PCC, o Salve Geral: '20 anos depois, famílias ainda estão em luto', diz apresentadora do podcast
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Cássia
Guilherme Muniz
Aline Ribeiro
- Assassinato de Rui Ferraz FontesRui Ferraz Fontes · Execução do ex-delegado · Combate ao PCC · Gênese do PCC
- Histórico de expansão do Comando Vermelho e PCCOrigem do PCC no ambiente carcerário · Negação da existência do PCC pelo Estado · Crescimento internacional do PCC · Erros do Estado no combate a facções
- Produção de PodcastsDesafios na realização do trabalho · Encontrar famílias das vítimas · Acesso a informações de autoridades · Pesquisa em arquivos públicos
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No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas. Atentado aqui em Cubatão, na delegacia sede, tem polícia ferida, tem polícia morta, pelo amor de Deus. Uma facção contra um país. As forças de segurança estão em alerta máximo no estado de São Paulo.
Uma população aterrorizada. Cadê a segurança, Pia? Está precisando de segurança. Se eles estão procurando uma autoridade, uma polícia que poderia nos defender, imagina nós somos civis que se imprimem Deus por nós. A gente fica apavorada mesmo. Avisei para o meu marido. Você ouviu um trechinho de PCC, o Salve Geral. Esse é o nome do podcast que a CBN e o jornal O Globo estão lançando.
Sobre os atentados de maio de 2006, quando a facção criminosa PCC decidiu enfrentar o Estado depois de ter 765 líderes presos transferidos para uma penitenciária no interior de São Paulo com regras mais rígidas. E aí, em uma data específica, que é sempre muito lembrada, 15 de maio de 2006, o PCC anunciou um toque de recolher, obrigou a população a se trancar em casa.
e matou 59 agentes das forças de segurança. Nos próximos dias, depois disso, houve o revide da polícia. E aí, uma verdadeira guerra foi deflagrada, com um saldo dos mais tristes, um total de 564 mortos.
59 agentes públicos e 505 civis. E para saber mais a respeito desse podcast que está sendo lançado hoje, o Guilherme Muniz e eu recebemos aqui no estúdio do Jornal da CBN, Aline Ribeiro, que é repórter especial do Globo em São Paulo e apresentadora do podcast PCC, o Salve Geral. Aline, muito obrigada por ter vindo conversar conosco hoje e quero começar te parabenizando por esse trabalho. Já ouvi os dois primeiros episódios e está muito bom. Bom dia.
Bom dia, Cássia. Bom dia, Guilherme. Bom dia, ouvintes. Obrigada pelo convite. Foi muito interessante mesmo fazer esse podcast. Eu, na época, ainda não cobria esse assunto, então, para mim, foi um olhar completamente novo. Eu me senti um pouco uma arqueóloga daquele momento.
E aí a gente mergulhou muito fundo mesmo para tentar retratar bastidores e trazer fatos inéditos desse momento que eu acredito que seja uma das maiores, se não a maior crise de segurança pública do Brasil. Sem dúvida. E explica muito a situação de segurança que a gente tem até hoje no país. Inclusive, é uma das propostas do podcast, trazer informação sobre o que aconteceu e o quanto isso fala sobre a atual situação de segurança.
Eu imagino que foram muitos desafios na realização desse trabalho, mas acredito que um dos principais deles, e eu queria te ouvir sobre isso, foi encontrar as famílias das vítimas. E aí a gente está falando de vítimas de lado a lado. Tanto de civis que foram vítimas destes ataques, mas também as famílias de agentes de segurança que foram mortos, né? Sim, foi muito difícil mesmo. Eu cubro segurança pública e direitos humanos há pelo menos 15 anos, e eu acho que esse foi o...
A matéria, a reportagem, a grande reportagem que eu escrevi, em que eu levei mais nãos na minha vida. Muita gente, mas muita gente mesmo, não quis falar sobre esse assunto. É uma espécie de tabu para quem participou. E as famílias, por uma outra razão, eu acredito, elas ainda têm muito medo, elas ainda sentem...
