PCC, o Salve Geral: atentados de 2006 ‘impactam a vida da população até hoje’, diz apresentadora do podcast
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Fernando
Tatiana
Aline Ribeiro
Lili
Tiago Barbosa
- PCC CV TerrorismoPCC · Atentados de maio de 2006 · Salve Geral · Transferência de presos · Segurança pública em São Paulo · Vítimas civis e policiais · Mães de Maio
- Produção do podcast PCC, o Salve GeralProcesso de apuração · Fontes primárias e secundárias · Entrevistas com vítimas e familiares · Trabalho de arqueologia jornalística · Parceria Globo e CBN
- Histórico de expansão do Comando Vermelho e PCCOrigem nos presídios em 1993 · Negação da existência pelo governo · Mega-rebelião de 2001 · Poder de articulação e mobilização
- Saldo de mortes na guerra no IrãWagner (pizzaiolo de 22 anos) · Isaías (policial) · Famílias em luto · Falta de reparação pelo Estado
- Assassinato de Rui Ferraz FontesRui Ferraz Fontes · Última entrevista concedida · Informações inéditas sobre liderança do PCC · Assassinato pelo PCC
Uma facção contra um país. As forças de segurança estão em alerta máximo no estado de São Paulo. Uma população aterrorizada. Cadê a segurança, Fê? Está precisando de segurança. Se eles estão procurando uma autoridade, uma polícia que poderia nos defender, imagina nós somos civis, que simplesmente Deus por nós. A gente fica apavorada mesmo. Avisei com meu marido, falei, cuidado com as crianças, não deixe ele na rua.
A cidade do barulho, dos congestionamentos, das multidões, se cala. As lojas na região central da cidade de São Paulo estão com as grates abaixadas, as portas fechadas. Essa voz aí eu conheço, hein? Bom, você está ouvindo o comecinho do primeiro episódio da série PCC, o Salve Geral. Globo e CBN lançam um podcast sobre os atentados de maio de 2006.
Aline Ribeiro é a voz de quem você ouve, é a voz, é a pessoa por trás dessa voz que você ouve aí, repórter especial do Globo, apresentadora do podcast, está aqui com a gente, bem-vinda. Obrigada, boa tarde, gente. Bem-vinda. Boa tarde, ouvintes. E eu brinquei que eu conheço essa voz, porque essa voz é do Tiago Barbosa, gerente de produtos digitais da CBN. Tiago, boa tarde.
Boa tarde, Tatiana, Fernando, Aline, ouvinte do estúdio CBN. Onde você estava em maio de 2006? Trabalhando na CBN como repórter, como o ouvinte pôde perceber, naquele dia 15 de maio, que era uma segunda-feira, eu estava ali bastante assustado, como quase todo mundo, e tentando narrar para os ouvintes da rádio naquele momento o que a cidade estava vivendo de tão diferente. Foram momentos muito marcantes, naquela segunda-feira a cidade fechando, ônibus parado, terminal do Anhangabaú completamente fechado.
E aí, claro que, assim, a gente até brinca aqui, né? Que quase todo mundo de São Paulo, com mais de 30 anos de idade, tem aquela sensação de lembrar o que estava fazendo naquele dia, né? O que eu estava vivendo naquele dia. A Lili conta isso no podcast, o que ela estava vivendo naquele dia também. O que você estava vivendo naquele dia, Lili?
Tati, eu tinha recém-chegado em São Paulo, eu estudei em outra cidade e eu estava indo comprar cigarro na Paulista, eu conto isso no começo do podcast. Naquela época eu não cobria segurança pública, eu já era formada, mas eu cobria meio ambiente. Eu até brinquei que a maior aventura minha profissional naquela época era correr atrás de Muriquis, que é o maior macaco das Américas.
