Polêmicas e afastamento de eleitorado 'mais importante' explicam queda de Flávio na Quaest, aponta Felipe Nunes
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- Eleitor IndependenteMudança de percepção · Impacto de movimentos positivos e negativos · Governo Lula e agenda pública · Desenrola 2.0 · Isenção do Imposto de Renda · Programa Move · Áudio de Flávio Bolsonaro com Vaccaro · Encontro de Flávio Bolsonaro com Trump
- Pesquisa QuaestVantagem de Lula em segundo turno · Intenções de voto · Lula · Flávio Bolsonaro
- Voto JovemPerda de intenção de voto na direita não bolsonarista · Comparativo de eleitorado: direita não bolsonarista vs. bolsonarista · Crescimento da aprovação do governo entre jovens · Embate sobre a escala 6 por 1
- Relação entre economia pessoal e avaliação políticaDissonância cognitiva em relação aos efeitos econômicos · Percepção de aumento de preços e dificuldade de emprego · Impacto da polarização e bolhas informacionais · Respiro no endividamento e isenção do IR · Resistência do eleitor aos efeitos econômicos
- Viabilidade de candidatos alternativosDemanda por alternativa · Aumento do número de indecisos · Falta de coordenação política · Desconhecimento dos candidatos · Renan Santos · Zema
- Polarização EleitoralDecisão de voto de eleitores de Lula e Flávio Bolsonaro · Dificuldade de mudar o quadro geral · Comparação com eleições passadas (Rosiana Sarney) · Polarização como tendência
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See full terms at mintmobile.com. Bom, gente, a gente está hoje com o Felipe Nunes da Quest, né, o professor Felipe Nunes, cientista político, diretor da Quest, que vai nos ajudar a esmiuçar os números. Desde manhã, quem está aqui na programação da CBN já ficou sabendo os principais dados da última rodada da pesquisa Quest, tanto de avaliação de governo quanto presidencial, e agora a gente vai descer aos detalhes aqui com o Felipe. Boa noite, Felipe, obrigada Obrigada por nos atender, como sempre.
Boa noite, Vera. Prazer estar aqui de novo com você, Débora, e com Carol. Vamos falar de pesquisa Quest, que trouxe aí alguns dados muito interessantes nessa última pesquisa antes da Copa.
Boa noite, Felipe.
Pois é, e como era a última antes da Copa, eu acho que vocês resolveram fazer barba, cabelo e bigode, porque eu nunca vi um questionário tão detalhado e com tantas perguntas muito específicas não deixar dúvida do que se estava perguntando para o eleitor. Então, acho que a gente tem muito sumo para extrair aqui. Eu queria começar te ouvindo sobre os eleitores independentes, porque eu acho que o grande dado que salta da pesquisa é uma mudança de percepção nesse eleitorado que é chave quando a gente tem o que você gosta de chamar de uma polarização bastante cristalizada.
O que que aconteceu entre os eleitores independentes de maio para cá, Felipe? E por quê?
Vera, primeiro, de fato essa é uma pesquisa muito estratégica porque ela tem o papel nesse momento de ajudar o eleitor a entender como é que está a disputa eleitoral, não só olhando para dinâmica desses dois principais nomes que a gente fala tanto, Lula e Flávio, mas também das oportunidades políticas dispostas por tantas outras alternativas que surgiram, Vera. Imagina, quando a gente começou a cobrir essa eleição com pesquisa, você tinha Lula, e aí você testava ou Eduardo ou Ratinho ou Caiado.
Depois você agora você tem uma série de nomes apresentados numa dinâmica que mostra como a classe política tá buscando de fato alguma alternativa. Né? Então fomos lá entender todas as dinâmicas. E o que que a gente descobre, Vera? Primeiro, é o eleitor independente, ele foi, ele foi impactado por dois movimentos, um positivo e um negativo, mas eles são concomitantes. O efeito positivo, qual é? Governo Lula abriu a caixa de ferramentas de agenda pública e política lançou o Desenrola 2.0, já tinha na sua pauta a isenção do Imposto de Renda de até R$5.000, trouxe o programa Move para aplicativo, motorista de aplicativo e taxista, trouxe, revogou lá a taxa das busanças.
O governo fez um monte de coisa e isso tudo junto produziu um sentimento que a gente mostra na pesquisa de algum fôlego para os endividados, por um lado, e para aqueles que estavam acostumados a pagar imposto de renda e não estão pagando mais. Então isso ajudou a criar um clima positivo. Junto com isso vieram dois movimentos negativos na oposição. Essa é a primeira pesquisa Quest depois da revelação do áudio em que Flávio Bolsonaro conversa com Borcaro sobre um financiamento para o filme.
