neurociência mais moderna da dor mostra que não é isso que acontece. Não existe um receptor de dor na periferia. O que existe são receptores de autolimiar. Então você precisa de mais intensidade para disparar esse...

esses receptores, e aí pode ser mecânico, como uma batida que eu fiz, pode ser térmico, pode ser um receptor qualquer, ele só tem um limiar mais alto. Então, quando ele dispara, o que o sistema nervoso está recebendo lá é, ó, tem algo intenso acontecendo lá embaixo, a ponto de disparar esse limiar, esse receptor. E o sistema nervoso, ele vai tomar uma decisão se ele precisa emitir o comportamento de dor ou não. Então, a dor não é um input que vem da periferia, é um output que vem do sistema nervoso.

E pra que serve a dor biologicamente? Pra avisar que tem algo errado. É um mecanismo de proteção. Então, tem algo que já aconteceu de errado, uma lesão já existente, ou algo que tem o potencial de gerar lesão, cuidado, evite esse cenário. Então, o papel da dor é um papel de gerar proteção pra nossa sobrevivência. Num cenário que não existe dor, essa pessoa não sobrevive. Sim.

Tem inclusive uma patologia genética de que a pessoa não sente dor. E assim, essas pessoas têm expectativa de vida baixíssima, né? Elas se quebram e não sabem que estão quebradas, por exemplo. Eu tenho um amigo cadeirante, que ele é paraplégico. E hoje ele é paraplégico bi-amputado. Porque essa coisa de baixo pé, ou encrava uma unha, não sente dor, e aquilo vira um negócio, depois infecta. Então a dor é um termo de proteção muito importante.

Enfim, aí a ciência da dor crônica, que é pegar aquele paciente com dor lombar que tem dor há 10 anos, o paciente que tem fibromialgia. O que surgiu nos últimos tempos? Mostrando que não existe uma correlação direta entre dor e lesão. É possível ter dor sem lesão e é possível ter lesão sem dor. Certo. E baseado nisso...

E também baseado em alguns estudos observacionais que mostraram que... Então vamos olhar quem tem dor nas costas e quem não tem dor nas costas e vamos ver a postura deles. O que se observou, não encontrou essa correlação direta entre postura e dor lombar. E daí surgiu esse papo de postura não importa, porque eu posso ter uma postura ruim e não desenvolver dor lombar. E...

Então daí começou esse papo de não, postura tanto faz, assuma a postura que você quiser. É tipo assim, se não está tendo dor, então pode continuar desse jeito. Exato. E aí, eu nem rebato essas coisas pelo prisma da dor, porque dá para entrar nisso também, dá para entrar na muscula esquelética e entender por que a ciência não encontrou essa correlação.

Basicamente isso tem a ver com uma questão que é uma equação de intensidade da força mecânica pelo tempo que ela ia aplicar. Então, enfim, dá para explicar biomecanicamente por que esses resultados não apareceram. Mas eu nem entro nisso para rebater. Se a gente lembrar na pandemia, o paciente estava no hospital internado na UTI com...

falta de ar, entubado, e aí, não sei se alguém já teve oportunidade de ver um cenário desse, o paciente está com acesso venoso, está com tubo dentro da boca, está às vezes com uma sonda no nariz para levar alimento até o estômago. É uma situação difícil de manejar. E como que se ventilava esses pacientes, de barriga para baixo, na posição prona?

Por que que você pega uma situação Que é tão difícil de manejar Com tubo sem da boca, tubo no nariz Acesso venoso, sonda urinária O cara tá todo cheio de fio conectado Fios de eletromiografia Eletrocardiografia E aí você pega esse cara e deita de barriga pra baixo Na pandemia eu fiz isso com paciente De 250 quilos Nossa senhora

O cara precisa de uma cama de obeso e pra virar ele de barriga pra baixo... Meu amigo, são 10 pessoas pra virar. E precisou de duas camas de obeso. Ele rolou de uma cama para a outra. Eu falei que eu fiz, não. Eu atendi esse paciente, mas eu não participei desse processo. Dessa manobra, né? Dessa manobra. Um negócio bem complexo. Por que se dá o trabalho de botar um paciente de barriga pra baixo? Essa é uma boa pergunta.

porque esse paciente vai ventilar melhor. O pulmão, ele precisa ter uma relação entre o ar que entra e o sangue que circula por ele, para o oxigênio sair do ar e ir para a hemoglobina, para a hemácia. Então, tem partes do pulmão que são muito aeradas, tipo a parte de cima, mas pouco perfundidas por sangue.

A parte do meio é onde tem um equilíbrio melhor entre ventilação e perfusão. E a parte de baixo é o contrário, tem menos ar e mais sangue. Quando a pessoa está deitada de barriga para baixo, a área que o pulmão tem uma boa relação com ventilação e perfusão é pequena. Quando você vira de barriga para cima, essa área é pequena. Você vira de barriga para baixo, aumenta essa área. Então, o paciente está lá com falta de ar, respira melhor por conta disso.

Então a postura importa tanto que ela muda a sua capacidade de oxigenar o sangue, só de virar de barriga para cima para barriga para baixo. A postura importa tanto que ela vai me dizer o quanto que o meu pulmão é capaz de ventilar. Se eu estou com uma boa postura, eu consigo fazer uma ventilação bem profunda. Tem dúvida. Se eu estou sentado largado...

mecanicamente esse tórax é bloqueado para expandir. Então, interfere no quanto eu ponho de ar, interfere no quanto o pulmão é capaz de absorver do oxigênio. Se eu pensar na digestão, que é algo que fala bem com a nutrição, nessa posição eu tenho uma posição melhor para mastigar, eu consigo triturar melhor os alimentos se eu estou bem posicionado. Se eu saio da posição e minha mandíbula vai assumir uma posição diferente,

dificulta a mastigação, dificulta a deglutição. Então, se eu quero engolir bem, eu tenho que estar aqui. Se eu estou aqui, eu vou ter dificuldade de engolir. Se eu estou em uma boa postura, facilita o trânsito pelo esôfago. Facilita o alimento ser digerido no estômago sem refluxo. Porque se eu fico nessa postura sentada, inclinada, corcunda...

Meu tórgis aperta meu estômago e meu diafragma não contrai o suficiente para fechar a passagem do esôfago. Então facilita ter refluxo. Se eu tenho uma postura largada assim, eu pressiono o alço intestinal. Então eu dificulto o trânsito intestinal. Então se eu sento em uma posição ruim, eu facilito ter escara. Eu ponho pontos de pressão.

