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O HOMEM QUE SALVOU A HUMANIDADE

26 de maio de 202621min
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Em 27 de outubro de 1962, um submarino soviético no fundo do Caribe quase disparou um torpedo nuclear contra a Marinha dos Estados Unidos. A tripulação estava sufocando, sem contato com Moscou, sob o que acreditavam ser um ataque real. Dois dos três oficiais a bordo votaram a favor do disparo. O terceiro disse não.Esse homem se chamava Vasili Arkhipov. E essa é a história de como um único voto separou o mundo do apocalipse nuclear.Neste vídeo, a gente reconstrói o que aconteceu dentro do submarino B-59, explora o que teria acontecido se o torpedo tivesse sido disparado e mostra por que a arquitetura da segurança nuclear global ainda depende de decisões humanas tomadas sob pressão extrema

Assuntos4
  • O Voto de Vasili ArkhipovDecisão de disparar torpedo nuclear · Pressão e condições no submarino B-59 · Regra de unanimidade para disparo · Vasili Arkhipov
  • Crise de mísseis cubanos de 1962Instalação de mísseis nucleares soviéticos em Cuba · Ameaça nuclear contra os Estados Unidos · Bloqueio naval americano (quarentena) · Submarino soviético B-59 · Vasili Arkhipov · Valentim Savitsky · Ivan Maslenikov
  • Riscos NuclearesDestruição de navios americanos · Escalada para guerra nuclear total · Mísseis nucleares táticos soviéticos em Cuba · Inverno nuclear · Colapso da infraestrutura global · Sobrevivência do hemisfério sul · Ascensão da China como potência
  • O que é Fusão NuclearDependência de decisões humanas · Riscos de falhas e interpretações erradas · Proliferação de potências nucleares · Vasili Arkhipov
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Em outubro de 1962, o mundo chegou o mais perto do fim da história. E a maioria das pessoas não tem ideia o quão perto a gente chegou. Para entender o que aconteceu, a gente precisa voltar alguns meses na história. Em meados de 1962, a União Soviética começou a preparar secretamente a instalação de mísseis nucleares de médio alcance em Cuba, que está a menos de 150 quilômetros da costa da Flórida.

E a ideia do líder soviético Nikita Khrushchev era simples. Os americanos tinham mísseis apontados para Moscou a partir da Turquia, então os soviéticos teriam que ter os seus mísseis apontados para Washington a partir de Cuba. Ou seja, um verdadeiro tabuleiro equilibrado de terror. O problema é que, no dia 14 de outubro, um avião espião americano U-2 fotografou as bases de mísseis em construção e, quando as imagens chegaram à mesa do presidente Kennedy,

O mundo entrou numa espiral. O Kennedy convocou o seu círculo mais próximo de conselheiros e colocou uma questão na mesa. O que a gente faz agora? E as opções, elas iam de um ataque aéreo imediato contra Cuba até uma invasão terrestre completa. Mas o Kennedy...

acabou optando por algo menos agressivo, um bloqueio naval ao redor da ilha. Oficialmente, eles não chamaram de bloqueio, porque isso seria um ato de guerra segundo o direito internacional. Então eles chamaram de quarentena. Mas, na prática, qualquer navio soviético que tentasse cruzar aquela linha seria interceptado pela Marinha Americana. Ou seja, uma roleta russa entre as superpotências.

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E aqui que entra um detalhe que quase ninguém conhece. Enquanto o mundo acompanhava a tensão diplomática entre Washington e Moscou, enquanto o Kennedy e o Khrushchev trocavam telegramas, embaixo d'água, no escuro total do Atlântico, quatro submarinos soviéticos do modelo Foxtrot.

navegavam rumo a Cuba. E esses submarinos tinham sido enviados semanas antes para apoiar a operação soviética na ilha. E cada um deles carregava, além dos torpedos convencionais, um torpedo nuclear. Cada submarino tinha um torpedo e cada torpedo só tinha uma ogiva, mas com uma capacidade de destruição igual à bomba de Hiroshima.