Mas nunca mais esqueceu, por exemplo, que Muriqui é o maior macaco das Américas. Exato. E é isso, assim, eu lembro de chegar na Paulista, eu fumava um cigarro que tinha lá, assim, e ver a cavalaria, sentir um clima muito estranho na rua, e naquela época não tinha WhatsApp, né, nos telefones, acho que nem tinha internet, não me lembro direito, mas eu só fui descobrir o que tinha acontecido, o que estava acontecendo, quando eu cheguei em casa e liguei a TV, assim. Que aí teve a dimensão.
Acho que a dimensão da coisa a gente demorou para ter. Enfim, vai, Fê. Quem ouve não vai ter noção do trabalho que dá. Eu queria te ouvir sobre quanto tempo vocês demoraram, quantas fontes vocês entraram em contato, quantos nãos vocês receberam. Como é que foi esse processo de apuração de produção desse trabalho?
É, foi bem intenso mesmo. Eu até contei mais cedo que durante, acho que 15 anos de cobertura de segurança pública e direitos humanos, eu já fiz muita matéria difícil, assim, de tentar convencer fonte, fonte não querer falar, mas essa vez foi a vez que eu mais levei nãos na vida, na minha carreira.
É um assunto muito sensível para muita gente e mesmo quem topou falar com a gente, quando a gente chegava em alguns assuntos, num especialmente, que foi o tal do encontro entre o crime e a liderança do PCC, que acabou por parar os ataques naquela época, ninguém falava, todo mundo dava um jeito de fugir da pergunta.
mas assim, foram 10 meses ao todo de trabalho da primeira reunião que a gente teve de sentar, desenhar o projeto pensar coletivamente o que a gente ia tratar, quais seriam os episódios a gente tentou ouvir mais de 50 pessoas acho que a gente falou efetivamente com mais de 20, então deve ter levado uns 30 nãos ao longo do caminho
E uma parte muito fundamental também da apuração, acho que foi revisitar o que a imprensa publicou na época. A gente foi até o Arquivo Público de São Paulo, olhou para tudo o que foi publicado nas revistas na época.
Nos jornais. E também procurar processos que contavam um pouco dessa história, né? Os processos que responsabilizaram as pessoas que estavam por trás desses atentados. E aí é longo, assim, o processo, né? Porque a gente chega no Tribunal de Justiça, o processo tá arquivado, aí você pede o desarquivamento, demora 30 dias, aí você vai lá, tem que fotografar tudo, são pilhas e pilhas. Acho que um dos processos, só um deles tinha mais de 9 mil páginas.
É um trabalho de arqueologia, quase, né? De revisitar um tempo e tentar buscar coisas ainda inéditas, né? Que ainda não foram contadas. Eu quero voltar nesses dois pontos. Vou começar pelo trabalho. Porque num tempo em que a gente tem tanto produto de áudio por aí, eu acho importante a gente falar sobre os cuidados que vocês tiveram no que diz respeito ao trato jornalístico.
Dessas informações todas a que vocês tiveram acesso, seja nesse trabalho de arqueologia, de ir lá buscar informação na fonte primária, que é o processo registro, até saber com quem falar e de que jeito tratar o que vocês ouviram das pessoas que vocês ouviram.
É isso. Acho que o Thiago quer falar, Thiago. Não, não, acho que a Línia é a melhor pessoa para responder isso. Só começo dizendo que, assim, a gente aproveitou muito essa parceria que foi incrível do Globo e da CBN. A gente com esse conhecimento todo de tratar áudio. A Línia com 15 anos de experiência cobrindo o crime organizado. Então, ela já tinha o caminho das fontes, conversava com muita gente. E isso trouxe uma vantagem enorme para a gente no podcast.
E aí, a partir daí, a gente pegou a nossa equipe do lado de cá da CBN para ajudar.