Por exemplo, no osso da bacia, eu ponho um ponto de pressão, facilita ter uma ferida lá. Do ponto de vista de comunicação, se eu estou sentado aqui falando com você, eu passo mais credibilidade, eu passo mais autoconfiança. Se eu estou aqui, esquece, eu não vou vender nada para ninguém. Você não convence ninguém com a postura. Ninguém. Como carne, faz bem para você, esquece. Agora você está aqui, carne faz bem. Então...

A postura importa tanto em tantos cenários que o cara falar que postura não importa porque não encontrou no estudo relação entre postura e dor lombar é de uma miopia tremenda. Naquilo que eu comecei falando que o cara da ortopedia, do esporte, não conversa com a neuro, é isso, porque as faculdades elas são...

O ensino é todo segmentado. Fragmentado, né? Fragmentado. Esquece que é um organismo só. E aí o cara fica bom em coluna lombar, e o cara só sabe coluna lombar, e esquece que tem todo um ser humano em volta dessa coluna. Então aí começam umas bobagens dessas, de fisioterapeuta, a falar que postura não importa. Desabaixei. Pois é, cara. E assim, é desse jeito que surgem...

Vários mitos, né? Por exemplo, a gente citou, você citou o mito dessa questão do amortecimento no tênis. Cara, eu fui vítima desse mito durante muito tempo. Eu gastava grana com o tênis porque eu achava que o tênis tinha que ter amortecimento. Mas depois que você... É tipo o ovo de Colombo, né? Como é a história do ovo de Colombo? Você dá uma pancadinha no ovo e bota ele em pé. Aí todo mundo olha e diz assim Ah, mas assim eu também fazia. Mas você não teve a ideia.

né e cara quando eu quando eu hoje eu corro muito menos né eu já corro duas vezes por dia assim duas vezes por semana cinco quilômetros em só para não não não não não ficar não perder o condicionamento mas quando eu corria mais corria 10 quilômetros já que eu cheguei a correr quase meia maratona o tênis era um negócio assim que não dá para correr sem tênis tu é doido sem tênis ou sem crescimento mas cara como você analisa

Os nossos antepassados, por que a gente criou o sapato? É, pra proteger a sala do pé, né? Claro. A pele da sala do pé. Pois é, claro. Não foi pra amortecer. Ninguém tinha nenhuma ideia disso. De onde é que vem essa história do amortecimento, cara? Como é que isso começou? Aí foi, acho que, um encavalamento de mitos. O primeiro mito é...

Deixa eu voltar até um pouquinho antes. A primeira coisa é que o esporte de endurance, corrida, ele machuca muito. A incidência de lesões é bem alta. Em um ano de acompanhamento de uma equipe de corredores, a gente encontrou 90% de dores relacionadas à corrida. 90% dos atletas desenvolveram alguma dor. Não necessariamente lesão, mas dor.

É que não são lesões sérias. Normalmente, futebol machuca mais sério. Mas a corrida machuca muito mais em número de lesões. Certo. E a lesão fácil de entender é a lesão de macrotrauma. Se eu te der um chute na canela, você sabe por que está doendo, você sabe por que machucou e tudo. Agora, a corrida. Você começa a correr, você vai ficando bom em corrida. Então, no começo, você não consegue correr um quilômetro seguido. Daqui a pouco, você está correndo 10 quilômetros. Você está ficando cada vez melhor.

mas depois de um tempo eu começo a sentir uma dor e falo, não mudei nada nada aconteceu, porque meu joelho está doendo agora então era uma dor, uma lesão que não se explicava não é uma explicação muito direta é meio a história do tabaco, né? fuma 30 anos pra dar um problema lá na frente então aí surgiu um primeiro mito que o que machucava era o impacto a corrida tem muito impacto você fica já

martelando o pé. Tem uma certa lógica, né? Tem. Tem uma lógica, e a lógica da repetição do impacto, e também tem um outro olhar, que é assim, a corrida é duas vezes e meio o peso corporal, mais ou menos, esse impacto. No vôlei, saltando um metro de altura, você tem 11 vezes o peso corporal.

E um jogador de vôlei, por jogo, salta. Muitas e muitas vezes também. Então, existe a lógica, mas é uma lógica que tem que ser olhada assim, será que é isso mesmo? E aí alguns detalhes interessantes aqui. Se o impacto fosse o problema que causaria lesão, as lesões mais comuns deveriam ser, primeiro, fratura de calcanhar.

Quando você bate o pé no chão, ele que está recebendo o impacto, ele deveria quebrar. Praticamente não existe essa lesão no mundo da corrida. Acontece, mas é bem raro. A segunda lesão que deveria acontecer é do osso que está no meio ali, que é do talos. Porque o impacto ia ser do calcanhar, para o talos, para a tíbia, para o fêmur, para a coluna.

Então deveria ter esse caminho de lesões. E não existe esse caminho. O que machuca na corrida não é osso. Nunca foi. O único osso que às vezes machuca é a canela, que tem uma canelite, mas o mecanismo é outro também. O que machuca na corrida? Tendão. Basicamente é tendão que se machuca. Então não é o impacto o problema. É o que você faz desse impacto. Como você absorve o peso do seu corpo para lidar com esse impacto.

Então, se você dobra muito o joelho e avança o joelho, provavelmente é o joelho que vai receber uma tração maior. Se você requebra a bacia, é lá na bacia. Então o problema não é um impacto direto, é a falta de controle da bacia, da pelve, que faz a bacia cair. Então, a noção de que o impacto gera problema de lesão na corrida, até hoje é muito comum.

Você falou, o profissional da saúde, se você perguntar o que machuca na corrida, vai falar impacto. Mas isso não resiste à lógica do que se machuca. Não existe um impacto que vai para o tendão patelar. Não existe um impacto, uma batida direta no tendão patelar. Porque o tendão patelar é um dos que mais se machuca. Não é por impacto, é por tração. É como você lida com a sustentação do seu peso corporal.

Então tem essa questão. Tem um estudo muito interessante que deixou as pessoas meio sem chão na época, que é quando você tem um tênis com muito amortecimento, aumenta o impacto.

E é justamente nessa linha que você falou. Pra que que criaram um calçado? Porque o primeiro ser humano que botou um couro de boi, sei lá, de bisão no pé lá, por que que ele fez isso? Pra não bater, não entrar espinho, não pisar em pedra pontuda, e pra não ficar com frio, talvez, é pra isso. Não precisava amortecer impacto. E quando você tem um chão duro, com calcanhar duro, se bater forte, dói. Você evita fazer. Na hora que põe no colchão,

de 5 centímetros de baixo do seu calcanhar, soca o calcanhar no chão que não vai doer nada. Então, os estudos biomecânicos mostram, mais amortecimento é igual a mais impacto. Sim. Quem tem esses estudos é aquele Lieberman, né? Daniel Lieberman. Ele tem, ele tem uns estudos desses, eu acho que eu vi alguém falando sobre isso. Sim.