Um desses submarinos era o B-59. E a bordo do B-59 estava um oficial chamado Vasily Aleksandrovich Arkhipov. E passando alguns dias de crise, a gente chega no dia 27 de outubro de 1962, o dia que ficou conhecido como o Sábado Negro, o momento mais perigoso de toda a crise dos mísseis e possivelmente o momento em que a humanidade passou mais perto de acabar. E é nesse dia...

que um outro avião, o U-2 americano, foi abatido sobre Cuba por um míssil antiaéreo soviético. O piloto, o Major Rudolf Anderson, morreu e a primeira baixa direta do confronto. Em Washington, os generais americanos pressionavam o Kennedy, o presidente, por uma retaliação imediata. Vocês imaginem o clima e a tensão e a pressão nessa situação.

Enquanto isso, embaixo do Atlântico, o submarino B-59 estava vivendo seu próprio inferno. Tinha dias que ele era perseguido por um grupo de contratorpedeiros americanos liderados pelo USS Bill. Os americanos sabiam que tinha submarinos soviéticos na área e estavam usando cargas.

de profundidade de treinamento e granadas de sinalização para forçar os submarinos a subir e se identificar. Mas dentro do B-59, a tripulação não sabia que aqueles eram cargas de treinamento. E para eles, o submarino estava sob ataque. E para piorar as condições dentro do submarino, eram desumanas. A classe Foxtrot foi projetada para operar em águas frias do norte, não no Caribe Tropical.

Então a temperatura interna ultrapassava 45 graus. O ar-condicionado tinha pifado, os níveis de CO2 estavam subindo e os tripulantes desmaiavam nos seus postos. Além de tudo isso, o submarino estava sem contato com Moscou há dias.

E a última ordem que eles tinham recebido era vaga. E eles não sabiam se a guerra já tinha começado na superfície ou não. E foi nesse cenário que o capitão do B-59, o Valentim Savitsky, perdeu a compostura. Exausto, sufocando, sob o que ele acreditava ser um ataque americano real, Savitsky ordenou que o torpedo nuclear fosse armado e preparado para o disparo. E ele teria dito algo assim, abre aspas.

Talvez a guerra já tenha começado lá em cima, enquanto nós aqui estamos morrendo aos poucos. Vamos explodir eles, vamos morrer, mas vamos afundar todos eles. Não vamos envergonhar a nossa frota. Fecha aspas.

O oficial político do submarino, Ivan Maslenikov, ele concordou. Já eram dois votos a favor de lançar um torpedo nuclear, mas tinha uma regra no comando ali, uma particularidade do B-59 que não existia nos outros três submarinos da flotilha. O tal do Arkipov, que eu falei para vocês agora há pouco, ele não era só um oficial a bordo.

Ele era o comandante da Brigada de Submarinos, ou seja, ele era o chefe de toda a frotilha, mas ele estava embarcado no B-59 por uma questão de logística. Isso significa que, ao contrário dos outros submarinos, onde bastava que o capitão e o oficial político concordassem, no B-59, por um acaso, você precisava de uma unanimidade dos três oficiais.

O terceiro oficial, Vasily Arkhipov, disse não. E ele argumentou que sem contato com Moscou, sem confirmação de que a guerra tinha começado, disparar um torpedo nuclear contra a marinha dos Estados Unidos seria um ato impensável e irreversível. E ele insistiu que o submarino subisse para a superfície. O Savitsky resistiu, teve uma discussão acalorada entre eles ali, mas o Arkhipov não cedeu e o B-59 emergiu.

E ele foi identificado pelos americanos e, eventualmente, acabou retornando à União Soviética. O torpedo acabou não sendo disparado, mas o mundo não sabe o quão perto nós chegamos do abismo. Mas e se o Arquipóvio tivesse dito sim? E se naquele submarino sufocante, escuro, sem comunicação, sem saber o que estava acontecendo na superfície, o terceiro voto tivesse sido a favor? O que aconteceu?

aconteceria nas horas, nos meses e nas décadas seguintes? Vamos explorar um pouco dessas possibilidades e consequências? O torpedo nuclear do B-59 tinha uma potência estimada entre 10 e 15 quilotons, que é similar à bomba que foi lançada sobre Hiroshima.

O alvo seria um grupo de contratorpedeiros americanos que cercavam o submarino, o USS Bill e os navios de escolta ao redor. Na detonação, uma coluna de água radioativa subiria a centenas de metros no ar e todos os navios, num raio de aproximadamente 1 km, seriam destruídos instantaneamente.

