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Fábio Rosa

04 de maio de 202617min
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Fábio Rosa é investigador na Suécia. Pelo seu trabalho, que procura transformar células de tumores em células do sistema imunitário, o bioquímico foi reconhecido pelo Instituto de Bioinovação da Dinamarca.

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Participantes neste episódio1
F

Fábio Rosa

ConvidadoBioquímico
Assuntos3
  • Tratamentos contra o câncerTransformação de células tumorais em células imunitárias · Diferenças entre tumores sólidos e outros tipos de cancro · Mecanismo de ação da terapia com proteínas · Validação em modelos pré-clínicos e animais · Potencial de cura e desenvolvimento de células de memória
  • Asgard TherapeuticsFundação da empresa em Lund, Suécia · Origem da investigação na Universidade de Coimbra · Rodadas de investimento (Seed, Series A, Series B) · Investidores (Industrifundum, Borrengen-Galheim, Novo Nordisk, Johnson & Johnson Innovation, RV Invest) · Cronograma para ensaios clínicos e comercialização
  • Prêmios e ReconhecimentoReconhecimento do trabalho de Fábio Rosa · Instituto de Bioinovação da Dinamarca · Prêmio de Inovação e Ciência 2026
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Há uma semana chegou até nós a notícia do reconhecimento do trabalho de um cientista português. Fábio Rosa, bioquímico a trabalhar na Suécia, tinha vencido o prémio de inovação e ciência 2026 atribuído pelo Instituto de Bioinovação da Dinamarca.

Esta distinção deveu-se ao trabalho que tem feito na área do cancro, onde procura transformar células cancerígenas em células que vão trabalhar para o sistema imunitário. Esta semana convidámos o Fábio Rosa para vir conversar connosco no Holofoto. Olá Fábio, bom dia e obrigado. Bom dia, obrigado por me receber. Fábio, quão esperado ou quão inesperado foi este prémio do Instituto de Bionino e Inovação da Dinamarca?

Eu não estava mesmo à espera. Na verdade, eu já conhecia o prémio. Sei que eles lançaram esta iniciativa há mais de 5 anos. Normalmente, tinham sempre cientistas americanos a receberem o prémio. Para mim, foi uma enorme morra recebê-lo e ter o trabalho, que não é só o meu trabalho, mas é o trabalho de uma equipa grande.

que estamos a tentar realmente desenvolver um novo tipo de terapia para combater o cancro e pronto, esse foi o trabalho que realmente me levou a receber este prémio. Como é que eles tinham o teu trabalho debaixo de olho? É trabalho deles? Passa aqui a redundância de andar a ver o que é que anda a ser feito e publicado ou houve algum tipo de candidatura ou referência por parte de outra pessoa?

Existe sempre um processo de referência, neste caso, portanto, eu partilhei um somário do trabalho que tenho estado a desenvolver, portanto, no meu curso académico como na Asgard Terapêuticos, e depois existe uma referência, que neste caso foi o meu supervisor de doutoramento.

que previdenciou e basicamente acho que isto é o processo que é standard para todos os candidatos e pronto, depois no início deste ano lá recebi o e-mail com as notícias positivas mas sim, ou seja

Eles têm um painel de júrios que depois avaliam o trabalho com base nas publicações, com base no impacto, com base na capacidade de inovação e de criação de valor para a sociedade. E pronto, na verdade, depois dessa análise, lá decidiram dar o prémio. E que impactos é que isto tem enquanto cientista, enquanto investigador?

Tem um excelente impacto, especialmente para mim, porque eu não estou na academia, certo? Não estou na universidade, ou seja, estando numa empresa que é pequena, que é uma empresa biotecnológica, e mesmo estando numa empresa, ter este tipo de extinção é uma coisa que acho que não é assim tão comum e fácil, pois por norma existem muitos...

prémios, mas que são normalmente focados a pessoas que estão na carreira académica na universidade. Ou seja, para mim isto foi realmente o reconhecimento do trabalho de equipa para este projeto. Olha, vamos falar da tua investigação um bocadinho mais a fundo, mas antes já assim, isto vai ser a cura para o cancro?

