Filmes e livros que ajudam a entender impacto dos padrões de beleza impostos às mulheres
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- Imagem corporal e padrões de belezaCinema e literatura · Pressão estética · Cultura pop dos anos 90 e 2000 · Body Positivity · Britney Spears
- Recomendação de LivrosA Meia Irmã Feia · Garota sobre Garota · Por Britney
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Paula Jacobi, crítica, pesquisadora, professora de cinema, membro votante da edição 83 do Clube de Ouro, especialista em semiótica psicanalítica, mestrando em comunicação e semiótica pela PUC de São Paulo, sempre com a gente aqui no Revista CBN. Tudo bem, Paula? Boa tarde.
Tudo e você, Nandéja? É muito bom falar com você de novo. Tudo ótimo, muito bom te receber para um tema que muito me interessa, muito interessa aos ouvintes aqui do Revista CBN também. Sim. Porque primeiro que você vai fazer uma conexão, né? É cinema, mas também é literatura. E para falar sobre pressão estética, que estamos todos sob esse peso, né, Paula? Vamos falar a verdade. Sim.
Estamos todos sobre esse peso, acho que com o retorno das tendências dos anos 2000, que já não é uma coisa tão recente, né? Acho que já faz uns dois anos que a gente está sentindo isso acontecendo, principalmente na moda e na publicidade, mas agora a gente vê com mais frequência, até por conta da reverberação desse assunto nas redes sociais, no TikTok, no Instagram principalmente.
a gente entende como o corpo da mulher e como essas pressões são arraigadas na nossa cultura há muitos e muitos anos. Então eu separei aqui algumas dicas que são correlacionadas. Acho que eu estava... esse momento... para mim é muito engraçado às vezes pensar...
na cultura, como as coisas se cruzam. Então, essa intersecção entre cinema e literatura sempre me interessou, mas mais do que isso, entender como os artistas sentem também a necessidade do momento. Então, a minha primeira dica, que foi a partir dela que eu queria trazer os dois livros, que são lançamentos.
É o filme A Meia Irmã Feia, que está disponível na MUBI. Ele é um filme que estava concorrendo ao Oscar apenas na categoria de melhor maquiagem, apesar de eu achar ele um filme excelente e que ele merecia estar em outros espaços. Ele é dirigido pela Emily Blitzfeld, que é uma cineasta norueguesa.
E nesse filme que ela escreve, então ela assina o roteiro e a direção, ela faz uma sátira de um conto da Cinderela. Então a gente sabe a história da Cinderela, né? Pela nossa referência também, inclusive dos filmes da Disney e tudo mais. Mas aqui ela transforma esse conto de fadas, entre muitas aspas,
numa sátira e num formato de body horror. Então, o filme é um filme que usa de ferramentas muito parecidas, como, por exemplo, a substância, para tratar esse horror da experiência feminina, do corpo feminino dentro dessa experiência de uma pressão estética que atravessa a sociedade há muitos e muitos séculos. Não é nenhuma novidade do nosso tempo.
Mas é interessante pensar, assim, a gente acha que só nos anos 80, nos anos 90, nos anos 2000, que trouxeram essa questão. E aqui é um filme para a gente refletir justamente desde quanto tempo isso estava acontecendo. Foi um filme que estreou no Festival de Sundance no ano passado, estava no Festival de Berlim do ano passado. Ele foi muito bem falado pela crítica internacional.
Mais uma vez, está disponível na plataforma MUBI. Eu acho que ele é um filme essencial para a gente entender como essa personagem, que é a protagonista, ela faz uma inversão ali de papéis, então ela coloca uma personagem que é tida como a mais linda do reino e a irmã, que é a meia-irmã no caso, a meia-irmã feia, que é uma mulher que não corresponde às expectativas estéticas da época.
E aí ela cria uma competição entre essas duas irmãs pelo príncipe. Então, teoricamente, o príncipe só se interessaria por ela se ela estivesse dentro de um padrão estético pré-determinado. E aí ela passa por cirurgias, por dietas malucas, enfim, acontece de um tudo no filme e que para ela conseguir, talvez, ou não chegar nesse lugar de ter o rosto perfeito, o nariz perfeito e por aí vai. E aí, a partir desse filme...
Eu, na verdade, li os livros antes de ver o filme, mas como as coisas aconteceram meio em conjunto, eu achei interessante também como essas publicações chegam ao Brasil num tempo bem importante da gente discutir as redes sociais e como essas redes sociais influenciam jovens garotas e adolescentes e também mulheres adultas, claro.
O primeiro livro é o livro que chama Garota sobre Garota, que ele é escrito pela crítica literária e cultural do The Atlantic, que é um dos jornais que eu mais gosto de acompanhar. A autora chama Sophie Gilbert. O livro é publicado no Brasil pela editora Todavia e tem a tradução da Emanuela Siqueira.
Esse livro é um livro que, para mim, foi muito importante, inclusive para a minha pesquisa de mestrado. Eu tinha lido ele na versão em inglês ano passado, quando ele ainda não tinha chego ao Brasil. Mas aqui, a Sophie, como ela é uma crítica cultural e que acompanha todos os movimentos culturais dos Estados Unidos, principalmente, há muitos anos, como uma jornalista especializada nisso, ela monta nesse livro...
espaços assim, então a gente tem desde os anos 90 até os dias de hoje, mas ela foca bastante nos anos 90 e 2000, e ela pega cada expressão midiática, então os videoclipes, as revistas, as passarelas, as campanhas de moda e outras campanhas publicitárias, entre outros assuntos, para mostrar o quanto que a cultura pop dessas duas décadas especificamente...
