Episódios de As Notícias Mais Recentes da CBN

Belicismo de Trump provoca racha no partido Republicano, afirma professor

24 de março de 202619min
0:00 / 19:09
Donald Trump enfrenta falta de apoio interno e externo para a continuidade da guerra contra o Irã, afirma o cientista político Pedro Costa Jr. Segundo o analista de relações internacionais, o presidente dos Estados Unidos é acusado de estelionato eleitoral, pois teria substituído a promessa de “deixar de ser a polícia do mundo” por ações intervencionistas e belicistas.
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
Assuntos10
  • Relacoes EUA-IraTregua de cinco dias anunciada por Trump · Negação iraniana de conversas com EUA · Falta de clareza sobre objetivos americanos · Impacto nos mercados petrolíferos · Controle iraniano do Estreito de Ormuz
  • Belicismo de Trump e racha republicanoCrítica de apoiadores MAGA ao interventionismo · Demissão do secretário de contraterrorismo · Abandono da retórica 'America First' · Divisão interna do Partido Republicano · Influência de jornalistas conservadores contra guerra
  • Relações China-EUAChina ocupando espaços de influência americana · Irã como zona de influência estratégica · Irã como fornecedor de petróleo para China · Nova Rota da Seda e BRICS · Organização para Cooperação de Xangai
  • Ordem InternacionalOrdem baseada em regras construída pelos EUA · Criação após Segunda Guerra Mundial · Destruição por Trump · Aceleração da desorganização · Período de caos sistêmico
  • Falta de apoio e isolamentoReprovação de 70% da população americana · Cansaço com guerras prolongadas · Histórico de guerras americanas (Afeganistão, Iraque, Síria, Ucrânia) · Falta de apoio de aliados europeus · Isolamento dos EUA na ação contra Irã
  • Declarações de Donald TrumpPromessa de não ser 'polícia do mundo' · Contradição com ações militares atuais · Afirmação anterior sobre destruição de capacidade nuclear iraniana · Justificativa tardia para novo ataque · Discrepância com campanha 2016
  • Energia NuclearMedo da ascensão da China · Paralelo com guerra do Peloponeso · Deflagração de conflito global · Dinâmica de potências rivais · Instabilidade sistêmica global
  • Conflito CurdosPrevisão inicial de Trump: 3 semanas · Revisão para 5-6 semanas · Previsões militares israelenses · Estimativas iranianas de 6 meses · Precificação do mercado até junho
  • Mediação InternacionalQueda de 10% no preço do petróleo · Subida de 3,2% da bolsa de São Paulo · Volatilidade dos mercados · Pressão nas áreas de energia
  • Influencia Chinesa America LatinaInfluência na Venezuela · Presença na América Central · Competição com EUA na região · Retomada de poder global
Transcrição36 segmentoswhisper-cpp/large-v3-turbo

Muito bem. Aqui no CBN Madrugada, espaço para a gente falar um pouco mais sobre as questões internacionais, o conflito Estados Unidos barra Israel contra o Irã. E o nosso convidado é o professor doutor em Ciência Política pela USP, Pedro Costa Júnior, analista de relações internacionais. Pedro, muito bom dia. É sempre um prazer tê-lo aqui no CBN Madrugada. Bom dia, Paulo, querido. O prazer é todo meu estar aqui com você.

com a audiência qualificada do CDR Madrugada. Bom, tivemos nesta segunda-feira o presidente Donald Trump anunciou uma trégua de cinco dias em ataques à infraestrutura energética do Irã. Disse que teve conversas muito boas no fim de semana com lideranças iranianas. O fato é que as lideranças iranianas não confirmaram essas conversas. A agência de notícias Fars disse que não há conversas em andamento entre autoridades de Teherã

e Estados Unidos. Mas o fato também é que a fala do Trump movimentou os mercados nesta segunda-feira, o petróleo que vem oscilando muito, caiu 10% o preço do óleo nesta segunda, a Bolsa de Valores de São Paulo subiu mais de 3,2%. Como é que você encara essa trégua, enxerga alguma possibilidade de resolução próxima desse conflito, Pedro? Veja bem, Paulo, há três semanas atrás, quando começou o conflito, o Trump

disse que esse conflito duraria no máximo três semanas. Pouco tempo depois, ele disse que o conflito poderia durar de cinco a seis semanas. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, falou que o conflito duraria também umas seis semanas, até seis semanas. O sistema político iraniano falou em um conflito de seis meses. Hoje o mercado precificou um conflito até junho, pelo menos.

