ARP#451 - Mais arroz, menos custo, menos água
Neste episódio do Agro Resenha, Paulo Ozaki conversa com Valmir Menezes sobre produtividade no arroz irrigado, manejo integrado e transferência de tecnologia no campo. A partir de uma trajetória construída entre pesquisa, lavoura e escuta ativa dos produtores, a conversa mostra por que produzir mais não depende só de insumo, mas de entender o sistema, o timing e as pessoas envolvidas. Um episódio valioso para quem atua no agronegócio e busca decisões mais estratégicas sobre gestão da produção, eficiência, custo, água, inovação e competitividade no campo.
PARCEIROS DESTE EPISÓDIO
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FICHA TÉCNICA
Apresentação: Paulo Ozaki
Produção: Agro Resenha
Convidado: Valmir Menezes
Edição: Will Oliveira
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Paulo Ozaki
Valmir Menezes
- Acamamento em áreas de arroz· Meio AmbienteVisão de manejo integrado · Importância da fotossíntese na produtividade · Impacto da época de semeadura e irrigação · Controle de plantas daninhas e nutrição · Variedades de arroz e resistência ao acamamento
- Produtividade e Desenvolvimento EconômicoMeta de 10 toneladas por hectare · Transferência de tecnologia (RiceCheck, Austrália) · Produção acima de 15 toneladas · Variedades S902L e Líder 132 PV
- Carreira ProfissionalOrigem familiar na lavoura de arroz · Início no IRGA e conhecimento do estado · Trabalho em pesquisa de plantas daninhas · Ser brasileiro no exterior · Fundação Getúlio Vargas
- Impacto da IA na produtividadeRedução de custos fixos por unidade produzida · Impacto ambiental (redução de uso de água) · Competitividade no mercado nacional e internacional · Necessidade de organização e planejamento
- Trabalho como realização pessoalTecnologia do óbvio: fazer o certo na hora certa · Humildade e reconhecimento do conhecimento do agricultor · Compartilhamento de conhecimento como multiplicação · Diferença entre pesquisa e prática no campo
- Inovação na AgriculturaImportância da ousadia para o crescimento · Adaptação a novas gerações e tecnologias · Superação de crises e incertezas (El Niño) · Confiança na força de trabalho do agricultor
Se você ouve o Agro Resenha Podcast, a sua opinião é fundamental para a gente. A gente criou uma pesquisa rápida, leva menos de 3 minutos para você responder, para entender o que que tá funcionando e o que que a gente pode melhorar. O link tá na descrição do episódio, bem lá embaixo, pode ir que tá lá. Dessa força aí para a gente, cara. Responder essa pesquisa é uma forma direta de ajudar o Agro Resenha evoluir, beleza? Agora bora para o episódio.
E aí, pessoa, tudo beleza? Tamo começando mais um episódio aqui do Agro Resenha. E antes da gente começar, vamos falar um pouquinho dos nossos parceiros aqui do podcast que faz com que esse conteúdo chegue até você. Você sabe que organização é uma coisa super importante em qualquer negócio, especialmente lá com produtor rural. É por isso que esse episódio chega até você com o apoio da Sky de Agro. Há mais de 30 anos, a Sky de Agro ajuda produtores rurais de todo o Brasil a terem mais controle sobre os resultados da propriedade.
Em um só lugar, você reúne informações financeiras, gerenciais e fiscais. Soluções como software de gestão e controle de grãos ajudam a acompanhar estoques, movimentações e obrigações do negócio de maneira integrada. Na prática, isso significa mais organização, mais segurança, melhores condições para tomar decisão. E se você quiser se aprofundar nesses assuntos, acompanhe também o Gestão Rural, podcast produzido pelo AgroResenha junto com a Escadiagro.
Saiba mais em escadiagro.com.br. Escadiagro, simplificando a gestão para o produtor rural. Mas uma boa gestão não termina na tela. Ela precisa virar decisão e resultado dentro da porteira. E na pecuária, isso exige informação, estratégia e a direção certa. Por isso, esse episódio também chega até você pela Nutripura, Você já deve ter ouvido falar aquela máxima, né, de que é o olho do dono que engorda o boi, não é verdade? Mas não basta só olhar.
Desde 2002, a Nutripura trabalha ao lado dos pecuaristas oferecendo produtos e serviços que ajudam a transformar as decisões tomadas no campo em resultados na produção e, principalmente, no bolso. E eu posso falar disso com propriedade, cara. Eu já trabalhei na Nutripura e vi de perto a competência técnica da equipe, a qualidade dos produtos e, principalmente, o cuidado genuíno com o negócio de cada cliente. Para acompanhar o que há de mais avançado na pecuária, siga a Nutripura nas redes sociais e acesse nutripura.com.br.
Nutripura, o produto certo na hora certa. Então, muito obrigado a todos os nossos queridos patrocinadores, porque sem vocês não daria para comprar o leitinho das crianças, não é verdade? E tem muita, viu? Agora sim, vamos para o episódio dessa semana. E nesta semana, nessa mini temporada que a gente está fazendo aqui em Porto Alegre, aqui no Rio Grande do Sul, estou aqui com o Valmir Menezes, que é sócio-proprietário da Oriz e Soy Consultoria, e foi uma indicação do meu amigo Fernando, Colares.
Seu Wamir, muito obrigado por estar aqui com a gente, seja super bem-vindo ao Agro Resenha Podcast.
Cara, Paulo, eu que agradeço a oportunidade de estar conversando com vocês aqui.
É isso aí, tem muita história aí, né, seu Wamir?
Depois de 72 anos tem que falar uma história, né?
No mínimo, né? Muito bom. E para você que tá aí ouvindo, já sabe, aqui no Agro Resenha a porteira não tem tramela para quem busca se informar sobre assuntos ligados ao agronegócio. Então não sai daí, que esse bate-papo aqui você viu, ele vai render muita coisa. Firma o gorro porque nós já já estamos de volta. Muito bem, estamos aqui de volta com o seu Valmir. Valmir, para a gente começar essa resenha aqui. Conta um pouquinho da sua história aí para gente, cara.
Pois é, cara, eu sou filho de pequenos agricultores que produziam arroz lá no passado.
Onde que era?
Rio Pardo. É uma história interessante porque é um pouco de origem alemã nessa história, né? E os alemães nunca plantavam arroz na Alemanha, nem comiam arroz lá, né? Isso aí, o meu bisavô vem para cá e monta uma empresa de bem desenvolvido, depois de ganhar algum dinheiro, produção de arroz. Então eu tenho um pouco da história pessoal vinda da lavoura de arroz. Mas depois, quando fiz agronomia, também não sabia com o que que ia trabalhar, como todo aluno de agronomia que entra, né?
Eu não sei quem já tenha alguma coisa muito definida, né? Mas a maioria não sabe o que vai fazer, né? E lá pela estante eu Comecei a trabalhar no IRGA, 1981.
