A irresistível fábula de Vida de Inseto
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Era muito comum na Pixar que ideias fossem concebidas durante refeições entre os membros do departamento de roteiro e de animação. Enquanto ainda trabalhavam em Toy Story, os roteiristas já pensavam em seu próximo filme e suas atenções estavam em duas coisas: insetos e a fábula A Formiga e a Cigarra. Eu sou Júlia Gavillan e esse é o Mais Que um Filme.
Júlia Gavillan
- A rivalidade com Formiguinhas da DreamWorksFormiguinhas · DreamWorks · Jeffrey Katzenberg · Steve Jobs
- Insetos zumbis e fungosPixar · Nelson Tanure · John Ternus · Toy Story 4
- Críticas à animaçãoBuggy Cam · Microcosmos · Dispersão subsuperficial
É muito comum que fábulas e contos infantis sejam usados como inspiração para animações, e Vida de Inseto, filme da Pixar lançado em 1998, não é diferente. O enredo do filme foi inicialmente inspirado em A Formiga e a Cigarra, uma das fábulas atribuídas ao escritor grego Esopo e recontada em francês por Jean de La Fontaine. Esopo conta a história de uma cigarra que cantou durante todo o verão, enquanto as formigas trabalharam para armazenar comida em seu do formigueiro.
No inverno, a desamparada cigarra faminta pede um pouco dos grãos para as formigas. Questionada sobre o que ela fez durante todo o verão, a cigarra responde que não teve tempo para juntar comida porque estava cantando. As formigas então retrucam que se ela cantou no verão, que dance no inverno. Enquanto a versão de Esopo traz a lição de que não se deve negligenciar o trabalho, Fontaine acentua que a formiga consegue acumular porque não faz favor a ninguém.
Mas e se a cigarra voltasse com um bando para bater nas formigas e levasse a comida à força? Essa foi a pergunta que Andrew Stanton e John Renfitt se durante um almoço na Pixar em 1994. Eu sou Julia Gavilã e esse é o Mais Que um Filme. Durante o verão de 1994, o departamento de roteiro da Pixar começou a pensar no seu próximo filme. Era muito comum no estúdio de animação que ideias fossem concebidas durante as refeições entre os membros do departamento de roteiro e de animação, incluindo Pete Docter e John Lasseter, que assumiu a direção do filme ao lado de Stanton.
A equipe já havia se interessado pela ideia de usar insetos como personagens, assim como brinquedos, os insetos poderiam ser criados na animação computadorizada naquela época, devido às suas superfícies relativamente simples. A questão era se Stanton e Reinfelt poderiam encontrar um ponto de partida na fábula de Esopo. A Disney havia produzido sua primeira versão da fábula, com um final mais alegre, no curta-metragem de 1934 chamado A Cigarra e as Formigas.
Além disso, a Walt Disney Feature Animation havia considerado produzir um filme no final da década de 1980, intitulado Army Ants. Que girava em torno de uma formiga pacifista vivendo em uma colônia militarizada, mas o projeto nunca se concretizou. Enquanto os roteiristas da Pixar debatiam sobre a adaptação, eles apresentaram cenários e enredos derivados de sua premissa. Um enredo permaneceu em desenvolvimento até o início de 1995, quando a equipe de escritores começou a trabalhar seriamente no segundo filme do estúdio.
Durante uma exibição teste inicial de Toy Story em junho de 1995, eles apresentaram o filme a Michael Eisner, então CEO da Walt Disney Company. Na época, a Pixar era uma empresa independente e tinha um contrato com a Disney assinado em 1991, em que a empresa do Mickey podia exercer a opção de um segundo filme caso gostasse do material. Como o Eisner achou a ideia boa, eles enviaram o argumento do então projeto Bugs para a Disney no início de julho de 1995.
Com o argumento aprovado, a Disney exerceu seu direito por contrato. Como na época a produção de Toy Story ainda estava em andamento, Stanton se tornou co-diretor de Bugs, porque a Pixar achava que seria perigoso ter um diretor trabalhando em duas animações ao mesmo tempo. Stanton tinha algumas dúvidas sobre o filme após concluir um rascunho do roteiro. Especialmente os insetos do circo, que haviam chegado à colônia para enganar as formigas.
E acabaram ficando para ajudar na luta. Ele achava que os insetos do circo eram antipáticos por serem mentirosos. E que era irrealista eles sofrerem uma mudança completa de personalidade na parte final da história. Além disso, não havia nenhuma razão particularmente boa para os personagens continuarem com a colônia de formigas durante o segundo ato. A partir daí, Stanton concluiu que a história precisava de uma abordagem diferente.