o prazo que eles estão trabalhando mínimo para esse conflito. A verdade é que ninguém sabe quando ele vai acabar. O que parece, do ponto de vista cada vez mais claro dos Estados Unidos, é que parece ter sido um conflito precipitado para os Estados Unidos, por algumas razões claras. O próprio Pentágono e setores militares dos Estados Unidos identificavam esse ataque como um erro do ponto de vista americano, norte-americano. Esse é um ponto.

um ponto de vista mesmo tático desse confronto. Um outro ponto é que o Irã controla o estresse de Hormuz. Como nós sabemos, o estresse de Hormuz é responsável pelo tráfego de cerca de 20% do petróleo e da energia do gás que transita para o ocidente. Então, isso certamente iria refletir no que está acontecendo agora, no aumento do preço e não só do gás,

da energia do petróleo, mas da pressão inflacionária que isso traz. E tem mais duas razões muito importantes que começam a contribuir agora contra o início desse conflito do ponto de vista do governo Trump, que é a falta de apoio interno e a falta de apoio externo. Quer dizer, Trump não dialogou com a sua população interna sobre a razão dos Estados Unidos entrarem nesse conflito.

de uma reprovação de 70%, cerca de 70% da população que é contra essa guerra no Irã, é contra, na verdade, também o início dos Estados Unidos entrarem em novas guerras, a população americana está muito cansada, está muito extenuada das guerras que os Estados Unidos entraram, desde as guerras eternas no Oriente Médio, desde a doutrina Bush, a guerra no Iraque, a guerra no Afeganistão,

a guerra na Líbia, depois na Síria, e mais tarde no governo Biden, todo o apoio na guerra da Ucrânia contra a Rússia. Então são guerras que vão desgastando muito a população interna, e a própria base de apoio do Trump, o MAGA, o movimento Make America Great Again, a base mais fiel do Trump, chamada alt-right, a nova direita americana, se fez com o movimento No More Wars, quer dizer, sem mais guerras.

tem esse apoio interno. E externamente também, ele não conseguiu comover a comunidade internacional, nem sequer os seus aliados mais próximos, os europeus, ou enfim, o Japão, Coreia do Sul, Canadá, os países do chamado Ocidente coletivo, para poder apoiá-lo nessa guerra. Então é uma guerra em que Estados Unidos e Israel fazem praticamente de maneira isolada. Tudo isso vai pesando agora e desgastando o governo Trump.

complementar esse aspecto, Pedro, o que chama atenção também é que o próprio presidente Donald Trump, se a gente voltar lá atrás, quando ele assumiu no primeiro mandato, ele mesmo disse que os Estados Unidos tinham que deixar de ser a polícia do mundo, que era uma ideia de não se intrometer em conflitos externos, e aí a gente está vendo atitudes completamente fora dessa ideia, a própria captura lá do Maduro na Venezuela, esse ataque

ao Irã, depois que ele mesmo, em junho, tinha dito que tinha destruído praticamente a capacidade do Irã obter um armamento nuclear. Como é que ele justifica um ataque sete meses depois, dizendo que o Irã estava próximo de ter um armamento nuclear? Qual foi a real intenção do Trump com esse ataque? Perfeito. Você toca num ponto crucial agora, Paulo, porque a finalidade

desse ataque, ela não está clara. Ela não foi clarificada pelo Trump, pelo governo Trump. Qual é a finalidade? O governo Trump busca um regime change, um câmbio de regime? É disso que se trata? Se buscava a eliminação dos termos do próprio Departamento do Estado americano, eliminar o Ayatollah Khomeini, as principais lideranças do Irã? Ou se busca

controlar o Estreito de Hormuz, como o Trump tem proposto agora nas últimas declarações, de dividir o controle do Estreito de Hormuz com o Irã, o que do ponto de vista iraniano é algo, é um anáquema, algo completamente insofismável. Então, qual é a finalidade? Qual o objetivo? Isso não ficou claro. Outro ponto muito importante é que é um racha agora nesse apoio interno do Trump, dentro do Partido Republicano, veja.

se fez, desde o primeiro mandato, crítico do Partido Republicano, do belicismo do Partido Republicano tradicional, dos chamados falcões republicanos, do governo dos pais, do governo dos filhos, do próprio Reagan, enfim, Cheney, Rumsfeld, Colin Powell, todos os falcões que eram muito belicistas, que têm essa tradição de ter resencionismo, exatamente como você disse, de ser a polícia do mundo.

