Dias de horror nas mãos de Israel: um relato em primeira pessoa - com Cássio Pelegrini
No último dia 18 de maio, a Marinha de Israel atacou ilegalmente, em águas internacionais, navios em missão humanitária que tentavam romper o bloqueio à Faixa de Gaza para atender a população. As ações resultaram na apreensão dos barcos da Flotilha Global Sumud e no sequestro de ativistas de diversos países, incluindo o Brasil.
O médico pediatra Cássio Pelegrini, que atua no atendimento a imigrantes em São Paulo, era um dos integrantes da Flotilha e é o entrevistado do Pauta Pública desta semana. Na conversa com Andrea Dip, ele faz um relato detalhado do horror vivido nas mãos dos militares israelenses: espancamentos, choques, privação de água, exposição ao frio e ao calor, violência sexual e violência psicológica extrema. Relatos de tortura, que contaram com o aval do próprio ministro de Segurança Nacional do país, Itamar Ben-Gvir, que chegou a divulgar em suas redes sociais vídeos de ativistas amarrados e ajoelhados, com a legenda “bem-vindos a Israel”.
Apesar da violência extrema, Pelegrini considera que os ativistas seguem firmes no apoio ao povo palestino: “eles fraturaram muitos corpos e foram violentos com a gente psicologicamente, mas em nenhum momento tivemos dúvida de que era o correto estar ali. Então, moralmente, a gente saiu intacto”, afirma.
Ouça agora e confira a transcrição do relato em nosso site.
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Andrea Dipp
Ed Vanderlei
Marina Amaral
Cássio Pelegrini
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- O Papel do Centrão na Política BrasileiraClassificação como sequestro · Pedido de libertação · Possibilidade de levar caso à Corte Internacional de Justiça
- Flotilha Global SumoodRomper o bloqueio à Faixa de Gaza · Atração de atenção para o conflito
- A Última Bolacha PodcastPodcast narrativo da Agência Pública · Investigação sobre obesidade e emagrecimento
Olá, eu sou a Andrea Dipp e começa agora mais um Pauta Pública.
No dia 18 de maio de 2026, a Marinha de Israel atacou ilegalmente em águas internacionais, próximo à ilha de Creta, mais navios da flotilha global Zumud, missão humanitária que tenta romper o bloqueio à faixa de Gaza e sequestrou ativistas de direitos humanos de dezenas de países, incluindo sete brasileiros. Todos foram levados à força para território israelense.
O que veio a seguir foi documentado pelos próprios ativistas e, em parte, pelo próprio ministro de Segurança Nacional de Israel, Itamar Benvir, que publicou nas redes um vídeo dos ativistas sequestrados algemados no chão em posição de estresse no porto de Ashdod. Os relatos são de tortura sistemática, espancamentos, choques, privação de água, exposição ao frio e ao calor.
violência sexual e violência psicológica extrema. O governo brasileiro classificou a ação como sequestro e pediu a libertação imediata dos detidos, que aconteceu no dia 21, quando os detidos foram enviados para a Turquia e, de lá, os brasileiros foram deportados ao Brasil no dia 24.
Se você é ouvinte do Pauta, você deve ter escutado a entrevista que a gente fez recentemente com o jornalista palestino Motazen Adalul, que contou que o genocídio em Gaza segue em marcha. Desde 10 de outubro de 2025, quando foi anunciado o cessar-fogo na faixa de Gaza, mais de 900 pessoas morreram no território por ataques das forças israelenses. Vale lembrar também que mais de 75 mil pessoas foram mortas em Gaza desde outubro de 2023.
Mas é quem falha em muito mais, já que há milhares de corpos desaparecidos que não podem ser contados. O nosso convidado de hoje estava na flotilha e viveu dias de horror. Cássio Pelegrini é médico pediatra e atua como voluntário no atendimento a imigrantes em São Paulo, além de colaborar com o coletivo SALT, Vozes em Movimento.
O barco em que ele estava, o Hav Shacabu Blanco, batizado também com o nome de uma cidade palestina dizimada na Nakba, foi um dos últimos a ser abordado, no segundo dia de operação, quando a violência dos soldados israelenses calou. Cássio voltou ao Brasil há poucos dias com costelas fraturadas e um relato das torturas às quais ele e os companheiros e companheiras foram submetidos. E ele aceitou falar ao pauta pública o que viu e o que experienciou.
