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Escolas precisam discutir igualdade de gênero para prevenir violência contra a mulher, afirma socióloga

20 de março de 202620min
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Discutir estratégias de prevenção é fundamental para reduzir a violência contra a mulher, afirma Isadora Vianna Sento-Sé. A pesquisadora da Uerj cita a necessidade de abrir canais de diálogo com meninos adolescentes, que estão em fase de sociabilização. Segundo a socióloga, o aparato legal para lidar com crimes como feminicídio e estupro é forte, mas precisa ser aplicado em conjunto com medidas preventivas.
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Assuntos9
  • Igualdade de GêneroDiscussão de igualdade de gênero em currículos · Diálogo com meninos adolescentes · Educação preventiva · Formação e socialização de jovens
  • Violência contra a mulherEstatísticas de estupro coletivo no Brasil · Vítimas menores de idade · Subnotificação de casos · Proximidade entre vítima e agressor · Estigma associado à violência sexual
  • Ideologia e Papéis de GêneroConceito de 'macho alfa' · Submissão feminina · Propagação de discursos misóginos · Influência da internet em disseminação de ideologia · Resposta aos direitos das mulheres
  • Crimes SexuaisPenas para estupro (6-10 anos) · Penas aumentadas para menores de idade (8-12 anos) · Eficácia de aumento de penas · Lei Maria da Penha · Medidas preventivas vs. punitivas
  • Morte de Policiais MilitaresCaso de feminicídio disfarçado de suicídio · Acusado: tenente coronel · Mensagens entre casal · Ideologia de 'macho alfa' e submissão
  • Identificação de AgressoresSinais iniciais de violência · Violência psicológica e verbal · Falta de identificação de abuso · Confiança das meninas e mulheres · Relacionamentos abusivos progressivos
  • Atuação de Lucia na políticaFormação de profissionais de saúde · Treinamento de segurança pública · Inclusão de temas de gênero em currículo · Implementação de Lei Maria da Penha
  • Ranking de Estupro em Colégio de São PauloAlunos criando ranking · Classificação de meninas · Punição escolar · Normalização de violência entre jovens
  • Responsabilidade Coletiva na Prevenção de ViolênciaPapel da sociedade · Responsabilidade de todos os cidadãos · Descontrução cultural · Transformação de valores
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Muito bem, aqui no CBN Madrugada, espaço para a gente falar sobre um assunto dos mais importantes e dos mais preocupantes, que é a questão da violência contra a mulher. A gente está em contato aqui no CBN Madrugada com a Isadora Viana Cento Sé, que é doutora e mestre em ciências sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e também pesquisadora do núcleo de estudos sobre desigualdades contemporâneas

gênero também da UERJ. Isadora, muito bom dia, é um prazer tê-la conosco aqui na CBN. Bom dia, Paulo, prazer. Bom, temos diversos casos aí, praticamente não tem um dia que a gente não dá uma notícia aqui sobre feminicídio, sobre violência contra mulher, e essa semana confesso que me assustei muito, né? A gente tem acompanhado números assustadores, mas essa semana o Jornal Estado de São Paulo, na quarta-feira, trouxe uma matéria de uma página inteira com a

Brasil registra 15 episódios de estupro coletivo por dia. Vou repetir aqui para o nosso ouvinte. 15 episódios de estupro coletivo por dia no Brasil. Entre 2022 e 2025 foram mais de 22 mil casos. E desses, cerca de dois terços referem-se a vítimas crianças ou adolescentes do sexo feminino.