Outro lugar que gerou problema. Porque o Daniel Lieberman, ele é um antropólogo. Sim. O estudo dele, esse estudo dele que foi o mais revolucionário da Nature, publicou na Nature, e é um estudo lindo, lindo. Você pega o estudo, e o cara como antropólogo, ele foi estudar, se não me engano eram os Maasaias, a tribo africana, e comparou com o americano correndo, o africano correndo descalço e o americano correndo com...

com calçado. Ele viu que o americano corre com calçado e tem mais impacto. E tem uma particularidade lá, é um impacto um pouquinho diferente, não é só mais impacto. Como se fosse um impacto transitório, uma coisa assim ele chamou. É, é um impacto inicial. Ele chamou de impacto passivo, que é onde em teoria não tem músculo ativado ainda e tem um pico de impacto lá pra ele. E aí o Daniel Lieberman, que é antropólogo, eu tô ouvindo o meu retorno aqui.

Deixa eu baixar um pouquinho o volume aqui. Tá. Melhor. Porque o senhor ia falar igual a nutricionista, ela deu sanduíche ish. Sabe dessa história? Não, essa eu não vi, não. A mulher dando uma entrevista na... Eu acho que ela é de Pernambuco. Estava dando uma entrevista sobre nutrição, alguma coisa, e dava o retorno pra ela no ouvido, ela repetia a última sílaba. Ela falou, então você come um sanduíche ish e a entrevista é toda assim. Essa eu não vi, não.

Dá uma pesquisada, é muito boa. Onde está o Lieberman? O Lieberman, então, é um antropólogo e fez um estudo lindo, muito bonito mesmo, comparando duas populações diferentes, uma com um estilo de vida mais ancestral e essa população corria mais em antepé. Por quê? Você está descalço num terreno como o da África, onde eles moram?

É um terreno duro, em que você precisa ir com espinhos, com pedras, com não sei o que, então você precisa dar uma amortecida justamente para proteger o seu pé. E aí como existia esse mito de que impacto machuca, e os africanos correndo na ponta do pé diminuem o impacto, logo ele extrapolou para o certo é correr na ponta do pé.

E aí criou toda essa geração de tênis minimalistas Que eu adoro, na verdade O pé humano foi feito pra correr Isso, mano, muito bom Eu só uso esse tênis, cara Olha isso aqui É maravilhoso Não tem quem me faça É, não é o Five Fingers Mas eu usei o Five Fingers durante muito tempo Só que ficou muito caro aquela porra aqui no Brasil Não tem aqui pra vender, né? Você tem que importar O troço custa 200 reais Não, deixa pra lá E aí

200 reais não, 200 dólares. Aí fica mil e tantos reais. Esse aqui demora para chegar, que é o...

Esqueci o nome. Demora pra chegar, vem da China, demora pra caramba pra chegar. A grande vantagem desse aqui é que você não tem o perigo de comprar da China e vir um gato por lebre. Porque você, ah, eu vou comprar esse tênis aqui, eu vi um Nimbus, não sei das quantas. Eu tenho um Nimbus, né? É isso, Nimbus, não sei das quantas. Eu vou comprar aqui porque eu vi mais barato que vem da China. É esse caso de você receber um tênis que não tem amortecimento ou que vai te deixar todo torto e tudo mais. Esse aqui não tem como te deixar torto, bicho, porque é.

Se o cara falsificar, o máximo que pode acontecer, ele gastar mais rápido. É, exato. A proposta é essa, é ser o mínimo. Sim, aí você falou do Lieberman que gerou essa questão de o correto seria, o correto entre aspas, seria correr com a ponta do pé. Mas é o correto ou é uma questão de depende? É uma questão mais do incorreto, mas de vez em quando é bom.

se eu estou correndo para frente, então estou fazendo um movimento nesse sentido aqui, o meu pé, o peso do meu corpo vai começar a se deslocar de trás para frente. Então ele começa apoiado no calcanhar e rola para a ponta do pé. Isso é o natural. Pega o Luiz Henrique andando e vê ele andando. Vai ser calcanhar, ponta, naturalmente. Aí pega ele correndo devagar. Vai ser calcanhar, ponta. Pega ele correndo rápido. Vai ser ponta.

Qual parte do pé você toca o chão, ele é muito mais uma expressão da sua velocidade do que de amortecimento, qualquer coisa assim. Então esse é um padrão natural. E o que é ruim? O ruim é o calcanhar que você apoia lá na frente do corpo e aquela ponta do pé que aponta para frente, para cima.

Esse calcanheiro é ruim. Mas se o calcanheiro entrar debaixo de você e a ponta do pé tá apontada pra frente, esse rolamento é muito natural e entra uma questão que é eu não preciso absorver o impacto. Eu só preciso transformar esse impacto. Pensa num cara de como chama? Parkour. O cara pula de 3 metros de altura. O que ele faz? Ele não consegue absorver tudo nas pernas. Ele absorve uma parte e depois ele rola. O Neymar.

Toma pancada, rola. Por que ele não se machuca quando ele cai no chão? Porque ele transforma a energia vertical em rotação do corpo. O Neymar é bem treinado em cair, né? É bom, ele é bom nisso. Então, eu não preciso... A proposta do Lieberman é absorver. Então, eu apoio a ponta do pé e absorvo flexionando. Só que absorver é um freio.

Então é como se eu corresse com um pé no freio, no acelerador e um pé no freio. Eu estou gastando mais energia. Então é possível correr assim. Ele absorve impacto. Então muda um pouco o perfil das lesões. A lesão do joelho melhora muito, por exemplo. Mas aumenta a chance de ter dor no pé. Aumenta a chance de ter dor no tendão calcâneo. Então ele modifica o padrão de lesões. Mas em termos de performance, é uma porcaria. Porque você...

dá uma propulsão acelerando, e assim que o seu pé encostar no chão, você freia. Aí acelera e freia, acelera e freia. O próprio movimento que você vai ver é um movimento saltitado. Então, é um movimento que absorve impacto, mas às custas de perder performance.

Não precisa disso. Se ao invés de amortecer, eu rolar por cima desse pé, como o Neymar caindo no chão e gira, o meu pé toca o chão e rola pra frente, eu aproveito dessa energia da descida pra fazer propulsão. Então eu ganho performance se eu fizer esse movimento aqui. Então o ideal seria calcanhar ponta. A não ser no sprint, na alta velocidade, que aí é só a ponta do pé mesmo. Aí eu só quero potência, empurrar o chão pra trás.