Aline a mergulhar nesse processo todos e na busca dessas pessoas, que não foi nada fácil, principalmente porque a gente tinha uma preocupação muito grande de não só falar dos ataques aos postos policiais, mas também contar a história das pessoas que foram vítimas daquele processo.
ali deve ter um número melhor na cabeça, mas foram mais de 500 pessoas mortas, foram dezenas de policiais, centenas de pessoas que foram inocentes, que morreram diante de uma guerra que não tinham nenhuma parte efetivamente na guerra. Sim, acho que é isso que você falou, acho que o nosso trabalho foi sempre procurar a fonte primária, ou seja, um documento ou alguém que estava envolvido diretamente com aqueles acontecimentos, e aí a gente teve uma dificuldade grande, porque muitas pessoas...
já estão muito idosas ou quase acho que todas elas já estão fora de cargos públicos, então encontrar o simples fato de encontrar essas pessoas já foi difícil e checar checar porque a gente sabe que as pessoas têm
Tem interesses, né? Tem vieses e... Tem um jeito de olhar pras coisas, né? Tem uma memória também, porque são 20 anos, né? Pode faltar um pouco, realmente, né? A memória de como aconteceram as coisas. Então, quando tinha uma divergência de informação entre uma fonte e outra, a gente tentava checar com uma terceira. Pra ter certeza de que a gente tá contando a história mais fiel possível a como aconteceu, assim.
Bom, e vocês não começam efetivamente no dia que começa o ataque. Vocês dão um passo atrás, para falar um pouquinho, anos atrás, para explicar um pouquinho como é que vai formando o PCC. Ele era um grupo, digamos assim, subestimado? O governo de São Paulo, a cúpula de segurança pública, não tinha dimensão, noção do que se tratava ali?
Sim, com certeza. A gente tomou essa decisão coletivamente. Foi até uma discussão. Foi até uma discussão. Eu gosto de saber desses bastidores. Onde a gente começa a contar a história? Foi um debate mesmo. Vamos começar em 2001 ou vamos começar no dia do atentado. E aí eu acho que a gente acabou decidindo por voltar a cinco anos pro ouvinte conseguir entender o que...
Do que a gente estava falando, né? Como que era o PCC naquele momento? Como é que o governo e a opinião pública enxergavam o PCC naquele momento? E aí, né, pra quem ouvir vai entender que o PCC, ele foi por anos, por quase uma década, a existência do PCC foi negada pelo governo do estado de São Paulo. Não era nem nomeado, né? Não, não era. Inclusive, eles negavam pra imprensa, negavam publicamente. A facção nasceu nos presídios em 93 e ela só vem a público e...
por uma questão de que ela se colocou no mundo e aí não tinha mais como negar, que foi na mega-rebelião que teve em 2001. E aí foram dezenas de presídios, vieram muitos motins.
em várias cidades. Tipo, 30 presídios no Estado inteiro. Exato. E aí foi quando tem uma foto muito emblemática daquele momento, com os presos em cima do telhado, um lençol pichado com a sigla PCC. E ali, em 2001, o governo não tinha mais como negar a existência.
Então, a gente achou importante voltar e também contar por que 2001 é importante, né? Também na opinião. Porque ali o PCC mostra o poder de articulação dele dentro das cadeias, inclusive pelo celular, que a gente estava falando mais cedo, né? Com algumas ligações, eles conseguiram parar o Estado, eles mobilizaram o Estado. E aí, em 2006, eles repetem isso, mas também nas ruas, né?
Então, foi por isso que a gente deu um passo atrás para contextualizar isso tudo. Me parece que o salve é um ponto bastante importante na transformação do PCC de grupo organizado de detentos para reivindicar melhores condições carcerárias para o que é hoje um dos maiores grupos criminosos do país. Em que momento o salve geral representa nessa transformação?
Acho que 2006 foi um ponto de virada, sem dúvida. Acho que dá para dizer que foi a maior crise de segurança pública do Brasil. E acho que mostra mesmo essa capacidade de organização do PCC, de articulação e de mobilização de dentro da cadeia, o que eles eram capazes de fazer na rua.
