Episódios de Pílulas do Conhecimento

#327 - As luas que a ficções criaram

13 de agosto de 20268min
0:00 / 8:53

De um país no céu com guerras astronômicas a um balão de ar quente no vácuo do espaço. Venha entender como os mitos, os contos clássicos e a ficção científica moldaram nosso fascínio pelo satélite natural e inspiraram os passos reais da humanidade no cosmos.

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Realização:

Espaço do Conhecimento UFMG

Pró-reitoria de Cultura UFMG (Procult)

Universidade Federal de Minas Gerais

Texto original: Eduardo Pinheiro Ferreira

Adaptação e trabalhos de áudio: Samuel Lacerda

Supervisão e revisão geral: Fernando Silva

Coordenação: Vanessa Brandão

Participantes neste episódio2
F

Fernando Silva

Host
S

Samuel Lacerda

Host
Assuntos3
  • Viagens lunares ficção científica· CulturaEdgar Allan Poe·Jules Verne·Arthur Clarke·A História Verdadeira·Da Terra à Lua·Se Eu Esquecer de Ti, Ó Terra
  • Fascínio cultural pela Lua· CulturaHistórias e mitos antigos sobre a Lua·Luciano de Samósata·Antônio Diógenes
  • Exploração espacial· CienciaCorrida espacial·Missão Apollo 11·Neil Armstrong·Missão Artemis II
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
FSFernando Silva

Pílulas do Conhecimento. Durante o percurso da vida na Terra, os seres vivos olharam para a mesma lua, mas somente o ser humano enxergou-a com cultura. Várias civilizações ao redor do mundo possuem alguma história a respeito dela, seja atribuída a uma divindade mito ou poder. Na maioria dessas narrativas, nosso satélite natural é tratado como um lugar inalcançável e onde poucos poderiam ou seriam dignos de chegar. O mais cativante é ver que essas ideias de viagens à Lua já eram exploradas e pensadas muito antes da existência da primeira lente do primeiro telescópio.

A literatura é uma das ferramentas que usamos para pensar o futuro, É a forma como o ser humano consegue sonhar acordado e criar cenários lúdicos com bases reais, nos quais a Lua já é protagonista há bastante tempo. Um dos mais notáveis autores a tratar sobre viagens lunares foi Luciano de Samósata, que viveu por volta do século II depois de Cristo. Nascido na ilha grega de Samos, Luciano escreveu entre 180 e 180 depois de Cristo o livro A História Verdadeira, em que acompanhamos uma viagem marítima pelo Atlântico, na qual os tripulantes enfrentam vários obstáculos.

Em certo momento da narrativa, o navio é pego por um redemoinho e os marujos são arrastados por 7 dias e noites até um grande país no céu, brilhante, circular e irradiando luz. Essa ilha celeste é a Lua, que na história possui uma monarquia, aranhas gigantes e habitantes que travam guerras contra o Rei do Sol. Na mesma época de Luciano, outro autor já tinha escrito sobre uma exploração lunar, porém sem artifícios fantásticos. Em As Maravilhas Além de Tule, Antônio Diógenes faz seus protagonistas empreenderem uma viagem além do mundo conhecido, partindo da Sicília até Tule, um termo grego usado para retratar a região do extremo norte do mundo.

Lá encontram uma passagem que leva diretamente até a Lua, descrita como uma terra imaculada, pura e limpa. Estas narrativas são pequenos recortes da imaginação dos antigos que tinham um profundo fascínio pelos fenômenos naturais ao seu redor, mas serviram também para catalisar e cativar o conhecimento provindo da astronomia em relação ao universo e aos corpos celestes. Para apresentar às pessoas essa ciência, uma das formas mais lúdicas de induzi-la ao público foi aliando-a aos livros literários e recheando-os com histórias fantásticas.

Esse fascínio viria a alimentar um gênero literário que eclodiu no meio do século 19 e se fortaleceu no século 20, chamado de ficção científica, uma literatura com vastos limites de conteúdos e profunda valorização pela curiosidade e pela ciência. Nesse período, 3 autores foram responsáveis por reimaginar nossas perspectivas de jornada a alunissagem e pesquisa lunar até a atualidade. Em 1835, Edgar Allan Poe, poeta americano conhecido por sua proficiência na literatura que explora o gótico e o macabro, escreveu o conto A Aventura Incomparável de um Certo Ranspfall.