Mas vamos dizer, vamos olhar para os Maasai. Eu estou descalço, num ambiente hostil, que agride meu pé. Eu vou ter dificuldade de bater o calcanhar e rolar. Eu vou dar uma preferência para mais área de contato. Quem já teve experiência de correr no cascalho, por exemplo,

é difícil, nem ponta de pé você consegue quando você está correndo cascalho, você tem que botar o pé chapado no chão porque é para aumentar a área de contato e não ter nada machucando o seu pé, então vira aquela corrida assim com o pé chapadinho, então a variação vai acontecer, o ideal seria calcanhar a ponta, mas dependendo do contexto ambiental

tudo certo pisar na... Você sabe que vai abrir mão de performance na hora que você fizer essa absorção, mas você vai proteger seu pé, por exemplo. Então tem situações que pedem ponta de pé. No geral, não. E aí é interessante você tocar essa questão da performance, porque se a gente pensar na definição da palavra performance...

e a gente trouxer isso dos nossos ancestrais pra agora, são duas definições diferentes. Porque o que é performance hoje? Performance hoje é eu diminuir o tempo. Eu diminuir o tempo que eu faço a mesma coisa. Por exemplo, eu corro 5km em 40 minutos, então eu quero ter performance pra ver se eu chego em 35, pra ver se eu chego em 30 ou menos. O que era performance pra o meu antepassado? Performance pro meu antepassado era conseguir caçar o bicho que eu tava correndo atrás. Sim.

Então são duas definições muito diferentes. Eu não dependo de performance para viver hoje. Nesse sentido, claro. Nesse sentido. Eu não preciso correr mais rápido, não vai botar dinheiro no meu bolso e nem vai me possibilitar não morrer. Mas correr mais rápido naquela época, não vou nem usar mais rápido, vou usar mais inteligente naquela época, eu tinha essa perspectiva de sobrevivência porque eu ia conseguir levar comida para casa.

E aí é um outro ponto interessante. Nós não somos corredores excepcionais. Nós, quando eu falo, a humanidade. Nós não somos nadadores excepcionais. Nós somos bem medíocres, de média mesmo, se a gente parar para se comparar com animais que são muito mais especializados. Por exemplo, você não consegue comparar, você pode pegar o ser humano mais rápido da face da Terra, sei lá, o Zambolt, você não consegue comparar com a Chita.

a mínima condição. Nos 100 metros ele perde fácil. Você não consegue comparar o melhor nadador, o Michael Phelps da vida, com um tubarão. Não rola. Está entendendo? É uma comparação... Leal. Não compara. Não dá para comparar. Um besouro rola bosta.

com um levantador de peso olímpico. Não precisa nem isso. Uma formiga com um levantador de peso olímpico. Não dá pra comparar. Nós somos bem medíocres nesse aspecto. Mas, mas... A gente tem uma coisa que eles não têm. Que fica entre as duas orelhas e muita gente não usa.

Que chama-se cérebro. Então, quer dizer, falando agora, voltando para a questão da corrida, divaguei agora, mas não tanto. Mas falando na questão da corrida, um dos fenômenos que é bem documentado, bem interessante, embora polêmico, tem alguns que acham que sim, outros acham que não, mas se fala da corrida por persistência, da caça por persistência, que é uma caça que envolve a corrida, mas não envolve uma corrida para correr o mais rápido possível.

Envolve uma corrida inteligente Ou seja, eu tenho que Cansar a minha presa

Então eu não preciso correr na velocidade de uma zebra, de uma gazela, porque eu não consigo fazer isso. Mas eu posso correr mais devagar e manter aquele animal fugindo como eu tenho vantagens adaptativas, como por exemplo, dissipação de calor, que é muito maior. A minha respiração não é influenciada pela corrida diretamente. Porque, por exemplo, quando você pensa na chita... ...

quando ela corre, que ela estica as patas dianteiras pra poder fazer a tração. Na hora que ela estica, ela inspira. O pulmão dela tá todo livre. Mas na hora que ela faz isso aqui, as patas traseiras retraem e aí ela expira. Exatamente. E aí ela expira. Então, quer dizer, não tem jeito. Pra ela ter máxima velocidade, cada passada é inspiração e expiração. Eu não preciso fazer isso porque eu não tenho essa...

Então isso tudo favorece o desempenho na corrida Embora eu não consiga correr na mesma velocidade Então essa caça por persistência Me permitia uma performance ancestral melhor Porque eu conseguia matar o bicho e trazer pra casa Mas eu não precisava de velocidade Portanto, talvez a estratégia de correr na ponta do pé Seja uma estratégia mais ancestral Porque me protegia mais O que tu acha disso?

Se eu tiver falado besteira, pode meter bronca, tá? Não, eu acho que é por aí mesmo Só vou botar mais variabilidade ainda na história Porque o que eu imagino que seja uma caça desse tipo Quando era moleque, a minha infância é um pouco na roça E a gente caçava galinha assim, tipo, caçava, pegava galinha É...

Tentar pegar a galinha descansada, ela te dá um baile. Ou você encantou ela e pega na pata, ou se tiver em campo aberto, esquece. Mas você corre um pouquinho atrás dela, ela corre, corre, corre, e uma hora ela para. Ela não consegue mais dar um passo, aí você pega e ela faz. Mas como que era o processo? Dou um susto na galinha. Então, um primeiro momento é rápido, e gritando, e gesticulando, e a galinha foge a mil por hora.

na alta intensidade a gente dura pouco então, mesmo a gente só que a gente dá um sustinho o bicho vai pra alta intensidade e cansa e a gente vai atrás dele em baixa velocidade aí daqui a pouco a hora que chega perto de novo dá outro susto nele, ele dá outro tiro então enquanto você tá dando pequenos tiros em uma corrida de longa distância mais no que a gente chama de steady state que gasta pouca e o metabolismo aeróbico dá conta disso aí, a galinha tá dando sprints de e

de alta intensidade e aí ela vai com pouco tempo para recuperar, ela vai cansando, cansando até você parar ela. Então tem uma variabilidade na corrida ancestral que era a maior parte do tempo em baixa velocidade, mas com variações de velocidade, acelera e freia, acelera e freia, e um ambiente que...

correr no solo plano linear é coisa do século passado. O ser humano primitivo, o que eu fico imaginando, o único lugar que tinha um solo plano regular era talvez areia dura da praia. Porque em qualquer outro cenário, o terreno é acidentado, é sobe e desce. Então, o que ia ditar?