Por isso que é tão importante a gente falar sobre 2006. A gente não está revisitando isso à toa, né? Acho que a ideia do podcast vem daí, de mostrar como é que 2006 impacta os dias de hoje, a sua vida, a minha vida, a vida da população. O PCC está sendo discutido nos Estados Unidos hoje, minha gente. É meio isso. Bom, transferir presos.
Tinha qual o propósito? Teve uma grande transferência de mais de 700 presos em algum momento ali. Qual era aquele contexto e qual era a intenção do governo de fazer essa transferência? Por que era importante? Bom, eu acho que é legal também entender o contexto nesse caso. Aquele ano era um ano eleitoral. Então, o governador tinha se afastado para concorrer à presidência.
o PCC já vinha travando um cabo de guerra ali com a Secretaria da Administração Penitenciária buscando mostrar poder dentro do presídio, né? Eles já tinham tentado, eles já tinham comprado televisores pra assistir a Copa do Mundo tinha uma negociação ali em torno da cor do uniforme e eles foram tomando espaço dentro da SAP, né? Que é essa secretaria que administra a vida do preso dentro do presídio, pra onde ele vai ser transferido etc. etc.
Então, ali naquele meio, o PCC resolveu ir escalando. E o governo precisava parar aquilo de alguma maneira. O governo precisava mostrar quem estava controlando a situação. Então, eles decidem fazer essa transferência em massa da liderança.
para um presídio que era mais seguro, que tinha regras mais rigorosas, onde, em tese, a comunicação com a rua seria mais difícil. Foi por isso que eles planejaram essa transferência.
Eu me lembro de muitas reportagens que fiz aqui quando era repórter entre 2000 e 2006, de conversar com o delegado Rui Ferraz Fontes no DEIC. Ele sempre esteve à frente das investigações contra o PCC. Foi assassinado brutalmente no ano passado pelo PCC.
E você falava de coisas inéditas, desse trabalho de arqueologia mesmo, de ir lá nos documentos, nas pessoas e tal, afim de olhar para o que tinha sido feito e também, obviamente, de buscar coisas inéditas. E a conversa, você conta no primeiro episódio que a conversa com o delegado Rui Ferraz Fontes, aliás, foi para você que ele deu a última entrevista, né, Aline? Foi, foi. Ele vai relaxando ao longo da conversa e vai ficando mais falante.
E dessa conversa, saiu alguma coisa que vocês trazem pela primeira vez sobre essa história? Sim, saiu. Bom, o Rui já era minha fonte há muito tempo. A gente conversava bastante quando ele estava ainda na ativa, né? E aí, quando ele se aposentou, ele se mudou para a Praia Grande, foi ser secretário lá da administração. E a gente se afastou um pouco, porque acho que ele queria também se desvincular desse assunto um tanto.
Então, quando ele aceitou falar com a gente pro podcast, a gente ficou bastante feliz, porque a gente sabia que o Wii era uma espécie de guardião dessa memória, né? E poderia, inclusive, ter os documentos que a gente tanto procurava e tava tentando e não conseguia. Então, assim, era uma entrevista muito esperada. Ele tava muito tenso mesmo, de fato, quando a gente conversou. A gente até teve que aproximar o microfone, porque ele falava baixinho, meio retraído.
E aí ele começa a se soltar, começa a se soltar, até que ele conta uma coisa pra gente que era um off.
e seria um off ainda se ele não tivesse morrido. E a gente vai acabar contando isso, porque a gente acha que é uma informação que tem muita relevância pública. E sim, ele conta para a gente como a liderança do PCC destituiu os antigos líderes para chegar até o poder. A gente vai contar isso em detalhes, segundo toda a narrativa do próprio ex-delegado no quarto episódio.