Muito profundamente o que aconteceu naqueles dias. E tem não só receio, mas acho que uma dor mesmo para falar sobre aquilo. Eu fiquei muito impressionada como 20 anos depois, essas famílias ainda estão em luto. Elas ainda choram contando essas histórias. Então, a gente entrou em contato com muitas famílias mesmo para conseguir convencer alguma a falar. Principalmente, eu acho, do lado do policial, né? Que foi morto pelo crime. E aí foram, assim, meses de...
de aproximação, de ganhar confiança mesmo dessas pessoas e mostrar que a gente estava tentando fazer um trabalho sério que revisitasse esses fatos e contasse com sensibilidade mesmo o que aconteceu naqueles dias, porque são histórias, não são só números, uma delas fala até isso para a gente, meu marido tem um nome, ele tem um sobrenome, e eu quero que ele seja lembrado assim, então isso foi bem forte para a gente.
E os depoimentos de parte dessas famílias das vítimas já estão, inclusive, no segundo episódio, já dá para ter contato um pouco com esse lado da história. Mas e do lado das autoridades, Aline? 20 anos depois ainda tem também um receio em se abordar esse assunto? Ainda tem pontos não muito transparentes sobre essa história? Porque um dos pontos desse podcast é também contar para a população que viveu, que temeu aqueles dias,
mas contar o que estava acontecendo nos bastidores para tentar contornar essa crise. E vocês mostram que havia, inclusive, divergências na cúpula da segurança pública. Você também percebeu esse tipo de dificuldade de acesso às informações do lado das autoridades que estavam a par desse caso naquele momento? Com certeza. Acho que tiveram duas dificuldades principais. Muitas daquelas pessoas que participaram daquele momento...
Algumas até morreram já, outras estão muito velhinhas, estão doentes, e as que ainda estão lúcidas e que têm bastante história para contar, têm muito receio de falar sobre isso. Então, primeiro, foi difícil de encontrar essas pessoas, porque elas já não ocupam mais cargos públicos, já estão fora mesmo, aposentados. E, segundo, tentar convencê-las a tocar nesse assunto, que foi muito sensível, tem a história...
do encontro entre o crime e o Estado, que a gente vai abordar nos próximos episódios, que é uma questão muito sensível até hoje. Mas a gente conseguiu bastante relato também em off. Então, além das entrevistas em on, eu falei com muita gente, mas muita gente mesmo que não topou gravar, mas que me recebeu, por exemplo, por três horas para contar aos bastidores. Então, acho que a gente conseguiu detalhar mesmo o que aconteceu.
E eu acho que a gente tem uma grande vantagem com relação à cobertura da época, que é esse distanciamento do tempo. Então, a gente fez uma pesquisa profunda em tudo que foi publicado. A gente foi até o Arquivo Público de São Paulo, fotografou as matérias da época, entendeu como foi tudo aquilo. E aí a gente tentou, a partir daquela cobertura, entender o que faltava, quais eram as pontas que não foram contadas. E espero que a gente tenha contemplado isso nesses episódios.
Tem uma coisa que me chamou muito a atenção e tenho certeza que vai chamar a atenção dos ouvintes também, que é a seguinte, vocês acabaram realizando uma entrevista que se tornou antológica, não só pelo conteúdo dela, mas por uma fatalidade que viria a acontecer com o entrevistado algum tempo depois. O ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Rui Ferraz Fontes, ele foi executado. Existe a suspeita de que ele tenha sido executado no ano passado justamente...
por ter sido uma pessoa que combatia o PCC na época em que ele foi delegado-geral da Polícia Civil em São Paulo. E ele conversou com vocês para o podcast, né? Foi.
É, isso foi um fato muito triste, acho que mexeu muito com a gente, né, durante a produção. O doutor Rui, ele era uma fonte minha há muitos anos já. Ele, enfim, a gente tinha até uma relação bem próxima, assim, de tomar café com bastante regularidade. E quando ele se aposentou da polícia e foi morar na Praia Grande, a gente perdeu muito contato, porque ele queria, acho que ele fazia um pouco de questão de ter esse distanciamento do tema, até porque ele morava numa região muito sensível, né, a Baixada Santista. É, é...
tem uma presença muito forte, territorial, do PCC. E aí, quando eu procurei para esse podcast e ele topou, a gente ficou bem feliz dele falar com a gente. A gente foi até lá, tiveram até alguns imprevistos na nossa ida e a entrevista acabou acontecendo. Ele foi muito receptivo, a gente falou com ele por...
quase três horas, e ele explicou em detalhes essa gênese do PCC. Ele foi uma das principais pessoas naquele começo que desvendaram como é que funcionava a organização da facção. Ele é responsável pelas investigações que renderam as maiores condenações do chefe, do líder do PCC. Então, a entrevista dele era muito essencial.