Os eleitores acham que isso foi um erro brasileiro, acha, a maioria acha que foi um erro o que o Flávio Bolsonaro fez. E o encontro do Flávio, a tentativa de reversão de agenda, quando ele vai aos Estados Unidos conversar com o Trump sobre o tema, parece, né, pelo que a pesquisa mostra, os brasileiros achando que o Flávio teve grande influência na classificação das organizações criminosas em terroristas. Só que o efeito parece não ter aparecido.
Por quê? Porque o brasileiro até é a favor de endurecer a conversa sobre organizações criminosas, chamando-as de terroristas. Mas não acham que isso tem que acontecer via outro país, ou seja, o brasileiro tem um temor de uma interferência internacional. Então, a combinação, Vera, de um sentimento positivo econômico, um fôlego, com notícias muito negativas contra esse principal adversário do Lula na eleição, acabou dando aos independentes, que são voláteis, que mudam e vão mudar muito ainda, um um sentimento de que neste momento é melhor o Lula do que o Flávio.
Pois é, e tudo isso que você trouxe aí alterou o resultado, ou melhor, alterou os números da pesquisa, né, para o segundo turno. No cenário simulado, o presidente Lula aparece com 44% contra 38% de Flávio Bolsonaro. Ainda mostra, claro, um cenário polarizado, mas já sai ali da margem de erro. Com relação a Flávio Bolsonaro, os dados mostram que a direita não bolsonarista, que ele perdeu a intenção de voto também na direita não bolsonarista?
É, Débora, perdeu sim. E esse é um ponto muito importante, né? No relatório que a Quest publica hoje, a gente sempre mostra, né, não só os principais dados, mas todos os cruzamentos e tal, para que as pessoas interessadas possam de fato analisar o que tá acontecendo na eleição. A gente mostra que de abril para junho Caiu de 90% a intenção de voto no Flávio na direita não bolsonarista para 82%. São 8 pontos de queda nesse grupo.
E por que que esse grupo é importante, Débora? Eu sempre cito quando tô fazendo uma análise segmentada do eleitorado brasileiro: no Brasil, a direita não bolsonarista é maior do que a bolsonarista. 22% do eleitorado é a direita não bolsonarista, 13% à direita bolsonarista. Ou seja, se houver um movimento de desapego do Flávio, isso pela direita não bolsonarista, isso poderia sim movimentar significativamente o quadro. Até aqui não dá para dizer ainda que é uma tendência, não dá para dizer que é um abandono, mas existe um contingente não desprezível de direita não bolsonarista olhando para outras opções no do quadro político.
O Felipe, pelo que a gente tá vendo dos números, então, é, colou no Flávio a questão do tarifácio, também a história do Banco Master, e aquela decisão do governo americano de classificar as organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas também parece que não gerou tanto dividendos para o Flávio assim, né? Porque a população brasileira se divide aí com relação a essa postura do governo americano.
É, Carol, o que aconteceu foi que A tentativa do Flávio de virar a página pós áudio com o Vaccaro até conseguiu mudar o assunto, o que é importante, né, quando você tá lidando com uma crise, mas não foi capaz de resolver o problema de trazer uma pauta positiva que aproximasse o eleitor independente dele. Carol, um dado que pouca gente comentou hoje, né, como Vera chamou atenção, pesquisa tá repleta de indicadores, tem muita coisa, mas um deles é muito importante para ajudar a entender isso que você acabou de me perguntar.
Já faz um tempo que eu defendo que para conquistar o eleitor independente, o Flávio Bolsonaro teria que ser visto pelo eleitor independente como mais moderado que a sua família. E, Carol, o que que aconteceu? Exatamente o inverso. De maio para junho, menos brasileiros estão dizendo que o Flávio é mais moderado que a sua família. Ou seja, ele distanciou-se parte do eleitorado mais importante, que era o que ele tinha que conquistar, justamente por esses movimentos todos que aconteceram.
Felipe, quando a gente vê esses movimentos de migração de voto, né, você falou da direita não bolsonarista, a gente falou também dos independentes, a gente até vê votos saindo do Flávio, o Lula melhorando um pouco, mas esses outros candidatos, e agora são vários, que se apresentam como opção ainda não são vistos como tal pelos brasileiros. Ainda tem ali difuso esse sentimento de que gostariam de votar em outra opção, né? A gente tem uma pergunta especificamente sobre isso, que tem lá sobre o Tarifaço, 23% dizendo que gostariam, que aumentou a vontade deles de votar em outra pessoa, mas os candidatos só minguam.