O IRGA, que é o Instituto Rio-Grandense do Arroz.
Eu comecei a trabalhar em projeto de irrigação e drenagem no PROVARSA, e com isso eu conheci muito o estado. E quando eu entrei no IRGA, eu me propus a conhecer o estado, a parte que produz arroz, né, que é a metade sul. Quero conhecer arroz. Era visitar a lavoura, conversar com as pessoas que já tinham história, que tinham experiência, aprender com as pessoas. Bom, a partir daí fui montando a minha vida de técnico que vai trabalhar com arroz.
Aí depois fui trabalhar em pesquisa, já isso é 1990, trabalhei em pesquisa na Estação Experimental do Arroz em Cachoeirinha. E aí eu comecei a trabalhar com planta daninha e trabalhei por um largo período em planta daninha, né? E continuo trabalhando com plantaninha, minha principal área, né? Mas lá pelas tantas, a gente é uma instituição pequena, o IRGA, né? E bom, tem poucos técnicos. É bom, além de trabalhar com plantaninha, tinha que mexer com todo o manejo, né?
Então, a gente tinha uma visão de manejo integrado, né? Nesse momento, eu vou conhecendo áreas de arroz no mundo, né? Vou ficar 4 meses no CIAT, Centração da Agricultura Tropical, na Colômbia. Onde aprendi muito, convivi com o principal pesquisador de arroz que faleceu recentemente agora, Peter Jennings, que é o responsável pela Revolução Verde na área de arroz. E esse cara veio muito para o Rio Grande do Sul, muito trabalho, e eu trabalhei bastante com ele, né? Então aprendi muito ouvindo os mais velhos e pessoas que tinham experiência.
Que legal, que legal. E é interessante, né, seu Valmir, porque O senhor comentou aí agora, pô, entrei no IRGA e tal, e minha função era viajar e conhecer, né? Às vezes a gente como técnico, sou agrônomo também, a gente esquece do fator humano dentro desse processo, né? Porque a técnica, bom, a gente lê um livro, a gente faz um curso, a gente, né, vai estudar, a gente tem os meios para isso. Agora, conhecer as pessoas, entender as necessidades, Isso requer uma habilidade que normalmente a gente não desenvolve na agronomia, né?
Não, não, cara, não.
Como que foi esse processo assim para o senhor?
Cara, eu vou passar também pela Fundação Getúlio Vargas fazer um curso de Planejamento e Desenvolvimento Agrícola, onde eu estudei um pouquinho de filosofia, sociologia, né, economia, coisa que foge um pouco da rotina dos agrônomos, né? E ali foi que eu percebi que eu que o meu objeto de trabalho era lavoura de arroz. Agora, o que que é esse objeto de trabalho? É a tecnologia, mas são as pessoas. E o que que são as pessoas? É os técnicos, são os agricultores, são os operários, e as diferentes regiões que tem no Rio Grande do Sul, que é muito diferente.
Então cada comunidade tem uma forma, um jeito diferente de trabalhar e de pensar. Então eu precisava entender isso. E aí eu comecei a entender como é que era a produção no Uruguai, Argentina, no Paraguai, Colômbia, Peru, Estados Unidos, um pouco da América Central. E aí fui conhecendo gente e conhecendo pessoas, mas sempre com os olhos voltados para o processo de produção, que não é só tecnologia, claro, que envolviam pessoas.
E eu precisava ganhar tempo ouvindo as pessoas. E aí eu tinha uma habilidade, bom, isso aqui não interessa, que interessa. Pois apartando, como se diz aqui no Rio Grande do Sul, as coisas que eram, do meu ponto de vista, eram boas, e as coisas que não eram legais, que não iam servir para muita coisa. Então quis tirar um pouco assim o lado de julgamento pessoal das coisas. Mas trabalhando muito mais o que que é fato, né, o que que é um pouco de história, né, mas tirando a visão muito pessoal das coisas. Eu queria conhecer como é que era a produção.
E isso requer, porque assim, igual você comentou, né, as diferentes regiões, né. Aqui no Rio Grande do Sul você tem uma diversidade de culturas que vieram para cá, né. Você tem os alemães, os italianos, Sim, são formas diferentes de lidar, formas diferentes de comunicar também, né? Porque eu acredito muito que a tecnologia e a aplicação da tecnologia passa muito pela comunicação, a maneira como você leva. E não é a mesma maneira que você vai levar para um e para outro, né?
Não, não, é diferente. As comunidades são diferentes, mas elas têm algumas preocupações, né? Elas precisam progredir. Elas precisam progredir. E o IRGA foi uma instituição muito forte, né, e que teve um papel importante no desenvolvimento da Ores de Cultura no Rio Grande do Sul e talvez até no país e na América Latina, né. Então precisava conhecer isso. Como é que você conhece isso? Observando, vendo e definindo indicadores que são fundamentais de produtividade.
Isso para mim era um— não adianta dizer que era o melhor. Quando é que você produz? Aí depois, como é que você produz? Porque definir quais eram os indicadores, como é que se alcança esses indicadores? Esse foi um pouco da minha expertise, saber trabalhar essas coisas, né? Acho que aprendi.
É, tem algum caminho aí, né, seu Valmir? E, seu Valmir, uma coisa que me toca ali, que eu pesquisei assim, né, o senhor teve também, fez agronomia, foi para um caminho de pesquisa, né, a sua área aí, igual que o senhor comentou, uma área voltada para herbicidas, né, plantas daninhas e tal. Só que a gente na agronomia, né, quando a gente vai para pesquisa, normalmente a gente faz uma delimitação de um tema, né, e vai aprofundando, né, até a gente estudar a perna esquerda da formiga cortadeira tal, né?
E a gente, a hora que vai para o campo, a gente sabe que aquilo ali é uma coisa importante, mas não é o que necessariamente vai fazer a diferença. Imagino que o senhor, pelo que o senhor comentou ali, você fala, pô, essa é a minha área de atuação, mas eu tive que aprender tudo, né? Que é um sistema de produção que a gente fala, né? Tudo que envolve você produzir ali. Quando que foi que o senhor começou a entender a lavoura como um sistema e como que isso entrou também na pesquisa, né?
Porque eu imagino fazer uma pesquisa ampla é muito difícil, né, porque você não tem uma delimitação. Um ano pode dar um problema aqui, outro ano pode dar problema ali. Mas para o instituto, eu imagino na época que esse todo, esse sistema como um todo, ele era muito importante para o desenvolvimento do arroz aqui, né?