O que está acontecendo com a nossa sociedade, Isadora?

a lei do estupro, enfim, as leis que ampliaram os direitos das mulheres e mais do que isso, criaram tipos penais, criaram o crime de violência contra as mulheres, os crimes de violência contra as mulheres tenham aumentado a visibilidade do fenômeno e, portanto, diminuído a subnotificação. Quando a gente fala de violência sexual, por exemplo, a gente fala de um crime que é historicamente, um tipo de violência que é historicamente

subnotificados. Então, a gente tem uma hipótese de que essa subnotificação vem diminuindo por conta da criação desse amparo legal e de também estruturas, delegacias das mulheres, centros de atendimento, centros de acolhimento. Contudo, os números, de fato, têm chamado muita atenção, justamente porque uma violência subnotificada,

Ainda que tenha diminuído a subnotificação, há alguns indícios, quando a gente pega os dados, por exemplo, da saúde, quando a gente cruza com outros dados, há alguns indícios, sim, de que também há um aumento. Então, a gente tem esse duplo movimento. Por um lado, a gente tem mais políticas públicas. Para lidar com esse tipo de violência, a gente tem um debate mais quente na mídia, na imprensa, na academia, na sociedade civil,

como um todo, sobre violência contra mulheres, isso aumenta a vivibilidade do fenômeno. Por outro lado, há alguns indícios, sim, de que uns números existem, não só a notificação, mas que os números existem também podem estar aumentando. É, porque esses dados, eles são do sistema de informação de agravos de notificação, que é o SINAN do Ministério da Saúde. Eu queria que você passe um pouco mais sobre essa questão da subnotificação, porque casos de estupro, por exemplo, há uma probabilidade grande,

de que haja essa subnotificação por alguns aspectos que eu acho interessante. Você destaca aqui na reportagem do Estadão. Acho que é importante, normalmente, a proximidade das vítimas com os agressores, o receio. Eu queria que você falasse um pouco sobre esse aspecto, porque nos parece realmente que muitos das vítimas acabam não fazendo a queixa e não notificando.

série de fatores também que contribuem para essa subnotificação. O primeiro é esse que você falou, apontou muito bem, né? Muitas vezes as vítimas, elas têm uma certa proximidade com o agressor e aí isso faz com que o ato de notificar seja complexo emocionalmente para as vítimas. Muitas vezes o agressor é uma pessoa próxima, né? No caso de violência sexual. E aí, principalmente quando a gente está falando de crianças e adolescentes, é uma pessoa próxima,

pessoa da família, é um amigo da família. Nos casos de mulheres adultas também são amigos, são parentes, às vezes do próprio marido. Então, a proximidade do autor com a vítima é um dos fatores que colabora com a subnotificação. O segundo fator é um fator cultural. Existe um estigma muito grande associado à violência sexual. Muitas mulheres têm medo de notificar e de serem constrangidas e de serem que

Há uma tradição de culpabilização das vítimas, de revitimização dessas vítimas. Por exemplo, de pensar quais atitudes ela teve para provocar aquela violência. Então, muitas vezes, as vítimas deixam de notificar porque elas têm medo desse tipo de reação, porque isso é um discurso muito vigente na nossa cultura. Então, a vergonha, o estigma,

associado à violência sexual é um outro fator muito relevante para a subnotificação. Então, isso está extremamente associado com a capacitação dos profissionais de segurança pública, dos profissionais de saúde, que vão fazer o atendimento dessas mulheres, para que elas tenham um acolhimento adequado e elas se sintam à vontade,

tenham acesso às políticas de acolhimento e de combate ao enfrentamento à violência sexual. Você falou da questão da legislação. O Código Penal hoje tem pena para crime de estupro de 6 a 10 anos de prisão. Se a vítima for menor de idade, a pena vai de 8 para 12 anos de prisão. Tivemos recentemente um aumento da pena para feminicídio.

adequado aumentar a pena também para os crimes de estupro, como aconteceu com o feminicídio? As medidas de aumento de pena, elas tendem a ser muito populares, isso é compreensível, a gente, durante muitos e muitos anos, a gente viu e ainda vê muitos desses casos passarem impunes, mas o aumento de pena, ele não é eficaz para prejuízo,

limer crimes. As pessoas não deixam de praticar um crime porque elas sabem que vão ser presas ou porque elas sabem que elas vão passar muito tempo presas. A gente não tem nenhuma pesquisa em nenhum lugar do mundo que mostre que o aumento de pena tem uma eficácia preventiva. É óbvio que é importante a gente ter medidas repressivas para lidar com esses crimes, mas é fundamental a gente discutir estratégias de prevenção.

