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A Riqueza das Nações, de Adam Smith: repetir a tarefa deixa você mais esperto ou mais burro? | Temporada 8 · Mapa Mental em 16 min

30 de setembro de 202616min
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A Riqueza das Nações, de Adam Smith, faz uma pergunta que serve para qualquer emprego: se o seu trabalho fosse fazer uma única coisa, a mesma, o dia inteiro, isso deixaria você mais esperto ou mais burro? Este episódio percorre o livro de 1776 do Livro um ao Livro cinco, um conceito por vez, da fábrica de alfinetes até a resposta.

A fábrica de dez homens e dezoito operações, a destreza de quem só faz pregos, o menino que amarrou um barbante na válvula, o casaco e as milhares de mãos por trás dele, a troca que não depende de bondade, o filósofo e o carregador, o mercado que limita a divisão do trabalho, o dinheiro, a água e o diamante, o acordo tácito dos patrões, a poupança que vira capital, a mão invisível e a escola barata que Smith propõe no Livro cinco.

Obra em domínio público. Edição lida: texto original em inglês de 1776, sem tradutor (Project Gutenberg #3300); português em paráfrase e tradução livre nossa.

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Assuntos7
  • A divisão do trabalho e o aumento da produtividade na fábrica de alfinetesseparação de tarefas em 18 operações·destreza da mão que repete·ganho de velocidade na produção
  • A cooperação e a troca como motores da sociedade e da divisão do trabalhomilhares de mãos por trás de um casaco simples·interesse próprio como motor da troca·disposição de trocar uma coisa por outra
  • A mão invisível e o consumo como propósito final da produçãopoupança como causa do aumento de capital·busca do próprio ganho promove o interesse público·consumo como único fim da produção
  • O embotamento da mente pela repetição da tarefa e o remédio da educaçãoperda da capacidade de invenção·cabeça fica mais lenta sem dificuldades novas·educação pública barata como solução
  • A invenção e a melhoria das máquinas pelos próprios operáriosmenino que automatizou a válvula a vapor·operários comuns como fonte de inovação·facilitação das tarefas através da invenção
  • O hábito e a educação moldam o talento, mais do que a naturezacomparação entre filósofo e carregador de rua·ofício fabrica o talento·hábito, costume e educação como forças esculpidoras
  • O mercado limita a divisão do trabalho e a necessidade do dinheirodivisão do trabalho em cidades versus campo·mar e rios expandem o mercado·dinheiro como facilitador da troca
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ASAdam Smith

Se o seu trabalho fosse fazer uma única coisa, a mesma, o dia inteiro, isso deixaria você mais esperto ou mais burro? Quase todo mundo diz que mais burro, e é o que parece. Só que 10 pessoas, cada uma cuidando de um pedaço do alfinete, fazem 48 mil alfinetes por dia, e sozinha, nenhuma delas faria nem 20. Agora você vai ouvir um resumo do ResumoCast sobre A Riqueza das Nações, de Adam Smith. Smith publicou o livro em 1776. São 5 livros em 2 volumes.

O texto original está em domínio público no Brasil. A pergunta que o livro persegue é esta: o que faz um país ficar rico? E quanto isso custa a quem trabalha? No livro 1, Smith entra numa pequena fábrica de alfinetes, com 10 homens, e mostra por que a conta dá tanto. Um puxa o arame, outro endireita, um terceiro corta, um quarto faz a ponta, um quinto lixa o topo para receber a cabeça. Fazer a cabeça pede 2 ou 3 operações, colocar a cabeça é outro ofício, branquear os alfinetes é outro e até pôr os alfinetes no papel é um ofício à parte.

Ao todo, fazer um alfinete se divide em cerca de 18 operações, e cada homem cuida de uma, duas ou três. Essa separação de tarefas é a divisão do trabalho. Se cada um só faz um pedaço, por que o conjunto rende tanto mais? Rende mais porque a mão de quem repete fica ligeira, e esse é o primeiro motivo, diz Smith. Um ferreiro comum, que nunca fez prego, dá conta de 200 ou 300 por dia, e ruins. Um ferreiro acostumado a pregos, mas que não vive só disso, chega a 800 ou 1000.

