Episódios de Pílulas do Conhecimento

#1 - Papo em Pauta [4ª]: Modos de existir e criar mundos (Ailton Krenak)

09 de agosto de 202612min
0:00 / 12:28

No episódio de estreia da 4ª temporada do Papo em Pauta, o líder indígena, filósofo e escritor Ailton Krenak, primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, propõe reflexões sobre diferentes modos de existir e produzir conhecimento. A conversa aborda os impactos do pensamento colonial, a pluralidade de saberes e a importância da imaginação e dos afetos na construção de outros mundos possíveis.

O projeto Papo em Pauta é um ciclo de conversas sobre cultura, cidadania, ciência e bem-estar. Uma parceria entre o Espaço do Conhecimento UFMG e o Instituto Unimed-BH .

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Participantes neste episódio3
A

Ana Gonçalves

HostRelações Públicas e Assistente de Comunicação
F

Fernando Silva

Host
A

Ailton Krenak

ConvidadoLíder indígena, filósofo e escritor
Assuntos4
  • Ciência e Conhecimento· CienciaCiência como única forma de conhecimento·Integração de afetos e sentidos·Cosmologias indígenas
  • Modos de existir e criar mundos· SociedadeConfluência de memórias e saberes·Autopoiese e criação de mundos·Cosmofobia·Dona Marta Benzedeira
  • Museus e narrativas coloniais· CulturaMuseu como santuário da ciência·Descolonização de museus·Alternância de leituras
  • Objetivos de Desenvolvimento Sustentável· SociedadeODS 4: Educação de Qualidade·Meta 4.7
Transcrição16 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
AGAna Gonçalves

Papo em Pauta.

?Voz B

Você está ouvindo o projeto Papo em Pauta, ciclo de conversas sobre cultura, cidadania e bem-estar. Uma parceria entre o Espaço do Conhecimento FMG e o Instituto Unimed BH. No episódio de hoje, Modos de Existir e Criar Mundos, com Ailton Krenak.

FSFernando Silva

Oi, oi, pessoas! Sim, estamos de volta com a mais nova temporada do Papo em Pauta. Eu sou Fernando Silva, Relações Públicas e Assessor de Comunicação do Espaço do Conhecimento UFMG. É um prazer ter você com a gente para mais uma série de conversas sobre temas que atravessam a ciência, a cultura e a sociedade.

AGAna Gonçalves

Olá, eu sou a Ana Gonçalves, Relações Públicas e Assistente de Comunicação do Espaço do Conhecimento. Ao longo dos próximos meses, apresentaremos 4 episódios liberados mensalmente aqui no feed do Pílulas do Conhecimento, com incríveis convidados que irão conversar com a gente sobre a diversidade de saberes e as dimensões coloniais da produção científica.

FSFernando Silva

Inspirados pela renovação da exposição de longa duração aqui do museu, demasiado humano? Esta nova temporada do Papo em Pauta amplia as discussões presentes na mostra. Vocês vão perceber que, ao longo dos episódios, o conhecimento irá ganhar novas camadas a partir das reflexões e experiências dos nossos convidados e convidadas.

AGAna Gonçalves

Prepare-se para discussões que ampliarão nossas perspectivas!

FSFernando Silva

Natural de Itabirinha, em Minas Gerais, o filósofo e escritor Ailton Krenak é uma das principais vozes em defesa dos territórios dos povos originários e do planeta. Primeira pessoa indígena a se tornar imortal pela Academia Brasileira de Letras, Krenak é autor de obras como Ideias para Adiar o Fim do Mundo, A Vida Não É Útil e Futuro Ancestral, também traduzidas em espanhol, inglês e italiano.

AGAna Gonçalves

Para reverberar sua sabedoria e as cosmologias que fundamentam a vasta cultura do Brasil, você confere neste episódio falas de Ailton Krenak durante um encontro online com a equipe do Espaço do Conhecimento FMG, em outubro de 2023. A partir de agora iremos refletir juntos sobre a ciência, o cuidado com a Terra e os diferentes modos de conhecer e perceber a vida.

AKAilton Krenak

Eu acho maravilhoso a coragem de algumas pessoas que de dentro desse lugar, que é um lugar de poder também, a universidade é importante entender que é um lugar de muito poder, a universidade pode esculhambar ou ajudar a melhorar o mundo. Mas a gente não deveria dar um status divino essa coisa que a gente chama de ciência. A gente precisa também integrar as parábolas, porque senão a gente vai acreditar que a ciência é a única maneira de conhecer conhecimento.

A ciência não é a única maneira de conhecimento, ela é uma maneira de conhecer. Os sentidos Os afetos precisam ter lugar, no sentido do que o Deleuze chama de afeto e os colegas dele, mas também no sentido que o nosso corpo se afeta, o nosso ser se afeta. Mas importa essas confluências onde afetos políticos, afetos ancestrais de coração, de corpo, dos nossos humores, né? Às vezes eu digo que a Terra tem humor. Eu apelo para essa expressão, né?

Olha, o planeta é vivo. Gaia tem humor. Gaia é um ser vivo, ele tem inteligência. Nesse sentido, afeto é humor e inteligência. Esses afetos são diferentes daqueles da turma que empolgou a discussão na Europa, né, que renovou o pensamento crítico na Europa com essa coisa dos filósofos e tal. Mas aqui para nós eles têm a ver com o corpo. Quando as mulheres indígenas marcham e chamam as Margaridas e vão para Brasília e fala nosso corpo, nosso território, elas estão propondo uma implicação dos afetos no sentido político com os afetos no sentido físico, corpo, humor, paixão.

