#234 - Risco Climático é Risco Financeiro com Carlos Ferreira e Carlos Hoyos
Carlos Hoyos, business advisor, coach executivo global sênior, membro da Forbes Coaches Council, CEO/Founder do Elite Leader Institute, bestseller internacional, autor de 8 livros, e host do Podcast Líder de Elite, conversou com Alberto Tavares Ferreira, CEO da Carbon Zero, sobre risco climáticocomo risco financeiro, descarbonização real, greenwashing e como transformarativos naturais em valor econômico mensurável.
Neste episódio, Carlos Ferreira apresenta uma visão técnica e estratégica construída ao longo de mais de quatro décadas: sustentabilidade não é tendência, é decisão. A conversa passa pela criação da Carbon Zero em 2005, pelo programa Corredores de Água Boa (referência internacional em segurança hídrica), pela atuação em 12 países africanos via BRICS e pelos bastidores do mercado de carbono — inclusiveporque adicionalidade, MRV e integridade de projeto são os pilares que determinam se um crédito tem ou não valor real.
Pontos-chave: Decisão antes da tendência, Carbon Zero e mercado de carbono desde 2005, Adicionalidade e integridade de projeto, MRV — Mensuração, Reporte e Verificação, ESG real vs. greenwashing, Corredores de Água Boa e segurança hídrica, Precificação de reserva legal via CPR Verde e B3, Risco climático como risco financeiro, O que o Brasil precisa para liderar a economia verde.
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#sustentabilidade#ESG #mercadodecarbono #riscoclimatico
Carlos Hoyos
Alberto Tavares Ferreira
- Créditos de CarbonoMercado de carbono desde 2005 · Descarbonização real vs. greenwashing · Adicionalidade, MRV e integridade de projeto · Crédito de carbono como produto financeiro
- Riscos ClimaticosRisco climático como risco financeiro · Instituições financeiras e análise de risco · Eventos extremos e impacto em seguros
- Tokenização de ativosQuantificação, validação e governança · Pagamento por Serviço Ambiental (PSA) · Precificação de reserva legal via CPR Verde · Biodiversidade e valor agregado
- Ana de Cleves· CulturaDecisão de vender supermercados por floresta · Valorização da natureza e biodiversidade · Experiência com projetos piloto
- ESG SustentabilidadeESG como decisão estratégica · Diferença entre ESG e sustentabilidade · Indicadores claros e auditoria · Alinhamento de discurso e prática
- Gestão de reservatórios e nível da águaSegurança hídrica para cidades · Benefícios para empresas e proprietários · Atuação internacional na África
Sem adicionalidade real, permanência, rastreabilidade e transparência, o ativo perde a força. O mercado precisa migrar de volume para qualidade. E eu acho que agora que vem, como a gente pode transformar esses ativos naturais em valor econômico mensurável? O caminho vai passar por 3 pilares, que é a quantificação, a validação e a governança. Primeiro, é necessário você transformar o ativo ambiental indicador mensurável: carbono estocado, água protegida, biodiversidade preservada.
Depois você vai validar isso com metodologia reconhecida e auditoria independente. Muito importante isso. E por fim você vai inserir esse ativo, modelo econômico de PSA, que é pagamento por serviço ambiental, de certificações, contratos de longo prazo ou integração com cadeias produtivas. A natureza tem valor e o faltava era método para mensurar e traduzir esse valor.
Boas-vindas a mais um episódio do podcast Líder de Elite. Meu nome é Carlos Reis, o seu anfitrião, trazendo para você mais uma super entrevista, uma temática muito relevante e que gera muita curiosidade. E mais do que nunca é importante a gente revelar a verdade sobre ESG e como a gente pode ter projetos de verdade que agregam valor e que não são greenwashing. Vamos lá, informação sobre esse incrível entrevistado. O nome dele é Carlos Alberto Tavares Ferreira, é especialista em sustentabilidade, descarbonização e governança ambiental, com mais de 4 décadas de atuação no desenvolvimento e implementação de projetos socioambientais no Brasil e no exterior.
Fundador e CEO da Carbon Zero, lidera iniciativas voltadas à economia circular, precificação de ativos ambientais, segurança hídrica e programas estruturados de mitigação de emissões. Também é fundador do CAPES, Centro de Apoio à Pesquisa, e criador do programa Corredores de Água Boa, com atuação internacional e foco em soluções replicáveis para adaptação às mudanças climáticas. Ao longo de sua trajetória, tem atuado na interface entre ciência, mercado e políticas públicas, desenvolvendo modelos aplicados que conectam restauração ecológica, governança e viabilidade econômica.
Reconhecido por sua abordagem técnica e estratégica, participa de iniciativas globais ligadas à sustentabilidade, sendo membro de instituições internacionais e colaborando com projetos na América Latina, Europa e África, com foco em transformar ativos naturais em valor ambiental, social e econômico mensurável. Você vai adorar essa entrevista, fica aqui comigo.
Bem-vindos ao podcast Líder de Elite. Aqui é Carlos Oios, seu anfitrião. Sou Business Advisor e Coach Executivo Global Sênior há mais de 14 anos. E aqui nós mergulhamos na mentalidade e estratégia que moldam a liderança de classe mundial, explorando o que significa ser líder de elite de verdade. Se você se interessar por entrevistas internacionais, confira também o nosso outro canal, Elite Leader Podcast.
Bom que deu certo da gente se encontrar. O LinkedIn, ele traz essas surpresas maravilhosas para gente. É uma honra estar aqui com você no programa. E como é de costume, boas-vindas. Quem é o Carlos Ferreira? Pelo próprio Carlos. Tá contigo, meu caro.