Os que estivessem até 3 km, eles sofreriam danos catastróficos. E hoje a gente está falando de centenas, possivelmente até milhares de marinheiros americanos mortos num único instante. Essa informação chegaria ao Pentágono em minutos. E aqui tem um ponto crucial. Os americanos em 1962...

não sabiam que os submarinos soviéticos carregavam torpedos nucleares. A inteligência americana não tinha essa informação. Então, do ponto de vista dos Estados Unidos, o que teria acabado de acontecer não seria um submarino desesperado agindo sozinho.

eles teriam entendido que a União Soviética teria feito um ataque nuclear pensado, organizado, programado, direcionado aos navios americanos. Nesse momento, Kennedy estaria diante de uma situação sem precedentes na história da humanidade, porque um ataque nuclear contra tropas americanas.

a pressão dos militares que já vinham pedindo um ataque a Cuba há dias teria sido insuportável. O general Curtis Leemey, que era o chefe do Estado-Maior da Força Aérea e um dos mais agressivos militares do Pentágono, ele já tinha defendido abertamente bombardear Cuba. Agora, ele teria a justificativa perfeita. E é quase certo que, em questão de horas, os Estados Unidos lançariam ataques aéreos massivos contra as instalações militares soviéticas em Cuba. A CIDADE NO BRASIL

Mas aqui a gente tem que olhar para um outro detalhe que quase também ninguém sabe. Na ilha, além dos mísseis de médio alcance que estavam sendo instalados, já havia mísseis nucleares táticos operacionais, os chamados Luna, sob o controle dos comandantes soviéticos locais. E para piorar, a autorização do uso desses mísseis táticos era ambígua.

Os relatórios revelados décadas depois, eles mostraram que os comandantes soviéticos em Cuba poderiam ter autoridade para usá-los em caso de invasão americana sem esperar a ordem de Moscou. Então, o cenário provável seria esse.

Torpedo nuclear destrói os navios americanos. Os Estados Unidos bombardeiam Cuba. Os soviéticos em Cuba respondem com mísseis nucleares táticos contra uma eventual força de invasão, contra a base de Guantanamo.

ou até mesmo contra o território americano, provavelmente na Flórida. E agora, não é mais um ataque isolado, mas são múltiplas detonações nucleares envolvendo as duas superpotências.

Nesse cenário, com ataques nucleares acontecendo dos dois lados da região do Caribe, a escalada para uma troca nuclear maior se torna praticamente inevitável. Mas não por lógica, e sim por mecânica. Porque em 1962...

Ainda assim como é hoje, o sistema de comando e controle nuclear de ambas as superpotências é construído em torno de uma premissa, responder rápido ou perder a capacidade de responder. Responder, no caso, é retaliar. Os Estados Unidos operam sob a doutrina de destruição mútuas segurada e se Washington interpretasse os eventos em Cuba...

Como o início de um primeiro ataque soviético, a lógica do sistema empurra para um ataque preventivo contra a União Soviética antes que os outros mísseis soviéticos de longo alcance sejam disparados. Do lado soviético, Khrushchev enfrentaria a mesma pressão invertida. Se os americanos estão bombardeando as forças soviéticas em Cuba, o próximo passo é bombardear a União Soviética.

Os arsenais combinados em 1962, pessoal, somavam algo em torno de 30 mil ogivas nucleares. Os Estados Unidos tinham cerca de 27 mil bombas e a União Soviética cerca de 3.300, mas o suficiente para destruir as principais cidades americanas e europeias. Os modelos calculados décadas depois...

estimaram que uma guerra nuclear total em 1962 mataria algo em torno de 100 a 150 milhões de pessoas nas primeiras horas, só com as explosões diretas e a radiação imediata. Claro.

Os Estados Unidos, a União Soviética e uma boa parte da Europa, que tinha as bases da OTAN, seriam devastados. As redes de infraestrutura, eletricidade, abastecimento de água, transporte, comunicações, colapsariam. Os governos inteiros seriam eliminados. A cadeia de comando civil deixaria de existir em várias capitais do mundo, ou seja, várias nações. O que sobraria seria, em grande parte, militar, fragmentado.

operado por uns protocolos de emergência sem autoridade política centralizada. Claro que as consequências de longo prazo de uma guerra nuclear de 1962 são especulativas, mas elas ainda assim não deixam de ser assustadoras.

