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LANÇAMENTO: Audio-book – Entorpecimento Onírico, 2ª Edição, de Marco Melo – Ficção Espírita

03 de maio de 20261h48min
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Nem todo pesadelo acaba ao abrir os olhos

Luciano tem uma vida perfeita. Ou pelo menos era o que ele acreditava.

Advogado bem-sucedido, respeitado, seguro de si — até que sonhos perturbadores começam a invadir suas noites. Neles, a realidade se desfaz, revelando algo que ele não consegue explicar… nem ignorar.Enquanto tenta manter o controle da própria mente, Luciano assume a defesa de um poderoso industrial acusado de envolvimento na morte da esposa. O caso parece simples — até que novas mortes começam a acontecer.Coincidência… ou consequência?Preso entre o mundo concreto e experiências que desafiam toda lógica, Luciano será forçado a questionar tudo: sua profissão, suas certezas… e até a própria morte.

Neste thriller envolvente, a linha entre sonho e realidade desaparece — e a verdade pode estar onde menos se espera.

Participantes neste episódio1
M

Marco Melo

HostAutor
Assuntos4
  • Entorpecimento OníricoThriller psicológico com elementos policiais e espirituais · A vida de Luciano, um advogado bem-sucedido · Sonhos perturbadores e a linha tênue entre sonho e realidade · Defesa de um industrial acusado de assassinato · Questionamento da realidade, profissão e certezas
  • Confronto com Félix e a verdade sobre as mortesFélix como amigo de Luciano e principal suspeito · Motivo para o assassinato de Márcia: divórcio e perda financeira · Eliminação de testemunhas (Marcelo Helmert, Cristina) · Ações de Félix para encobrir os crimes · Confronto final entre Luciano e Félix
  • Vida Morte EspiritualidadeLuciano em estado de torpor após a morte física · Criação de um mundo ilusório para proteção da consciência · Intervenção de espíritos assistentes e a busca pelo despertar · A importância do livre-arbítrio e da responsabilidade nas escolhas · Reflexão sobre a natureza da realidade e a vida após a morte
  • Análise do caso MárciaSuspeita de homicídio e inconsistências no laudo · Márcia, esposa do industrial Félix · Depressão, síndrome do pânico e possível suicídio · Discrepância entre quantidade de comprimidos e concentração no sangue · Possível uso de inalador para administração de substância
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Saudações, meu nome é Marco Melo, eu sou o autor desta obra Entorpecimento Onírico. É um thriller psicológico com mistério, algo policial, algo espiritual, que vocês vão curtir aqui com este audiobook.

Então a história se resume ao seguinte, Luciano tem uma vida perfeita, ou pelo menos era o que ele acreditava, advogado, bem sucedido, respeitado, seguro de si, até que sonhos perturbadores começam a invadir suas noites.

Neles, a realidade se desfaz, revelando algo que ele não consegue explicar, nem ignorar. Enquanto tenta manter o controle da própria mente, Luciano assume a defesa de um caso de um poderoso industrial como advogado, acusado de envolvimento na morte da esposa. O caso parece simples, até que novas mortes começam a acontecer. Coincidência ou consequência?

Preso entre o mundo concreto e experiências que desafiam toda a lógica, Luciano será forçado a questionar tudo, sua profissão, suas certezas e até a própria morte. Nesse thriller envolvente, a linha entre o sonho e a realidade desaparecem e a verdade pode estar onde menos se espera. Nem todo pesadelo acaba ao abrir os olhos. Curtam Entorpecimento Onírico.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello Prefácio O que é real e o que é apenas ilusão? Existe algo além do mundo que vemos? Ou tudo termina como uma chama de uma vela que se apaga? Luciano sempre confiou na lógica. Cresceu acreditando que tudo precisava fazer sentido, como seu pai sempre dizia.

Ainda assim, havia coisas que ele nunca soube explicar, coisas que preferia não questionar. Advogado bem sucedido, com uma vida quase perfeita, Luciano construiu sua trajetória sobre fatos, provas e certezas. Um homem que não deixava espaço para o inexplicável, até que os sonhos começaram. Noites inquietas, imagens fragmentadas, sensações que não se dissipavam ao despertar.

Aos poucos, o que parecia apenas desgaste emocional, começa a ganhar contornos mais perturbadores, como se algo insistisse em atravessar a barreira entre o sonho e a realidade. Ao mesmo tempo, ele assume a defesa de um poderoso industrial acusado de envolvimento na morte de sua própria esposa.

O caso parece simples, limpo demais talvez. Mas então surgem inconsistências. E depois, novos acontecimentos. Coincidência ou consequência? À medida que Luciano aprofunda sua investigação, sua própria percepção começa a falhar. O que antes era sólido, torna-se instável. O que era certo, passa a ser questionado. E talvez a maior dúvida não esteja no caso intrincado que ele tenta resolver. Mas na própria realidade...

de que ele insiste em compreender. Nesse thriller psicológico, cada resposta pode esconder uma nova pergunta. E nem tudo aquilo que parece claro pode ser visto de verdade.

Capítulo 1. O consultório do Dr. Plínio parecia saído de outro tempo. Estantes antigas de Jacarandá ocupavam as paredes abarrotadas de livros sobre medicina, psicologia e ciências.

Diplomas emoldurados dividiam o espaço com paisagens bucólicas e uma fotografia de Freud, que observava tudo com expressão austera. No chão, tapetes geométricos. No teto, um lustre de cristal lançava reflexos suaves que por um instante pareciam intensos demais para a iluminação do ambiente. Era um cenário clássico, quase cinematográfico.

e ainda assim havia algo fora do lugar. Sobre a pesada escrivaninha, entre papéis e pastas, um laptop moderno quebrava a ilusão de que o tempo ali havia parado. A tela permanecia escura, mas em determinado ângulo, refletia o ambiente com um leve atraso, como se hesitasse em acompanhar o presente.

No centro da sala, o divã de couro grenar contrastava com a poltrona vitoriana, onde o doutor Plínio estava sentado, pernas cruzadas, caderno apoiado sobre os joelhos. Ao lado, um pequeno gravador exibia um ponto vermelho aceso, registrando cada palavra da sessão. Por um breve instante, a luz pareceu oscilar e estabilizou.

Deitado no divã estava o doutor Luciano Figueiredo, advogado respeitado, racional, seguro, ou pelo menos era o que parecia. Tudo é muito confuso, disse ele, com voz baixa. Fechou os olhos por um instante, como se tentasse retornar ao sonho.

Eu me vejo em um lugar muito claro, claro demais. A luz quase me cega. Há pessoas ali, todas vestidas de branco, como se fossem, não sei, algo entre o antigo e o futurista. Ele respirou fundo. Elas falavam comigo, mas eu não entendo.

Vejo os lábios se movendo, mas não consigo ouvir direito. Então tento me concentrar e algumas palavras começam a surgir. Uma pausa. Elas dizem que eu preciso me lembrar. O silêncio se alongou no consultório. Denso, atento. Mas eu não sei do que. Luciano franziu a testa, visivelmente incomodado.

Então surgiu uma voz feminina. Eu conheço aquela voz, tenho certeza disso. Mas não consigo me lembrar de quem é. Plínio não a notava, apenas observava. E ela diz apenas uma coisa, outra pausa. Acorde. O gravador continuava registrando. É sempre aí que o sonho termina. Plínio inclinou levemente a cabeça, como quem escuta algo além do relato.

E quando acorda, disse ele finalmente, o que permanece? Luciano abriu os olhos, pego de surpresa pela pergunta, e hesitou. A sensação de que eu estava quase entendendo. Um silêncio breve, como se faltasse muito pouco. Plínio a sentiu satisfeito, como se aquela resposta tivesse mais valor do que o próprio sonho.

Minutos depois, Luciano deixava o prédio de fachada neoclássica. Na entrada, uma placa discreta identificava o local. Centro avançado de pesquisas dos distúrbios do sono. Do lado de fora, o mundo seguia normal. Carros passavam, pessoas caminhavam. O tempo corria sem hesitação.

Luciano parou por um instante olhando a rua. Teve a impressão de que havia esquecido algo importante. Piscou. A sensação passou. Ele seguiu. Mas algo já havia começado a mudar. Audiobook Entorpecimento Onírico De Marco Mello

Capítulo 2 Luciano atravessou o saguão do escritório, com passos firmes, mas a mente ainda carregava fragmentos do sonho. Luz intensa, vozes indistintas, a palavra, acorde. Ele empurrou a porta de vidro da sala principal. Finalmente, disse o chefe, sem levantar os olhos dos papéis. Achei que ia se atrasar.

O homem era direto, sempre fora, dono de um escritório décadas no criminal. Não gostava de rodeios nem de erros. Luciano puxou a cadeira à frente da mesa. Trânsito. Sempre ele, respondeu o chefe seco, fechando uma pasta. Vamos ao que importa. Deslizou um dossiê pela mesa e completou. O caso do industrial.

Luciano abriu o arquivo. Já conhecia boa parte daquilo. Ainda assim, algo ali resistia. Insistia em ser estranho. Como uma peça fora do lugar que teimava em não se revelar. A promotoria está pressionando, continuou o chefe. Quer transformar isso em homicídio. Mesmo com o álibi confirmado? Justamente por isso, Luciano ergueu o olhar. Como assim?

O chefe se recostou na cadeira, cruzando as mãos sobre o abdômen. Quando tudo parece perfeito demais, alguém começa a desconfiar. Silêncio. Por um instante, a frase ecoou além do caso. Luciano voltou aos papéis. A esposa, morta em casa. Overdose de barbitúricos. Relatório médico.

Depressão severa, síndrome do pânico, tendência suicida. Simples demais ou conveniente demais. E o laudo da perícia, perguntou, aponta inconsistências. Quais? Ainda não disseram.

Luciano franziu a testa. Aquilo não fazia sentido. Pegou seu bloco de anotações e começou a revisar. Marido estava em reunião com acionistas no momento da morte. Álibi confirmado. Causa mortes, overdose de barbitúricos, ataque anafilático. Criminalística sugere homicídio. Por quê?

A caneta pairou sobre o papel por um segundo a mais do que o necessário, como se aguardasse algo. Então ele acrescentou. Investigar por que a promotoria suspeita de homicídio.

Fechou o caderno lentamente. Ao levantar os olhos, teve a impressão de que o chefe observava com uma atenção incomum. Mas o homem já voltava aos papéis. Algum problema? Perguntou Luciano. Nenhum, respondeu ele, sem olhar. Só não gosto de casos que se explicam fácil demais.

Luciano assentiu. Levantou-se. Ao sair da sala, teve a estranha sensação de que aquela conversa já havia acontecido exatamente daquela forma. Até o tom de voz, a pausa antes da última frase, o peso do silêncio. Parou por um instante no corredor. Piscou. A sensação se desfez. Seguiu andando. Mas algo naquele caso, ou talvez nele mesmo, não se encaixava.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Melo Capítulo 3 Luciano abriu a porta de casa e foi recebido pelo som familiar de risadas. Ai! Filhos vieram correndo, abraçando suas pernas, mesmo antes que ele pudesse largar a pasta. Ele sorriu, inclinando-se para beijá-los. Calma, calma, um de cada vez.

