Episódios de As Notícias Mais Recentes da CBN

4 em cada 10 brasileiros não sabem citar o nome de uma mulher no poder

07 de março de 202627min
0:00 / 27:08
Em entrevista ao Revista CBN, a cientista política e estrategista cultural Beatriz Della Costa, fundadora do Instituto CLARICE, e Mariana Ribeiro, executiva e estrategista de impacto e cofundadora da CLARICE, comentam uma pesquisa que revelou que 4 em cada 10 brasileiros não sabem citar o nome de uma mulher em posição de poder. Segundo elas, apesar de alarmante, dados nos alerta e reforça a necessidade de ampliar a presença feminina e transformar as estruturas de poder.

Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices

Assuntos12
  • Invisibilidade FemininaDesconhecimento de nomes de mulheres em posições de poder · Discrepância entre presença real e imaginário coletivo · Dados da pesquisa: 4 em cada 10 brasileiros não sabem nomear mulheres poderosas · Mesmo entre mulheres: 44,9% não souberam responder · Necessidade de ampliar imaginário sobre poder feminino
  • Historia da CienciaInstituto Clarice realizou a pesquisa · Entrevista com 60 mulheres líderes em diferentes setores · Metodologia: intelectuais, formadores de pensamento e protagonistas de 11 setores · Revelação de dados alarmantes e inspiracionais simultaneamente · Objetivo de transformar narrativas sobre poder feminino
  • Transformação PessoalRuptura com poder baseado em controle, domínio e exclusão · Poder voltado para o coletivo e distribuição de valor · Cuidado como ética e valor inegociável · Poder como verbo, ação, não como posse · Produção de resultados econômicos e sociais diferenciados
  • Inteligência sensível e emocional no exercício de poderIntegração do sensível e das emoções na prática do poder · Resgate da inteligência intuitiva abafada historicamente · Emoções como inteligência válida e estratégica · Conexão com o corpo como ferramenta de poder · Diferença entre inteligência racional e sensível
  • Exílio e redençãoApagamento do sensível, prazer e emocional na sociedade · Afeta não apenas mulheres, mas homens também · Impacto em saúde mental: 80% dos suicídios no Brasil são de homens · Internações psiquiátricas de jovens (19-25 anos) · Projeto político histórico de abafamento das inteligências sensíveis
  • Estratégia cultural para transformação de imagináriosTrabalho transversal em múltiplos setores da sociedade · Parceria com empresas, sociedade civil e setor criativo · Novas histórias e narrativas sobre mulheres poderosas · Retratação diferente de mulheres em mídia, cinema, novelas · Identificação e identidade com novo tipo de poder
  • Empoderamento FemininoInfiltradas: usam e corrigem o sistema por dentro · Inventivas: trazem desobediência e novas ideias · Místicas: trazem linguagem sensível para o poder · Multiplicadoras de horas: gesto do legado e abertura de portas · Coreógrafas: trazem o corpo para o fazer cotidiano
  • Atuação de Lucia na políticaOrganizações digitais disputam crenças e sistemas de valores · Movimentos organizados contra perspectivas de igualdade de gênero · Imaginário brasileiro de mulheres como vítimas predomina · Falta de imaginário brasileiro sobre mulheres líderes · Necessidade de trabalho anual, não apenas no 8 de março
  • Legado e multiplicação de poderComportamento de multiplicação em lugar de acúmulo · Objetivo de deixar legado ao ocupar posições · Abertura de portas para outras mulheres · Distribuição de oportunidades e responsabilidades · Manutenção de espaços abertos para futuras gerações
  • Violência contra a mulherNecessidade de políticas públicas para enfrentar violência · Importância de legislação e ações de lei · Insuficiência de políticas públicas sem transformação cultural · Abuso de poder contra corpos femininos · Intersecção entre violência e invisibilidade de poder feminino
  • Genero e PoderDificuldade de permanência das mulheres em posições de poder · Desgaste emocional sustentado sem transformação estrutural · Necessidade de transformar estruturas, não apenas ocupá-las · Desafio de sustentabilidade a longo prazo · Exigência de mudança sistêmica paralela
  • Acessibilidade e InclusaoVoto Feminino no Brasil · Crescimento na ocupação de espaços econômicos · Presença cada vez maior em setores estratégicos · Cultura e Sociedade · Comunidades tradicionais e espaços diversos
Transcrição52 segmentoswhisper-cpp/large-v3-turbo

