Artemis II: por que a missão terá perda temporária de comunicação com a Terra?
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Pedro Costa Júnior
Pedro Fagundes
Gabriel Rodrigues Riquel
- Missão ArtemisPerda de comunicação com a Terra · Exploração da Lua · Recursos minerais na Lua · Corrida espacial · Hélio 3
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Os quatro astronautas da Artemis II vão sobrevoar a Lua hoje à noite. É o sexto dia de viagem espacial. E para conversar conosco sobre este assunto, nós convidamos o astrofísico Gabriel Rodrigues Riquel, professor da Universidade Federal de Itajubá. Gabriel Riquel, muito obrigado pela gentileza de estar conosco aqui no Jornal da CBN. Bom dia!
Bom dia, Milton. Bom dia, Marcela. Bom dia aos ouvintes da CBN. É sempre um prazer estar aqui para levar a informação ao público. Desde que se anunciou essa missão e vem se acompanhando ali o calendário desta viagem, tem se apontado este sexto dia que se iniciará como sendo talvez o mais espetacular ou também o mais tenso de todos, inclusive os próprios astronautas falam disso, exatamente pela perda de contato que terão na passagem pela Lua.
E eu queria que o senhor nos explicasse que momento é esse que nós iremos assistir. Ou não assistiremos, né? Ficaremos esperando as informações. Sim. Durante a missão existe ali um período no qual o módulo Orion, onde eles estão, os quatro astronautas estão, vai perder o contato. A telecomunicação é feita por ondas eletromagnéticas, assim como toda transmissão via satélite.
E o que acontece é que esse módulo Orion passa, em relação a gente, por trás da Lua. Então, a própria Lua bloqueia essa transmissão, essa comunicação, mas é por pouco tempo, é algo da ordem de 40 minutos, aproximadamente, que eles ficam sem a comunicação com a Terra e a gente também se tem informação a partir do que está acontecendo lá.
Mas, assim, isso não é novidade, isso já aconteceu no programa Apolo, nas missões Apolo, e é uma coisa relativamente corriqueira de acontecer quando você também tem uma missão espacial aqui mesmo, próximo à Terra, por exemplo. A estação espacial não fica o tempo todo acima do horizonte para uma determinada região da Terra.
Então, a pessoa já está acostumada com isso. É claro que sempre há uma apreensão, porque sem a comunicação você não sabe o que está se passando.
E ainda mais com tanto tempo sem comunicação. Agora, professor, um dos principais pontos dessa missão é entender justamente os indícios de água neste polo da Lua que será explorado hoje, que será pelo menos visto hoje para permitir uma possível exploração no futuro. O que a presença de água significa justamente para esse futuro das missões e até para a exploração ali no espaço?
Certo. O que está em jogo, na verdade, é uma nova corrida espacial. A linha de chegada dessa vez não é a Lua, é Marte, uma coisa que não vai ser para agora, provavelmente daqui a 20, 30 anos. Mas todos os especialistas afirmam que o passo intermediário para ir até Marte é você estabelecer uma base.
na lua a partir da qual você testa uma série de fatores de sobrevivência num ambiente hostil. E obviamente para você estabelecer uma base lunar você precisa ter ali um subsídio de água. Isso não tem como muita gente deixar de considerar porque a água ali ela vai servir tanto.
para consumo, obviamente, quanto para a questão de produção de oxigênio, que você não tem oxigênio na Lua, e uma das formas de você obter oxigênio é através da eletrólise da água, e aí você obtém tanto oxigênio quanto combustível, o hidrogênio serve como combustível também.
ali pelo menos para você ter uma geração de energia na própria base ou até mesmo combustível em si para eventuais foguetes que partam da base para algum mecanismo em órbita.
Hoje mais cedo, logo que anunciamos que iríamos conversar com você, Gabriel Hickon, o André Lima, que é nosso ouvinte, mandou uma mensagem assim, por gentileza, pergunte ao astrofísico, por que viagem tripulada a Lua somente tanto tempo depois, 50 anos depois, qual o motivo de não ter ocorrido outra viagem tripulada nesse intervalo tão longo, com tanto avanço científico e tecnológico desde então?
