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Comprometimento das famílias é crucial para a educação, afirma Katia Smole

07 de abril de 202619min
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A educação precisa ser um projeto de sociedade e não apenas um dever do Estado e uma responsabilidade das escolas, afirma Katia Smole. Segundo a diretora executiva do Instituto Reúna, o adolescente não é um problema, mas a solução, pois representa o futuro do país.

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Participantes neste episódio2
P

Paulo Galvão

Hostjornalista
K

Kátia Smole

ConvidadoDiretora executiva do Instituto Reúna
Assuntos4
  • Bullying EscolarDados sobre bullying · Impacto do bullying na saúde mental
  • Família e autoridade na educaçãoImportância do envolvimento familiar · Sinais de alerta na adolescência
  • Reforma do Ensino Médio e políticas educacionaisDesinteresse pela escola · Novo ensino médio
  • Adolescentes como Solução e Futuro
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Muito bem, aqui no CBN Madrugada, espaço para a gente falar sobre educação, falar sobre adolescência. A nossa convidada é a professora Kátia Esmoli, que é diretora executiva do Instituto Reúna. Kátia, muito bom dia, é um prazer tê-la conosco aqui na CBN. Bom dia, prazer é meu estar de volta aqui com vocês.

Bom, tivemos a divulgação pelo IBGE, em parceria com o Ministério da Saúde e também o Ministério da Educação, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, Pense. E tem vários dados aqui que acho que são interessantes para a gente destacar, mas primeiro, Kátia, eu queria saber se você tem algum aspecto que você acha que tem mais destaque, que tenha chamado mais atenção nessa pesquisa que faz um raio-x aí da nossa adolescência.

Eu gostaria de começar destacando a própria importância da pesquisa e a repercussão que ela teve. Porque os adolescentes têm sido, para a nossa alegria, bastante discutidos no país nos últimos anos, pelo menos nos últimos três anos. A pesquisa é só mais um elemento. O Ministério da Educação...

Pela primeira vez tem uma iniciativa voltada para as adolescências, que é o programa Política Nacional Escola das Adolescências. O próprio Ministério já havia feito, antes de começar essa política, uma escuta com 2 milhões de adolescentes do Brasil todo. Então, eu acho que nós estamos num momento em que esta etapa da vida, que é muito importante, ela está sendo discutida.

por muitos atores diferentes. E apesar de nós trazermos e vermos dados que são preocupantes, por um lado, por outro lado, a sociedade adulta, a partir desses dados, pode tomar providências e tornar essa fase ocupando o lugar que ela tem que ocupar.

nas nossas preocupações e no cuidado com o desenvolvimento das pessoas desse país. E o que mais preocupa nesse momento em relação à adolescência, Kátia? Eu acho que uma coisa que é muito preocupante na pesquisa são os dados que mostram dados de comportamento, a bullying,

um quarto praticamente dos estudantes que participaram, dos adolescentes que participaram aí da pesquisa, eles dizem já terem sofrido algum tipo de bullying. Acho que também tem um dado que trouxe, inclusive, muitas discussões, que é o dado da depressão, que também é um dado que preocupa. Por outro lado...

Se nós conjugarmos aí as duas pesquisas, a pesquisa do MEC que fez com os adolescentes também mostra que eles têm muita esperança na escola, que eles têm um desejo de serem ouvidos e cuidados pelos adultos. Essas duas pesquisas, elas inclusive mostram esse dado da fase da vida.

que é um dado que mostra as contradições do desenvolvimento adolescente. Então, ao mesmo tempo que preocupa, é uma fase de muito potencial, uma fase de muito potencial do ponto de vista do desenvolvimento do cérebro, da capacidade de se engajar em boas causas. Acho que as pesquisas, especialmente essa, mostram que eles estão precisando de ser um pouco mais cuidados.

Certo. E essa questão, eu queria falar dessa ideia da esperança deles na escola, que acho muito interessante, mas antes, essa questão do cuidado, acho que tem muito a ver com o bullying, você destacou aí essa ideia de um quarto, 27% já sofreram bullying duas ou mais vezes.

É o destaque aqui do Estadão, que trouxe duas páginas sobre o assunto quando foi divulgado. As escolas estão preparadas para lidar com os casos de bullying? E aí eu já emendo uma outra questão, porque a gente sabe que não é um problema só da escola, é também de toda a sociedade, da família. Como é que a família está tratando dessas questões? Eu não destaco somente quem é vítima do bullying, mas aqueles que estão praticando também, que acham que têm que ser orientados também.