Revista CBN. Duas horas, trinta e cinco minutos. Revista CBN. Brasil. Ela está lá, mas você não vê. Quatro em cada dez brasileiros não sabem citar o nome de uma mulher no poder. Uma pesquisa inédita do Instituto Clarice revela um dado alarmante

a realidade e o imaginário brasileiro, conforme eu disse aqui para você. 4 em cada 10 brasileiros não conseguem nomear uma mulher que exerça poder no país hoje. Entre as mulheres ouvidas, 44,9% também não souberam responder, números que mostram uma imensa contradição. Por quê? 52% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. Elas são mais escolarizadas e ocupam espaços cada vez mais

estratégicos da economia, cultura, da política, as comunidades tradicionais. E para falar sobre esse baita estudo do estúdio Clarice, eu converso com duas mulheres, a cientista política e estrategista cultural, fundadora do estúdio Clarice, ela também é empreendedora e cientista social, que é a Beatriz Della Costa, inclusive ela é autora, coautora do livro Feminismo em Disputa, da série

Leitas e do podcast Jogo de Cartas. E converso também com a Mariana Ribeiro, que é executiva, estrategista de impacto e cofundadora de Clarice. Executiva, comunicadora, enfim, tem um currículo maravilhoso, colunista da Fast Company Brasil. Estou aqui com as duas, a Beatriz. Qual que é a Beatriz das duas? Eu. Você. Aqui. Boa tarde. Boa tarde, Paetra. Tudo bem? Tudo ótimo. Melhor agora de estar aqui com vocês.

Mário, boa tarde. Boa tarde, Petra. Feliz demais de estar aqui contigo hoje. Eu sou uma caçadora de coisa boa nas redes sociais. Eu também ando pissurada em treinar meu olhar para identificar imagem falsa de inteligência artificial. Eu tenho algumas manias. E eu descubro coisa muito logo, assim. Eu não sei se meu algoritmo está muito educado, não sei. Eu só sei que o Estúdio Clarice, desde que começou a pipocar muito pouco o seguidor, eu já estava desesperada para trazer vocês aqui no Revista CBN.

Melhor dia não há, embora a pesquisa seja desesperadora, para dizer o mínimo. Me conta um pouco da pesquisa que vocês realizaram sobre imaginários de poder das mulheres brasileiras. O que foi esse número que eu acabei de contar aqui para os ouvintes? E o que esse número revela sobre a questão de como a gente sabe as mulheres, falar o nome das mulheres que estão no poder ou não sabe falar esses nomes? O que vocês aferiram com essa pesquisa?

vocês estão vendo com pesquisas e análise que vocês fazem sobre sociedade. Petra, a gente vai jogar uma bola aqui, eu e a Mari, para contar para você nas nossas duas vozes aqui. E obrigada pelo espaço mais uma vez. E sim, eu imagino que você esteja treinando o seu algoritmo. Passa para a gente depois, para a gente poder também treinar os nossos. Mas a pesquisa do Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras vem justamente, nasce com o desejo de revelar

também mais inspiracional de como as mulheres estão transformando o poder. Porque a gente tem um... Esse dado é alarmante, mas também tem coisas boas para contar, não só... E justamente o que esse dado mostra para nós é que a gente precisa reformular e a gente precisa encher o nosso imaginário, preencher nosso imaginário de outras histórias de poder em que as mulheres caibam, em que as mulheres também possam mostrar sua potência e não só

mostrar hoje o nosso... E não só ser essa coisa tão dissonante quando a gente está no poder. A mulher no poder, a gente fala que ou ela é excessiva ou ela é uma exceção. E a gente precisa mudar essa forma como a gente conta das mulheres no poder. Então, esse estudo nasce da provocação de que nós precisamos mais mulheres no poder, com poder e transformando o poder. Porque esse é o objetivo que a gente tem com essa pesquisa.