A esposa surgiu logo atrás, com aquele sorriso tranquilo que sempre o fazia desacelerar. — Dia longo? — perguntou ela, aproximando-se. — Como sempre. Ele a beijou com carinho. Por um instante, tudo parecia exatamente como deveria ser. E era.

A casa refletia isso em cada detalhe. A sala ampla, iluminada, com móveis elegantes e confortáveis. Almofadas perfeitamente alinhadas. Tapetes persas, suavizando os passos. A lareira adornada por fotografias que congelavam momentos felizes.

Viagens, aniversários, conquistas. Tudo no lugar, tudo em harmonia. Quase cuidadosamente demais. Na sala de jantar, a grande mesa de embuia e vidro aguardava a rotina da noite. No andar superior, o escritório reunia o contraste entre o clássico e o moderno. Obras de arte na parede, incluindo um Monet original, dividindo o espaço com equipamentos de última geração.

Do lado de fora, o silêncio era protegido por câmeras, alarmes e cercas eletrificadas. Nada entrava ali sem ser permitido. Nada saía do controle. Ou pelo menos, era o que parecia. Luciano subiu as escadas lentamente, afrouxando a gravata.

No meio do caminho teve a impressão de que não ouvira mais as vozes das crianças lá embaixo. O silêncio se instalou de forma abrupta, quase artificial. Ele parou, escutou. As risadas voltaram como se nunca tivessem cessado. Continuou a subir.

Diante de um dos porta-retratos, deteve-se. A imagem mostrava a família reunida, sorrindo para a câmera. Perfeita, imóvel, talvez imóvel demais. Ele observou o próprio rosto na fotografia, e por um breve segundo, uma sensação estranha o atravessou. Como se estivesse olhando para alguém que imitava perfeitamente quem ele era. Piscou. A sensação desapareceu.

Luciano chamou a esposa lá de baixo. Já vou. Ele desviou o olhar da foto e seguiu pelo corredor. Por um instante, teve a impressão de que já havia vivido exatamente aquela cena. O degrau sobre o pé, a posição da mão na gravata, a voz chamando ao fundo. Dessa vez não parou, continuou andando. Mas, naquela noite, enquanto a casa permanecia impecavelmente tranquila, algo dentro dele já não estava.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 4 Se você levar esse caso até o fim, disse o chefe, girando lentamente a caneta entre os dedos, eu te coloco na sociedade. Luciano não respondeu de imediato. A frase ficou no ar como uma porta entreaberta.

Estou falando sério, continuou ele. Você já provou o que precisava, mas esse caso, esse é diferente. Luciano manteve o olhar fixo. Diferente era uma boa palavra. É arriscado também, acrescentou o chefe. Todo caso criminal é, respondeu Luciano com calma. O chefe sorriu de leve. Nem tudo envolve gente como o Félix.

Silêncio. O nome trouxe à tona mais do que um processo. Faculdade, festas, conversas circulares que pareciam sempre terminar no mesmo ponto. Félix sempre soubera navegar, sem se comprometer. Ele é seu amigo, disse o chefe. Isso ajuda ou atrapalha? Luciano inclinou-se na cadeira. Depende do que você chama de ajuda.

— Chamo de proximidade, respondeu o chefe. E a proximidade às vezes cega.

A resposta veio pronta demais, como se já estivesse ensaiada. Luciano não gostou da observação, mas não contestou. Conhecia Félix há anos, filho de uma família tradicional, dinheiro antigo, influência espalhada em todos os lugares certos. Ele deu a empresa e multiplicou seu valor com uma habilidade quase instintiva. Uma raposa, sempre fora.

Mas também havia outras histórias. Casamento perfeito, pelo menos nas fotos. Na prática, uma rotina de excessos. Noites que nunca terminavam no mesmo lugar onde começavam. Luxo, jogos, festas. Uma vida que parecia acontecer à margem da própria realidade. Márcia, sua esposa, ficava de fora. Sempre ficava. Decorativa. Envolta em conforto. Cercada por tudo o que o dinheiro podia comprar. Menos presença.

Luciano fechou o arquivo com um leve gesto. Ele disse que não teve nada a ver com a morte. Falou. E você acredita? Indaga o chefe. A pergunta veio encaixada demais, quase no exato momento em que ele esperava ouvi-la. Luciano sustentou o olhar do chefe por um segundo a mais do que o necessário.

Acredito que ainda não tenho todos os fatos ou todos os desdobramentos deles. O chefe assentiu, como se aquela fosse a única resposta possível.

Ótimo, então vá atrás deles. Luciano pegou seu bloco de anotações, mas não escreveu nada. Por um instante, teve a impressão de que já havia anotado aquilo antes. Não o conteúdo, o gesto, o peso da caneta, o silêncio. Havia algo naquele caso que não se encaixava. E não era só a perícia. Talvez fosse Félix, talvez fosse a história inteira, ou talvez fosse aquela sensação persistente.

de que, por mais que avançasse, nunca saía no mesmo ponto. Ele piscou, afastando o pensamento.

Eu resolvo isso, disse, levantando. Eu sei que resolve, respondeu o chefe sem hesitar. É por isso que a sociedade está na mesa. Sem hesitar. Rápido demais. Como se aquela resposta não dependesse de nada. Luciano fez um leve aceno e saiu. No corredor, o movimento do escritório seguia normal. Telefones, vozes, passos apressados. Tudo no lugar, como sempre.

Ainda assim, por um instante, ele teve a impressão de que não era a primeira vez que atravessava aquele corredor. Nem a segunda, talvez nem a décima. Pestanejou e continuou andando. Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello

Capítulo 5 Indiferente de Félix, Luciano sempre acreditou em estabilidade. Não era só uma escolha, era algo que vinha de dentro. Ou talvez, de muito antes.

Aquela noite, depois que a casa silenciou, ele permaneceu alguns minutos sozinho no escritório. A luz indireta refletia nos quadros da parede e o olhar acabou parando em uma fotografia antiga. Seu pai, terno escuro, expressão firme, o tipo de homem que parecia não admitir atalhos.

Luciano se aproximou, lembrava-se bem das histórias. Filho de operário, criado com pouco, mas com disciplina. Trabalhou desde cedo, estudou em escola pública, entrou na faculdade de direito com esforço próprio. Nada veio fácil, e talvez por isso, nada foi desperdiçado. Anos depois, tornou-se desembargador. Uma trajetória construída passo a passo, sem desvios.

Não existe vitória sem sacrifício, dizia ele com frequência, e não existe honra sem caráter.

A frase surgiu em sua mente com uma nitidez quase incômoda, sem esforço, sem variação, exatamente como sempre fora. Luciano cresceu ouvindo aquilo e acreditou. Seguiu o mesmo caminho com a mesma convicção. Estudou, destacou-se, construiu uma carreira sólida. O reconhecimento veio cedo, primeiro como estagiário, ainda no segundo ano da faculdade, quando um professor percebeu algo diferente nele.

O mesmo professor que hoje era seu chefe. O mesmo que agora lhe oferecia a sociedade. Tudo parecia lógico, linear, como se cada passo tivesse sido alinhado muito antes de ser dado. Como se houvesse um roteiro silencioso conduzindo tudo.

Luciano desviou o olhar da fotografia. Por um instante, teve a estranha sensação de que aquela lembrança não era exatamente uma lembrança, mas algo acessado. Como uma cena já pronta, a qual ele retornava, sem alterar nada, sem poder alterar nada.

Ele franziu levemente a testa. A sensação se desfez antes que pudesse ser compreendida. Do lado de fora, a casa permanecia tranquila. Sua esposa e seus filhos dormiam. Tudo estava em ordem, como sempre estivera. E como deveria continuar. Luciano apagou a luz e saiu do escritório. Sem perceber que, em meio a tanta coerência, sua própria história começava a soar perfeita demais para ser inteiramente real.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 6 As lembranças da faculdade voltaram de forma fragmentada. Risos, música alta, copos tilintando. A despedida de solteiro. Luciano estava encostado no balcão, segurando um copo de uísque, que já não lembrava há quanto tempo estava ali. O ambiente era luxuoso, exagerado, exatamente como Félix gostava.

Meu camarada, a voz veio alta, carregada de entusiasmo. Félix surgiu ao seu lado, já visivelmente alterado pela bebida, com aquele sorriso despreocupado que sempre o acompanhava. É a sua última chance, disse, apontando o copo na direção de Luciano.

Última chance de fugir. Luciano soltou um leve riso. Fugir de quê? Da prisão mais bem decorada do mundo, respondeu Félix, abrindo os braços como se apresentasse um espetáculo invisível. Casamento. Ele riu sozinho da própria piada. A vida, meu amigo, continuou aproximando-se. Está na liberdade, em escolher, em não dever nada a ninguém. Fez um gesto amplo ao redor.

Olha isso tudo, o mundo é grande demais para se prender a uma única história. Luciano observou a cena. Luzes, música, gente circulando, conversas que se cruzavam sem profundidade. Tudo intenso e ao mesmo tempo vazio.

Nem todo mundo vê assim, respondeu com calma. Félix o encarou por um segundo, como se avaliasse aquela resposta. Então sorriu. Eu sei, disse dando um tapinha no ombro do amigo. É por isso que você vai se casar. Uma pausa. E eu vou continuar vivendo.

Os dois brindaram. O som do vidro ecoou breve, perdido no meio da festa. Luciano levou o copo aos lábios, mas não bebeu. Por um instante, teve a estranha sensação de ter assistido aquela cena de fora. Como se já soubesse exatamente como tudo terminaria. Piscou. A música continuava, as vozes também. Tudo seguia como deveria, mas aquela sensação ficou.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 7 A noite estava tranquila. Os lençóis de cetim ainda guardavam o perfume suave da casa. E o corpo de Luciano afundava-se lentamente no sono ao lado da esposa. Então a luz veio. Não era uma luz comum. Era intensa, difusa, como se não tivesse origem.

Tudo ao redor parecia dissolvido em uma névoa clara, quase líquida. Luciano tentou focar. Havia formas, pessoas aproximando-se. Ele não conseguia distinguir seus rostos. Apenas silhuetas, envoltas em branco, movendo-se com uma calma que o deixava inquieto. Então, uma delas se destacou. O coração dele apertou. Mãe?

A figura se aproximou. Agora ele podia ver melhor. O mesmo rosto, o mesmo olhar. Mas havia algo diferente. Algo mais profundo. Quase impossível de nomear. Ela sorriu. Um sorriso suave, mas carregado de preocupação. Luciano sentiu um impulso imediato. Queria abraçá-la, falar, perguntar tudo ao mesmo tempo.

Eu, eu senti sua falta. A voz saiu baixa, hesitante. Ela ergueu a mão, interrompendo-o com delicadeza. Seus lábios se moveram. No início, não entendeu. Era como se o som não chegasse completo. Então, aos poucos, uma frase começou a se formar. Você precisa... A névoa pareceu intensificar-se.

prestar atenção. Luciano franziu a testa. No quê? Ela deu um passo à frente. Agora estava muito próxima. O olhar firme. Nem tudo é. A voz falhou por um instante. O que parece.

O silêncio caiu pesado. Luciano sentiu um desconforto estranho, como se algo dentro dele resistisse àquelas palavras. Mãe, eu estou bem, disse quase defensivo. Minha vida está bem, eu tenho tudo sob controle. Ela o observou por um segundo que lhe pareceu longo demais. Então, com uma suavidade que contrastava com a urgência do olhar, disse.

