A República, de Platão: vale a pena ser justo quando ninguém está vendo? | Temporada 8 · Mapa Mental em 16 min
A República, de Platão, gira em torno de uma pergunta: se você achasse um anel que te deixa invisível, continuaria sendo justo? Este episódio segue a conversa de Sócrates em ordem, do Livro um ao Livro dez, um conceito por vez, até a resposta.
Céfalo e o contraexemplo das armas, Trasímaco e o interesse do mais forte, o anel de Giges, a cidade em letras grandes, as três partes da alma, o rei-filósofo, o navio, a caverna, a escada que leva ao tirano e o mito de Er, onde uma alma boa por hábito escolhe a tirania quando ninguém está olhando.
Obra em domínio público. Edição lida: tradução inglesa de Benjamin Jowett (Project Gutenberg #1497); português em tradução livre nossa.
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- A questão da justiça e a invisibilidade do anel de Gigesanel de ouro que deixa invisível·vale a pena ser justo·Platão e a resposta à pergunta
- A história do anel de Giges e a reputação da justiçapastor Giges acha anel invisível·seduz a rainha e mata o rei·ninguém é justo por vontade
- A justiça vale por si mesma e o mito de Erjustiça sem prêmio ou castigo·soldado morto volta à vida·almas escolhem a próxima vida
- A definição de justiça e o contraexemplo de CéfaloCéfalo e a justiça como dizer a verdade·devolver armas a um amigo fora de si·contraexemplo derruba regra
- Trasímaco e a justiça como interesse do mais fortequem tem poder escreve as leis·justiça é o interesse do mais forte·obediência por medo
- As três partes da alma e a harmonia da justiça interiorLeôncio e a briga das vontades·desejo, ânimo e razão·razão no comando e alma em harmonia
- A alegoria da caverna e a conversão da almapessoas acorrentadas na caverna·sombras como realidade·virar a alma para a luz
- A escolha da tirania por hábito e a compreensão da justiçaalma escolhe tirania por descuido·bondade vinda do costume·justo por hábito ou por entendimento
- A cidade como metáfora da pessoa e a divisão do trabalhoenxergar a justiça em escala maior·cidade como pessoa em letras grandes·divisão do trabalho na cidade
- O rei filósofo e a alegoria do naviofilósofos como reis·amor ao saber mais que o poder·marinheiros brigam pelo leme
- A escada da tirania e o excesso de liberdadegoverno dos melhores vira honra·cobiça por dinheiro e democracia·excesso de liberdade produz tirano
- O tirano por dentro e a escravidão do desejotirano manda em todos·não pode viajar nem ver·escravo do próprio desejo
Se você achasse um anel de ouro que te deixa invisível toda vez que gira a pedra para dentro da mão, continuaria sendo justo? Quase todo mundo responde que sim, e responde rápido. Platão levou 10 livros para responder, e a resposta dele vai contra essa pressa. Agora você vai ouvir um resumo do ResumoCast sobre A República, de Platão. Platão escreveu o livro por volta de 375 antes de Cristo. O livro inteiro é uma única conversa que o próprio Sócrates conta em primeira pessoa, um diálogo.
O texto original está em domínio público no Brasil. A pergunta que o livro persegue é esta: vale a pena ser justo quando ninguém está vendo? No livro 1, a conversa começa numa festa. Sócrates desce ao Pireu, o porto de Atenas, para ver uma procissão nova em honra de uma deusa. Na volta, um criado o puxa pelo manto. Polemarco quer que ele fique. Na casa de Polemarco mora o pai dele, o velho Céfalo, rico e em paz com a idade. Céfalo acreditava que ser justo é dizer a verdade e pagar o que se deve.
Na maior parte dos dias, é verdade. Quem devolve o que pegou emprestado age bem. Sócrates responde com um caso: um amigo, em perfeito juízo, deixa armas guardadas com você. Depois volta fora de si e pede as armas de volta. Devolver seria justo? Ninguém diria que sim, e Céfalo concorda. Um caso só, concreto, derrubou uma regra inteira. E esse tipo de caso tem nome: contraexemplo. Se pagar o que se deve pode ser injusto, então o que é justiça?
