A grandiosidade de Janela Indiscreta
Por apenas R$ 5 mensais, você colabora com o podcast Mais Que um Filme: https://www.catarse.me/juliagavillan
Ou você pode me pagar um café via pix: julia.gavillan@gmail.com
Lançado em 1954, Janela Indiscreta é um dos filmes mais magistrais e duradouros de Alfred Hitchcock. O filme é um deleite visual e auditivo com um elenco de primeira, com a produção apresentando ao cineasta e sua equipe inúmeros desafios únicos, como recriar uma vizinhança inteira em estúdio. Eu sou Júlia Gavillan e esse é o Mais Que um Filme.
Júlia Gavillan
- A grandiosidade e o legado duradouro do filme Janela Indiscreta de Alfred HitchcockJanela Indiscreta·Alfred Hitchcock·Paramount
- O processo de aquisição dos direitos e desenvolvimento do roteiro de Janela IndiscretaCornell Woolrich·John Michael Reise·James Stewart·Janela Indiscreta
- A construção do gigantesco e complexo cenário de Janela Indiscreta na ParamountEstúdio 18 da Paramount·Greenwich Village·Joseph Macmillan Johnson·Raul Pereira
- Os desafios técnicos de iluminação e filmagem para recriar a vizinhança em estúdioRobert Burks·lente teleobjetiva·profundidade de campo
- A escolha do elenco principal e a troca de atrizes para o papel de LisaGrace Kelly·Lisa Karen Fairmont·Sindicato dos Ladrões·Eva Marie Saint
- A sonorização e a sequência inicial de Janela Indiscreta, com detalhes técnicos e artísticosFran Waxman·sequência inicial·reflexo do prédio vizinho
Lançado em 1954, Janela Indiscreta é um dos filmes mais magistrais e duradouros de Alfred Hitchcock. O filme é um deleite visual e auditivo com um elenco de primeira, com a produção apresentando ao cineasta e sua equipe inúmeros desafios únicos. No verão de 1953, Lou Wasserman, então agente do cineasta, conseguiu um acordo com a Paramount para o diretor fazer um total de 9 filmes. O contrato em comum exigia que o direito de 5 desses filmes voltassem a Hitchcock 8 anos depois após o lançamento inicial.
No fim, ele entregou 6 filmes, e Janela Indiscreta foi o primeiro feito sob esse contrato. A produção também era um dos filmes que ele possuía os direitos, ao lado de O Terceiro Tiro de 1955, o remake de O Homem Que Sabia Demais, de 1956, O Corpo Que Cai, de 1958, e Psicose, de 1960. O planejamento para o filme começou antes mesmo do contrato ser assinado, enquanto o cineasta filmava Disqueme Para Matar, na Warner Bros. Ele adquiriu os direitos cinematográficos de um conto de 1942 do autor Cornell Woolrich, na época intitulado That'd Be a Murder, sob o pseudônimo William Irish.
Originalmente publicado em uma revista, a história segue um homem que, após quebrar a perna, não tem mais nada para fazer além de sentar na janela e observar para seus vizinhos do apartamento da frente. Logo ele começa a perceber que algo não está certo em um dos apartamentos, criando dúvidas de que ele poderia ter testemunhado as consequências de um assassinato. 2 anos depois da publicação na revista, o conto foi publicado em uma coleção de contos chamada After Dinner Story, com o nome Real Window.
Eu sou Julia Gavilã e esse é o Mais Que um Filme. Por sugestão de seus agentes, Hitchcock contratou um roteirista chamado John Michael Reise para escrever o tratamento e o roteiro de Janela Indiscreta. Recebendo uma taxa de $15.000 por seus serviços no filme, Reiss tinha um histórico escrevendo comédia e suspense para o rádio. Ele acabou sendo um complemento perfeito para o cineasta com sua capacidade de fornecer caracterização forte e crível, além de diálogo sofisticado e espirituoso.
A dupla deu tão certo que Reiss posteriormente foi roteirista de Ladrão de Casaca, de 1955, O Terceiro Tiro e O Homem que Sabia Demais. A primeira tarefa do roteirista foi elaborar o tratamento do filme. Foi apenas com base nesse tratamento que James Stewart aceitou o papel principal. E concordou em renunciar a um salário e receber uma porcentagem do lucro do filme. Raze então começou a trabalhar no roteiro do filme. Escrevendo sobre um fotógrafo de revista chamado L.B.
Jeffries. Que quebrou a perna esquerda durante um acidente de trabalho. E está confinado em uma cadeira de rodas em seu apartamento em Nova York. A grande janela da parte traseira de seu apartamento tem vista para um pátio cercado por vários outros prédios. E enquanto se recupera, ele começa a espionar os vizinhos. Gradualmente, Jeff suspeita que um deles, um vendedor de joias chamado Lars Torrult, assassinou sua esposa, desmembrou seu corpo e espalhou seus restos pela cidade.
