Episódios de Pauta Pública

As bravas: a luta das Mães de Maio - com Débora Silva

08 de maio de 202635min
0:00 / 35:42
Neste mês lembramos 20 anos dos “crimes de maio”, quando mais de 500 pessoas - em sua maioria jovens negros - foram mortas em São Paulo, em operações policiais que seriam uma “onda de resposta” aos ataques do PCC que aconteceram no mesmo período. Mas também celebramos o nascimento desse movimento que se tornou um dos mais importantes do Brasil: Mães de Maio é um movimento que buscou transformar o sofrimento imensurável de perder um filho assassinado pelo Estado em luta contra a opressão, a injustiça e o racismo.
Às Mães de Maio se juntaram outras, de todo o Brasil. Hoje a organização luta por justiça, reparação e acolhimento da dor de mulheres que perderam seus filhos para a violência policial. O Pauta Pública orgulhosamente recebe Débora Silva, fundadora do movimento, que nos lembra que nesse dia das mães não podemos esquecer as mães enlutadas nas favelas, nos territórios indígenas, nos quilombos, no campo e nas periferias.
Ouça agora.
Saiba que você pode ser aliado da Agência Pública e colaborar com esse trabalho. Saiba mais em apoie.apublica.org ou faça um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.
Contamos com seu apoio!
Participantes neste episódio3
A

Andrea Dipp

HostJornalista
M

Marina Amaral

Hostjornalista
D

Débora Silva

ConvidadoAtivista de direitos humanos
Assuntos6
  • Crimes e OcultaçãoMassacre de 2006 em São Paulo · Operações policiais e grupos paramilitares · Falta de resposta do Estado e impunidade · Comparação com a ditadura militar · Política de morte e racismo estrutural
  • Movimento Mães de MaioTransformação do sofrimento em luta · Luta contra opressão, injustiça e racismo · Expansão nacional do movimento · Busca por justiça, reparação e acolhimento · Organização e empoderamento das mães
  • Romolo ZemaFundadora do Movimento Mães de Maio · Ativista de direitos humanos · Denúncia de violência policial · Perda do filho Edson Rogério · Prêmios nacionais e internacionais
  • Gestão de Projetos e Habilidades do FuturoCentro de Memória às Vítimas de Violência do Estado (CMVV) · Acolhimento humanizado para mulheres · Formação em direitos humanos e produção de renda · Rede de atendimento psíquico e social na Defensoria · Sonho de acabar com cemitérios e abrir escolas
  • Violencia Urbana BrasilOperação Escudo e Operação Verão · Chacinas e execuções extrajudiciais · Racismo estrutural e seletividade penal · Abordagens truculentas e autoritarismo · Falta de preparo e sensibilidade dos profissionais
  • Justiça de CristoDificuldades nos processos judiciais · Morosidade da Comissão Interamericana de Direitos Humanos · Perda de perícias e evidências · Papel do judiciário e do sistema · Trabalhos acadêmicos como ferramenta de denúncia
Transcrição91 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Oi, eu sou a Andrea Dipp e começa agora mais um Pauta Pública. Mães de Maio é um movimento que busca transformar o sofrimento imensurável de perder um filho assassinado pelo Estado em luta contra a opressão, a injustiça e o racismo. A organização surgiu a partir dos crimes de maio de 2006, quando mais de 500 pessoas, em sua maioria jovens negros.

foram mortas em São Paulo em operações policiais ou por grupos paramilitares de extermínio ligados à polícia, no que ficou conhecido como uma, abre aspas, onda de resposta a ataques do PCC, fecha aspas. Mães que perderam seus filhos resolveram então se unir para cobrar respostas e justiça.

Nesse mês, nós lembramos 20 anos dos crimes de maio, a maioria ainda sem resposta do Estado. Mas também celebramos o nascimento desse movimento que se tornou um dos mais importantes do Brasil. As Mães de Maio se juntaram outras de todas as regiões do país. Hoje, a organização luta por justiça, reparação e acolhimento da dor de mulheres que perderam seus filhos para a violência policial em chacinas que vieram depois e que continuam a sangrar o Brasil.

