Episódios de Podcast Para Tudo

#282 - Vaquinha do intercâmbio, reencarnar e performar

31 de julho de 202635min
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Hoje eu trouxe três tópicos que pairavam na minha cabeça: reencarnação, a polêmica da vaquinha e pessoas que “performam”. Nenhum assunto a ver com o outro, do jeitinho aleatório que vocês gostam.
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👵🏼 Lorelay Fox é Drag Queen há quase 20 anos e, nesse loreverso, falamos sobre ETs, conselhos (ruins), dicas de maquiagem e assuntos cotidianos.
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Participantes neste episódio1
L

Lorelay Fox

HostDrag Queen
Assuntos6
  • Medo de morteMedo de ter que reaprender a viver · Reencarnação como ameaça · Vida após a morte
  • Propriedade do SonhoCrítica a vaquinhas para sonhos individuais · Orgulho e mania de pobre · Ajuda financeira para intercâmbio · Vaquinhas para saúde e pets
  • Engajamento e interações em redes sociaisLeitura em público como performance · Diferença entre performance e vivência · Comportamentos online vs. offline · Rafa Kalimann e livros de decoração
  • Casamentos e convitesCasamento como evento supérfluo · Obrigação de pagamento por constrangimento · Ostentação em eventos sociais
  • Orgulho e humildadeMentalidade de autossuficiência · Pedir ajuda como fraqueza · Rede de apoio e terapia
  • Storytelling e sua apropriação pelo capitalismoSonhos individuais em sociedade desigual · Invenções capitalistas em eventos sociais · Valor do tempo livre e lazer
Transcrição5 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
LFLorelay Fox

Olá, este é o podcast Para Tudo. Aqui é um lugar para todo mundo para falar sobre tudo, um lugar para a gente comentar aquilo que aconteceu na semana, pensamentos aleatórios, dicas interessantes ou não. E eu sou Lora Life Fox, então vem comigo. Olá pessoal, olá queridos ouvintes, queridas leitoras aqui do meu podcast, que para, para, Para, para tudo! Ai, gente, eu insisto em querer fazer uma musiquinha com o nome do podcast. Eu tô muito feliz de você tá aqui me ouvindo em mais uma sexta-feira.

Oremos a louca, gente! Não vou falar oremos não, vou pegar aqui a lista de coisas que eu queria comentar e não tenho comentado. Inclusive, gente, vocês viram que eu fiz um episódio todo dedicado a falar mal de pais que dão nome para os filhos baseado no próprio nome, tipo que eu falei lá. Que nome que eu dei de exemplo, gente? Sei lá, Daniel e Raniel, Danilo e Ranilo. Tivemos aí, gente, o quanto que vocês me marcaram nisso, eu morri de rir.

O Hendrik que deu o nome para o próprio filho de Kendrick. Só que daí eu pensei assim, tá, Kendrick é um nome melhor do que Hendrik, não é, gente? Porque Kendrick não é o nome mais famoso? Eu acho que ele consertou a linhagem. É como se a natureza estivesse se curando através disso, sabe? Quando o ciclo se fecha. Eu acho que se você tem um nome feio e você dá um nome pro seu filho, um nome melhor do que o seu, mesmo que parecido com o seu, eu acho que você tá colocando as coisas no rumo melhor.

Então, realmente, vou passar meu pano pra ele? Mentira, né, gente? Quer dizer, faz sentido o que eu falei, mas continuo achando ridículo e deplorável e extremamente egocêntrico. E mais uma vez é o nome do homem, né? Quero ver se ele tiver uma filha, se ele vai dar o mesmo nome da esposa, só mudar uma letra. Não vai, né, gente? Porque isso daqui é o patriarcado, tá bom? A gente luta contra o patriarcado aqui. Vamos agora para o que eu tenho pensado essa semana, gente.

Eu parei assim e pensei, gente, muito se fala sobre encarnação, do nada muito se fala sobre reencarnar e tal. Eu acho que eu já até comentei isso aqui, talvez eu esteja me repetindo, gente. Você vai me desculpar que isso daqui grande repetição de tudo que se passa na minha cabeça. Talvez você esteja pensando assim: ai, eu quero reencarnar porque eu tenho muito medo de morrer, eu tenho medo que não tem uma vida depois da morte, eu não quero que as coisas acabem, não sei o quê, não sei o que lá.

Então reencarnar ou existir uma vida após a morte é o que eu quero. Gente, como que as pessoas querem isso e não tem medo? Não tô falando medo assim: ai, se não tiver, se tiver um pós-vida, eu vou para o inferno. Não, Pode ser que o pós-vida seja uma vida também, assim, de boa, nosso lar, sabe? Nosso lar. Eu já teria medo de ir para o nosso lar, porque para mim aquilo é meio The Good Place, é meio inferno também, né? Vamos ser bem sincera.