Era. Mas assim, vamos pensar um pouquinho, como é que a gente, como é que se ensina agronomia e as outras coisas na universidade? Cada professor tem a sua caixinha, é isso aí. E aquela caixinha para ele é a coisa mais importante. Então nos largam no mercado de trabalho, né, com um monte de coisas separadas que não se conversam entre si. E aí a gente vai, começa a descobrir com agricultor, cara, esse cara ele tem que mexer com a contabilidade dele, nem que seja uma conta no papel de pão, mas é a contabilidade dele.
Esse cara tem que comprar, esse cara tem que vender, esse cara tem que cuidar dos herbicidas, tem que cuidar da água, cuidar da seleção da semente. Ou seja, esse cara ele recebe tudo. E como é que ele vai filtrando isso? E aí a gente vai se dando conta, né? E também tive a felicidade de trabalhar com algumas pessoas que pensavam manejo integrado, né? Ou seja, que o resultado de um bom controle de plantas daninhas dependia muito do estágio que eu aplicava os produtos, mas da água que eu colocava na lavoura.
Então isso me fez perceber: opa, se eu não cuidar bem da água, não adianta eu botar o melhor herbicida. Se eu não plantar na época, eu não vou botar o melhor adubo, porque eu não vou ter a melhor resposta. Então eu comecei a mexer com isso. E o que que foi o cimento disso? Foi produtividade, produtividade, forte síntese. Isso para mim foi a coisa que deu o amálgama, que juntou essas coisas. Eu vou trabalhar bem isso ali já para o final dos anos 90, porque até então eu trabalhava meio que aprendendo, né?
Mas como eu rodei bastante, eu peguei um pouquinho de cada um. Então, o que eu sei, eu devo muito aos meus colegas do IRGA, né? Por pouquinha coisa, cada um me ajudou a entender uma coisa para que eu fosse um técnico melhor. Isso foi, isso me deu o conhecimento, né? É o que vai me dar esse amálgama de poder juntar essas coisas, né? E lá na frente gerar algumas coisas como o Projeto 10, né? Que é produzir 10 toneladas.
Na época devia ser um negócio, cara.
Quando se lançou isso, foi lá em Dom Pedrito, com Associação dos Produtores de lá. Quando eu cheguei na estação, você é louco, porque a produtividade girava em torno de 5 toneladas, às vezes era menos, às vezes não chegava, mas nunca chegava a 6, né, cara. E aí vamos produzir 10 toneladas. Mas aí que tem outra coisa, quando a gente propôs isto Na pesquisa nós já estávamos ganhando 15.
É isso que eu ia perguntar, porque isso não vem, ah, é um número do nada que vai surgir na cabeça. O senhor tinha visitado vários países, né, tinha conversado com vários produtores. Provavelmente desses produtores, ah, nunca chegava a ser, mas tinha um que fazia 7, 8.
Exatamente, tinha comunidades que já faziam isso. Exatamente. Então, bom, aí eu comecei a entender por que que alguns caras já estavam num patamar superior do que outros. O que que estavam fazendo? Foi esse meu processo de aprendizado, né? E teve um intercâmbio com a Austrália que veio aqui, daqui a pouco eu lembro o nome do pesquisador, e o RiceCheck, que era um processo, não, não é um nome, é um programa que eles trabalharam na Austrália e aumentaram muito a produtividade, chegaram a 10 toneladas, né?
Warwick Clampett é o nome dele, né, desse pesquisador. Isso contribuiu muito no processo de transferência de tecnologia, era um experto nisso aí, né. Então foi isso, foi juntando informações daqui, locais, com informações de outros países, né. E aí a gente teve muita consultoria de fora, né, as consultorias, alguns americanos, né, outros do Centro Nacional de Agricultura Tropical, Tinha algumas trocas de experiência com o Centro Internacional de Pesquisa de Arroz do Mundo, fui nas Filipinas, que tem um grau de excelência de tudo que se faz, né?
É assim que a gente vai formando gente, precisa de tempo, né? Porque essas coisas não tá organizado, né? Depois eu montei um sistema que ajudou a organizar muito melhor as pessoas. Eu digo, não precisa passar tudo que eu já passei, a gente já tem um caminho melhor. O Projeto 10 foi isto, né? Projeto 10, eu queria trabalhar com planta daninha, mas já trabalhava com água, né? Queria mexer com doenças, também mexia com água, com nutrição, época de semeadura, né?
E uma coisa que assim, que eu digo que foi a coisa mais relevante, né, foi a questão da fotossíntese, foi descobrir Que a gente só produz bastante se a gente leva as leis da fotossíntese, né, arrisca, arrisca. Ou seja, eu precisava entender que o arroz precisa de mais luz na época reprodutiva, não na época vegetativa. Bom, a partir daí que ele tem um trabalho antigo, 1975, ninguém dava bola. Eu digo, opa, Isso aqui me serve, vamos estudar, montar isso aqui.
Então a gente montou uns projetos para colher já 15 toneladas, já colhemos 14, 15 toneladas. A primeira que a gente colheu isso, a gente não acreditou, mandei botar fora.
Esse é o papel do pesquisador, tem que duvidar toda hora, né, mano?
Tá errado isso aí. A gente colhia máximo 10 toneladas, 11, né? Um ano nós fomos colher 14.900, 15, uns quebrados. Bota fora, não tá correto isso, né? Aí passa uma semana, o agrônomo de Uruguaiana me ligou: ô chefe, vem cá. Ele é voz mega grossona da fronteira lá, né? Eu tô fazendo tudo certo, mas tá produzindo tanto de arroz aqui. Não, deixa eu ir aí. E fui lá, olhamos, vemos, refizemos todos os cálculos, né? Bom, é isso mesmo.
Então, quando a gente lança o Projeto 10 em Dom Pedrito, a gente já tava colhendo isso. E eu rodei muito as comunidades para saber quanto é que você tá colhendo, porque que você colheu tanto naquela lá, porque você botou adubo, se ninguém botava adubo. Então a gente começa a entender o que a pesquisa tinha, mas eu comecei a entender também. E aí era preciso uma outra, talvez, virtude que eu tive. Olha, eu sabia que conhecimento a gente tem na academia, que era o IRGA, instituição de pesquisa.
Mas eu sabia que no campo também gerava conhecimento empírico, mas era importante. Eu não podia jogar isso fora, eu tinha que juntar essas coisas. Então, às vezes, a gente fica achando que só academia gera conhecimento. E tem uma coisa curiosa, né? Ali em Agudo, as comunidades alemãs, eles já colocavam ureia no seco, que era uma prática completamente desrecomendada pela academia. Isso aí colhiam mais que a estação de produtividade, é maior que a da estação.
Qual foi o que que a pesquisa dizia sobre os alemães? Alemães teimosos. Entendeu? E aí, isso tu tem que ir lá enxergar. Bora lá ver o que que esse cara tá fazendo. Então, isso foi um pouco do meu papel, de entender toda essa história, né, de que fora da academia também se gerava conhecimento. E bom, e nem tudo que se gera na academia é bom. Tem coisas que são boas, tem coisas que não são boas, assim como o campo também gera coisas boas e ruins.