Nesse Dia das Mães, nós não podemos esquecer as mães enlutadas nas favelas, nos territórios indígenas, nos quilombos, no campo, nas periferias e as próprias mães mortas diretamente pelo Estado, como no caso de Tauana Salmásio, morta durante a ação policial em cidade Tiradentes em 3 de abril. Ela deixou cinco filhos. Duas semanas depois, a policial que fez o disparo que matou Tauana e que estava estagiando na corporação foi promovida soldado.

Mas além de toda brutalidade, é preciso reconhecer o que surge a partir da organização popular, moldada sim pela dor, mas também pela coragem, pelo companheirismo e pela insubmissão. Hoje nós temos o imenso prazer de receber aqui no Pauta a fundadora do Movimento Mães de Maio, Débora Silva, que é ativista de direitos humanos e junto da organização denuncia e apura independentemente casos de violência policial no Brasil.

Débora teve seu filho, Edson Rogério, assassinado por policiais em maio de 2006. Por conta da sua luta e atuação, recebeu vários prêmios nacionais e internacionais, como o Prêmio Dandara dos Palmares, da Prefeitura de Santos, Prêmio Cidadã Paulistana da Câmara Municipal de São Paulo, Medalha Chico Mendes, entre outros. Débora, que honra ter você aqui no Pauta Pública. Eu estou muito feliz de te reencontrar.

Olha, para mim, com muita rebeldia, eu chego também encontrando você e saber também que você está na pública, é uma mídia que eu respeito muito e achei fabuloso essa troca, depois de tantos anos.

de uma repórter que fez uma matéria que marcou minha vida e te reencontrar assim, para mim, é o presente dos 20 anos, é o presente do dia das mães, é o presente do aniversário. É um presentão dentro de vários presentes. Então, muito obrigada. Muito obrigada. Eu vou começar a chorar daqui a pouco, de novo, como sempre. Mas vamos lá.

Débora, então, 20 anos dos crimes de maio, né? 20 anos desse massacre que levou mais de 500 vidas em São Paulo, que levou a vida do seu Edson Rogério, que mudou o rumo da sua vida e o rumo da vida de tantas outras pessoas, né? De tantas outras mães também. Como que você olha para esse episódio hoje e para tudo isso que aconteceu nesses 20 anos?

Primeiramente, eu olho o episódio de crimes, de um massacre vergonhoso que ocorreu no Brasil, que tantas autoridades como o meu país colocou debaixo do tapete. Vários brasileiros sendo executados num espaço muito curto, de uma semana, e nenhum dos inquéritos virou processo e colocaram assim, não a vala comum.

não diferente dos modos operantes contra a roupagem da ditadura militar. Então a gente vê a semelhança, a única diferença é o CEP. O CEP contou muito e a gente também assistiu a obrigatoriedade que o Ministério Público dá para nós para fazer as próprias investigações e quando se faz as próprias investigações, eles colocam no pedido de arquivamento que é a incansável mãe, não teve como provar.

se foi agente do Estado ou crime organizado que matou seu filho. Uma onda de violência aterrorizou por mais de uma semana o Estado de São Paulo. A partir de um conflito entre facções criminosas e agentes policiais, no intervalo de 10 dias, mais de 500 pessoas foram assassinadas. Muitas delas eram inocentes e os casos nunca foram totalmente esclarecidos.

Então, eu cheguei a olhar nos olhos do promotor que pede o arquivamento com essa frase e dizer para ele assim, era obrigação minha investigar o crime do meu filho. Então, a gente avança no conhecimento e dizer que há uma política de morte no Brasil.

Ela vem pós a abolição da escravatura, perseguição, um racismo estrutural, mas de um tempo para cá ele está se expandindo cada vez mais com a impunidade dos crimes de maio, que leva o mesmo modelo para o resto do país. É o modelo dos crimes de maio como crime da vingança.