Os insetos do circo não tentariam mais enganar a colônia, mas se envolveriam em um mal-entendido cômico sobre o motivo pelo qual Flik os recrutou. Curiosamente, o personagem Flik também surgiu dos insetos do circo, que originalmente era uma formiga vermelha chamada Red. Após todos concordarem com a nova abordagem, os roteiristas de comédia Donald McNary e Bob Shaw passaram alguns meses trabalhando no aprimoramento do roteiro de Stanton.
A produção de A Vida de Inseto foi mais difícil para os animadores do que de Toy Story, porque os computadores da Pixar apresentavam lentidão devido à complexidade dos modelos dos personagens. Com Rich Quaid e Glen McQueen como supervisores de animação do filme, a primeira sequência a ser animada e renderizada foi a do circo. A equipe priorizou essa cena no processo de animação por acreditar que ela tinha menos probabilidade de sofrer alterações na narrativa.
Para observar o mundo da perspectiva de um inseto, dois técnicos criaram uma câmera de vídeo em miniatura sobre rodas de Lego, apelidada de Buggy Cam. Presa na ponta de um cabo, a Buggy Cam podia rolar pela grama e outros terrenos. É enviando imagens da perspectiva de um inseto. Posteriormente, um documentário francês de 1996 chamado Microcosmos, que aborda amor e violência no mundo dos insetos, foi uma fonte de inspiração para a equipe.
A transição do tratamento para os storyboards ganhou uma complexidade adicional devido à profusão de histórias. Enquanto Toy Story focava em Woody e Buzz Lightyear, com alguns brinquedos servindo principalmente como coadjuvantes, Vida de Inseto exigia uma narrativa aprofundada para vários grupos principais de personagens. Outro desafio era o design dos personagens, já que os animadores tinham que fazer as formigas parecerem simpáticas.
Embora todos os profissionais do departamento de arte tenham estudado insetos mais de perto, o realismo não podia ser uma prioridade para o filme. A equipe removeu as mandíbulas e projetou as formigas para ficarem em pé, substituindo suas 6 patas normais por 2 braços e 2 pernas. Em contraste, os gafanhotos receberam um par de apêndices extras para parecerem mais intimidadores. A escala da história também exigiu que os engenheiros de software se adaptassem às novas demandas.
Entre elas estava a necessidade de lidar com cenas que tivessem multidões de formigas. O filme incluiria mais de 400 cenas do formigueiro, algumas com até 800 formigas. Era impraticável para os animadores controlá-las individualmente, mas as formigas não podiam parecer estáticas por um instante sequer sem parecerem sem vida. Por outro lado, elas também não podiam se mover de forma idêntica. Bill Reeves, um dos diretores técnicos supervisores do filme, lidou com a questão comandando o desenvolvimento de um software para as formigas autônomas.
Os animadores animaram apenas 4 ou 5 grupos de 8 formigas universais individuais. Essas formigas universais eram distribuídas aleatoriamente por todo o cenário digital e submetidas a modificações de algoritmos para garantir a singularidade fenotípica entre altura e peso. Elas tinham variações de cor de olhos, tom de pele, altura e peso. Isso foi parcialmente baseado no sistema de partículas de Reeves, proposto em 1983, que permitia aos animadores usar massas de partículas autoguiadas para criar efeitos como poeira e neve rodopiantes.
Os animadores também empregaram a dispersão subsuperficial para renderizar superfícies de uma maneira mais realista. A dispersão subsuperficial foi desenvolvida pelo cofundador da Pixar, Edwin Catmull, durante seu período como estudante de pós-graduação na Universidade de Utah, na década de 1970. Essa foi a primeira vez que a dispersão subsuperficial seria usada em um filme da Pixar, e uma pequena equipe do estúdio trabalhou nos problemas técnicos que impediam o seu funcionamento na animação.
Catmull pediu um curta-metragem para testar e demonstrar a dispersão subsuperficial, resultando em Um Jogo de Gary, exibido com Vida de Inseto em seu lançamento nos cinemas em 1998. Existe uma pergunta clássica para os cinéfilos que viveram a década de 1990: Você prefere Vida de Inseto ou Formiguinhas? Acontece que essa pergunta carrega mais do que apenas o gosto do público. Durante a produção do filme, uma disputa pública começou entre o estúdio de animação e Jeffrey Katzenberg, que havia deixado o cargo de presidente da Walt Disney Studios em outubro de 1994.
No mesmo ano em que saiu da Disney, o executivo cofundou a DreamWorks ao lado de Steven Spielberg e David Geffen. Com Katzenberg assumindo a responsabilidade primária pelas operações de animação da nova empresa. Para rivalizar com a Disney, a DreamWorks assinou um contrato de coprodução com a Pacific Date Images, uma empresa de animação por computador e efeitos especiais, que formaria com a DreamWorks uma subsidiária que produziria filmes gerados por computador.