Ah, legal demais. Estou ansiosa. Tem vários ouvintes aqui que estão lembrando o que estavam fazendo naquele dia de 2006. Vou pegar aqui a Mirta, de São Paulo. Estava no trabalho, começaram a ouvir sobre os ataques. Estavam começando a atacar o comércio, empresas. Aí alguém disse que tinham jogado bomba numa faculdade. Isso tinha boato para carinho. Tinha. Muito boato. Os boatos foram até mais fortes. Saiu correndo com as filhas.
Infelizmente, muita gente correu para as escolas das crianças, me lembro disso, para pegar as crianças nas escolas. Foram correndo para casa, sensação de medo, enorme impotência, um horror inesquecível. Resume aqui a Mirta. Vamos pegar assim, como é que começaram os ataques? Qual foi a ordem? De onde veio? Como é que começaram?
A ordem veio de dentro dos presídios mesmo. Apesar de não ter comunicação em tese, a gente sabe que alguns, quando começaram as transferências, algum celular ainda ficou dentro da cadeia. Então a ordem partiu dali, a liderança estava presa. E aí eles só iam espalhando na rua. A Polícia Federal captou algumas ordens, alguns salves, que a gente chama o comunicado do crime.
E, enfim, a gente teve acesso via processo, via fontes, ao conteúdo desses salves. Então, foi assim, partiu da cadeia para a rua e aí começaram a executar, se eu não me engano, os primeiros atentados ocorreram no interior e depois na capital. Acho que Iara, se eu não me engano, e Avaré. E era um momento em que a gente estava tendo os ataques e, ao mesmo tempo, rebeliões?
Tudo ao mesmo tempo. Eu lembro, posto da GCM, que as pessoas, os criminosos passavam metralhando os postos policiais. A partir disso, você via, criava essa tensão também que todos os postos policiais, lugares que tinham cabines de segurança, eles faziam uma faixa de rolamento de segurança. Então gerava trânsito em vários lugares da cidade.
Na própria Zaquinar, que na Zona Norte da cidade de São Paulo, acontecia isso. Isso ajudava a gerar essa sensação de pânico. Começou numa quinta, ainda sexta, os primeiros ataques, sexta-noite, e aí veio o final de semana do Dia das Mães. Está tudo lá no primeiro episódio. Está tudo lá no primeiro episódio. E aí a segunda-feira seguinte, que é a Cidade Vazia, no dia 15 de maio.
Essas imagens são, dessas imagens eu lembro. Elas são mesmo muito assustadoras. Eu ouvi os dois episódios, o primeiro eu ouvi ontem, eu ouvi hoje de manhã, eu ouvi o segundo hoje também. Os números são muito assustadores, né? Quando a gente fala que mais de 500 pessoas, mais de 500 civis, muitos deles inocentes, foram assassinados.
Também é muito chocante pensar que, sei lá, seis dezenas, 60 homens das forças de segurança também foram assassinados. Eu fui ouvindo e fui pensando, talvez tenha sido mais perto que a gente chegou de uma guerra civil ou qualquer coisa assim. Falava-se isso também à época. No segundo episódio, no entanto, vocês nos apresentam quem eram dois desses homens mortos.
E pra gente não esquecer da tal da humanidade e de lembrar que eram pessoas que tinham histórias, que tinham famílias, sonhos, rotinas, hobbies, amores. Queria que vocês contassem um pouquinho dos personagens, com quem vocês falaram pra reconstituir esses dois homens que foram mortos em maio de 2006.
É, eu acho que isso é essencial, né? Em qualquer trabalho jornalístico, esse sempre é o meu grande esforço. O número um de reportagem é tentar entender quem são as pessoas por trás dessas histórias, desses números, dessas estatísticas, né? E, de novo, foi um trabalho difícil, né? Porque essas pessoas ainda estão muito sensibilizadas.
Ainda tem muito medo de algum tipo de retaliação, principalmente da parte da família do policial. A gente sentiu isso, porque a família dos civis até se organizaram anos depois num movimento chamado Mães de Maio, que é um movimento que tenta lutar por justiça até hoje. E mesmo assim, são pessoas desconfiadas que precisam de um tempo ali para ganhar confiança mesmo.