Ele se espalhou para o resto do país e não é diferente do Rio de Janeiro, do Salvador, do Ceará, e por aí vai. A gente mapeia isso e nada mudou. Pelo contrário, em ano de 2016, a cada 23 minutos, um jovem era assassinado e agora a gente não tem...

mas perdemos a noção porque para nós é a cada meio de meio minuto um jovem assassinado nas favelas e nas periferias do Brasil. A gente vê o desenho político do nosso país, que os políticos injetam muito.

na segurança pública, para usar os corpos dos nossos filhos como moeda de troca do poder. Então nada mudou, porque os crimes de maio deu certo. Os crimes de maio é o crime que mais deu certo, um crime de mando. E era a ano eleitoral também, né? Quantos morrem em ano eleitoral? E é um crime de vingança, mas quem paga é a população.

Eu queria te pedir para contar um pouco para os ouvintes que não conhecem essa história, como começou o movimento das mães de maio. E aí você pode também falar um pouco sobre o que vocês têm feito desde então. O movimento nasce da negação, de resposta de uma investigação. É uma investigação que a gente sabia que não existia polícia investigar a polícia. A gente começou indo para os tribunais regionais.

dando os caminhos, as evidências, desmascarando o comando da Polícia Militar no estado de São Paulo sobre o Copom, que isso foi a ponta do Eisenberg, de negar que o Copom não registrou as ocorrências, e no caso do meu filho, investigaram, meu filho pedindo investigação, pesquisa, 23 vezes, como que um Copom estava quebrado desde o dia 26 de abril e não registrou a ocorrência. A falta de perícia.

Depois de seis anos, eles exumam o corpo do meu filho. Eu volto no DHPP e vejo a zoçada do meu filho em cima de uma maca, que foi doído para mim, mas aquilo também me deu um levante. A gente avançou muito, fomos para os Estados Unidos com a Anistia Internacional. A Anistia também Internacional é uma ferramenta que a gente traz.

para dentro do Brasil, porque eram os crimes de maio, em maio de 2006, só tinha em Londres, a gente avançou nessa política da Nisheta, que também nos ajudando e levando para a gente para fora do Brasil. E fomos avançando em vários territórios do Brasil, Rio de Janeiro, Salvador, Ceará.

Espírito Santo, e fazer esse levante. As mães eram muito cotadas, mas a gente tinha que se organizar, organizar as mães. E a organização das mães acontece em 2016, quando a gente lança em São Paulo a Rede Nacional de Mães e Familiares, trazendo também as mães Guarani Caiovar, que não é diferente também, as percas dos filhos delas, dos grilheiros.

e as pessoas que fazem a exploração do ouro, enfim, nesse contexto todo. Lançamos em São Paulo e aí ganhou uma proporção, segundo ano do encontro foi no Rio de Janeiro, terceiro em Salvador, aí quarto foi em Goiás e daí por diante. Então essas mães, elas ganharam força.

com o grito das Mães de Maio, e tomou essa proporção. A gente tem Mãe de Maio do Nordeste, que pediram o nome. A gente tem Mãe de Maio de Minas Gerais, que também pediram o nome, a gente cedeu. É um nome respeitado, é um nome forte.

É um nome que a gente não ficou só nos grupos de mães. A gente passou a ocupar também as instituições que negam o direito à vida, que negam o direito à investigação, que negam o direito da gente ter uma reparação. A gente perdeu mães porque não é fácil lutar e bater com a cara na porta.

E fazendo com que elas entendessem também que elas, até direito de chorar, elas não tinham. Com as oportunidades, a vez de cinco minutos de fala, com o microfone na mão, e ela tinha que ser o grito dos filhos, mesmo que depois que falassem, elas começassem a gritar, a chorar.

Quando uma mãe ganha as ruas e vai procurar o seu direito, ela não é vítima. Elas não são guerreiras porque atacam nossos corpos, nossos corpos dois. O luto é difícil, não tem profissionais que façam um tratamento adequado para a mãe preta, pobre, de uma oradora de favela e de periferia. Não estão preparadas para isso. Então, o único caminho que a gente teve é de ensinar as mães o caminho da luta só para engrossar a voz, gritando que o Estado é assassino.

porque quando as Mães de Maio saem às ruas, elas saem sozinhas, depois que elas foram ganhando o adepto, mas parecia que a gente não existia. O Brasil é produtor de Mães de Maio, então as autoridades precisavam nos ouvir. E já que não queriam nos ouvir, a gente resolveu parir o Novo Brasil e uma nova sociedade, entrando para as entranhas do sistema e apontando onde estava o nó.