Maria da Penha, por exemplo, ela prevê uma série de iniciativas de prevenção, uma série de medidas educativas, ela prevê que as instituições envolvidas no combate à prevenção à violência contra a mulher, elas façam campanhas públicas de prevenção e a gente vê pouca aplicação dessa parte mais preventiva da lei Maria da Penha ou das outras leis análogas que lidam com a violência contra a mulher.

Então, é fundamental a gente pensar, por exemplo, numa forma de discutir igualdade de gênero nas escolas, discutir igualdade de gênero com crianças, com adolescentes, arrumar canais de diálogo com meninos jovens, com meninos adolescentes que estão ainda em fase de formação, de sociabilização, para combater, numa perspectiva preventiva,

discurso que legitima a violência contra a mulher. Porque o que está por trás do estupro, o que está por trás do feminicídio, o que está por trás do estupro coletivo, o que está por trás da violência doméstica, é meio que a mesma coisa. Então, é muito mais eficaz a gente ficar em medidas de prevenção do que a gente ficar pensando sempre em aumento de pena. A gente já tem um aparato legal, penal, muito forte para lidar com esses crimes.

ele precisa ser aplicado e ele precisa ser aplicado em conjunto com medidas de prevenção, porque o ideal é que essas coisas não aconteçam. O ideal é que esses crimes não ocorram. Claro. A gente está conversando aqui no CBN Madrugada com a socióloga Isadora Viana Cento Cé, que é mestre e doutora em ciências sociais pela UERJ. Isadora, é importante você ter destacado essa questão da prevenção.

assunto aqui com outro fato que aconteceu recentemente em São Paulo, que tem obviamente tudo a ver com violência contra a mulher, que foi a morte de uma policial, uma soldada da polícia militar, de início achava-se que poderia ter sido um suicídio, mas o marido, o tenente coronel, já foi preso, está sendo acusado, e nesses últimos dias a polícia destacou aí e a imprensa está publicando algumas

trocas de mensagens entre o casal recentemente. E numa delas, esse tenente coronel, ele escreveu o seguinte, Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa, com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta, obediente e submissa, como toda mulher casada deve ser. Você citou aí a questão do Rio de Janeiro,

alunos lá do Dom Pedro II que fizeram um estupro coletivo contra uma jovem. Eu lembro também nesta última semana em São Paulo, alunos de um colégio da Zona Oeste da capital paulista que foram punidos porque estavam lá distribuindo uma lista, fazendo um ranking das meninas mais ou menos estupráveis. E aí, juntando tudo isso,

é como lidar com nós, como sociedade, como lidar com esse tipo de pensamento que a gente percebe que não é pontual, não está só na cabeça desse Tenente Coronel da Polícia Militar, de alguns jovens, é algo que permeia uma parcela da sociedade. Queria saber como a gente lidar com isso em pleno século XXI, Isadora. Pois é, você vê que pelas mensagens dele,

por trás disso vem essa ideologia de que existe um papel do homem e existe um papel da mulher na sociedade. E a mulher, ela é submissa ao homem. E a gente vê cada vez mais, e aí nos casos que você trouxe também, a gente vê cada vez mais esse tipo de discurso se fortalecendo e se difundindo entre homens e garotos, jovens, enfim,