E toda a campanha do Trump em 2016, quando ele ainda era um azarão e acabou vencendo, primeiro as primárias do Partido Republicano, e depois venceu Hillary Clinton no colégio eleitoral, estornando presidente, foi nesse sentido, de que os Estados Unidos eram American first, tinham que parar de fazer guerras e investir dentro da economia americana, pegar o dinheiro e investir dentro da economia americana. E até um mês atrás, até antes dessa guerra, esse era o discurso dele.

se nós entrássemos no site da Casa Branca, veria uma campanha do Trump pelo Nobel da Paz. Tinha ali personalidades globais pedindo o Nobel da Paz para o Trump. Isso numa campanha internacional que ele buscava. E tudo isso foi por água abaixo nessas últimas três semanas. De maneira que figuras proeminentes de apoiadores do MAGA, como, por exemplo,

jornalista que era, enfim, âncora da Fox News e é muito influente no seu podcast, o Tucker Carlson, ou o próprio secretário de contra-terrorismo que pediu demissão agora nos Estados Unidos, que são figuras originais do chamado MAGA, dizerem que Trump traiu a sua base, traiu o seu movimento mais original, a sua campanha, e se tornou um estelionatário eleitoral.

Então, nesse momento, o Partido Republicano está dividido. Então, quem está com o Trump são os antigos falcões republicanos que não gostam de Trump, que, na verdade, se colocaram contra o Trump e que são muito ligados ao lobby da indústria do petróleo e ao complexo industrial militar, como diria o Eisenhower, o grande presidente militar Eisenhower lá atrás. Então, hoje nós temos o Partido Democrata e os eleitores democratas, sobretudo,

contra essa iniciativa do Trump e parte considerável do Partido Republicano também contra o Trump. E tudo baseado no próprio discurso do Trump, que o Trump faria o American First e que os Estados Unidos, exatamente como você disse, não seriam mais a polícia do mundo, mas eles se voltariam para os seus problemas internos para fazer a América grande novamente. Tudo isso tem ido por água abaixo muito rápido. Sim. A gente está conversando aqui no CBN Madrugada com o professor Dr. Pedro Costa Jr.,

em ciência política pela USP, analista de relações internacionais, que lançou, neste fim de semana, em São Paulo, a sua mais recente obra, Estados Unidos versus China, a luta pelo poder global. E eu queria falar um pouquinho sobre esse livro, Pedro. Estive lá com muito prazer no lançamento, ainda não tive tempo de ler, mas confesso que tive uma surpresa, porque eu já sabia que eu ia falar contigo sobre esse livro, já a gente tem conversado há algumas semanas,

e a primeira coisa que me veio à cabeça quando eu vi o título, Estados Unidos versus China, foi justamente a armadilha de Tucídides, que é aqui a conclusão do seu trabalho, considerações finais. Você coloca uma interrogação aqui, na armadilha de Tucídides. Eu queria que você falasse um pouco sobre esse aspecto, aquela ideia que vem desde a guerra do Peloponeso,

a desafiar o hegemon, a coisa não vai sair bem. Então, eu queria que você falasse para a gente qual é a sua conclusão em relação a isso. Esse desafio da China aos Estados Unidos acaba em conflito? Como é que você está vendo isso? Primeiro, eu vou agradecer a sua ilustre presença lá conosco no lançamento. Enfim, muitas pessoas queridas ali conosco, Estados Unidos versus China.

A luta pelo poder global, pela editora APRES, é fruto, Paulo, da minha pesquisa de doutoramento no Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo, da USP, e que eu busco estudar exatamente a geopolítica, a principal luta geopolítica, disputa geopolítica do nosso tempo, do mundo, do século XXI, que é esse embate entre Estados Unidos e China, e que tem tudo a ver com essa questão do Irã. Essa ofensão do Trump, para a gente ficar aqui no gancho, contra o Irã,

ela faz parte exatamente dessa luta pelo poder global. O governo americano, norte-americano, o governo Trump, e isso também é um consenso interno nos Estados Unidos entre democratas e republicanos, não é só o governo Trump, e não é só o MAGA, os antigos salpões republicanos, mas também os democratas, é um consenso bipartidário, sabe disso, que a China ocupou muitos espaços, que era um dos Estados Unidos um sistema internacional nos últimos anos,