Trasímaco, que ouvia a conversa impaciente, acha que os dois procuram a justiça no lugar errado e manda olhar para qualquer cidade. Quem tem o poder escreve as leis do jeito que o favorece, chama de justo quem obedece e castiga quem desobedece. Numa democracia, as leis servem ao povo que manda. Numa tirania, ao tirano. Para ele, Céfalo e Sócrates estão sendo ingênuos, e a resposta, na verdade, é simples: justiça é o interesse do mais forte.
Se ele estiver certo, quem obedece à lei só obedece por medo. E se alguém pudesse desobedecer sem ser pego, sobraria algum motivo para ser justo? Glaucon dá voz a quem diz que não sobraria motivo nenhum e, no livro 2, conta uma história para apertar Sócrates. Um pastor chamado Giges está com o rebanho do rei da Lídia quando uma tempestade e um terremoto abrem o chão. Ele desce pela fenda e acha um cavalo de bronze oco, com portas.
Lá dentro há um corpo maior que o de um homem, sem nada além de um anel de ouro no dedo. O pastor leva o anel. Na reunião dos pastores, ele mexe no anel, vira o engaste para a palma e some. Os outros passam a falar dele como se tivesse ido embora. Vira para fora e reaparece. Com esse poder, ele seduz a rainha, mata o rei e fica com o reino. Glaucon diz em voz alta o que muita gente pensa e não diz: ninguém é justo por vontade, só por medo de ser visto, e o que se preza na justiça é a reputação.
Sócrates admite que o argumento tem lógica e que só ele já bastaria para derrubá-lo. Mas se a justiça de uma pessoa não se vê de fora, onde dá para enxergar o que ela é? Numa escala maior, responde Sócrates, quem enxerga mal e precisa ler letras miúdas de longe fica feliz se acha as mesmas letras escritas em tamanho grande. É aí que ele propõe olhar a cidade, que seria a pessoa escrita em letras grandes, e monta uma cidade do zero na conversa.
Ninguém se basta sozinho. Um planta, outro constrói casas, outro tece, outro faz sapatos. Cada um produz mais e melhor quando faz uma coisa só, a que combina com a sua natureza na hora certa. Esse princípio é a divisão do trabalho, e a cidade inteira se apoia nele. Só que uma cidade que produz e enriquece desperta a cobiça dos vizinhos. Quem defende a cidade? Sócrates pensa num cão de guarda de boa raça, manso com quem conhece e bravo com estranhos.
A cidade precisa de defensores assim, com as duas coisas ao mesmo tempo: coragem diante do inimigo e brandura com o próprio povo. Por isso, a criação dessa gente começa cedo. Ginástica para o corpo, música e histórias escolhidas para a alma. E no livro 3, Sócrates chega a cortar dos poemas os versos que ensinariam medo da morte. São os guardiões, educados para proteger e nunca para se servir do povo que protegem. E agora há quem plante, quem fabrique e quem defenda.
Onde mora a justiça dentro dessa cidade? No livro 4, Sócrates e Glaucon procuram as virtudes da cidade uma por uma, e a justiça é a última a aparecer. Primeiro acham a sabedoria nos que governam, depois a coragem nos que defendem, depois a moderação no acordo de todos sobre quem deve mandar. Sobra uma coisa que estava debaixo do nariz desde o começo: o sapateiro faz sapato, o lavrador planta, o guardião guarda, e ninguém se mete no ofício do outro.
A gente costuma imaginar justiça como tribunal, juiz e castigo. É razoável, é onde a palavra aparece todo dia. Para Sócrates, na cidade, Justiça é cada um fazer o que é seu. E se a cidade é a pessoa em tamanho grande, como fica a justiça dentro de uma pessoa? Sócrates conta a história de Leôncio, e ela mostra que, na verdade, dentro de uma pessoa também há ofícios que brigam. Leôncio subia do Pireu pelo lado de fora do Muro Norte quando viu corpos de condenados no chão, no lugar das execuções.