Cássio, obrigada por aceitar falar com a gente hoje. Bem-vindo ao Pauta Pública. Obrigado pelo espaço, André.
Cássio, você acabou de voltar para o Brasil, você é um dos integrantes da flotilha global Zumud, você é médico pediatra, a gente vai também falar sobre as crianças de Gaza, mas para começar aqui nossa conversa eu queria te pedir para contar o seu relato pessoal, dizer o que aconteceu nesses dias, em que ponto vocês estavam também com a flotilha quando Israel...
sequestrou vocês, se não me engano foram 428 ativistas sequestrados, você pode dizer melhor.
Sim, estava a bordo do Cabo Blanco. Cada barco tinha o nome também de uma cidade palestina que foi dizimada na Nakba. O nosso barco também se chamava Raucha. Foi o penúltimo barco a ser interceptado. A gente estava 89 milhas náuticas da costa de Gaza. Eram três navios prisão. No nosso caso, a gente foi...
interceptado no segundo dia. E eles foram mais violentos com os ativistas nesse segundo dia. Antes de ser levado para o navio prisão, a gente foi levado para um navio de guerra. Esse navio de guerra se aproximou do nosso barco, muito próximo. A gente estava com medo que eles fossem atropelar o nosso barco.
E depois os soldados apareceram num bote, chegaram próximo da gente, pediram pra gente ir pra parte dianteira do barco. Foi difícil porque o navio de guerra faz muitas ondas ali no mar. Então a gente foi levado até esse navio. Chegando lá a gente foi vendado, a gente permaneceu cinco horas vendados ali, ajoelhados. E começou a tortura psicológica.
Eles gritavam com a gente, chamavam a gente de terrorista, perguntavam quanto a gente tinha recebido de dinheiro para fazer parte da flutilha, faziam sons de sirene, ligavam e desligavam a sirene.
Cantavam músicas, davam risada, jogavam cheiros, perfume. E tinha uma senhora que era turca, não falava o idioma, nenhum outro idioma além do turco. Algum problema de saúde, começou a gritar. E eles foram muito violentos com ela ali naquele momento também. Depois dessas cinco horas, eles botaram a gente num outro bote para levar para o navio prisão.
E aí, nesse navio prisão, foi feita uma verificação de passaporte. Quando eu mostrei meu passaporte brasileiro, eles disseram que iam me tratar como Tiago Ávila, que é outro ativista da flutilha.
E fui levado para uma sala escura, pediram para eu sentar. E assim que eu me sentei, cinco soldados começaram a chutar e me dar golpes com arma. Eu senti minha costela quebrar nesse momento. E levantei, né? Meio que instintivamente, eles me fizeram sentar novamente e me bateram mais tempo. Depois me fizeram tirar toda a roupa. Eu senti muito medo, porque...
A gente sabe que os sionistas usam estupro como arma de guerra e molharam minha roupa e fizeram botar minha roupa. Estava muito frio, fui jogado para dentro desse quadrado de containers que formava um navio prisão. Uma companheira me reconheceu e aí eu falei para ela, estou com a costela.
E aí ela disse, é, várias pessoas aqui já estão pratoras, eles já estavam lá desde o dia anterior. Eu não sabia exatamente onde eu estava, eu estava em choque. Então eu imaginava que a gente estava em alguma parte interna do navio. Só no outro dia que eu consegui ver que a gente estava em céu aberto.
Nessa noite, eles entravam, jogavam bomba de fumaça, bomba de sonora, alvejaram o pé de um ativista, fraturou o tornozelo, ele está internado inclusive ainda, e à noite eles ligavam luzes, apontavam laser de arma.
com munição letal contra 20. E eram 188 pessoas nesse navio prisão, distribuídas em três containers, não tinha espaço para as pessoas dormirem. À noite, também a gente não encontrava posição. À noite, quando alguém precisava ir no banheiro, a gente acabava pisando uns sobre os outros ali. E no dia seguinte... ...
