Informação que mobiliza - com Neon Cunha e Raull Santiago
Para quem não conseguiu participar dos debates ou gostaria de relembrar os melhores momentos, preparamos três episódios especiais com uma versão editada de cada mesa. Neste segundo episódio, você confere “Informação que mobiliza”, com mediação da cofundadora da Pública, Marina Amaral. Ela recebe Neon Cunha, referência na luta por direitos humanos e pessoas LGBTQIAPN+ e Raull Santiago, ativista e fundador da Agência Brecha e Instituto Papo Reto.Ouça o episódio e deixe seus comentários. Na semana que vem o Pauta volta à programação normal.
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Andrea Dipp
Marina Amaral
Neon Cunha
Raull Santiago
- Jornalismo e MídiaImpacto do jornalismo na sociedade · Direitos humanos e ativismo · Desafios do jornalismo contemporâneo · Fake news e suas consequências · Interseccionalidade no jornalismo
- Trajetórias de ativismoExperiências de Neon Cunha · Experiências de Raull Santiago
Olá, eu sou a Andrea Dipp e vou passar rapidamente por aqui porque hoje é dia de mais um programa especial. No mês de março, a Agência Pública completou 15 anos de existência. São 15 anos fazendo jornalismo investigativo, independente e sem fins de lucro. E para marcar essa trajetória, a Pública realizou o evento Contando o Brasil, uma celebração do jornalismo que informa e mobiliza em parceria com o SESC.
Aqui no Pauta, nós preparamos episódios especiais com versões editadas dessas conversas que aconteceram no Sesc 24 de maio em São Paulo. O primeiro episódio, Guerra ao Jornalismo, já está no ar. E se você ainda não ouviu, recomendo deixar aí na fila.
Hoje trazemos os principais momentos da mesa Informação que Mobiliza. Essa segunda mesa foi mediada por Marina Amaral, cofundadora da Agência Pública, com trajetória marcada pela atuação em grandes redações e no jornalismo independente, cobrindo especialmente pautas relacionadas aos direitos humanos e movimentos sociais.
Para debater sobre qual o espaço que o jornalismo ocupa dentro da sociedade civil e como pode contribuir para a mobilização social, Marina Amaral recebe Neon Cunha, referência na luta por direitos humanos e pessoas LGBTQIA-PN+, e Raul Santiago, ativista e comunicador nascido e criado no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.
Te deixo agora com esse debate super relevante para a gente refletir sobre que tipo de cobertura é capaz de empoderar comunidades e revelar outros Brasis. Semana que vem a gente está de volta à Programação Normal. Um abraço e até lá.
Boa tarde, gente. Muito obrigada por estar todo mundo aqui. Eu sou Marina Amaral, sou uma das fundadoras da Agência Pública e eu estou super feliz de estar comemorando esses 15 anos aqui e hoje com esse debate tão importante sobre sociedade e jornalismo. Também queria agradecer mais uma vez aos parceiros do SESC.
E trazer meus convidados. Eu estou muito orgulhosa porque eu estou trazendo pessoas que dedicaram a vida delas, dedicam a vida delas a mudar o mundo. Então eu vou chamar aqui primeiro a Neon Cunha. A Neon é conhecida por sua luta, vou dizer, visceral, pelos direitos das pessoas trans, das pessoas negras, pelo antirracismo.
E vou chamar também o Raul Santiago, diretor do Instituto Papo Reto, que veio do Rio de Janeiro para conversar com a gente sobre soluções lideradas pelos territórios periféricos, uma área que ele milita há mais de 15 anos.
Então eu vou começar, antes de chegar no tema central da mesa, que é a sociedade de jornalismo, eu vou perguntar para vocês, pedir para vocês contarem um pouquinho, uns cinco minutinhos aí, como que cada um de vocês entrou na luta social, entrou na militância, né? E também, como é que está essa atuação agora? Então, Neon, pode começar, por favor?
Boa tarde, Neon Cunha. Quero agradecer muitíssimo o SESC e a agência pública, acima de tudo, pelo convite e pela oportunidade. Uau, como a gente entra na militância? Acho que a gente não entra, né? A gente permanece. Principalmente a gente que vem da periferia, de uma extrema pobreza.
