Cessar-fogo entre EUA e Irã: 'respiro de alívio, mas com a consciência de que não acabou', diz especialista
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Pedro Costa Júnior
- Conflito Irã-EUATatiana Teixeira · negociações internacionais · papel do Paquistão · risco de ruptura · preço do petróleo
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Vamos entender qual é o cenário que nós temos hoje no Oriente Médio a partir dos anúncios feitos ontem, primeiro com uma ameaça muito dura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas depois, no decorrer do dia, com negociações, e há hoje um novo olhar, pelo menos é o que se espera em relação a essa região. Para entender o que a gente pode esperar a partir de agora, nós convidamos a Tatiana Teixeira.
que é editora-chefe do Observatório Político dos Estados Unidos e pesquisadora de pós-doutorado da Universidade Federal de Uberlândia. Tatiana Teixeira, muito obrigado pela sua gentileza de nos atender aqui no Jornal da CBN. Um bom dia. Bom dia, Milton. Bom dia, Marcela, também. E bom dia ao ouvinte da CBN. Tatiana Teixeira, quão confiável é esse acordo que foi fechado nas últimas horas?
Bom, a gente tem, depois dessas horas, desde o anúncio do acordo até agora, pela manhã, aqui na hora de Brasília, uma percepção muito mais clara de que não é, na verdade, um cessar-fogo confiável. Trata-se principalmente de um mecanismo que é improvisado, frágil.
para então se abrir uma negociação. Primeiro porque a gente não tem nem exatamente um consenso sobre o que foi acordado entre as partes. É um acordo que envolve Estados Unidos e Irã, mas diretamente com o Irã colocando as suas condicionalidades, tendo apresentado um plano de 10 pontos, feito sob mediação internacional, principalmente por parte do Paquistão, e de forma...
mais suave, eu diria, de Qatar e Oman, visando facilitar essa negociação e principalmente evitar um colapso imediato na região. Um aspecto importante é que esse acordo, da forma como ele foi feito até agora, ele não envolve Israel, vocês acabaram de anunciar uma matéria atualizando isso.
Então, é um cessar-fogo que não cobre. Na visão de Israel, embora na visão do Paquistão, que fez a mediação, principal mediador, isso esteja incluído, para Israel não inclui o Hezbollah. Então, você tem aí uma brecha que pode transbordar e trazer o conflito de volta. Não inclui o próprio Hezbollah, não inclui outras forças aliadas, outras forças e grupos aliados do Irã, como grupos na Síria.
Enfim, o TIS no Iêmen, milícias no Iraque, não inclui países do Golfo, não inclui Turquia, os vizinhos regionais mais próximos, eles não foram incluídos nesse cessar-fogo. Então, ele não é um cessar-fogo da guerra, mas ele se restringe a Estados Unidos e Irã. Isso significa que a guerra regional continua ativa nos seus focos de sempre.
Existe esse alto risco de contaminação. E, sim, ele, na verdade, já está sendo testado, porque a gente já teve ocorrência, apenas nessa madrugada, de incidentes militares, os ataques, eles continuam via aliados. Por exemplo, Israel, que continua bombardeando posições do Hezbollah no Líbano.
É um acordo, e é isso só para o que a gente tem como consenso, o que se sabe até agora, com certeza, está estipulado para levar em torno de duas semanas. O objetivo é reabrir plenamente o Estreito de Hormuz, conseguir a suspensão parcial dos ataques e, com isso, ganhar tempo, como eu falei no início, para uma negociação efetiva.
e evitar uma escalada que seria extremamente perigosa e não desejável na região. O plano de 10 pontos do Irã inclui, entre outras demandas, retirada das forças americanas, fim das sanções, garantias de segurança.
que a gente não está claro que os Estados Unidos, quer dizer, Trump, vá concordar com isso. Outro ponto que eu acho importante mencionar em relação a esse desfecho é a reação do Trump. Ele declarou vitória total, que é uma coisa que já era esperada, dentro dessa...
dinâmica, a estratégia que ele atua para esse tipo de negociação, e aí fazendo, para não parecer que houve um recuo, e com isso proteger a imagem dele junto à base eleitoral maga, que é a base mais fidelizada e mais potencialmente mobilizável num cenário, por exemplo, de midterms, é o enquadramento desse recuo.
como algo, nós alcançamos nossos objetivos, agora o Irã está sob controle, eu consegui essa negociação. Então o recuo foi apresentado por Trump como uma prova de sucesso e não de limite. Agora, a ameaça, ela continua. Ele pode retomar os ataques a qualquer momento e, se necessário, usando força total. É um padrão, você faz uma pausa simultânea.
uma pausa ao mesmo tempo mantém a ameaça.