Quando amanheceu, eu e outros médicos que estavam ali, a gente começou a contar o número de incidentes para assim que a gente tivesse contato com nossos advogados, a gente pudesse informar. Então, só nesse navio prisão, a gente contou 35 fraturas, 22 lesões por taser, a gente só contou lesões de taser na região cefálica e pescoço.
e 10 casos de violência sexual. Aí nessa manhã a gente foi colocado ajoelhado sob o sol durante 4 horas e eles tocaram o hino de Israel 72 vezes, a gente contou. Algumas pessoas passaram mal, a gente não sabia para onde a gente estava indo, a gente não sabia onde a gente estava.
A gente foi sendo retirado ali, grupos de 10, para uma parte próxima do porto de Ashdod. E nesse porto tinha duas tendas, uma tenda menor e uma tenda grande. Quando eu passei nessa tenda menor, novamente passei por outra sessão de espancamento ali. Eu gritei que eu estava com a costela fraturada, mas eles continuaram batendo ainda assim. A gente foi separado em grupos menores dentro dessa tenda grande. E...
colocado em posição de estresse, com as mãos atadas, um zip, muito apertado, então cortava a circulação das nossas pernas e eu não conseguia sentir meus pés. Ao mesmo tempo, eles falavam para a gente não se mexer, eu tinha medo de qualquer movimento pudesse ser um motivo para eu ser selecionado, porque...
Pouco tempo depois, eles começaram a retirar pessoas desses grupos menores e aí levavam para a violência física e também para a violência sexual. Eu consegui ouvir o som das pessoas sendo estupradas muito perto de mim. A gente ficou ali umas três horas, né? Acho que essa é uma das cenas também que aparece no vídeo que o Itamar Benivir divulgou.
Na verdade, esse vídeo mostra só a gente em posição de estresse. Eu acho que tem um frame ali daquele vídeo que aparece uma ativista com a calça abaixada. A calcinha aparece. Mas o pior mesmo não aparece ali naquele vídeo. Depois eu fui deixado na mão da polícia israelense. Cada ativista era acompanhado por um policial.
O policial oferecia esse zip lock que estava prendendo minhas mãos para outros policiais, para eles puxarem e deixarem mais apertado. Era carregado quase ajoelhado, tinha que andar rápido e ele ia golpeando minhas costas, às vezes cariciava minhas costas. Me obrigou a falar frases em hebraico, que eu não sei o que era.
chamava os colegas para me ver falando essas frases em hebraico. A gente foi deixado ali no Porto bastante tempo. É que eu fiquei na frente de um delegado, eu pedi para falar com um advogado, e tinha um grupo de advogados que defende os ativistas ali, e eles estavam ocupados tentando cuidar de todos, né? Como ela demorou.
para vir me atender, eles simplesmente começaram a me fazer perguntas em hebraico e eu sempre repetia que precisava falar com o meu advogado, que precisava da presença do consulado e que eu precisava de atendimento médio, estava com a costela fraturada.
Mas eles preencheram esse formulário e me entregaram para ir para a prisão. A gente foi colocado num ônibus prisão, que é uma espécie de camburão, numa cela muito pequena, não tinha espaço para os joelhos, tinha duas caixas de escuta, então a gente era, imagino que gravado ali, e cabia duas pessoas, cada celazinha dessa. Estava ali com um companheiro que a gente já conhecia, da Grécia.
Dava para ouvir cachorros latindo lá fora, ouvir pessoas gritando. E a gente foi levado para uma prisão. Todo momento a gente não sabia para onde a gente estava indo. A gente só imaginava pelo histórico do que aconteceu nas outras flotilhas.
Na prisão, demorou muito tempo para chegar na prisão. A prisão era bastante longe de Ashtod. Depois eu fiquei sabendo que era a prisão de Sikiyoto. Chegando na prisão, foi espancado novamente. Os guardas a gente passou por verificação de passaporte, inscrição na prisão. Fizeram a gente ficar nu de novo. Deron.
Uma roupa quente pra gente. Fazia muito calor. A gente passou por uma espécie de avaliação médica. Que na verdade era pura formalidade. A gente ficava na frente profissionais de saúde que escreviam. Eu até que eu estava com a costela fraturada. Eles fizeram fotos só do meu tórax. Então não aparece nos registros de lá as minhas lesões nas costas.