Imagine que eu nasci nos anos 70, em plena ditadura. Com dois anos e meio, em 72, eu me afirmei menina pra minha mãe. E aí, a diversidade que pode vir do ser fêmea, não fêmea, e negra. A violência de gênero vem, porque inclusive eu sou espancada em casa, mas eu vou pra faxina com a minha mãe. E eu tinha uma certeza absoluta que eu só era mulher porque eu fazia faxina. Não é porque eu brincava de boneca.
Não é porque eu era afeminada ou tinha trejeitos. É porque eu fazia faxina com a minha mãe e que a faxina é o lugar mais seguro do mundo. Mesmo que eu tivesse que limpar o rodapé com escova de dente e ilustrar, polir o chão de madeira. Então isso faz com que você se enxergue no mundo a partir de uma perspectiva de gênero e de raça.
Depois, com 12 anos, já estava no gabinete do prefeito Antônio Tito Costa. Eu ficava sentada debaixo da escada que dava acesso ao Salão Nobre. Literalmente, as pessoas brancas passavam por cima de mim. Eu vou participar nessa sequência lógica depois da verdadeira luta pela redemocratização do Brasil.
Eu já tenho 12 anos, já estudo à noite, já trabalho no gabinete do prefeito, cujo segundo nome mais falado é Luiz Inácio, ainda não Lula da Silva, mas já era o Lula. É o segundo nome, é o mesmo período que a gente escuta essas lideranças políticas dizer que sequer na classe trabalhadora tinham homossexuais.
Não havia lugar pra essa gente Não havia lugar pra gente como eu Mas ao mesmo tempo eu descobri A marginalidade trans e travesti No centro de São Paulo O que eu não sabia que já existiam operações Como Rondão, Riquete, Taranto, Arrastão Que era a execução da população trans e travesti Era o encarceramento dessa população Que era impedida Impedida De participar dos movimentos sociais Eu tenho 44 anos de gestão pública Eu nunca sentei com outra travesti Nunca Eu nunca credo
Nunca.
tardiamente pessoas negras. E mesmo assim, as retintas, eu posso contar na mão quantas pessoas. Eu convivo hoje no serviço público com uma pessoa negra de pele retinta. De forma muito objetiva, a exclusão me fez pensar. E eu não me coloco, inclusive, enquanto uma militante, me coloco como ativista independente, porque, inclusive, é isso que me faz olhar para a agência pública, essa autonomia da independência, o que faz que você não fique comprometida com determinados elos.
E finalizando exatamente o grande feito, foi quando eu enfrento o Estado brasileiro dizendo assim, olha, vocês nos executam há muito tempo. Então eu quero uma retificação de nome e gênero sem a patologização. Eu quero uma retificação de nome e gênero sem estar atrelado a cirurgias, a atestados clínicos médicos, até porque essa medicina não estuda a gente com profundidade, ganhei na justiça, mas graças à imprensa.
Porque o que as pessoas não sabem é que além de eu fazer todo o processo, eu articulei com a Folha de São Paulo. Por isso que hoje as pessoas trans podem retificar seus nomes e gêneros sem exigências de laudos clínicos médicos ou processos jurídicos. É porque uma pessoa ousou e ousou contando com a imprensa.
Obrigada, Neon. E aí, Raul, conta aí essa história vindo do Rio de Janeiro. Pois é. Boa tarde, pessoal. Tudo bem? Acho que antes de mais nada, saudar o Sesc por esse espaço pra gente falar de algo tão importante, né? Esses 15 anos de pública. Eu acho que olhando pra essa linha do tempo, quando eu reflito a minha trajetória, né? Eu sou cria do complexo do alemão, né, mano?
Eu tenho 36 anos. Hoje o alemão já teve teleférico, faliu teleférico, não funciona mais teleférico. Estamos em momento de eleição, há promessas de volta de teleférico. Mas antes desse novelas e obras grandiosas, era um lugar do não vá, não se envolva, não dê emprego para quem vem dali, desconfie de quem vem daquele lugar. Eu acho que quando você nasce uma pessoa favelada numa realidade como essa, você já nasce na luta.