Sim, eu me lembro que em uma das nossas conversas você me falou uma coisa que ficou gravada para sempre na minha cabeça, que é justamente como as mães transformam o luto em luta, como as mães transformam sua dor em luta.

E eu acho que uma das coisas mais impressionantes para mim sempre foi como vocês descobriram evidências, provas, como com o trabalho das Mães de Maio, a atuação do Estado passou a ser conhecida mundialmente como chacina.

E aí você falou isso, né, de chamar essas mães e ensinar esse caminho de luta. Ninguém tá preparado pra isso, né, Débora? Vocês não estavam preparadas pra enfrentar tudo isso, pra fazer todas essas descobertas. Eu queria te perguntar como foi isso de aprender e de ensinar esse caminho de luta pra essas mães. Quando uma mãe perde um filho, a gente vai ao encontro dela e dá o abraço. Quando a gente dá um abraço, ela acorda pra vida.

E ela vai seguindo conosco. E elas vão pelo mesmo caminho, olhando os exemplos, se inspirando. Você veja que encontrei uma mãe que eu vi ela na televisão de Bauru. Eu encontrei ela no evento da Defesoria o mês passado. E ela falou, eu luto só, a gente luta lá em Bauru. Mas eu me inspirei nas Mães de Maio.

Isso é muito gratificante, porque o material tem, na internet tem muito, hoje a gente tem acesso à internet, elas também têm, então elas vão pegando também essa particularidade que nós temos.

de estar colocando na rede social tudo o que nós fazemos, porque não temos o que esconder. Tudo o que nós fazemos a gente serve de exemplo para outras. E aí foi um fermento de bolo, e é um movimento que mais cresce no Brasil, é um movimento de mães. Então uma vai pirando na outra e vai fazendo igual, vai fazendo melhor, vai voando, vai voando.

pelo fato de eu ter um tom de voz agudo, uma mulher que mete o pé na porta. Então as mães aprenderam a gritar com as mães demais também. E eu não tenho outro caminho para atingir o sistema, a não ser gritar, ocupar e resistir. E quando a gente fala ocupar, é as ruas, é a frente dessas instituições escrachando. Não é sim senhor, é não senhor.

para eles respeitaram a dor de um luto. Teve vitória, teve várias vitórias, vários juros populares. Estamos deixando cada vez mais portas abertas para elas entrarem. E elas têm dificuldade, porque elas precisam desenvolver a cultura do enfrentamento. Elas conseguem fazer política pública, exigir política pública.

E desde o momento que elas conseguem exigir a política pública, que não é pedir, porque a gente não quer esmola, a gente quer o direito, né? Então a gente consegue fazer com que esse coro, ele tome outro rumo. O rumo que as mães de Maio sempre almejou.

Quantas pessoas mais ou menos tem hoje, você sabe? A cada um minuto que se tomba um menino, essas mães geralmente já vencem a quilomba. Então é um número infinito. A gente perdemos várias mães de maio, mas já nasceu várias mães de maio. Nós estamos com as mães, não no total, porque a gente ainda vê que tem uma cultura do medo, André, muito forte.

Às vezes é da religião, às vezes é a própria família que impede dessa mãe lutar, é o marido que não deixa, há uma negação dessa mulher ir para a luta, tem essa dificuldade, mulher num solo que sustenta a casa, trabalha, não pode... Aí se faz um montante, um massacre como foi o da Operação Escudo.

