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Disparada do combustível aéreo reduz margem das companhias e pressiona tarifas

03 de abril de 202610min
0:00 / 10:24
Em entrevista ao Jornal da CBN, especialista aponta repasse inevitável e risco de voos mais vazios nos próximos meses

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Participantes neste episódio2
C

Cássia

HostJornalista
A

Adalberto Febeliano

ConvidadoEngenheiro e mestre em transporte aéreo
Assuntos1
  • Reajuste do querosene de aviaçãoimpacto nos custos das companhias aéreas · repassar aumento para tarifas · redução de voos e cancelamentos · dependência do combustível · paridade de importação · perspectivas futuras do mercado · dicas para consumidores
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A guerra no Irã segue espalhando seus efeitos pelo mundo e agora nós temos uma notícia que pode trazer preocupação para quem pretende viajar. O preço do querosene de aviação teve um aumento expressivo anunciado pela Petrobras. 54,6% no valor médio às distribuidoras. No acumulado desde o início da guerra em fevereiro, alta é de 64%. E aí E aí E aí

Para entender os impactos dessa alta e o que o consumidor pode esperar, nós vamos conversar agora com o engenheiro e mestre em transporte aéreo, Adalberto Febeliano. Adalberto Febeliano, bom dia. Muito obrigada por estar ao vivo conosco hoje aqui no Jornal da CBN. Eu não tenho som.

Deixa eu ver se eu consigo melhorar aqui o seu áudio, porque nós já estamos observando na nossa tela o Adalberto Febeliano. Agora você nos ouve? Agora sim, Cássia. Agora sim. Bom dia, Cássia. Bom dia a você e aos ouvintes da CBN. Queria começar perguntando para o senhor, para a gente entender esse impacto dessa alta do querosene de aviação, qual é o peso do querosene de aviação nos custos das companhias aéreas?

Isso obviamente varia ao longo do tempo, mas normalmente o querosene de aviação tem um peso de 30% a 35% do total de custos das empresas aéreas. E a gente pode entender que esse aumento vai ser repassado para o preço das passagens de forma imediata ou isso depende de outros fatores?

Isso é repassado imediatamente. As empresas aéreas não têm margem nem estrutura para absorver uma alta, especialmente uma alta dessa magnitude, uma alta de 50% nos custos do querosene. Inclusive, é bem provável que o querosene passe a ser mais importante até do que foi no passado.

Porque o querosene vai subir, mas os salários não vão subir, o dólar não está subindo, está ficando fixo. Então, é muito provável que daqui a um ou dois meses o querosene chegue a bater em 40, às vezes 45% do total de custos de uma empresa. Nenhum nível da ocupação dos voos ajuda a influenciar nesse processo de repasse dessa alta?

Na verdade não, Cássia, na verdade não, porque as empresas aéreas sempre calibram os seus preços para encher os aviões. É por isso que a gente paga mais barato quando compra o voo com antecedência e mais caro quando compra o voo na véspera.

Elas fazem, a gente chama isso de gerenciamento de receitas, então elas estão sempre mexendo no preço para cima e para baixo para encher os aviões. Então, quando você tem um aumento de custos desse, você não tem como evitar, o que vai acontecer é meio que inevitável, os voos deverão ficar um pouco mais vazios. Existe um risco, então, Adalberto, da gente ter aí no médio prazo redução de voos, cancelamentos de rotas que possam ser menos rentáveis?

Se o querosene ficar nesses níveis 50% acima, é inevitável que isso aconteça.

Mas lembra, Cássia, que as empresas aéreas já têm o avião contratado, já têm o piloto contratado, já gastou com o treinamento do piloto. Então, elas não vão imediatamente reduzir a frota, não vão devolver aviões, não tem como você fazer isso. Seus contratos são normalmente de 5, 10 anos. Então, num primeiro momento, o que acontece é você fazer só os ajustes de preço e tentar compensar.

os custos maiores com os preços maiores. Se esse preço perdurar por cinco, seis, sete meses, aí a gente vai ver, com certeza, empresas parando avião, devolvendo avião, fazendo demissões de pessoal. É o que reza a cartilha. Agora, a Petrobras anunciou um mecanismo, Adalberto, de parcelamento desse aumento. Esse tipo de medida ajuda a aliviar essa pressão no curto prazo?