Alguns estudos científicos feitos a partir da década de 1980 sobre o conceito do inverno nuclear indicam que a quantidade de fuligem e detritos lançados na atmosfera por centenas de explosões nucleares poderia reduzir a temperatura global em vários graus durante anos, possivelmente uma década. As safras agrícolas sucumbiriam em escala global, não só nos países atingidos diretamente, mas em todo o planeta.

Ou seja, no final das contas, a fome ia matar mais gente no mundo inteiro do que as bombas. O hemisfério sul, América Latina, África, o sudeste asiático, eles não seriam atingidos diretamente, mas eles sofreriam efeitos indiretos de forma brutal. Colapso das cadeias de comércio, radiação transportada pelo vento, queda de temperatura, perda de safra. O Brasil, a Argentina, a Austrália, a Índia.

e a China se tornariam os centros populacionais mais viáveis do planeta, mas ainda assim enfrentariam ondas de refugiados, desintegração do sistema econômico global e o desafio de reconstruir uma ordem internacional sem a existência das duas superpotências que sustentavam o mundo naquele momento.

A Europa Ocidental, com as bases da OTAN transformadas em alvos prioritários, estariam em ruínas. E o projeto europeu, a integração econômica que acabaria se tornando a União Europeia, simplesmente não existiria.

A reconstrução, se ela fosse acontecer, levaria décadas, ia partir praticamente do zero, como se fosse um segundo pós-segunda guerra, mas sem o plano Marshall, sem potência hegemônica para financiar a recuperação. E a China, que em 1962 já tinha rompido com a União Soviética e ainda não era uma potência nuclear relevante, seria possivelmente o ator geopolítico que mais se beneficiaria a longo prazo.

Distante dos epicentros, com uma população massiva e um estado centralizado capaz de impor a ordem, a China do mal poderia emergir como uma potência dominante em um mundo em ruínas. Essa história pode parecer aterrorizante, mas na verdade o que é aterrorizante é o que impediu essa história de acontecer, porque, felizmente, a história não aconteceu desse jeito, mas algo impediu ela de acontecer.

Não foi a diplomacia que salvou o mundo no dia 27 de outubro de 1962, não foi o Kennedy, não foi o Khrushchev, não foi nenhum acordo ou tratado. Foi um único oficial num submarino, sufocante, no escuro, sem informação, sem contato com seus superiores, que tomou uma decisão sobre pressão inimaginável. Foi um homem que disse não quando tudo ao redor dele dizia sim.

E o que isso nos diz sobre o mundo que a gente vive hoje, agora? Que a arquitetura da segurança nuclear global ainda depende, em última instância, de decisões humanas individuais tomadas sob pressão extrema. Os arsenais nucleares de hoje são menores do que em 1962.

Mas ainda assim a gente tem cerca de 12 mil ogivas nucleares no mundo. Os sistemas de alerta precoce são mais sofisticados, mas continuam sujeitos a falhas, alarmes falsos e a interpretações erradas. O principal agravante atual talvez seja o fato de que existem mais potências nucleares, com a possibilidade desse número aumentar ainda mais.

num futuro próximo. E que isso significa que quanto mais países com o dedo no gatilho, mais seres humanos estão expostos à decisão de vida ou morte, não para eles, mas para a humanidade inteira. Será que o próximo indivíduo vai ter tanta consciência, sangue frio e autocontrole quanto o oficial soviético teve no submarino?

Vasily Arkhipov. Ele voltou para a União Soviética e viveu num relativo anonimato. A história do B-59 só veio a público décadas depois, quando documentos soviéticos foram divulgados depois do fim da Guerra Fria. Ele morreu em 1998 sem receber nenhum reconhecimento oficial do governo do seu país pelo que ele fez.

O mundo que a gente vive hoje, com todas essas crises e imperfeições, ele só existe, em parte, porque um único indivíduo, num submarino, no fundo do Caribe, decidiu que ele não tinha certeza suficiente para acabar com tudo.

E essa é a lição mais perturbadora da crise dos mísseis. O que nos separa do mundo como ele é e da sua destruição total da civilização humana é um único voto, a decisão de uma única pessoa. Bom, pessoal, não esqueçam então de dar uma olhada na Você Europeu, empresa especializada em te ajudar a realizar o seu sonho de ter a cidadania europeia.

É isso, pessoal. Espero que vocês tenham gostado. Dêem like no vídeo, sigam o canal, ativem o sininho, compartilhem com o seu amigo para entender o que aconteceu naquele dia. Chegou muito perto de acabar.

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