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Guerra no Oriente Médio completa um mês neste sábado (28); entenda o atual momento do conflito

27 de março de 202612min
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O professor da Escola de Relações Internacionais da FGV, Daniel Rio Tinto, em entrevista ao Jornal da CBN, faz uma análise do tom do conflito e sobre a possibilidade de um acordo. Ouça.

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Participantes neste episódio2
C

Cássia

HostJornalista
D

Daniel Riu Tinto

ConvidadoProfessor
Assuntos1
  • Guerra no Oriente MédioExpectativas de acordo · Impacto econômico global · Relações Irã e vizinhos · Estratégias de negociação
Transcrição32 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

No Noticiário Internacional, já atualizamos para você que o presidente Donald Trump estendeu para 6 de abril o prazo para que o Irã reabra completamente o Estreito de Hormuz ou enfrente ataques às suas usinas de energia, alegando progresso nas negociações para encerrar uma guerra que interrompeu o fornecimento de petróleo, abalou economias em todo o mundo. Uma guerra que completa amanhã...

Um mês. E para conversar conosco sobre o que temos neste momento de possibilidades para que esta negociação avance, nós convidamos o professor Daniel Riu Tinto, professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas. Professor, bom dia. Muito obrigado pela sua gentileza de aceitar o nosso convite aqui no Jornal da CBN.

Bom dia, Milton. Bom dia, Cássio. Obrigado pelo convite. É um prazer estar aqui essa manhã. Professor Daniel Riotinto, com que expectativa se chega a este momento, quando completamos um mês desta guerra? Expectativa de que, sim, possa haver um avanço nesses acordos? Ou esta é uma crise que pode se estender por mais tempo?

Milton, eu acho que a possibilidade de um acordo é sempre possível, né? Felizmente, essa possibilidade está sempre aberta nas relações internacionais e a gente...

frequentemente é surpreendido com acordos que dão certo, mesmo quando são razoavelmente inesperados. Mas eu acho que essa guerra é marcada. O tom desse conflito é o tom de um conflito que parecia ser, ou que era esperado que fosse ser um conflito pequeno, rápido, nesse sentido até paralelo com o que a gente viu lá no início da questão da Ucrânia, de que...

ficaria resolvido rapidamente, de que haveria vitória militar decisiva rapidamente, e isso acaba não acontecendo. E vai se prolongando e completa um mês, uma coisa que era esperado que fosse super rápido. O quanto mais tempo passa...

maior é o incentivo, normalmente maior é o incentivo para que as partes queiram arrumar soluções e queiram procurar a possibilidade de uma negociação. Então, por um lado, acho que a gente tem alguns incentivos para ver negociações bem-sucedidas, eu acredito que nem os Estados Unidos, nem o Irã, têm interesse nenhum em continuar prolongando indefinidamente.

Essa situação é mais clara. Para os iranianos, me parece que há um interesse em tornar, negar essa vitória definitiva militar americana e também de negar uma vitória política. Para o Irã, fazer isso passa, em certa medida, me parece, por prolongar um conflito e transformar ele num conflito de atrito, que, de novo, também é um paralelo interessante, uma coisa que a gente...

aprendeu na Ucrânia. O atrito, um conflito de atrito, é um conflito que acaba favorecendo, nesse sentido, acaba favorecendo o defensor, acaba favorecendo o país, quem está no seu país.

Especialmente no Irã, com o caso do... A questão toda do estreito de Hormuz e do petróleo e do impacto que isso tem na economia mundial. Parece que esse é o tipo de abordagem que o Irã esteja vendo como uma maneira de conseguir vitória não militar, mas política, no médio prazo. Forçar a criar uma situação econômica tão desconfortável para o mundo que força os Estados Unidos a negociar.

e força os Estados Unidos a negociar numa posição de... mais fraca do que eles teriam se a questão fosse só militar, talvez.

Agora, professor, nós continuamos a ter aí muitas informações e afirmações contraditórias em relação ao presidente dos Estados Unidos sobre esta guerra. E aí a gente fica sem saber se, de fato, a ideia dele é intensificar o conflito para tentar encerrar esse conflito o mais rápido possível ou pressionar por um acordo negociado.

Já que, por exemplo, na mesma data em que ele estendeu essa trégua dos Estados Unidos e esse prazo para a liberação do Estreito de Hormuz, também se falou que os Estados Unidos estão avaliando enviar mais de 10 mil soldados para compor tropas terrestres no Oriente Médio.

Cássia, meu entendimento sobre isso é de que isso é relativamente comum quando a gente pensa, e é comum de várias formas, mas esse tipo de comportamento, que é um comportamento...

que visa tentar criar uma posição mais favorável nessa negociação. Então, obviamente, tendo o interesse de negociar, e eu acredito tendo o interesse de tentar resolver o conflito e de tentar um desfecho negociado para o conflito, mas, é claro, os dois países querem chegar a um acordo que eles vejam como o mais benéfico possível para os seus interesses.

e usam, obviamente, estratégias para dizer não, estamos abertos a negociar, vamos à mesa de negociação. A gente viu essa questão também no caso de não fazer negociação diretamente, mas fazer negociação através de um país terceiro, um país que faz bons ofícios. A gente viu isso e a gente vê isso no caso do Irã.