E aí a gente conseguiu, depois de um tempo, tentando de meses, talvez, de troca de mensagens, de conversas, que essas famílias topassem falar com a gente. Então a gente conversou com duas, uma família de um civil morto. O Wagner era um jovem de 22 anos, ele era pizzaiolo.
Ele não tinha nenhum envolvimento com o crime, ele não tinha nenhum boletim de ocorrência, processo. Ele era só uma pessoa que decidiu sair para jogar videogame naquela noite e foi surpreendido por dois homens encapuzados, levou tiros de fuzil e faleceu. A gente conversou com a Maria Sônia, que é a mãe dele.
Desculpa, é ela que ainda fala como se o filho estivesse vivo? É, isso impressionou muito. É, isso é bem chocante mesmo. A gente pergunta, ele tinha os olhos azuis, né? Ela fala, não, ele tem os olhos azuis, como se ele estivesse aqui, né? Isso me pegou muito também, porque...
Eu conto histórias de pessoas que sofreram violência do Estado, que foram vítimas fatais mesmo do Estado, conversando com os familiares há muito tempo. Mas eu acho que eu nunca tinha ouvido gente que tinha passado por isso tantos anos atrás. E me surpreendeu demais como essas famílias ainda estão em luto. Elas ainda falam com muita emoção, ainda choram seus parentes, sabe? E a família do policial também. Assim, a...
Ela falou que ela topou falar com a gente porque ela não queria que o marido dela fosse mais uma estatística, né? Ela fala que ele tinha nome. O nome dele era Isaías. Isaías com S. E aí é muito emocionante ouvir.
Tanto a ex-mulher desse policial, quanto os filhos até hoje. Porque os filhos perderam o pai muito cedo. E até hoje eles têm esse pai como uma referência na vida. E é muito revoltante ouvir, eu não me lembrava disso, que muitas dessas famílias, se não todas, ainda não foram reparadas pelo Estado. Não, ainda não.
Elas ainda batem nessa tecla, que não tem dinheiro no mundo que se pague, né? Que pague uma coisa dessas, mas não tiveram, acho que, mais do que uma indenização, né? Um pedido de desculpa, uma... Um reconhecimento. Do que aconteceu, né? Das suas histórias, assim.
Muito bem. Aline, parabéns pelo seu trabalho. Eu estou muito curiosa para ouvir os próximos episódios. Tem dois no ar, são quantos? São cinco ao todo. Certo. Toda quinta? Toda quinta. Ah, muito bem. Aline Ribeiro, repórter especial do Globo em São Paulo, é a apresentadora do podcast PCC, o Salve Geral, feito em conjunto pela CBN, pelo Jornal Globo, que já está disponível no seu tocador preferido. Parabéns pelo seu trabalho mais uma vez.
Obrigada por estar aqui falando sobre ele. Obrigada pelo espaço. E venha sempre ao Estúdio CBN. Portas do Estúdio sempre abertas. Muito obrigada, gente. Obrigada. Espero que os ouvintes gostem. Tiago Barbosa, gerente de produtos digitais da CBN. Obrigada. Parabéns pela série. Estou muito curiosa mesmo.
Dá um trabalho, né, Tiago? Dá um trabalho, né, Tiago? Mas vale a pena. Teve um ouvinte que uma vez participei aqui. Nossa, eu gosto de ouvir o Tiago na programação porque eu sei que tem novidade e coisa boa. E eu quero reforçar essa pecha. É novidade e é coisa boa. Você, quando ouvir o Tiago no ar, saiba que tem coisa boa pra você. Adorei, adorei. Obrigada, Tiago. Até a próxima. Obrigada, gente. Valeu.
Em um mundo cheio de respostas, escolhemos fazer as perguntas certas. Somos a Trilha. Fazemos perguntas que movem negócios com dados e inteligência aplicada.
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