Na verdade, essa pergunta é muito importante e eu até vou começar respondendo de trás para frente porque ela mostra que a educação precisa ser um projeto de uma sociedade. Os adolescentes não deveriam ser um problema porque eles são solução, eles são futuro do país. Portanto, os adultos...

que pensam, inclusive, no seu próprio futuro, precisam cuidar, sejam eles pais, cuidadores, os educadores. A naturalização de ações de violência, sejam elas importunação sexual, seja os casos de agressão física ou essas microagressões que se transformam num bullying, inclusive...

Hoje, com o advento das redes sociais, o quanto que eles estão escondidos fazendo bullying ou sofrendo bullying em grupos de WhatsApp, nas redes sociais, enfim. Você tem um espaço que muitas vezes não é mais o espaço aberto da rua, mas é um espaço aberto e pouco vigiado, às vezes, do quarto.

Porque ele entra no quarto, ele se fecha lá e ali você não sabe em que mundo ele está navegando. A gente costuma usar, inclusive, uma metáfora que é, se você não deixa o seu filho, o adolescente, andando na rua à noite sozinho, quando ele sai, você quer saber onde ele vai, o que ele vai fazer, você precisa saber isso dentro da sua casa, quando ele está navegando nas redes sociais. Porque...

a inibição de comportamentos de agressividade ou a proteção contra comportamentos de agressividade, você só vai poder coibir, você só vai poder cuidar como adulto, família ou escola, se houver de fato uma preocupação de saber com quem você está falando, o que você está fazendo, que tipo de interação você está tendo.

Então, acho que é importante, muito, muito importante cuidar, ter boas conversas, ter diálogos e falar abertamente sobre esses pontos que são bastante complexos. Você não pode achar que na tranquilidade do condomínio, na tranquilidade da casa, as coisas não estão acontecendo. Então, acho que esse ambiente nunca é de vigiar no sentido ruim do termo.

Mas é de cuidar, de ter atenção, de entender o que está fazendo, o que está pensando, para poder fazer uma intervenção e exercer o papel educativo que o adulto tem na melhor acepção da palavra.

A gente está conversando aqui no CBN Madrugada com a professora Kátia Esmoli, que é diretora executiva do Instituto Reúna. Kátia, você citou como aspecto positivo a esperança dos estudantes na escola. Eu realmente fico feliz em ouvir isso, porque o que a gente mais tem ouvido ultimamente é que os adolescentes não estão enxergando, não estavam enxergando na escola.

realmente um espaço para a transformação social, para a transformação deles, e esse seria um dos motivos da evasão escolar, principalmente no ensino médio. Eu pergunto se, por um acaso, essa pesquisa já traz algum resultado do novo ensino médio, que de alguma forma abre espaço para que eles possam seguir um itinerário formativo de maior interesse.

Já há algum resultado ligado ao novo ensino médio nesses dados? Eu acho que não. E aí eu queria, inclusive, porque o novo ensino médio, eu acho que ele ainda é um pouco mais uma promessa do que uma realização em si. Mas acho que eu queria trazer nessa conversa um dado que é pouco visível.

Porque o desinteresse pela escola está começando mais cedo. Ele começa ali numa fase em que o estudante começa uma etapa da escola, ainda como criança, que é o sexto ano. É o primeiro ano dos anos finais, da etapa do que a gente costuma chamar de Fundamental 2.

E ele vai passar por uma transformação muito grande nessa fase entre os 10 e os 14 anos, que é mais ou menos quando ele está terminando o nono ano e indo para... e aí vai para o ensino médio. Então, essa etapa da educação, Galvão, é uma etapa muito esquecida. As pessoas, seja na formação dos professores, seja...

Nós, como familiares, nós sabemos pouco dessa transformação pela qual os adolescentes passam nessa etapa. E essa é a pesquisa que o Ministério da Educação fez com estudantes que estudam nos anos finais o fundamental, ali no chamado Fundamental 2.

e perguntam para eles o que eles esperam da escola, que tipo de escola, por que a escola é importante, que tipo de educação eles gostariam de ter. E é muito relevante o papel que eles atribuem à escola. Eles podem hoje achar que a escola está pouco interessante, que ela é pouco atrativa, mas eles acreditam. Então, eles acham, por exemplo, que a escola...

junto com a família, deveria prepará-los para estarem mais fortalecidos em relação a bullying, trabalhar com educação socioemocional. Eles usam, inclusive, esse termo, trabalhar por projetos. Quando perguntam o que eles imaginam para o futuro deles na escola, eles dizem que eles querem aprender mais as coisas da escola, mas eles querem aprender participando, eles querem aprender tendo.

maior interação com os professores, com os colegas, usando tecnologia, desenvolvendo projetos. Então, você vê que nós já conversamos muitas vezes aqui a respeito do ensino médio, mas nós estamos perdendo o interesse desse adolescente e dessa adolescência ou deixando de formar aspectos importantes do desenvolvimento humano um pouco antes até.

