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Guerra e tarifas podem impedir Selic em 12% ao final do ano, avalia professor

19 de março de 202617min
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O cenário internacional coloca em xeque a expectativa de que a taxa Selic esteja em cerca de 12% ao ano ao final de 2026, avalia Rafael Chaves. Segundo o professor de economia da FGV, há dois fatores principais que pressionam, hoje, a inflação: o aumento dos custos com energia, por causa da guerra; e a desestruturação do comércio global em virtude das tarifas de Trump.
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Assuntos10
  • Tomada de DecisãoRedução de 0,25% · Taxa em 14,75% ao ano · Primeira redução em 2 anos · Alinhamento com expectativas de mercado · Indicativo do Copom
  • JurosMeta de 12% ao final do ano · Possibilidade de interrupção · Cenários de incerteza · Decisões futuras do Banco Central · Pressão inflacionária
  • Impacto da Guerra nos CombustíveisAumento de preços de petróleo · Choque inflacionário · Impacto na gasolina · Pressão nos custos brasileiros · Mudança de cenário
  • Comércio InternacionalTarifas de Trump · Importação de insumos intermediários · Impacto inflacionário · Desestruturação global · Efeito na produção doméstica
  • Inflação e Política MonetáriaMeta de inflação de 3% ao ano · IPCA em 4% ao ano · Convergência para meta · Intervalo de tolerância · Descontrole inflacionário
  • Reservas FederaisManutenção de taxa de juros · Faixa de 3,5% a 3,75% ao ano · Impacto global · Importância para o mundo · Fluxo de capitais internacionais
  • Efeitos da redução de juros na economiaDinheiro mais barato · Acesso ao crédito para famílias · Acesso ao crédito para empresas · Confiança na moeda · Estímulo econômico
  • Mercado de capitais e mobilidade de capitaisLiberdade de alocação de recursos · Transferência de poupança entre moedas · Diferencial de taxa de juros · Fluxo para outros países · Fuga de capitais
  • Fragilidade fiscal e risco fiscalDívida pública elevada · Necessidade de pagar juros altos · Risco fiscal brasileiro · Dívida pública em rolagem · Pressão nos gastos governamentais
  • Economia GlobalTaxa de inflação argentina · Taxa de juros em economias frágeis · Diferencial de risco · Atração de investimentos · Condições monetárias internacionais
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Muito bem, aqui no CBN Madrugada é espaço para a gente falar um pouco mais sobre a decisão do Banco Central, o Comitê de Política Monetária do Banco Central, que baixou a taxa Selic em 0,25 ponto percentual na reunião desta quarta-feira, de 15 para 14,75% ao ano. Foi a primeira redução na Selic em quase dois anos, desde maio de 2024.

aqui no CBN Madrugada com o professor Rafael Chaves, professor de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas, da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV, que é PhD em Economia. Rafael, muito bom dia, é um prazer tê-lo conosco aqui na CBN. Boa noite, Galvão, é um prazer falar contigo e com todos os seus ouvintes aí da Rádio CBN. Como é que você avalia essa decisão do Copom de baixar a Selic em 0,25 ponto percentual

para 14,75% ao ano. Olha, Galvão, o Banco Central seguiu o guidance que ele mesmo havia dado na última reunião, quando ele manteve 25% na reunião passada e deu um indicativo que a gente fala de que na próxima ele cortaria os juros, o que na minha avaliação não é muito adequado, porque entre um copom e outro, muita coisa pode mudar. Isso foi o que aconteceu.