Fez com que as mulheres não gostassem do corpo delas, da beleza delas, não se enxergassem nesses padrões super irrealistas, estéticos, que eram muito veiculados em diversas mídias. E eu acho esse livro um livro muito completo e ela traz muitas referências, ela pega referências da filosofia, da psicanálise, de outras críticas culturais.
Ela olha bastante para os textos de Virginia Woolf, Simone de Beauvoir, então ela correlaciona várias coisas que, para mim, são essenciais para a gente entender esse assunto. E como ela vai costurando isso e o tempo vai passando, e a gente vai vendo ao longo do livro que as coisas não mudaram tanto quanto a gente imaginou. Inclusive, tem uma questão muito interessante no livro que ela mostra. A gente teve uma ascensão do movimento Body Positivity.
nos últimos anos, principalmente ali na época da pandemia, que houve uma movimentação para aceitar corpos mais diversos nas campanhas, nas passarelas, na moda, nas ruas, que todo mundo pode e deve se vestir do jeito que quiser, como quiser e se sentir confortável e tudo mais.
Só que hoje em dia, com a popularização do uso de remédios de emagrecimento, das canetas emagrecedoras principalmente, ela mostra para a gente o quanto que isso volta, principalmente em plataformas como o TikTok, que até ano passado, a hashtag Sebanida, a Skinny Talk, tinha mais de 2 bilhões de views.
Então a gente vê como isso afeta justamente o comportamento das pessoas em rede e as referências que essas mulheres estão tendo nas redes sociais. Mas ali ela está olhando bastante, principalmente para a cultura dos anos 90 e 2000. E aí pensando justamente na cultura dos anos 90 e 2000, eu acho que quando a gente fala desse assunto tem um nome que vem muito na cabeça das pessoas, que é Britney Spears.
Acho que ela, eu particularmente, era muito, sou muito fã, era muito fã de Britney quando eu era criança, adolescente. E nesse novo livro que chama Por Britney, acabou de ser publicado pela editora Herculano, com tradução da Débora Fleck. É um livro autobiográfico muito interessante, escrito pela Louise Chenevier.
que parte das memórias pessoais da autora, que era muito fã da Britney nessa época, para justamente mostrar o quanto que a pressão pela Britney emagrecer, não sei quem lembra, mas eu lembro vividamente disso.
das chamadas nos veículos, a pauta era o corpo da Britney o tempo inteiro, se ela emagreceu, se ela engordou, que roupa que ela estava usando, por que aquela roupa estava marcando, sei lá que ela está grávida. Então tinha esse tipo de assunto, isso era uma pauta. E o quanto que isso acabou afetando muito a própria cabeça da Britney e também a cabeça das meninas e mulheres que acompanhavam a carreira da artista, porque ela era gigantesca.
A Britney atingiu todos os países, idades, atravessou Atlânticos. Enfim, acho que ela é uma artista que foi muito, muito, muito grande ali na virada dos anos 90 para os anos 2000. E que ela mesma passou por situações, passa até hoje, por situações...
de que a gente veio a entender depois por conta dos documentários, todo o abuso que ela passou com o pai, enfim, tem outras questões que atravessam a experiência da Britney, mas aqui nesse livro a autora, a Louise, ela olha muito para como ela tinha a Britney como um modelo de pessoa, de artista, de mulher, e essa mulher estava o tempo todo sendo analisada milimetricamente nas suas aparições e o quanto que isso também afetou a própria autoestima da Louise.
Então eu achei um livro, é um livro bem fininho, mas bem fininho mesmo. Ele é bem rápido de ler porque é escrito em primeira pessoa, então tem aquela coisa dessa literatura francesa que gosta muito de você colocar a sua experiência dentro da literatura e como essa literatura também atravessa a sua experiência. E eu acho que é um livro essencial, dois livros, na verdade, essenciais para a gente pensar o nosso presente, que acho que, infelizmente, a gente...
ver muitas dessas coisas acontecendo de novo. Demais. Com o finalzinho do nosso tempo, tem duas coisas que eu queria muito falar rapidinho. Uma que eu estou gostando de ver essa reação e esses questionamentos ao padrão bizarro que voltou, porque a reedição está conseguindo ser mais bizarra do que o momento dos anos 2000 do qual ele deriva.
E não porque a gente queira ou se sinta no direito de comentar sobre corpos de mulheres, mas a gente viu, por exemplo, no tapete vermelho do Oscar, uma situação de padrão de magreza de atrizes com marcas físicas de desnutrição de doença. Até me chamou a atenção, eu vi uma criadora de conteúdo que eu gosto muito, que é a Jéssica Batam, falando nos stories, que tem mulheres que estão numa condição que se você viu um cachorro...
Nessa mesma proporção de gordura e músculo, você tem pena. Até acrescento, se o cachorro tiver dono, ele é indiciado por maus tratos. Mas estando uma mulher daquele jeito, isso desperta admiração e desejo. Então, é uma coisa que a gente precisa refletir. E a segunda coisa que eu gostei muito, que de certa forma você trouxe uma discussão que eu vi nas suas redes, né? Você falando mais...
Do ponto de vista ali do padrão de beleza, enfim, do rosto, dos procedimentos estéticos. Então fica a recomendação aqui para os ouvintes. Sigam a Paula Jacobi no Instagram, que fala muito bem de cinema lá também, além daqui. Mas também é uma diva em outras áreas da vida. Vale a pena acompanhar as discussões e as reflexões. Então obrigada por trazer esse assunto para cá também, Paula. Obrigada, Nandede. Obrigada aos ouvintes. Um beijo. Obrigada pelo papo. Um beijo.
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