E essa luta vai se organizando. E os relacionamentos naquela estrutura direcionam quais os funis, os labirintos que você vai seguindo. E eu tive a sorte de ter uma mãe, um pai bem presente, minha mãe, muito preocupada com a possibilidade do que estava ali no nosso entorno, que era um tráfico muito forte, uma realidade muito presente.
De que eu me envolvesse com aquela realidade. Então, desde novo, minha mãe sempre começou a procurar coisas para preocupar a minha mente. Então, no complexo alemão, eu trabalhei em papelaria, mercado, feira. Tudo que tinha ali, eu já passei por ali com a minha mãe indo na frente. Tipo, você tem uma vaga para o meu filho?
Só que por mais protetores que eles sejam, a realidade agora, já como pai também, é que obviamente você não consegue proteger aquela sua pessoa amada e querida de toda a realidade que aquele lugar experimenta no cenário onde desigualdade são regras tão presentes. Então, obviamente, muito novo também. Eu já conheci violência, eu entendi o que era o tráfico.
Eu vi pessoas sendo executadas, eu sofri violência policial. Então todo esse processo vai criando uma trajetória que você fica tentando refletir qual o seu papel ali, para onde você escoa disso tudo. E eu acho que tem alguns pontos de transformação na minha vida.
O complexo do Alemão é um morro, ele cresce para o alto, então eu ficava no pé da escadaria, que é a subida da escada de acesso ao morro, oferecendo serviço braçal para as nossas mais velhas, para os nossos mais velhos, em troca de alguma moeda. E eu acho que ali foi o primeiro start de muita coisa na minha vida, porque eu era uma pessoa tímida.
E eu precisava aprender a abordar as pessoas, para convencê-las a levar aquela sacola. O segundo ponto é que o alemão é gigante. E normalmente quem aceitava que eu carregasse essa sacola nunca morava perto. Era do outro lado da favela. Então, para otimizar essa realidade ali, eu aprendi a geografia, a cartografia profunda do complexo do alemão.
onde os becos se encontravam, onde cada um daqueles lugares ia dar, onde tinha asfalto, onde não tinha, onde tinha árvore, onde não tinha, eu entendi o raio-x do lugar que eu vivia.
Depois eu conheço as lan houses, né? E aí a internet vem como uma ferramenta de transformação da minha vida. E conectado a isso, o funk e o rap. E eu acho que pra devolver pra você a palavra e a gente tocar essa conversa, eu acho que uma das coisas que eu me lembro, assim, quando a gente pensa formação de reflexão crítica sobre a nossa realidade no nosso território,
Lá perto da nossa casa tinha chegado uma novidade na época, que hoje eu acho que já tá até obsoleta, que era uma chamada junk box, né? Que a minha avó falava que era a maquininha dos infernos. Que é aquela parada que você botava um real e você tinha quatro músicas, cara. E aí tinha uma regra a ser seguida ali, né? Tinha um funk.
um pagode ou um samba, uma música evangélica e uma música do Racionais MCs, porque era Racionais e todo o seu significado, mas também era uma música de no mínimo sete minutos, então o seu dinheiro valia mais. Tecnologia, estratégia, sobrevivência, rataria de favela. E aí eu tive a honra de crescer, cara, com uma molecada que já se amarrava muito em rap, em funk.
em criar letras, em trabalhar com poesia, e Racionais também foi uma dessas ferramentas. Então acho que tem um pouco de muitas coisas, mas principalmente da força de quem nasce naquele lugar, da arte e da cultura daquele lugar como uma ferramenta central.
que diferente de muitos amigos que infelizmente não tiveram essa possibilidade, acabaram realmente indo para a linha de frente do varejo das drogas. Eu fui uma pessoa que foi sendo puxada para o lado social até passar pelas primeiras ONGs e depois fundar as nossas próprias. E circulando esses projetos sociais e com uma consciência crítica que já vinha sendo ativada, eu falei, pô, dá para melhorar isso dali.
dá para fazer uma coisa diferente desse lado, e aí comecei a experimentar, criar coisas próprias. Então acho que é um pouco disso tudo, né? Não existe uma linha reta para quem trilha, uma trilha como a nossa, né? Mas a gente vai encontrando outras pessoas que nesse zigue-zague também estão tentando construir os seus horizontes e a gente vira, a gente entende que é em rede, que é em coletividade, que a gente escala, e eu acho que é isso que me traz aqui hoje nessa troca com vocês.