E para surpresa da Pixar, o primeiro projeto dessa parceria seria Formiguinhas. Nessa época, o projeto de vida de insetos já era bem conhecido na comunidade de animação. Ambos os filmes giram em torno de uma jovem formiga macho, que tem pensamentos e comportamentos diferentes do formigueiro e luta para conquistar uma princesa, ao mesmo tempo em que tenta salvar sua comunidade. Vida de Inseto é mais acessível para crianças e se baseia principalmente em piadas visuais, enquanto Formiguinhas é mais verbal e gira mais em torno da sátira.
Segundo as ideias do próprio Katzenberg, que achava que a Pixar não devia criar histórias apenas para crianças, Formiguinhas é repleto de referências adultas. Apesar dessas diferenças, a Pixar acreditava que a ideia do filme havia sido roubada pelo ex-executivo da Disney. Mesmo após sair da empresa, Katzenberg manteve contato com Lasseter, ligando frequentemente para saber como ele estava. Segundo o diretor, enquanto ele visitava o executivo no lote da DreamWorks na Universal, ele compartilhou em detalhes o que se tornaria Vida de Inseto.
Quando surgiram as notícias indicando a produção de Formiguinhas, os executivos da Pixar se sentiram traídos. Katzenberg alegou que Formiguinhas surgiu de uma proposta de história de 1991, feita por Tim Johnson. E se tornou uma possibilidade em outubro de 1994. Outra fonte indica a produtora Nina Jacobson como a pessoa responsável pela apresentação da ideia. A saída de Katzenberg da Disney foi bem complexa, e ele acreditava que havia sido vítima de alguma conspiração, já que a Acer não queria lhe pagar o bônus previsto em contrato, convencendo o conselho da Disney a não lhe dar nada.
A situação piorou quando ele descobriu que o CEO da Disney havia programado a estreia de Vida de Inseto para a mesma semana de O Príncipe do Egito, que seria, na época, o primeiro longa-metragem de animação da DreamWorks. Em resposta, Katzenberg decidiu mudar a estreia de Formiguinhas de meados de 1999 para outubro de 1998, para competir com o lançamento da Pixar agendado para novembro. No livro The Pixar Touch, David Price escreveu que um rumor nunca confirmado era de que Katzenberg havia oferecido à PDI generosos incentivos financeiros para induzi-los a fazer o que fosse preciso para que Formiguinhas ficasse pronto antes de Vida de Inseto.
Que já estava bem adiantado. Toda essa questão gerou uma briga com Steve Jobs, que chegou a ligar enfurecido para Katzenberg ao saber da mudança de data. Supostamente, o executivo então fez uma oferta: ele atrasaria a produção de Formiguinhas se Jobs e a Disney mudassem a data de Vida de Inseto para que não competisse com O Príncipe do Egito. Jobs considerou isso uma tentativa descarada de extorsão e recusou a oferta, explicando que não havia nada que ele pudesse fazer para convencer a Disney a mudar a data.
Em resposta, Katzenberg disse que foi o próprio Jobs que havia ensinado a ele como conduzir negócios semelhantes, dizendo que o executivo da Apple havia socorrido a quase-fale da Pixar ao fechar o acordo de Toy Story. Katzenberg ainda afirmou que ele foi o único a ajudar Jobs naquela época, mas Jobs estava permitindo que o usassem para prejudicá-lo. Ele sugeriu então que, se Jobs quisesse, poderia diminuir o ritmo de produção de Vida de Inseto sem avisar a Disney.
Se isso fosse feito, ele colocaria formiguinhas Lasseter disse que Katzenberger também o telefonou com a proposta. Mas o executivo negou essas acusações mais tarde. À medida que as datas de lançamento de ambos os filmes se aproximavam, os executivos da Disney concluíram que a Pixar deveria se manter em silêncio sobre a DreamWorks. E os filmes provocaram um caos na imprensa. E o fundador da Apple chegou a declarar que vilões raramente vencem.
Ainda sobre declarações públicas, Lasseter chegou a chamar Formiguinha de uma versão de baixa qualidade de Vida de Inseto. E alegou que nunca viu a animação. Hoje em dia, nenhum dos envolvidos permanece nas empresas. A DreamWorks foi adquirida pela NBCUniversal em 2016. E Lasseter saiu da Disney em 2018, após alegações de má conduta sexual contra várias funcionárias ao longo dos anos. No fim, ambos os filmes foram sucessos de bilheteria.
E embora a disputa tenha gerado desavenças, os funcionários da Pixar e da PDI mantiveram as antigas amizades. Eu sou Júlia Gavilã e esse é o Mais Que um Filme. Me siga nas redes sociais pra acompanhar o que eu faço por aí e bater um papo comigo. Também siga o feed do podcast pra não perder nada e conheça o Catarse do Mais Que um Filme. Ou um pão e um café via Pix. Até a próxima!