O que que explica isso? É falta de conhecimento ainda? O fato de que a campanha ainda não começou? É falta de uma postura digital mais clara? Eu até falei disso na minha coluna de hoje, de quanto faltam ideias e estratégia nessas campanhas.
Vera, vamos lá. Primeiro, é importante lembrar para o nosso ouvinte que essa pesquisa está capturando uma demanda por uma alternativa, né? A demanda está dada. E a melhor maneira de demonstrar isso, olhando para um dos indicadores da pesquisa, Vera, é como aumentou o indeciso no primeiro turno. Sim, dobrou o número de indecisos, saiu de 5 para 10 em um mês. De onde é que, onde é que estavam esses eleitores? Basicamente votando no Flávio Bolsonaro.
Então é um eleitorado que saiu do Flávio e não foi para lugar nenhum. Porque primeiro falta de coordenação política, Vera. Hoje a eleição, a gente tá convivendo com o volume enorme de nomes. Quando você tem muito nome para escolher, você passa a não ter nenhum, porque o foco da atenção das pessoas acaba ficando disperso. Mas tem um segundo ponto, Vera, e aí por isso essa pesquisa é importante, que é a pesquisa antes da Copa e antes do começo da campanha.
Todos os candidatos essas alternativas são muito desconhecidas, muito desconhecidas, né? O que tem mais conhecimento é 50% apenas do eleitorado. Tirando Lula e Flávio, o resto é metade do Brasil não conhece, sendo que tem nome que 70% não conhece, 80% mais. Ou seja, tem um problema de coordenação, mas também tem um problema de apresentação, né? Como é que você apresenta de maneira efetiva? O único nome, eu diria, que conseguiu em algum momento aparecer, mas não é crescer significativamente ainda, foi o Renan Santos.
Renan Santos saiu de 76% de desconhecimento para 70%. São 6 pontos percentuais em um mês, é muita coisa, velho. É um movimento relevante para um candidato de um partido, né, pequeno, mas ele tá conseguindo ali fazer um movimento nesse sentido. O Zemo em algum momento conseguiu, mas rapidamente teve ali que lidar com desafios no seu partido. Então É, tem um problema de coordenação, é muita gente apresentada, mas tem um outro problema que é as pessoas não conseguem olhar para esses outros nomes, não conseguem enxergar essas outras alternativas, e o desconhecimento obviamente barra o crescimento desses nomes.
Quando a gente olha para os dados de aprovação e desaprovação, eles estão bem próximos, né? 47 vezes versus 48, mas é o melhor resultado pro governo desde janeiro. Tivemos um pacote de bondades, digamos assim, mas em que segmento você acha que houve mais alteração?
Ah, essa pergunta é super importante. Quando a gente tava trabalhando no relatório dessa pesquisa ontem, um dado me chamou muita atenção e eu queria convidar o ouvinte para discutir isso comigo e acompanhar comigo. É a primeira vez que eu vi crescer a aprovação do governo e intenção de voto no Lula entre os jovens, que não tinha acontecido até aqui. Até aqui eu tava vendo um enorme distanciamento. E sabe o que que me chama atenção, Débora?
Nas pesquisas qualitativas que a Quest faz junto com essa todo mês, além de fazer esse trabalho quantitativo, a gente também roda pesquisas qualitativas com um grupo independente. O que que a gente tá descobrindo? O eleitor independente jovem adorou o embate que o governo fez sobre a escala 6 por 1. É a primeira vez que um tema encantou, um tema do governo encantou esse eleitorado, tá? Então a mudança, há outras, tá? Aprovação do governo melhorou entre renda baixa, entre renda média.
Isso já é um efeito desse efeito dessa dinâmica econômica que a gente falou. Mas a mudança que mais me chamou atenção, Débora, foi a mudança entre os jovens. Isso pode ser um ponto muito importante de mudança de chave no próximo, nesse próximo ciclo, quando a gente começar a entender o processo político.
Felipe, o quanto essas intenções de voto estão cristalizadas ou esses votos ainda podem mudar daqui até a eleição?
Carol, a gente pergunta para os eleitores, depois que eles escolhem a opção de voto, se essa é uma opção definitiva ou não. É muito impressionante, Carol. 70% dos eleitores do Lula, 70% dos eleitores do Flávio Bolsonaro, aproximadamente, dizem que o voto deles é um voto decidido. E esse é um voto, Carol, que tá— essa decisão de voto, ela tá só aumentando ao longo do tempo, tá? Então isso sinaliza para uma dificuldade mudar o quadro geral que envolve Lula e Flávio, é diferente quando a gente analisa o mesmo resultado para os outros nomes: Caiado, Zema, Renan.