Meu filho. Uma pausa. E então mais clara do que tudo ao redor. Acorde. A palavra ecoou. Não como um som, mas como uma sensação. Acorde. Luciano abriu os olhos de repente. O quarto estava escuro. Silencioso. Ao seu lado, sua esposa dormia tranquilamente. Ele passou a mão pelo rosto, sentindo o coração ainda acelerado.

Mãe, a imagem estava viva dentro da sua mente, mas algo naquilo não fazia sentido. Se era apenas um sonho, por que parecia tão real? E mais do que isso, por que parecia um aviso? Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello Capítulo 8 O ponto vermelho do gravador piscava em silêncio. Luciano estava deitado no divã, olhos fixos no teto.

Foi diferente dessa vez, disse. Mas claro. E ela estava lá. O doutor Plínio não interrompeu. Minha mãe. Uma pausa. O que ela disse? Luciano demorou a responder. Não exatamente disse, corrigiu. Parecia que as palavras chegavam pela metade, mas tinham um sentido. O psiquiatra inclinou levemente a cabeça. Que sentido?

como se fosse um aviso. Silêncio. — E isso te incomoda? Perguntou Plínio. — Não é isso, Luciano franziu a testa. — É que não faz sentido. Minha vida está bem. Tudo está no lugar. O doutor anotou algo rapidamente. — Como era sua relação com ela? — Boa, respondeu Luciano, quase automático. — Muito boa. Ela era carinhosa, presente. Ele hesitou.

Mas Luciano soltou o ar devagar. Com meu pai era diferente. Plínio ergueu os olhos do caderno. Diferente como? Frio, ele buscou a palavra. Não, frio não. Contido, como se ela se encaixasse.

Se encaixasse em quê? Nele. Luciano passou a mão pelo rosto. Meu pai sempre foi muito rígido. Tudo tinha que estar certo, organizado, sob controle. Uma pausa breve. E sua mãe? Luciano olhou para o teto. Ela não era assim. Como ela era? Ele demorou um pouco mais dessa vez. Livre. A palavra saiu com uma estranha firmeza. Livre de quê?

Luciano piscou como se a pergunta tivesse chegado mais tarde. De regras, de rótulos. Ela pensava diferente, falava de coisas espirituais às vezes. Isso incomodava meu pai. O silêncio voltou a ocupar o consultório. E você? Perguntou Plínio. Seu pai permitia que você fosse... Você? Luciano soltou um leve sorriso. Acho que sim. Segui a carreira dele. Me dei bem.

Isso é o que você faz, interrompeu o psiquiatra, com calma. Não é o que você é. Luciano virou levemente a cabeça. Qual a diferença? Plínio fechou o caderno com um gesto tranquilo. Boa pergunta. O relógio marcava o fim da sessão. Pense nisso durante a semana. Luciano permaneceu deitado por mais alguns segundos. Doutor? Sim?

E se... ele hesitou. E se esse sonho não for só um sonho? Prínio não respondeu de imediato. Apenas observou.

E se não for, disse por fim, talvez você ainda não esteja fazendo as perguntas certas. O gravador continuava piscando. Minutos depois, Luciano já estava do lado de fora. O ar parecia mais pesado do que o normal. Livre. A palavra ecoava. Mamãe. Ele franziu a testa. E aquela sensação voltou novamente. A mesma do sonho. Como se algo estivesse tentando atravessar. Luciano balançou a cabeça incomodado.

Eu sou eu, murmurou quase irritado. Claro que sou eu, mas pela primeira vez a resposta não pareceu suficiente. Audiobook Entorpecimento Onírico de Marco Mello Capítulo 9

Esse caso não pode escapar, disse o chefe, sem rodeios. Luciano permaneceu em silêncio por um instante, observando a cidade pela janela atrás da mesa. O movimento lá fora parecia distante, quase irrelevante. Não vai, respondeu por fim. O chefe apoiou os cotovelos na mesa.

Não é só uma questão jurídica, você sabe disso? Luciano assentiu levemente. Sabia. O contato com o industrial envolvia cifras que iam muito além dos horários habituais. Era um tipo de caso que mudava o patamar de um escritório inteiro. Você é o melhor que eu tenho, continuou o chefe. Sempre foi. Uma pausa. Desde a faculdade.

Luciano voltou a olhar para ele. Já tinha ouvido aquilo antes. Não como aquelas palavras exatas, mas o sentido era o mesmo. E eu compro o que prometo, acrescentou o chefe. Sociedade. Silêncio. Luciano puxou a cadeira, sentou-se com calma. Em que termos? O chefe abriu um leve sorriso como já esperasse a pergunta.

10%. Luciano não reagiu de imediato, apenas cruzou as mãos sobre a mesa. 20. O sorriso do chefe se alargou. Sempre gostei disso em você. Do quê?

de não aceitar o primeiro número. Luciano manteve o olhar firme. — Quinze — disse o chefe, após um breve silêncio. Luciano inclinou a cabeça, avaliando. Por um instante, teve a estranha sensação de já ter vivido aquela negociação. A mesma mesa, o mesmo tom, até mesmo o mesmo sorriso. Piscou. A sensação passou.

Fechado, disse. O chefe se recostou na cadeira satisfeito. Vá com calma, lobinho, comentou em tom leve. Concentre-se no caso, o resto vem. Luciano assentiu, levantou-se. Mas antes de sair, hesitou por um segundo. Esse caso começou.

Você nunca achou estranho? O chefe ergueu uma sobrancelha. Estranho como? Luciano pensou em responder. Na perícia, nas lacunas, em Félix. Naquela sensação persistente de que algo não se encaixava. Mas não disse nada disso. Nada, respondeu. Só complexo.

O chefe sorriu novamente. É por isso que está nas suas mãos. Luciano saiu da sala. No corredor, tudo seguia como sempre. Vozes, passos, telefones. Rotina, organização, controle. Ainda assim, por um breve instante, teve a impressão de que aquela conversa já estava resolvida antes mesmo de começar. E isso não fazia sentido. Audiobook Entorpecimento Onírico De Marco Mello Capítulo 10astastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastast

Luciano entrou em casa com uma leve sensação de triunfo. A casa estava silenciosa. As crianças já dormiam. Na sala, sua esposa Lia, acomodada no sofá, sob a luz suave de um abajur. Ele se aproximou sem fazer barulho e beijou-a na testa. Chegou cedo hoje, disse ela fechando o livro. Nem tanto.

Luciano foi até o aparador, pegou uma garrafa de vinho, serviu duas taças e voltou. Sentou-se ao lado dela, entregando-lhe uma. Por alguns segundos ficaram em silêncio. Então ele perguntou. Você é feliz? Ela sorriu quase rindo da pergunta. Claro que sou, por quê?

Luciano girou levemente a taça entre os dedos. Não sei, essa terapia tem me feito pensar. Ela inclinou a cabeça. Pensar em que? Em mim. Uma pausa. Quem você acha que eu sou? Ela franziu a testa divertida. Que pergunta estranha. Pensou por um instante como se buscasse a resposta mais óbvia. Você é um ótimo marido, um pai presente, um advogado brilhante.

Luciano deu um meio sorriso. Isso é o que eu faço. Ela deu um pequeno gole no vinho. E faz muito bem. Mas isso não responde.

Ela o observou por um segundo a mais. Você é o meu amor, disse com naturalidade. É um homem bom, cuida da gente, construiu tudo isso aqui. Fez um gesto leve ao redor. Olha essa casa, nossa vida, você acha pouco? Luciano não respondeu de imediato. Havia algo naquela resposta que deveria bastar, mas não bastava. Ele decidiu mudar de assunto. Tem uma novidade. Os olhos dela se iluminaram. Boa!

Talvez. Ele respirou fundo. Meu chefe falou em sociedade. Sério? Ela se endireitou no sofá. 15%.

Por um segundo, ela pareceu não reagir, como se a informação levasse um tempo a mais para chegar. Então sorriu. Isso é incrível. A resposta veio. Correta demais. A gente pode viajar, continuou ela. Aquela viagem que sempre falamos, Europa, Paris, quem sabe os Alpes. Ela falava, mas havia algo automático no seu tom, como se estivesse completando uma expectativa. Luciano a observou.

Primeiro eu tenho que ganhar o caso. Ela assentiu imediatamente. Você vai ganhar, sem hesitar. Você sempre ganha. O silêncio voltou. Luciano levou a taça aos lábios. O vinho tinha gosto comum. Ou talvez ele é que não estivesse prestando atenção.

Olhou ao redor. Tudo estava no lugar, exatamente como deveria estar. Ainda assim, por um instante breve, quase imperceptível, teve a sensação de que aquela conversa não era nova. Ele piscou novamente. A sensação desapareceu por completo.

Vamos dormir, sugeriu ela, levantando-se. Luciano assentiu. Enquanto a seguia pelo corredor, a pergunta ainda ecoava insistente. Quem sou eu? E pela primeira vez, a resposta parecia distante demais para ser alcançada. Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello Capítulo 11 Audiobook Entorpecimento Onírico

O cheiro de desinfetante era forte demais. Luciano percorreu o corredor branco até a sala indicada, onde foi recebido por um homem de jaleco impecável e expressão neutra. Doutor Luciano, disse o legista, estendendo a mão. Imagino que veio por causa do caso da senhora Márcia.

Exatamente. O médico fez um gesto para que ele entrasse. A sala era organizada, quase clínica demais. Sob a mesa, pastas alinhadas e um monitor exibindo gráficos que Luciano não se deu ao trabalho de entender. Eu li o seu laudo, começou Luciano, mas queria esclarecer um ponto.

O legista assentiu, já antecipando o tema. A quantidade de comprimidos no estômago. Luciano apoiou a pasta sobre a mesa. É pequena. Sim. Incompatível com a concentração encontrada no sangue. O médico cruzou os braços. Incompatível à primeira vista. Luciano ergueu os olhos. À primeira vista?

O legista puxou uma cópia do laudo e a deslizou sobre a mesa. A substância em questão tem absorção rápida. Dependendo das circunstâncias, pode haver uma diferença entre o que se encontra no estômago e o que foi já metabolizado. Luciano não pareceu convencido. Mesmo assim, a discrepância é significativa. É, concordou o médico, sem hesitar. Uma pausa.

E não há marcas de injeção? Perguntou Luciano. Nenhuma. Nem outra via evidente de administração? Não. O silêncio se instalou por um instante. Luciano passou os olhos pelo documento até encontrar o nome do princípio ativo. Longo, técnico, quase impronunciável. Medicamento de uso psiquiátrico. Comentou. Controlado, completou o legista. Não se compra facilmente. Luciano anotou o nome com cuidado.

Essa inconsistência, disse, voltando ao ponto. Não seria suficiente para levantar suspeita de homicídio? Meu laudo é técnico. A voz era firme. E com base nos elementos disponíveis, a causa da morte é suicídio. Luciano sustentou o olhar. Mesmo com a discrepância? Mesmo com ela. Outra pausa. O legista inclinou levemente a cabeça.

