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'Irã colocou os Estados Unidos e o Ocidente de joelhos' com fechamento do Estreito de Ormuz, diz especialista

09 de abril de 202611min
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O professor Pedro Costa Júnior, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e analista de Relações Internacionais, em entrevista aos Jornal da CBN, destaca um cessar-fogo frágil entre EUA e Irã. Ouça.

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Participantes neste episódio2
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Pedro Fagundes

HostJornalista
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Pedro Costa Júnior

ConvidadoProfessor e analista de Relações Internacionais
Assuntos3
  • Oriente Médio e Estreito de OrmuzCessar-fogo entre EUA e Irã · Fechamento do Estreito de Hormuz · Ofensiva de Israel no Líbano · Poder do Irã no Oriente Médio
  • Impacto EconômicoPressão inflacionária global · Controle do petróleo pelo Irã · Eleições nos EUA e popularidade de Trump
  • Negociações de PazDireito do Irã de enriquecer urânio · Extinção das bases militares dos EUA · Indenização de guerra pelo Irã
Transcrição27 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

E nós voltamos a analisar o cenário no Oriente Médio. Para conversar conosco agora, convidamos Pedro Costa Júnior, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e analista de Relações Internacionais. Pedro Costa Júnior, obrigado pela sua gentileza de nos atender no Jornal da CBN. Bom dia!

Bom dia, Milton. Bom dia, Marcela. Bom dia a toda a audiência qualificada da CBN. Bom dia. Desde o anúncio do cessar fogo, nós já noticiamos aqui que houve a maior ofensiva em um dia desde o início da guerra por parte de Israel, ali na região do Líbano, onde está o Hezbollah. Já tivemos novamente o fechamento do Estreito de Hormuz, novas mortes. Que cenário é esse que nós estamos assistindo agora? É de cessar fogo?

É um cenário muito frágil, esse cessar-fogo é um cessar-fogo muito frágil. Veja, o Dida Ivens, vice-presidente dos Estados Unidos, deu uma declaração de que o Líbano não entraria no cessar-fogo.

Israel atacando o Líbano nesse momento, desde ontem atacando mais fortemente o Líbano. Já há um tempo que vem nessa empreitada, mas ontem intensificou os bombardeios sobre o Líbano, inclusive sobre Beirute, a capital do Líbano.

E, ao mesmo tempo, o Irã diz que o Líbano entra nesse cessar-fogo. O que diz os mediadores? Quer dizer, o Paquistão, que tem sido o governo que está mediando esse acordo entre Irã e Estados Unidos. Eles dizem também que o Líbano entra nessa conta, ele entra nesse cessar-fogo. O cessar-fogo não é apenas ao Irã, é também ao Líbano. O Líbano é estratégico do ponto de vista da guerra de Israel.

de que é uma guerra resistencial, porque ali está um dos chamados prox wars do governo iraniano, que é o Hezbollah. Ou seja, o Hezbollah, no Líbano, assim como o Hamas, na Palestina, ou assim como os iútes, no Iêmen, eles fazem parte daquilo que os iranianos chamam de eixo da resistência. Então, o ataque a um dos seus prox, daqueles que fazem a guerra pelo Irã,

que são grupos independentes, não são estados nacionais, são movimentos transnacionais, para o Irã não conclui como um cessar-fogo. Esse é o grande impasse. Agora, Hamilton, a grande questão, você toca na sua pergunta, que é o fechamento do Estreito de Hormuz. É exatamente no fechamento do Estreito de Hormuz que o Irã colocou os Estados Unidos e o Ocidente e o Ocidente de Hormuz.

de joelhos, o ocidente coletivo de joelhos. Porque quando ele controla o Estreito de Hormuz, primeiro, ele proíbe que todos os aliados de Estados Unidos e Israel passem pelo Estreito. Como nós sabemos, o Estreito passa um terço do petróleo, do gás, da energia global. Então, isso afeta todas as economias do mundo. Nós estamos vendo a pressão inflacionária.

a disparada dos preços, não só dos combustíveis, mas a pressão inflacionária como um todo, porque o petróleo é um ativo para a economia como um todo. E isso pega diretamente nos Estados Unidos, pega na popularidade de Trump. Trump vai ter eleições agora em novembro, as middle terms, as eleições de meio de mandato. Ele não pode perder a maioria que ele tem no Congresso, senão ele entra naquilo...

que a imprensa americana chama de pato manco, ou seja, ele não vai ter governabilidade nos próximos dois anos. Então, ele precisa da abertura desse estreito. É ali que o Irã estrangula todo o Ocidente, controlando o estreito. Acho que esse é o ponto central.

Bom, acho que a gente tem alguns pontos também com relação ao cessar fogo, esse eixo da resistência para Netanyahu. É interessante manter essa continuidade da guerra, pensando num contexto geopolítico de Israel. E, além disso, um outro ponto, um impasse que está muito claro para esse acordo de paz definitivo.

é a questão do direito do Irã de continuar enriquecendo urânio, que é uma questão cara para os Estados Unidos. Então, acho que esses dois pontos contribuem para um não cessar fogo e um não acordo de paz. É mais ou menos nessa linha de raciocínio? Perfeito, exatamente. É exatamente por aí que a coisa pega, né, Marcela? A questão do enriquecimento urânio, vamos lembrar na guerra dos 12 dias que teve ano passado.

quando teve os ataques americanos, israelenses, contra as bases principais, no subsolo ainda, de enriquecimento de urânio no Irã. O que Donald Trump declarou naquela época? Ele disse, nós obliteramos o programa nuclear iraniano. Esse é o termo que ele usou. Estou abrindo aspas para o presidente dos Estados Unidos aqui, ipsis literis. Nós obliteramos esse programa nuclear.