A Operação Escudo, deflagrada pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo após o assassinato de um PM, já levou a 28 mortes na Baixada Santista. Diante de denúncias de episódios de tortura e invasão de casas de moradores, o Conselho Nacional dos Direitos Humanos está defendendo o fim da operação.

a gente tem a metade das mães. Uma mãe toma, nasce três, quatro, cinco, então é infinito, é infinito, sabe? Mas elas estão organizadas, movimentos das mães, por mais que tinha mãe de Acari, mãe de Vigado Geral.

do Borel, a gente cita muitas mães do Rio de Janeiro, que elas vêm, mas elas, quando a passa sai da mídia, essas mulheres também vão deprimindo, porque os causos delas vão ficando no esquecimento. E também isso é doloroso. Então, funciona assim. Quem está na mídia tem visão, depois vai passando, e essas mulheres vão também se adoecendo e acabam entrando em óbito, ou então até num processo também. Então é isso, quanto mais eles matam, mais nasce mãe.

E as mães vão indo assim, caminhando a parte de tartaruga, porque o sistema faz isso. Umas desistem, outras adoecem, outras não conseguem mais. Mas tem outras que vão assim, que é uma coisa impressionante. Nossa luta é diferenciada porque ela vem pelo útero.

E precisa muito de força mesmo, né, Débora, e principalmente para ter essa postura que você colocou de enfrentamento. Mulheres já não estão muito acostumadas a fazer enfrentamento, e quando você fala enfrentamento do Estado, da polícia, né, de olhar na cara de um policial ou de alguém, de um agente do Estado e falar...

Não, você vai olhar para esse caso sim. Isso exige, de fato, muita coragem. Eu imagino que você também não deva agradar muitas pessoas. Deve ter muita gente que tem medo de você. Você falou que eles falam como é quando chegam as mães bravas. É, as bravas. Chegou as bravas.

Porque a gente usa muito que nós somos ingovernáveis, porque a gente não tem conchavo. Então a gente não fala bom dia, a gente fala rebeldia, porque a gente é rebelde. E você disse uma palavra assim, chave, chave, Andréa, coragem. A única coisa que a gente não dá para elas é coragem, porque a coragem está dentro de cada um. E essa coragem a gente tivemos que ter.

quando a gente perdeu o nosso filho, porque o medo que a gente tinha era de perder eles, e desde o momento, e a gente passa isso para as mães, desde o momento que se perde o filho, a gente não tem, deve ter tempo de ter medo, e a gente não teve tempo de ter medo, porque a gente não teve tempo de ter luta, aí que está a raiz da luta, 20 anos você não teve tempo de ter luta, só de luta.

O tempo do luto não existe, porque o Estado não deixa. Ele não deixa a gente dormir. As mães não dormem quando saem. A mãe não dorme quando está trabalhando. As mães não veem a hora de chegar em casa. É aquela agonia toda. Se está num divertimento, num baile, as mães não dormem. Então, enquanto eles não chegam. Então, o Estado não deixa. E a gente precisa dormir, porque a gente tem uma... Está com a sociedade adoecida.

Então esse genocídio também aparece com a negação de uma moradia digna, com o clima, com o racismo climático, com as escolas, com a educação também. As mulheres que vão salvar o Brasil, as mulheres que vão parir uma nova América Latina. Porque a gente vê que o feminismo não mata, ele nunca vai matar. Ele nunca vai matar.

Então, a gente tem que mostrar isso. Porque a gente até fala como o movimento Mãe de Maio. A gente cansou de ir atrás dos homens, querendo decidir por nós. E a gente tomava tiro, porra de bomba. E a gente depois falou, não, ninguém entra mais na nossa frente. Se quiser, venha do nosso lado, porque agora é as mães, agora é a vez das mães. Porque nós estamos decididos a parir uma nova sociedade. Nós estamos determinadas. Cada dia que passa é um aprendizado a mais.

é o poder da transformação e não se acovadar. Essa é a palavra também chave, não se acovadar, porque quando tomba um, dez, vinte se levanta. Então a gente vai continuar com essa política do enfrentamento, do escracho, que é a nossa praia, é escrachar, porque a gente tem que envergonhar quem está por trás da caneta, quem está sentado no trono, que eles estão sendo observados.