E o que que me fez filtrar o que era, no meu ponto de vista, era melhor ou era pior? A fotossíntese e resultados. Isso que me permitiu entender que a planta precisava produzir a partir da quantidade de luz ofertada, e que eu tinha essa maior disponibilidade de luz no mês de janeiro fevereiro, finalzinho de dezembro já tenho isso. Então eu tinha que plantar arroz para que ele chegasse na fase reprodutiva nesse período de maior oferta de luz, e nós não fazíamos isso.
Que aí muda tudo, né? Aí muda tudo, você tem que mudar a época de semeadura, você tem que— é uma outra operação, né?
Que louco, cara, que legal, né? Mas foi assim, usei conceitos básicos, simples, E simples não é simplório.
Claro, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Simples é tornar as coisas mais difíceis que as pessoas pudessem entender. Mas foi isso, a minha história de mexer com produtividade, foi usar os conceitos básicos, buscando o que eu tinha da academia, mas também buscando coisa que era gerada no campo e que às vezes a academia ignorava. E uma coisa que a gente tem que entender de uma vez por todas Cada comunidade tem recursos diferentes em termos de maquinário, de escola, de cultura, né?
E a gente tem que respeitar isso. Agora, eu aprendi, nós agora na academia não entendemos nada de máquina. Quem entende máquina e é muito bom nisso, quem são?
Os agricultores.
Então eu dizia para eles, olha, você tem que preparar o solo. Como? Isso não é problema meu, problema teu.
Você sabe muito mais do que eu.
Eu tenho que plantar na época, para isso tem que preparar o solo com antecedência e fazer isso correto. Como é que eu faço isso? Olha, eu tenho alguma experiência nisso, posso te proporcionar visitar um outro agricultor que já tá fazendo. Isso eu proporcionei. Mas agora, um maquinário, que tipo de trator, que tipo de arado, cara, não pergunta porque eu não sei. Quem sabe são vocês.
E isso é interessante, né, seu Valmir? Porque ao mesmo tempo que você tá levando um conhecimento, levando ali todo esse aprendizado que o Igor na época teve, né, junto com o senhor ali, mas ao mesmo tempo tem que ter um nível de humildade tamanho que— porque, pô, todo mundo vem perguntar as coisas para você, vamos dizer assim, né? E você pode— o mundo gosta muito das pessoas que dão as respostas, né? Mas É muito mais sobre fazer perguntas e ter essa humildade de reconhecer que o cara sabe mais que você em determinados momentos, né?
Não, tem coisas que ele sabe mais do que a gente. E isso é fundamental, né, a gente entender. Eu sei até aqui. Agora, o que que eu sabia que eles não sabiam? Que plantar na época era época. Isso eu tinha. Agora, eu tinha isso não porque eu achava que era que tinha que ter. Ela tinha para tudo que levei para o campo, eu tinha pesquisa. Então tem uns 10 anos de Projeto 10 que não estão fora, então dentro do campus mental do Iberê.
Legal. E seu Valmir, eu imagino que devem ter tido vários desafios, né? Porque igual o senhor comentou, na época olhava-se as 5 toneladas por hectare, né? E falar de 10 era dobrar. Então não é à toa que você foi chamado de doido, né? Mas quais foram os principais empecilhos ou os principais desafios dentro desse processo de aplicação da tecnologia lá na ponta? Porque, ah, tem coisa técnica, mas tem outras coisas ali que eu imagino que devem ter sido maiores, maiores desafiadoras assim para vocês.
É, acho que assim, Paulo, é importante eu te dizer o seguinte, né? É produzir mais por unidade diária era uma necessidade econômica, social e ambiental. Por que que era econômica? Porque 70% dos custos de uma lavoura não se alteram se eu produzir 5, 10 ou 15. A água é diferente? Não, é a mesma. Herbicida é o mesmo. Um material humano é o mesmo, o trator é o mesmo. Como é que eu reduzo o custo fixo? Aumentando produtividade. Bom, à medida que eu produzi mais por unidade de área, meu arroz ficou mais barato.
Então a lavoura do Rio Grande do Sul passou a entregar um produto fundamental na mesa do brasileiro a um custo menor para as comunidades de outros para as comunidades, e notadamente as comunidades mais pobres, que são as mais consumidoras de arroz. E ambientalmente, onde é que entra essa história, né? A gente descobriu que para produzir 1 kg de arroz no processo antigo eu usava 10 metros cúbicos, agora tá usando 8 e cheguei a 3.
Ou seja, tô produzindo hoje mais alimento, mais barato para as comunidades, e tô agredindo menos o ambiente. Por quê? Porque tô usando menos água. Para produzir 1 kg de arroz agora eu preciso de 3 metros cúbicos. Antes eu tava usando com 7, 8, 10, entendeu? Agora, isso, o mesmo raciocínio vale para o óleo diesel. Qualquer insumo. Isso era fundamental, porque eu tinha que fundamentar um projeto, porque eu sabia que as críticas viriam de diferentes segmentos e a gente tinha que estar preparado e preparar a cadeia para isso, né?
Olha, essa produção por unidade diária era fundamental para ele sobreviver. Esses dias eu estava falando com um exportador da Costa Rica: bom, vocês agora têm arroz de qualidade e mais barato que os americanos. E dizer assim, isso gasta o projeto 10. Eu digo, é, nós começamos a produzir uma coisa mais barata por unidade diária. Então comecei a dizer, às vezes, ah, é grande, né? Mas não importa. Ou seja, importa que o meu produto tá um custo mais barato, mais acessível para população, né?
E como os funcionários das granjas, e eles recebem comissão, ele também passaram a ganhar mais, né? Um agricultor sustentável paga melhor, né? E aí entra toda uma coisa, a cadeia começa a girar, né? As oficinas, né? Nós temos alguns municípios da fronteira oeste, como tipo Itaqui, que 70% do PIB do município gira em torno do arroz.
É uma cultura muito importante para nós, a metade sul é extremamente importante. E, seu Walmir, uma coisa que a gente até comentou um pouco antes aqui, que o senhor traz como filosofia essa questão do manejo integrado, da lavoura como um todo. Para quem às vezes muitas... Aqui no AgroResente tem bastante ouvinte, mas grande maioria deles talvez não saiba como que funciona o sistema de produção de arroz aqui no Rio Grande do Sul.
Eu sei um pouquinho porque conversei com alguns produtores aqui já, já entrevistei, Mas conta para a gente um pouquinho como que é o sistema e qual que é a filosofia de trabalho que vocês utilizam hoje, assim.