Ah, claro que ajuda, né? Claro que ajuda, especialmente se a gente imaginar que essa guerra, a gente não sabe quanto tempo ela vai durar. Se essa guerra acabar em mais duas, três semanas, se diminuírem as tensões mundiais, o preço do petróleo voltar a baixar, então você não chegou nem a repassar o aumento total para os consumidores. Então isso ajuda bastante e é ótimo que a Petrobras esteja fazendo isso.

que é a nossa dependência em relação a esse combustível. Que nível de autonomia a gente tem em relação a querosene de aviação?

Basicamente, todo querosene de aviação que nós usamos no país é refinado no país. Nós não dependemos do mercado internacional para o querosene de aviação, salvo por questões logísticas. Às vezes é mais barato você trazer querosene para Belém de alguma refinaria lá no Golfo do México do que levar daqui da refinaria de Cubatão. Mas, no geral, a nossa produção é autossuficiente.

Mas a gente não pode negar que isso é uma commodity que tem que ter referência em mercado internacional. Eu até sou uma pessoa que questiono muito o tipo de política que a Petrobras usa. A Petrobras usa o que eles chamam de paridade de importação. Isso é muito danoso para as empresas aéreas, por isso põe um sobrepreço.

que no fundo é lucro que está indo para a Petrobras. Mas é inegável que tem que ter uma base internacional. Não posso querer só porque tudo refinado no Brasil, vou cobrar isso em reais, não vou aumentar o preço. Não, isso não seria correto. Na sua avaliação, quais seriam alternativas melhores a esse modelo da paridade de importação? A minha opinião técnica é que tem que ser a paridade de exportação.

A paridade de importação é você pegar o preço internacional e somar todos os custos de frete, todos os custos de alfândega, todos os custos de armazenagem nos portos. E isso, na verdade, não existe, porque o querosene é fabricado aqui no Brasil. Então, esses custos, eles, na verdade, não existem. Mas é claro que se uma empresa aérea fosse importar querosene por conta própria, ela teria todos esses custos. Então, essa é a diferença.

É uma diferença de sobrepreço que faz muito bem para a Petrobras. Agora, mudar o modelo seria algo bastante complexo nesse momento, né? Nós conversamos com o governo para mudar esse modelo há uns 30 anos e não conseguimos nada até o momento. Então, a gente continua brigando. Quais são as perspectivas na sua avaliação para os próximos meses? Eu sei que é difícil falar isso porque a gente está num cenário de muita imprevisibilidade em relação ao conflito no Irã.

Olha, realmente aí você precisaria perguntar para alguém especializado no mercado de petróleo, porque o petróleo, dentre as commodities, é uma das que é mais sensível aos movimentos especulativos. E quando a gente tem uma situação política complicada como essa...

realmente os preços passam a ter uma volatilidade muito grande. De maneira geral, a expectativa que o mercado tem é que isso se acalme, em alguma coisa em torno de, sei lá, quatro, cinco meses.

e a gente retorne aos níveis normais, o que é muito importante, porque o país depende fundamentalmente do transporte aéreo para poder integrar essa vasta região que nós temos. Nós precisamos, não tem como a gente pensar no Brasil, não só no Brasil, mas num país do tamanho do Brasil, do Canadá, da Austrália, dos Estados Unidos, são países gigantescos, não tem como você pensar num país desses sem transporte aéreo.

Agora, do ponto de vista do consumidor, o que as pessoas podem fazer para tentar minimizar esses efeitos dessa alta nas tarifas que deve vir nos próximos meses? Mais cedo, você comentou a questão de quando a gente compra antes, pesquisa, passagem aérea, normalmente a gente consegue preços melhores. Continuar mantendo essa conduta e, para além disso, não tem muito mais o que fazer, né? Não, não tem muito mais o que fazer. A regra geral sempre, compre com antecedência.

se você tem que viajar, se você quer viajar, compre com antecedência, é melhor você comprar a passagem e depois cancelar do que deixar para comprar de última hora, especialmente se você está...

viajando por motivos pessoais, não compre passagem em cima da hora, porque senão você vai pagar muito caro. Então, isso é uma regra geral. Agora, outra coisa que eu poderia dizer, se você não tem necessidade de viajar, se você está querendo viajar porque você vai visitar a sua vovó, e se a sua vovó está doente, não é uma coisa urgente, espera uns dois, três meses que talvez o mercado volte a se acalmar. Então, adia um pouquinho a viagem.

Adalberto Febeliano, engenheiro, mestre em transporte aéreo, muito obrigada por conversar com os ouvintes da CBN, ao vivo nesta sexta-feira, uma boa Páscoa para você. Muito obrigado, Cássia, boa Páscoa para você também, e obrigado pela oportunidade de poder estar aqui com vocês.

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