E agora, uma pequena pausa, mas a gente já volta. Oi, amiga. Oi, amiga. Hoje a gente tem um convite para você que gosta de podcast, conhecer o Duas e Tanto, que é o nosso videocast de política. Calma, amiga. Antes a gente precisa se apresentar. Eu sou Marina Dias. E eu sou Carol Pires. No Duas e Tanto, a gente explica o tema da política que está bombando de um jeito fácil e descomplicado, como um papo entre amigas.

E é rapidinho, nosso videocast dura uns 15, 20 minutos, o tempo de passar um café. Política sem complicação, todas as terças e quintas no YouTube, no Spotify e em todas as plataformas de áudio. Duas e Tanto é uma produção da Zarabatana Estúdio com distribuição do Estúdio Novelo. Depois de ouvir esse episódio aqui, corre lá para ouvir a gente e nos siga no Instagram, arroba Duas e Tanto.

E, Débora, você já falou, enfim, que não foi feita justiça para os crimes de maio. Mas como estão? Existem processos rolando ainda hoje? Tiveram algumas decisões sobre isso nesses 20 anos? Não. Quando a gente pede a transferência de competência à federalização, eles montaram dentro de uma MP.

mas foi o Grupo Especial Contra o Crime Organizado, o GAECO, um PIB amarelo, que durou 12 anos para dar uma resposta de um projeto retirado do corpo do meu filho após seis anos do massacre. Arquivaram todos os inquéritos, principalmente da Baixada e da Grande São Paulo. O que estava em vigência era só um caos lá da Zona Norte, mas mesmo assim o policial foi condenado.

E depois a gente viu que ele também caiu. Não aceitaram a condenação dele. Então veio por terra. O restante, nada. Todos os processos querem fatos novos. E a gente pensava que os fatos novos eram a investigação do Gaeko. Mas quando a gente viu que eles não iam a lugar nenhum com os argumentos que passaram há muito tempo, muitos anos...

e as perícias se perderam, né? Então, o que eles perderam a perícia? Elas não se perderam sozinhas, porque não houve perícia. Houve crime mal investigado, que é a carteirinha, é o selo do Brasil que não investiga os crimes que ocorrem. A gente continua vendo que a esperança nossa é a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que está aí, já está no forno.

a denúncia contra o Brasil. Mas é muito moroso. A própria comissão, ela também é morosa. Ela demora muitos anos para dar uma resposta. O massacre dessa tamanha magnitude deveria ter resposta de todos. E muitas pessoas nem conhecem o que é o massacre mais. E ninguém avança um milímetro nas mortes como se nossos filhos...

tivesse sido uma barata. Então, as mães que têm que estar apontando as evidências, mostrando os caminhos, vários trabalhos acadêmicos que nós produzimos, que não foi brincadeira, mais de 400 TCCs, até uma própria tese que foi feita em Harvard, alguns anos atrás, que foi uma pessoa da equipe, era ex-procuradora da República, Raquel Dodge.

que ela estava na equipe dessa pesquisa de Harvard, ela que chega a mais de, traz esse número de mais de 600, quando ela senta na cadeira, sabendo que o trabalho acadêmico dela, que fez de pós-doutorado, ele vinha com recomendações do Estado brasileiro, ela não faz eleição de casa, ela não põe a recomendação que ela mesma produziu para o Estado brasileiro cumprir.

Então, foi decepcionante, foi frustrante ela ocupar aquela cadeira de procuradora da República e não fazer a lição de casa. Ter nossas críticas? Sim. Porque se ganha o diploma em cima da morte dos nossos filhos.

e não faz a lição de casa. Então, acaba essas mães e esses casos sempre servindo só de diploma. Então, quando a gente fala que todos são cúmplis, a gente fala que o próprio judiciário, o próprio sistema, eles não vê com o olhar, com uma lupa, só com a caneta.

julgando pelo CEP e como quem pobre preto não tem direito a viver. Então eles fazem parte dessa política de morte. Então a gente não esperava muito da procuradora da república, mas a gente cobramos ela, cobramos bastante e cobramos com propriedade porque nós ajudamos a fazer a pesquisa.

E a gente achava que tinha uma luz no fundo do túnel com a ocupação dela daquela cadeira, e ela nos deixou muito frustrada. Eu tenho mais duas perguntas para você, duas coisas que a gente já conversou um pouquinho antes aqui de entrar no ar.