É como eu disse, né, é uma filosofia de manter os processos de excelência mais integrados, né, porque a gente começou a perceber que para mim fazer uma boa escolha eu tenho que fazer Escolher uma boa variedade. Escolhido uma boa variedade, o que que é uma boa variedade? Produz bem, tem a qualidade de grão. E aí eu vou me socorrer da história antiga que eu tenho do IRGA, né? O IRGA vai fazer uma pesquisa. O arroz do Rio Grande do Sul não dominava o mercado na década de 60.
Vinham, quem abastecia o Rio e São Paulo era o arroz de sequeiro. Então vai O Ira vai mandar um grupo de funcionários para as feiras de São Paulo e Rio para pesquisar que tipo de arroz as donas de casa preferiam. E aí eles vêm de lá com a resposta: as pessoas querem comer um arroz longo, fino, que cozinhe soltinho. Essa é a variedade que nós temos que plantar. Claro, né? Bom, agora eu tenho que produzir mais, eu vou ter que adubar mais, não pode acamar, tem que ter um mínimo de doença possível.
Bom, feito isso, vamos precisar de uma boa semente. Escolhi a variedade, precisa de uma boa semente. O que que é uma boa semente? Livre de arroz vermelho e que tem um poder germinativo elevado para que eu possa estabelecer uma lavoura melhor. Hoje eu já posso usar um tratamento de semente para que, como eu tô plantando mais cedo, a minha semente fica um tempo maior no solo, mais sujeita a fungos, né? E aí entra outra história, né?
Eu tenho que proteger essa semente. E uma coisinha vai puxando a outra, sabe? Bom, aí plantou, nasceu, eu tenho que controlar o mato, porque eu não posso deixar o mato ficar grande, que eu vou gastar mais produto, vai ser menos eficiente. Então eu vou começar a utilizar um herbicida pré-emergente e o pós-emergente bem cedo. E a água tem que ser mais cedo também. A gente descobriu nas nossas pesquisas que a água até os 10 dias, terceira, quarta folha do arroz, ela me produz o melhor potencial.
A cada 10 dias que eu atrasei a irrigação, eu perco uma tonelada. Veja que isso não tem custo.
Sim, é só manejo, né?
Isso é organização do manejo, né? Isso não tem custo. E isso também eu precisava pensar: como é que eu vou propor para os agricultores adotar uma tecnologia que não seja cara? Porque se for muito cara, ele não vai aceitar. Então tinha que mexer em coisas que tivesse impacto E que não custasse nada. Custa organização, custa pensar.
Não tem dispêndio de dinheiro, né?
Não tem dispêndio de dinheiro, mas tem dispêndio de energia no pensar. Colocado água, né, aí nós vamos esperar. Se precisar aplicar um fungicida, nós vamos aplicar. Se precisar controlar os insetos, a gente tem que fazer, né? E aí depois é colheita. No final é colheita. Então não tem muito, ao mesmo tempo que não tem segredo, tem as suas questões importantes. Plantar na época certa, escolher uma boa variedade, uma boa semente, fazer um bom teste, irrigar cedo, controlar o mato cedo e adubar bem.
Isso eu esqueci de falar, mas nós adubávamos mal as nossas lavouras, insuficientes. Por que que nós tínhamos vários experimentos que mostravam que o arroz não respondia, não respondia a uma boa nutrição? E aí tu vai descobrindo por quê, né? A gente tem que pesquisar, tem que trabalhar. E aí a gente plantava tarde, atrasava a água dos experimentos, não controlava o mato na época certa, e lá na frente eu tinha uma produção baixa.
E aí chegava à conclusão de que arroz não respondia à nutrição. O que que a gente fez? Plantou na época, controlou o mato cedo, botou água cedo e começou a produzir bem. Porque lá no sistema antigo, o que tava limitando a produtividade não era falta de adubo, era plantar na época, era regar cedo, coisas básicas que a gente não fazia. O dia que a gente fez isso, nossa produtividade veio. Vê lá em cima. É um pouquinho isso que a gente precisava entender.
E a gente trabalhou bastante melhorar a nutrição e principalmente NPK, né? Só que passados 20 anos, hoje eu tenho que estar pensando nos micronutrientes e outras coisas.
É, e é o que o senhor falou, né? Uma coisa vai puxando a outra. Então hoje os desafios são um pouco diferentes, né? Mas na época, unir, integrar o que a ciência tava mostrando e o que você via no campo talvez tenha sido o grande pulo do gato ali na época, né?
Foi tanto que eu brinco com o pessoal, na verdade é a tecnologia do óbvio.
Tecnologia ótima, essa aí é uma boa.
É, mas todo mundo, o que que é a tecnologia do óbvio? É fazer as coisas certas no momento certo, né? Mas até chegar a fazer essas coisas, a gente precisa de dado, né? A gente precisa de pesquisa para fazer isso, né?
Sim. E, seu Valmir, o senhor passou bastante tempo aí da sua carreira lá no IRGA, né? E eu sei que hoje já não está mais lá, mas veio para o seu negócio ali praticamente, né, fazendo a consultoria e tal. Conta um pouco dessa transição, né, porque eu já conheci alguns pesquisadores de instituto, de fundações e tal, o cara gosta daquilo ali, né, gosta de conversar com as pessoas, de fazer os experimentos e tal. Como que foi essa transição para consultoria assim?
Eu já tinha uma demanda, né, Era uma demanda reprimida porque eu não podia fazer, mas eu já tinha alguma demanda. Mas ficou muito do meu jeito de trabalhar. O que que era o meu jeito de trabalhar? Eu, para fazer, tu não tem jeito de funcionário público. Digo, como não tem jeito, entendeu? Por quê? Porque é um dos primeiros cara chegar, o último a sair, né? Mas não era só isso, quer dizer, não basta só trabalhar, tem que trabalhar com inteligência, com organização.
E aí o que que eu tinha? Eu trabalhava com indicadores de desempenho. Então, à medida que eu já tinha isso no serviço público, eu transportei isso para iniciativa privada. Então eu não tive um problema de transição. A única coisa que me facilitou mais é que hoje eu não tenho o Estado. O Estado exerce algumas amarras por demais onerosa para quem trabalha em pesquisa, para quem trabalha em campo, né? O Estado é construído para o pessoal da fazenda, né, por causa das carreiras jurídicas, ser professor, mas não quem trabalha no campo, né?
Esse ano não vai ter hora extra, ou a hora extra é só de tal horário. Como se os pássaros que eu tenho que espantar seguisse a mesma lógica. O pássaro, quando clareia o dia, ele tá na lavoura e só vai embora quando anoitece. Então eu tenho que ter gente para cuidar dos experimentos nesse período. Isso às vezes não é compreendido pelo Poder Jurídico e quem faz gestão do Estado. Então o Estado cada vez se torna mais difícil de fazer esse tipo de trabalho.