E três semanas depois, exatas três semanas depois, infelizmente, a gente teve essa notícia de que ele foi assassinado brutalmente pelo que as investigações mostraram, pelo próprio crime mesmo.
O quanto que tudo que vocês conseguiram reunir, Aline, sobre esse episódio de 20 anos atrás, ajuda a gente a também entender o que se tornou o PCC agora 20 anos depois, porque as organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho estão em discussão nacional e internacional, inclusive, exatamente nesse momento. Quanto que a gente consegue, a partir desse podcast, também entender o que está acontecendo agora com essa facção que de lá para cá não foi estancada, infelizmente.
Olha, a gente perguntou para muitas pessoas quais foram os erros do Estado, em especial, que fizeram com que o PCC chegasse até aqui. E eu acho que, resumidamente, primeiro assim, o PCC nasce para contestar um ambiente carcerário desumano, era uma espécie de... um caldo para que aquilo acontecesse, para que aquelas pessoas se reunissem em torno de uma insatisfação comum.
Na sequência, o Estado nega, o governo de São Paulo nega por quase uma década que o PCC existia. Eles não falavam a sigla PCC, eles negavam publicamente para a imprensa, inclusive, que existia uma facção dentro de um presídio com estatuto, nome, sigla, regras. E como é que você combate uma coisa que você nem sequer admite que existe?
É muito difícil, né? Eu acho que a lição que fica, recentemente a gente fez um esforço bem grande de reportagem no Globo para entender quantas facções o Brasil tem. E a gente ouviu de muitos estados negativas de que a gente não fala em nome de facção, a gente não nomeia, a gente não conta que elas existem, senão a gente fortalece esses grupos.
E me parece que o Estado brasileiro continua cometendo esses erros até hoje, ao negar, de certa maneira, alguns Estados que essas facções estão aí, que elas precisam ser combatidas, que à medida que a gente nega a existência delas, elas se aproveitam para angariar mais gente, para tomar território, para crescer e para se expandir, inclusive internacionalmente, como é o caso do PCC hoje. Eu acho que o PCC se tornou não mais um desafio de um Estado nem de um país. Hoje ele é o desafio de...
de muitos países. Ele está presente em 28 nações hoje, segundo dados do Ministério Público. Então, eu acho que é uma discussão muito séria, que a gente precisa olhar para o passado e rever o passado para entender como é que a gente corrige isso hoje mesmo.
Nós conversamos aqui no Jornal da CBN com a Aline Ribeiro, repórter especial de O Globo em São Paulo, apresentadora do podcast PCC, o Salve Geral. Podcast da CBN e do Jornal Globo que já está disponível em todas as plataformas. Então faz o seguinte, vai lá, ouve, faz a sua avaliação, que eu sei, não quero influenciar ninguém, mas vai ser cinco estrelas. Com certeza.
E já começa a seguir o podcast também, assim você recebe uma notificação quando tiver um novo lançamento. Toda quinta-feira, né, Aline? Toda quinta-feira, nos sites do Globo, da CBN e nos principais tocadores. Espero vocês. Eu já ouvi dois, gostei muito. Infelizmente, não posso maratonar, porque ainda não saiu o terceiro, mas logo que sair, estarei lá escutando. Aline, muito obrigada. Obrigada a vocês, gente. Obrigado, parabéns. Muito obrigada.
Nessa série, eu vou trazer uma informação inédita. O que o Marcola fez para se tornar o chefe máximo do crime em São Paulo. Maio de 2006 não é só uma ferida aberta em São Paulo. É um ponto de virada para a facção. Dali em diante, o PCC cresceu sem parar.
Dili
EX5 EMIGlobo