Olha, Carlos, muito obrigado pelo convite, pela gentileza do convite. É uma satisfação poder falar com você, com seus ouvintes, seus leitores também. E eu acho que é muito importante a gente fazer esse network e se apresentar hoje nesse segmento, né? Porque é um segmento muito delicado hoje, a questão desse network do bem, né? Quem é o Carlos, né? Quem é o Carlos? Muito conhecido lá no LinkedIn também. A gente tem aí um trabalho muito responsável, muito técnico, porque a gente quer passar a verdade, não só passar os problemas, mas soluções.
O Carlos, ele é alguém que aprendeu ao longo do tempo a transformar discurso em prática. Eu trabalho com sustentabilidade não como conceito, mas como uma estrutura de medir de organizar, de dar valor. Eu acho que o que era antes invisível, eu falo como água, como floresta, como biodiversidade. Vejo, eu me vejo como alguém que fala sobre o meio ambiente, eu me vejo alguém como quem conecta a natureza com a economia e com decisão.
Eu acho que a gente quando fala em decisão É fundamental que quando você fala hoje, é uma grande diferença quando você fala hoje em sustentabilidade, falar de sustentabilidade e estruturar soluções que funcionam na prática ao longo de anos. O que ficou claro para mim é que o desafio não falta, não é falta de conhecimento, é a falta de integração entre a ciência e o mercado. E principalmente a decisão. Eu acho que é exatamente isso aí que me fez iniciar esse trabalho, essa inserção que eu venho trabalhando já há mais— eu tô falando de adquirir minha reserva natural há 30 anos.
Então há 30 anos praticamente eu tô trabalhando dentro desse segmento com projetos socioambientais, sempre buscando transformar ativos naturais com valor mensurável Eu sou fundador da Carbon Zero, nós criamos a Carbon Zero em 2005. É quando a gente criou a Carbon Zero em 2005, tinha acabado o Protocolo de Quioto, foi antes inclusive do Acordo de Paris. Então nós entendemos, nós vimos toda a convulsão desse mercado praticamente de anos para cá, onde a gente estruturou programas de descarbonização de governança ambiental, de precificação e ativos ligados à água, a carbono e à biodiversidade.
Inclusive, em 2006, nós criamos também o programa Corredores de Água Boa, que hoje é referência internacional. Hoje nós estamos em 12 países no continente africano a convite do BRICS. Nós temos uma sede em Pretória, na África do Sul, ao qual a gente faz uma gestão de consultoria para esses 12 países com 3 pilares. Que eu vou falar mais um pouco pela frente depois. Então, quando a gente faz esse trabalho, ele começa a criar ramificações.
E ao lado da nossa reserva natural, eu vi a necessidade de criar uma estrutura para receber os pesquisadores apoiadores, os intercambistas. Hoje, quando nós criamos o CAPES, o Centro de Apoio e Pesquisa, que fica a 50 km de Curitiba, nós recebemos Nós pegamos no aeroporto ou na rodoviária professores, alunos, intercambistas, pessoas que estão fazendo doutorado, mestrado, ou cientistas aqui do Brasil e de fora. Nós trazemos, levamos eles para o CAPS, eles tomam café da manhã, eles almoçam, eles tomam café à tarde, eles jantam, pernoitam, ficam ali 1, 2 semanas e não pagam nada.
Nós criamos essa estrutura que quando ele vai embora, a gente traz de volta para o aeroporto ou para rodoviária, Quem é que paga essa conta? Ele só vai deixar para a gente uma cópia do trabalho que ele fez. Empresas parceiras que querem ter uma conotação de ESG, de descarbonização real. Nós fazemos plantios de mudas, nós temos mais de 3.600 matrizes de coleta de semente do bioma Mata Atlântica, numa área incrível. A nossa reserva tem 3.480 hectares.
Isso funciona como um laboratório vivo de conservação, de restauração. E o programa Corredores de Água Boa que nós criamos, ele conecta e dá a garantia de segurança hídrica para as cidades. Por exemplo, várias cidades onde a captação é o rio, nós fazemos um projeto completo, margem direita e esquerda, blindando toda aquela bacia para garantir segurança hídrica para captar para a cidade. Onde quando a gente garante a segurança, você blinda uma bacia como essa, automaticamente você vai fazer com que a empresa que tá captando água ela vai gastar de 60 a 70% menos de insumos químicos na água, ela vai gastar menos de 50% de energia.
Então é um impacto muito grande porque todos os proprietários da margem direita e esquerda que são beneficiados nesse programa eles recebem apoio desse projeto com PSA, pagamento por serviço ambiental, pago pela própria empresa que faz a captação da água. Eles liberam de 2 a 3% do recurso para aquele município, e quando eles liberam esse recurso, nós dividimos entre todos os proprietários de cada margem desse rio, dessa bacia, que contemplaram que hoje são produtores de água.
E com isso, o nosso foco, ele sempre foi o mesmo: sair do discurso, estruturar modelo que funcione e em escala. Eu acho que esse é, esse é o fundamental. Nós fizemos vários projetos também, vários estudos, inclusive na Bacia do Guandu, lá no Rio de Janeiro, do Tietê em São Paulo, aqui no Paraná, na Bacia do Iguaçu, municípios como Cascavel e outras cidades também. Para mostrar que é possível. E quando a gente faz um trabalho desse, ele irradia principalmente qualidade de vida para as pessoas.
Eu acho que talvez o ponto mais importante de hoje seja entender que essa agência, essa agenda, ela deixou de ser ambiental, ela passou a ser econômica, ser estratégica e principalmente decisória. Eu gosto de falar sobre isso. A decisão, a decisão de quem tá lá na frente. Então, mais ou menos, é um pouco do nosso trabalho. Nós criamos aqui também em 2018, 2019, nós protocolamos a criação do Painel Paranaense de Adaptação e Mudanças Climáticas, porque quando nós criamos isso, o pessoal perguntou, mas o que que você tá criando, né?