Sim, e eu acho que a experiência que o senhor tinha também, todo esse esse processo, né? O senhor comentou lá quando pensou e divulgou o Projeto 10, na verdade, nos seus experimentos e tudo mais, já tinha, já estava sendo produzido muito mais do que 10, né? 14, 15 e tal. E aí vem agora a meta, né, dos 15. É uma hora ela ia chegar, né? Quer dizer, se o senhor lançou o Projeto 15 agora, quer dizer que tem gente produzindo mais do que 15 já, né? Já tem coisas mais do que 15%.
Já tem agricultores que em parte da lavoura, né, eles produzem mais do que 15, né. Mas mais importante ainda que isso, né, nos meus experimentos hoje, né, eu já tenho 5% das minhas parcelas, que não são poucas, já produzem acima de 20 toneladas, né. E eu tenho assim talvez uns 60% já produz acima de 15. Ou seja, eu já tenho informação Eu não é uma aventura, eu já tenho informação que eu posso produzir mais do que as atuais 10, 11 toneladas.
Agora, aí eu tenho algumas exigências maiores que eu tinha ano passado, né? A minha variedade que eu vou trabalhar agora, ela tem que ser tolerante ao acamamento, tem que ser resistente acamamento, porque Se eu boto, porque produzir mais significa colocar mais adubo, não tem como eu produzir mais sem colocar a quantidade de adubo necessária. Se eu boto a quantidade de adubo necessário para 15 toneladas, a maioria das variedades que eu tenho acama.
Então eu tinha que ter variedades que tolerassem o acamamento. Hoje eu tenho duas que eu tenho trabalhado bastante em projetos, né, que é o S902, o Riz e Soja 902L, é uma variedade nossa, E um híbrido da Bárcia, um híbrido Lideiro 132 PV. São as duas que toleram, né? E as duas alcançamos esse ano 15 toneladas sem acamar.
Pô, legal, né?
E temos todos os experimentos mostrando. Agora, isso, onde é que eu tiro isso? Trabalhando pesquisa, fazendo experimento. É aí que me permite dizer, olha, quando é que vai de adubo? É o experimento que vai me dizer, análise de solo, né? Agora, eu entendi isto e vamos trabalhando. O avanço, né, a audácia, vamos dizer assim, de propor 15 toneladas. Primeiro que acho que a lavoura precisa, entendeu, se ele ficar, continuar sendo competitivo.
Segundo, já tem agricultores que estão colhendo. Terceiro, a pesquisa tá me mostrando isso. Agora, ninguém vai sair do 8 para o 15. Sim, isso aconteceu com o Projeto 10. Ninguém saiu do 5 para o 10. É passo a passo. É, os americanos chamam isso step by step, né? É passo a passo, né? Então esse ano nós já tivemos vários agricultores que colheram 11, 12 toneladas. 12, tava, tava, não tava contente, tava chateado por ter colhido 12.
Ele queria colher 15 já no primeiro ano. Meu amigo, vamos lá, 12 toneladas, sabe quantos quilos é acima da média? Isso é quase 4 toneladas acima da média do estado. Eu, porque infelizmente a agricultura, o sucesso de modo geral é muito relativo, né? Quem os melhores, os mais bem-sucedidos no negócio são aqueles que estão melhores que aqueles que estão menos, tem menos sucesso no processo. Então essa turma que tá Já na fase do 12, que foram muitos esse ano, né, mas tem turma do 13, do 14, do 15, esses caras estão, já são muito competitivos.
O impacto para quem colhe 13 mil quilos hoje é maior do que do projeto daí no passado, em termos de quantidade de arroz produzido por unidade de área. Então acho que esse foi o desafio, né.
De novo, é um processo simples, Mas tem que ter pesquisa e vontade de fazer, né, que acho que é o principal.
Decisão de fazer, né, e colocar isso no campo, né. Ser um pouco audacioso, né. Isso tem um pouco assim de, né, de, não é audácia, talvez a palavra correta, né.
Acho que é um pouco, né, é um pouco, é um pouco de audácia, um pouco de coragem também, né.
Porque se você não faz isso na vida, você não cresce.
Audácia, né?
Tem momentos que você tem que ser, né, dizer, olha, é melhor para a sociedade evoluir como um todo, né? Tem que ter as pessoas que ousam mais. Eu digo que seria mais ousadia do que audácia.
É ousadia, isso aí.
Eu acho que a ousadia fica um pouco mais adequada. A audácia pode ser uma coisa mais presunçosa, né? Por isso que eu não queria estar utilizando, mas nós temos a ousadia de propor isso, né? E eu acho que vamos aos poucos, vamos ter sucesso.
Legal. E o que você acha assim, seu Valmir, que mais precisa mudar na cabeça do produtor assim para que o sistema consiga atingir esse nível, sabe? Porque eu imagino que nesse dos 5 para o 10, a cabeça do cara deve ter mudado. Só que tem outra coisa também, né? Tem uma nova geração entrando, tem um monte de coisa acontecendo nesse meio tempo, porque O cara de 5 toneladas da década de 90, ele era o cara que, pô, ele mais antigo, tinha o jeitão dele e tal.
Hoje já tem uma galera diferente que tá ali junto, né? Como, o que que vai precisar mudar nesse meio do caminho aí que o senhor tá percebendo?
Eu acho que tem uma coisa que lá no passado a gente fez, né? A gente se deu conta que para evoluir, mudar A cultura de produção do Rio Grande do Sul e a produtividade não era uma tarefa para uma instituição, não era uma tarefa para o IRGA. A gente envolveu todo o sistema produtivo, a gente capacitou, ó, serviço público do IRGA capacitou agrônomos de cooperativa, agrônomos do Cidade Materna, agrônomo das multinacionais.
Pô, legal!
E nós capacitamos 16 mil funcionários de grande, ou seja, nós precisávamos mexer com isso. Porque se deu conta que muito das amarras e das trancas das pessoas era por falta de conhecimento. Acho que isso a gente evoluiu bastante. As pessoas, quem tem história do Projeto 10 aceita melhor o Projeto 15. Sim, por incrível que pareça, a gente já percebeu isso agora, né? A turma, né, que passou pelo Projeto 10 tá encarando melhor o Projeto 15.
Isso é legal. E o que que mais trancou lá no passado foi essa questão cultural, né? E eu digo, o que que eu mudaria? Eu mudaria, eu seria, eu seria, eu buscaria ser mais efetivo no passado. Tendo um Irriga, teria trabalhado mais, botado a equipe com mais força para trabalhar no Projeto 10, né? No Projeto 15 eu tenho que convencer, eu não sou iniciativa privada, eu não tenho um exército de agrônomos, né? Então eu tenho que convencer as pessoas, instituições privadas, né, que eles podem, né, que adotar o Projeto 15 é uma forma deles levar tecnologia para os agricultores.
Legal. E conhecimento tem bastante aí, né?