A gente teve guerras paradas do preço de energia, em especial aqui para o Brasil vai pegar o choque no preço diesel da gasolina, então o cenário mudou completamente. Porém, o Banco Central já havia dado esse indicativo, o mercado inicialmente aguardava um corte de 0,5%, depois com a subida de preço do barril de petróleo e consequentemente de diesel e gasolina,

começaram a divulgar novas expectativas de que o Banco Central talvez mantivesse a taxa de 15% ou reduzisse em 0,25% e alguns ainda continuavam com a expectativa de uma redução de 0,5%. O Banco Central acabou tomando a decisão de levar a taxa para 14,65% ao ano, portanto, uma redução de 0,25%, o que, de certa forma, estava alinhado com as expectativas de mercado,

o artigo que ele havia dado na reunião anterior, mas, ao mesmo tempo, eu tenho a impressão que essa não é a decisão mais difícil do Banco Central desse ano. Por quê? A taxa Selic está em um patamar muito elevado, muito acima do que a gente chama de taxa neutra. Quando a inflação está comportada na meta e o Banco Central deixa a Selic em uma taxa neutra, que a gente fala, é a taxa que nem puxa a inflação para cima nem para baixo. Então, hoje,

Os economistas estimam a taxa neutra do Brasil em torno de 5% ao ano real, mais uma inflação de 4%, daí uma taxa neutra nominal hoje em torno de 9% com essa inflação. O Banco Central está com a taxa bem acima disso. Então, esse ponto 25 não vai fazer muita diferença. A gente continua com condições restritivas na economia, ajudando com que a inflação continue cedendo em direção à meta

3% ao ano. Só que ao longo desse ano, e aí a expectativa, pelo menos o cenário base, indica para uma disrupção. Eu não sei nem se a guerra vai ser tão duradoura, mas o estrago que já foi feito, o preço do barril do petróleo saiu de 60 dólares para 100 dólares, dificilmente vai retornar para um patamar, na minha visão, muito abaixo de 80 dólares em curto prazo. Então isso vai ter um impacto inflacionário aqui no Brasil.

as tarifas, esse tarifato todo que vem tomando conta do comércio global, a gente nunca sabe quando isso pode bater em preço. Então, na minha visão, a gente tem um cenário inflacionário para Brasil, o balanço de risco está mais para ter inflação do que para não ter. E aí, nesse cenário, um cenário ainda de eleição, o Banco Central vai ter que demonstrar sua independência nas decisões futuras.

Eu estou muito mais preocupado com a trajetória do que esse primeiro passo que ele deu. Esse primeiro passo que o Banco Central deu, ele se amarrou. Ele deu um indicativo na última reunião, depois estourou a guerra e ele acabou dando uma redução pequenininha e acho que a gente vai ter um ano onde o Banco Central vai estar bastante na vitrine. Acho que na semana que vem, a hora que sair a ata da reunião, acho que vai ser importante fazer a análise.

Você acha que, de alguma forma, o Banco Central pode, inclusive, diante desse cenário de incertezas, pode, inclusive, interromper essa trajetória de queda ao longo do ano? Porque, se a gente voltar um mês atrás, havia praticamente uma unanimidade que a trajetória iria começar agora em março e ia seguir até o final do ano. Não sabia se ia ser 0,25, se ia ter alguma queda de 0,75, todo mundo falando que o juros chegaria.

no final do ano, em cerca de 12% ao ano. Você acha que esse cenário de incerteza pode, inclusive, interromper essa trajetória antes desse patamar? Com certeza. Perfeito, Galvão. Muito bem colocado. Antes de explorar a guerra, a maioria dos economistas apontavam para esse cenário de uma selic que sairia de 15% e iria para 12% no final do ano. Mas vamos lembrar que, nessa época, o preço do barril do petróleo estava a US$ 70, havia uma expectativa

que o Fed fosse reduzir a taxa de juros e hoje teve também a decisão do Fed de manutenção. Os economistas lá fora também já falam na manutenção das taxas internacionais, porque esse choque no preço de energia teve um choque parecido, por razões diferentes, depois do Covid. Quando venceu a pandemia e a vacina funcionou

as pessoas voltaram a viajar e a economia ganhou a dinâmica rapidamente, a oferta não conseguiu acompanhar a oferta de petróleo, a oferta de combustível. E isso fez com que tivesse um surto inflacionário no mundo todo. Provavelmente, a gente vai ver pressão inflacionária novamente no mundo todo. Então, esse é um cenário completamente novo. E era exatamente a isso que eu me referia. Ficou ali um sabor de botácea líquido,