Doutor, a ciência nem sempre entrega as respostas perfeitas. Às vezes ela apenas aponta o caminho mais provável. Luciano fechou a pasta. Caminho mais provável. Levantou-se. A promotoria não parece concordar. O médico deu de ombros. A promotoria trabalha com hipóteses. Eu trabalho com evidências. Luciano fez um leve aceno. Obrigado pelo seu tempo. A disposição, doutor.

Ao sair da sala, o cheiro de desinfetante pareceu ainda mais forte. Luciano caminhou pelo corredor com o laudo nas mãos. Pequena quantidade no estômago, alta concentração no sangue, sem marcas, sem explicação clara, suicídio. Ele parou por um instante. Havia algo ali, algo que não se encaixava. E curiosamente era isso o que mais o atraía no caso.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 12 Complexo industrial se estendia como uma pequena cidade. Galpões alinhados, tudo limpo, organizado, quase impecável demais. O prédio administrativo, revestido por vidro espelhado, refletia um céu sem nuvens. Luciano atravessou a recepção e seguiu até o elevador panorâmico.

Enquanto subia, observava a fábrica lá embaixo. Funcionava como um relógio, preciso, silencioso demais para um lugar daquele porte. No último andar, foi recebido por Cristina. Doutor Luciano, disse ela, com um sorriso profissional. Doutor Félix já o espera. Ele a sentiu. Poucos segundos depois, já estava dentro da sala. Félix se levantou imediatamente. Meu amigo!

O braço veio forte, quase exagerado. Como anda o meu caso? Luciano sentou-se com calma. Estive na polícia científica. Félix ergueu as sobrancelhas. E? O laudo não é conclusivo. Félix inclinou-se levemente para a frente. Isso é bom, não?

— Depende — respondeu Luciano, medindo as palavras. — A promotoria parece estar trabalhando com outras suposições. Félix relaxou na cadeira. — Ótimo, então estamos bem. Por enquanto.

breve silêncio. Acho que eles não têm muito com o que trabalhar, completou Luciano. Félix sorriu. É por isso que eu queria você nesse caso. Levantou-se, já indo em direção ao bar. Vamos comemorar. Um puro malte? Luciano olhou o relógio. Ainda tem o fórum hoje. Félix riu. Sempre o responsável. Aproximou-se, batendo levemente em seu ombro. Depois a gente resolve isso.

Luciano levantou-se. Posso dar uma volta pela fábrica? Claro, respondeu Félix sem hesitar. A casa é sua? Luciano já se dirigia à porta quando parou. Félix! Ele virou. Por que você acha que a Márcia fez isso? O sorriso desapareceu. Por um instante, Félix pareceu não saber o que dizer. Ela... Começou desviando o olhar. Vivia sozinha demais.

Uma pausa. Eu não fui um melhor marido. Luciano não disse nada. Mas eu não achei que... Félix respirou fundo. Chegaria a esse ponto. Silêncio. Luciano assentiu levemente e saiu. No chão da fábrica, o ambiente era outro, mais frio, mais funcional. Luciano encontrou o laboratório indicado e bateu na porta.

O doutor Marcelo o recebeu com simpatia imediata. A conversa fluiu com facilidade, futebol, família, rotina. A confiança veio rápido. Rápido demais. Esse composto aqui, disse Luciano, casualmente, vocês produzem em larga escala? Marcelo assentiu. Um dos nossos carro-chefe. Luciano fez uma pausa como se fosse apenas curiosidade.

E novas aplicações? O químico hesitou por um segundo. Depois sorriu. Ainda não é público, mas estamos testando um sistema de administração diferente. Luciano manteve a expressão neutra. Diferente como? Inalação.

Silêncio. Tipo as bombinhas de asma? Exatamente. Luciano cruzou os braços. E funciona? O químico riu. Funciona até demais. Luciano não comentou. Em casos extremos, seria revolucionário, continuou Marcelo. Nada de contenção física, nada de agulhas. Ele parou como se percebesse que falava demais. Mas já era tarde. Luciano a sentiu como se fosse apenas interessante.

Minutos depois, despediu-se. Antes de sair, seu olhar caiu sobre uma pasta aberta na mesa. Um documento oficial. Leu rápido, indeferido. Risco elevado de superdosagem por via pulmonar.

Luciano seguiu andando, sem olhar para trás, mas agora sabia. Sabia que havia uma forma, sem comprimidos, sem injeção, limpa, silenciosa. No alto do prédio administrativo, em uma sala silenciosa, Félix observava. As imagens passavam diante dele, uma após a outra.

Corredores, laboratórios, funcionários. E então Luciano, caminhando pela fábrica. Parando, observando, perguntando. Félix inclinou levemente a cabeça. O sorriso havia desaparecido por completo. Na tela, seu amigo parecia interessado demais. Félix aproximou-se um pouco mais do monitor.

E pela primeira vez naquele dia, não pareceu tranquilo. Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 13 A casa do pai permanecia exatamente como Luciano se lembrava. Móveis pesados, organização impecável, tudo no lugar certo. Como se nada ali pudesse sair do controle. Entre, meu filho.

O velho desembargador o recebeu com um aperto de mão firme, seguido de um gesto discreto para a sala. — E então, como vão as coisas? Luciano sentou-se. — Bem, acho que muito bem. O pai observou, atento. — Fale. — O escritório pode me oferecer sociedade. Um breve silêncio. Então, um raro sorriso. Já não era sem tempo. Luciano assentiu.

O pai apoiou-se na poltrona, satisfeito. Você fez por merecer. Sempre disse que disciplina e constância levam ao topo.

Luciano sorriu de leve. Aquilo soava familiar, confiável, seguro. A conversa seguiu para os netos, para a rotina e para pequenas conquistas do dia a dia. Aos poucos o tom ficou mais leve. Foi então que Luciano decidiu se arriscar. Pai, tenho tido uns sonhos estranhos. O velho o encarou. Sonhos? Como a mamãe.

O silêncio caiu de forma diferente daquela vez. O olhar do pai mudou por um breve instante. Quase imperceptível, os olhos pareceram brilhar, mas ele se recompôs rápido. E o que ela diz? Não sei exatamente, respondeu Luciano. Parece um aviso, algo sobre prestar atenção. O pai desviou o olhar. Sua mãe sempre foi assim. Assim como? Aérea. A palavra veio seca.

nunca deu valor ao que realmente importava. Luciano franziu a testa. O que realmente importava? Construir, respondeu o pai firme. Garantir segurança, estabilidade, futuro.

Levantou-se e caminhou lentamente pela sala. Eu lutei por tudo o que tivemos. Nada veio fácil. Luciano acompanhou com um olhar. Ela não via assim? O pai soltou um leve sorriso, sem humor. Ela via outras coisas. Uma pausa. Coincidências, sinais, energias. Luciano permaneceu em silêncio.

Essas ideias, continuou o pai. Espiritualidade, astrologia, tarô, essas coisas. Ele fez um gesto vago com a mão. Nunca a levei a sério. Ela acreditava muito mais do que devia. Outra pausa. E a missa é comigo, é verdade. Sempre foi correta nisso. Mas ele balançou a cabeça. Nunca esteve realmente lá. Luciano apoiou os cotovelos nos joelhos.

Eu não sabia. O pai olhou de lado. Você também nunca perguntou. A frase ficou no ar, pesada, simples, irrefutável. Luciano desviou o olhar. Talvez fosse verdade. Talvez ele estivesse ocupado demais, vivendo a vida que esperavam dele. Ela falava dessas coisas com você? Perguntou. O pai hesitou por um instante.

Falava sozinha às vezes. Luciano ergueu os olhos. Como assim? Livros, anotações. Ele deu de ombros. Um mundo que não era o meu. Silêncio. Luciano respirou fundo. Pela primeira vez, a imagem da mãe parecia incompleta. Como se tivesse conhecido apenas uma parte dela. Uma parte conveniente. Levantou-se. Vou indo, pai. Vá.

Na porta, Luciano ainda hesitou. Queria perguntar mais, mas não perguntou. Parabéns pela sociedade, disse o pai com firmeza. Continue focado, é isso que importa. Luciano assentiu, saiu. Do lado de fora, o ar parecia diferente, mais frio, mais amplo. Entrou no carro e permaneceu alguns segundos em silêncio.

Mãe. A palavra ecoou de um jeito novo. Não mais como uma lembrança, mas como uma pergunta. Quem ela era? De verdade? E por que ele nunca quis saber? Ligou Ká. Enquanto se afastava, uma sensação incômoda se instalou. Não sobre o caso, não sobre o trabalho, mas sobre algo mais simples, mais próximo, mais antigo. Talvez sobre tudo o que ele escolheu não ver.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 14 De volta à sua mansão, Luciano recolheu-se ao seu gabinete. O ambiente era silencioso, iluminado apenas pela luz direcionada da mesa. Tudo estava em ordem, como sempre. Ele abriu o bloco de anotações, a caneta deslizou com precisão.

Alta concentração de barbitúricos no sangue. Quantidade incompatível com os comprimidos ingeridos. Substância fabricada pela indústria de Félix. Possível administração por via alternativa. Projeto experimental. Inalador tipo bombinha. Indeferido pela agência reguladora. Risco de superdosagem. Reavaliar o álibi. Possível conivencia interna. Motivo?

Ele parou. A ponta da caneta pairou sobre o papel. Motivo? Dinheiro? Herança? Traição? Ou algo mais? Luciano apoiou-se na cadeira, observando as próprias anotações. Tudo parecia encaixar, mas de um jeito que o incomodava.

Foi então que algo o atingiu, uma sensação breve, sutil, como se aquela cena já tivesse passado por ele antes, mesmo o silêncio, mesma luz, mesma disposição dos objetos. Ele pestanejou, a sensação se dissipou e Luciano fechou o bloco com mais força do que pretendia. Levantou-se e caminhou lentamente pelo escritório.

Aquilo já não era apenas um caso, era Félix, seu amigo, e pela primeira vez a dúvida se instalava de verdade. Ele parou diante de um instante. Durante anos, sua carreira foi construída sobre uma base sólida. Defender o cliente, mas, mais do que isso, acreditar nele.

Mesmo nos casos mais difíceis, havia sempre uma linha clara. Inocente ou culpado assumido. Nunca uma zona cinzenta. Nunca essa sensação. Agora era diferente. Félix não confessava, mas também não parecia limpo. Luciano passou a mão pelo rosto. Se estivesse errado, estaria traindo um amigo. Se estivesse certo, estaria defendendo um criminoso. O peso daquilo o atingiu com força. Ele voltou à mesa.

Olhou novamente para a palavra escrita. Motivo? A tinta ainda parecia fresca. Eu preciso saber, murmurou. Não era mais sobre vencer o caso. Era sobre entender. Sobre chegar à verdade. Custe o que custar.

Apagou a luz. Ao deixar o gabinete, levou consigo uma certeza incômoda. Não poderia mais voltar atrás. No quarto, deitou o seu lado da esposa. O corpo estava cansado, mas a mente desperta demais. Fechou os olhos. E, pela primeira vez desde o início de tudo, teve a clara sensação de que aquela noite não traria descanso.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 15 A névoa não estava mais lá. Ou melhor, ela havia sido substituída por algo pior. A escuridão. Luciano caminhava com dificuldade. O chão era irregular, pesado, como se tentasse prendê-lo a cada passo.