Quis olhar e ao mesmo tempo sentiu nojo de querer. Lutou, cobriu o rosto até que a vontade venceu. Correu até os corpos, arregalou os olhos e mandou que eles se fartassem da bela vista. Quem briga ali? Uma força que quer e outra que se revolta contra o querer. E quem tem sede, mas se recusa a beber? Mostra uma terceira, a que calcula. Sócrates chama as três de partes da alma: o desejo, o ânimo e a razão. Se a alma tem três forças, quem deveria mandar?
A razão deve mandar, responde Sócrates, com o ânimo como aliado e o desejo obedecendo. Ele compara as três forças às notas grave, média e aguda de uma escala musical. Cada uma soa no seu lugar e juntas soam como uma coisa só. A pessoa justa amarra essas três dentro de si antes de agir, seja no dinheiro, no corpo ou na política, e vira dona de si mesma. Quando as três soam juntas, a alma está em harmonia, e é isso que Sócrates chama de justiça por dentro.
A injustiça é uma das forças querendo fazer o trabalho das outras, uma revolta contra o todo. Se afinar sozinho já dá trabalho a uma pessoa, quem conseguiria afinar uma cidade inteira? No livro 5, Sócrates compara o que vai dizer sobre quem governa a cidade à maior das ondas, capaz de afogá-lo em riso e desonra. Ele fala assim mesmo: Enquanto os filósofos não forem reis, ou os reis não se tornarem filósofos de verdade, as cidades não terão descanso dos seus males.
O governante que ele quer é o rei filósofo, alguém que ama o saber mais do que o poder. Glaucon avisa na hora que muita gente respeitável vai tirar o casaco e partir pra cima de Sócrates por causa disso. Por que alguém sensato recusaria ser governado por quem sabe? Sócrates responde no livro 6 com um navio onde quase ninguém quer ser governado por quem sabe. O dono do barco é o mais alto e o mais forte a bordo, mas é meio surdo, enxerga mal e entende pouco de navegação.
Os marinheiros brigam pelo leme. Nenhum aprendeu a pilotar e cada marinheiro jurava que pilotar nem se aprende. Eles embebedam o dono, tomam o navio e chamam de bom marinheiro quem os ajuda a mandar. O piloto de verdade, o que estuda as estações, o céu, as estrelas e os ventos, é chamado por eles de tagarela e olhador de estrelas. Do convés é o que parece: enquanto todo mundo disputa o leme, ele fica olhando para cima. Mas como alguém aprende a enxergar o que o piloto enxerga?
No livro 7, Sócrates pede que Glaucon imagine uma cena: pessoas acorrentadas desde a infância no fundo de uma caverna, com pernas e pescoço presos, sem conseguir enxergar nada além da parede. Atrás delas arde um fogo, e entre o fogo e elas passa gente carregando objetos por cima de um muro baixo, como num teatro de bonecos. Os presos só veem sombras e tomam as sombras por tudo o que existe. Solte um deles, vire o pescoço dele para a luz e os olhos doem.
Leve o homem para fora e ele precisa de tempo para olhar o sol. Educar, diz Sócrates, é o contrário de pôr visão em olhos cegos. A visão já está lá, olhando para o lado errado, e o trabalho é virar a alma inteira para a luz. Essa volta tem nome: Conversão. Se quem sai da caverna aprende a ver, por que as cidades acabam nas mãos erradas? No livro 8, a resposta é uma escada que desce, degrau por degrau, até as mãos erradas. O governo dos melhores vira governo da honra.