Mas minha questão é: se você vai morrer aqui e reencarnar no mundo espiritual, né? Não reencarnar, né? Viver no mundo espiritual, gente, eu não vou estar preparada. Eu vou ter que aprender tudo de novo? É como se eu dormisse hoje, amanhã eu acordo vivendo numa cidade no interior, sei lá da onde, onde eu não conheço o idioma, eu não conheço as pessoas, eu não conheço o modo de vida, eu não conheço os costumes, eu não conheço nada.

Eu não vou estar disposta, gente. Eu não vou estar disposta a reaprender viver tudo de novo. Dizem que é isso que a gente faz, né, quando a gente reencarna. Daí meu medo é o seguinte, gente: não é que eu acho a minha vida incrível, não. Mas eu acho, eu penso assim, eu não saberia viver a vida de nenhuma outra pessoa. Eu não saberia viver. Tipo, se eu morresse e reencarnasse, sei lá, em você que tá me ouvindo, gente, eu não ia saber lidar com os problemas que você tá lidando.

Eu não ia saber ser outra pessoa senão eu mesma. Vocês não têm medo disso? De você pode morrer e reencarnar, pode ser. Ai, daí você pensa, ai, mas tem a chance de você reencarnar rico, isso e aquilo.

?Voz B

Não importa.

LFLorelay Fox

Eu não quero ter que viver toda essa experiência e reaprender tudo de novo. Vai que eu reaprendo tudo errado, vai que eu me torno uma pessoa horrível, vai que eu fico feia, sabe? Vai que eu não sou drag na próxima vida, vai que eu vou viver tudo aquilo que eu não queria viver, porque o que eu quero viver já é o que eu tô vivendo. Mas essa é uma impressão minha, porque eu acho que eu gosto da vida que eu tenho, né? Eu acho gag dela gag ser drag queen.

Claro que eu não tô falando da drag em específico, mas vocês entenderam o peso que a reencarnação tem? E as pessoas inventaram essa coisa de reencarnação meio que para consolar a gente. Para mim não, para mim é uma ameaça. Me deixe morrer e sumir, me deixe morrer. Agora daí também tem aquilo, né, que diz que quando você tem essa mentalidade, se você morre, você não consegue encaminhar para o futuro também. Daí eu penso assim, eu acabo virando uma assombração, porque você tem essa mentalidade de que não quer seguir para vida espiritual.

Mas calma lá também, gente, se tiver eu vou querer, porque também não quero ficar presa. Como que a gente desfaz esse nó da nossa cabeça? Eu não sei, eu não sei. Só sei que morrer deve ser uma experiência muito maluca. E os momentos finais da vida, né, dizem que a gente recebe uma carga lá de dopamina, sei lá o que é mina, e E enfim, é uma trip doidona na nossa cabeça e que daí encaminha a gente para a próxima vida. Gente, eu vou estar parando por aqui porque não vai estar tendo, não vai estar tendo.

Imagina se na próxima vida eu começo, eu acordo, eu sou um legendário. Não, mas também não vou acordar sendo um legendário, né? Ser filho de legendário, não, não dá, não dá, não dá. Imagina nascer num país que não é o Brasil. Começa por aí. Esse país é um lixo? É um lixo! As pessoas são horríveis? São horríveis, mas a gente é mais legal que todo mundo. O que que eu vou fazer? Não tem o que fazer, gente. Ai, mas um país mais seguro, um país mais aquilo.

Não importa. Eu quero ser brasileira, quero ser latina pelo menos, né? Quero acordar latino em outra vida. Não tem como escolher. E dizem que as coisas que a gente passa nessa vida são coisas que a gente escolheu passar. Eu duvido tanto, gente. Eu duvido tanto que ninguém escolheria passar por tanto sofrimento, né? As pessoas que sofrem, né? Eu não sofro porque eu sou realizada, bonita e bem-sucedida. Ai, a quem que eu tô enganando?

Só sei que eu queria fazer esse manifesto, tá? Manifesto de que a reencarnação não é um consolo, é uma ameaça para mim. E talvez tenha também esse ponto de vista, porque reencarnar pode fazer— reencarnar nesse sentido de ameaça pode vir no sentido de que ou você aproveita o melhor possível dessa vida, porque na outra pode tudo dar errado, ou na outra você ir para o inferno. Ou você vai passar por tudo que há de ruim. Então vamos aproveitar o que a gente tem agora, porque vai que na próxima encarnação você reencarna com uma floflo biuta, não dá para saber.