O fotógrafo relata suas suspeitas para sua namorada, Lisa Karen Fairmont, que eventualmente acredita nele. Enquanto trabalhava em um esquema para matar, Hitchcock conversou com Grace Kelly sobre a preparação para Janela Indiscreta, mas nunca realmente a convidou para o filme. Porém, em outubro de 1953, ela ficou surpresa ao receber um telefonema da equipe de produção informando que o diretor estava esperando por ela em Los Angeles para a caracterização da personagem Lisa.
Na época, Kelly havia acabado de receber o papel principal para estrelar Sindicato dos Ladrões ao lado de Marlon Brando. O filme de Elia Kazan seria produzido em Nova York e era mais adequado para os planos da atriz, que estava na cidade. No entanto, o papel de Lisa acabou atraindo Kelly. Assim como a oportunidade de trabalhar com Hitchcock novamente. Ela aceitou o trabalho e desistiu do papel em Sindicato dos Ladrões. O trabalho foi para Eva Marie Saint, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz por sua atuação no filme em 1955.
Curiosamente, ela trabalharia com Hitchcock anos mais tarde em Intriga Internacional, lançado em 1959. A escalação de Janela Indiscreta foi concluída em novembro de 1953, com o papel de Lars sendo atribuído a Raymond Burr e o do detetive Doyle a Wendell Corey. Janela Indiscreta foi filmado quase inteiramente dentro do apartamento de Jeff e a partir do seu ponto de vista, praticamente estático na janela. No livro de Dennis Perrin intitulado Hitchcock e Powell: O Legado de Deleite e Terror, o professor John Fell observa que o cineasta reconhecia que o aspecto mais sombrio do voyeurismo é o nosso desejo de que coisas horríveis aconteçam com as pessoas para nos sentirmos melhores e nos livrarmos do fardo de olharmos para nossas vidas.
Hitchcock desafia o público e o força a espiar através dessa janela e se expor ao que Donald Spoto chama de contágio social de agir como voyeur no livro A Arte de Alfred Hitchcock: 50 Anos de Seus Filmes. Assim como o professor John Belton analisa no ensaio Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock, a história do filme é sobre o espetáculo, e explora o fascínio pelo ato de olhar e a atração exercida por aquilo que está sendo observado.
As filmagens de Janela Indiscreta exigiram a construção de um cenário gigantesco e complexo, onde o filme foi rodado completamente. Além do apartamento de Jeff, o restante da ação se desenrola dentro e ao redor dos apartamentos vizinhos, tudo sobre a perspectiva de Jeff. O enorme cenário construído no Estúdio 18 da Paramount foi projetado pelo diretor de arte Joseph Macmillan Johnson, e o cenógrafo Raul Pereira, e abrigava a reprodução de um pátio de Greenwich Village, bairro de Nova York onde a história se passa.
A estrutura se estendia desde o nível do depósito no subsolo até a grade de iluminação no teto. Uma das características singulares do cenário era o seu imponente sistema de drenagem, construído para viabilizar a sequência do forte temporal do filme. Esse efeito foi obtido com o uso de dispositivos especiais conhecidos como aspersores de chuva, instalados acima do cenário. Supervisionada pelo próprio Hitchcock, a construção levou cerca de 6 semanas para ser concluída.
Um dos maiores já construídos na Paramount, o cenário tinha cerca de 31 apartamentos, sendo que 12 estavam totalmente mobiliados. Todos os apartamentos cercavam um pátio de vários níveis com cerca de 21 metros de largura, e alguns dos prédios tinham cerca de 5 andares de altura. O cenário também incluía uma vista do horizonte de Manhattan, jardins, árvores escadas de incêndio, chaminés soltando fumaça e um beco que levava a uma rua completa, com bar, pedestres e tráfego de veículos.
Os níveis inferiores do pátio foram construídos abaixo do nível do estúdio, enquanto as paredes do apartamento do protagonista eram móveis, permitindo ajustes para acomodar diversos ângulos de câmera. Os desafios técnicos impostos pelas filmagens de Janela Indiscreta eram enormes e decorriam principalmente da exigência de que praticamente todas as tomadas de ação no pátio através dele mostrassem a cena tal como vista pelo protagonista.
Fosse a olho nu ou com o auxílio de binóculos ou de uma lente teleobjetiva. A maioria dessas tomadas exigia identificar objetos pequenos e/ou transmitir sem diálogos ações importantes que ocorriam a distâncias variando entre 12 e 24 metros do apartamento de Jeff. Nem é preciso dizer que a montagem da estrutura e da iluminação desse cenário complexo representava por si só um desafio imenso. Na época, foi o maior trabalho de elétrica já realizado pela Paramount.
Em certo momento, praticamente todos os equipamentos de iluminação do estúdio estavam sendo utilizados no cenário. O calor provocado pela iluminação chegou a acionar o sistema para apagar incêndios do estúdio, que precisou ser desativado para permitir que as filmagens continuassem. Devido à dimensão do projeto de luz, a equipe optou por realizar uma pré-iluminação de todo o cenário, uma vez que iluminá-lo de maneira convencional teria exigido mais de 100 dias de filmagens.