Conhecimento a gente acumulou, cara, a gente acumulou isso Isso, né? E uma coisa que eu sempre fiz, né, eu sempre compartilhei o conhecimento que eu tive, porque acho que tem algumas coisas na vida que não pode ficar para dentro da gente, né? Carinho e conhecimento, né? A gente precisa contribuir de uma forma isso para as comunidades, né? E como eu fui um servidor público e eu fui um estudante de faculdades públicas, né, a gente tem um pouquinho de obrigação de devolver isso para a sociedade, né, com conhecimento e compartilhando isso.
A gente fala muito aqui no Agro Resenha que conhecimento é a única coisa que quando você divide, você multiplica, né? Sem dúvida, né? Esse é o ponto. Acho que até o porquê do Agro Resenha existir e de poder trazer pessoas como o senhor aqui é justamente esse, né, cara? Como que a gente vai levar essa, essa, essas iniciativas, né, para mais pessoas, para que as pessoas consigam entender e consigam buscar também, né, saber a quem buscar?
Eu acho que esse é um Um ponto, você comentou um negócio muito legal, né? Porque assim, hoje o acesso à informação ele é irrestrito, diferente de 20, 30 anos atrás, que para você buscar qualquer tipo de trabalho, enfim, você precisava, meu, ou estar dentro da universidade, no instituto de pesquisa, conhecer fulano, beltrano, ciclano, né? Hoje não, cara, com uma teclada ali no computador você acessa um monte. Agora, O filtro que eu acho que é o mais difícil hoje em dia. E aí o filtro a gente só tem com experiência, né?
É, a gente precisa ter muito conhecimento, né, muita experiência. A gente precisa gerar bons dados, né? Eu sempre digo assim, até brinco com o pessoal até em inglês, né? Bons resultados só vem de boas parcelas, né? Good plots, good results, né? Se não tiver isso, não tem como. Eu não gero bons conhecimentos com pesquisa ruim, com parcelas ruins, né? Então eu tenho que ter parcelas boas, né? E eu sou muito chato nisso aí, pessoal.
Às vezes reclamava muito de mim lá dentro do IDA, continuo reclamando hoje. A parcela tem que ser, não liga lá para ser perfeita, mas ela tem que ser a melhor possível, entendeu?
Até porque se for para ela dar indicativos do que o produtor deve fazer lá na frente, porque eu escuto muito uma coisa, eu não sei se o senhor concorda com essa frase, tá? Eu vou colocar aqui, mas tem muita gente que fala assim, ah, na teoria, na prática a teoria é diferente. Eu já acho que na prática a teoria é aquela mesma. Se você fizer conforme tá ali, né? Porque não adianta nada também a gente ter um monte de trabalho mostrando que isso e aquilo, outro, se o trabalho tá mal feito, não vai ter o impacto necessário lá na ponta, né?
Essa é uma falsa questão, mas ela decorre, como a gente, como eu falei anteriormente, que o pesquisador às vezes menospreza o que o agricultor, tem o outro lado. Quem tá na ponta trabalhando, né, ele tem medo de desafio e acha que aquilo que é gerado em pequenas parcelas não tem valor. Eles precisam entender que só chegaram hoje aqui com esse estado da arte de produtividade no Brasil de arroz graças a quem trabalhou pequenas parcelas.
Às vezes não é nem pequena parcela, é um pequeno vasinho que começou. Entendeu? Então é preciso entender isso e parar. Isso que eu chamo falsos dilemas, né, que é muito ranço às vezes que tem assim. Olha, eu já sei o que tem, as parcelinhas dele lá é fácil de fazer, eu quero ver na minha lavoura e tal, né. Na verdade, assim, ele tá pondo um escudo para mudanças.
Sim, sim.
Então eu não concordo muito com esse posicionamento, né. Os caras, você vem uma tecnologia nova, cada vez você tem obrigação de testar, nem que seja num cantinho da sua lavoura, né? E compartilhar com todos os seus funcionários.
É isso aí, isso aí, que é uma questão do conhecimento. Quanto mais você compartilha, mais você, né? E agora, indo para quase para os finalmentes aqui, seu Valmir, queria trazer assim, cara, você tem um trabalho desenvolvido aqui no Rio Grande do Sul com o arroz assim, que é notável, né? Quando a gente conversa com as pessoas, todo mundo que é do arroz provavelmente conhece o senhor, né? E ao longo dessas décadas aí trabalhando, qual foi o dia assim mais feliz no trabalho que você teve, cara? Que você falou assim, puxa, agora valeu a pena.
Cara, assim, a gente não tem um dia mais feliz, né? A gente tem pequenas vitórias que a gente fica muito feliz. Cada coisinha que você faz, cada pedrinha ou cada que você bota no alicerce deixa muito feliz, né? Mas assim, a primeira grande felicidade, bom, o Projeto 10 deu certo. Mas isso não aconteceu num dia, isso aconteceu ao longo dos anos, né? Então quando eu olho para trás, digo, o Projeto 10 deu certo, né? Isso foi um esforço que eu dediquei muito da minha parte, da minha vida, né?
Então isso é um momento de muita felicidade, é um momento, não vou dizer que é um dia, entendeu? É um momento de muita felicidade esse reconhecimento do Projeto 10. Isso ultrapassa um pouco as fronteiras do Rio Grande do Sul até do Brasil. Então isso para mim é um momento muito contente, né? E espero conseguir isso já logo em seguida com o Projeto 15 também. Mas sempre lembrar, eu posso ter liderado isso, mas eu tinha um time, equipe.
Eu acho que isso para mim é importante. Às vezes, não, eu só fiz porque eu tinha um time de pesquisa. Você não faz sozinho as coisas.
É isso aí. E, seu Valmir, qual que é a mensagem que o senhor deixaria aqui agora assim para aquele produtor que, né, que tá escutando aqui muitas vezes até achando meio impossível tal, né, para ele, para chegar aí nesse objetivo, cara?
E assim, ó, Paulo, porque eles pensarem que eles evoluíram muito, a produção de arroz irrigado evoluiu muito no no Brasil, no Rio Grande do Sul notadamente. Então isso é possível. Que confie também na pesquisa. A pesquisa pública ou privada, ela contribui para o desenvolvimento das comunidades. Então é possível fazer isso. Segundo, nem sempre a gente vive bons momentos ao longo da nossa vida em termos de origem e cultura. Nós já tivemos anos bons, anos ruins.
A gente vai passar pela crise, estão passando agora. Agora, coisa mais importante de tudo, eles precisam acreditar na força de trabalho deles. Os governos lamentavelmente não têm nos ajudado ao longo da nossa história. Então tudo que eles têm conseguido se deve muito ao esforço do trabalho das comunidades. Então eu preciso continuar crendo, né, e confiando na força de trabalho deles, que é possível. E lembrar eles, né, se um agricultor pode, os demais também podem.