Ai, mas ela é milionária! Mas nem tudo é dinheiro, gente, muda essa mentalidade. E quando a gente reencarnar também, ai, porque agora também tem outras teorias, né? Tem teorias de que dá para você reencarnar no passado, que todas as linhas do tempo podem estar misturando, que tempo é algo que acontece sem limites e está tudo, tudo que existiu na história do universo está acontecendo ao mesmo tempo. Então eu posso morrer agora e reencarnar no século 15.

Gente, não dá! Eu gosto de tomar banho, tá bom? Não me leve para o passado não. Aí você vai reencarnar no australopiteco, é assim que fala, eu não sei o nome. Será que a gente também tem esse limite de reencarne? Ou não considera, tipo, 30 mil anos atrás já não considera mais reencarnar porque já tá muito datado, se for poder reencarnar no passado, sabe? Tipo, a sua alma já não cabe, não dá para você atualizar aquele software porque o aparelho já é muito antigo.

Tipo, existe um limitequinho para você encarnar no passado? E no futuro vai ter? Eu acho que não tem. Será que as pessoas que são extremamente conservadoras, burra e tosca que a gente tem hoje, na verdade são pessoas que elas têm um software que não atualiza. Tá fazendo sentido software ser o espírito, gente? Atualização ser a reencarnação? Acho que é bom eu parar por aqui, gente. Acho que estou entrando num pensamento chapado.

Mas é isso. Próximo tópico. Começou a viralizar no Twitter, quer dizer, isso veio do TikTok, né, gente? Só que eu fui ver, tomar noção disso no Twitter. No Instagram não vi muita coisa sobre isso, mas provavelmente tem também. Uma mulher que tava reclamando de pessoas fazerem vaquinha. Ela fez um vídeo de 9 minutos. Gente, conteúdo longo em redes verticais é o que tá tendo. E falaram que conteúdo longo ia morrer, né? A Queen tá militando para que isso jamais desapareça.

Eu gostei muito de todos os pontos que ela traz, gostei muito. Vitor, você coloca aqui um trechinho dela falando, pelo menos um comecinho, uma parte aí. 9 minutos não dá também, né? Porque vocês estão aqui para me ouvir. Isso daqui é sobre mim, esse show é meu, gente. Mas coloca um trechinho aí dela falando.

?Voz B

Eu sou muito orgulhosa para fazer vaquinha, mas eu ajudo. Agora, qualquer outra coisa que não seja saúde, gente, nossa, e tem uns motivos assim que eu pego um ranço. É, teve uma menina que acabou de mandar um textão na DM que ela quer fazer um intercâmbio para outro país, é o sonho dela, e tá fazendo vaquinha. Ô, gente, a galera não é obrigada a financiar o seu sonho. Desculpa se isso é ser insensível, mas eu nunca pedi um real para ninguém financiar sonho meu.

E olha que eu já passei fome. Eu não conheço gente rica. Todo mundo que eu conheço, R$100 vai fazer diferença, R$50 vai fazer diferença. Mas apesar de eu ser uma pessoa orgulhosa, quando qualquer pessoa abre para um animalzinho, para motivo de saúde, tudo bem. Agora, gente, pra financiar sonho, fazer rifa pra casamento, chá de panelos, caramba, gente, se você não tem dinheiro, sinto muito, não rola. Eu não consegui fazer metade das coisas que eu queria na vida porque eu não tinha grana.

Aí essa menina mandou na DM assim, ai, eu vim da mesma realidade que você. Você e 90% dos brasileiros, gente. A gente é pobre, a gente não pode fazer um bando de coisa. Todo mundo quer, você não quer fazer as coisas? Eu quero fazer as coisas. Você tem dinheiro? Eu não tenho, sabe?

LFLorelay Fox

Ela dá um textão basicamente falando que ela só ajuda vaquinhas que são para saúde ou para ajudar pets, e que ela recebeu uma DM de alguém pedindo uma ajuda numa vaquinha para financiar um intercâmbio, que era o sonho da pessoa. Ela fala assim: eu nunca pedi dinheiro para nada do que eu fiz da minha vida, eu acho que vocês não deviam estar pedindo também. Eu concordo muito com ela, mas daí eu parei e pensei, e eu juro que eu pensei isso antes de ver as pessoas que esse caso teve tantos desdobramentos, tantos pontos de vista, eu pensei assim: será que não sou eu que tô sendo tonto?

Será que não sou eu que tô sendo tonto? Às vezes eu que tô sendo tonto, que às vezes as pessoas querem ajudar as outras e a gente é tonto porque a gente não pediu ajuda quando a gente precisava. A gente se fudeu 10 vezes mais porque a gente não teve coragem de falar assim: gente, alguém pode me ajudar? Eu queria passar por isso, queria fazer isso, queria fazer aquilo. Tô precisando disso, daquilo, e eu não tenho como. Quem quiser me ajudar, me ajuda.

