#326 - Desesquecimentos: A representação e a reconstrução de memórias queer na arte
Reconstruir memórias, desafiar o colonialismo e subverter a tecnologia. Enxergue sobre a obra de Mayara Ferrão e entenda como a inteligência artificial foi treinada para retratar o amor, a alegria e a ancestralidade de mulheres LGBTQIAPN+ que a história oficial tentou apagar.
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Realização:
Espaço do Conhecimento UFMG
Pró-reitoria de Cultura UFMG (Procult)
Universidade Federal de Minas Gerais
Texto original: Ana Carolyna Gonçalves Barboza
Adaptação e trabalhos de áudio: Samuel Lacerda
Supervisão e revisão geral: Fernando Silva
Coordenação: Vanessa Brandão
Samuel Lacerda
- Álbum de DesesquecimentosMayara Ferrão·Representação de amor e afeto·Sincretismo no Brasil Colonial·Inteligência artificial na arte
- Gírias LGBT e LinguagemRepresentação de mulheres LGBTQIAPN+·Apagamento histórico·Chimamanda Adichie
- Mídia e representatividade· SociedadeTreinamento de IA com referências positivas·Superação de visões extremistas sobre IA·Mayara Ferrão
Pílulas do Conhecimento. A ausência de diferentes corpos e identidades nos registros históricos tradicionais não acontece por acaso. A reprodução de narrativas que naturalizam opressões e desigualdades está profundamente ligada à manutenção de apagamentos e controle de poder. Por muito tempo, as trajetórias de grupos minorizados foram sistematicamente silenciadas por discursos universalizantes e colonizadores, capazes de construir o que a escritora Chimamanda Adichie chamava de histórias únicas, ou seja, narrativas limitadas e frequentemente violentas.
Em contrapartida, trazer uma pluralidade de perspectivas para o centro do debate funciona como uma forma de reparação histórica, indicando caminhos para relembrar e reconstruir a dignidade e as vivências reais desses sujeitos. É justamente nesse território de reconstrução que surge a série de fotografias intitulada Álbum de Desesquecimentos de 2024. Criada pela artista visual e diretora criativa Mayara Ferrão, a obra traz a proposta de ecoar repertórios visuais emancipatórios.
Movida pelo incômodo gerado pelo silenciamento e pela desumanização que imperam nos arquivos oficiais do país, A artista, que é natural de Salvador, na Bahia, decidiu construir uma coleção de imagens inédita. Suas obras buscam representar o amor e o afeto entre mulheres negras e indígenas no período colonial do Brasil, suscitando novos imaginários para pessoas que foram historicamente deslegitimizadas e privadas do reconhecimento de suas próprias existências.
Situados na intersecção exata entre a memória, a arte e a tecnologia, os chamados desesquecimentos envolvem temas profundos de afeto e ancestralidade. A série atravessa categorias fundamentais de gênero, sexualidade, território e raça, em um gesto poético que mistura a realidade e a ficção. As fotografias de Mayara retratam cenas de casamentos, celebrações coletivas e momentos românticos cotidianos que, apesar de parecerem comuns e banais à primeira vista, foram historicamente negados às pessoas LGBTQIA+.
Ao colocar essas mulheres como protagonistas de suas próprias realidades, a artista Reivindica o direito à autodefinição, opondo-se frontalmente ao que foi predeterminado pelo projeto colonial, como bem teoriza a escritora Grada Quilomba. Um dos pontos mais fascinantes do projeto é o processo de produção. A artista utiliza a inteligência artificial para dar vida às fotos. Porém, em entrevista à Folha de São Paulo, Ferrão revelou um desafio técnico e social profundo.
Inicialmente, as ferramentas de IA não eram capazes de recriar imagens que representassem pessoas negras felizes ou com expressões de alegria. Isso exigiu que a própria artista realizasse pesquisas profundas e treinasse a tecnologia com referências positivas, sem qualquer associação com condições de dor ou sofrimento. Esse processo nos mostra que o debate sobre o uso da inteligência artificial na arte é complexo e precisa superar visões extremistas de anulação completa ou de uso acrítico.
As obras da artista soteropolitana provam que a intencionalidade e o pensamento crítico do trabalho criativo continuam pertencendo ao artista. E não a tecnologia. Partindo de uma perspectiva nitidamente política, Maiara Ferrão subverte a lógica assimétrica e preconceituosa dos algoritmos, que nada mais são do que reflexos das estruturas de poder da nossa sociedade. A inteligência artificial é apropriada aqui como uma ferramenta de apropriação e disputa, encontrando lacunas e fissuras para causar rupturas nas narrativas dominantes, reinventando o passado através dos recursos tecnológicos do presente.
Ao entrelaçar suas próprias vivências com as histórias das mulheres que vieram antes, Ferrão resgata o conceito de ancestralidade como um princípio que inter-relaciona o passado, o presente e o futuro. Como apontam as pesquisadoras Laura Guimarães Correia, Pamela Guimarães Silva, Mayra Bernardes e Luciana Furtado, essa produção intelectual é uma oportunidade vital para evidenciar as relações entre as experiências individuais subalternizadas e as estruturas coletivas de poder.
Afinal, a memória é um campo em constante disputa. Quando vozes contra-hegemônicas ganham visibilidade, somos convidados a desesquecer o que foi deixado à margem, fortalecendo as histórias de amor do presente por pessoas que, com muito orgulho, continuarão a resistir, persistir e sorrir. E esse foi mais um episódio do Pílulas. Se você gostou e nos ouve pelo Spotify, avalie o programa clicando naquela estrela que fica no topo do nosso perfil.
Acompanhe o museu em todas as nossas redes sociais, @espacoufmg, e também em nosso blog, com textos inéditos todas as terças-feiras. E todas as quintas, entre fevereiro e novembro, temos episódios novos do Pílulas do Conhecimento. O texto original é de autoria de Ana Carolina Gonçalves Barbosa, mestra em comunicação social e assistente de comunicação no Espaço do Conhecimento UFMG. A revisão e supervisão geral são de Fernando Silva e os trabalhos de áudio foram feitos por mim, Samuel Lacerda. Obrigado e nos vemos no próximo episódio.