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Brasil acerta ao reforçar cooperação com Bolívia no combate ao crime organizado

17 de março de 202613min
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Nenhum país, sozinho, consegue combater o narcotráfico porque ele atua em redes transnacionais, afirma Regiane Bressan. Segundo a professora de Relações Internacionais da Unifesp, o acordo fechado entre Brasil e Bolívia é muito importante, já que a fronteira entre os dois países é muito utilizada para o tráfico de drogas.
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Assuntos7
  • Acordo de cooperação Brasil-Bolívia contra crime organizadoTrafico Internacional de Drogas · Segurança na Tríplice Fronteira · Redes criminosas internacionais · Importância da cooperação bilateral · Integração Regional e Mercosul
  • Crise Energética GlobalAumento de importação de gás boliviano · Interdependência energética · Dutos e infraestrutura de gás · Desenvolvimento econômico brasileiro · Segurança energética regional
  • IA Operacoes MilitaresNarcotráfico como pretexto geopolítico · Primazia americana na região · Acordo de inteligência com Brasil · Classificação de facções criminosas como terroristas · Plano Colômbia como precedente · Acesso a recursos naturais e petróleo
  • Geopolítica de Trump, Xi e PutinLiderança regional e influência · Alinhamento de vizinhos com EUA · Soberania e autonomia latino-americana · Relações com Argentina e Chile · Contenção do avanço americano
  • Pragmatismo na Politica ExternaInteresses estatais acima de ideologia · Relações com governos de diferentes espectros · Independência de coloração partidária · Defesa de interesses nacionais
  • Ausência de Lula em visitaPriorização da Bolívia sobre Chile · Diferenças ideológicas com gestão Boric · Importância estratégica relativa de países vizinhos · Sinais de política externa brasileira
  • Integração Regional e MercosulIngresso da Bolívia no Mercosul · Peso e relevância nas decisões do bloco · Integração como necessidade histórica · Capacidade de cooperação regional
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Muito bem, aqui no CBN Madrugada, espaço para a gente falar um pouco mais sobre a visita do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, ao Brasil. Encontrou-se nesta segunda-feira no Palácio do Planalto com o presidente Lula. Encontro que teve como foco a cooperação energética entre os dois países, também fortalecimento da integração regional na América do Sul.

Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais na Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, especialista em América Latina. Regiane, muito bom dia, é sempre um prazer tê-la conosco aqui na CBN. Olá, Paulo. Olá a todos que nos escutam. É um prazer estar aqui conversando novamente com você. Bom, a gente vai falar sobre essa questão energética, que é muito importante, mas eu queria começar com a assinatura entre o presidente Lula e o Rodrigo Paz

cooperação para reforçar o combate ao crime organizado nas áreas de fronteira. Eu queria que você falasse um pouco da importância desse acordo entre Brasil e Bolívia nessa área de segurança internacional. Realmente, esse é um acordo bastante importante na medida em que crime organizado, narcotráfico, hoje em dia, configuram-se como temas

internacional. O que eu quero dizer é que são temas interdependentes. Atualmente, nenhum país sozinho consegue combater o narcotráfico porque ele atua em redes, redes transnacionais. Daí a importância desse acordo também, porque fazemos uma fronteira considerável com a Bolívia. Assim, já temos conhecimento que é uma fronteira muito utilizada pelo narcotráfico, daí a importância

deste acordo no marco, inclusive, do Mercosul e de outros acordos que vêm sendo firmados entre Bolívia e os países do Mercosul. Bom, esse acordo vem num momento em que essa questão da segurança internacional, do narcotráfico, do crime organizado, levanta um aspecto interessante também em relação aos Estados Unidos. O Brasil está ensaiando um acordo de cooperação com os Estados Unidos, principalmente na área de inteligência,

semana passada tivemos a informação de que o governo norte-americano ameaça classificar as facções criminosas brasileiras, PCC, Comando Vermelho, como grupos terroristas. Queria que você falasse um pouco desse aspecto, o perigo de os americanos interpretarem essas facções como grupos terroristas e se você vê alguma possibilidade realmente de um acordo com os Estados Unidos,

nessa área, na questão da inteligência, ou se dá para a gente ter algum tipo de acordo que vá além com os americanos, como, por exemplo, o Plano Colômbia, que vigorou durante muito tempo aqui na América Latina. Certamente os Estados Unidos estão utilizando o tema do narcotráfico para ter primazia na América Latina. Desde o documento expedido pelos Estados Unidos em 5 de dezembro de 2021,

nós temos muita clareza que a América Latina voltou a ser um território de prioridade dos Estados Unidos para que ele possa exercer sua influência e, ao mesmo tempo, ganhar benefícios nessa relação. Então, estou falando do petróleo, terras raras, recursos naturais. E, desde o início, Donald Trump vem utilizando o combate ao narcotráfico como uma cortina de fumaça,

como um pretexto para as invasões. Inclusive porque, tendo uma agenda, colocando um tema, pautando um tema internacional, ele não precisa de apoio do Congresso para atuar, para ter ações bélicas. Do contrário, por exemplo, ele não poderia invadir a Venezuela sem o apoio do Congresso americano.

do narcotráfico, de redes terroristas, como pretexto para sua atuação. Mas nós sabemos, por exemplo, que atualmente o maior mercado consumidor de drogas da América Latina é justamente a sociedade dos Estados Unidos. Portanto, a primeira ação que ele deveria tomar é reduzir, tentar políticas públicas de redução ao consumo.

em uma aliança internacional, começar a discutir o combate ao narcotráfico. Do contrário, a gente sabe que é apenas um pretexto para ter supremacia no nosso continente. A gente está conversando aqui no CBN Madrugada com a professora de Relações Internacionais da Unifesp, Regiane Bressan. Regiane, sobre a visita do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, um assunto importantíssimo na relação dos dois países, que é a questão energética.