E o dado, ele revela o que é fato. E eu faço um convite aqui para todas as ouvintes e ouvintes, de todos os ouvintes, de pensar. Pensa em uma mulher poderosa agora e responde na sua cabeça. A gente demora um tempo para responder isso. E agora eu vou jogar para a Mari a bola para lhe explicar por que a gente demora tanto para responder essa pergunta. Obrigada, Bia. Obrigada, Petra, de novo pelo espaço.

Eu acho que vale muito dizer que a nossa observação, que não é uma observação só da Clarice, é fácil de ver isso, é de que o imaginário de poder da mulher brasileira hoje está muito sedimentada no espaço doméstico ainda. Então, quando a gente faz essa pergunta sobre quem é a mulher de referência na sua vida, quem é uma mulher que te inspira, via de regra as pessoas mencionam, minha mãe, minha tia, minha avó, pessoas que foram cuidadoras e que trouxeram de alguma forma muito presente,

esse papel na vida de cada indivíduo. E não tem nada errado nisso. Dentro de casa, a gente é, inclusive, chamado de patroa. Se a gente não manda na nossa casa, a gente tem que dar satisfação para alguém, normalmente, a respeito disso. Então, a questão é, como que a gente faz para entender as mulheres no espaço público? Porque a gente, embora ainda estejamos subrepresentadas na maior parte dos campos decisórios da sociedade, da política, a economia, passando pelas empresas,

e pela cultura, nós já estamos presentes. E estamos provocando revoluções, muitas vezes invisíveis e muitas vezes silenciosas. Então, o propósito dessa pesquisa é justamente abrir o olhar da sociedade brasileira para o que as mulheres já estão propondo a partir do momento em que elas ocupam espaços de poder e como elas estão ocupando e exercendo poder a partir de outras lógicas, de outras éticas, de outros paradigmas e produzindo outros resultados.

que, por falar nisso, são os resultados que a gente mais precisa para uma sociedade que está desacreditada do futuro, que está cada vez mais hiper individualista e que está realmente buscando respostas num passado reescrito para tentar encontrar soluções para um presente muito complexo. Então, as mulheres, na nossa visão, estão trazendo abordagens profundamente inovadoras, estão trazendo soluções profundamente necessárias

com essa pesquisa, é como a gente pode fazer para alargar o imaginário da sociedade para que as mulheres tenham espaço para poder trazer essas soluções, essas inovações com a força que a gente precisa. Porque é o que vocês colocam, não é de forma alguma a ausência de mulheres nesses espaços e algo que vem crescendo ainda precisa crescer cada vez mais, mas é a semiótica, é a conexão do poder com o feminino.

Poder, imediatamente, o imaginário que vocês trouxeram, a gente já associa com o homem, com o terno e gravata, com aquela imagem. É a associação do signo, do símbolo daquela palavra poder. Gente, o poder está cada vez mais derretendo. A gente vê aí o que são os homens de poder, se a gente pode falar de Brasil, a gente pode falar dos Estados Unidos, de Epstein. E você traz, Mari, uma questão muito bacana, que é a transformação da lógica.