Uma é sobre como você vê a violência policial contra meninos de periferia hoje. Se alguma coisa mudou, se nada mudou, se piorou ou não. Enfim, como você vê essa violência policial hoje? O que eu vejo de 20 anos atrás, eu vi a olho nu a Operação Escudo Verão.

Dois homens morreram em supostos confrontos com policiais militares na região do Guarujá, na Baixada Santista, levando a 53 o número de mortos somente nessa operação verão, né? Que tá sendo feita aí pela polícia militar.

Os relatos das famílias eram de menino que teve as unhas arrancadas para confessar ou então para dar biqueiras de drogas. Meninos que passaram pelo sistema, o mesmo modelo dos crimes de maio, mas com requinto de crueldade.

Menino com tatuagem sendo raspada a canivete. Confissão com criança, arrancada o couro cabeludo daquela criança, que era uma adolescente. A gente viu um requinto de crueldade.

O requinte de crueldade foi tamanha na Operação Viscu de Verão que também a gente vimos um outro modelo de roupagem, a violência, porque a polícia tem um lado, a segurança pública no nosso país tem um lado. É uma área que é muito ejetada em recurso.

que deveria ser o mesmo recurso do acolhimento de uma vítima produzida pelo Estado, que não é, deveria ter o mesmo recurso na saúde, na educação, na moradia digna, que não é. E a gente vê que depois da passagem do bolsonarismo pelo poder, a gente viu que existe um lado.

ela não é ao lado da população. Então a gente vê que o autoritarismo tomou conta dessa área, e essa área vem muito perversa, porque as abordagens é truculenta, não respeita a mulher, não respeita a criança.

Então a gente viu a roupagem deles mais violenta, mais autoritária. Como a gente vê o presidente Lula, a gente tem que citar e dar o nome às pessoas, ao estado de coisa, ele faz uma campanha eleitoral, vidas negras importam. As vidas negras importam não para o espaço do poder que precisa, mas as vidas negras importam vivas. Porque se mata um menino, se tortura um menino, ataca a família, adoece a família.

E aí, para terminar o nosso papo, eu queria te ouvir sobre os projetos das Mães de Maio, o que vocês estão fazendo recentemente, e até para quem está ouvindo a gente também ir atrás, encontrar vocês. Nós ocupamos Brasília, ocupamos Ministério.

Fui sozinha, com apoio de uma organização, desenhei o nosso desejo. E o nosso desejo foi ouvido pelos ministérios, o Ministério da Justiça, o Ministério de Direitos Humanos, de o acolhimento. A gente precisava dar dignidade para essas mulheres.

E a gente vem como piloto do acolhimento. A gente já fazia o acolhimento sozinhas. Nós pedimos para que tenha uma política de acolhimento humanizada. Porque o tratamento dessas mulheres tem que ser diferenciado.

Os profissionais não estão preparados. E aí nós conseguimos uma política pública agora. Ela precisa ser atentivada. É um piloto. Ela nasce aqui por causa de uma audiência que a gente fizemos online com a CID, Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

E a gente levamos a problemática das famílias da Operação Escudo e Verão, que não tinha como nós, mulheres, pobre, mãe de maio, sem recurso nenhum, não tem apoio de nenhum recurso, governo nem nada, e a gente estava com essas mães o que fazer. E aí já estava em andamento discutindo um centro. Aí onde vai estar esse centro? A gente estava muito preocupada de ir para a capital, porque tudo é na capital. Então a gente colocamos isso nessa reunião.

E o governo respondeu a CID que ia ser instalado aqui, CMVV, Centro de Memória às Vítimas de Violência do Estado. Para poderem assumir esse nome, ele vem assim como se fosse uma flecha. E ele se transformou num baobá.