O personagem principal, que dá nome ao conto, projeta um balão de ar quente inovador junto a um dispositivo que comprime o vácuo do espaço, convertendo-o em ar respirável. A partir desse dispositivo, Hans Pfau consegue viajar até a Lua, fugindo de seus problemas com dívidas e das autoridades terrestres. Em solo lunar, o protagonista descobre seres humanoides de 60 centímetros, sem orelhas e uma superfície dominada por vulcões.

Esta é considerada uma das primeiras narrativas de ficção científica, pois é construída sobre mais temas científicos do que fantasiosos. Alguns anos depois, o conto de Poe inspirou uma das maiores narrativas de viagem à Lua já escritas. Dividido nos livros Da Terra à Lua e Ao Redor da Lua, o autor francês Jules Verne conta a história de um clube de entusiastas que constrói um enorme canhão para propulsar uma cápsula de pesquisa espacial chamada Columbia até a Lua.

O mais impressionante nesta obra são as minuciosas pesquisas feitas por Verne, que calculou o tamanho e a força que um canhão deveria ter para realizar esse feito no mundo real. Esta história serviria de modelo para George Méliès escrever e dirigir o filme A Viagem à Lua, de 1902, imortalizando essa imaginação no cinema. Em 1951, o escritor inglês Arthur Clarke publicou o conto Se Eu Esquecer de Ti, Ó Terra, trazendo uma abordagem diferente.

Nele, a humanidade esgotou os suprimentos da Terra, causando um cataclisma ecológico e e fazendo com que os últimos sobreviventes se refugiassem na Lua na forma de uma pequena colônia agrícola. O conto é narrado pelo olhar de uma criança que em seu aniversário de 10 anos é levado pelo pai para fora da colônia lunar para observar a Terra devastada enquanto ouve falar sobre as tentativas inúteis de recuperá-la. Clarke, que anteriormente explorou em seus livros o potencial tecnológico que desenvolvemos nos apresenta uma imagem diferente aqui, agora é a Terra e não a Lua que é hostil à nossa natureza e o propósito humano não é mais chegar à Lua, mas reconquistar o nosso planeta.

Cerca de quase 8 anos depois, em 1959, a partir do avanço da corrida espacial, entre União Soviética e Estados Unidos, os primeiros passos sólidos para uma viagem lunar foram tomados com o lançamento de sondas e foguetes. Finalmente, em 1969, a Apolo 11 furou a bolha de contato imaginário entre nós e a Lua, quando Neil Armstrong representou seu papel de extraterrestre em nome da humanidade por quase 3 horas. Em abril de 2026, a missão Artemis II realizou o mais recente sobrevoo lunar, nos relembrando a beleza, a magnitude e o poder físico e inspirador que este corpo celeste sempre exerceu sobre nós.

Em todas estas e em outras várias narrativas, o elemento da curiosidade e do buscar compreender o que não conseguimos alcançar fechar aspas, está sempre presente, pois mesmo contemplando a mesma lua, continuamos a sonhar com ela de maneiras diferentes e inesgotáveis. E esse foi mais um episódio do Pílulas. Se você gostou e nos ouve pelo Spotify, avalie o programa clicando naquela estrela, que fica no topo do nosso perfil. Acompanhe o museu em todas as nossas redes sociais, @espacoufmg, e também em nosso blog, com textos inéditos todas as terças-feiras.

E todas as quintas, entre fevereiro e novembro, temos episódios novos do Pílulas do Conhecimento. O texto original é de Eduardo Pinheiro Ferreira, graduando em Letras pela UFMG e estagiário de Astronomia do Espaço do Conhecimento UFMG. A revisão e supervisão geral são de Fernando Silva e os trabalhos de áudio foram feitos por mim, Samuel Lacerda. Obrigado e nos vemos no próximo episódio.

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