Lama, fria, pegajosa. O ar era úmido, denso, difícil de respirar. Dessa vez, ele sabia, não era o mesmo lugar. As árvores se erguiam ao redor, altas, retorcidas, como sombras sólidas.

A luz da lua mal atravessava os galhos, fragmentada em pequenos cortes prateados no chão. Os sons eram constantes, grilos, sapos, altos demais, quase insuportáveis. Então paravam, de uma vez, como se algo maior estivesse por perto. Um uivo cortou o silêncio.

Longo, distante, mas próximo o suficiente para gelar o sangue. Luciano girou o corpo. Havia movimento entre as árvores. Vultos, rápidos, indefinidos. Observando. Ele tentou avançar. O pé afundou mais na lama. Preso. Não.

Tentou puxar. O esforço foi inútil. Outro uivo, mais próximo. O som reverberou dentro dele, não apenas nos ouvidos, e então a voz. Não veio de um ponto específico, veio de todos. Grave, arrastada.

Você insiste. Luciano congelou. Em não ver. Luciano disparou. Quem está aí? A resposta veio em forma de riso, baixo, crescendo, ecoando entre as árvores. Sua ilusão. A palavra pareceu se deformar no ar. Vai trazê-lo para cá. Os vultos se aproximaram um pouco mais, ainda indistintos, ainda invisíveis o bastante. Para sempre.

Luciano tentou se soltar novamente. A lama cedeu um pouco, só para prendê-lo mais fundo. Não! Seu entorpecimento continuou a voz, agora mais próxima. É o que abre o caminho. O ar ficou mais pesado, quase sufocante. Este lugar, uma pausa. O silêncio absoluto combina com você. Não precisa fingir aqui.

Um ruivo enrompeu mais próximo do que nunca. E então Luciano acordou. O grito escapou antes mesmo que ele percebesse. O quarto estava escuro, seguro, familiar, mas seu corpo não sabia disso. O coração batia descompassado. Rápido, o ar entrava curto e irregular. Ao lado, sua esposa despertou assustada. Luciano!

Ele não respondeu. Passou as mãos pelo rosto, tremendo. Foi só um sonho, disse ela, aproximando-se, envolvendo-o. Ele não resistiu, apoiou-se nela. O corpo ainda tenso, a respiração tentando se ajustar, mas algo havia mudado. Dessa vez, não parecia apenas um pesadelo. Parecia um aviso, ou pior, uma ameaça.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 16 O LED vermelho do gravador pulsava na pernumbra do escritório. O oceano estava mais agitado do que de costume. Foi diferente, disse. Não era luz, nem aquelas figuras. Era escuro, pesado. O doutor Plínio não escreveu nada dessa vez. Apenas ouviu.

— Tinha algo ali, continuou Luciano. Algo que me queria. Silêncio. — E o que significa isso para você? Perguntou o psiquiatra. Luciano soltou um suspiro impaciente. — Eu vim aqui para entender isso, doutor. Plínio inclinou levemente a cabeça. — Então me diga, o que é ilusório na sua vida?

Luciano franziu o senho. Nada. A resposta veio rápida demais. Minha vida é ótima. Eu tenho tudo sob controle. O psiquiatra não reagiu. Tenho uma família perfeita. Minha carreira está no auge. Estou prestes a me tornar sócio de uma das maiores empresas de advocacia do país. A voz de Luciano foi perdendo força.

Então por que você não dorme bem? Perguntou Plínio com calma. A pergunta ficou no ar. Luciano desviou o olhar. Tem um caso. Plínio esperou. Meu cliente. Ele hesitou. É meu amigo. Silêncio. Eu acho que ele matou a esposa. O psiquiatra não se moveu. Você tem certeza?

Não, Luciano passou a mão no rosto, mas tenho dúvidas suficientes. E vai defendê-lo? Luciano demorou a responder. Tenho que defender. Tem. O olhar de Plínio era firme, mas não invasivo. Se eu ganhar esse caso, eu viro sócio, disse Luciano mais baixo. Esperei isso por 15 anos.

O silêncio se alongou. Passe o caso para outro advogado, sugeriu o psiquiatra com naturalidade. Luciano soltou uma pequena risada sem humor. Claro, ia abrir mão de tudo agora? Plínio não respondeu. O senhor sabe que não é tão simples assim. Eu não disse que era simples. Luciano se inclinou para a frente. Então, o que o senhor quer que eu faça?

Nada. A resposta veio tranquila. Apenas responda a si mesmo. O quê? O que pesa mais? Uma pausa. Sua consciência ou sua conquista? Luciano ficou em silêncio. Algo no gravador parecia incomodar agora. Por que o senhor faz isso? Perguntou irritado. Isso o quê? Me devolve as perguntas. Brínio sorriu de leve. Porque as respostas que você procura não estão aqui.

Um silêncio mais denso se instalou. Luciano recostou-se no divã. Aquilo o incomodava profundamente. Ele não queria perguntas. Queria alívio. Queria que os sonhos parassem. Queria voltar ao controle. Nosso tempo acabou, disse o psiquiatra após olhar o relógio. Luciano se levantou contrariado. Já na porta hesitou. Doutor, Plínio ergueu os olhos.

E se eu estiver errado? O psiquiatra sustentou o olhar por um instante. Sobre o caso ou sobre você? Luciano não respondeu. Talvez porque, pela primeira vez, não soubesse a diferença.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 17 Luciano deixou o consultório do Dr. Plínio, com uma sensação incômoda. A terapia parecia não estar funcionando, ou talvez estivesse funcionando demais. No fundo, algo insistia. Faça o que é certo. Ele ignorou o pensamento.

Ainda tinha um caso para resolver. O consultório da doutora Kassia Batkowski era moderno, claro, com uma atmosfera leve, quase o oposto do ambiente pesado ao qual estavam se acostumando.

Doutor Luciano, disse ela, com um sorriso cordial, em que posso ajudar? Estou revisando alguns pontos do caso da senhora Márcia. Ela assentiu, já compreendendo. Imagino. Sentaram-se. Como era o quadro clínico dela? Perguntou Luciano.

A médica cruzou as mãos sobre a mesa. Complicado, depressão profunda, início de síndrome do pânico e um fator agravante. Qual? Bronquista asmática. E não era leve. A médica fez uma breve pausa, como quem organiza uma ideia.

É uma condição curiosa, continuou. Não é só física. Costumamos dizer que se sustenta em três frentes. O organismo, as alergias e o estado emocional. Luciano ergueu levemente o olhar. E se uma dessas falha, completou ela, a doença aparece.

Luciano fez uma anotação rápida. Isso justificaria o isolamento? Em parte, respondeu ela. Ela já estava evitando sair. A crise respiratória só reforçou isso. Ela dirigia? Parou. Evitava até pequenas distâncias. Quando saía, era acompanhada. Luciano assentiu lentamente. E a medicação? A médica respondeu com naturalidade.

um ansiolítico leve e um antidepressivo mais forte. Uma breve pausa. O mesmo que aparece no laudo? Luciano levantou os olhos. Exatamente. Silêncio. Alguma mudança recente na dosagem? Não significativa. Luciano anotou. Hesitou por um segundo. E quanto à asma? Isso era com o pneumologista, mas sei que ela usava um brônquio dilatador inalatório.

Luciano ergueu levemente o olhar. Qual? Bromidrato de venoterol, dosagem padrão. Ele anotou. Devagar. Muito devagar. Por um instante, o som da caneta no papel parecia alto demais. Inalador. Ele não disse nada, mas algo finalmente começou a se alinhar. Doutor, chamou a médica. Luciano voltou. Sim, está tudo bem?

Ele fechou o bloco. Está. Mas não estava. Não mais. Levantou-se. A senhora foi muito útil. Fico à disposição. Ele sorriu de forma contida. Despediu-se.

Do lado de fora, o mundo seguia normalmente. Carros, pessoas, rotina. Luciano caminhava devagar. A mente não. Antidepressivo, alta concentração do sangue, poucos comprimidos, sem injeção, inalador. Ele parou. Não precisava dizer em voz alta? Não ainda. Mas a ideia já estava formada. Clara, perigosa. Se estivesse certo, não era suicídio. Era execução. E o método era invisível.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 18 De volta ao escritório, Luciano não perdeu tempo. Pegou o telefone. Cristina? Doutor Luciano respondeu a voz do outro lado, sempre impecável. Em que posso ajudar? Preciso de alguns detalhes sobre a reunião com os acionistas no dia da morte da Márcia.

Houve um breve silêncio. Claro. Teclas ao fundo. A reunião foi marcada com apenas dois dias de antecedência. Luciano franziu o senho. Isso é comum? Não. A resposta veio firme. O protocolo exige pelo menos uma semana. Ele anotou. E a pauta? Assuntos administrativos. Rotineiros. Luciano parou a caneta por um instante. Nada urgente? Nada. Silêncio.

Obrigado, Cristina. Desligou. Olhou para o bloco. Algo ali já começava a cheirar mal. Mais tarde, no apartamento de Félix, foi recebido pela governanta. O doutor não está, avisou ela. Eu sei, é rápido. A mulher hesitou, mas acabou permitindo sua entrada. O ambiente era impecável, luxo, sem falhas. Luciano caminhou devagar, observando.

A senhora estava aqui no dia do ocorrido? Estava sim. Notou algo diferente? A governanta pensou. Ele estava mais exigente. Luciano voltou-se para ela. Exigente como? Reclamou do pó nas cortinas. Ela franziu a testa. Nunca fez isso antes. Isso era coisa da dona Márcia.

Luciano anotou mentalmente. Mais alguma coisa? Mosquitos. Diz que estava insuportável. Mandou dedetizar o apartamento. Luciano parou. No mesmo dia? De manhã. Silêncio. E a senhora Márcia? Passou mal. A resposta veio rápida. Aquela coisa de respiração e dor de cabeça. Foi se deitar. Luciano assentiu. Não precisava de mais.

A última visita do dia foi a uma velha amiga de Márcia. Ela abriu a porta com um olhar desconfiado, mas permitiu a entrada ao saber do caso. Márcia não estava bem, disse sem rodeios, mas não era o que ele pensa. Luciano sentou-se. O que quer dizer? Ela estava triste, sozinha. A amiga cruzou os braços, casada com um homem que nunca estava em casa. Félix? Ela soltou um riso curto. Quem mais?

Luciano permaneceu em silêncio. Ele vivia em festas, viagens, mulheres, continuou ela. Inclusive já tentou algo comigo. Luciano ergueu levemente as sobrancelhas. E a Márcia sabia? Sabia de tudo. Uma pausa. Isso destruía ela. E os remédios? Tomava antidepressivo, sim. Mas... ela hesitou. Mas...

Ela queria sair daquela vida. Luciano se inclinou levemente. Sair como? Divórcio. Silêncio. Ela chegou a falar isso claramente? Várias vezes Luciano observou o rosto da mulher. Não havia dúvida ali. A senhora acredita que ela se suicidaria? A resposta veio imediata. Jamais. A palavra ecoou com firmeza.

A Márcia queria viver, só não queria viver daquele jeito. Luciano saiu. A rua parecia mais barulhenta do que o normal. Ele caminhava devagar, mas a mente corria. Reunião forçada, motivo irrelevante, apartamento preparado, crise respiratória, isolamento, divórcio.