A cura é sempre uma resposta muito complicada. O cancro é uma coisa muito heterogênea, certo? Ou seja, já existem muitas terapias que usam o sistema imunitário do doente para combater o cancro e muitas destas terapias estão a ter resultados excelentes em tumores como, por exemplo, o melanoma, o cancro da pele.

que normalmente são tumores que respondem muito bem a terapias que já existem. No instante existem outros tipos de tumores, como tumores do pulmão ou do colon, que realmente menos de 10% destes doentes atualmente conseguem responder e beneficiam destas terapias. E o objetivo, claro, ultimamente é desenvolver a cura, para que o doente fique completamente livre de cancro.

O objetivo, embora esse seja objetivo, todos nós nesta área sabemos que isso será muito difícil para ter um tratamento que realmente faça a cura da panóplia de tumores que existem atualmente.

Ou seja, nós estamos muito convencidos que esta terapia vai realmente fazer uma diferença na clínica. Depois o processo aqui é tentar identificar que tipo de tumor é que pode beneficiar da melhor maneira deste tipo de terapia, para que conseguimos maximizar o número de doentes que realmente respondem a estas terapias.

Então, isto consiste em pegar numa célula maligna, uma célula do tumor, e transformá-la numa célula que basicamente trabalha a favor do corpo, a favor do sistema imunitário. Como é que isto se faz? Como é que se põe uma célula que era uma coisa a ser outra, a ter outra função?

Exatamente. Portanto, em todo o nosso organismo nós temos mais de mil tipos de células, a diria eu, atualmente. E uma coisa que sempre me fascinou é que todos estes tipos de células partilham o mesmo DNA, o mesmo código genético.

Certo, e depois eu perguntei, então como é que podemos ter uma célula do cérebro, podemos ter uma célula do pulmão ou uma célula do coração, que têm funções completamente diferentes, mas que depois, na verdade, têm todas o mesmo DNA, o mesmo código genético. E isto é possível depois no núcleo das nossas células, existem proteínas que são capazes de modular os genes que são expressos e que não são expressos e, consequentemente...

são responsáveis por garantir a identidade de cada uma destas mil tipos de células que nós temos no nosso organismo. O que a gente faz é nós identificamos uma combinação de três proteínas que são altamente expressas nas células do sistema imunitário, que se chamam células dendríticas, que são o nosso foco. E ao introduzir estes três tipos de proteínas nas células do cancro,

As proteínas vão para o núcleo da célula do cancro, modelam a expressão de genes e induzem a expressão de genes de uma célula do sistema imunitário e, ao mesmo tempo, inibem a expressão de genes de um tumor, os genes tumorais. Ou seja, o que, na verdade, isto acontece é que, depois deste processo, que é bastante rápido, ou seja, nós entregamos as proteínas e, passado três dias, já começamos a ver sinais desta transição.

E o que acontece é que, depois de fazer a entrega destas proteínas, a célula do cancro passa a expressar os genes, que normalmente são expressos em células demogríticas, portanto em células imunes, e com isso adquirem todas as suas funções.

ou seja, depois são capazes de ativar o sistema imunitário contra elas próprias, fazendo uma espécie de cavalo de Troia, o conceito que todos nós provavelmente conhecemos de como os torianos foram dotados na guerra de Troia. E, portanto, de uma maneira muito simplista, nós fazemos o cancro, apresentar-se a ele próprio, às células do sistema imunitário, e atrair o sistema imunitário contra eles próprios, em dizer uma resposta forte contra o tumor.

E nós temos a certeza que essas células tumorais vão sempre reagir a essas proteínas e passar a dizer ao sistema imunitário, olá, estamos aqui, ou elas podem... Sim, muito bem.

Sim, é uma excelente pergunta. Até agora nós validamos este conceito em mais de 80 tipos de células do cancro isoladas de tumores sólidos diretamente dos ventos. Ou seja, estamos a falar de amostras primárias, não de linhas solares estabelecidas em laboratórios. São células que são retiradas e depois são trabalhadas em laboratório. Exatamente.