E as raízes são os filhos das mães de Maia, que está aí com o Bairro Cuidado da Árvore. Foi lançado, a inauguração ainda é breve, e a gente vai fazer esse tratamento humanizado, vamos fazer formações em direitos humanos, perfilamento dos jovens da cultura e trazer uma produção de renda com elas. Mas o principal desse centro, que é o Baobá,

é o acolhimento dessas mulheres, essas mulheres têm que ser amadas, têm que desenvolver uma outra metodologia, não de remédio psicoativo, delas engessar sua dor, e morrer ali engessada dessa dor, mas se uma mulher que produza conhecimento, multiplica o conhecimento com outras mães, com outros adolescentes também, representando os filhos dela.

para poder a gente avançar na educação popular também, mas com diferenciado, transformação e multiplicação. Então, essa é uma das políticas que a gente quer que avance. Tem previsão de estar instalado em mais de quatro estados, que é Salvador, Ceará, Rio e Minas Gerais, o CMVV.

E a gente também ganhou agora, como o CMVV vem e traz o CAIS. Então, o CMVV é o guarda-chuva do CAIS, que é o atendimento também para a política de algo e droga, para a gente também desenvolver e levar eles para dentro de uma universidade, que é possível, para moradores em situação de rua.

Então a gente está ali para dar, educar e fazer com que a gente mostre que o sonhar é possível, a transformação é possível e não ter medo de ter tempo de ter medo, ter coragem, porque coragem...

É luta, e luta é árdua, e a luta árdua não é para todo mundo. A gente também fez um projeto dentro da defensoria, porque é o primeiro lugar que as mães batem para procurar direitos dos filhos. A rede apoia, tem uma rede de atendimento psíquico e social dentro da defensoria. Lutamos nas conferências e virou política pública lá dentro.

Então, a Defensoria de São Paulo tem. O que negaram para as mães de maio, a gente não quer que negue para as mães que vêm depois de nós. Então, a gente vai fazendo esse trabalho de formiguinha, acompanhe, todo mundo precisa acompanhar a página do CNVV e também a página das mães de maio no Istra, porque está aí bombando, mas está bombando de influenciar a política pública, lutar, lutar muito.

A gente precisa acabar com o cemitério e abrir escolas. Esse é o nosso maior sonho. Muito obrigada, Débora. Foi muito bom te ouvir, como sempre. Obrigada você. E a gente está aqui para fazer tudo o que precisar enquanto a gente respirar. Porque essa luta vai para o túmulo. Não tem como. Eu agradeço demais essa oportunidade. E dizer viva a pública.

que traz a história das pessoas verdadeiramente doa quem doer. O jornalismo que denuncia violações de direitos humanos é parceiro da luta por justiça e transformação. E o Pauta Pública continua trazendo conversas que nos ajudam a entender o que está em disputa no mundo, graças ao apoio dos nossos aliados e aliadas.

Você pode apoiar essa e outras produções da Agência Pública acessando apoie.apublica.org e escolhendo um valor mensal de contribuição. Você também pode fazer um Pix de qualquer valor para contato arroba apublica.org. Faça parte desse grupo, seja um aliado ou uma aliada da Pública e a quem já nos apoia, fica aqui o agradecimento.

Isso também vale para todo mundo que compartilha, comenta e divulga as conversas que a gente traz por aqui. Vocês fazem nosso trabalho valer a pena. Na sexta que vem, a gente está de volta em mais um Pauta Pública. Até lá.

Esse episódio usou áudios de Band News, TV Brasil e Rede TVT. O Pauta Pública é apresentado e conduzido por Andréa Adip. A produção é da Estela Diogo. A edição e roteiro é de Ricardo Terto. A identidade visual foi criada pela Tainá Gonçalves. A coordenação de podcasts é da Sofia Amaral. A coordenação das redes sociais é da Lorena Morgana. Os teasers e chamadas nas redes sociais são feitos pela Etienne Karen.

A publicação no site é do Guilherme Silva e da Rafaela Ribeiro. A trilha sonora original foi composta pelo Pedro Vituri. Você pode falar com a gente através do e-mail podcasts.org. O Pauta Pública é uma produção da Agência Pública de Jornalismo Investigativo.

Anunciantes1

Agência Pública

Jornalismo investigativo e denúncia de violações de direitos humanos
external