Escola, com Inteligência Artificial, vai precisar revisar seu papel, afirma educadora
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
- Transformação PessoalEscola como espaço de reflexão · Desenvolvimento do pensamento crítico · Construção de cidadania · Ambiente democrático · Protagonismo do aluno · Mudança dos objetivos educacionais
- Inteligência ArtificialComissão do Conselho Nacional de Educação · Estabelecimento de regras claras · Consulta pública · Referencial do Ministério da Educação · Processo de legitimação
- Educação com IAAumento do uso entre docentes · Economia de tempo · Ampliação do repertório pedagógico · Adaptação de conteúdos para alunos com diferentes níveis · Manutenção do protagonismo docente · Limites éticos do uso
- Transparência PúblicaIdentificação clara de conteúdo gerado por IA · Uso ético e responsável · Conscientização de alunos e professores · Contratos e combinados sobre uso
- Base Nacional Comum Curricular e IACultura digital · Cidadania digital · Competências digitais desde ensino fundamental · Alinhamento com novas tecnologias
- Impacto da Tecnologia no Processo CognitivoMudança na busca de informações · Redução da necessidade de memorização · Evolução do aprendizado · Comparação com a chegada da internet e Google
Muito bem, aqui no CBN Madrugada, espaço para a gente falar sobre educação e o assunto é dos mais importantes, que tem a ver com a inteligência artificial. Uma comissão do Conselho Nacional de Educação está preparando regras para o uso da IA por professores, escolas, também nas universidades. E sobre esse assunto a gente vai conversar com a diretora executiva da Associação Nova Escola, Ana Lígia Skaquete.
Lígia, muito bom dia, é um prazer tê-la conosco aqui na CBN. Bom dia, Galvão, prazer pra mim também. Ana, pra gente começar, eu queria que você falasse sobre a importância de estabelecer regras claras do que deve, do que pode, do que não deve, do que não pode ser feito com a inteligência artificial na área da educação. Bom, esse é realmente um tema super importante. Nós temos visto na nova escola que há um uso crescente entre os professores de inteligência artificial,
A gente acompanhou isso nos últimos três anos e a porcentagem de professores que utilizam inteligência artificial subiu de 23% para 53%. Então, a gente vê que tem um uso cada vez mais frequente e que isso precisa ser discutido, precisa ser regulado. Os próprios professores nos dizem também em pesquisa que eles sentem que é necessário ter um combinado de toda a comunidade escolar
tecnologias vão entrar na escola. Quando falamos de comunidade escolar, isso envolve a direção da escola, os alunos, os professores e até os familiares. Então, o Ministério da Educação já vem discutindo esse assunto e o Conselho Nacional da Educação também vai discutir agora nos próximos dias para, de fato, regular. E falar em regulação é essencial para que a gente não caia numa armadilha de dizer que isso precisa ser proibido, porque não é mais possível proibir.
sendo utilizado na sociedade amplamente, em muitas esferas, e a escola não pode simplesmente se distanciar dessa questão. Ela precisa reconhecer e, sim, conversar sobre como usar de uma maneira ética, responsável e significativa. E, de forma geral, quais são os limites que devem ser obedecidos? Quando a gente fala, por exemplo, é que tem vários aspectos. A gente pode falar dos professores, a gente pode falar dos alunos. Vamos começar pelos professores,
Já destacou aí que muitos deles estão utilizando. O que pode, o que não pode? Bom, o essencial quando a gente fala de professores é respeitar a centralidade, o protagonismo do professor. Então, o professor ainda é quem mais conhece a sala de aula, quem mais conhece a turma, quem toma as decisões. A inteligência artificial, assim como outras tecnologias, outras fontes de informação, serve para colaborar com o repertório desse professor.
ele ter ideias, para ele conseguir ganhar tempo. Uma coisa que os professores nos trazem muito é que eles economizam tempo. Eu ontem estava falando com uma professora, por exemplo, ela trabalha com nove turmas, Galvão. Então, tem nove salas diferentes. Cada sala tem 30 alunos, cerca de 30 alunos. Imagina quantas adaptações, quantas ideias, quantos planejamentos essa professora precisa fazer na semana dela. Ela trabalha em três turnos.