São trajetórias muito ricas, mas eu estou aqui com essa missão de trazer o jornalismo para a conversa. Então eu vou perguntar o seguinte, a Neon deu um exemplo muito bom de como o jornalismo pode ser útil, né? Como ele foi na história quando ela reivindicou essa possibilidade de ter sua identidade reconhecida. Eu queria ser um pouquinho provocadora e perguntar quando que o jornalismo atrapalha.
Maravilhosa. Então eu tenho exemplos muito básicos. De novo, o Complexo do Alemão, a gente está falando de um grande complexo. E muitas vezes a gente tinha um tiroteio em alguma parte do Complexo do Alemão e uma pessoa que desconhece aquela realidade ia para a entrada da favela, nem entrava a fundo no território e às vezes abria o jornal ao vivo e falava está tendo tiroteio no Complexo do Alemão.
Só isso já é um erro básico, porque o Complexo do Alemão são 16 favelas ou mais, são quase 150 mil pessoas. Se tá dando um tiroteio no Complexo do Alemão, gente, a gente tá tendo uma guerra no Rio de Janeiro. Porque pra dar um tiroteio no Complexo do Alemão inteiro é muita coisa. É uma lógica muito absurda, né? Não existe um tiroteio no Complexo do Alemão. São localidades. E aí, às vezes, alguém acertava e falava Ah, o tiroteio está acontecendo no Complexo do Alemão nesse exato momento.
Para os 150 mil pessoas que vivem ali dentro, e naquela época a principal ferramenta de informação era só a televisão ali, o ao vivo, aquela pessoa olha, é cria da favela e fala para aquela jornalista ali, está na entrada de tal área do complexo do Alemão. É lá que está dando o tiro. Qual o impacto básico disso tudo? Naquele momento de um ao vivo, de uma fala e etc, isso é ciência local.
aquele comércio, aquela região, diminuiu o fluxo de pessoas. O comércio vendia menos, o mototaxi trabalhava menos, a Kombi circulava menos, pelo simples impacto de ter uma pessoa naquele lugar dizendo, ah, tá dando tiro aqui nessa área, e às vezes nem era ali que tava dando tiro. Então são tantos processos dos minuciosos aos, sabe, catastróficos, que assim, geram impactos absurdos na vivência, na realidade de quem vive dentro desse território.
Por isso que eu sempre ouvi falar da imparcialidade do jornalismo e eu nunca acreditei. Quando eu me tornei um comunicador, quando o bichinho do jornalismo entrou no meu sangue, eu sempre tive lado, ele sempre foi parcial. Eu falo de um lugar, de um lugar que é alvo de violência, de um lugar que sobrevive historicamente ao racismo existente e não discutido, né? Nas estruturas do nosso país de forma ampla. Um racismo que durante muito tempo pautou quem era o rosto que ia estar na frente de câmera sorridente.
Dizendo que naquele momento havia um tiroteio no lugar que eu vivia. Que narrava que naquele lugar só haviam pessoas violentas, né? Que era um dos piores lugares do mundo. Quando sempre foi...
uma minoria envolvida com o mercado até então da ilegalidade das drogas, porque esse é um tema que dá debates profundos olhando para o todo. Mas eu acho que na realidade do território da periferia, a narração daquela realidade sem o conhecimento real já criava ali impactos profundos.
Eu não diria que é inútil. Acho que o jornalismo, em todos os sentidos, é muito bem sucedido. É verdade. Para o bem e para o mal. Então, eu valorizo muito esse trabalho de quem sai em defesa da democracia. Porque ela não é plena. Se a gente pensa nas estruturas que ainda conduzem essa nação, ela tem um papel muito forte da construção pela imprensa.
A gente estava começando antes, durante e agora. Eu fico pensando, por exemplo, na educação do Brasil. Imaginar que boa parte dos jornalistas negros e negras e negras é uma primeira geração de família que se formou.