Já os rapazes com menos de 20 anos que nunca fizeram outra coisa passam de 2300 pregos por dia. E ruins. A velocidade da mão de quem só faz isso passa do que alguém imaginaria sem ter visto, o contrário do que parece de longe. Esse ganho é a destreza. Mas, quando a mão já sabe o caminho sozinha, pra onde vai a cabeça? A cabeça vai para o problema do próprio trabalho. E Smith conta o caso de um menino. Nas primeiras máquinas a vapor, o menino ficava o dia inteiro abrindo e fechando a passagem entre a caldeira e o cilindro, cada vez que o pistão subia ou descia.

Um deles gostava de brincar com os colegas e percebeu que, amarrando um barbante da alça da válvula a outra peça da máquina, a válvula abria e fechava sozinha, e ele ficava livre pra brincar. Segundo Smith, uma das maiores melhorias da máquina veio desse menino que queria poupar o próprio trabalho. Boa parte das máquinas das oficinas, diz ele, nasceu da cabeça de operários comuns, cada um com uma tarefa simples pra facilitar. Esse ganho é a invenção.

Se cada um cuida só de um pedaço e as máquinas nascem assim, quem junta todos os pedaços numa coisa que chega até você? Pegue o pedaço mais simples do dia a dia. O casaco de um trabalhador comum, áspero e grosso como é. Smith lista quem trabalhou nele: o pastor, quem separa a lã, quem penteia, o tingidor, o fiandeiro, o tecelão, o pisoeiro e tantos outros. Somam-se a eles os comerciantes e carroceiros que levam a lã de uma oficina a outra, Os marinheiros e fabricantes de velas que trazem as tintas dos cantos mais distantes do mundo, e até quem fez a tesoura com que o pastor tosquia.

Sem a ajuda de milhares de pessoas, conclui Smith, nem o mais simples morador de um país civilizado teria o que tem. Essa teia de milhares de mãos é a cooperação. A gente costuma imaginar que alguém planejou tudo isso. E é verdade que parece obra de um planejador. Só que nenhuma dessas pessoas combinou nada com você. Então, o que faz todas elas entregarem? Na verdade, nenhuma delas planejou isso, responde Smith. O que faz essas pessoas entregarem é uma razão que ele mostra com o cachorro.

Ninguém nunca viu um cachorro trocar, de forma justa e combinada, um osso por outro com outro cachorro. O bicho que quer alguma coisa só tem um recurso, que é agradar. Um adulto, ao contrário, precisa da ajuda de multidões, e a vida dele mal dá pra ganhar a amizade de poucas pessoas. Por isso não adianta esperar bondade. Não é da bondade do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o jantar, e sim do interesse deles.

A gente fala das vantagens deles, Nunca das nossas necessidades. Essa disposição de trocar uma coisa por outra é a troca, e é dela que a divisão do trabalho nasce. Se a troca é o motor, de onde vem a diferença de talento entre uma pessoa e outra? Você imagina que a diferença já vem de berço? E é verdade que, adultos, os dois parecem feitos de matéria diferente. Smith discorda com um par. Um filósofo e um carregador de rua. Nos 6 ou 8 primeiros anos de vida, os dois eram muito parecidos, e nem os pais nem os colegas notavam diferença.

Aí cada um vai para um ofício diferente, o talento passa a ser notado e vai se abrindo aos poucos, até o filósofo, por vaidade, não reconhecer semelhança nenhuma. O ofício não revela o talento. Ele fabrica. Quem faz mudar o filósofo e o carregador é o hábito, o costume e a educação, muito mais do que a natureza. O hábito é a força que esculpe a pessoa. Se quem faz uma coisa só vira o que faz, por que a divisão do trabalho vai tão longe numa cidade e nem começa no campo?