Então, o Ministério da Educação, até com o apoio do Instituto Reúna e de outras organizações, criou uma política nacional que se chama Escola das Adolescências, que é justamente para cuidar melhor tanto do desenvolvimento quanto da aprendizagem, porque senão está ficando muito lá para frente no ensino médio. É claro, o novo ensino médio com educação profissional, com os itinerários formativos.

ele teria que dar continuidade a isso e você ter mais tempo para lidar com essas questões de bullying, de formação, e inclusive fazendo os adolescentes conviverem, conviverem com outros adultos, conviverem com outros adolescentes e exercitarem essa convivência positiva que nós precisamos ter na sociedade. Então, é um programa muito interessante.

que teve adesão das 27 unidades federativas, várias, em parcerias com seus municípios, e nós esperamos que, na continuidade, inclusive por uma previsão no próprio Plano Nacional de Educação, a gente tenha ações da escola com a sua equipe pedagógica para poder acolher e atenuar esses problemas que nós vimos a pesquisa.

nos mostrar, não é? Mas precisa também do comprometimento das famílias, né? Quando as famílias começam a ver que os seus adolescentes estão muito silenciosos, que não querem conversar, que não estão convivendo nos momentos da família, precisa também a família ter atenção para esses sinais, que são sinais que alguma coisa não vai bem.

Eu lembro de ter visto já pesquisas que mostram claramente como o desenvolvimento das crianças, dos adolescentes na escola, não só do ponto de vista cognitivo, da apreensão de conhecimento, mas também nestas questões sócio, o termo que você usou.

Sócio-emocionais. Também nesses aspectos sócio-emocionais, aqueles alunos cujos pais se interessam pelo estudo, acompanham, eles normalmente têm um resultado melhor, não é? Sempre. Sempre. É interessante porque tem umas características do desenvolvimento dos adolescentes que a gente nunca desesquecer.

Uma delas é que existem dois adultos que são muito relevantes na vida deles, ainda que na adolescência eles questionem, façam perguntas e tal. Um é o adulto familiar, o pai, a mãe, os pais, enfim, as mães, os cuidadores, o ambiente familiar é muito importante. Outro dia eu escutava uma entrevista do Daniel Becker e ele falava, né?

Gaste um tempo conversando ainda que o seu adolescente, o adolescente que convive com você, fique em silêncio, mas converse com ele, tenha uma escuta genuína, porque esse adulto é muito relevante. E o outro é o adulto professor, o que está na escola, eles se valem de uma referência, apesar de muitas vezes eles se sentirem pouco acolhidos por esses adultos. Mas nós precisamos entender que nós somos...

Essa referência. É claro que eles gostam dos pares, eles gostam de conviver com outros adolescentes, porque é uma fase de criar identidade, então um pouco preciso questionar alguns modelos para achar os meus próprios modelos nessa fase de desenvolvimento. Mas esse acompanhamento do adulto confiável...

também é uma referência importante. E a outra coisa é a potência do cérebro. É uma fase da vida em que as pesquisas têm... Hoje, felizmente, nós também temos muitas pesquisas dizendo como é que esse cérebro adolescente funciona. Ele é um cérebro com muita potência para aprender, para se engajar em causas sociais. Mas o problema é que ele vive essa relação...

que a gente podia dizer assim, meio no fio da navalha, porque ao mesmo tempo que ele é muito curioso, o adolescente, o adolescente são muito curiosos, gostam de saber coisas novas. O cérebro ainda não está todo amadurecido para tomar decisões sozinhas. Então, eles estão muito impulsivos. Por isso que quando você tem um adulto mediando...

É quase como se o adulto, que já sabe causas e consequências, pudesse emprestar essa capacidade de dizer, olha, vamos pensar. Se você estivesse no lugar do outro com quem você está fazendo bullying, vamos entender, vamos assistir um filme sobre isso juntos e conversar sobre esse filme. Então, esse lado formativo, ele também ajuda muito.

a aproveitar esse momento em que o cérebro, as pesquisas costumam dizer que é uma janela de oportunidade só igualada aos primeiros três anos de vida. Então, quando você tem essa estrutura no entorno dele, é bem importante para aproveitar tanto o lado do desenvolvimento socioemocional,

da moralidade, no melhor do sentido do termo, da consciência e responsabilidade, quanto também da aprendizagem da ciência e da tecnologia que constituem também o desenvolvimento da pessoa. Muito bem. Professora Cátia Smolli, diretora executiva do Instituto Reúna. Cátia, sempre um prazer falar contigo aqui na CBN. Um bom dia e até uma próxima. Um bom dia, muito, muito obrigada.

pela oportunidade. Um abraço e até mais.

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