com alguma frequência, mas ao mesmo tempo que você está negociando, você está fazendo ameaças, você está condicionando, você está dizendo, olha, eu gostaria de negociar nesses termos, mas se você não quiser negociar nesses termos, eu tenho a força, eu tenho a possibilidade de...

enviar mais tropas, eu tenho a possibilidade de fazer novos bombardeios, ou de usar novos equipamentos militares, ou atacar novos alvos com mísseis. Os dois lados, me parece que os dois lados adotam uma postura que é materialmente diferente, mas é similar em conceito. Os dois lados sinalizam que não querem permanecer na guerra.

no longo prazo, que tem interesse em uma solução negocial, mas, ao mesmo tempo, se colocam numa postura de que a gente só vai aceitar o tipo de acordo que a gente... O acordo que...

atenda às nossas necessidades e se a gente não, se não chegarmos a esse tipo de acordo, podemos, né, assim, estamos perfeitamente disponíveis, ou disponíveis talvez não seja a melhor palavra, mas capazes, né, para continuar o conflito até a gente atingir, até atingir os nossos objetivos. Acho que tanto os Estados Unidos quanto o Irã se posicionam dessa maneira. E é uma posição de tentar manter, né, é tentar manter uma posição e uma...

uma postura de força, no sentido de dizer eu consigo continuar esse conflito, eu não vou ceder a qualquer coisa que você me pedir na negociação, eu não estou disposto a qualquer coisa, você tem que entender os meus termos. E eu acho que os dois lados estão fazendo esse mesmo tipo de postura, através de estratégias diferentes, mas esse mesmo tipo de postura.

Professor Daniel Riu Tinto, considerando aí na melhor das hipóteses que nos próximos dias possa haver um acordo, um cessar fogo, se resolva essa questão, já dá para imaginar o que será desta região depois desta guerra?

É bastante, essa pergunta é bastante complicada, eu não sei, eu não sou um especialista imediato na política do Oriente Médio, eu estudo mais área dos conflitos e das causas dos conflitos e das guerras, mas eu acho que tem uma coisa que foi bastante notável para mim, é que o Irã teve disposto a fazer uma coisa que não teve disposto anteriormente.

que foi realmente azedar a sua relação com os seus vizinhos mais próximos, que sempre que vários deles tiveram proximidade com os Estados Unidos ao longo de muito tempo, e essa relação sempre foi gerida. Mesmo o caso dos Emirados Árabes Unidos, eu acho que é um caso bastante saliente disso. Teve boas relações com os Estados Unidos, boas relações com o Irã, ou razoavelmente boas relações com o Irã, e o Irã sempre se beneficiou dessas boas relações.

dessa relação ambígua. E agora, acho que pela primeira vez, não é a primeira vez que o Irã ataca um de seus vizinhos, mas pela primeira vez o Irã faz uma campanha alargada contra os seus vizinhos, na medida em que tem dificuldade. É impossível para os iranianos conseguirem atingir os Estados Unidos do território americano diretamente.

por conta da dificuldade de projetar poder. A gente viu que, apesar de terem conseguido atingir Israel, em alguma medida também viram mais dificuldade, os alvos mais próximos eram alvos mais imediatos. E foi também uma maneira dos iranianos sinalizarem que estavam dispostos a usar força, nesse contexto estavam dispostos a usar força com mais intensidade. Assim como tiveram, como foi uma maneira de mostrar que a sua estratégia de tentar...

atrapalhar a economia mundial e causar um dano político indireto aos Estados Unidos, foi uma estratégia que acabou funcionando, talvez não seja a palavra, mas acabou, pelo menos ali no curto prazo, tendo alguma significância. Mas para isso tiveram que brigar com seus vizinhos imediatos. Então, o que eu acredito, de novo, estou fazendo um pouco essa...

Essa voltinha para te responder a pergunta, dizendo que eu acho que as relações no Oriente Médio, a situação no Oriente Médio, tende a ficar mais tensa entre os vizinhos, mais próximos agora e mais tensa, mais complicada, o que não significa necessariamente que vão ter guerras constantes. Eu acho que vários desses países vizinhos, inclusive, mostraram bastante...

calma e limitação nas suas respostas diretas ao Irã e não se envolveram diretamente, não começaram uma campanha contra o Irã ou nem se aliaram diretamente aos Estados Unidos, o que também pode acabar gerando algum resultado positivo no longo prazo de apaziguamento entre o Irã e esses países, mas eu acredito que a tendência...

pós-conflito é que a região veja mais tensão entre esses países, porque se abriu uma porta, se abriu uma caixinha que não era aberta.

há bastante tempo, né, esse conflito direto entre o Irã e os seus países vizinhos numa escala significativa. Então eu acho que uma das saídas pode ser essa tensão, pode ser um aumento dessa tensão. A outra saída possível é que um acordo de apaziguamento gere também, né, um acordo entre o Irã e os Estados Unidos e um reposicionamento do Irã possa gerar até o efeito contrário, que é um efeito de mais estabilidade. Mas aí eu acho que vai depender muito fundamentalmente do outcome.

do conflito, do alto campo político, especialmente do alto campo político no Irã, do resultado político no Irã desse conflito. Daniel Riu Tinto, muito obrigado pelas suas informações, sua análise aqui no Jornal da CBN. Um bom dia. Nada, é um prazer. Bom dia, obrigado. Bom dia. Daniel Riu Tinto é professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas e conversou com você.