A parte do pé que toca o solo é mais o terreno. Então vai ter situação que eu vou tocar, vamos dizer que tem um morrinho assim. Então o meu pé esquerdo vai tocar virado dessa forma, que a gente chama de pronado, e o outro pé vai tocar supinado. Aí no próximo passo talvez eu já inverta. Aí no próximo passo talvez eu tenha que entrar com ponta de pé, no outro eu entro com calcanhar. Então é uma variabilidade muito grande de adaptação ao solo.

que nem chegava a ponto de falar assim, o certo é correr na ponta do pé? Não, o certo é botar o pé do jeito que for adaptar. O certo é correr e comer, né? É isso. O papel do pé é se adaptar ao solo. Então, do jeito que ele tiver que tocar, ele vai tocar. Pra me manter correndo à frente e almoçar depois. Então, é até essa dúvida de qual que é o jeito certo de correr, só surgiu agora. E o que eu...

O que eu tenho escrito lá no meu livro e que eu falo para os pacientes é não pensa nisso. A parte de controle do movimento do pé é medular. O meu cérebro, que é a parte voluntária, ele trabalha só tarefa.

E qualquer movimento que a gente for fazer tem duas tarefas. Uma é sustentação. Então eu posso pensar em me sustentar contra a gravidade, em crescer. E a outra tarefa é cumprir o objetivo. Qual que é o objetivo? É chegar em algum lugar? Então eu posso pensar em crescer e me dirigir para esse lugar. Ou empurrar o chão para me levar para esse lugar. Se eu pensar só nessas duas coisas, o corpo faz o resto. Certo.

Se eu trouxer movimentos voluntários para partes intermediárias, eu atrapalho o movimento. Certo. E já que você falou da chita, deixa eu só colocar uma coisa que eu uso a chita como exemplo nas minhas aulas.

Cara, a chita é um animal... Na realidade, assim, tu sabe que eu sou apaixonado por biologia, apaixonado por bicho, desde que eu me entendo por gente. Eu era daqueles meninos que, quando tinha época de borboleta, tinha muita flor na casa da minha mãe, tinha época de borboleta, eu pegava as borboletas, prendia pra ficar olhando pras borboletas, pra vendo, sabe? Eu sou muito doido por bicho. A chita é um animal surreal, cara. A coisa mais linda do mundo. Nossa! Linda. Nossa senhora.

Acho que um cavalo de porte. É muito lindo. Tem bicho que é feio. Mas até o bicho feio é bonito. Tá entendendo? Quando você pensa, por exemplo, numa topeira focinho de estrela.

Putz, é um bicho muito feio. As unhas grandes, os dedos grandão assim, tudo adaptado. Mas quando você começa a observar a beleza daquele corpo adaptado para o que ele faz, nossa, e eu estava estudando sobre isso uma semana atrás, aquele focinho em estrela que tem...

Acho que você que estudou neurologia sabe disso mais do que eu. Tem aquele homúnculo, né? Que de acordo com a sensibilidade, tem os beis são, as mãos ondas e tal. O homúnculo da toupeira, aquele focinho é...

sabe? Super importante, porque ela tateia tudo com aquilo ali. Cara, eu sou apaixonado por bicho, cara. Não tem jeito. Eu acho muito... Mas fala da Chita, senão eu vou ficar viajando. Não, mas é muito bom. E o homúnculo, é legal que ele é variável, né? Ele também não é um professor... Esse é um exemplo meio clássico, mas um professor de braile que enxerga enquanto ele tá dando aula...

O homúnculo dos dedos dele é gigante. Aí ele sai de férias, deixa de praticar, o homúnculo diminui. Então é um negócio muito dinâmico. Muito legal. Tem que usar, se não usar, perde. Mas a chita é o que eu... É o...

O princípio que a gente usa para ensinar fisioterapia para os nossos alunos aqui é esse, que a gente não lida com movimento. Eu não estou interessado se o ombro faz flexão ou extensão. A gente lida com a funcionalidade, que é cumprir tarefas em um determinado ambiente. Então é um indivíduo cumprindo tarefas em um ambiente. Então, flexão de ombro não me interessa. Interessa é eu estou alcançando um copo lá no alto do armário. Certo.

E a Chita, qual é o propósito dela durante a corrida? Ela não quer correr, ela quer caçar. É o que você disse do ser humano primitivo.

E o corpo da presa está obviamente externo ao corpo dela. Então não adianta ela usar uma interocepção, uma propriocepção. Ela precisa usar algo que ela consiga saber onde está o bicho, que é visão. Então você olha durante toda a caça, a chita não tira o olho da presa em momento algum. É um olhar focado e aí a chita começa a acelerar em direção à presa e a presa de repente faz uma curva.

Todo o movimento da chita é em função do olhar. O olhar muda acompanhando, a cabeça vira, daqui a pouco a pata vira, daqui a pouco as patas traseiras viraram e no final o rabo faz um movimento para dar equilíbrio. E a chita não está pensando se o pé dela está pisando aqui ou lá, ou se está pronado, se está opinado. Ela está é. Como é que eu faço a minha boca chegar nessa presa para eu morder ela? Então todo o movimento da chita é em função...

de pegar preso. E aí, o corredor de longa distância é o... Essa é uma ironia do destino, porque o maratonista é o corredor que tem a pior mecânica de corrida. Fala, pô, a vida do cara é correr, por que ele corre tão mal? Justamente por causa disso. O velocista, o Bolt, ele larga daqui, a meta dele é chegar a 100 metros na frente. Ele tá enxergando aquilo, ele vai correr o mais rápido do que ele. Então o corpo dele se organiza pra ir pra lá. Todo pra ele.

Tá tudo organizado pra isso. O corredor, quando você ia correr lá seus 15 quilômetros, às vezes o treino não é nem na quilometragem, o treino é no relógio. Fala, hoje eu vou correr duas horas. Aí você olha o relógio, dá um disparo nele e sai correndo. Aí a sua cabeça olha pra lá, olha pra cá, olha pra cima, olha pra baixo. E aí o seu corpo faz o que quer. Quando o sistema nervoso tem um foco, eu quero chegar lá, ele organiza seu movimento pra fazer você chegar lá.

Se o seu propósito é meio aleatório, aí eu vou correr por duas horas e vou fadigar, faz parte desse treino fadigar, o meu corpo entra no modo assim, só não vamos cair, vamos chegar lá na frente sem se machucar. Então aí entram umas variações de movimento e como isso vai se reproduzindo, daqui a pouco você cria um jeitão todo esquisito de correr e aquele passa a ser o seu jeito padrão. Entendi. Só que para cada jeito de correr você vai pagar uma consequência, vai ter um preço.