No campo, longe de tudo, é o contrário da cidade. Nas casas isoladas das terras altas da Escócia, Todo fazendeiro precisa ser açougueiro, padeiro e cervejeiro da própria família, e um ferreiro, um carpinteiro ou um pedreiro pode morar a mais de 20 milhas do outro. Fazer prego como ofício lá é impossível. Quem faz 1000 pregos por dia, 300 dias por ano, faria 300.000 pregos e não venderia nem os 1000 de um dia inteiro de trabalho.

Já o carregador de rua só sobrevive numa cidade grande. A divisão do trabalho vai até onde vai o mercado, e o mar e os rios navegáveis abrem um mercado maior do que a estrada. Quanto mais gente para trocar, mais cada um pode se especializar. Só que trocar exige que o outro queira o que você tem. E se o açougueiro não quiser nada do que o padeiro oferece? O açougueiro tem mais carne do que consegue consumir. O cervejeiro e o padeiro comprariam um pouco, mas ele já tem todo o pão e toda a cerveja de que precisa, então não há troca, e os três ficam menos úteis uns para os outros.

A saída de todo homem prudente foi guardar, além do que fabrica, alguma coisa que quase ninguém recusaria. Já serviram pra isso o gado, o sal na Abissínia, conchas na costa da Índia, bacalhau seco na Terra Nova, e há uma aldeia na Escócia onde o operário leva pregos, em vez de dinheiro, à padaria e à taberna. No fim, todos os povos escolheram os metais, porque não estragam e se dividem sem perda. Esse é o dinheiro. Com moeda no bolso, o que decide quanto vale cada coisa?

Pra saber o que uma coisa vale, olha a água e o diamante. Nada é mais útil do que a água, e mesmo assim ela compra quase nada. Um diamante quase não serve pra nada, e mesmo assim troca-se por uma enorme quantidade de outras coisas. Smith separa aí dois sentidos da palavra valor: a utilidade é o valor de uso, e o poder de comprar outras coisas é o valor de troca. Os dois quase nunca andam juntos. Mas e quando o que você vende é o seu próprio trabalho?

Quem decide o preço dele? O preço do trabalho, diz Smith no capítulo dos salários, depende de uma observação que quase ninguém faz. Muita gente acha que patrão e trabalhador negociam de igual para igual. E é verdade que um precisa do outro. Só que quase nunca se ouve falar de patrões combinando entre si. E quem imagina que eles raramente se combinam, diz ele, é tão ignorante do mundo quanto do assunto. Patrões vivem em toda parte numa espécie de combinação tácita, constante e uniforme, para não subir o salário acima do que ele já é.

Quebrar esse acordo é mal visto entre vizinhos e iguais, e por isso quase ninguém escuta falar dele. É o estado normal das coisas. O salário, então, é o que sobra desse cabo de guerra. E de onde sai o dinheiro para contratar mais gente? No livro 2, Smith vai atrás do dinheiro que contrata. E na verdade ele não sai do esforço, sai de quem guarda. Pense num padeiro que em vez de gastar o lucro do mês, compra mais um forno e paga mais um ajudante.

O que uma pessoa poupa da sua renda e emprega em mais mãos produtivas ou empresta a alguém por juros é o capital. O capital de um país só cresce assim. Poupar, e não o esforço de trabalhar, é a causa imediata do aumento do capital. O trabalho fornece o que a poupança acumula, e sem ela o capital nunca seria maior. Quando cada um decide sozinho onde pôr o próprio dinheiro, quem cuida do interesse do país? Ninguém, responde Smith no livro 4.

Cada pessoa procura empregar o capital onde a produção valha mais, e em geral não pretende promover o interesse público, nem sabe o quanto o promove. Quer só a própria segurança e o próprio ganho. E uma mão invisível a leva a promover um fim que não estava na intenção dela. Ao perseguir o próprio interesse, ela muitas vezes serve a sociedade melhor do que quando quer mesmo servir. Smith diz nunca ter visto muito bem feito por quem fingia negociar pelo bem de todos.