a inteligência artificial consegue apoiá-la nisso. Nós estávamos falando exatamente sobre isso, eu e essa professora, de como ela usa para adaptar conteúdos para os diferentes tipos de alunos que ela tem, para quando na turma tem um aluno que está mais avançado, um aluno que ficou para trás por algum motivo e ela precisa ir além do que o livro didático possibilita para ela. Ela precisa ter uma diversidade maior. E o que ela me trazia é que ao usar ferramentas desse tipo,
ela começa a ter mais ideias. Então, de fato, amplia o repertório dela. Não é simplesmente uma automatização do trabalho dela, não. É uma fonte de ideias, uma fonte de opções para ela trabalhar na sala de aula. Então, esse é o melhor uso, é um uso que potencializa o professor. Um uso negativo seria, de alguma maneira, achar, bom, então não preciso mais do professor, vou colocar aqui o aluno com essa máquina,
de tudo. Não, aí esse é um limite, um dos limites que está sendo discutido e que inclusive no referencial do Ministério da Educação, que foi publicado hoje, ele traz essa importância de olhar para ferramentas que facilitam o trabalho docente, que fortalecem o trabalho do professor, inclusive para que o professor possa possibilitar a formação de um pensamento crítico, de um aluno que também é um cidadão que consegue usar uma tecnologia como
conversa com ética e com responsabilidade. Eu estou vendo aqui dois aspectos interessantes também, a ideia de que o professor, quando for apresentar alguma coisa que tenha sido produzida pela inteligência artificial, isso tem que ficar claro para o aluno, para o universo escolar e também a ideia de que ele não utilize para fazer correção, por exemplo, de uma redação, de uma prova dissertativa, não é?
que você trouxe da transparência, ele vale para muitos níveis dessa conversa. Então, o primeiro nível é quem está desenvolvendo inteligência artificial. Então, por exemplo, uma ferramenta que utiliza inteligência artificial, ela precisa explicitar isso. Então, você como usuário, um professor ou um aluno como usuário, ele precisa ver, olha, a partir daqui, o conteúdo que você está vendo foi gerado por inteligência artificial. Então, você precisa revisar isso.
professor se utiliza, assim como o aluno, precisa trazer essa informação também. Então, o professor precisa ter essa consciência e precisa combinar isso com seus alunos. Então, por exemplo, mais uma vez, não é o caso de proibir que o aluno use inteligência artificial para fazer qualquer trabalho escolar. Não, ele vai usar. Mas como ele vai usar? É aí que está o combinado. Bom, então o aluno pode usar para buscar determinadas informações, mas não pode usar para simplesmente
e colar uma atividade que foi feita 100% pela inteligência artificial. Então, esses limites têm que ser combinados ali na escola. E muitas vezes, no momento que uma tarefa é passada, o professor pode fazer esse combinado com os alunos dele. Eu costumo dizer que é igual quando a gente tinha as enciclopédias, sabe, Galvão? Algumas atividades faziam com que o aluno tivesse simplesmente que copiar a enciclopédia e apresentar para o professor.
Outras atividades faziam ele refletir sobre o que a enciclopédia estava trazendo, buscar outras fontes, construir o próprio texto para dar uma resposta. Então, agora também, e a fonte precisa ser citada, né? Então, se a inteligência artificial é parte da construção do trabalho, ela também precisa ser citada. Sim. A gente está conversando aqui na CBN com a Ana Ligia Escaquete, que é diretora executiva da Associação Nova Escola.
que há a ideia de que a inteligência artificial passe a fazer parte também do currículo de alunos do ensino superior. Queria que você falasse um pouco sobre isso. Quais são as áreas em que a IA vai ser mais utilizada? E eu imagino que isso é muito importante, porque a partir de agora a gente tem que saber como perguntar. Acho que essa é a grande questão, como elaborar as questões para você poder utilizar da melhor forma possível
ferramenta, não é? Sim, sim. Nesse momento é difícil, Galvão, dizer exatamente quais áreas vão ser mais afetadas, porque o que nós estamos vendo é só o início, né? O início de uma nova possibilidade muito grande. É igual quando nós vivemos o início da internet. A gente fazia, trocava mensagens, a gente fazia pesquisas, mas a gente ainda não conseguia visualizar tudo que a internet tornou possível, né?
como hoje a gente fazendo conferências online com pessoas em qualquer lugar do mundo, enfim. Então, o que a gente está vivendo é muito o começo. Mas, quando a gente olha para o ensino superior, a inteligência artificial vai provavelmente ter que ser um assunto que está presente em todas as carreiras, não só no ensino superior, como também no ensino médio, o ensino médio técnico, o ensino médio regular, o ensino médio em tempo integral, enfim, todos eles vão precisar olhar para a inteligência artificial como um conteúdo.
Mas também desde a educação básica, desde o ensino fundamental, é importante que a escola seja um espaço em que os alunos podem refletir sobre as tecnologias que existem na sociedade e sobre como utilizá-las. Então, esse é um conteúdo a ser trabalhado. A Base Nacional Comum Curricular já prevê que a cultura digital, a responsabilidade, a cidadania digital sejam trabalhadas ao longo do ensino fundamental e do ensino médio.