O que que é isso afinal? Isso foi em 2018 para 2019. 2020 e 2021, Curitiba ficou sem água 2 anos. Então, quando o impacto de eventos extremos acontecem, o inimaginável aconteceu. Curitiba ficou sem água 2 anos. E então vieram me procurar: Carlos, como que você implanta isso? Como que nós implantamos? Como fazemos parceria? Como que a gente agrega isso? Porque existem também fundos perdidos. Há fundo perdido, recurso para que você possa, através de um painel como esse, você ter governança, ter atas, ter a institucionalização e você ter a governança desse trabalho para apresentar e receber esses recursos.
Os municípios podem fazer isso, os estados podem fazer isso. Nós criamos também lá na África o Painel Africano de Adaptação e Mudanças Climáticas para cada país, cada país independente tem o seu painel. Um pouquinho do nosso trabalho é esse aí, mas tem muita coisa que a gente também não vai ter tempo de conversar por aqui. Mas esse seria um pouquinho do que é o cargo. Outra coisa também, eu sou fundador da Fundação Tavares Ferreira.
O que nós fizemos? Nós criamos uma fundação, isso já há quase 7 anos atrás, porque nós vimos o vácuo que existe no governo, o vácuo que existe para as ações ambientais na prática, não as ações para captação de recursos, mas para fazer as coisas com qualidade, para fazer as coisas com responsabilidade. Que você vê o resultado disso. E tudo isso, vários que possam ser replicáveis. Replicabilidade, isso é fundamental. É um pouquinho do que eu poderia falar, quem é o Carlos. Uau!
Dois pontos que me ressaltam assim. Primeiro, o impacto que existe hoje no Brasil, na África, em outros países, no mundo de uma forma geral. Porque existem pessoas que em algum momento tomaram a decisão que você tomou de seguir esse caminho. Você falou muito sobre decisão. Então, primeiro, eu honro a sua presença, a sua jornada, o seu trabalho, a sua paixão, o seu carinho por isso. E realmente é um privilégio ter você aqui e a minha intenção é levar a sua mensagem para o maior número de pessoas.
Entrando um pouquinho na história, tá relacionado com decisão, o que te motivou Qual foi o turning point? Qual foi a virada de chave? Falou assim, eu vou seguir nesse caminho, é isso que eu preciso fazer. O que que te levou a trabalhar essa decisão tão certeira, antes do hype, antes do modismo, né, para fazer de fato uma coisa, transformar a teoria em prática através da sua empresa, o Carbon Zero, com esse trabalho tão lindo que você faz?
É, realmente é uma pergunta muito muito particular para mim, sabe? Foi uma coisa muito, muito difícil para mim, porque olha, eu tinha 5 supermercados, certo? Eu tinha uma rede de supermercados aqui em Curitiba e era só eu, minha esposa, 2 filhos, filhos pequenos, e eu tava cansado. Mais de 400 funcionários e eu queria uma chácara para ir descansar final de semana. Alguma coisa que eu pudesse relaxar um pouco final de semana, porque quem tem supermercado trabalha de domingo a domingo, só descansa de 1 hora da tarde para frente.
Então o que que aconteceu nessas 5 lojas? Eu tinha um coronel da polícia, do Exército, aposentado, que ele passeava comigo pelas lojas, cheques, o dinheiro, e a gente, e ele levava para o banco depois. Então ele via o trabalho, via o funcionamento dessas lojas. Um dia ele me abordou: Carlos, você não quer trocar uma loja dessa, a loja lá de Piraquara comigo, ou outra que você quiser, por uma chácara? Eu falei: poxa vida, vamos ver essa chácara, né?
E no final das contas fui lá ver a chácara dele. Era uma fazendinha de 145 alqueires. Ele tinha ela há 30 e poucos anos e não tava usando. E eu gostei, eu falei: é isso que eu quero. Tinha um lago lindo, muita floresta, era o que eu queria. É onde a gente tem agora o CAP, Centro de Apoio e Pesquisa. O que que aconteceu? Quando você perguntou o que que te motivou a fazer isso, a minha ideia ali seria plantar pinus e eucalipto e ter uma aposentadoria.
E nós estamos falando do quê? Do município de Campo Largo. Campo Largo é o berço da louça da América Latina, é o maior exportador, é o maior fabricante de louça fina da América Latina. Eles usavam do ano de 1960 até 2009 usavam carvão, carvão de árvores. Eles derrubavam florestas, faziam lenha, certo? Era um absurdo de fornos que trabalhavam 24 horas por dia, 365 dias por ano. E eles me fizeram uma oferta: Carlos, fiquei sabendo que você comprou a fazendinha, era tudo floresta.
Nós queremos comprar o seu mato. Naquela época podia vender o mato, nós vendíamos como bracatinga. Você vendia embu, araucária, cedro-rosa, canela-sassafrás, tudo como bracatinga. Chegava lá o cara, o cara da fiscalização, ele dava ok, é tudo bracatinga, e vendia aqui. Eu falei, eu vou vender isso aqui. E o cara ofereceu para mim, a alqueira ou a cada hectare de floresta que você me vender, eu posso oferecer para você pinus, eucalipto ou pasto.
Fica a teu critério. E quando nós fomos dar a volta e passear e ver a área que a gente ia disponibilizar para eles cortarem, espaço de 300, 400 metros, a gente— eu tava com o meu filho, inclusive o mais novo, um pedaço, um pedacinho pequeno que a gente andou numa trilha, a gente viu 3 animais. Eu fui para casa com aquilo na cabeça, eu falei, poxa vida, 3 animais aqui. Aí eu voltei um dia sozinho lá na outra semana, e aí eu cheguei para o cara, eu vi mais uns animais, eu vi uma cutia, vi uma paca, Falei, caramba, eu não vou vender isso aqui não.