outras formas, e as mulheres estão trazendo isso. Me fala um pouco do que vocês estão percebendo dessa transformação, tanto das mulheres no poder, quanto da transformação, do que a gente quer do poder, como é que a gente quer exercer esse poder, e isso, lógico, é uma transformação profunda de sociedade, né? Perfeito, Pétria. Eu vou começar e depois eu vou passar a bola para a Bia, mas vale dizer que na nossa pesquisa a gente entrevistou 60 mulheres líderes, tanto mulheres que são intelectuais, formadoras de pensamento,

pensadoras, psicanalistas, autoras, escritoras, mulheres que estão de fato implicadas numa formulação do que é ser mulher e do que é o poder, quanto mulheres que a gente chama de protagonistas, que são as mulheres que a gente buscou em 11 setores diferentes da sociedade para contar para a gente suas vivências e suas experiências a partir de espaços de poder. E o que elas estão propondo, que na nossa visão é uma ruptura com esse poder padrão,

ancora no controle, no domínio e na exclusão e na opressão, é uma visão de poder que é muito mais voltada para o coletivo, é uma visão do poder que é muito mais voltada para a distribuição de valor compartilhado, é uma visão de poder que é muito mais voltada principalmente para o que o cuidado não é algo que aprisiona essas mulheres, não é o cuidado clássico no sentido de uma expectativa de gênero que eu estou cumprindo, é o cuidado como uma ética de um novo jogo que elas querem jogar.

é algo como um valor inegociável. E isso faz com que essas mulheres tenham uma liderança determinantemente diferente e que possam produzir resultados também diferentes, tanto do ponto de vista daquilo que elas alcançam de resultado econômico, mas também de resultado social a partir da liderança delas. E isso é muito interessante da gente observar. Nos 11 setores diferentes, isso teve muito presente na fala de cada uma delas. Então, não era o poder em função de um acúmulo,

O poder como verbo e não o poder como experiência interessada de acúmulo para mim mesmo. Porque o poder, se não for para a gente ter abundância, distribuição e inteligência, eu falo muito desse termo de inteligência. Quer complementar, Beatriz?

desse objetivo, para além da transformação, a gente vê, viu nelas todas uma preocupação sobre o legado. Elas chegam nessas cadeiras, elas chegam na posição, elas querem chegar nessa posição de poder, mas quando elas chegam lá, elas falam, mas é só isso? Não, eu preciso fazer algo a mais com isso. Então, a questão, a gente chama isso de também um objetivo de legado, mas que elas estão sendo multiplicadoras, é um comportamento de multiplicação,

de eu não só estou aqui para, tanto da concentração do poder que a gente falou, mas eu estou aqui para distribuir, mas eu estou aqui para abrir porta, para manter, para que esse lugar continue aberto para mais mulheres permanecerem. Porque um dos desafios das mulheres nesses espaços de poder padrão é justamente, você não consegue ficar tanto tempo, é muito desgastante para a mulher se manter nesse lugar de poder. Então, nós temos, quanto mais a gente chega...

Ele é antinatural, então não dá para a gente sustentar muito tempo se a gente não transformar ele. E você falou uma coisa antes da gente começar a entrevista, que eu falei, olha que interessante. Você falou da sensibilidade, do sensível. A gente também conseguiu capturar nesse comportamento das mulheres essa integração do sensível na prática do poder, das emoções. As emoções são inteligentes. A gente chama a Clarice, só para contar para você aqui, por causa da Clarice Lispector,

E é por conta também dessa, ela chama da inteligência sensível. E as mulheres praticam essa inteligência sensível no poder. A gente está falando assim, Tietra, é muito importante dizer, não são todas as mulheres. São essas mulheres que estão com o objetivo de transformar o poder. E a gente quer dar luz a essa história, porque essa história, conforme a gente conta mais sobre esse comportamento, sobre essas mulheres, a gente vai gerando um movimento, uma identificação em que as mulheres possam sentir

quando elas usam a intuição, quando elas usam a emoção, quando elas percebem o corpo delas, elas estão praticando o poder. E isso é uma estratégia. Isso é validar esse caminho também. Não é só o racional. E isso faz a gente produzir uma outra lógica de poder, um outro sentido de poder. Um poder, como disse a Mari, que distribui, um poder que está muito mais preocupado