Não tem essa necessidade de separar uma coisa da outra, dizendo: olha, eu não tô falando de corpo-território só como um lema político, uma convocação ao Eu tô falando de corpo-território no sentido de deitar no chão, deitar na terra e deixar a terra ensinar pra gente. O problema da ciência ocidental é que ela não permite que outra coisa ensine, a não ser a ciência.

FSFernando Silva

Como os museus podem acolher diferentes formas de conhecer e contar histórias? Como romper com narrativas únicas e coloniais sobre a ciência e a cultura? Para Krenak, os ambientes museais muitas vezes análogos a um santuário ou ao que se chama de capelinha da ciência devem integrar a alternância de leituras e a pluralidade em seus discursos, expandindo o contato com o público com diversas perspectivas sobre a história e o mundo ao nosso redor.

AKAilton Krenak

Por que é que a gente continua perseverando num marco cultural amplo universalizante da ideia de museu. Ora, nós pegamos essa, digamos, categoria, assim como temos diferentes lugares instituídos, a gente instituiu um lugar que é museu. Esse lugar museu, a gente deveria investigar ele. Por que que ele foi tão abrangente? Por que que ele foi tão unânime? Por que que ele plasmou em todas as culturas uma coisa como se fosse óbvio.

Eu não acho museu óbvio, eu acho museu uma coisa que deveria ser investigada. Por que que a gente elegeu esse lugar e a gente leva as nossas crianças para lá? A gente leva as crianças para o museu como se estivesse indo para um santuário. Eu fico perguntando se o museu não é a capelinha da ciência, no sentido barroco, né? Para o Barroco. Agora, se fosse para outras vocações, talvez não fosse uma capelinha, fosse um outro esquema.

Mas ele está vinculado, a ideia de museu está muito vinculada a controle. Do ponto de vista colonial, do ponto de vista da matriz colonial Europa, é muito bom ter museu. O aparato museu foi utilizado pelos russos, ingleses, pelo Império Russo, pelos outros impérios todos, para investigar os estranhos, investigar os outros, né? E depois, de certa maneira, também para desmontar os outros. É uma máquina de desmontar os outros. Então assim, às vezes aquele esforço da gente de descolonizar, contracolonizar, contrariar a colonialidade como modo de existir implica torcer o uso da ferramenta.

Então, quem sabe essa ideia de museu, essa ferramenta que nos legaram, a gente pode pensar como torcer a ferramenta. A gente não precisa chegar lá e falar: não, tira isso daí, vamos botar outra coisa. Então me animou a pensar a ideia de alternar. A gente pode pensar alternância de leituras, alternância de leituras. Se a gente convidar as crianças para alternar leituras, é diferente da gente encaixar as crianças numa visão que já está pré-concebida. E talvez a gente consiga dar uma pequena contribuição para pensar a educação.

AGAna Gonçalves

Ao contrário da hierarquização, da separação e da intuição, o pensamento contracolonial dos povos originários e afrodiaspóricos busca a coexistência e a confluência entre múltiplos modos de vida. Como nos lembra Ailton, é na imaginação e na criação de mundos que mora a liberdade e o pertencimento necessários para afastar a cosmofobia e fortalecer a nossa relação com a Terra.

AKAilton Krenak

Se a gente confluísse Tudo quanto é memória nossa tava voando por aí, se alternando, livres, leve e solta. Mas como a gente se censura, como a gente tem pecado e não sei o quê, e aí vai toda essa condenação da liberdade, da autopoiese, né, de criar mundo. Você não pode criar mundo, você tem que seguir um roteiro de mundo criado. A gente tem uma planta que parece uma arapuca que botaram no nosso caminho e a gente fica rodando dentro dela como um labirinto.

A gente precisava fazer um furo nas várias paredes de labirinto para ver se a gente consegue experimentar confluência e questionar essa estabilidade de algumas estruturas que a gente aceita como se fosse um dom divino. Um mundo em que nada se joga fora, porque ele é uma biosfera. Por ser biosfera, ele tem essa natureza maravilhosa de transformar tudo, de recriar tudo, de produzir mundo, de produzir vida. É como se a gente não precisasse de nenhum aparato externo para experimentar isso.

É mais uma disposição amorosa para estar no mundo do que essa fúria dos sapiens de prospectar. A fúria do sapiens de prospectar futuro, ela tem nos causado muito prejuízo. Se o cosmos nos parece tão, tão, tão anterior a tudo, lugar de tudo, é maravilhoso a gente fazer parte dele e não ter medo do cosmos e não produzir cosmofobia. A gente não pode produzir cosmofobia e nem deixar ela se acomodar.

?Voz B

Estabelecidos pela Organização das Nações Unidas, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODS, visam compromisso social, natural e econômico com o futuro na Agenda 2030. As reflexões apresentadas neste episódio dialogam com o ODS 4, Educação de Qualidade, que busca garantir oportunidades de aprendizagem inclusivas e equitativas para todas as pessoas. Em especial, relacionam-se com a meta 4.7, voltada à valorização da diversidade cultural, ao reconhecimento de múltiplas formas de conhecimento e à promoção de saberes que contribuam para sociedades mais sustentáveis, plurais e conscientes de suas interdependências.

FSFernando Silva

Esse foi mais um Papo em Pauta, programa mensal veiculado no feed do Pílulas do Conhecimento. Avalie o programa e acompanhe o Espaço em todas as redes sociais, @espacoFMG.

AGAna Gonçalves

Agradecemos a Ailton Krenak por suas fundamentais contribuições para o projeto de renovação da exposição Demasiado Humano, em cartaz no Espaço do Conhecimento UFMG. Este episódio foi escrito e apresentado por Ana Carolina Gonçalves e Fernando Silva. Os trabalhos de áudio foram feitos por Samuel Lacerda. Vinheta: Gabriel Barcelos. Narrações complementares: Rebeca Júlia.

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