Então veio alguma coisa assim, falou, você não vai vender? Cheguei para o cara, falei, olha, desculpa, não vai rolar, a gente não, não vou vender mais, eu vou manter aqui a floresta. Tudo bem. Essa foi a primeira atitude que eu tive nesses primeiros 145 alqueires. Aí um ano depois eu fiquei sabendo que a área em frente à casa, que tinha uma casa antiga de madeira de peroba, que agora uma casa de alvenaria, uma casa muito boa também, que é a minha vista, tinha uma floresta enorme na frente que eu fiquei sabendo que essas empresas de louça iam comprar e iam derrubar tudo, ia virar tudo carvão.
E eu já tava cansado com supermercado, eu tinha 3 grupos que queriam comprar nossa rede. Aí no final das contas conversei, acabei vendendo, fechei, comprei a fazenda inteira de floresta. Imagina só, há 30 anos atrás, há 20 e poucos anos atrás, que seja, foi em 1999 para 2000, eu vendi os 5 supermercados e comprei tudo floresta. Floresta! Minha família entrou em pânico. O cara ficou louco, né? O cara ficou maluco. Onde já se viu?
Quem é que compra mato? Eu falei para o meu pai, Pai, hoje ele tá com 93 anos, meu pai. Dia vai chegar, o dia que o senhor vai ver que 1 hectare de floresta vai valer tanto ou mais que 1 hectare de milho, trigo, ou até cana-de-açúcar, ou gado. Ele falou, filho, eu quero estar vivo para ver isso. E há 6 anos atrás nós inauguramos o CAP, Centro de Apoio e Pesquisa, e eu mostrei para ele só no carbono estocado que tem, que a gente pode precificar aquele carbono.
Nós podemos hoje, se fosse vender hoje, nós compraríamos 15 supermercados daquele que eu tinha, ou mais, só com crédito de carbono. Então eles entenderam que o maluco lá atrás— então, e com isso tudo, Carlos, o que mais me impressionou foi que eu descobri depois, isso foi depois de 2005, que eu comecei a receber prefeitos do Alto, Médio e Baixo Ribeira. Que eles queriam ver como que a gente tava cuidando das nascentes do Ribeira.
Eu falei, nem sabia que ali era. Nós simplesmente, nós guardamos as nascentes do Rio Assungi e do Rio Ribeira. Hoje o Rio Ribeira tá atendendo hoje mais, praticamente mais de 9 milhões de paulistas dentro de São Paulo hoje pela Sabesp, que é captada em Piracatu e é bombeado até São Paulo. Então foi coisa que a gente não ficou sabendo. A gente recebeu inclusive depois Vários prefeitos juntos fizeram vários eventos e viram como que a gente tá preservando as nascentes que dão vida ao Ribeira hoje.
Então isso também foi uma virada de chave, que nós protegendo a floresta, nós temos hoje mais de 280 nascentes catalogadas, registradas, mostrando que a nossa produção de água, a nossa floresta, é, ela tá beneficiando pessoas a mais de 400 km daqui. Entendeu? Então isso é importante. Isso foi, isso foi só uma virada de chave. Eu acho que não foi uma decisão de tendência, foi uma, foi de vivência, tá? Eu vi de perto o que acontece quando a teoria ela não chega no território.
Projetos bonitos no papel, mas que não mudava a realidade. Então isso me incomodou. Então eu comecei a usar a nossa reserva como projetos pilotos. Eu começava a fazer por ali. Se acontecia bem ali, a gente poderia fazer para fora. Então a virada de chave foi simples: parar de discutir os problemas e começar a estruturar soluções com método, com métrica, com continuidade. E antes de virar a pauta, né, já era necessidade. Eu só antecipei algo que a própria realidade já tava mostrando que é possível a gente cuidar de recursos hídricos.
Por exemplo, nós fizemos alguns projetos aqui em Curitiba. Eu fui convidado para ser vice-presidente da APAVE, Associação dos Protetores de Áreas Verdes de Curitiba e Região Metropolitana, que agora é paranaense. Nós tínhamos em 2013 em Curitiba 3 reservas naturais documentadas e registradas. Elas tinham 13 mil metros quadrados. Hoje, 2026, nós temos 64 reservas naturais dentro de uma cidade como Curitiba, com mais de 860 mil metros quadrados de área de floresta preservada.
Pequenos remanescentes de floresta que às vezes a pessoa herdou uma quadra inteira do avô, do pai, ia vender para uma incorporadora. Hoje ela recebe de 15 em 15 anos potencial construtivo por metro quadrado e ela pode vender esse potencial construtivo e manter essa floresta íntegra. E com isso, o que que Curitiba ganhou? Ganhou o título de capital ecológica, porque quando você fala numa cidade como Curitiba, uma qualidade de ar, uma biodiversidade urbana incrível, e a gente tá falando também É o microclima local, ele muda.
As pessoas melhoram também a sua, até o seu humor. A cidade, ela não é escaldante, ela é fresca. Então isso é um diferencial. Eu acho que esse foi a virada de chave que você me perguntou. Foi isso que me deu esse start. E até hoje a gente tá tentando hoje replicar isso com mais qualidade, com mais com mais credibilidade.
Fantástico! Que história bacana, surpreendente! Que bom que você contou.
Eu não gosto de até de conversar muito sobre isso, porque veja bem, eu sei como é que foi difícil para mim naquela época, mas emocionante. Imagina só você às vezes passar por uma e você não vender a floresta, você não deixar o pessoal derrubar aquilo, porque eu vi crianças de 4, de 5, 6 anos peneirando carvão, porque essas empresas só queriam carvão de padrão, do tamanho de uma cebola, era padrão. Você não podia, você viu o narizinho delas todo escorrido, de pé no chão, mas elas ganhavam diária, né?