produção da vida do que com a pulsão da morte, com a pulsão da exclusão. E é esse movimento que as mulheres estão convidando, não só outras mulheres, Petra, é convidando todos nós, os homens também. Porque eles também... É inclusivo. É inclusivo. É inclusivo. O poder das mulheres não é contra os homens, não é tirar o poder dos homens, é transformar o poder, porque a gente sabe que homens também

sofrem com esse sistema. Que esse sistema de poder, ele leva homens pra guerra, ele tira vidas, ele... A gente só falou assim, no extremo, olhando pro que tá acontecendo hoje no mundo. Mas o que a gente vê, o que a gente quer trazer aqui é que as mulheres estão abrindo esse caminho. A gente tá abrindo essa clareira pra que mais mulheres possam entrar e que esse poder se transforme pra que ele seja um poder, um tipo de poder que produza vida,

Criatividade, transformação, futuro. Você entende? Então, a gente está olhando para esse... Por isso que a gente quis... Porque as pessoas perguntam, mas por que mulheres? Porque a gente está nas margens. E quem está nas margens consegue ver o centro, o que tem que ser transformado. E a gente está trazendo elementos novos. Então, a gente tem alguns comportamentos que a gente traz no estudo que muitas de nós, mulheres, a gente pode se ver.

A gente fala que as mulheres são, vou setar alguns deles bem brevemente. A gente fala um que é as infiltradas, são as mulheres que conseguem usar o sistema e mudar o sistema por dentro. As inventivas que, por trazerem outros elementos, conseguem, pela desobediência do sistema, transformar uma nova, trazer uma nova ideia, uma nova lógica, uma nova forma de fazer. Uma mídia, por exemplo, uma mídia que é voltada para as mulheres.

desobediente, criar uma mídia diferente. A gente chama outro comportamento que a gente brinca, que são as místicas, que é trazer a linguagem sensível pro poder, as multiplicadoras, que é o gesto do legado, e as coreógrafas que trazem o corpo, porque quando a gente começa a trazer o corpo pro nosso fazer e sair um pouco do som mental e voltar e conectar com o nosso corpo, a gente consegue entender que quando a gente sente um

frio na barriga, quando a gente se sente desconfortável naquele lugar, isso é indício para nós, inteligência, para que a gente possa ajustar e construir e falar, pô, isso aqui eu estou desconfortável, isso não está bom para você, não tem que permanecer, a gente tem que transformar isso para você, o seu corpo tem que estar feliz. Então, a gente traz esses comportamentos que são ilustrativos, mas que mostram como as mulheres estão caminhando e construindo esse poder com muitos outros sentimentos,

sentidos que não só o racional, que não só o lógico desse tipo de poder. É tão profundo que vocês estão trazendo. 2025, agora novembro, eu lancei meu segundo livro, Como Sei o Que Sei, o desenvolvimento da IA, a nossa inteligência ancestral. Eu falo sobre intuição, que eu venho chamando de inteligência intuitiva. E muitas vezes, antes do livro ser lançado, eu falava assim, meu livro é sobre intuição. A pessoa fala, ai, que mística. Gente, é um dos meus maiores poderes.

Estou há 20 anos aqui numa empresa, numa emissora de all news, de informação, e eu sempre usei a minha inteligência intuitiva, e eu quero que outras pessoas... E aí, quando vocês, a minha querida Beatriz Alacosta, cientista político, estrategista cultural, e a Mari Ribeiro, executiva, estrategista de impacto, executiva, comunicadora, trazem esse repertório com pesquisa, a inteligência intuitiva precisa ser aprendida,

só aprendida, porque a gente tem isso natural, mas ela é abafada e tem histórico para isso. Um projeto político de abafamento disso, não só em mulheres, mas em corpos colonizados, corpos indígenas que usam isso há milênios no saber e no diálogo com a sociedade e a natureza. Eu queria saber de vocês, nessa véspera de Dia Internacional da Mulher, porque muitas das violências cometidas, tanto o abuso de