E depois a gente foi levado para um local com uma tela em que apareciam cenas de pessoas sendo decapitadas, sofrendo violência física. E eles obrigavam a gente a assistir aquilo. Ficavam chamando a gente de terrorista.
dizendo que eles eram nossos amigos, o Hamas. Depois a gente ficou um tempo aguardando numa cela muito pequena. Eram 13 pessoas numa cela de talvez 5 metros quadrados. Não tinha banheiro. E eu comecei a examinar alguns companheiros que estavam ali, identificar as fraturas de costela. Tinha muitas pessoas em greve de fome, em greve de sede também. Muita gente desidratada.
E depois a gente foi levado para uma cela maior, eram 29 pessoas, mas não tinha cama de todo mundo, muitas pessoas dormindo no chão, tinha poeira, rato.
não tinha banheiro, não tinha água. Então, esse dia todo, a gente teve privação de água e no navio prisão eles ofereceram um pão congelado que a gente usava a temperatura do pão para colocar em cima dos ferimentos, das contusões, para aliviar um pouco ali da dor.
No dia seguinte, a gente foi algemado novamente, nas mãos e nos pés, eles corriam com a gente para machucar os pés, seguravam a algema junto com o cabelo, ele ficava com a mão próxima da cabeça. O tempo todo, violência psicológica muito agressiva, eles usavam uma tática de dar instruções.
então às vezes falavam para você sentar, ao mesmo tempo falavam para você se levantar, e isso gerava insegurança, um medo de punição, e aumentava o estresse, e a gente foi colocado com esse moletom quente, dentro do camburão novamente, ou estacionado ali umas duas horas, depois de um tempo começou a se movimentar, e a gente, pelo meio do deserto, e a gente não sabia para onde estava indo.
Eu imaginei que a gente pudesse estar indo para algum tipo de tribunal, ou que a gente tivesse algum acesso ao advogado. Só quando eu consegui ver por uma fresta do ônibus a palavra aeroporto que eu entendi que a gente possivelmente ia ser deportado.
A gente foi colocado dentro desse avião, quem informou para a gente para onde a gente estava indo foi a tripulação do avião. Foi o primeiro momento de liberdade, estava muito preocupado, porque eu ouvia as pessoas sofrendo violência sexual, então eu pedi para a tripulação poder usar o rádio.
dão uma mensagem e eu instruí que quem tinha passado por violência sexual assim que chegasse o destino fosse ir para o hospital para começar a tomar as profilaxias. A gente chegou em Istambul, foram 67 pessoas para o hospital, 12 internações e os mais diversos tipos de lesões, traumatismo cranioencefálico, lesão de vértebra, lesão de nariz.
Pessoas que tiveram fratura de dente, fratura de costela, pneumotórax, contosão pulmonar, fratura de braço, fratura de tornozelo, abdomiólise, que é uma condição em que o dano muscular é tão grave por conta das agressões que o músculo libera substâncias e sobrecarregam os rins, lesões de fígado e...
Fora o trauma, né? As pessoas com sintomas já de estresse pós-traumático. E ao mesmo tempo, isso me emociona porque eles fraturaram muitos corpos, eles agrediram. Nossos corpos foram violentos com a gente psicologicamente, mas em nenhum momento nenhum dos ativistas que estavam ali...
teve nenhum tipo de dúvida de que moralmente era o correto se fazer estar ali. Então, moralmente, a gente saiu intacto. Eu vejo, eu ouço os relatos dos colegas e a lucidez, o que eles falam da Palestina. E a gente sabe que, de fato...
Com o nosso privilégio de passaporte estrangeiro, aquilo ia acabar em algum momento. Eles têm 9 mil prisioneiros palestinos nesse momento. 400 são crianças. Uma criança brasileira, palestina, morreu na prisão israelense. Há sinais de tortura física e a causa mortes foi a desnutrição. Eles deixaram essa criança sem comida até a morte.
Até esse momento, a família ainda não teve o direito de velar o corpo do Walid Ahmad, que é esse cidadão brasileiro. A gente tem também 400 profissionais de saúde presos em Gaza, presos na Palestina ocupada nesse momento.