Então eles queriam dinheirinho. No final das contas, eu vi muitas coisas erradas. Depois de 2009 para cá chegou o gás em Campo Largo. E acabou a queima do carvão lá. A queima então automaticamente foi um ganho para todos. Eu acho que isso é um diferencial que eu fico muito feliz inclusive em ter participado e ter lutado contra isso.
Com certeza. Para a gente fazer essa transição agora, já estamos fazendo a transição para aspectos um pouco mais técnicos da questão do ESG, descarbonização, a questão do greenwashing, são todos temas que são super relevantes, eu quero muito te ouvir. A questão do valor econômico mensurável, né, sair da teoria e ir para o prático, e com o seu nível de expertise a gente tem muito a aprender aqui contigo, eu e a nossa audiência.
Vamos fazer uma transição suave, explicar um pouquinho o que que é a questão desse mercado de carbono, crédito de carbono, o que é a meta de carbono zero e o que que é descarbonização, ou seja, dá uma visão geral Para quem não é do mercado, para quem ouviu falar e para não ter conhecimento. E aí depois a gente vai poder entrar bem, bem profundo. Perfeito.
Eu acho que esse mercado é muito delicado, porque eu falo para você, porque nós vivemos isso desde 2009 para cá, que 2005 ninguém falava em carbono. Mas tudo que foi criado, tudo que foi negociado até o ano passado, foi tudo greenwashing. E eu levantei essa bandeira em 2018, mostrei em 2018. Eu tenho artigos, eu tenho palestras, eu tenho várias entrevistas que eu falo sobre isso e eu falo onde era o problema. E simplesmente agora que a gente tá vendo, o mercado ele foi sancionado agora esse ano, no início desse ano, e ainda a gente tá vendo aí absurdo de despertos querendo querendo ganhar do dia para noite, que isso não acontece dessa forma.
Para quem não entendeu o que o mercado ainda fala sobre descarbonização, eu acho que o principal equívoco é tratar a descarbonização como compensação, é quando na verdade ela precisa ser estruturada como transformação operacional. Eu falo isso porque, veja bem, quase 3 anos atrás foi homologado no Senado Federal uma lei que toda empresa no Brasil precisa, deve ter o seu inventário de pegada, o seu inventário de emissões, e você compensar até 30% das suas emissões.
Você entendeu? Isso é muito sério, já é lei. Então as empresas têm que se adaptar já para esse próximo ano, já ter o seu inventário em mãos para que eles possam na prática fazer a sua descarbonização. Eu acho que não se resolve emissões comprando crédito, resolve as emissões redesenhando o processo, cadeia produtiva e uso de recursos. Você tá entendendo? Não é você comprar para emitir. Eu tô pagando, eu tenho direito de emitir.
É essa conscientização que a gente tá tentando tirar, entendeu? É realmente A ideia é redesenhar esse processo. Outro ponto que eu acho interessante é a ausência de métrica confiável. Sem inventário robusto, sem linha de base definida, sem monitoramento contínuo, qualquer discurso perde o valor. O mercado, ele ainda subestima o papel do MRV, que é a mensuração, o reporte e a verificação. Entendeu? Esses três, MRV, mensuração, reporte e verificação, esse ainda é muito subestimado hoje no mercado.
E hoje, por que que muitos projetos de ESG— e o ESG todo mundo sabe, virou uma agora três letrinhas que tá na boca de todo mundo, as pessoas confundem o ESG com sustentabilidade, Mas não é assim, é diferente. O ambiental, o social e a governança, eles foram criados há mais de 30 anos pelo mercado, pelos bancos, pelas seguradoras, pelas empresas que emprestam e precisam ver a contrapartida de quem tá recebendo, se realmente eles têm a governança, se eles têm o ambiental e o social agregado àquela pasta aqui solicitaram, porque eu acho que são construídos para comunicação e não performance.
Falta integração e o core do próprio negócio, né? Olha, a gente tá vendo hoje projetos de ESG que geram valor e precisam impactar 3 dimensões. Primeiro é redução de risco, eficiência operacional e a geração de novos ativos. E quando isso não acontece, Carlos, o projeto ele vira, sabe o quê? Custo reputacional. Além disso, para mim há uma lacuna de governança. Se não tiver indicador claro, sem auditoria, sem responsabilidade definida, ESG ele vira narrativa, ele não vai virar nunca uma estratégia.
Eu acho que o maior erro no mercado de carbono hoje é tratar o crédito de carbono como produto financeiro isolado. Desconectado ao território. Isso é um erro absurdo, porque, olha, crédito sem lastro técnico e consistente, ele perde a credibilidade. Eu acho que o mercado já começou a reagir a isso, e o que sustenta o valor não é o certificado, é a integridade do projeto. É fundamental, porque sem adicionalidade— você sabe o que que é a palavra adicionalidade?
Dentro do mercado de carbono aconteceu uma coisa muito legal, muito estranha inclusive. Nós fizemos um estudo de uma área de mais de 80 mil hectares no coração da Amazônia, em Apauá. Lá, caramba, é uma área lindíssima. O rio que ali, as pessoas chegavam só pelo rio. É projeto que você tinha que, por exemplo, o cara herdou a propriedade, nós tínhamos que sair de Curitiba aqui uma equipe de 15 pessoas, pega um voo até São Paulo, de São Paulo pega outro voo até Manaus, de Manaus pega barco, barco daqueles que o pessoal fica com rede lá, anda, sobe 10 dias no rio com equipamento, depois chega até certo ponto, desce todo mundo, aí eles pegam voadeira, são barcos de 25, 30 metros compridos com motor muito forte ali pegam 2, 3 voadeiras dessa, coloca o equipamento e o pessoal dentro, e esse pessoal começa a subir pequenos rios e igarapés até chegar num certo ponto.