poder, quanto a nossa dificuldade pra chegar no poder, quanto a violência doméstica, a violência contra os corpos femininos, é porque muitas das nossas inteligências, elas não só foram ceifadas, como abafadas, e a gente mesmo não acredita nelas. Qual que é o caminho que vocês veem, inclusive com Clarice, que vocês têm hoje, que fundaram, no fortalecimento desse novo repertório, como vocês mesmas disseram, para homens e mulheres, porque não é só sobre ser mulher, e não é só para as mulheres,

Isso que é muito interessante, né, gente? Sim. A gente chama esse processo de exílio do feminino na nossa pesquisa. E o exílio do feminino não é algo que atinge só as mulheres. Esse apagamento do sentir, esse apagamento do prazer, esse apagamento de tudo que é da ordem do emocional e do sensível, ele também está presente na vida dos homens e com efeitos nefastos. Eu estava observando algumas pesquisas dessa semana

das mulheres e me deparei com um dado que me chocou muito, que 80% dos casos de suicídio no Brasil são de homens. E a maior parte das internações por saúde mental no SUS são de jovens entre 19 e 25 anos. Então, o exílio do feminino não é o exílio das mulheres apenas, é um exílio que toca a sociedade como um todo e que vai apagando esses saberes, essas inteligências de uma maneira que elas ficam interditadas e passam a figurar como algo da ordem do proibido,

ou do desnecessário, ou daquilo que atrapalha muito mais do que sendo um mecanismo humano na nossa orquestração enquanto sociedade. E quando você traz isso, Petra, acho que do ponto de vista do que a gente tem observado, existe uma orquestração cultural muito presente em torno desses temas, principalmente com movimentos que têm uma organização digital enorme, como você sabe, movimentos Incel, movimento Red P, movimento Sigma.

estão buscando, no fundo. Eles estão disputando a nossa cultura, eles estão disputando o nosso modelo de crença, eles estão disputando sistemas de valores. E a gente fala muito sobre a violência de gênero do ponto de vista da política pública e daquilo que a gente precisa fazer no sentido da lei. Isso importa muito, é totalmente urgente fazer política pública para tratar e enfrentar a violência de gênero. No entanto, se a gente não disputa crenças e convicções da sociedade, no fundo, se a gente não está disputando a cultura da sociedade,

as histórias que a sociedade está absorvendo e contando, esse trabalho é sempre um trabalho insuficiente, porque é um trabalho que contorna comportamento e conduta, mas ele não contorna a crença e as convicções. E é a partir das crenças e das convicções que a sociedade legitima e naturaliza determinados comportamentos. Então, hoje, por exemplo, as mulheres vítimas, existe um imaginário brasileiro muito forte em torno de mulheres enquanto vítimas.

enquanto mulheres líderes. Isso é um trabalho para a gente fazer. E na Clarice, a gente acredita que esse trabalho é um trabalho de estratégia cultural. É um trabalho da gente ter novas histórias, novas narrativas, novas personagens, da gente falar desse tema insistentemente o ano inteiro. 8 de março é lindo, a gente agradece, mas nosso playground não é só no mês de março. A gente precisa trabalhar o ano inteiro nessa pauta. Ai, eu quero vocês aqui, vocês vão toda semana. Vamos! Eu já estou super inspirada.