Porque nesses outros nomes a possibilidade de mudança é maior do que a definição do voto. Ou seja, se tem um ponto que essa pesquisa reflete é: o Flávio piorou, mas não a ponto de estar fora do jogo. Carol, eu citei numa análise que fiz mais cedo o caso da Rosiana Sarney, que para ouvinte gosta de política, que já acompanhava a eleição em 2002, é a Rosiana Sarney. Exatamente no período como esse, em março de 2001, ela era líder nas pesquisas do Datafolha, 52%, contra 36% do Lula.
Bastou Operação Lulos aparecer, Rosiana Sarney caiu, Carol, 16 pontos percentuais, tá? Um bocado, é uma queda muito significativa, diferente dessa de 4 pontos que a gente tá vendo para o Flávio. Ou seja, isso mostra que a gente de fato tá vendo um outro momento político. Os eleitores estão muito mais, como eu disse, calcificados. A polarização veio para ficar. E essa decisão do voto é uma dessas indicações de como vai ser difícil mudar esse quadro ao longo do processo eleitoral.
Felipe, na questão econômica, a gente até vai ter o Bruno Carazza, seu conterrâneo, mais tarde analisando um pouco os dados, mas eu não queria deixar de te ouvir sobre sobre algo que me parece um pouco contraditório, porque os eleitores dizem na sua maioria que as medidas econômicas são positivas. Em seguida, eles dizem que não vão se beneficiar diretamente deles, mas quando você pergunta se a renda deles vai aumentar, de novo a gente tem um quadro de maioria que diz que a sua renda vai aumentar.
As pessoas estão bipolares em relação a essas medidas. O governo ainda não faturou o que ele pode vir a faturar com elas, porque também a preocupação com a economia como principal principal problema caiu, agora é só o quarto principal problema para o brasileiro. As pessoas estão ambivalentes em relação a isso?
Primeiro, Vera, então hoje aqui é um programa especial Minas Gerais.
Sempre, Minas aqui decide eleição e o Viva Voz.
Faltou só o Viva Voz pão de queijo para a gente então fechar essa rodada de copa. Mas Vera, você tá me perguntando sobre um tema importante, que é: a gente escutou e acostumou, você que acompanha a política há tanto tempo e tão bem sabe o efeito que a economia tem sobre a política, né? A gente se acostumou a ouvir o "é economia, estúpido", certo? E faz um tempo que eu tenho mostrado com vários estudos que a força da economia como variável explicativa perdeu relevância.
As pessoas estão mais dissonantes cognitivamente quando olham para os efeitos econômicos, né? O PIB cresce, elas falam que a economia piorou. A inflação tá ali na meta, controlada, mas só estão dizendo que os preços estão aumentando. O desemprego tá caindo, as pessoas estão dizendo que tá mais difícil conseguir emprego. Então tem ali um desafio que é totalmente parte desse mundo que a gente vive, polarizado, de redes, de bolhas, em que a gente vai confirmando o viés da gente mais do que tentar atualizar as percepções.
Então a economia sofre com isso e o governo sofre também, que o governo fez um monte de coisa nesses últimos 4 anos, tentou de tudo com políticas e não viu a sua aprovação ser positiva. Já faz mais de um ano, Vera, um ano e meio, que o governo não tem aprovação positiva, né? O saldo é sempre negativo. Agora, recentemente, o endividamento que tava muito alto, esse conseguiu dar um respiro. Ali as pessoas estão sentindo, é um sossegozinho.
E também tá acontecendo no caso da isenção do Imposto de Renda, que as pessoas estão ligeiramente dizendo que estão percebendo o benefício. Mas Vera, veja só, a isenção do Imposto de Renda aconteceu no ano passado. É, para começar a dar algum resultadozinho, porque não é enorme, né? Passou o Natal, o Ano Novo, as férias de janeiro, Carnaval, passou a Páscoa, passou o feriado de Tiradentes, agora é hora de declarar o IR.
Talvez isso explique, não?
Claro. Aí passou o IR, e aí o efeito começou a aparecer, mas é muito lento. Então assim, o eleitor, mais do que ambivalente, ele tá realmente muito resistente com os efeitos econômicos, porque ele tá sentindo na pele o alto preço, o endividamento continua sendo um desafio, embora tenha melhorado, e a capacidade de mudar o padrão de vida do eleitor virou uma questão quase intransponível. Então, economia é realmente um desses territórios que a gente vai ter que reaprender a ler, na minha opinião.
Muito bom, e a gente sempre conta com você para ajudar a gente a ler. Obrigada por hoje, Felipe, e até a próxima.
Eu que agradeço. Obrigado, Vera, obrigado, Débora, Carol. Deixa o meu abraço aqui pro Bruno Carazza, que eu tenho certeza que vai dar um show.
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