Enquanto, é que nem eu, toda vez que eu sou chamada pra discutir a ditadura, eu falo assim, a ditadura é branca, né? Só os brancos sobreviveram. Só as brancas estão aqui dando suas narrativas. E aí ela é cis-heteronormativa. A Melinha Teles, que tem uma proximidade, ela fala, você tem razão. O pior lugar na ditadura é pras LGBTs.
Eu falo assim, pô, Meli, ninguém fala disso, né? E aí eu vou puxar essa artinha pra minha musa, que é a Fabiana Moraes. Nossa, musa! Mas aí a gente vê dentro. E aí também vou dizer que a agência pública que acolhe, inclusive ela é uma das conselheiras, quando você olha pra todo mundo, é isso. Como esse jornalismo contemporâneo se torna um antídoto. Mas eu digo que é esse jornalismo contemporâneo que resolveu assumir...
A palavra mais importante para mim é responsabilidade. Como esse jornalismo assumiu responsabilidade não só com a democracia, mas com constituir uma nova humanidade de fato diversa e plural. Agora uma pausa e a gente já volta.
Tem história que termina quando você acaba de ler. E tem história que continua nos bastidores. A Piauí lança o Caderno do Repórter, uma newsletter mensal, exclusiva para assinantes, em que um jornalista relata em primeira pessoa os bastidores de uma reportagem ou de uma cobertura.
A pauta que mudou no meio do caminho, a entrevista que quase não aconteceu e tudo aquilo que não coube no texto final. Para receber, é só se inscrever e ser assinante Piauí. Caderno do Repórter. Porque toda boa história tem outra por trás.
Quais são as fake news que vocês sentem que impactam muito negativamente o ativismo de vocês, os trabalhos que vocês fazem? E qual a utilidade do jornalismo? Vai me dizer quem é inútil para desmentir as fake news. Agora é por útil. Se você para para pensar que se tem uma pauta em que a direita e a esquerda se uniram muito abertamente durante um tempo, foi a pauta contra a população LGBT que é PNB+. Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estaboração Estabora
Eu me lembro muito bem. Gente, eu sou enlouquecida da Dilma. Pode falar de todo mundo, mas pode falar do mal da Dilma. Não adianta, porque eu sou enlouquecida. Principalmente por ser uma mulher. A gente estava conversando isso. A gente estava falando toda essa discussão de violência, de gênero, de fake news. Alguém se lembra do adesivo da Dilma? Como que se sumiu agora?
Como ninguém resgatou isso? A gente viu o quanto a Dilma foi largada sozinha em todas aquelas discussões. Mas, ao mesmo tempo, é aquela mulher que pauta a cartilha de enfrentamento à homofobia. Que imediatamente eles... Eu me lembro, gente, porque inclusive eu estava lá na gestão do Luiz Marinho, que era prefeito de São Bernardo. Eu me lembro exatamente como a parcela masculina e com as suas fêmeas aliadas trataram a Dilma.
Aquilo, se a gente não tiver... Talvez a gente tivesse discutido. Passo nem cobrar da agência pública, né? Mas se a gente tivesse discutido aquilo, naquele momento, nessa outra perspectiva, abertura que a gente tem, que é isso, que a sociedade civil não estiver articulada junto com esses instrumentos como agência pública e tem que estar articulada pra ter força, pra ter visibilidade. E mais do que isso, eu acho que quando a gente transporta esse pro matérias como a agência pública tem se proposto, a gente tem um peso documental.
Isso muda tudo. Isso muda tudo. Eu lembro que quando a Marielle foi assassinada, que a gente não podia imaginar que alguém seria inimigo de uma vítima, a não ser que fosse o próprio assassino. Ficou muito estranho aquilo, né? As pessoas quebrando placa com o nome dela, inventando mentiras, dizendo que ela era ligada ao tráfico.
Então, assim, é uma força que tem essa fake news, que claro que quem começou é mal intencionado, mas daí também você conta com toda essa falta de educação, de conhecimento, de informação para desmentir. Então eu queria que você falasse um pouco, Raul, como é que você vê isso daí, né? Como é que o modo que a questão, por exemplo, das favelas, ela é tratada aí nas redes sociais?
