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"Breves Ruínas - Fragmentos de Horrores Decadentes", de Thassio Rodriguez Capranera

06 de maio de 202610min
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Uma breve amostra dos horrores decadentes evocados por Thassio Rodriguez Capranera, em três fragmentos:

- Descoberta do tratador de aquários

- Os homens de argila

- Por entre os juncos do Ruzizi

Edição e trilha-sonora: Alcebiades Diniz Miguel

Imagens retiradas de arquivos públicos na Internet.

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Participantes neste episódio1
T

Thassio Rodriguez Capranera

HostArquiteto das coisas terríveis e cômicas
Assuntos3
  • Por entre os juncos do RuziziHerr Kitscher · Hutu · Tutsi · Rundi · Rio Ruzizi
  • Descoberta do tratador de aquáriosThassio Rodriguez Capranera · Turíbio Mendes · Nova Iguaçu · Pasquim Fluminense · Aquarismo
  • Os homens de argilaThassio Rodriguez Capranera · Goroká · Lago Azaro · Robinson · Aves do paraíso
Transcrição22 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Meu nome é Tássio Rodrigues Capraneira e eu sou arquiteto das coisas terríveis e cômicas, as quais vocês terão acesso a adquirir qualquer uma das recompensas da campanha Abismos Crepusculares. A descoberta do tratador de Aquários. Não faz muito que meu colega...

Aquarista nato, por mais estranho que isso possa parecer, me enviou uma carta de conteúdo um tanto singular, aparentemente escrita às pressas e repleta de erros gramaticais incomuns para um homem acostumado a listar, em seus inúmeros cadernos de observações asquaristas, nomes como aqueles de que lançam mão os naturalistas quando tratam, de forma tão eloquente e pomposa, das espécies de animais, com o intuito de padronizar o registro catalográfico destas.

É de se estranhar que o indivíduo acostumado a certos caprichos formais latinistas, com os quais não raro nos deparamos ao abrir um almanac, desses de aquarismo, que se vendem no centro da cidade ao preço de alguns cobres, cometa erros crassos em uma carta relativamente curta, que poderia ser escrita à pena, leve, sem pressa, sem esbaforimento. Pois vejam, por exemplo, que...

Tiprinus carpio hematopterus não é lá um nome comum de se escrever sem que se cometa qualquer erro. Tampouco é crível que não se cometa nenhum deslize ao meter caneta ou máquina escrevendo o nome do nosso aronã prateado. Osteoglossum birossum vand. Ou é? Creio que não. Mesmo nomes comuns, mais populares ou até mesmo menos complexos.

podem custar ou causar certo embaraço. O embotamento das habilidades gramaticais, como do hipocampus aldíricus ou de anguila vulgares, a tão temida enguia da Europa. Não quero me demorar muito, tampouco enfastiar o leitor desse curioso relato com essas coisas que somente competem aos estudiosos do alcarismo acharem engraçadas.

Eu não sou o primeiro a escrever sobre esses estranhos acontecimentos, pois há de um leitor mais sagaz e atento lembrar-se do caderno de, abre aspas, curiosidades do Pasquim Fluminense, que saiu a 18 de agosto deste mesmo ano, 1933. Como eu disse, não, eu não sou o primeiro a escrever sobre esse assunto, mas eu acredito que existam coisas que não foram ditas e que muito deveriam ter vindo a lume. Contudo,

por talvez receio ou até mesmo um estranho ciúme. Ousele exagerado por parte da polícia, esses detalhes foram distorcidos, ocultados ou até mesmo ignorados. Terço, assim, um breve, porém conciso, relato sobre a descoberta do tratador de aquário Turíbio Mendes, fluminense, morador no município de Nova Iguaçu e meu amigo.

Os Homens de Argila Algumas horas se passaram entre centenas de rabiscos e o dobro de goles de gin. As aves do paraíso são donas de um comportamento pacífico e estável. Não me surpreendi ao perceber que, como se para mim estivesse posando, aquele exemplar havia, por tanto tempo, mantido-se no mesmo lugar, como um desses modelos taxidermizados expostos em museus de história natural ou nas câmaras secretas.

de algum rei fedorento. Colecionando as ilustrações que havia feito da bela ave, aprontei meus pertences para o retorno à cidadela de Goroká. A tarde caía leve, como uma chama que morre fraca e lentamente em brasa, numa fogueira abandonada. Teria algum tempo para retornar à cidade antes do anoitecer, e tudo teria corrido bem, se a circunstância de mim eventual bebedeira não tivesse tolido qualquer capacidade de autolocalização.

Estava perdido. Isso era um fato. Mas até mesmo a constatação dessa verdade me custou algum tempo e reflexão. Tamanho era o meu estado de ebriedade. Diferentemente da maioria dos artistas plásticos, o meu melhor desempenho ocorre quando o álcool toma conta de tudo. Vaguei a esmo por algum tempo.