Desce todo mundo, e aí mais 15 dias a pé até chegar à propriedade da pessoa. Então olha só como é que era a situação. Isso era para fazer a geração do projeto, para fazer o estudo, para fazer um inventário desse cidadão. Então imagina o custo disso tudo até chegar lá. Eles vão montar a barraca, montar lá a estrutura, e ali vão montar refeitório, porque eles vão ficar ali por 2 a 3 anos. Ali eles vão fazer o inventário total dessa propriedade, eles vão fazer todo o levantamento.
Enquanto eles fazem lá, a gente faz todo o levantamento e a integridade dessa propriedade por aqui. Cartórios, documentação, legalização, os registros, as licenças, tudo certinho. Aí, veja bem, depois de 3 anos esse pessoal faz esse serviço incrível, uma área de 80 mil hectares, ia dar uma geração de crédito incrível. Só que na hora de fazer o registro, a pessoa olha para você, você com aquelas informações todas na mão, fotos, muito subsídio, a pessoa fala Carlos, o trabalho tá incrível, só que essa área aqui não tem adicionalidade.
Imagina só aquele arrepio que começa no fio da cabeça, quando eu tinha cabelo, né? Começa no fio do cabelo e vai até na ponta do pé. Imagina você ficar 3 anos, gastar o que você gastou, e você simplesmente não ter adicionalidade numa área daquele tamanho, porque o planeta falando: salve Amazônia! Só que quando você vê a área tão íntegra, Que ela não tinha adicionalidade. Que que é isso? Se tivesse na parte de cima, na parte norte, uma mineração, se tivesse na parte norte, noroeste, se tivesse ali, por exemplo, a pequena estrada que estão fazendo ali, as pessoas poderiam pressionar essa área com grilagem de madeira, ou seja o que for.
Ou se essa propriedade também tivesse o licenciamento, que lá na Amazônia É 80% pelo Código Florestal Brasileiro, você deixa como reserva legal. Os outros 20% você pode abrir, você tem direito a isso, mas você precisa do licenciamento. Se você tem esse licenciamento, automaticamente, se ele tá ok, você tem adicionalidade nessa propriedade. Visto isso, ele não tinha nenhum desses fatores, a área tava totalmente íntegra. O que que você vai fazer?
Aí a gente pensa, caramba, o que que você, que que a gente pode fazer para não perder isso tudo? E aí estive lá, fomos andar, imaginar, porque a gente participou também lá da COP de biodiversidade lá no Canadá. Integra hoje, se tiver, por exemplo, um animal em perigo de extinção, ele pode agregar valor a uma propriedade inteira e isso gerar recurso. De onde tinha zero de carbono, de valores, nós conseguimos o seguinte. Eu fui lá, cheguei, um ribeirinho serviu lá na beira do rio arroz, feijão, um pedaço de carne.
Eu achei que era jacaré. E aí o cara falou, não, eu perguntei se era jacaré, ele falou, é tracajá. Eu nem imaginava o que era um tracajá. Aí ele mostrou para mim a tartaruga. Aí na hora ele falou, olha, mas a gente já quase não encontra mais. Aí veio o start, mano. Aí para você ver, aí que coisa interessante. Aí eu imaginei, caramba. Aí ele falou, hoje praticamente todos os ribeirinhos que consumiam não tá encontrando mais, que as pessoas estão pegando e vendendo no mercado do Vero Peso lá no Pará, ou tá indo para Manaus.
Então hoje virou o comércio muito pesado. Então praticamente eles estão pegando as pequenas, as grandes, e simplesmente virou um comércio e não se encontra mais. A comunidade tradicional já não encontrava mais. Aí imaginei aquele projeto Tamar que tem lá na Bahia, lá no sul da Bahia. Imaginei a possibilidade de fazer um projeto Tamar junto com o nosso CAPES, Centro de Apoio e Pesquisa, montar um CAPES nessa propriedade, porque o CAPES ele fica durante 30 anos até terminar o projeto.
Durante 30 anos, todo ano você faz uma colheita de carbono. E nesse caso seria, por exemplo, a reintrodução de tartarugas naquela região toda. Quando a gente apresentou o projeto, do zero foi para $35, você tá entendendo? Então quer dizer que isso é adicionalidade. Então se não tivesse hoje essa contrapartida da biodiversidade, nós tínhamos perdido aquilo tudo. Sem adicionalidade real, permanência, rastreabilidade e transparência, o ativo, ele perde a força.
O mercado, ele precisa migrar de volume para qualidade. E eu acho que agora que vem, como a gente pode transformar, né, esses ativos naturais em valor econômico mensurável? O caminho ele vai passar por 3 pilares, Carlos, que é a quantificação, a validação e a governança. Primeiro, é necessário você transformar o ativo ambiental em indicador mensurável: carbono estocado, água protegida, biodiversidade preservada. Depois você vai validar isso com metodologia reconhecida e auditoria independentes.
Muito importante isso. E por fim você vai inserir esse ativo, modelo econômico de PSA, que é pagamento por serviço ambiental, de certificações e contratos de longo prazo, ou integração com cadeias produtivas. A natureza tem valor e o que faltava era método para mensurar e traduzir esse valor. Tanto que em parceria com a Brasil Carbono, em 2022, nós fizemos projeto, tudo para fazer esse trabalho junto a pequenos produtores rurais.
Pela Embrapa Florestas, hoje no Brasil nós temos 60 66% de floresta nativa. Desses 66%, 26% estão hoje em propriedades particulares, reservas legais averbadas, documentadas, do pequeno agronegócio, do médio agronegócio, do grande agronegócio. Toda propriedade, por menor que seja, ela tem que ter os seus 20%, seus 35% ou seus 80% de reserva documentada e registrada e averbada. Só a Amazônia é 80%, o bioma amazônico. O Pantanal e o Cerrado, se eu não me engano, é 35%.