Ou seja, demonstramos que conseguimos fazer este processo em todas elas. E para além disso, também usámos modelos de ratinho, ou seja, onde estabelecemos os tumores e tentamos induzirmos a terapia e vemos qual é o efeito num organismo que tem um sistema imunitário. Pois na nossa área é muito difícil modular a complexidade do sistema imunitário num petradish ou num sistema mais simplístico.

necessitamos de usar animais mais complexos e sistemas mais complexos e neste momento testamos mais de 10 tipos de modelos de tumor em ratinhos e conseguimos ver excelente eficácia em todos eles, o que sugere por um lado que o processo funciona

em diferentes células do cancro e até agora nunca vimos, ainda não identificámos nenhuma célula do cancro que não fosse possível de ser tratada com esta terapia. E, por outro lado, num conceito mais complexo, porque um tumor num humano não são só células do cancro, é uma mistura com células do cancro, células do estroma, células do sistema imunitário.

E portanto, usando este novo ratinho, também conseguimos demonstrar que esta eficácia existe independente do ambiente microtumoral que encontramos nos doentes, que normalmente é muito heterogêneo. E portanto, este pack de dados pré-clínicos fortalece o potencial da terapia que nós estamos a desenvolver, que vai ser de estado em humanos pela primeira vez para o ano que vem.

No final desta terapia é suposto que os tumores, que o cancro tenham desaparecido completamente, que estejam lá, mas por ter sido transformado em células diferentes que o sistema imunitário consegue ver, simplesmente ficam inutilizadas. É uma cura total?

Em teoria? Como ele vai funcionar é nós entregamos as proteínas diretamente dentro do tumor ou seja, fazemos uma injeção intratumoral e usamos um vírus como um vetor para fazer a delivery destas três proteínas Como se fosse o envelope com a mensagem lá dentro

Exatamente, exatamente. E depois disto, o que faz é que as células do câncer são convertidas em células dendríticas. E normalmente, nos modelos que usamos até agora, as células que são então reprogramadas sobrevivem um máximo de 10 dias dentro do organismo. Ou seja, o que a gente espera é que no humano façamos o tratamento.

as células do cancro sejam convertidas em células endriticas ativem uma resposta imunitária contra elas próprias e muito importante que gerem células memória para que fiquem que persistem no organismo e para que depois consigam ser ativadas caso haja células que ainda existem no organismo e que as possam

identificar e destruir mais tarde. Ou seja, para a sua pergunta, as células vão persistir, as que são reprogramadas vão persistir em vivo cerca de 10 dias, mas depois a resposta imunitária que é induzida pelo tratamento é muito mais duradoura. E até agora, nos nossos modelos,

animais, a resposta fica até 200 dias depois do treinamento, isto no humano será mais de 10 anos, diria eu, mas claro, agora requer os estudos diretamente humanos para realmente conseguimos validar estes resultados adquiridos em modelos pré-clinicos.

Fábio, este tratamento será generalista? Ou seja, a partir do momento em que está desenhado, criado para um doente, poderá servir para vários? Ou isto tem de ser desenhado especificamente para cada pessoa? Tem aqui particularidades genéticas para cada pessoa?

Uma excelente pergunta e eu diria que isto é uma das grandes vantagens desta terapia. Embora ela seja personalizada, ou seja, a resposta que vai ser medida dentro do doente vai ser personalizada para o tumor que cada doente contém e que tem no seu organismo. Mas, na verdade, a droga, o tratamento, nós dizemos off the shelf.

pode ser administrada em diferentes doentes e em doentes com diferentes tipos de tumores sólidos. Pois, como eu disse, é um vetor viral, um envelope, contém depois estas proteínas lá dentro e é injetado intratumoral, ou seja, todos os doentes que contenham lesões sólidas que podem ser injetadas com esta terapia poderão ser incluídos e tratados.