Segundo o diretor de fotografia Robert Burks, Ele foi ao estúdio cerca de 10 dias antes do início das filmagens, com uma equipe reduzida para pré-iluminar cada um dos 31 apartamentos para as cenas diurnas e noturnas, além da área externa do pátio para atender a necessidade de iluminação dupla. O interruptor remoto controlava as luzes de cada apartamento. Para a fase de pré-iluminação, a produção elaborou um grande quadro que detalhava o plano de iluminação do cenário e indicava quais interruptores precisavam ser acionados para cada esquema de luz específico.
Mesmo que ajustes na iluminação fossem constantemente necessários para se adaptar a determinadas ações, o projeto de pré-iluminação proporcionou de modo geral uma enorme economia de tempo durante as filmagens. A alteração da iluminação do cenário de noturna para diurna, por exemplo, era realizada em cerca de 45 minutos. O problema relacionado à iluminação diurna dos apartamentos era a necessidade de manter a intensidade da luz constante, independente da posição do ator no ambiente.
Para evitar que qualquer ator ficasse estourado pela luz do dia no pátio ao se aproximar da janela, Burks posicionou telas difusivas abaixo dos equipamentos de iluminação. Essas telas difundiram progressivamente a luz do apartamento à medida que o ator caminhava em direção à janela. Outro desafio constante foi capturar a ação através do pátio de tal forma que correspondesse exatamente ao que o protagonista observava com o auxílio da câmera equipada com uma lente teleobjetiva.
Essas tomadas exigiam boa definição, combinada com uma profundidade de quadro adequada. A cena em que Jeff vê o vizinho retirando uma aliança da bolsa de sua esposa é um ótimo exemplo disso, porque Burks precisava mostrar claramente que o objeto sendo retirado era uma aliança a partir da visão de Jeff. Inicialmente, o diretor de fotografia posicionou a câmera no apartamento do protagonista, a equipando com uma potente lente teleobjetiva.
Para fechar a abertura da lente e obter mais definição e profundidade de campo, Ele utilizou um alto nível de iluminação no cenário e ajustou a exposição. No entanto, a definição não funcionou como ele queria e não dava para ver claramente a aliança. No fim, ele conseguiu realizar a cena posicionando a câmera em uma grua que se projetava sobre o pátio e modificando a lente, mas mantendo a mesma exposição. Essas tomadas também precisavam de atenção em relação à profundidade de campo, que Burks resolveu medindo previamente essas distâncias de disparo ao mesmo tempo que fazia a pré-iluminação.
Com isso, ele e a equipe tinham um gráfico abrangente de distâncias e informações de foco, o que ajudava muito no momento das filmagens. Também houve um cuidado especial com a sonorização, incluindo o uso de sons ambientes e músicas que pareciam flutuar pelo pátio e chegar até o apartamento de Jeff. Além de canções populares da época e algumas peças mais eruditas, uma canção incompleta pode ser ouvida ao longo do filme, composta por um músico que vive em um dos apartamentos na vizinhança.
Essa música foi composta por Fran Waxman, e a canção pode ser ouvida completa na cena final de Janela Indiscreta. A famosa sequência inicial de 90 segundos filmada sem cortes, no qual o protagonista e a vizinhança são apresentados ao público, foi realizada com extremo cuidado depois de muito planejamento. A cena exigiu inúmeros ensaios e 10 tomadas ao longo de meio dia de filmagem até ser concluída. Para filmar a sequência, Burks teve que manter a câmera na maior lança disponível no lote da Paramount.
Que estava equipada com uma extensão. O rigor nos detalhes também inclui elementos como o reflexo do prédio vizinho visível na lente da câmera do protagonista. Por sinal, em muitas cenas do filme, o pátio e os apartamentos em frente ao do protagonista podem ser vistos refletidos na lente do seu binóculos e de sua lente. Essas filmagens exigiram um controle preciso de sua intensidade em relação à luz ambiente. Isso foi alcançado com uma transparência ampliada e retroiluminada do pátio e dos apartamentos.
Com um reflexo dessa imagem simulando o reflexo da cena real. Essa transparência foi posicionada alguns metros à frente de Stewart e fora do enquadramento da câmera. As filmagens principais foram concluídas em janeiro de 1954, com um orçamento total de cerca de 1 milhão de dólares na época. Janela Indiscreta estreou nos cinemas em 4 de agosto de 1954 e foi um sucesso retumbante de crítica e público. Relançada nos cinemas em 1968, A produção foi retirada de circulação e permaneceu indisponível ao público até seu segundo relançamento, em 1983, devido a uma disputa judicial com o espólio de Corny Rorwich.
Hoje, felizmente, o filme está disponível para apreciação de uma nova geração de cinéfilos. Eu sou Júlia Gavilan e esse é o Mais Que um Filme. Me siga nas redes sociais para acompanhar o que eu faço por aí e bater um papo comigo. Também siga o feed do podcast para não perder nada e conheça o catálogo do Mais Que um Filme. Ou me pague com a FabiApix. Até a próxima!
Pix
Doação para a host