E os outros biomas, que é a Caatinga, o Pampa e a Mata Atlântica, são 20%, de acordo com o Código Florestal Brasileiro. E quando você fala que uma propriedade tem 20% da sua área documentada e registrada há mais de 30, 40 anos, e esse produtor ele é obrigado a manter aquela floresta, aquela floresta íntegra. Nós conseguimos fazer algo diferente, nós conseguimos precificar para ele a reserva legal. Como que a gente faz isso? Para projetos de crédito de carbono, a gente vai precisar de áreas de no mínimo de 3.000 hectares acima.
Para projetos de CPR verde, nós conseguimos fazer, porque a CPR verde já é uma lei que já existe no Brasil há muitos anos, já é documentada, estruturada, é pagamento por serviço ambiental. Nós conseguimos precificar aquele ativo daquelas florestas, ativo de carbono estocado nas árvores, no solo e nas folhas. Nós conseguimos fazer isso por hectare Nós calculamos na Mata Atlântica 250 créditos. Imagina só, do tamanho de um campo de futebol, nós conseguimos 250 créditos para o produtor rural.
Nós conseguimos registrar a $9 cada crédito. Nós estamos falando de $2.200, certo, por hectare para esse proprietário rural. Então é fundamental, que são R$15.000 praticamente. Por hectare. E isso é averbado, é registrado na B3. A bolsa de valores registra: o proprietário tal, no município tal, tem tanto de carbono estocado. Aí vamos supor que alguém lá em Dubai liga para gente: olha, eu preciso de 1 milhão de créditos. Simplesmente, o que que a gente faz?
Nós vamos pegar uma relação de todos os proprietários que têm pequenos proprietários que tem 80 mil, 80 mil, 150 mil, 20 mil, 30 mil créditos registrados ou toneladas de carbono, que uma tonelada é um crédito. E aí nós damos para esse proprietário, para esse cidadão lá em Dubai, uma relação com todos os nomes, o CPF da pessoa e quanto ela tem aposentado lá na B3. Tá registrado lá. Simplesmente ele, de Dubai, ele vai entrar no site da B3 e ele vai ver cada proprietário desse, quanto que ele tem documentado, registrado.
Ele vai dar ok em todos. Olha, Carlos, conferi tudo certinho, vamos fazer o negócio. Ele faz o pagamento, nós desaposentamos de cada proprietário desse e passamos diretamente para ele. Porque quando a gente faz esse registro na B3, sai com dois números, ISIN nacional e um ISIN internacional. Isso pode ser vendido nesse mercado ou o mercado externo. Então dá credibilidade para quem tá comprando, porque ele não tá comprando da B3.
A B3 simplesmente está garantindo que aquele produto ele foi registrado lá na B3, foi certificado, foi auditado, e a propriedade existe. E a gente tem também a proteção do Código Florestal Brasileiro, que ninguém pode derrubar área de reserva legal já é documentada, registrada, entendeu? Nós conseguimos fazer isso. Então isso nós conseguimos fazer pela falta de credibilidade que tinha até então os projetos de crédito de carbono.
Então quando a gente fala isso, é que a natureza ela tem valor, a gente tá falando de precificar só o carbono, mas também esse proprietário dessa pequena propriedade, ele pode também precificar quantas nascentes ele tem, fazer um inventário hídrico. Depois ele pode fazer um inventário de biodiversidade, e isso vai agregando no valor que ele já tem registrado lá na B3, que é $9 por crédito. Se ele tiver, por exemplo, um animal que tá em perigo de extinção, isso tá documentado, passa a ser $45 a mais por crédito.
Já não é mais 9, já são 54, entendeu? E assim por diante. Nós estamos falando de algo de precificar realmente quem preserve, quem protege. E quando a gente fala isso tudo, a gente tá falando de risco climático. O risco climático hoje no Brasil principalmente impacta em muitas decisões financeiras. Ele já impacta, mesmo que muitos ainda não perceberam de forma explícita, Eventos extremos que estão afetando seguros, crédito rural, infraestrutura logística, custo do capital que começa a refletir esses riscos e principalmente instituições financeiras mais avançadas que já incorporaram essas variáveis climáticas na análise de risco.
Isso é fundamental. Isso tende a se intensificar cada vez mais com regulações e exigências Eu acho que isso é fundamental. Ignorar isso hoje é assumir um passivo oculto. E o que falta para o Brasil hoje, que eu acho que é muito importante, dando seguimento a isso, o que falta para que o Brasil possa liderar uma economia verde? O Brasil hoje, Carlos, ele tem ativo natural, ele tem escala territorial, ele tem capacidade produtiva.
O que falta é coordenação. Eu acho que nós precisamos de integração entre política pública, setor produtivo, mercado financeiro, e falta também uma padronização de metodologia, principalmente com segurança jurídica. Essa palavra, a segurança jurídica, eu acho que esse é um problema sério, tá? Eu acho que a segurança jurídica hoje, ela, ela é o que mais pressiona hoje tanto os pequenos proprietários, inclusive até os bancos mesmo.
Eu acho que outro ponto, outro ponto interessante é parar de exportar commodity também, tal, começar a exportar valor agregado. Eu acho que o Brasil pode liderar, mas precisa estruturar melhor essa proposta. Eu vejo que adaptação climática porque ainda ela é negligenciada aqui no Brasil. Adaptação, o que que é adaptação? É a preparação para o evento que vai acontecer. Isso vai acontecer muito. Por isso que quando a gente criou o Painel Paranaense de Adaptação e Mudanças Climáticas, me perguntaram, Carlos, por que o adaptação lá no meio?
Porque o adaptação é a ciência, é academia, é o estudo, são cientistas, são pessoas técnicas que estão ali mitigando o que vai acontecer e de que maneira isso pode ser mitigado para quando acontecer o impacto seja menor. Porque adaptação não gera manchete, mas evita prejuízo. A mitigação é importante, mas adaptação é urgente. A gente está lidando hoje com impacto que a gente já, já estão acontecendo já, já a olhos vistos, né? Escassez hídrica, Eventos extremos, perda de produtividade.