Comunhão total de bens. Ele parou. Respirou fundo. Se Márcia se divorciasse, Félix perderia metade de tudo. Metade. Luciano fechou os olhos por um instante. Quando abriu novamente, a ideia já estava formada. Clara, fria. Motivo, murmurou. E pela primeira vez, a palavra deixou de ser hipótese. E passou a soar como resposta.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 19 O consultório parecia mais silencioso do que de costume. Ou talvez fosse Luciano. Tomei uma decisão, disse sem rodeios. Vou confrontá-lo. O doutor Plínio manteve-se imóvel. Seu cliente...

Meu amigo. Uma pausa. Reuni provas suficientes. Não dá mais para ignorar. Plínio assentiu levemente. E o que espera encontrar neste confronto? Luciano hesitou. A verdade. O psiquiatra não comentou. Tem mais uma coisa, continuou Luciano. Algo estranho.

Plínio ergueu o olhar, atento. Uma sensação. Luciano buscou as palavras, como se eu já tivesse vivido certas situações. Silêncio. Deja-vi? Não exatamente.

Bríneo inclinou-se um pouco para a frente. Como então? Como se eu soubesse o que vai acontecer. A voz de Luciano baixou. O que alguém vai dizer? O que eu vou encontrar em um lugar onde nunca estive? O psiquiatra o observou com interesse genuíno. A mente pode antecipar cenários quando há padrões previsíveis. Luciano balançou a cabeça incomodado. Não é isso. Não?

Não é antecipação, ele respirou fundo. É reconhecimento. O silêncio que se seguiu foi mais denso. O que eu vou dizer agora? Perguntou Plínio, de repente. Luciano franziu o senho. Não sei, isso não acontece quando eu quero. Entendo. Você acha que estou mentindo? Plínio manteve a calma. Não.

Luciano se inclinou para frente. Então por que parece que não leva isso a sério? Eu levo? Não parece. O psiquiatra sustentou o olhar. Eu apenas não vou lhe dar uma explicação pronta. A irritação veio rápida. Mas é para isso que eu pago você? Não. A resposta foi firme, mas sem elevação de tom. Você me paga para encontrar suas próprias respostas. Luciano soltou um riso seco. Então não está funcionando.

Plínio não reagiu de imediato, deixou o silêncio trabalhar. Já considerou, começou com calma, que o problema não está no que você vê nos sonhos? Luciano não respondeu.

Mas no que você evita ver quando está acordado? A frase ficou suspensa. As vozes pedem que você acorde, continuou o psiquiatra. Alertam sobre uma ilusão. Luciano desviou o olhar. Que ilusão é essa? Nenhuma resposta. E o que na sua vida parece sólido, mas talvez não seja? O som do relógio na parede marcou os segundos. Luciano permaneceu em silêncio.

— Pense nisso, concluiu Plínio, olhando discretamente para o relógio. Nosso tempo acabou. Luciano levantou-se, visivelmente contrariado. Já na porta parou. Por um instante teve a estranha impressão de que já estivera exatamente ali. A mão na maçaneta, o silêncio atrás de si, as palavras ainda ecoando. Ele abriu a porta e saiu. Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 20 Capítulo 20

Félix não gostava de surpresas, muito menos quando vinham de Luciano. A informação chegou de forma fragmentada. Primeiro, um comentário de Cristina, cuidadoso demais. Depois, uma conversa atravessada com o químico.

Por fim, o detalhe dito sem intenção pela governanta. Luciano estava perguntando demais, indo longe demais. Sentado em sua sala, Félix girava lentamente o copo de uísque. O gelo dilintava ritmado, pensamento organizado, frio. Ele começou a reconstruir o caminho. Secretária, laboratório, apartamento, uma linha.

Coerente demais para ser coincidência. Ligou para Cristina. A conversa foi breve, educada, mas precisa. Depois chamou o químico. Algumas perguntas simples, respostas suficientes. Por último a governanta. A hesitação dela disse mais do que qualquer palavra. Félix desligou o telefone. Ficou em silêncio por alguns segundos. Depois sorriu sem humor.

Você foi longe demais, meu amigo. A frase saiu baixa, quase admirativa. Ele se levantou e caminhou até a janela. A cidade se estendia abaixo, viva, indiferente. Luciano sabia, ou estava muito perto de saber.

E isso mudava tudo. Félix não era impulsivo, nunca fora. Era isso que o mantinha no topo. Negócios não se vencem com emoção, se vencem com cálculo. E o cálculo agora era simples. Se Luciano falasse, tudo acabaria. Empresa, nome, liberdade. Ele respirou fundo. Não havia espaço para eu. Não havia espaço para moral. Havia apenas consequência. Ele não vai me entregar.

A frase veio primeiro como desejo, depois como constatação.

Não vai ter tempo. O silêncio respondeu. Félix voltou à mesa. Apoiou as mãos sobre o tampo de vidro. A mente já avançava. Cenários, oportunidades, métodos discretos, eficientes, irreversíveis. Por um instante, algo passou por ele. Uma memória leve. Um riso de Luciano. Os anos de amizade. Ele a afastou. Sem esforço.

Você escolheu isso, murmurou, como se falasse com o amigo, ou consigo mesmo. Sentou-se novamente. O gelo no copo já havia derretido. Félix não percebeu. Estava ocupado demais, planejando. Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 21

Cristina sempre foi boa em perceber o que não era dito. Talvez fosse por isso que estivesse há tanto tempo ao lado de Félix. Dez anos. Tempo suficiente para entender seus silêncios, seus desvios, seus interesses. E principalmente seus limites. Ou o que ela acreditava serem limites.

Sentado à sua mesa, organizando a agenda do dia, percebeu que algo havia mudado. Não no escritório, nele. As perguntas que Félix fizera mais cedo não eram casuais, eram precisas demais, direcionadas demais. Ele estava rastreando.

Cristina apoiou suas mãos sobre o teclado, sem digitar. Luciano, secretária, laboratório, apartamento. Ela não tinha todas as respostas, mas tinha o suficiente. Um desconforto frio percorreu sua espinha. Félix sempre fora flexível com a ética.

Cantadas inconvenientes, noitadas constantes, mentiras bem contadas. Ela conhecia esse lado, convivia com ele, ignorava quando necessário. Mas aquilo era diferente. Ela se recostou na cadeira. O pensamento veio inteiro, sem pedir licença.

E se ele matou a própria esposa, Cristina fechou os olhos por um instante. Tentou afastar a ideia. Não conseguiu. Desde a conversa daquela manhã, algo não se encaixava. O tom dele, o interesse súbito, a forma como quis saber exatamente o que Luciano havia perguntado. Não era curiosidade, era controle de danos. E se era isso, Luciano estava em perigo.

O coração acelerou. Outro pensamento veio, ainda mais incômodo. E eu? Cristina olhou ao redor. O escritório parecia o mesmo, elegante, seguro, mas já não parecia neutro. Ela conhecia Félix, conhecia sua ambição, seu ego, sua necessidade de vencer, a qualquer custo.

Se ele foi capaz de eliminar um problema tão íntimo, o que faria com um problema menor, mais próximo, mais inconveniente? Cristina engoliu em seco. A resposta não precisava ser dita. Endireitou-se na cadeira. Tentou retornar ao trabalho, mas os dedos não obedeciam. Pela primeira vez em dez anos, sentiu medo de estar ali.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 22 Félix não gostava de perder o controle, e naquele momento tudo parecia escapar por entre seus dedos. Sentado em sua sala imóvel, ele revisitava cada ponto. Luciano, Cristina, o químico, a governanta. Peças que antes obedeciam, agora instáveis.

Ele fechou os olhos por um instante. A imagem veio sem esforço. Márcia, sempre insatisfeita, sempre querendo mais, mais atenção, mais presença, mais tudo. Divórcio. A palavra ainda o irritava. Metade, metade de tudo.

Como se fosse simples assim, como se ela tivesse construído alguma coisa. Félix abriu os olhos. A irritação deu lugar a algo mais frio, racional. Ele estava pensando em tudo, cada detalhe, cada variável. Os medicamentos, a crise respiratória, o ambiente preparado, o dispositivo. Preciso, limpo, irreversível. Funcionou, tinha que funcionar, era pra ter sido o fim.

Mas então, Luciano, um leve sorriso surgiu sem humor. Justo você? A ironia era quase admirável. O homem certo, o amigo leal, o advogado impecável, investigando. Félix levantou-se lentamente, caminhou até o bar, serviu-se de uísque, dessa vez sem gelo.

Um criminoso qualquer, murmurou. A ideia o incomodava mais do que deveria. Ele não se via assim. Nunca se viu. Não era desleixo. Não era impulso. Era decisão. Ele voltou à mesa. O copo na mão. Olhar fixo. O problema agora não era o passado. Era o presente. E o presente tinha nomes. Luciano sabia demais. Cristina sabia o suficiente. Os outros sabiam o que não deveriam.

Félix respirou fundo, organizou, separou, priorizou. Eliminar riscos, um por um, sem ruído, sem falhas. O plano começava a tomar forma, não com raiva, mas com necessidade. Antes eles, disse baixo. A frase não precisou ser concluída. O silêncio ao redor pareceu concordar. Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Melo. Capítulo 23astastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastast

Cristina hesitou antes de discar, mas discou. Doutor Luciano, precisamos conversar. A voz saiu mais baixa do que pretendia. Do outro lado, ele ouviu em silêncio. Ela não entrou em detalhes, não pelo telefone.

Eu acho que estou em perigo. Uma pausa. Por causa do Félix. Silêncio. Ele matou a esposa. Completou quase em um sussurro. Acho que percebeu que eu sei demais. Depois da ligação, a casa pareceu menor, mais fechada, mais vulnerável. O sobrado simples em uma vila silenciosa nunca pareceu inseguro.

Até aquela noite, Cristina conferiu a porta da frente. Uma vez, duas, a tranca estava firme.

Mesmo assim, permaneceu ali por alguns segundos, olhando. Como se esperasse que ela cedesse. Subiu. Tentou se ocupar. Não conseguiu. A cada som da rua, seu corpo reagia. Um carro passando. Passos distantes. Um portão batendo. Tudo parecia próximo demais. Foi até a janela. A rua estava quase deserta. Postes de luz lançavam círculos amarelados no asfalto. Sombras imóveis. Ou quase.

Ela fechou a cortina, rápido. O quarto deitou-se. Apagou a luz. Abriu os olhos no escuro. O silêncio não era silêncio. Era expectativa. Cristina virou de lado. Fechou os olhos. Abriu novamente. Algo não estava certo. A porta dos fundos. Ela havia trancado? A dúvida veio pequena. Mas não foi embora. Sentou-se na cama. Esperou. Tentou ignorar. Não conseguiu. Levantou-se. Desceu.

O corredor que levava à cozinha estava completamente escuro, mais longe do que deveria, mais estreito. Cada passo parecia ecoar. Ela avançou devagar, o coração batendo alto demais. Algo se moveu, ou pareceu se mover. Um vulto no canto, outro na parede, sombras que não estavam ali durante o dia. Cristina prendeu a respiração. Mais um passo, e então...

Um som agudo rasgou o silêncio. Ela gritou. O corpo inteiro reagiu. O coração disparou. O gatinho, assustado, fugindo pelo chão. Ela havia pisado no seu rabo.