Sim. Queria também falar um pouco da empresa da Asgard Therapeutics, a empresa que está assediada em Lund, no sul da Suécia, onde tu trabalhas, és um dos fundadores, juntamente com a Cristiana Pires e com o Filipe Pereira. O que é que leva três portugueses a abrir uma empresa de investigação científica na Suécia?

Pois, isso aconteceu, não foi planeado, primeiro. Ou seja, nós começámos esta investigação, esta ciência, há mais de 10 anos, já, no CNC, no Centro de Neurociências na Universidade de Coimbra, em Coimbra. E eu lá fiz o meu mestrado e comecei o meu doutoramento. E dois meses depois de eu começar o doutoramento, que foi financiado pela Fundação pela Ciência e Tecnologia, em Portugal,

o meu supervisor Felipe Pereira, que também é um dos cofundadores da empresa, recebeu uma proposta muito interessante por uma posição aqui na Universidade de Lund que trazia não só acesso a State of the Art Facilities ou seja, tudo do bom e do melhor digamos assim

e pronto, ou seja, depois tivemos essa oportunidade para vir para Lund, para continuar esta linha de investigação publicámos o primeiro artigo científico a descrever esta ciência numa revista científica chamada Science Immunology e também foi capa de revista na altura, ou seja, teve grande impacto e passado três dias já estávamos em no

negociações e discussões com diferentes investidores, decidimos começar a abrir a empresa oficialmente e iniciar todo o processo de valorização da tecnologia que depois demorou de 2018 até 2021, que foi quando nós fechámos a primeira ronda de investimento, nós chamamos de uma seed round.

onde a empresa recebeu 6 milhões de euros para maturar a tecnologia de três investidores, um chamado Industrifundum da Suécia, Borrengen-Galheim Venture Fund, que é da Alemanha, associada à pharma, e Novo Nordisk, que também é uma grande pharma aqui da Dinamarca. E pronto, esse foi o primeiro investimento que recebemos em 2021.

Maturámos a tecnologia até o ponto que depois conseguimos fechar uma segunda ronda de investimento, que chamamos Series A ou Series A, com o objetivo de maturar toda esta terapia e a tecnologia, de forma a que pudéssemos, no final desta ronda de investimento,

testar a terapia em humanos. E nós, neste momento, estamos nessa ronda de investimento. Foram 30 milhões de euros que foram cofinanciados pela Johnson & Johnson Innovation, também associada à Pharma e à RV Invest, com a participação dos outros investidores. E, de momento, hoje começamos a nossa nova fundraising. Portanto, estamos agora a levantar uma nova ronda de investimento.

uma series B, que é realmente para cobrir todos os custos de desenvolvimento clínico. Ou seja, até ao ponto que demonstramos na clínica, em doentes, que a terapia está a funcionar. Certíssimo. Quando é que podemos esperar os ensaios clínicos? Começam no próximo ano. Depois, quando é que podemos esperar que isto esteja nas prateleiras? Vamos dizer assim. Eu diria entre 8.

8 a 10 anos, depende muito da estratégia, pois normalmente todo o tipo de ensaios clínicos demoram bastante tempo e é por uma razão certa, temos de garantir que não só a terapia é segura, mas também que funciona não só numa população de 20 ou 30 doentes, mas numa população maior, ou seja, isto requer um certo número de anos para validar a tecnologia, mas eu diria...

De acordo com os planos atuais, entre 8 a 10 anos a tecnologia será comercializada. Muito bem, vai ser. Claro que doentes poderão ter acesso a esta terapia durante os clinical trials e muitos dos doentes que vão potencialmente beneficiar desta terapia são os que realmente vão participar nos ensaios clínicos que vamos iniciar.

Nós vamos ficar de olhos no trabalho do Fábio Rosa, bioquímico a trabalhar em Lund na Suécia, o vencedor do Prémio de Inovação e Ciência 2026, atribuído pelo Instituto de Bioinovação de Dinamarca e o convidado de hoje do Holofoto. Obrigado Fábio, um abraço e bom trabalho.