Tivemos aqui vários tufões, furacões aqui no Paraná, inclusive destruiu uma pequena cidade inteira. Tá acontecendo, são eventos de enchentes assim, por exemplo. Então, por isso que hoje investir em adaptação é proteger ativos, infraestrutura, cadeias produtivas. E o custo, eu acho que não é de agir, ele é sempre maior. E uma coisa que a gente engloba nisso tudo, se você me permite dar continuidade, se tiver alguma pergunta, claro.
Eu acho que é como que a gente pode evitar o greenwashing. O que que é greenwashing? Ele simplesmente, ele é aquela empresa que não é verde que tá pintando a sua logomarca de verde. É aquela empresa que fala que fez o seu inventário, mas fez um inventário É aquele, aquele que ela comprou, ela comprou aquilo de alguém que simplesmente também é greenwashing, e simplesmente ele tá entregando aquele produto com alguém que tinha aquilo e vendeu, ele pagou por aquilo, mas na prática ele não, ele não, a empresa dele não é sustentável, ela não é verde, ela não é responsável com os 3 elementos que é a transparência, a rastreabilidade e auditoria.
Toda iniciativa ela precisa ser mensurável e verificável, e se ela não pode ser auditada é porque ela não pode ser considerada robusta. Eu acho que outro ponto é alinhar discurso e prática. Hoje, Carlos, o mercado, a meu ver, ele já consegue identificar inconsistências. O greenwashing hoje, não só no Brasil, mas fora, Não é apenas o risco reputacional, é o risco jurídico e financeiro, certo? E ninguém quer isso na sua, aí no seu balanço.
E o que diferencia hoje, né, projeto ambiental bonito de um projeto viável? O projeto bonito é o que comunica bem, o projeto viável é o que se sustenta no tempo. Esse é um diferencial que às vezes a pessoa não entendeu. Não é ser bonito, ele tem que ser sustentável. E a viabilidade, ela exige um modelo econômico de governança, indicadores de capacidade de escala, porque sem isso o projeto, ele depende de entusiasmo inicial, ele vai perder a força muito rapidamente.
Eu acho que o mercado hoje, ele precisa parar de premiar a estética e começar a valorizar a consistência. Eu acho que esse para mim seria esquecer um pouco a roupagem. Eu acho que o que tá dentro, a consistência, é o que vale mais. Eu acho que dentro disso tudo eu colocaria o seguinte, vamos falar em insights, né? Eu acho que na minha trajetória uma coisa, algum insight que eu achei mais importante é que a natureza sempre operou com eficiência.
O que faltava era o ser humano realmente aprender a medir, respeitar e integrar isso aos modelos econômicos. Hoje eu acho que quem entender essa lógica primeiro não apenas vai preservar, mas ele vai ganhar competitividade. Realmente eu acho que a maior coisa, a maior aprendizado para mim foi entender que a natureza já opera com eficiência.
Confiar na natureza. Muito bom, meu caro. Como é que a nossa audiência pode entrar em contato contigo para saber mais a respeito, mais sobre carbono zero, sobre essa temática? Qual que é a melhor forma de entrar em contato com o Carlos?
Bem, olha, eu tenho acesso direto lá no próprio LinkedIn, né, que é o Carlos Alberto Tavares Ferreira. Tenho lá o nosso site também, que tá lá inclusive no próprio LinkedIn. E tem também o nosso email lá da Carbon Zero, que é o contato@carbonzerobrasil.com, certo? Ali a gente pode responder muitas coisas. Hoje a nossa especialidade mesmo é dar consultoria, e esse é fundamental. Eu acho que hoje a gente poder dar contrapartida disso tecnicamente, Carlos, poder passar para empresas de que forma que eles podem caminhar e mostrar os caminhos de sustentabilidade real e as consequências que aquilo vai causar pela frente.
Eu acho que esse foi o maior aprendizado nosso, poder não só apresentar o problema, mas também a gente ter a possibilidade hoje, com a nossa experiência, de apresentar os caminhos necessários para que essas empresas ou essas pessoas, novos profissionais de área, possam realmente entrar nesse mercado, mas com muita, com muita responsabilidade. Porque meio ambiente não é só falar sobre plantar árvores, preservar, é você ter ele realmente no teu dia a dia, você ter ele na conscientização.
Meu caro, prazer enorme você mais uma vez. De gratidão por essa verdadeira aula magna, né, que você apresentou pra gente hoje com esses conceitos tão relevantes. Eu te agradeço, agradeço a audiência por estarem aqui. Já me despeço, mas eu gostaria que você deixasse uma mensagem de encerramento pro nosso episódio especial aqui contigo. Se você pudesse deixar uma mensagem pra que toda a humanidade pudesse ver, 8 bilhões de pessoas, qual seria essa mensagem de legado que você deixaria para as pessoas?
Obrigado, Ricardo. Poxa, cara, isso para mim foi um privilégio, foi uma grande honra poder participar um pouco, né, dessa nossa história de altos e baixos. Tem muita coisa que às vezes eu não falei porque não teve, não tive tempo, mas eu agradeço aí realmente o espaço e a qualidade dessa conversa. E se eu pudesse deixar realmente uma mensagem final, seria bem simples. Eu acho que a sustentabilidade ela não é uma tendência, É decisão.
De novo a palavra. E decisão, ela exige responsabilidade, exige método e principalmente coragem. Eu acho que a coragem principalmente de sair do discurso. A natureza, ela já dá resposta já há muito tempo, né? O que define o futuro, eu acho que agora é a nossa capacidade de agir com constância. Muito obrigado.
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