Quando eu penso comunicação, fake news e esses horizontes a partir da favela, é bem importante pautar esse recorte territorializado. Porque quando a gente olha para essa realidade, há diferenças, fragilidades, questões diversas que estão inseridas ali dentro desse lugar. Um ponto central sobre isso, eu tenho pequenas lembranças. Então, por exemplo, na pandemia, a gente criou um gabinete de crise.
E a gente com os movimentos, as articulações, quando eu digo a gente, obviamente são sempre muitos grupos. Você tá falando do pessoal do Papo Reto? Papo Reto, Voz das Comunidades, Mulheres em Ação no Alemão, uma coalizão de pessoas. E com a nossa articulação a gente conseguiu muitas doações na época e o principal hospital de referência em Covid, que era o hospital de Acari, tava sem nada pra poder atuar. E a gente fez uma grande doação pra aquele hospital ali. E o prefeito da época, que era um incompetente...
Ele foi às redes sociais e deu entrevistas no jornal local dizendo que era mentira, que ninguém tinha doado nada para negar, sabe, protegendo a sua ineficiência e a gente com fatos, com coisas ali. Por isso que eu falo que é importante entender essa nova arquitetura de várias formas de comunicar, influenciar e construir um jornalismo que existem, que foi muito potente e muito importante.
porém, eu acho que existe uma gravidade muito gritante que é importante refletir, por isso que eu sempre fui muito bruto, mas hoje em dia cada vez eu falo mais sobre saúde mental, saúde física estratégia de segurança entre nós porque quando você está comunicando, construindo narrativa informação, disputando um horizonte a partir de um lugar onde você vive o que você comunica
não é uma pauta que você foi atrás, não é uma busca à distância, você está narrando o que você vive, há uma gravidade muito grande nesse cenário e um risco enorme. Então quando um ex-presidente que é adorado por tantas pessoas diz que trabalhos de comunicação como um papo reto, um voz das comunidades, um fala roça ou mesmo vocês são canais de terrorismo, são grupos terroristas.
células terroristas dentro do nosso país, isso é um ataque direto que nos coloca em gravidade muito grande. Mas isso é no sentido macro. Eu, enquanto um cria que ainda vivo na favela, e estou nesse lugar que as pessoas chamam de liderança, que é ser uma figura pública reconhecida ali naquele território, a fragilidade da minha liberdade, ou da minha imagem diante da fé pública, ela é uma realidade, ela é uma fragilidade gigante.
Porque quando eu saio daqui, eu volto pro Rio de Janeiro e eu posso passar na favela e vai ter um moleque de pistola de um lado da cintura, radinho de outro, talvez até uma granada pendurada e ele vai me chamar. Vai apertar minha mão e vai dizer, pô, não tem trabalho aí pra mim não, eu quero sair dessa vida.
só que se alguém tira uma foto eu tô colaborando com o tráfico tá vendo Raul, ativista, defensor de bandido por isso que tava comunicando aquelas coisas ao mesmo tempo, quando eu tô na entrada da favela, ou dentro do complexo do Alemão com a falida UPP mas que ainda tem um monte de policiais lá dentro
que vivem em containers improvisados, largados à própria sorte. Às vezes esses próprios policiais também chamam a gente pra pedir ajuda, e aí passa alguém do outro lado e fala, porra, o Raul tá conversando com os policiais lá na base, é X9, tá caguetando a gente. Ao mesmo tempo, a gente é liderança e tem um governo que a gente, sabe, abomina, mas tem momentos que você vai ter que ir lá pra outra mesa e falar, tem que fazer isso, vai ter que brigar cara a cara, e vai falar lá.
tá se aliando com aqueles caras. É muito difícil você viver e comunicar e ser movimento nessa estrutura. Eu acho que espaços como esse que a gente tá construindo aqui nesse palco são ferramentas de segurança conjunta. Porque não é só sobre enfrentar as fakes, mas pra alguns de nós é sobre todo dia sobreviver para poder tentar comunicar novamente.
