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Por que a reentrada na atmosfera ainda é um dos maiores riscos das missões espaciais?

10 de abril de 202612min
0:00 / 12:09
A fase de reentrada na atmosfera, considerada a mais crítica de uma missão espacial tripulada, é um dos momentos mais delicados do voo. A missão Artemis II tem previsão de chegada nesta sexta-feira (10). A cápsula Orion deve realizar o pouso no oceano por volta das 21h07 (horário de Brasília), na costa de San Diego, nos Estados Unidos. Em entrevista ao Jornal da CBN, Marcelo Lapola, doutor em Astrofísica e Cosmologia pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), explicou os riscos envolvidos no processo, marcado por velocidades que chegam a 38 mil quilômetros por hora e temperaturas próximas de 2.800 °C.

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Participantes neste episódio2
A

Ana Paula Jaume

HostJornalista
M

Marcelo Lapola

ConvidadoDoutor em Astrofísica e Cosmologia
Assuntos2
  • Reentrada na AtmosferaAcidente do ônibus espacial Columbia · Escudo térmico da cápsula · Temperaturas extremas na reentrada · Velocidade de reentrada
  • Missão ArtemisImportância da missão Artemis · Tratados sobre a Lua · Exploração e mineração lunar · Pouso lunar em 2028
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Nós vimos algumas coisas extraordinárias, coisas que eu pensei que nós poderíamos ver. Elas se pareciam com o que eu pensei que se pareceriam, mas vimos outras que eu nem imaginava. Mas, ei, tenho que dizer, isso não mudou minha perspectiva. A perspectiva que eu já tinha de que nós vivemos em um planeta frágil, no vácuo, no vazio do espaço. E nós sabemos disso pela ciência.

Você ouviu aí o astronauta canadense Jeremy Hansen, que destacou a vulnerabilidade do planeta Terra, um dos tripulantes que estão retornando para a Terra. E como será esse procedimento? O que a gente já tem de visão sobre a importância desta viagem que nós acompanhamos?

Para conversar conosco sobre esse assunto, nós convidamos o Marcelo Lapola, doutor em Astrofísica e Cosmologia, pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, que é o ITA. Marcelo Lapola, muito obrigado pela sua gentileza de estar conosco aqui no Jornal da CBN. Bom dia! Bom dia, Milton. Tudo bem? Sou um grande fã aí do jornal. Estou sempre ligado e é uma honra poder participar, falar dessas coisas.

Nós é que agradecemos pela sua presença aqui para compartilhar esse conhecimento. Momentos como esse trazem uma atenção muito especial para essas missões, até porque temos uma retomada deste olhar para a Lua, diríamos assim. E eu queria, antes de falar sobre a importância da missão, só tentar entender como é que é esse procedimento de retorno agora, que é sempre muito sensível. Por que isso? O que nós devemos estar atentos?

Sim, começa que a NASA e o mundo têm um trauma do acidente que aconteceu em 2003, o trágico acidente que aconteceu 1º de fevereiro de 2003 com o ônibus espacial Columbia. Sete tripulantes, infelizmente, foram perdidos por conta da reentrada, problemas na reentrada da atmosfera. Então, esse é o momento mais delicado de toda viagem espacial tripulada.

que é a chegada, é a reentrada na atmosfera. Então, você tem ali a liberação de calor extremo, e precisa ter um escudo térmico muito bem construído na cápsula para que essa reentrada seja... para que esse calor gerado no atrito com o ar não passe para dentro da cápsula. Então, é um momento muitíssimo delicado, mesmo...

com toda a tecnologia, enfim, a física é a mesma, não muda. Então, é muito delicado. Hoje cedo a gente ainda falava aqui, uma temperatura aí que vai à casa dos 2.800 graus Celsius, é por aí? Sim, por aí. Uma reentrada na atmosfera, até anotei aqui, numa velocidade de 38 mil quilômetros por hora. Então, o...

É só para os nossos ouvintes e quem está nos vendo, né? Pensar a respeito do que é a resistência do ar. É como quando a gente está andando de carro e você coloca a mão para fora do vidro, você sente um ventinho, né? Aí tenta fazer isso com o carro a 150 por hora e você vai sentir a resistência do ar como se fosse algo, parece que sólido, né? Então imagina numa velocidade dessa, a resistência do ar vai lá para cima.

E esse atrito, essa fricção do ar com as paredes da cápsula faz com que o exterior fique em chamas, né? Então, precisa desse escudo para proteger o pessoal que está lá dentro. E aí a gente vê também a importância das missões não tripuladas, porque se testa muito isso. Inclusive, o que aconteceu na Artemis 1 foi motivo de mudança de estratégia para agora a Artemis 2, que vem com tripulação, né?