Se você está com uma boa postura e um padrão de movimento que te leva só para onde você quer, por exemplo, à frente, você tem desempenho, tem performance e tem segurança. Se você começa a desviar movimento, você começa a ter sobrecarga biomecânica em alguns pontos e perda de performance. Então, vem junto. Performance e segurança estão dentro do mesmo padrão de movimento. Alteração de padrão de movimento tanto trazem insegurança quanto piora do desempenho.

E isso é bem simples, não precisa saber muita biomecânica. Precisa saber só que eu preciso me sustentar e me deslocar pra frente em alta cadência. Se souber fazer isso, pronto, tá correndo bem, tá seguro e tá com um bom desempenho. Entendi, entendi. Muito interessante. Cara, é um tema muito legal. Agora, você citou um outro mito que é um mito que eu nunca entendi porque que é mito, né? Que é a questão do alongamento.

Assim, é um negócio tão difundido Quando eu era pequeno 10, 11 anos de idade Meu pai corria Meu pai hoje tem 85 Ele correu bem, corria bem Correu até meia maratona e tal E ele fazia 7km em 35 minutos Ele se gabava de que era nível excelente No teste de Cooper Que tinha as marcas do Cooper lá e tal Do Kenneth Cooper E eu lembro que eu ia correr com ele E cara E eu lembro que eu ia correr com ele

Eu tô falando de década de 80, tá? Eu não tô falando de mídia social, nada disso. Tô falando de década de 80. A gente ia aqui em Fortaleza, na Lagoa do Opaia, que é uma lagoa que tem perto da casa dele, perto do aeroporto, e ele corria lá os 7 quilômetros dele e eu fingia que tava fazendo alguma coisa lá pra acompanhar, né? E, cara, todos os corredores começavam alongando.

Todos. Não tinha um corredor que não começasse alongando. Aí a minha pergunta é, como é que isso se transformou em mito? Isso era um mito porque não se sabia e aí virou mito? Ou é algo que alguém de repente, que nem esse aí da corrida, alguém teve essa ideia, não, vamos botar um amortecimento, vamos alongar que vai dar certo. Como é que começou e por que é mito?

Cara, esse daí eu não sei direito de onde vem. É dessa época. Então o Cooper é um cara que difundiu muito. Em São Paulo, não sei se a Infortaleza tinha essa gíria, mas era vou fazer um Cooper. Sim, sim, sim. A gente até tirava onda dizendo que ia fazer o... Que você já saia de casa com o Cooper. O Cooper feito. É? Claro. E aí essa época que começou a aparecer uma...

um estímulo para a atividade física mais estruturada e constante em busca de saúde. E é dessa época também que surgiu a questão do alongamento. Eu não sei dizer de onde surgiu, mas o negócio pegou a ponto de, é isso, 100% das pessoas, dos profissionais de saúde, um treinador, um fisioterapeuta, algumas técnicas de fisioterapia são 100% baseadas em alongamento, tipo o RPG.

O RPG você fica... E é um alongamento que eles chamam alongamento em cadeia. Então alonga seu corpo inteiro. Fica lá horas alongando. E aí disso surgiu. Que alongamento previne lesão. E que também é um negócio que... Não sei de onde veio. É... E também surgiu até a questão de alongamento. Como aumento de performance.

Esse daí eu sei de onde vem. Eu tô de novo me ouvindo aqui. Vou falar essa do xixi. O músculo tem um comprimento... Quando começaram os estudos mais microscópicos do músculo, o sarcômero tem um comprimento ótimo pra trabalhar. Sim. Se ele tá muito alongado, não tem actina em contato com a miosina, ele não contrai. Mas se tá muito encurtado, ele não tem amplitude pra gerar. Não tem pra onde ir. Pra onde ir.

Então tem uma posição ótima em que esse músculo consegue trabalhar. Então surgiu o mito de que eu preciso do alongamento para botar o músculo nesse comprimento para ele poder trabalhar. Mas isso é fake também. Essa posição aqui em que não tem contato, ela vai acontecer no extremo do alongamento a ponto de lesionar o músculo.

E essa condição aqui acontece na contração máxima. Não é aqui nessa posição. Não precisa de um músculo alongado aqui para ter uma boa posição dos arcomasos. Enfim, então surgiu esse mito. Mas isso era para todo lado. Tem que alongar, tem que alongar, tem que alongar antes da atividade física.

E quem não alonga está errado. Era uma coisa assim, você é louco de entrar em exercício sem se alongar. Aí já no começo da... Fim da década de 90, começo dos anos 2000, já começaram a surgir os primeiros estudos dizendo, ó, não tem prevenção de lesão com alongamento. O alongamento não previne lesão. Então isso meio que nos ciclos mais...

voltados para o estudo do movimento, isso já faz tempo que caiu por terra a questão do alongamento previne lesão. Mas como isso difundiu muito no popular, o aluno cobra, então tem um treinador de corrida, o aluno dele cobra uma aula de alongamento.

Por exemplo, o professor de circo, de balé, de outras modalidades, que o cara não está necessariamente dentro da academia estudando, ele continua com esse dogma. Então, ainda hoje, para onde você for, o mito do alongamento ainda é muito presente. O pessoal mais novo que estuda um pouco mais isso já sabe que alongamento não previne lesão. A única lesão que tem alguma...

prevenção causada pelo alongamento é a lesão posterior da coxa no sprint. Então, é o único estudo que já mostrou alguma coisa. Mas isso não significa, Cássio, que alongamento é uma coisa ruim?

Aí a gente volta pra... Porque veja bem, é muito comum assim, ah, alongamento não previne lesão. Logo, alongamento é ruim. Então o pessoal faz umas conexões assim, né? Que eu não consigo entender muito bem. É igual a história do...

Igual a história do jejum intermitente, o jejum não se mostrou superior à dieta oferecida pelo nutricionista. Logo no certo momento. Não, logo eles são iguais, em termos de perda de peso. Fora os outros benefícios. Então assim, não previne lesão. Mas o alongamento é inócuo? Não é.

especialmente o alongamento passivo, que é o alongamento tradicional, aquele que, vamos dizer, eu venho aqui alongar meu braço e eu seguro na posição de alongamento por 20 a 30 segundos. Esse alongamento é prejudicial, no sentido em que o músculo perde capacidade contrátil após o alongamento passivo. Porque você esticou demais o sarcômero.

E não é só por isso. E, aliás, esse nem é o mecanismo principal. O mecanismo principal é que tem um receptor do músculo que detecta o quanto o músculo está alongado. Certo. Que chama fuso neuromuscular. Quanto mais eu alongo o músculo, ou quanto mais rápido eu alongo o músculo, mais esse receptor percebe esse alongamento. E a resposta reflexa que ele dá é de contração do próprio músculo. Certo.