Eu acho que de tudo que você me perguntou, eu queria chamar atenção para a fragilidade de alguns de nós, que não é só sobre comunicar, né? É sobre narrar a nossa vivência, disputando uma realidade diferente da que a gente vive. E por isso que eu acho que...
Por mais difícil que seja, esses espaços de verdade são tão importantes, né? E a gente nunca pode desistir de tentar disputar com a mentira. Por mais forte que ela seja, por mais quantidade que elas venham, isso aqui é o que constrói consistência para sustentar.
O Brasil, que é o Brasil real, periférico, indígena, favelado, negro, sobrevivente, quilombola a essa realidade que eles tanto abominam. Essa narrativa, ela quer manter uma estrutura que está em crise, apesar deles ainda serem poderosos e violentos, que é de tentar manter o poder padrão histórico.
Você no início falou sobre Marielle, né? A única forma deles tentarem nos silenciar é nos executando. E nem assim eles conseguem mais, porque Marielle vive nesse espaço também, assim como tantas outras vozes, né? Que foram arrancadas de forma brutal, mas que transparecem e seguem por aí sendo ferramenta.
O Brasil é racista. O jornalismo reflete esse racismo. Como a imprensa pode se tornar aliada, antirracista e aliada do movimento negro? Eu acho essa pergunta muito importante, porque a hora que você comentou, Raul, por exemplo, que vocês viam um repórter da TV em um determinado lugar e aquilo tinha todo um impacto, que o repórter não tinha a menor ideia do que estava acontecendo ali.
E quando o Neon, por exemplo, comentou da participação na ditadura, eu falei para ela, mas tem histórias de pessoas transgêneras na ditadura, porque eu mesmo não conhecia. Então, essa questão dessa exclusão, ela tem muito a ver com a falta de diversidade, também nos espaços das redações, nos espaços públicos. Então, eu queria que você falasse um pouco sobre isso.
Eu acho que ouvir, exercitar o ouvir, é uma das coisas centrais nesse momento pra gente conseguir compreender e construir uma narrativa que não pode se basear num achismo ou numa pesquisa rasa. Até pouco tempo atrás, se você jogasse o que é uma favela no Google, nos dicionários, ia dizer que não é um lugar subnormal e tal, etc. E com luta a gente mudou essa realidade, dizendo, não, eu vivo aqui, tem desigualdades, tem violência, poderia ser melhor, mas não é só isso.
Acho que eu não falei disso no início, mas eu trabalhei três anos na Globo News. Eu já trabalhei no jornalismo dito padrão ali e, cara, tinha uma brecha enorme para falar de coisas diversas, para pautar trabalhos importantes. Entregamos coisas lindas, potentes, sérias, graves, mas ao mesmo tempo a gente cai no que a gente estava falando lá dentro, de você ser a pessoa única dentro daquele lugar, né? E aí você vira o Tolkien.
De tipo, caralho, tá dando tiro numa favela lá não sei aonde do interior do Rio, que eu nunca ouvi falar o nome. E aí vem em mim e fala, cara, e aí, o que você tá achando? Tipo, eu não sei, mano. Tá ligado? Aí você fala assim, pô, mas você conhece a dona Lúcia, o seu Jorge? Ah, não conheço. Quem é? Pô, ela trabalha aqui na faxina, no café, na portaria. Essa pessoa trabalha aqui há 40 anos e ela mora nesse lugar.
Você sabia? Você já conversou com quem está no seu entorno? Eu acho que é exercitar um olhar melhor de quem está no seu entorno, de quem está perto de você. Não achar que você é o detentor do saber final. Exercitar essa escuta. Mas, principalmente, não ser estagnado.
Tem que sair desse senso comum e buscar novas formas de fazer, porque há uma responsabilidade muito grande quando você termina de escrever um texto e envia e fala, é isso que vai subir. Quando você bota a cara no ao vivo e você fala alguma coisa, quando você abre um podcast e conversa sobre tal tema, isso tem responsabilidades gritantes ali, né? E no nosso caso, essa responsabilidade é sobre a nossa vida, é sobre como a gente vai existir.
É sobre a nossa segurança, assim, então é preciso ter responsabilidade. A palavra dita numa televisão, escrita na internet, ela não se perde ali, ela fica no eterno, né, e aquilo guia horizontes sobre a existência de muitas pessoas.