Voltando para a sua questão, desculpa, sobre o ensino superior, até na formação dos professores é previsto que seja incluído na pedagogia uma visão sobre inteligência artificial, sobre como isso interfere, impacta o trabalho do professor. Então também vai ser importante para os professores e para muitas carreiras, não só para as carreiras de tecnologia, ligadas à tecnologia, mas para todas as outras carreiras que também vão ser impactadas por professores.
por essas novas ferramentas. Agora, Ana, a partir da definição dessas regras, dessas normas para utilização, isso pelo Conselho Nacional de Educação, isso passa a valer para todas as escolas? Como que isso vai ser difundido? Existe uma possibilidade de se transformar também em legislação, ou seja, algo que vá lá para o Congresso Nacional ou o próprio Conselho Nacional pode definir esses aspectos? Isso tem força para ser seguido
escolas, hein? É, isso vai ter força pra ser seguido pelas escolas, vai valer pra todas as escolas, mas antes disso passa por um processo longo, né, que começa no Conselho Nacional da Educação, depois vai ter uma consulta pública, então as pessoas vão poder ler, vão poder opinar, vão poder questionar, né, o que elas julgarem necessário e depois isso vai pra plenário até chegar na homologação do Ministério da Educação, né, e aí sim passa a ser
força de lei, passa a ser realmente uma regulamentação sobre o que pode e o que não pode ser feito com inteligência artificial nas escolas. Nesse meio tempo, o Ministério da Educação lançou hoje um referencial que também é bem completo, bem abrangente, que não tem força de lei, mas que já descreve, já colabora com as escolas para que elas possam refletir sobre inúmeros aspectos. São 241 páginas, então tem muita informação.
todos os aspectos ligados aos usos pelos alunos, pelos professores, pela gestão da escola, pela Secretaria da Educação, enfim, é bem abrangente e também importante, porque como isso já está muito dentro das escolas, a gente não tem tempo a perder. Nós temos que, desde já, tomar cuidado, refletir e tratar disso de uma maneira coletiva mesmo. É um impacto grande para a sociedade e a gente precisa reconhecer e lidar com essa questão.
Ana, tentando abranger aqui um aspecto que eu acho que é muito importante também, que é como a implementação da inteligência artificial, você mesmo lembrou que a gente está no começo aqui e não há dúvida nenhuma que isso realmente está acontecendo, mas como que isso vai transformar o processo de ensino-aprendizagem? Porque quando a gente volta um pouquinho, lembra quando veio a internet, quando surgiu o Google, por exemplo, para a gente foi uma novidade enorme, eu estou com dúvida de alguma coisa,
eu vou lá, coloco e o Google vai me mostrar um site, vai me encaminhar para algum local onde eu vou conseguir ter essa informação. Isso já mudou bastante a nossa forma de buscar informações, obviamente, diretamente, mas eu acredito assim, até pensando na ideia de que, bom, a partir de agora, eu não preciso decorar uma data, eu não preciso saber dados tão específicos, porque isso eu vou lá e consigo na hora,
entro lá no Google. O que vai acontecer na nossa cabeça, no nosso processo cognitivo, a partir do momento em que houver tanta facilidade para ter informações por meio da inteligência artificial? E como a escola vai lidar com isso, Ana? É super relevante, Galvão, olhar para isso. Quando a gente fala que a inteligência artificial precisa ser um conteúdo a ser trabalhado na escola, e mesmo boa parte dessas regras que estão sendo discutidas agora,
elas são sobre essa primeira fase de mudanças. E muitas mudanças ainda virão realmente. E o que a gente enxerga para o futuro é que provavelmente o trabalho do próprio professor vai mudar um tanto também. Porque uma vez que os estudantes vão ter mais acesso, acesso com mais facilidade àquele tipo de informação que é mais fácil de obter, informações que são mais fáceis de decorar,
enfim, informações mais simples, a escola vai precisar ter cada vez mais um espaço de reflexão, um espaço de discussão, de debate, de construção de pensamento crítico. Isso já é esperado, já é indicado, inclusive, pela Base Nacional Comum Curricular. Já é esperado que a escola seja um lugar em que o aluno é protagonista, em que o aluno tem um ambiente democrático, que ele tem um ambiente em que ele pode se expressar, em que ele pode exercitar a cidadania dele,
aprender a ser um cidadão, mas não acontece ainda em muitas escolas. A gente ainda está vivendo um período de transformação. E com a inteligência artificial, com essas novas tecnologias, facilitando uma parte do acesso ao conhecimento, a escola vai precisar revisar ainda mais o papel dela. Então, de fato, mais um motivo pelo qual os professores precisam de apoio é porque o trabalho deles
abordam nas escolas, também vão mudar bastante nos próximos anos. Perde força um pouco a ideia do ensino apenas conteudista e mais aquela ideia de ensinar o aluno a pensar, acho que é mais ou menos isso, né? Exatamente, exatamente. Criar a escola como um lugar que cria competências, que não só ensina conteúdos específicos, mas também ensina como exercer a cidadania,
de como agir com respeito em sociedade, com pessoas diferentes de cada um de nós. Então, a escola é um espaço para isso tudo e cada vez mais esse vai ser o lugar central dela. Muito bem. Ana Lígia Escaquete, diretora executiva da Associação Nova Escola. Ana, obrigado pela gentileza aqui com a CBN. Um bom dia e até uma próxima oportunidade. Muito obrigada, Galvão. Um ótimo dia para você.