Uma primeira linha de defesa do corpo contra um alongamento extremo... Para evitar o estiramento, para evitar rasgar o músculo, vamos dizer assim. Isso. E aí é a contração do próprio músculo. Quando você vai para um alongamento e segura a posição, como qualquer outro receptor do corpo, a não ser os receptores de dor, ele se adapta. Então, você põe a camiseta de manhã, você sente a camiseta. Passou 30 segundos, você não sente mais a camiseta no seu corpo.

Então aqui, depois de 30 segundos, o fuso para de disparar. Isso tem duas consequências. Uma é que como o fuso ativa o músculo que está sendo alongado, você perde essa ativação. Então a falta de capacidade de contrate do músculo após o alongamento vem dessa adaptação do fuso.

E tem uma outra coisa, essa informação do fuso, essa resposta de contrair é medular, essa informação vem para a medula, volta e já manda contrair, é reflexo. Mas essa informação também sobra para o cerebelo, para núcleos da base, para córtex motor, córtex sensorial e motor, para programar movimentos.

Então quando eu tenho menos informação do fuso chegando, eu fico com menos controle sobre o meu movimento. Então sabe aquele, quando você faz um alongamento mais intenso e você sai com a perna meio bamba? Fala, nossa, alonguei, minha perna tá... Uma primeira sensação, que é a sensação gostosa que as pessoas têm, que pode ser de relaxamento. Então, ai, aliviou. Então se o propósito é relaxamento, o alongamento passivo tem o seu valor. Mas você vai fazer isso pós-esporte, não antes.

A hora que você vai para o esporte, você quer esse músculo responsivo, não relaxado. Mas vem junto com a perda de capacidade de contrato, vem junto uma descoordenação, uma dificuldade do sistema de controlar esse movimento. Então, o alongamento passivo é a pior escolha se você quer ganhar mobilidade. Porque ele te tira a capacidade de contrato. Esse alongamento, como você chamou de alongamento passivo, se for fazer, depois da prática.

É, é um momento de descanso, você pode separar um momento do dia para fazer isso, mas de preferência um momento que depois você vai ficar em repouso, que você vai assistir um Netflix, aí tudo bem. Mas antes da prática, você vai despreparado para a prática. Entendi. E o que seria um alongamento ativo? Já que existe o passivo. É, excelente pergunta. O alongamento ativo...

tem algumas modalidades, mas é a seguinte eu mesmo faço esse movimento aqui de alongamento, quando isso acontece o fuso não é adaptado, aí é o mecanismo neurofisiológico que não cabe aqui, mas eu consigo o fuso detecta o alongamento e ele não vai se adaptar porque quando eu tô enfim não vai entrar em minúcia neurofisiológica aqui bom cara, entra aí, pode falar

o negócio chamado de inibição recíproca e coativação alfa-gamma são nomes difíceis aí mas é o seguinte quando eu tô fazendo esse movimento o meu sistema nervoso ele entende que eu quero trazer a mão para cá logo é interessante para ele relaxar esse músculo certo então apesar do fuso tá querendo contrair esse músculo é ele deixa relaxar então você mais

Só que na sequência é interessante você fazer o movimento contrário. Aí você ativa o músculo que você quer alongar e aí ele vai ser contraído e junto o fuso contrai também. Então ele mantém a sensibilidade do fuso mesmo durante o alongamento. Na nomenclatura mais técnica da área, vão conhecer isso como PNF, ou Facilitação Neuromuscular Proceptivo. Que é um alongamento que você vai para a posição de alongamento e volta.

Só que aí a velocidade importa, o fuso detecta o comprimento e a velocidade. Então, se eu quero jogar handball, eu posso começar com o movimento de pequena amplitude e baixa velocidade. Então, pego a bola, trago a bola só até aqui atrás e lanço.

Aí eu vou aumentando um pouco a velocidade na baixa amplitude, daqui a pouco eu aumento a amplitude em baixa velocidade, daqui a pouco eu aumento a amplitude em alta velocidade. Com poucas repetições disso, o fuso já se regula para...

controlar e permitir que a mão venha aqui atrás e fazer isso de forma segura, controlando o grau de tônus muscular da musculatura que está se alongando. Então, com isso, ele protege esse segmento. Não só o músculo, mas, por exemplo, quando eu venho para cá, o meu ombro fica vulnerável. Se esse músculo não contrair, eu posso tirar o ombro do lugar. Então, quando...

Então se eu for lá e alongo, alongo, alongo, depois eu vou fazer esse movimento aqui, pode ser que o fato de eu ter desarmado o meu músculo favoreça o meu ombro e eu sair do lugar. Então quando eu faço esse alongamento ativo, eu estou calibrando o meu músculo para permanecer com o tônus adequado, mesmo quando a mão vai para trás. Então esse é o tipo de aquecimento que vale a pena. Em que você ganha amplitude. Excelente. O pilates trabalha esse alongamento ativo?

Trabalho. O Pilates trabalha muita isometria, especialmente de centro do corpo, que é interessante. Mais movimentos amplos. O padrão de movimento do Pilates é bem legal. Pequenas, pequenas discordâncias que eu tenho com a técnica. A principal delas é aquela coisa do desenrolar a coluna, sabe? Você tenta tocar o mochão e você sobe desenrolando. Não é o melhor padrão de movimento. Mas, enfim, é besteirinha. No geral, o Pilates é um...

É algo que, por exemplo, eu atendi um paciente com dor nas costas e dei alta para ele estar bem, pilates seria uma ótima manutenção, por exemplo. Segue fazendo pilates que ele vai continuar bem. Entendi. Quando é, Cassio, agora saindo completamente do tema, quando é que eu tenho uma dor muscular que é...

uma lesão, e quando, assim, como identificar? Será que eu consigo identificar, eu como paciente, consigo identificar quando é que essa dor muscular, ela foi por conta de uma lesão, realmente? Ou ela está, na realidade, querendo me proteger de algo que pode aparecer? Tem diferença essas dores? Assim, a principal diferenciação é a dor do treino.

Porque eu treinei, dia seguinte estou dolorido. Isso não é lesão. O que que... Isso é uma... Pode ser que esteja associado com a microlesões, mas aí faz parte do processo natural de ganho de força. Essa dor, normalmente ela é simétrica dos dois lados, pegando o músculo inteiro, sem nenhum ponto de dor mais específico.

Quando é algo assimétrico ou pontual, isso dói aqui. Essa é a dor muscular para você tomar cuidado. Porque ela está mostrando que esse ponto em específico teve alguma sobrecarga extra. E algumas vezes, a dor muscular que é de proteção. Normalmente é aquela dor que te limita a mobilidade. Então, o torcicolo.