A gente não tem muita certeza do porquê isso está acontecendo com tanta intensidade, se isso é uma resposta aos direitos que as mulheres estão conquistando. Mas, certamente, a internet é um meio que facilita a propagação desse discurso. Se antes não era tão fácil ter acesso a qualquer grupo de apoio mais feminista,

se ter acesso à pornografia antes da internet, principalmente a pornografia violenta, etc. Hoje em dia é muito fácil. Qualquer um consegue ter acesso a essas coisas. Então, realmente, a gente tem que pensar em políticas públicas direcionadas aos homens sobre violência contra a mulher, sobre violência de gênero, sobre igualdade de gênero, porque o que está por trás desses casos muito chocantes de violência,

que a gente vê todos os dias no jornal, cada dia é um pior do que o outro, é uma ideologia que não reconhece as mulheres como seres humanos, como indivíduos iguais aos homens. Então, o que está por trás dessa ideologia? A gente precisa combater. Como a gente combate com isso? A gente combate com campanhas educativas, com um currículo bem estruturado, voltado para escolas, voltado para profissionais, por exemplo, profissionais de saúde,

de segurança pública, uma obrigatoriedade, a igualdade entre homens e mulheres tem que ser um valor fundamental na nossa sociedade. Então, a gente só combate isso com políticas de educação, em várias frentes. Quando eu digo políticas de educação, não é necessariamente envolvendo a escola, etc. também, mas em várias frentes, voltadas para médicos, para advogados,

para enfermeiros, para policiais, para juízes, para garis, para escolas. A gente precisa incluir os homens. Quando a gente vai falar de violência contra a mulher, a gente está na universidade, vai falar da palestra, vai falar em mesa, a gente olha para o público e só tem mulheres. Então é como se os homicídios, os estupros, as violências que a gente sofre fossem problemas só nossos. E é urgente incluir os homens.

nesse debate.

A gente trabalha com a notícia há quase 40 anos e percebe que esses casos normalmente não acontecem do dia para a noite. Há sempre um crescente na violência, muitas vezes começa com violência verbal. Então, em que medida é importante trabalhar também com as meninas para identificar os sinais, aqueles primeiros sinais, e trabalhar a autoconfiança também das meninas, das mulheres, para que elas tenham força suficiente para abandonar, sair de um relacionamento

de violência, hein, Isadora? Não, com certeza a publicização dos tipos de violência, que não são a violência física, porque a violência física é muito fácil de identificar, uma pessoa dá um soco na cara da outra, é muito fácil de identificar. Mas a violência psicológica, patrimonial, moral, não são tão fáceis assim. Então, é claro, é muito importante a gente ter isso no debate, também num plano educativo, mostrar, olha, se a pessoa se trata desse jeito,

isso é violência, ciúmes, não é amor, né? A gente desconstruir algumas coisas que foram construídas na nossa cultura durante séculos, mas as meninas e as mulheres, elas não podem ser responsáveis por acabar com a violência, né? O Estado brasileiro, ele precisa proteger essas mulheres. Então, quando a gente às vezes fala assim, ah, mas então o curso de,

de autodefesa, e o espreito de pimenta. E, é claro, a gente está pensando em medidas para aquele momento que a mulher vai sofrer violência, mas a gente realmente precisa ter no debate, no nosso horizonte, políticas de Estado para proteger essas meninas e essas mulheres. Elas não deveriam ter que se proteger porque os homens não fossem violentos. Então, ainda que seja muito importante reconhecer o relacionamento abusivo,

o relacionamento violento, os estados, estágios mais leves, com muitas astas dessa violência. Esse caso, por exemplo, que a gente viu dos policiais militares, era um caso que já tinha um histórico de abusos, e geralmente o feminicídio é assim, o feminicídio é o último estágio de uma série de abusos. Ainda que isso seja importante, não é o papel só das mulheres se proteger da violência.

E nem é só o papel das vítimas se protegerem da violência. É o papel de toda a sociedade fazer com que esse tipo de atitude seja absolutamente impensável e aceitável. Que esses valores sejam incompatíveis com a nossa vida em sociedade. E não que eles sejam coliteiros, que é o que a gente está vendo agora. Muito bem. A gente agradece demais a participação aqui na CBN.

Isadora Viana Centossé, que é pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Desigualdades Contemporâneas, Relações de Gênero, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Isadora, muito obrigado, um bom dia e até uma próxima oportunidade. Eu que te agradeço, Paulo. Bom dia.

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