Cristina levou a mão ao peito, respiração curta, descompassada. Calma, calma. A voz saiu trêmula, aproximou-se da porta dos fundos. A tranca estava no lugar, firme como deveria. Mesmo assim testou uma, duas vezes, subiu novamente, mais devagar.

Como se algo pudesse segui-la. O quarto deitou-se outra vez. Cobriu-se. O corpo ainda tenso. Demorou a fechar os olhos. E quando finalmente conseguiu, o sono não trouxe descanso. Audiobook Entorpecimento Onírico de Marco Mello Capítulo 24 Outra Noite

E o sonho voltou, mais nítido, mais próximo. Luciano estava em um hospital imenso. Os corredores se estendiam em linhas intermináveis, banhados por uma luz branca intensa, quase agressiva. O brilho refletia no piso impecavelmente polido, criando um efeito que confundia os olhos.

Tudo era limpo, organizado e vazio. Ele caminhava sem destino. Portas abertas revelavam quartos idênticos, leitos alinhados, leições esticados. Nenhum paciente, nenhuma voz, nenhum som. A sensação não era de abandono, era de suspensão. Como se o lugar aguardasse.

Luciano continuou. Ao longe, uma luz ainda mais forte, diferente, quase pulsante. Aproximou-se. A porta estava aberta. Era uma UTI ampla, silenciosa. Os leitos se repetiam, separados por cortinas parcialmente recolhidas, todos vazios, exceto um. O monitor emitia um som ritmado, constante, regular.

Luciano avançou lentamente. O som parecia guiá-lo. Chegou mais perto. Observou o corpo deitado. Imóvel, conectado a fios. Respiração assistida. Ele franziu o senho. Algo ali não fazia sentido. Deu mais um passo. E então viu. Era ele. Luciano ficou imóvel. O tempo pareceu falhar por um instante.

O som do monitor ecoava alto demais. Ele tentou dizer algo, não conseguiu. Foi então que sentiu uma presença. Virou-se. Ela estava ali, serena como sempre. Sua mãe. O olhar dela não era de susto, nem de surpresa. Era de quem já sabia. Acorde, meu filho. A voz era suave, mas firme. Não se iluda. Uma pausa. Acorde.

O som do monitor acelerou, ou talvez fosse o coração dele, e tudo se dissolveu. Luciano despertou abruptamente, o quarto, a escuridão, o silêncio familiar. Ele levou alguns segundos para respirar com normalidade, passou a mão pelo rosto, só um sonho. A frase saiu automática, quase um reflexo, mas não convenceu. Ficou sentado na cama, o olhar perdido, a mente inquieta. Os sonhos estavam mudando.

E não era apenas a frequência, era a clareza. Luciano apoiou os cotovelos nos joelhos, pensativo. Havia algo ali, uma conexão. Os sonhos, o caso, as peças. Tudo parecia caminhar na mesma direção. Ele respirou fundo, tentando organizar a mente, mas, no fundo, uma sensação incômoda persistia. Dessa vez, parecia real demais para ser ignorado.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 25 O dia começou como todos os outros, pontual, previsível.

O doutor Marcelo Helmert, químico, acordou cedo, como sempre, antes mesmo do despertador. O hábito dispensava alarmes. Na cozinha, colocou a água para aquecer. Separou o coador de pano. O gesto era automático, repetido há décadas. Não por falta de opção, mas por escolha. Algumas coisas não precisavam mudar.

O café desceu lentamente, o aroma preencheu o pequeno apartamento, silencioso, familiar. Quase 60 anos, dois filhos já casados, quatro netos. A mesma casa desde o início da vida adulta, a mesma rotina e a mesma empresa. Desde o tempo em que tudo cabia em um galpão. Antes dos prédios, antes dos lucros, antes de Félix.

Helmert sorriu de leve. Bons tempos. A frase ficou no ar. Tomou o café com torradas sem pressa. Encheu a pequena garrafa térmica. Pegou a pasta de couro. Saiu. O elevador antigo desceu com um leve rangido metálico. Portas pantográficas. Movimento lento, confiável. Como tudo em sua vida.

No subsolo, entrou no carro. Girou a chave. O motor respondeu. A rua era a mesma de sempre. Uma ladeira íngreme, mão única, descida contínua até a avenida. Helmert dirigia com tranquilidade, como o fizera centenas de vezes, talvez milhares. À frente, o semáforo. Vermelho. Ele pressionou o freio. Nada. O pedal cedeu completamente. Afundou. Seco. Inútil.

Helmert franziu o senho, pressionou novamente o freio, com mais força. Nada. O carro continuava descendo, ganhando velocidade. Agora rápido demais. O cruzamento se aproximava. Na avenida, o fluxo era intenso. Ónibus, muitos, pesados, cheios.

Helmut segurou o volante com força. Tentou reduzir, tentou qualquer coisa. Nada respondia. O mundo pareceu comprimir-se em segundos. O carro atravessou o sinal vermelho. E então o impacto. Um trolebus atingiu a lateral esquerda com violência. O metal contra metal. Som seco. Final. Silêncio.

O carro girou deformando-se como papel. Vidros estilhaçados, estrutura colapsada. Quando tudo parou, já não havia mais o que salvar. O doutor Marcelo Helmert morreu instantaneamente. Na avenida, o trânsito travou. Pessoas começaram a se aproximar. Vozes, confusão. Sirene ao longe. Mas para ele, o dia havia terminado ali. Antes mesmo de realmente começar.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 26 A indústria parou, não por decisão formal, mas porque ninguém conseguiria trabalhar. O doutor Marcelo Helmert era mais do que um funcionário antigo. Era presença, rotina. Memória viva de um tempo em que tudo era menor e talvez mais simples.

No velório, o ambiente era de respeito silencioso, conversas baixas, olhares abatidos. Alguns lembravam, em meio à tristeza, das provocações bem-humoradas sobre futebol, o verde contra o preto e branco. Sempre com um sorriso no rosto, agora silêncio.

Cristina permaneceu próxima ao caixão por alguns instantes. Não chorava. O que sentia era outra coisa. Mais frio, mais urgente. Medo. Não havia mais dúvida. Aquilo não fora um acidente. Era sequência. Era padrão. E ela estava dentro dele. Luciano chegou pouco depois. Cumprimentou alguns colegas. Depois, olhou o corpo. Desviou o olhar. Quando viu Cristina, foi direto a ela.

Precisamos falar. Afastaram-se alguns passos, o suficiente para não chamar atenção. Não o suficiente para estarem isolados. Você viu? Disse ela, com voz baixa. Agora ficou claro. Luciano assentiu. Eu sei. Ele está eliminando todo mundo. A frase saiu rápida, contida, mas firme. Luciano olhou ao redor antes de responder.

Eu levei isso à polícia. Cristina ergueu o olhar esperançosa. E? Disseram que é circunstancial. Uma pausa. O carro ficou destruído. Não dá para afirmar sabotagem. O silêncio entre eles pesou. O laudo sai em 30 dias. Completou Luciano. Até lá.

Ele não terminou. Não precisava. Cristina respirou fundo. O ar parecia insuficiente. Eu vou ser a próxima. Luciano manteve o tom baixo. Vá direto pra casa. Não fale com ninguém. Tranque tudo.

Ela assentiu automaticamente. Trancar. A palavra ecoou. Inútil, quase ingênua. Cristina desviou o olhar. Por um instante, pareceu distante. Como se já estivesse antecipando algo que não podia evitar. Tome cuidado, doutor. Disse por fim. Luciano sustentou o olhar dela por um segundo a mais. Você também. Eles se afastaram. Cada um para um lado.

Do outro extremo da sala, Félix observava. Entre apertos de mãos e palavras de consolo cuidadosamente ensaiadas, o olhar, no entanto, não acompanhava o discurso. Fixava, calculava. A expressão era serena, quase respeitosa. Mas por trás dela, algo queimava em silêncio.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Melo. Cristina saiu do velório sem olhar para trás. Precisava chegar em casa. Só isso. Pegou o primeiro ônibus, depois o outro. No centro, o trajeto era o mesmo de todos os dias. Mas nada parecia igual. Desceu na praça, dois quarteirões. Sempre fora uma caminhada simples, automática. Naquela noite, não.

A luz dos postes era irregular, áreas iluminadas, outras não. Cristina apertou o passo. Olhou para trás, nada. Olhou para os lados, sombras. O coração batia alto demais. Cada ruído parecia próximo, cada movimento suspeito.

Ela seguiu, tentando manter o controle. Foi então que ele surgiu, à frente, de repente, como se já estivesse ali há muito tempo. Um rapaz, roupas largas, moletom com capuz, boné baixo, rosto quase oculto.

Na mão, uma arma. É um assalto. A voz não era firme, mas a arma era. Celular, bolsa, dinheiro. Cristina parou, o corpo travado, a mente correndo. Calma, disse com dificuldade. Eu vou te dar tudo. Movimentos lentos, cuidadosos. Ela estendeu a bolsa. O rapaz a tomou rápido. Por um instante, o tempo pareceu suspenso.

Ele não foi embora, a arma ainda apontada, agora mais alta. Cristina percebeu, tarde demais. Um único disparo rompeu o silêncio da praça. O corpo dela cedeu imediatamente, sem resistência.

O rapaz recuou um passo, virou-se, correu. Na esquina, diminuiu o ritmo, sem olhar para trás. Desapareceu. A praça voltou ao silêncio. Cristina permaneceu onde caiu, imóvel. A luz do poste próximo oscilava levemente, como se nada tivesse acontecido.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 28 O áudio A4 entrou devagar na rua. Vidros escuros, carroceria limpa demais para aquele lugar. Era uma região conhecida pelo uso de drogas a céu aberto. Não oficialmente, mas por todos.

As rodas de conversa se desfizeram quase no mesmo instante. Corpos se ergueram, olhares atentos. Alguns se aproximaram do carro, rápidos, prontos para negociar. Chefe, quer alguma coisa? Eu busco, só falar.

O carro não respondeu. Seguiu, lento, constante. Passou por eles como se não existissem. Até parar, mais adiante, outra roda, menor, mais quieta. Um homem se levantou, roupas gastas, capuz baixo, movimento cauteloso. Ele se aproximou do veículo. O vidro traseiro desceu apenas o suficiente. Uma fresta. De dentro, uma voz controlada, sem pressa.

Terminou? O homem assentiu. Já era. Um breve silêncio. Bom, nada mais. Nenhuma pergunta, nenhum detalhe. E o meu? Disse o homem, estendendo a mão. Um aço de nota surgiu pela fresta. Desapareceu logo em seguida. O vidro subiu. O carro arrancou depressa.

O homem observou por um instante, depois guardou o dinheiro, sem cerimônia, voltou para a roda, agora sorrindo. A rua retomou seu ritmo, como se nada tivesse acontecido. Negócios concluídos.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 29 Luciano já não tinha dúvidas. Aquilo precisava parar. Três mortes, três coincidências convenientes, três silêncios bem construídos.

Ele acompanhara de perto o caso de Cristina. A polícia tinha pouco, quase nada. Uma única testemunha, idosa, distante. Um relato fragmentado, visto de uma varanda do sexto andar. O homem, de capuz, roupa escura. A descrição era ampla, vaga, quase inútil. Luciano esboçou um sorriso sem humor. Aquilo não levaria a lugar algum.