Queria que você falasse um pouco sobre esse aspecto. O presidente Lula disse que, inclusive, quer aumentar a importação de gás da Bolívia. A questão energética é outra questão de interdependência. Ou seja, o mundo está consumindo mais energia. Ao mesmo tempo, esse se torna um tema mais ainda sensível com a guerra no Irã e com toda a dificuldade, por exemplo, do petróleo atualmente.

essencial aumentar o consumo de gás da Bolívia, lembrando que o Brasil já consome, nós já temos dutos há muito tempo trazendo o gás boliviano, por exemplo, para o sudeste brasileiro. Aliás, a Bolívia mais exporta do que consome o seu próprio gás. Não obstante, o Brasil deve continuar priorizando esse comércio e necessitando cada vez mais desse recurso

inclusive para manter o seu desenvolvimento. Por outro lado, para o Brasil é importante, nesse momento, firmar acordos, se aproximar da Bolívia, porque nós sabemos da dificuldade para o presidente Lula e para a política externa brasileira manter alguma liderança regional, influência, ou mesmo conter o avanço dos Estados Unidos. Na medida em que a Argentina e agora o Chile do Caste se voltarão muito num alinhamento direto e quase que automático

nos Estados Unidos. Assim, para o Brasil, mesmo numa situação tão difícil em relação à Venezuela, as incertezas do governo da Colômbia, né, Colômbia que vai passar por eleições presidenciais ainda esse ano, é importante que o Brasil consiga minimamente, com os seus vizinhos, obter alguma influência ou chances de conversa, diálogo e negociação. E a Bolívia, por mais que esteja agora num governo mais à direita,

do espectro ideológico, é importante que nós mantenhamos a Bolívia por perto, porque ela está ingressando no Mercosul e cada vez mais vai ter um peso, uma relevância nas decisões do bloco. Assim, é muito importante essa aproximação e a negociação para a energia. Só para terminar o raciocínio, Celso Amorim recentemente disse que energia e tantos temas ligados ao meio ambiente, entre outros, não tem vertente ideológica.

Ou seja, todos nós precisamos cuidar desses temas de interdependência. Assim, se torna mais um motivo para que tenhamos uma relação próspera e de vários acordos com o governo boliviano. O presidente Lula foi nessa linha também nessa segunda-feira, mas parece que ele está naquela ideia de que faça o que eu diga, mas não faça o que eu faço. E eu explico. O Lula disse nesta segunda que a integração regional não é um projeto ideológico,

uma necessidade histórica, diz que o futuro da nossa região depende da nossa capacidade de cooperar. Agora, não é um contrassenso, presidente Lula, falar isso nesta segunda-feira, na medida em que ele deixou de ir à posse do presidente do Chile, José Antônio Castro, na semana passada, professora Regiane?

presença nesse evento. Dessa forma, o governo Lula, o presidente Lula, optou por não comparecer a essa presidência. Ou seja, já sabemos da divergência ideológica entre os dois países e também preciso reforçar que atualmente a Bolívia representa ao Brasil uma prioridade muito mais estratégica do que o Chile, país que não faz.

fronteira conosco e nós não temos uma dependência de energia como temos no Chile. Assim, ao meu ver, foi uma decisão acertada. Ao mesmo tempo, eu entendo que o Brasil tem que tentar transpor essas diferenças ideológicas para continuar atuando e ganhando apoio pela soberania regional. A ideia não é o Brasil ser apenas um líder, mas é trabalhar

pela soberania e autonomia dos povos latino-americanos.

de Estado com o qual ele está lidando. Eu entendo aí a sua colocação, mas confesso que eu acho que o presidente Lula deixou ali, abriu espaço para que o Flávio Bolsonaro pudesse brilhar lá nesta solenidade e acredito que o presidente Lula, ainda que o Chile não tenha a importância que a Bolívia tem, como você destacou,

Eu acredito que não há agenda que seja mais importante do que a posse de um presidente de uma nação amiga. Eu achei bastante estranha a ausência do Lula.

é um passo que tem que ser muito bem mensurado. Daí, arriscar ou não é uma questão mesmo estratégica. E eu entendo que esse ano o Brasil vai continuar atuando com extrema cautela, porque nós sabemos que uma onda mais à direita, conservadora, está pairando na região. Daí a importância de mensurar os passos e entender o que pode garantir

leito transparente, democrático e livre aqui no Brasil. Muito bem, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo, especialista em América Latina, Regiane Bressan. Regiane, mais uma vez, muitíssimo obrigado pela gentileza aqui com a CBN, um bom dia e até uma próxima. Fico à disposição, Paulo. Um abraço a você, um abraço a todos que nos escutam. Até uma próxima. Até.