Indo e voltando, indeciso, e foi só quando a noite caiu que senti certo desespero apertar meu peito e fazer correr sangue grosso em minhas veias. Meu primeiro instinto foi correr, a esmo, gritando por ajuda. Essa atitude, afetada pela desesperança, fez piorar minha situação, pois agora eu encontrava-me em alguma margem lamacenta de um corpo d'água que não sabia se pertencia ao lago Azaro ou se se tratava apenas de algum córrego ou riacho.

tomado pela lama pálida e cinzenta, muito comum naquela região. Num dado instante eu estanquei e, da melhor forma que pude, à luz daquela lua cheia, cintilante, resolvi os itens, revolvi os itens que levavam na minha bolsa, em busca de algum objeto que pudesse fazer, às vezes, de pedermeira. Eu tinha um plano. Não era o melhor, mas era algum plano. Encontrei, por sorte, um fósforo, dos que havia pego de Robinson.

para acender os cigarros espanta insetos. Dentre meus outros pertences, nada me seria de serventia, a menos que aquarelas e pedaços partidos de carbono pudessem ser utilizados de alguma outra maneira mais inventiva. O mesmo nos poderia dizer das páginas de meu caderno de ilustrações, o qual tive de queimar parcialmente para garantir minha segurança ali, naquela campa desprovida de vegetação mais densa.

Apesar dessa peculiar desvantagem, não me foi difícil encontrar folhas secas e galhos ressecados para manter acesa a fogueira por mais tempo. Com esse auxílio, pude poupar uma dúzia de ilustrações que havia feito da ave horas antes. Por entre os juncos do Rutsitzi, pensei em tratar-se de um coice de um cavalo arredio que, sem reconhecer seu mestre, distribui golpes a ismo.

em vias de defender-se, que não se sabe lá o que. Contudo, logo que me recuperei daquele golpe vindo do absolutamente nada, golpe que afetou o Herr Kitscher em alguma proporção, percebi que não se tratava de um coice de cavalo ou de qualquer animal selvagem em carreira. Não, era um menino. Sim, um menino. Entre 18 e 20 anos, não sei ao certo, um Hutu que corria em direção ao Rutziti.

evidentemente apavorado, pois olhava para trás com os olhos esbugalhados e os lábios carnudos abertos, salivando como um louco. Eu e Herr Kircher nos encaramos por um momento e, acreditando estar o rapaz fugindo de algum animal selvagem, olhamos para trás, já de armas em punho. E isto fizemos apenas para nos surpreendermos com uma outra cena tão incomum quanto aquela que acabáramos de presenciar.

Tratava-se de uma turba heterogênea de homens, mulheres, velhos e jovens, Hutus e alguns poucos Tutsis, cuja única semelhança entre todos era o porte de alguma arma de potencial letal, como porretes, foices, facões, lanças. Estavam furiosos e não nos custou muito perceber que caçavam o pobre menino. Mas o que teria feito ele?

Vocês interromperiam uma multidão furiosa para perguntar o motivo da revolta? Eu não. Minha autoridade, de alguma forma, morria ali. Abrimos caminho. Há poucos metros que estávamos das margens do rio, mas não já era necessário fazê-lo, pois a multidão, de repente, cessou antes de nos alcançar. Baixaram armas, todos colheres vidrados e injetados de sangue.

Um velhote mirrado de pele seca pôs-se à frente de todos e, caminhando lentamente, balbuciando algumas palavras em Rundi, estacou, paralelo à nossa posição, com os olhos fixos no menino, que, nesse momento, acabava de se retirar, fazendo grande algazarra nas águas do Rutsitsi. Não sem grande surpresa, Herr Kircher deixou escapar um sonoro.

o que me atraiu a atenção para seu rosto, dominado por uma apreensão mórbida. Todos, os rotus e tutsis, o velho, meu companheiro, até mesmo o cavalo, olhavam admirados aquela cena.

O rapaz esganiçado, tentando forçar caminho naquelas águas difíceis de vencer, por conta de uma correnteza subsuperficial forte que, vez ou outra, rasga as margens e faz deitar os juncos em suas beiras. O rapaz, com alguma dificuldade, conseguiu alcançar o limiar da margem oposta, e já podíamos até ver sua cintura emergindo da linha da água quando, como num puxão violento,

Seu braço, esqualido e magro, foi arrastado para trás, de volta para a água, por algo que não podíamos ver. Nesse momento, um murmúrio estranho eclodiu ao meu redor. Era uma multidão que, numa espécie de mantra cheio de vogais, entoava uma monodia estranha de se ouvir.

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