No entanto, agora ele começa essa guerra novamente dizendo que é preciso acabar com o programa nuclear iraniano. Do ponto de vista dos iranianos, o que eles alegam nesse cessar-fogo, nos dez pontos que eles oferecem de cessar-fogo, é que isso é uma questão inegociável. Para eles, é o enriquecimento iraniano para fins pacíficos. É assim que eles tratam essa questão. E que não vão abrir mão disso.

O que mais que, do ponto de vista iraniano, faz esse cessar-fogo, ou o acordo de paz, para além do cessar-fogo, ser tão difícil de ser alcançado, Marcela? Os iranianos querem a extinção das bases militares dos Estados Unidos ali no Oriente Médio, no oeste da Ásia. Nós sabemos que os Estados Unidos têm dezenas e dezenas de bases militares ali na região, na Arábia Saudita, no Catar, Oman, Coite.

que inclusive foram atingidas nessa guerra. Mais de 80% das bases militares dos Estados Unidos foram atingidas pelo Irã. Também isso coloca os Estados Unidos na defensiva, algo que não se esperava antes dessa guerra. O Irã mostra o poder de fogo até então que ele não havia apresentado. Veja, do ponto de vista dos Estados Unidos, isso é um anátema.

Jamais os Estados Unidos vão abrir mão de ter suas bases militares na região mais instável do mundo, onde está o seu principal parceiro ali na região, que é Israel, que é preciso defendê-lo do ponto de vista dos Estados Unidos. Israel, digamos, está lutando contra todos. É assim que a Casa Branca e o Washington entendem essa guerra. Então, isso é inviável. E, além de tudo, o Irã pede também uma indenização de guerra.

uma indenização dos prejuízos que foram causados. Então, os interesses são muitos díspares, e vai ser difícil chegar nesse consenso. Dito tudo isso, o que se pode esperar do possível encontro que haverá do vice-presidente J.D. Vance, que vai liderar uma delegação americana, ou pelo menos deve liderar uma delegação americana ao Paquistão, para uma negociação com representantes ou autoridades iranianas?

Exatamente. O D. Day Vance está em direção a Islamabad, no Paquistão, para fazer essa negociação. Veja, o Vance é uma voz contrária ao governo Trump nesse momento. É o vice-presidente dos Estados Unidos e ele vem daquele movimento, o MAGA, o Make America Great Again, que é um movimento de base, de apoio muito forte do Trump, a chamada...

a nova direita americana, que, no entanto, eles são isolacionistas. Eles se pautam uma ideia do American First. Eles acreditam que os Estados Unidos não devem se envolver em novas guerras. Essa foi toda a plataforma do Trump para quando ele foi eleito em 2016 e agora na volta.

nessa volta dele, quando ele é eleito novamente, o que ele sempre se orgulhava de dizer é que os Estados Unidos não haviam começado nenhuma nova guerra durante o seu mandato. Ele dizia, eu sou o presidente americano que não começou novas guerras.

E agora essa base fiel a ele, o MAGA, se sente traído. Se sente traído exatamente por os Estados Unidos ter começado essa guerra. E o D.D. Vance é a voz que representa o MAGA. É a voz que não interessa essa guerra, não interessa fazer essa guerra. Diferente, por exemplo, de outros setores representados pelo Marco Rubio, que é o secretário de Estado. Então essas agendas são concorrentes hoje dentro de Washington. Por isso o Vance vai em busca da mediação de paz.

Qual é o nóis? Quer dizer, aonde está o ponto nevrálgico? O que interessa mesmo para sair esse acordo de paz é a abertura do estreito. Porque, além do Irã controlar que os aliados americanos e os caelenses não passem pelo estreito, ele começou a cobrar um pedágio para que outros países que não são aliados do Irã, mas também não são contrários,

eles também passam pelo estreito. Então, o Irã hoje, a Guarda Revolucionária Ilhaniana, cobra o equivalente a 2 milhões de dólares para cada navio que passa, para cada petroleiro que passa, carneiro que passa no estreito de Hormuz. É o caso, por exemplo, da Índia. A Índia, 48 horas antes da guerra, o Modi estava no parlamento em Israel. Então, se paga esse valor. Os aliados do Irã, Milton, eles passam free. A Rússia e a China não pagam nada.

e os demais países que não são aliados diretos do Ocidente, eles estão pagando esses 2 milhões de dólares. Detalhe, é o equivalente a 2 milhões de dólares, por quê? Porque o Irã não aceita pagamento em dólar, tem que ser em yuan. Então isso tem acelerado, digamos, ao crescimento do petro-yuan em detrimento dos petrodólares, que é todo o pilar de sustentação da hegemonia do dólar.

que dá aos Estados Unidos o seu poder na economia mundial. Então, eles estão vendo os petrodólares sendo substituídos gradativamente pelo Petro Yuan de uma forma muito acelerada pelo fechamento do estreito. Então, toda a pressão de vence vai ser pela abertura do estreito de Hormuz. Professor Pedro Costa Júnior, muito obrigado pelas suas informações e sua análise aqui no Jornal da CBN. Um bom dia!

Bom dia, Milton. Obrigado, Marcelo. Pedro Costa Júnior é doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo e analista de relações internacionais, nos ajudando a compreender um pouco mais sobre este cenário no Oriente Médio.