Bom, uma série de fatores aí se estabelecem. O primeiro fator que eu coloco é a questão da motivação. Motivação política e econômica para você fazer um programa espacial que não é barato. Só para ter uma ideia bem clara disso, o projeto Artemis, que é o projeto que está em andamento no momento pelos Estados Unidos,
prevê pelo menos quatro etapas. Nós estamos mais ou menos na metade, a Artemis II é a metade do projeto. E até o momento o gasto foi de 100 bilhões de dólares. Então não é uma exploração barata, não é uma exploração que você possa fazer com poucos recursos. Embora, claro, esses recursos são distribuídos ao longo de vários anos orçamentários.
Mas ali naquela ocasião, quando houve o programa Apollo, havia uma competição em jogo, uma competição inclusive ideológica entre a ex-União Soviética e os Estados Unidos, pela hegemonia do espaço. E foi colocado então como um objetivo final dessa corrida espacial a chegada na Lua. Após você ter esse objetivo estabelecido...
não havia mais uma grande motivação, tanto econômica quanto política, para você dar continuidade a esse processo. Então, se apostou em outras coisas que iriam dar mais rendimentos. Naquele momento, no caso, os Estados Unidos preferiu fazer o programa dos ônibus espaciais, a ex-União Soviética preferiu fazer o programa das estações orbitais.
porque eram objetivos mais claros e mais imediatos que poderiam trazer um retorno mais óbvio. Naquela ocasião, e eu diria até por volta da década de 90, nós não tínhamos tecnologia suficiente para estabelecer uma base na Lua, que seria o passo seguinte. Essa tecnologia hoje existe.
E é possível de ser feita, mesmo assim, ainda com bastante dificuldade.
É algo muito caro, como o senhor citou. E antes era limitado a essa questão dessa corrida espacial entre governos. Mas hoje, essa corrida não se limita apenas a governos. A gente tem empresas privadas que estão entrando no jogo. A própria empresa do Elon Musk está interessada principalmente em recursos minerais que podem ser explorados no futuro na Lua, por exemplo, e também em outros planetas. Mas isso, claro, mais para frente.
E um desses pontos, um desses recursos minerais que estão sendo citados agora nessa questão da ida à Lua é o hélio 3, que é abundante na Lua e raro na Terra. Pode ser um grande produto que trará energia mais do que petróleo, mais do que carvão, mais do que gás que estão disponíveis aqui no planeta Terra.
Como é que fica essa questão dessa corrida envolvendo empresas privadas? Ganha quem tem mais dinheiro? Olha, eu vejo com muito bons olhos isso. Se a gente fizer uma comparação histórica, por exemplo, com as grandes navegações, nós tivemos no início as grandes navegações, as descobertas sendo financiadas.
pelas monarquias da época. Havia interesse em você descobrir novas terras e estabelecer, na verdade, o caminho para as Índias, era o que os europeus estavam mais interessados, depois que os otomanos fecharam ali a região da Rota da Seda.
Mas, enfim, isso foi no início. Logo depois que você teve o estabelecimento dessas navegações e os caminhos foram estabelecidos e as colônias foram estabelecidas, nós vimos que companhias passaram a explorar esse comércio nascente. Nós tivemos aí...
Companhia das Índias Ocidentais, depois nós tivemos lá a companhia, várias companhias britânicas, e aí o Império Britânico inclusive assumiu a primazia de nação mais rica do mundo naquela época. E isso vai se suceder também na exploração espacial. Vai demorar um tempo, é óbvio. Isso não é uma coisa que a gente espera para daqui a dois, três anos, mas sim, provavelmente para o próximo século.
E eu tenho certeza que a questão da motivação financeira vai ser fundamental para que a humanidade consiga, de fato, explorar e colonizar o sistema solar, porque isso ainda continua sendo muito caro para uma única nação, mesmo considerando os Estados Unidos ou China, fazer sozinho.
Gabriel Riquel, muito obrigado pela sua gentileza de trazer suas informações, seu conhecimento aqui para os ouvintes do Jornal da CBN. Um bom dia. Bom dia. Obrigado, Gabriel Rodrigues Riquel, astrofísico, professor da Universidade Federal de Itajubá. Conversou com você.
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