E eles estão em busca de uma retomada desse poder, uma retomada do poder global. E essas iniciativas na América Latina, na Venezuela, em Cuba, na Nicarágua, enfim, pressões sobre o México, sobre Colômbia, fazem parte disso, fazem parte de retomar espaços ocupados pela China. E agora no Irã também não é diferente. O Irã é um país muito caro à China. O Irã fornece 20% do petróleo consumido pela China,

fábrica do mundo, precisa muito de petróleo e é o petróleo que ela compra mais barato. O Irã está nas novas rotas da seda, que é a principal política externa chinesa desde a ascensão de Xi Jinping em 2013, quando ele lança a política da cinturão em rotas, as novas rotas da seda. O Irã está nos BRICS, está na Organização para a Cooperação de Xangai, são agrupamentos estratégicos para a China, que ambos fazem parte. Então, essa ofensiva sobre o Irã, ela vem não só pelas alianças dos Estados Unidos com Israel,

e pelas querelas entre Estados Unidos e Irã, mas também para tirar a zona de influência chinesa sobre essa região do Oeste da Ásia que é tão importante. E se fala muito hoje, cada vez mais, Paulo, as pessoas perguntam, nós entramos na Terceira Guerra Mundial, nós estamos prestes a entrar? E a Armadilha de Tucídios é exatamente isso, que essa Terceira Guerra Mundial se configuraria na disputa entre essas duas pessoas.

principais superpotências do mundo, que é os Estados Unidos e China. E o que levou à Guerra do Peloponneso e o que pode levar a essa Terceira Guerra Mundial, lá atrás, na Guerra do Peloponneso, foi justamente o medo de suicídio disso. Foi o medo da ascensão de Atenas que levou Esparta ao ataque. E, mais uma vez, é o medo da ascensão do rival, desse caso a China, que pode levar a uma antecipação e ao conflito, uma deflagração de uma terceira

da Guerra Mundial. É sobre isso que o nosso livro trata.

pelos próprios norte-americanos. Ou seja, o Donald Trump está destruindo tudo, está acabando com o soft power dos Estados Unidos. E a pergunta que fica aqui é qual é o tamanho do estrago disso? O sistema de freios e contrapesos americanos vai conseguir segurar essa onda até a troca de poder? Excelente. A ordem internacional baseada em regras, como o Ocidente mesmo chama, os Estados Unidos chamam, construída nos últimos 80 anos pelos Estados Unidos,

Estados Unidos e pelos seus aliados, vencedores na Segunda Guerra Mundial, e reafirmada com a vitória na Guerra Fria, em 91, essa ordem internacional ocidental, baseada em regras, foi sustentada, criada pelos Estados Unidos e seus aliados, regida e sustentada pelos Estados Unidos, ela acabou, ela não existe mais, ela foi impudida, ela foi impudida pelos próprios Estados Unidos, que eram os mantenedores e criadores dessa ordem, pelo Trump, já no governo Trump I, e agora o Biden não

do reverter isso, e o Trump II acelera a destruição dessa ordem. Nós entramos num período, Paulo, que é o que o Arrigue chama, conceitualmente, de um caos sistêmico. Eu diria que nós estamos num período de instabilidade rígida, é uma instabilidade global. Esse é o período que nós caminhamos agora, porque os Estados Unidos perceberam que se continuassem jogando nessas regras que eles mesmos criaram, sustentaram, eles iam ser ultrapassados,

pela China. Então, o que o Trump faz é chutar a escada, é desorganizar essa ordem que eles criaram para poder competir com a China em novos termos. Mas esses novos termos, eles não sabem como criar ainda, ninguém sabe. Nós estamos nesse período de caos, de instabilidade, que vai se aprofundar nos próximos anos, que tende a gerar mais crises, que tende a gerar mais guerras, mais pressões, até que as coisas possam se normalizar depois.

em que nós vamos caminhar. Um período de muito debate, pessoalmente difícil, mas intelectualmente estimulante. Muito bem. Te agradeço demais a presença aqui no CBN Madrugada, professor doutor em Ciência Política pela USP, analista de Relações Internacionais, autor de Estados Unidos vs. China, a luta pelo poder global. Pedro Costa Jr. Pedro, mais uma vez, muito obrigado pela gentileza aqui com a CBN.

pela obra, um bom dia e até a nossa próxima conversa. Obrigado, Paulo. Um grande abraço.

Belicismo de Trump provoca racha no partido Republicano, afirma professor | Castnews Index — Castnews Index