Essa mão invisível é o mecanismo que ele oferece no lugar de um planejador. E no fim de tudo isso, para quem se produz? Para quem consome, escreve Smith ainda no livro 4, o consumo é o único fim e propósito de toda a produção. E o interesse de quem produz só deve ser atendido na medida em que ajude o de quem consome. Ele acha a regra tão evidente que provar seria absurdo. E acusa o sistema mercantil, as leis que protegem quem vende, de sacrificar quase sempre o consumidor ao produtor.

Tudo no livro, até aqui, gira em torno de quem usa o que é produzido. Só que quem produz também tem uma cabeça. O que essa produção toda faz com ela? A produção toda cobra um preço, e no livro 5, Smith manda a conta que ninguém queria ver. A gente costuma achar que repetir a tarefa é ficar craque, e é verdade pra mão. Com o avanço da divisão do trabalho, o emprego da grande maioria de quem vive de trabalho fica reduzido a poucas operações simples, Muitas vezes, uma ou duas.

Só que a cabeça da maioria das pessoas é formada pelo que elas fazem todo dia. Quem passa a vida em poucas operações sempre iguais não tem por que exercitar a mente nem a invenção procurando saída pra dificuldades que nunca aparecem. Perde o hábito e, na média, fica tão burro e ignorante quanto um ser humano consegue ficar. Se nenhuma dificuldade nova chega até você, A sua cabeça é o preço da conta. Essa perda é o embotamento da mente.

E se a divisão que enriquece é a mesma que embota, tem conserto? Tem conserto. E não é que ele seja caro. Smith diz que sai barato. Os filhos dos pobres têm tempo de aprender a ler, escrever e fazer contas antes de entrar num ofício. Por uma despesa muito pequena, o poder público pode facilitar, estimular e até impor a quase todo o povo a necessidade de aprender essas partes essenciais. Ele imagina uma escola pequena em cada paróquia, com o mestre pago em parte pelo público e em parte pelos pais, pra o mestre não relaxar.

Na Escócia, as escolas de paróquia ensinaram quase todo o povo a ler, e boa parte a escrever e a contar. Smith troca o pouco de latim por geometria e mecânica, porque quase todo ofício dá ocasião de aplicá-las. Esse é o remédio: a educação pública barata. Então, afinal, repetir a mesma tarefa deixa a pessoa mais esperta ou mais burra? 10 pessoas e 18 operações fizeram do alfinete uma conta que ninguém fecharia sozinho, e cada pessoa ficou com uma tarefa só.

Os rapazes dos pregos mostraram a destreza, o barbante do menino mostrou a invenção, o casaco juntou milhares de mãos por meio da troca, e o filósofo e o carregador mostraram que o hábito esculpe o talento. O mercado limita a divisão, o dinheiro destrava a troca, o capital nasce da poupança, a mão invisível e o consumo fecham a conta. No livro 5, quem repete sem dificuldade nova perde a cabeça, e a escola barata devolve o que a fábrica tira.

Então, a tarefa repetida deixa você mais esperto ou mais burro? Mais esperto ou mais burro? Depende do que a tarefa devolve para você. Os 48 mil alfinetes por dia tinham um preço. E o próprio Smith foi quem mandou a conta: a mão que repete fica mais rápida, e a cabeça que nunca encontra uma dificuldade nova fica mais lenta. O menino do barbante só inventou porque a válvula lhe dava um problema e ele queria brincar. A divisão do trabalho deixa a pessoa mais esperta quando ainda há um problema para resolver, e mais burra quando a tarefa tira todos.

Então, se a sua tarefa repetida já não te dá nenhum, invente um você mesmo antes que a rotina pense por você. Se essa conversa te fez pensar, se inscreve no ResumoCast e manda pra aquela pessoa que faz a mesma coisa todo dia.

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Adam Smith

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