A honra vira cobiça por dinheiro. A cobiça abre espaço para a democracia. E a democracia, embriagada de liberdade, produz o tirano. A gente costuma achar que mais liberdade é sempre melhor. Faz sentido. Ninguém quer ter dono. Sócrates descreve uma cidade onde o pai tem medo do filho, o mestre bajula os alunos, e até os cavalos e os burros andam pela rua esbarrando em quem não sai da frente. Sem ordem nenhuma, o povo briga com os ricos e põe um protetor acima de si, E o protetor, provando o sangue dos próprios concidadãos, vira lobo.
Para Sócrates, o excesso de liberdade só consegue passar para o excesso de servidão. Quem seria esse lobo por dentro? O tirano do livro 9, visto por dentro, é um homem que manda em todos. Só que ele não pode viajar nem ver as coisas que qualquer cidadão livre quer ver. Vive escondido em casa, cercado de inimigos, com inveja de quem sai pelo mundo. Os desejos dele crescem mais rápido do que ele consegue alimentá-los. Sócrates faz a conta: quem manda em todos obedece ao próprio desejo e, por isso, é o mais escravo dos homens.
E ele ainda brinca com números: põe o tirano 9 degraus abaixo do rei justo. Eleva essa distância ao cubo, 9 vezes 9 vezes 9, e conclui que o rei vive 729 vezes mais prazerosamente. Se quem pode tudo acaba escravo, o que Sócrates diz ao dono do anel? No livro 10, Sócrates responde a Glaucon e fecha a conta que ele abriu com o anel. Ele mostrou o que a justiça faz com a alma sem usar prêmio, fama nem castigo. E por isso pode dizer: que a pessoa aja com justiça, tenha ou não o anel de Giges, e mesmo que, além do anel, ponha o capacete de Hades, que também deixa invisível.
A justiça sozinha já é o melhor para a alma, ela vale por si mesma. Só depois de mostrar isso, Sócrates aceita falar das recompensas. E como ele mostra alguém escolhendo quando ninguém está olhando, É, um soldado morto em batalha volta à vida no 12º dia, já em cima da pira funerária, e conta o que viu do outro lado: almas escolhendo a próxima vida, sem ninguém olhando por elas. É o último mito do livro. As almas fazem fila e um profeta avisa que quem escolhe primeiro não escolha com descuido.
O primeiro da fila agarra na hora a maior tirania e só então vê que o destino inclui devorar os próprios filhos. Ele bate no peito e culpa o acaso e os deuses, tudo menos a si mesmo. Essa alma tinha vivido numa cidade bem ordenada e tinha sido boa, mas a bondade dela vinha do costume, sem nenhuma filosofia. Era uma virtude de hábito. Quem só é justo porque alguém olha escolhe como ela quando ninguém olha. E você é justo por hábito ou porque entendeu?
Quem é justo só por hábito se desfaz na primeira escolha sem testemunha. Quem entendeu, não. E o livro inteiro é, na verdade, um caminho para entender. Céfalo tinha uma regra: e um contraexemplo a derrubou. Trasímaco pôs a justiça no interesse do mais forte e Glaucon tirou a reputação da conta. A cidade mostrou a divisão do trabalho, os guardiões e a justiça de cada um fazer o que é seu. Dentro de cada pessoa, as partes da alma pedem harmonia com a razão no comando.
O excesso de liberdade fabricou o tirano, E o tirano acabou escravo. A justiça vale por si mesma. Então, com o anel no dedo e ninguém olhando, vale a pena ser justo? Vale a pena. E o próprio anel mostra por quê. Com ele no dedo, o pastor virou o tirano do livro 9, dono de um reino e governado pelo desejo. Quem entendeu mantém a razão no comando, mesmo invisível, e guarda uma coisa que nenhum anel tira: ser dono de si. Por isso, para Sócrates, quem achasse esse anel continuaria sendo justo, se tivesse entendido, porque a recompensa da justiça está em quem você se torna, com ou sem plateia.
Se essa conversa te fez pensar, se inscreve no ResumoCast e manda pra aquela pessoa que responderia rápido que sim.
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Livro A República de Platão