Uma voz, um rosto desses profissionais de saúde é o doutor Roussan Abussofia, que é pediatra também, diretor do hospital. Se recusou a evacuar o hospital e deixar os seus pacientes para trás. Está preso há mais de 500 dias. E os relatos da família são parecidos, de fraturas de costela, problemas de saúde, falta de atendimento médico e nenhuma acusação formal contra ele, uma detenção ilegal.
Não sei nem o que falar, Cássio. Assim, é tão terrível, é tão absurdo, é tão grotesco, né? O que Israel tá fazendo que a gente fica sem palavra mesmo. Te agradeço por compartilhar, porque entendo que tá tudo muito novo e imagino o quanto deva ser difícil pra você isso, então te agradeço de novo por...
compartilhar a sua experiência. Queria saber também como que você foi parar na flotilha. Você é médico, pediatra, enfim, como você foi parar lá? Eu fui parar na flotilha porque eu acompanho a causa palestina há bastante tempo.
Desde 2013, quando fiz uma amiga palestina aqui em São Paulo, em 2014 teve a Operação Margem Protetora e comecei a acompanhar uma organização palestina que se chama Defense for Children International.
E essa organização, ela dá voz e cor e rosto e transforma esses dados estatísticos estarecedores sobre as crianças na Palestina. Então, e eles fazem também coleta de dados no site deles, nas páginas deles, a gente consegue ver as famílias, as crianças, saber mais da história deles.
É impressionante. São 12 mil crianças que foram parar em prisão israelense desde 2000, se não me engano. Semanalmente, crianças em Israel são levadas para interrogatório, ou são presas, ou são impedidas de ir para a escola. Têm seus direitos básicos negados. No mês passado...
Na faixa de Gaza, no dia 15, que é o dia do prisioneiro palestino, que na verdade é o dia do refém palestino, considero que eles são reféns, teve um protesto na faixa de Gaza de crianças pedindo a libertação dos seus colegas, libertação dos seus pais presos. E eu considero que em nenhuma infância...
Isso deveria ser uma preocupação para as crianças. Fazer um protesto pedindo a libertação de outras crianças, né? Ou saber que você pode ser preso injustamente. Isso não deveria ser um medo para nenhuma das crianças. A Defense for Children relatou anos atrás o caso de uma criança que foi estuprada por um soldado. Esse caso foi levado para...
Justiça em Israel e a providência que eles tomaram foi invadir a organização, confiscar os computadores e declarar a Defense for Children uma organização terrorista. E no mês passado, essa organização encerrou suas atividades, depois de 35 anos de atuação.
Eles conseguiram inviabilizar o trabalho da organização. Entendo que é uma obrigação da sociedade proteger as infâncias. Na minha profissão faço isso diariamente. O artigo 245 do ECA fala da responsabilidade dos profissionais intervirem no caso de...
uma violência, eu entendo que isso deveria se aplicar para todas as crianças do mundo, não só as crianças aqui do Brasil. Então, ver a infância sendo atacada na Palestina é muito doloroso. E quando a gente escolhe silenciar, não olhar, não tomar uma atitude a respeito, isso torna a gente, de alguma maneira, parte desse contexto da violência.
E a negligência é uma forma de violência também. Então, a gente tinha esperança que quando a escalada do genocídio aconteceu e as imagens muito gráficas de cenas horríveis, de corpos mutilados, de sofrimento, fossem de alguma maneira proteger os palestinos. E a gente viu mobilizações enormes pelo mundo.
protestos que aconteceu nas universidades e nossos governos continuam paralisados. E eu entendo que nesse cenário resta a gente se organizar e fazer esse tipo de ação direta.
É direito dos palestinos receber ajuda humanitária, é direito dos palestinos ter acesso ao próprio mar. Eu entendo que participar desse tipo de ação é uma resposta contra a dessensibilização que os governos estão promovendo. Então, é um método, né?
Então atacaram o hospital Al-Shifa em 2023, culparam os palestinos pelo ataque. Logo em seguida eles atacaram todos os hospitais na faixa de Gaza, mataram mais de mil profissionais de saúde. No Líbano, mais de 100 estabelecimentos de saúde educados.
para médicos sendo alvejados. Então, é um ataque à população e um ataque à possibilidade de cura de sobrevivência, também em cima dos profissionais de saúde. E agora, uma pequena pausa, mas a gente já volta.