Exatamente, houve um problema até que grave no escudo térmico da cápsula da Artemis 1, que não era tripulada, partes assimétricas, se perdeu muito, porque o que precisa? Deixa eu improvisar aqui, tem a tampa da minha garrafinha de água, a cápsula é mais ou menos isso, e aqui embaixo você tem o escudo térmico.

curvado assim, fechado. Então ela entra num determinado ângulo na atmosfera e ali você tem o maior impacto nessa área do ar. E ali é preciso que haja um desgaste desse escudo de maneira controlada e simétrica. Então vai queimando mesmo, literalmente. Só que é uma queima controlada, muito bem testada. E a Artemis 1, a Orion 1...

houve esses problemas. E aí diz a NASA, e claro, eu acredito, lógico, que eles resolveram esse problema. E vale lembrar que é um material que se chama Avicote, que é esse escudo térmico, que é o mesmo usado, agora mais aperfeiçoado, o mesmo usado nas cápsulas do projeto Apollo. Até ontem me perguntaram, mas não houve uma evolução? Houve uma evolução nos testes, na maneira...

distribuir esse material e tudo, mas o material é o mesmo fundamentalmente, porque a física é a mesma, né? Então, os processos são os mesmos. Marcelo Lapola, além de belas imagens, o que essa missão traz de volta? Eu acho que traz para as pessoas, principalmente para os mais jovens, espero que traga inspiração, assim como trouxe para mim, eu não lembro, não era nascido... né?

no projeto Apolo, mas fui ler a respeito, me inspirei muito para estudar, para virar um físico, para estudar astrofísica, enfim, gosto muito de astronomia também. Então, isso que fique a inspiração para as novas gerações. Só que também que a gente preste atenção nessa nova corrida espacial 2.0, que é a disputa entre Estados Unidos e China, né?

na tomada da Lua, né? E aí fica a discussão de quem é a Lua, de quem chegar primeiro, e tem alguns tratados, mas como vão respeitar esses tratados, né? Porque, Milton, você bem sabe, os interesses são agora outros, né? Diferentes do programa Apolo, os interesses agora são de exploração, mineração da Lua, construção de bases na Lua para lançamento de foguetes.

lá já é sabido que a gente tem o tal do hélio 3, que é um composto fundamental na geração de energia por fusão nuclear. Temos na Terra também o hélio 3, só que perto do núcleo da Terra, então quase que impossível de explorar. E lá a gente tem em abundância. Tem água que dá para fazer combustível de foguete, quebrando a água com hidrogênio. Enfim, então é um outro...

olhar para a Lua mais exploratório e de ficar na Lua agora. Você chama atenção para uma discussão que se deve ter, que é da governança deste espaço, né? Exato. Como seria a governança deste espaço? Existem alguns tratados ou estudos nesse sentido que pudessem nos dar uma linha geral? Até pensando, e aí vai ser um outro ponto que nós vamos abordar aqui, nessa possibilidade já de um pouso lunar novamente em 2028.

Sim, há tentativas de tratados a respeito da Lua, mas até onde eu sei, assim, que a Lua pertence à humanidade, mas diante dessa corrida por terras raras, para construção de chips, baterias, entre outras coisas eletrônicas, e a corrida pelo Hélio 3, em 2018, Milton, se não me engano, foi em 2018,

a China pousou uma sonda no polo sul da Lua, onde tem muita água com gelo e também o Hélio 3. E o presidente da China, Xi Jinping, veio em cadeia nacional falar do sucesso da missão na China, entrou em cadeia nas TVs e falou, agora estamos em busca, descobrimos o combustível infinito, a geração infinita de energia.

Então é um interesse muito grande geopolítico. E aí, se você pensar, as duas missões Artemis, a 1 e a 2, já se gastou 98 bilhões de dólares. Então, de quem é a Lua? De quem tem mais dinheiro? Vão respeitar os tratados? Porque os tratados são quase como que pró-forma, né? Tratados mundiais, enfim.

Marcelo Lapola, só para fechar essa nossa conversa aqui, como fica a perspectiva do pouso lunar em 2028, a partir do que se conquistou até agora, dentro dessa missão, do que foi possível alcançar dentro da missão atual da Artemis II? Continua sendo um objetivo viável? Eu acho que é o próximo passo, o pouso na Lua. Com certeza é uma parte...

parte do planejamento dos Estados Unidos, principalmente esse pouso lunar. Talvez a China também tenha a intenção de pousar, mas um pouco mais adiante, lá para 2030 até 2032. Só que é um pouso com uma perspectiva diferente. É um pouso lunar que inaugura uma nova etapa, que agora ficaremos na Lua.

não será assim esporádico. E as futuras gerações, talvez a gente veja também, vão ver como comum voos para a Lua, quem sabe até um turismo lunar. Você toparia, Milton, ir para a Lua? Se eu tiver com...

condições físicas, principalmente, né? Porque tem que ter uma preparação para isso. Eu ficaria muito feliz ter essa possibilidade e participar de uma aventura como essa. Marcelo Lapola, além de me fazer sonhar, muito obrigado. Muito obrigado pelas suas informações aqui no Jornal da CBN. Quem sabe a gente não vai junto numa viagem dessas. Isso, e ver a terra pequenininha, né?

Muito obrigado. Obrigado, até mais. Marcelo Lapola, doutor em Astrofísica e Cosmologia pelo ITA, conversou com você aqui no Jornal da CBN.

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