ao longo do ano, e eu acho que essa expectativa está um pouco agora em xeque, porque a gente tem hoje dois fatores inflacionários para a economia brasileira. Um é a subida do preço de energia, e o segundo são os efeitos dessa desestruturação do comércio global, com muita tarifa, o Brasil importa muito bem intermediário para fazer a produção,

doméstica para gerar PIB. Então, esses choques são bem inflacionários. O choque deflacionário que os economistas discutem muito, que seria um choque positivo, que reduz a inflação, o choque benigno, ele é o choque da inteligência artificial, da gente conseguir prestar serviços e rodar a economia com base de auxílio de inteligência artificial e, portanto, com uma pressão menor sobre os salários. Mas esse choque, o Brasil também não se beneficia

dele, porque a gente tem uma legislação trabalhista um pouco mais engessada. Então, eu vejo hoje o Brasil com um cenário de possibilidade de repique na inflação. E vamos lembrar que a inflação não está na meta. A meta de inflação no Brasil é o IPCA 3% acumulado nos últimos 12 meses, com intervalo de tolerância de 1,5%. Então, o teto da meta é 4,5%

Malvo, é 3%. A inflação está rodando num patamar de 4% ao ano. Então, a gente precisa fazer a inflação convergir para 3%. As condições monetárias estão restritivas. Como eu falei, essa taxa de 14,75% é uma taxa elevada, dá um juro real bem elevado, de mais de 10%. Porém, num cenário onde você tem taxas internacionais, talvez até com elevação,

taxas de juros fora do Brasil, ou manutenção, preço de energia subindo. Pode ser que a gente tenha que tomar esse remédio amargo dos juros elevados por mais tempo para garantir que a inflação siga bem comportada e convergindo para o centro da meta de 3% ao ano. Estamos conversando aqui no CBN Madrugada com o professor de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, Rafael Chaves. Rafael, para nosso ouvinte, o nosso ouvinte que está acompanhando aqui,

a programação. No dia a dia, o que uma inflação, o que um juro mais baixo, o início dessa trajetória de queda dos juros, pode mudar no cotidiano dessas pessoas que vão tomar um financiamento, ou que estão devendo, ou que estão querendo investir um dinheiro, hein? Olha, os juros, Galvão, é o preço do dinheiro, né? Então, os juros mais baixos, quer dizer que o dinheiro fica mais barato, né? Ou seja, o crédito, né? É você tomar um dinheiro emprestado

frente. Então, quando a gente observa um movimento de redução na taxa de juros, a gente acaba tornando o dinheiro mais barato, facilita para que as famílias tomem crédito, para que as empresas tomem crédito. E uma segunda função também da taxa de juros é manter a confiança na moeda. A gente vive aqui um mercado de capitais livre, então as pessoas estão livres para colher aonde se coloca a poupança.

Quem é poupador, você pode deixar o seu dinheiro no banco, rendendo a Selic, você pode comprar um imóvel, você pode comprar dólares, por exemplo, ter uma conta fora do país. Então, a Selic, num patamar elevado, ela faz com que o real continue forte, que as pessoas não tenham nenhuma restrição a manter as suas poupanças depositadas em reais, ganhando uma taxa de juros paga pelo governo brasileiro.

fragilidade fiscal e do risco fiscal, que é tão falado pelos economistas, como a taxa de juros é muito elevada, compensa manter o dinheiro no Brasil investido em produtos bancários que no fim do dia representam a dívida pública fiscal, a dívida pública do governo. Acaba que é o governo que paga essa taxa elevada. Isso para quem tem poupança. Para quem olha mais para o mercado de capitais como uma forma de

ou gastar mais, consumir mais ou investir mais. As empresas também tomam crédito para fazer seus projetos de investimentos. Uma taxa de juros mais baixa facilita esse movimento e ajuda a girar a economia. Então, sobre esse aspecto, é muito positivo. Cabe citar aqui, Galvão, que nenhum economista gosta ou defende juros altos.

alto por si só não é algo desejável para a economia, ou excessivamente alto. Ele é um remédio amargo que a gente precisa tomar para evitar um problema maior, que é a inflação. Sempre que os países tentam reduzir a taxa de juros na canetada, um pouco na barra, e forçar uma taxa de juros artificialmente baixa, a gente pode presenciar maior inflação.