Eu saí de um show de Paul McCartney direto para o hospital. E essa é a história de como eu morri. Na balança, tive que me livrar de 58 quilos. E nesse sarapatel teve de tudo. Obesidade, ultraprocessados, canetas emagrecedoras. Uma investigação com rigor de ciência, mas toda trabalhada num temperinho pernambucano. Eu sou Ed Vanderlei e esse é o A Última Bolacha, o novo podcast narrativo da agência pública. Em todos os tocadores de podcast.
É isso que você estava dizendo, é tão importante o trabalho que a Flotilha faz, porque parece que o mundo esquece o genocídio em Gaza frequentemente. Então assim, ah não, teve um cesta-fogo, todo mundo para de falar como se tivesse de fato acontecido cesta-fogo e se esquece Gaza. Então eu acho que o trabalho da Flotilha faz justamente de um jeito muito duro para vocês trazer a atenção de volta. Agora, teve esse vídeo...
do Benkvir, né? Ele publicou assumindo toda a tortura de Israel contra os manifestantes. Parece que está escalando essa violência também, não sei, talvez você possa dizer, mas ouvindo o teu relato, parece que essa violência contra os ativistas também está escalando, também Israel também está perdendo a vergonha de mostrar que tortura ativistas, não só palestinos, né?
E, como você disse, o mundo está vendo e os governos não estão fazendo nada, né? O que mais precisa acontecer?
É, Israel vai testar todos os limites, né? Está testando todos os limites. Então, um pouco ainda nessa linha do raciocínio, do método, não sei se você vai se lembrar do massacre da farinha. A certa altura, em 2024, já com a população em situação de fome grave, os palestinos se aproximaram de alguns caminhões para conseguir garantir ali alimento.
E foram massacrados ali. Em seguida, Israel criou a Gaza Humanitarian Foundation, que implementou isso a diário. Diariamente, as pessoas iam para essa organização e eram alvejadas.
Acho que a gente tem muita coisa acumulada nesses três anos de escalada do genocídio. Diariamente a gente tem notícias terríveis vindas da Palestina, do Líbano. De alguma maneira isso dessensibiliza, paralisa a gente. E quando, em certa altura, eles alegam que tem um cessafogo, isso acalma de alguma maneira, porque a gente sofre também vendo, né?
essas imagens. E a gente gostaria de que isso não estivesse acontecendo. Então, entendo que psicologicamente gera um certo alívio e, de alguma maneira, uma dessensibilização também. Uma parte da estratégia de dessensibilização. Quando teve o anúncio de cessar fogo no sul do Líbano,
A população de Israel, especialmente do norte, da Palestina ocupada, foi às ruas pedir a volta da guerra. Então, você citou o Ben-Vir, a estratégia é pintar o Ben-Vir como uma exceção dentro de Israel. Mas, na verdade, tem estatísticas, 47% é a favor.
da matança na faixa de Gaza, 82% é a favor do genocídio. Foi aprovada agora a lei da pena de morte por enforcamento, que inclusive pode atingir crianças. Lá no Palestino, ocupada a maioridade penal é de 12 anos. E isso foi feito pelo Congresso, não foi o bem-vindo.
No aniversário do Bem V, quem estava lá com o bolo e uma forca desenhada em cima do bolo era o chefe da polícia de prisão em Israel. Então é uma sociedade muito radicalizada, muito fascistizada e a gente sentiu isso ali.
nas mãos das pessoas que torturaram a gente sem que o Big V estivesse ali perto. E eles fazem isso com os palestinos diariamente. Uma cultura, eu fico imaginando, no ano passado, uma promotora soltou um vídeo de um palestino sendo estuprado.
numa cadeia, e o país se mobilizou em defesa dos estupradores. E eles viraram heróis nacionais. E foi a Corte de Justiça agora que tirou as acusações sobre esses estupradores. Fico imaginando uma criança crescendo ali na Palestina ocupada. Como é que eles educam essa criança? Como é que eles explicam para a criança quem é aquela pessoa que está ali na televisão?