Eu dei um mau jeito no pescoço, eu não consigo virar o pescoço. O músculo tá lá contraído, que assim, não mexe, porque se mexer vai dar ruim. Nessas horas, nem as medidas de relaxamento ajudam muito. Você faz massagem, você faz... E o músculo não solta, porque ele fala, eu tô protegendo aqui. Aí vem um quiropata e pá.

Se ele faz a manobra e volta a mobilidade, e volta o posicionamento daquela articulação bonitinha, o sistema sai do modo de alerta e aí na hora cede a contração muscular. Então essas, principalmente articulações, que o sistema está detectando o risco dela sair do lugar, ele bloqueia. Então se você tem uma dor muscular com limitação de mobilidade, talvez sim.

possa ser isso. Entendi. É, eu fiz essa pergunta porque depois que o Luiz Henrique nasceu e que ele começou a ficar mais pesado, então eu comecei a perceber que a minha lombar começou a chiar. Eu nunca tive dor nas costas na minha vida, cara, na minha vida. Mas já aconteceu, e assim, eu não tenho nenhum problema articular como a Liane, por exemplo, que tem artrite psoriásica e tal.

Eu não tenho. É realmente uma dor muscular. A dor não gera dormência, sabe? Não poderia ser um herde nisco, alguma coisa. Não é. Realmente é uma questão muscular. E aí eu percebo que em alguns momentos, por exemplo, teve um dia essa semana que eu acordei pela manhã, senti, mas você acorda meio, né? Depois que você passa na eternidade, você acorda travado meio.

Não tem jeito. Aí, quando eu fui pro vaso, que eu fui levantar a tampa, eu disse, cacete, eu senti, entendeu? Como se fosse um torcicolo, só que na lombar. Entendeu? Eu digo, eita, porra. Mas aí eu fui indo, fui indo, o músculo como se fosse, entre aspas, esquentando, né? E a coisa, pronto, beleza, tá indo. Mas é muito interessante isso da proteção.

Sim. E aí entra também uma outra questão. Vou te dar uma dica prática já, depois você me conta se melhorou. O corpo, eu falei isso no dia do Clube do Livro. A estratigrafia dos músculos do corpo é como se fosse aquela bonequinha russa matriósca. Então se eu descarnar tudo, eu vou pegar só aquela camada mais profunda que é a camada da rabada.

Aquela carninha que fica bem ali no meio do osso. Essa musculatura tem pouca capacidade de gerar força e potência. Mas ela tem muita capacidade de coaptação das articulações. Então ela é um músculo estabilizador. Aí vem uma camada intermediária e depois uma camada superficial. A camada superficial tem mais vantagem mecânica para gerar movimento. Então são os músculos grandes que vêm por fora. Que aí eu posso atirar alguma coisa, eu posso correr.

E esse músculo que você está sentindo, torcicolo na lombar, ele é um músculo superficial. E é um músculo que tem pouca capacidade de se manter contraído por longos períodos. Então, o que está acontecendo? E como a gente se conheceu aí em Fortaleza, eu lembro da sua postura. Quem deveria segurar... Vou dar uma levantadinha aqui. Quem deveria segurar... Vou dar uma levantada aqui.

O seu tronco, pra você dar conta de segurar o Luiz Henrique nos braços, é essa camada profunda. E um músculo chamado transverso, ele deveria fazer isso aqui. Encolher um pouquinho a barriga. Entendi. Quando ele faz isso, ele diminui a necessidade. Como você... Aí eu tô especulando, mas uma especulação com alta chance de ser verdade, tanto pela experiência clínica, pelo fato de eu ter te conhecido.

pessoalmente. Como você usa menos essa musculatura, sobra pra sustentar o peso do Luiz Henrique a sua musculatura lombar. Então você tá segurando ele com a extensão da coluna. Se você se policiar voluntariamente pra fazer isso aqui, umbigo pra dentro. E aí, umbigo pra dentro e segura o Luiz Henrique no braço, evitando puxar pelas costas, pelo aumento da overdose.

você já vai sentir o alívio dessa dor lombar. Boa, faz todo sentido. Faz todo sentido. Eu tenho um pouco de... Chama lordose, né? Sim. Eu tenho realmente um pouco. Eu tenho essa mania de... Acho que isso vem, não sei de onde, mas de andar muito ereto assim, aí você acaba deslocando, você acaba... Fica que nem aquelas coisas de exército, né? Peito pra fora, barriga pra dentro e budi arrebitado. Lascou, né?

E aí, sabe que esse é um outro mito? Que as pessoas acham que a boa postura é a postura estendida, que é essa do exército. Então...

Peito pra frente, barriga pra dentro. E aí cria esse padrão aqui. Exato. Esse não é o padrão certo. O padrão certo é o vertical. E ele não é rígido. A boa postura, ela é suave. Eu atinjo minha maior altura, mas eu tô relaxado. Eu consigo me mexer. Quando eu venho pra um padrão rígido, eu perco mobilidade e eu desalinho. Porque eu venho tendo aí pra extensão. Então é...

cresce com suavidade, mas dentro desse crescer, faz essa forcinha de umbigo pra dentro. Então aí você vai botar os músculos posturais pra fazer postura e deixa os músculos motores pra fazer movimento. Excelente, excelente. Vou testar, vou testar. Cara, a gente já tá aí com 1h20 de live, vou deixar você aí que você tem sua filha e eu tenho consulta já já também, ainda vou almoçar. Mas cara, mais uma vez um prazerzão.

imenso de estar conversando contigo, muita satisfação e, assim, é bom conversar quando a conversa flui, contigo flui super fácil, muito legal, cara. Obrigado por ter aceitado o convite. Eu já falei isso pra você e deixo registrado aqui, a sua iniciativa da Rebilião Saudável, da jornada da Rebilião Saudável, mudou a minha vida.

Então, sou fã do seu conteúdo Sou fã da... Então, eu mesmo, profissional da saúde Dentro da Universidade de São Paulo Doutor E, cara Eu tava com resistência à insulina Magro, ativo E minha insulina tava 17 O índice OMA lá, 4 Mudou minha vida de verdade Não é só da boca pra fora, não Então, sempre que você me chamar Eu tô à disposição Cara, que show Obrigado demais, hein Um forte abraço Manda um abraço pras meninas

Você também, manda um abraço pra... Agora é filha, né? Que tá na barriga. É filha, tá chegando aí. Agora eu vou poder dizer que eu tenho as minhas mulheres. Boa! E é muito bom. Valeu, meu amigo. Um abração. Um abraço. Tchau, tchau.

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