Essa mensagem: se um agricultor pode, os demais também podem. Vai ser diferente de cada região? Vai. Mas cada uma tem que encontrar o seu jeito, que pode. E que a crise tem um leãozinho aqui, tem lá. Gente, não adianta a gente ficar meio atordoado, que nem se diz cachorro que caiu da mudança, que não sabe para onde vai, né? Esse é o momento difícil que a gente tá passando agora, que é o momento de sentar e dizer: olha, é possível pegar boas informações Hoje o pessoal chama um meteorologista, e o que que o meteorologista diz?
Vai ter El Niño. E aí o cara entra em pânico porque tá na sua memória a quantidade de chuva que caiu no Rio Grande do Sul há pouco tempo atrás. Bom, vai ter El Niño? Vai. Que parte do Rio Grande do Sul vai ter El Niño? Ou no Brasil será que vai ter? Ou vai ser só na Argentina, no Uruguai? Porque a gente já viveu muitos El Niños. Eu, Ninho, que destruiu a Ponte de Tubarão, pegou lá em Blumenau, destruiu muito, derrubou morros, tudo, né?
Já destruiu aqui na Zona Sul, já destruiu aqui na Depressão Central, na fronteira, mas nunca pegou todo o estado. Então eu preciso entender que El Niño é diferente para todos os anos, ele não é o mesmo. E se eu pudesse escolher o Ninho, eu queria El Niño agora no outono. Porque se eu tenho algum problema agora, eu consigo com pouco recurso recuperar minha lavoura e replantar. Agora, se cai um El Niño quando a minha lavoura já tá pronta para colher, ou um pouco antes, eu não tenho mais o que fazer.
Então eu preciso entender isso e me organizar. Eu preciso prever que o El Niño vai cair na minha lavoura e me organizar para plantar na melhor época possível. E a partir daí, né, a gente vai ter mais informações locais, né? Mas é isto. O agricultor precisa entender que ele já plantou arroz, ele tem uma história, e que ele tem que trazer a história dele, a experiência dele, para não ficar desesperado nesse momento de dificuldade.
Muito bom, muito bom, seu Valmir. Muito obrigado, viu, por você ter cedido aí um tempo do seu dia. Aí eu sei que tava corrido para danar hoje, mas o senhor tirou um tempinho para estar aqui com a gente. Muito obrigado, quero assim agradecer demais E parabenizar o senhor pelo seu trabalho, por tudo que você tem feito, viu? Muito obrigado, Paulo.
Eu que agradeço a oportunidade de poder compartilhar um pouco da minha experiência com vocês, né? E que as informações de alguma forma sejam úteis para os teus ouvintes e teus usuários.
Com certeza. E como que quem tá escutando aqui a gente aqui agora, ou assistindo, pode acompanhar o seu trabalho, trabalho também da empresa? Faz seu jabá aí agora, é a hora.
Bom, eu tenho meu telefone, sim, que é 51, né, 99985-8047, né. Meu email é o meu sobrenome em alemão, gaedigvm@gmail.com. E procure no site da Oriza e Soi, tem algumas informações, algumas publicações nossas ali que pode ser consultada, né. Mas entra em contato com a gente, com certeza vai ter um retorno.
Perfeito, muito bom. Agora, seu Valmir, a gente tem uma última parte aqui nesse podcast, que é o nosso glorioso quiz. Vamos nessa? Vamos. Prometo que não tem pegadinha, vou fazer só umas perguntas, você responde a primeira coisa que vier à cabeça, ok? Seu Valmir Menezes, qual que é a sua música antiga predileta, cara? Uma música antiga, pode ser um artista, enfim. Essa é a parte mais difícil do podcast, tá?
As outras perguntas são mais facílimas. Eu tenho várias músicas. Um bom samba das antigas é ótimo, né?
Bom, bom, bom. E qual foi o lugar mais legal que você já visitou? Primeiro que vem na cabeça.
Puxa, a China.
China é da hora, né?
Eu vi a produção de arroz em patamares na China.
Que legal.
Foi o lugar mais assim que eu fiquei estarrecido, pelo menos uma meia hora mudo olhando aquilo. Como é que os caras fizeram aquilo?
É interessante como essas civilizações antigas faziam coisas inimagináveis, né? Sem recurso, Sem nada, né?
Eu fiquei parando, como é que esses caras levam água lá para aquele ponto da montanha? Não, eles não levam, vem armazenando de cima para baixo. Isso aí me fascinou muito, ser diferente, né?
E qual que é a sua especialidade na cozinha, seu Valmir?
Paulo, na verdade é o seguinte, eu sou melhor cozinheiro do que agrônomo.
Pô, então deve ser bom para caralho.
Um risoto.
Ah, porra, risoto requer uma técnica ali, não é qualquer um que faz não.
Tem dois assim que o pessoal pede muito, né? É um risoto de cordeiro ao molho de vinho ou um cordeiro de camarão com funghi, né? É um bom vinho tinto, sempre ajuda, né?
Tá louco, muito bom. E tem algum livro que o senhor leu assim que de alguma maneira mudou sua forma de pensar e tal, que você poderia compartilhar aqui com a gente?
Assim, me ajudou, tem me ajudado muito, né? Porque no mundo de generalistas, porque no mundo de especialistas, generalistas vencem. Esse livro é muito bom, esse livro é muito bom, eu recomendo todos esses livros.
Acho que é Como Generalistas Vencem em um Mundo de Especialistas, né? Uma coisa assim, né? Putz, esse livro é animal, eu gostei demais desse livro.
Que bom que comungamos em uma boa leitura.
Esse livro é muito bom. Agora, para a gente finalizar mesmo, uma mais filosófica, que é o seguinte: se você se encontrasse com o seu eu de 17 anos hoje, qual seria o melhor conselho que você se daria?
Eu sempre tive um gênio muito difícil, né? Eu diria que eu seria mais calmo com as pessoas, menos acelerado. É, eu fui muito acelerado.
Não parece, o senhor parece um cara—
Hoje já tem 72 anos.
Agora já tá de boa, né? Coisa boa, coisa boa.
Mas esse é o negócio, mas também nunca faltei com respeito com as pessoas. Eu sempre exigi muito das pessoas que trabalhavam comigo e tal, né? Mas nunca faltei com respeito.
Bom demais. Bom, Zé Wamer, muito obrigado. E para você que ouviu ou está assistindo esse episódio aqui até agora, tenho certeza que você viu valor essa conversa com o seu Valmir aqui. Então considere compartilhar esse episódio com alguém que vai se beneficiar desse conteúdo. Agro Resenha cresce na medida que você participa com a gente desse processo. Então siga o Agro Resenha em todos os agregadores de podcast, né, Spotify, Apple Podcast, todos eles.
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Um abraço, Paulo.
Bom demais.
Nutripura
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