Como é que eles explicam os avós, os mais velhos da família justificando o estupro? É a cultura do estupro no céu máximo. Essa coisa de colocar os palestinos como não humanos, como bichos.
É interessante a gente ver e observar, fazer uma autoanálise. Tem muita gente olhando para os ativistas e falando sobre a nossa coragem, às vezes chamando a gente de herói. Mas a gente não tem esse mesmo olhar para um palestino quando ele sai da prisão, depois de ter ficado...
Anos, meses ali preso, passando por tortura e sem acusação. E felizmente a gente vive num mundo racista, né? E as pessoas vão olhar muito mais para os nossos corpos ocidentais ali, né? Que passou por isso.
por três, quatro dias, e menos para a Palestina, porque a propaganda sionista conseguiu criar o imaginário do palestino como um estereótipo do terrorista, criminoso. Felizmente a gente não tem o olhar humano, e essa desumanização traz uma justificativa moral para a continuidade do genocídio.
Cássio, eu vou fazer minha última pergunta pra você. Eu fiquei pensando aqui, você tava falando dos governos, né? Como o governo brasileiro se comportou nesse caso, nessas prisões agora de vocês?
O governo brasileiro acertou quando chamou de sequestro o caso do Tiago, que foi interceptado próximo da Grécia, quando pediu pela libertação dele. A gente, no ativismo, ficou esperançoso de que a ruptura diplomática com Israel ia acontecer. E aí teve um comunicado oficial do Ministério de Ações Exteriores dizendo que isso não ia acontecer. E agora a gente está tentando abrir um espaço para poder falar com...
Ministério de Relações Exteriores, com a diplomacia, porque foram sete brasileiros que passaram por tortura, dois brasileiros estão com fraturas, ossos fraturados, eu, a companheira Ariadne. Em outros países, começa a se formar uma iniciativa de levar essas violações de direitos humanos para a Corte Internacional de Justiça. E eu tenho muita esperança de que o Brasil vai escolher levar o nosso caso também para...
que Israel não saia impunemente, né? A gente foi colocado dentro de um avião como se a gente estivesse intacto. Inclusive, quando uma pessoa com pneumotórico está numa aeronave, né? A expansão dos gases ali, isso é risco de vida, né? Eles expuseram a gente a risco do começo ao fim e fim.
A gente vê o contraste, né? Nossos corpos ali desarmados carregando ajuda humanitária para uma população que vive sobre um cerco ilegal do ponto de vista do direito internacional. E os soldados armados até os dentes lidando com a gente com essa brutalidade, né? Brutalizando nossos corpos.
E a gente não pode naturalizar isso, né? No começo do ano, um presidente de um país aqui da América do Sul foi sequestrado e levado para um outro país. Ninguém fez nada. No mês passado, dois cidadãos foram sequestrados, o Thiago e o Saí, em águas internacionais. Ninguém fez nada e agora foram 428 sequestrados e torturados, né? E a gente não pode normalizar isso.
Cássio, muito obrigada de novo. Obrigada por compartilhar com a gente. Obrigada pelo trabalho da Flotilha, que é incrível e importante e essencial nesses tempos. Obrigada. Obrigado.
Em momentos de negacionismo histórico, o bom jornalismo é indispensável e o Pauta Pública continua trazendo conversas que nos ajudam a entender o que está em disputa no mundo, graças ao apoio dos nossos aliados e aliadas. Você pode apoiar essa e outras produções da Agência Pública acessando apoie.apublica.org e escolhendo um valor mensal de contribuição. Você também pode fazer um pix de qualquer valor para contato.
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O Pauta Pública é apresentado e conduzido por Andréa Adip. A produção é da Estela Diogo. A edição e roteiro é de Ricardo Terto. A identidade visual foi criada pela Tainá Gonçalves. A coordenação de podcasts é da Sofia Amaral. A coordenação das redes sociais é da Lorena Morgana. Os teasers e chamadas nas redes sociais são feitos pela Etienne Karen.
A publicação no site é do Guilherme Silva e da Rafaela Ribeiro. A trilha sonora original foi composta pelo Pedro Vituri. Você pode falar com a gente através do e-mail podcasts.org. O Pauta Pública é uma produção da Agência Pública de Jornalismo Investigativo.
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