Félix jamais se exporia. Não daquela forma. Era metódico, cuidadoso e, acima de tudo, inteligente. O álibi era perfeito, uma confraternização, funcionários, testemunhas em abundância. Luciano respirou fundo, organizou o pensamento. Não importava como, mas tudo apontava para ele, Félix. O nome já não vinha carregado de amizade. Veio então a decisão, fria, clara e irreversível.

Ele precisava ser detido, não por estratégia, mas por necessidade. Cristina foi velada perto de casa, um lugar simples, movimento constante, pouca estrutura, muita dor. Luciano chegou em silêncio e permaneceu à distância por alguns instantes, observando o caixão, as flores.

os rostos abatidos. Então a viu, a mãe, curvada, desfeita, sustentada por vizinhas. Ela o reconheceu, aproximou-se com dificuldade, segurou suas mãos com força inesperada. Mataram minha menina, doutor. A voz falhava, mas a dor não. Por favor.

Uma pausa, um esforço. Faça justiça. Luciano não respondeu, não de imediato. Aquele pedido não era jurídico, era pessoal. Ele sustentou o olhar da mulher, sentiu o peso e assentiu com a cabeça. Devagar, sem palavras. Mas naquele gesto já havia uma promessa.

Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Capítulo 30 Luciano saiu do velório sem se despedir. A decisão já estava tomada. Dirigiu rápido, rápido demais. As luzes da cidade se esticavam no parabrisas como rastros.

Félix precisava ser parado naquela noite. O prédio surgiu à sua frente, imponente, silencioso. Pouco depois da meia-noite, o porteiro anunciou sua chegada. A autorização veio sem demora. O elevador o engoliu. Espelhos por todos os lados, mármore branco, luxo frio. Luciano apertou o último andar. Enquanto subia, fechou os olhos.

Ela apareceu, sua mãe, vestida de branco, serena, por um instante. Paz. E então, o olhar dela mudou, grave. Meu filho, você não precisa viver isso de novo. A voz era calma, mas urgente. Acorde. Luciano franziu o senho, de novo.

Eu preciso fazer isso, pensou. Ele precisa ser detido. Não se iluda, respondeu ela. Isso está prendendo você. Eu estou acordado, mamãe. Silêncio. Quando abriu os olhos, estava sozinho. As portas do elevador se abriram. Félix o aguardava. Imóvel. Um copo de uísque na mão. Olhar errado.

— Pensei que fosse meu amigo — disse com um sorriso torto. Luciano avançou um passo. — Eu tentei ser. Uma pausa. — Mas você passou dos limites. Félix riu, seco. — Limites? — Você matou pessoas. O silêncio caiu pesado entre os dois.

— Eles me traíram, respondeu Félix mais baixo. — Sua esposa também? A expressão dele endureceu. — Ela ia me destruir. — E você resolveu destruí-la primeiro? Félix deu um passo à frente. O olhar agora queimava. — Você não entende. — Eu entendo o suficiente. Outra pausa.

E isso acaba hoje. Por um segundo, pareceu haver escolha. Então Félix sacou a arma. Não acaba para mim. O disparo recuou pelo apartamento. Luciano levou a mão ao abdômen. Cambaleou.

— Não faça isso! — a voz falhou. Mais dois tiros secos, definitivos. O corpo cedeu. O piso frio recebeu um impacto. Silêncio. Félix respirava pesado. A arma ainda erguida. Passos ao fundo. A governanta surgiu no corredor, assustada, confusa.

Ele virou, sem hesitar, outro disparo. Silêncio novamente. Félix permaneceu imóvel por alguns segundos, olhar vazio. Depois riu, baixo, irregular. Pronto, disse. Pegou a garrafa, bebeu do gargalo. O líquido escorreu pelo queixo, pela camisa.

Caminhou sem rumo, como se o espaço tivesse perdido sentido. Balbuciava. Fragmentos desconexos. Parou na varanda. A cidade se estendia abaixo. Luzes. Distância. Vazio. Então, sirenes. Distantes. Mas se aproximando. Félix ficou imóvel. O olhar mudou. Agora havia cálculo. Audiobook Entorpecimento Onírico de Marco Mello

Capítulo 31 Luciano abriu os olhos sobressaltado, sentindo dores profundas no abdômen e no peito. Ao seu redor, sua mãe e outras pessoas, todas vestidas de branco, o assistiam em torno de uma cama macia que parecia quase flutuar em uma sala ampla e suavemente iluminada.

O ar tinha um perfume agradável, algo que lembrava a mirra. Sua mãe acariciou-lhe os cabelos com ternura. Finalmente você acordou, meu anjinho. Agora está tudo bem. Mamãe está aqui. Era a mesma frase que ele ouvira na infância, sempre que despertava de um pesadelo.

Entre os presentes, Luciano reconheceu o doutor Marcelo Helmert, Cristina e a governanta. Todos sorriram, visivelmente aliviados. — Graças a Deus o senhor acordou, disseram, quase em uníssono. Confuso, Luciano tentou se erguer. — Onde estou? O que está acontecendo? A mãe respondeu com serenidade.

Tudo será esclarecido ao seu tempo. Por agora, apenas saiba que você esteve dormindo por dois anos no mundo espiritual. Luciano franziu a testa. Mundo espiritual? Dois anos? Como assim? Eu estou morto?

A morte é apenas uma passagem, disse ela com doçura. Você está mais vivo do que nunca. No seu caso, algo raro aconteceu. Após a desencarnação, o trauma foi tão intenso que sua mente recusou a realidade. Você entrou em um estado de torpor. Um verdadeiro entorpecimento onírico.

Ela fez uma pausa breve, observando a reação do filho. Para se proteger, sua consciência criou um mundo inteiro, uma cópia da vida que você conhecia. Ali, você continuou vivendo, trabalhando, convivendo, repetindo sem perceber os acontecimentos que antecederam sua morte do corpo físico.

Luciano passou a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos. Então, tudo aquilo não foi exatamente mentira, esclareceu ela. Foi uma construção fiel da sua própria memória. Mas havia uma diferença importante. Naquele mundo, quase todos eram projeções da sua mente, exceto nós que tentávamos alcançá-lo.

Nos sonhos. Sim, quando você dormia dentro daquele mundo, sua mente se abria. Era a nossa única oportunidade de contato. Mas você resistia, preferia permanecer na ilusão. Ele fechou os olhos por um instante. E o doutor Plínio? Um leve sorriso surgiu no rosto da mãe. Uma criação sua, seu próprio subconsciente tentando ajudá-lo a despertar, sem romper abruptamente o seu equilíbrio.

Luciano soltou um suspiro longo. Então os déjà-vís eram porque eu tinha vivido tudo aquilo? Exatamente. Você revivia o mesmo ciclo, repetidas vezes, sempre retornando ao ponto anterior do desfecho. Até agora. Silêncio. E minha família? Perguntou ele com a voz embargada. Está bem. Sua esposa segue firme e seus filhos crescem saudáveis e inteligentes.

Lágrimas escorreram pelo rosto de Luciano, misturadas a um sorriso aliviado. Após alguns instantes, ele voltou a perguntar. E o Félix? A expressão da mãe tornou-se mais grave.

Ele foi preso após tirar sua vida, julgado e condenado, mas não suportou o peso de suas próprias ações e tirou a própria vida na prisão. Luciano fechou os olhos impactado, então hoje ele enfrenta as consequências mais profundas, continuou ela. Não por castigo, mas por afinidade. Está em um estado compatível com sua própria consciência, em regiões de sofrimento que ele mesmo construiu.

O pântano? Sim, você chegou a vê-lo. Luciano arrepiou-se. Aquilo era real então? Tão real quanto a luz que você vê aqui. Tudo depende da sintonia da vibração. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Mas eu tive uma vida correta, honesta. A mãe sorriu com ternura, mas com firmeza. Isso é valioso, meu filho. Mas não basta apenas agir corretamente. É preciso também trabalhar os sentimentos, o apego, o orgulho, a posse. Tudo isso pesa.

Ela se aproximou mais um pouco. O universo é regido por leis perfeitas. Livre-arbítrio e responsabilidade caminham juntos. Cada escolha gera consequências, não como punição, mas como aprendizado. Luciano respirou fundo. Eu quase fui parar naquele lugar.

Havia essa possibilidade, meu filho, disse ela com suavidade. Mas, nos seus últimos momentos, você escolheu a justiça, escolheu o bem, mesmo diante do risco.

Ela segurou sua mão. Isso fez toda a diferença. Os olhos de Luciano se encheram de lágrimas novamente. Mamãe, eu estou tão confuso. É natural, respondeu ela com um leve sorriso. Descanse. Mas não durma, por favor. Ele riu, mesmo emocionado. As pessoas presentes começaram a se despedir, uma a uma, com gestos afetuosos.

Haviam estado ali por muito tempo aguardando aquele momento. Sua mãe foi a última a sair. Quando já estava à porta, Luciano a chamou. Mamãe? Ela se virou. Você está diferente, mais luminosa, sábia. Eu te admirava, mas agora... Ele engoliu em seco. Agora eu tenho ainda mais orgulho de ser seu filho. Eu te amo, mamãe.

Os olhos dela brilharam marejados. Sem dizer palavra, levou a mão aos lábios e soprou um beijo, exatamente como fazia quando ele era criança. E saiu. A porta se fechou suavemente. Fim. Audiobook Entorpecimento Onírico, de Marco Mello. Pós-fácil.

A história que você acabou de ouvir é uma obra de ficção, mas os princípios que a inspiraram tem raízes profundas na doutrina espírita codificada por Allan Kardec. Segundo esses ensinamentos, a vida não se encerra com a morte do corpo físico.

A consciência persiste e o espírito segue sua jornada em outro plano de existência. Entretanto, essa transição nem sempre ocorre de forma tranquila. Em alguns casos, especialmente quando há forte apego à vida material ou traumas intensos no momento da desencarnação, o espírito pode apresentar estados de perturbação. Essa condição pode levá-lo a criar, de forma inconsciente, uma realidade própria.

uma espécie de prolongamento da existência terrena. No caso de Luciano, esse processo se manifesta como um mundo construído em sua própria mente, onde ele continua vivendo, trabalhando e se relacionando sem perceber que já deixou o plano físico. Esse entorpecimento onírico funciona como um mecanismo de defesa, evitando o impacto imediato da nova realidade.

Ao mesmo tempo, espíritos que o assistem no plano espiritual buscam gradualmente despertar sua consciência. Esse contato ocorre de forma sutil, muitas vezes percebido como sonhos, sensações ou vozes. Elementos que dentro de sua realidade construída são interpretados como perturbações. Assim, o que parece um sonho pode ser na verdade um chamado.

A narrativa também nos convida a refletir sobre a natureza da realidade que percebemos. Até que ponto aquilo que vivemos corresponde ao que realmente é? O quanto nossa consciência molda aquilo que acreditamos ser o mundo?

A doutrina espírita nos ensina que a vida é contínua e que o despertar da consciência é um processo gradual. Talvez, mais do que respostas, essa história ofereça uma oportunidade de reflexão sobre a vida, sobre a morte e sobre aquilo que pode existir, além do que nossos sentidos alcançam. Gratidão, meu nome é Marco Melo, eu sou o autor dessa obra.

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