É, eu acho bem interessante essa pergunta, mas eu vou responder com uma solução muito óbvia, que eu recomendo, né? Interseccionalidade. O que essa imprensa... Como a gente pode chamar? Branca, né? Branca, né? Que não é de vocês. Porque se tinha a imprensa marrom, que era a mais podre, ficou uma imprensa branca que é a mais suja mesmo, de verdade, que é mais irreal, né? Até porque eles produzir cor branca é uma coisa bem difícil.
Aí você fica pensando, essa imprensa de contraponto ao que a gente tem chamado aqui de uma imprensa, e eu vou usar essa palavra o tempo todo de responsabilidade, porque essa é a diferença do outro lado. Esse povo da fake news, esse povo racista, misógino, LGBTfóbico e tantas outras coisas, eles não têm responsabilidade.
Mas é isso, se eu chegar na agência pública, ou em qualquer uma dessas pessoas, ou vou colocar até nas jornalistas negras, vou usar a Fabiana, falar assim, Fabiana, você escreveu isso? Escrevi, eu assumo.
Aliás, se eu pergunto pra maioria das mulheres, você fez isso? Eu fiz. Eu sempre falo pros machos, olha, você tem que tomar muito cuidado, viu? Porque eu não preciso mentir. E eu acho que o jornalismo também cresce nessa interseccionalidade, nessa diversidade, gostem ou não, pelas cotas. As cotas transformam todo o campo profissional do Brasil. Verdade.
Eu fiz defesa de cotas, pessoas trans, na Federal do ABC, fiz na Unicamp, me chamaram para a USP e não tinha data. Toda vez, todas as vezes que eu preciso fazer um texto sobre pessoas trans, eu não leio textos de pessoas trans. Eu leio textos de mulheres negras.
Nós tivemos uma constituição que proibir a população negra o acesso à educação, à moradia e à saúde, junto com as pessoas leprosas, rancenias. Ou seja, não há outro método senão a intersexualidade. Mas a intersexualidade tem que ser vivida, tem que ser uma prática. Não adianta eu chamar essas pessoas para serem só as foquinhas, só serem as pontas. A gente tem que romper com tudo isso.
Por isso que eu falo dos interiores. Quem elegeu a besta fera que a gente teve aí não foram as grandes cidades. Foram os interiores sempre subestimados, não pesquisados, não investigados, não dignos de nota, que também são muito parecidos com as periferias. Porque Marielle mesmo não foi eleita pelas periferias. Eu mesma, os meus maiores votos não foram nas periferias. Aliás, as periferias que eu fui tinham periferias que não conheciam os candidatos da esquerda. Estou falando de periferias de São Paulo.
da esquerda. E aí eu acho que, acho que não tem certeza absoluta que é justamente a falta da interseccionalidade. Eu acho que hoje, pra gente combater a veracidade das coisas, é impossível não lidar com a subjetividade. E de qualquer forma, meu máximo respeito à agência pública e é uma honra poder ver um projeto fazer 15 anos. Já é uma consolidação. E pra quem tem dúvida de que é um futuro bom, nós estamos aqui no futuro bom.
E chegamos ao fim deste programa especial dos 15 anos da Agência Pública.
A produção do Pauta Pública é feita por mim, Estela Diogo, com apoio da estagiária Thaís Santana. O roteiro da entrevista foi feito por Andréa Dipe e Sofia Amaral. A trilha sonora do programa é do Pedro Vituri. E a Júlia Matos foi quem cuidou da edição de áudio. A identidade visual é da Thayna Gonçalves. A coordenação de podcasts da agência pública é da Sofia Amaral. Na comunicação, a coordenação das redes sociais é da Lorena Morgana. O vídeo para as redes é da Tchene Karen. E a publicação no site fica com Guilherme Silva e Rafaela Ribeiro.
Obrigada por nos acompanhar até aqui. Você também pode colaborar com o jornalismo independente, se tornando uma pessoa aliada ou doando qualquer valor. Saiba mais em apoia.apublica.org. Até semana que vem, gente. Um abraço.