Não tem como entender qual será o próximo passo de Donald Trump. Agora, Tatiana, o que me chama bastante a atenção é que, apesar dessa proposta com os 10 pontos que você citou, esse cessar-fogo temporário, como a gente tem chamado, ele não aborda os pontos principais que fundamentaram, de certa forma, o início da guerra. E aí eu cito aqui a questão do estoque do combustível nuclear, que é um pedido, um pleito dos Estados Unidos.
a questão do alcance do arsenal de mísseis por parte do Irã, as exigências do Irã até de enriquecimento de urânio para continuar tendo esse poder de manter o direito de certa forma de enriquecer urânio. Esses são pontos sensíveis e que vão continuar no cenário e devem ser discutidos. Sim, mas para que houvesse essa pausa...
mais importante agora, que era de evitar uma guerra nuclear, provavelmente, esses pontos mais sensíveis não teriam como entrar, senão não seria nem possível, porque foi o que eu disse, isso não é um acordo, é apenas uma maneira de dizer o seguinte, olha, então tá, aceitamos talvez sentar a mesa, e aí são níveis muito diferentes de conversa.
Tatiana, qual é o papel do Paquistão e como ele se posiciona nessa mediação? Como ele surge com autoridade para uma mediação nesse momento? Ele se coloca como um país que é considerado neutro nessa negociação. Então, faz essa mediação diplomática.
tentando estabelecer ponte entre os dois países, em contato direto com os Estados Unidos e com o Irã. Então, foi por meio desse canal. Não foi só o Paquistão, como eu falei. Teve participação nos bastidores do Oman, do Qatar, que também são aliados regionais considerados relativamente neutros ali naquele cenário. Também pressão diplomática por parte...
de representantes, atores da União Europeia, de forma mais discreta ainda, sem entrar diretamente, mas oferecendo, por exemplo, o peso de uma legitimação, uma legitimidade internacional e um apoio a que esse cessar-fogo acontecesse. Então, enfim, é a maneira como esses atores podem se articular. O que eu vejo daqui para frente, quer dizer, onde a gente está agora,
esse momento de negociação que vai se concentrar principalmente nos pontos que a Marcela apresentou, também olhando para a segurança marítima e buscando redução das tensões mais imediatas. Contudo, e eu insisto nisso para reforçar o aspecto muito frágil desse cessar-fogo temporário, é o risco de ruptura. As divergências...
elas continuam no meio do caminho. O elefante não foi tirado da sala, ele continua ali. Só que agora as pessoas entraram na sala para talvez olhar para ele. Então, qualquer incidente, e eu acho que a comunidade internacional foi um respiro de alívio, mas com a consciência de que não acabou. Na verdade, não está nem no início do processo, que tenha um desfecho que seja...
razoável para todas as partes envolvidas. Então, qualquer incidente pode romper o cessar-fogo, rompendo o cessar-fogo, a gente pode ver uma reativação da escalada. Tatiana Teixeira, por favor, complemente só. Não, não. Você ia complementar o seu pensamento. Não, tudo bem, sei que já está com... Não, tranquilo. Por favor, complemente. Mas pode complementar o seu pensamento nessa lógica, até para que a gente compreenda bem esse processo. Por favor.
O que eu ia comentar é que em relação aos mercados, o que a gente viu, eu acho que esse é um ótimo termômetro, foi a reação de alívio de ver que o pior cenário foi adiado, tanto que o preço do barril despencou e daqui para frente o que a gente pode esperar em relação ao comportamento do preço do petróleo vai depender da estabilidade desse cessar-fogo.
Então o preço do petróleo também pode subir com qualquer ruptura desse acordo, que na verdade não é ainda um acordo. Muito obrigado, Tatiana Teixeira, por nos ajudar a entender melhor o cenário. Obrigado até pelos alertas que você faz para pontos que nós precisamos estar atentos nos movimentos que vão ocorrer a partir desse momento. Muito obrigado e até uma nova oportunidade.
Obrigada, bom dia. Bom dia. Tatiana Teixeira, editora-chefe do Observatório Político dos Estados Unidos e pesquisadora de pós-doutorado da Universidade Federal de Uberlândia.
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