Já aceitei esse convite. O Instagram tá lindo de vocês. Imagina os projetos que vocês não têm feito. Vocês trabalham com empresas também, com sociedade civil? Como é que é? A gente trabalha... Bom, a gente é bem novinha, né? A gente começou, a gente tá assim... Esse é o nosso primeiro projeto que a gente tá colocando público, assim. Mas a gente trabalha com empresas, a gente trabalha a partir da sociedade civil. A gente entende, Petra, que esse tema, ele é transversal.

das mulheres brasileiras. A gente não está falando só de política, a gente não está falando só de um ponto da sociedade. A gente está falando de mulheres em todos os lugares, do ativismo, do corporativo, da cultura, na construção de roteiristas, de mulheres que constroem novelas, filmes, etc. Também as lideranças de base estão em todos os lugares. Então, a nossa atuação, quando a gente fala de linguagem cultural, que a Mari está falando, a gente tem um trabalho também,

junto ao setor criativo, que é como que essas histórias são retratadas. Porque o imaginário, de fato, porque senão a gente vai ficar... Isso tudo que a gente está falando, você falou, é muito profundo e é porque o imaginário é algo da ordem interna também. Então, a gente interna, eu digo, do nosso eu, de quem somos, do que nos constrói. Então, nós seres humanos, a gente vive por histórias, a gente vive...

é uma construção de histórias que nós contamos uns para os outros. Então, se a gente não muda a forma como as mulheres são retratadas, e ainda as mulheres são retratadas na cultura, nos filmes, ou elas estão emulando o poder masculino, ou elas ainda também estão repetindo o padrão de onde as mulheres devem ficar, mas a gente não está conseguindo ainda transferir um imaginário de uma mulher poderosa que usa todos aqueles cinco elementos

que eu falei para você. Então, como é que a gente consegue contar histórias com esta perspectiva para que nós, mulheres, quando a gente assiste, a gente se identifique com aquilo? Porque não necessariamente eu vou me identificar sempre com uma mulher que está ali controlando, a dona do mundo, o poder, aquela coisa que como a gente fica emulando essa ideia do poder masculino. Então, a gente vai gerar essa identificação, essa identidade, essa identificação com outra identidade, essa identificação com outro tipo de poder.

O setor criativo nos é muito caro porque é ali que a gente mexe um pouquinho mais no imaginário. É onde a gente começa... Sendo essa diferença. É impressionante. E você, a mídia, por exemplo, o jornalismo, como a gente fala de uma mulher poderosa? Como que a gente vai retratar uma mulher que lidera uma grande empresa ou um país? A gente teve o exemplo de uma mulher que foi presidente no Brasil e como a gente retratou ela.

Acho que a gente não quer fazer isso de novo. Então, como é que a gente vai fazer melhor? E vai fazer diferente? E vai fazer para falar com as mulheres que estão entrando na política, mostrando outro lugar também, outra forma de estar, para que esse número de um em quatro, uma entre quatro pessoas não conseguem nomear uma mulher, possa ser modificado. Que a gente consiga rapidamente identificar. Sigam lá, essa curadoria do Revista CBN Termina Agora, eu contando para vocês e falando para vocês

Instagram, arroba Estúdio.Clarice, sigam o Estúdio Clarice, vejam as coisas maravilhosas que estão sendo colocadas lá, mulheres entrevistadas, pesquisa, como elas trouxeram aqui pra gente, eu tô absolutamente encantada, lisonjeada de ter vocês duas conversando comigo hoje, nesse sábado, que foi um programa particularmente especial, com entrevistados, eu não tenho palavras, e eu não tenho palavras pra dizer a minha alegria de estar aqui com vocês, e quero vocês mais vezes aqui comigo.

Beatriz Della Costa, que estava falando agora, cientista política e estrategista cultural, uma das fundadoras de Clarice, currículo maravilhoso, e a Mariana Ribeiro, executiva e estrategista de impacto, cofundadora da Clarice, executiva, por aí vai, mulheres poderosas, contando para a gente sobre esse repertório imaginário e um mundo melhor, porque a gente nasce mulher, nasce uma causa. Eu não canso de falar sobre isso. Ser mulher é ter uma causa, e isso é muito lindo.

vocês. Tô ansiosa por mais pesquisas e mais projetos e até uma próxima. Um beijo e sucesso!