Brasil do passado. Isso já aconteceu com os vizinhos. Então, é algo que eu acho que a profissão já entendeu. Não adianta baixar os juros na canetada. Os juros é um preço de equilíbrio. Por que os juros são tão altos no Brasil? Porque a dívida pública é muito alta. Você tem um cenário de fragilidade fiscal e aí o governo está rolando a dívida, está precisando pegar dinheiro emprestado. Ele tem que pagar uma taxa mais alta que corresponda ao risco

que ele representa. A gente tem mais dois minutinhos aqui, professor Rafael. Por que a definição dos juros lá nos Estados Unidos também é tão importante para nós aqui no Brasil, para o mundo inteiro? Você destacou aí, nessa quarta-feira, o Fed manteve a taxa nesse intervalo, eles mantêm uma faixa lá sempre, de 3,5% a 3,75% ao ano. Por que a definição dos juros nos Estados Unidos importa tanto para o resto do mundo?

Olha, porque os preços são livres e a circulação da moeda é livre. Eu lembro, Galvão, quando eu era garoto, eu vivia ali o tempo antes do plano real, uma inflação muito alta no Brasil e uma tentativa de tabelar preço, de estabelecer cota, quanto você podia comprar no supermercado, carne, frango. Então, a gente tem uma tentativa de controlar os preços e as transações. Isso é uma coisa que ficou no passado. Hoje o mercado é livre. E também no mercado de moeda,

É um mercado livre. Então, as pessoas têm liberdade hoje no Brasil e é relativamente fácil, você não precisa ser alguém muito rico. Se você tiver um pouquinho de dinheiro, sei lá, 5 mil reais, se quiser abrir uma conta numa corretora fora do Brasil, em algum outro país, em alguma outra moeda, você consegue. Então, é relativamente fácil você fazer poupança em outras moedas e até mesmo aqui dentro do Brasil.

brasileira, que são atrelados a câmbio. Então, você pode ter uma poupança de R$ 2.000, R$ 3.000 e atrelar ela ao câmbio, comprar dólar, comprar a variação do dólar. Então, porque esses preços são livres, você acaba que o que o outro Banco Central no outro país está fazendo é muito importante. Então, se você tem outras moedas se fortalecendo e subindo os juros em outras economias, pode ser que fique atrativo

você sair do real e ir para outra moeda. Então, essa dinâmica de mercado de capitais livre, onde você consegue transferir a sua corpança, os seus recursos para outro país, para outra moeda, faz com que o diferencial da taxa de juros seja muito importante. Você ganhar 14% ao ano em reais é diferente de você ganhar, para dar um exemplo assim,

uma economia mais fraca, em termos de inflação, a Argentina, por exemplo, tem que pagar uma taxa de juros maior, porque lá tem uma inflação ainda maior. Nos Estados Unidos, como o dólar é uma moeda estável, a taxa de juros de 3,5%, 3,7%, os investidores, os poupadores, eles ficam satisfeitos em colocar o dinheiro lá. A gente sempre pensa, às vezes, no lado do crédito, quem precisa pegar o dinheiro emprestado, mas tem que lembrar que alguém está emprestando

esse dinheiro. E as pessoas que emprestam o dinheiro, elas escolhem em que moeda e aí elas vão observando as taxas de cada economia. Os bancos, os fundos de investimentos e hoje em dia com a tecnologia na palma da mão, até as pessoas físicas fazem essas coisas. Muito bem. Professor Rafael Chaves, professor de Economia e Finanças da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas. Obrigado pela gentileza aqui com a CBN. Um bom dia e até uma próxima.

Foi um prazer. Um bom dia. Até uma próxima, Galvão. Forte abraço.