Daí eu fiquei meio assim, cara, talvez seja eu. Ela mesma no vídeo dela, ela fala que ela é muito orgulhosa para pedir ajuda. E daí não é a gente que é errado de ser orgulhoso, porque também levantaram aquilo, a pessoa faz uma vaquinha, ajuda quem quer. E se as pessoas quiseram ajudar sabendo onde elas estavam pondo o dinheiro delas, não tá todo mundo feliz? Não é como se as pessoas fossem enganadas, como se alguém fizesse uma vaquinha para curar um câncer e a pessoa pegou pegou esse dinheiro e foi para as Maldivas.

Não, ela fez, usou. E mesmo se ela fizer uma vaquinha para ir para as Maldivas, todo mundo sabia que era para isso. Quem quiser ajudar, ajudou. E é nessa que eu vou, entendeu? Eu acho que a gente que tem esse problema de ser muito orgulhoso, eu acho que isso é mania de pobre, sabe? É uma mentalidade não pobre no sentido negativo, mas aquela coisa antiga de que a gente, nosso nome, nossa honra, sabe? Essa coisa de tipo assim, não posso dar esse vexame com dinheiro, não posso, sabe?

Não sei se eu tô sabendo me explicar, mas é um pensamento antigo que já não faz sentido no mundo que é tão conectado e que as pessoas elas se entrelaçam na internet. Elas não se importam de dar R$10 para alguém para ouvir um podcast, por exemplo, sabe? Elas não se importam, elas gostam de ajudar as outras. Errado é a gente achar que isso é errado. Porém, eu também chego em outros tópicos. Eu ainda não consigo passar pano para quem quer fazer um casamento e todo mundo tem que pagar para estar no casamento dessa pessoa, porque daí entra em outro quesito.

Não é uma vaquinha onde quem quer ajuda, é uma obrigação de pagamento através do constrangimento. Se são pessoas próximas suas e você não ajuda, daí você fica constrangido. Daí você se fode. Igual aquela pessoa que faz bombom para vender dentro da empresa e ela te conhece, te vê todo dia, você fica constrangido de não comprar porque você não quer, você não gosta de doce. Eu nunca comi doce, gente, nunca fui fã de doce. Todo mundo gosta de um docinho depois de almoço, eu nunca fui essa pessoa.

É raro, tanto é que quando eu gosto de doce eu comento por aí. Mas enfim, a gente fica constrangido. Não existe isso também? Daí no mundo da internet isso tomou outras proporções. Mas, gente, eu recebo muito pedido de ajuda de vaquinha, muito mesmo. Tanto é que eu já nem abro, porque também fica aquilo: vou ajudar em uma, não vou ajudar em outra, divulgo uma, não divulgo outra. Acho muito complicado. É outro esquema também quando a gente trabalha com rede social.

Mas enfim, depois desdobraram falando que ela, essa vaquinha que pediram para um intercâmbio, na verdade era para uma menina que ia fazer um doutorado, mestrado, alguma coisa assim. Essa própria menina foi nos comentários desse vídeo e falou, nossa, desculpa aí. Eu podia até achar o texto que a outra mandou aqui, mas aí me dá um pouco de trabalho. Mas daí também a menina fez um vídeo de 9 minutos, ela não expôs ninguém. A outra foi se expor porque ela quis, né?

Acho também bastante complicado, mas também a história reverbera cada vez mais. Teve gente também que contextualizou que não dá mais pra gente ter sonhos individuais no mundo tão desigual. Onde a gente quer realizar sonhos porque, enfim, o mundo coloca esses sonhos na cabeça da gente. A gente acha que precisa deles e às vezes precisa mesmo. E é impossível com um salário mínimo você conquistar qualquer coisa. Mas daí eu não sei se esse é um raciocínio que a gente deve ter.

Eu acho que essa vai meio na contramão do que eu acredito. Mas também acho, gente, de verdade que as pessoas têm o direito de não gostarem de ajudar as outras. É estranho, mas é verdade, né? Eu acho que faz sentido. E acho que faz sentido também o raciocínio dela, tipo assim: nossa, eu nunca ajudei, eu não vou ajudar os outros também. E tá tudo bem. Não sei nem se isso esbarra no egoísmo. Eu acho que é uma maneira de você se blindar de você não poder ajudar os outros.

Então você não vai pedir ajuda também, né? Assim funciona. Eu acho que na verdade era essa linha de raciocínio que devia ter sido seguida. Tipo: nossa, eu não tenho como dar um real pra ninguém. Que me pede. Eu não tenho como ajudar em vaquinha nenhuma, então eu não vou pedir ajuda para mim, porque se fosse o contrário eu também não conseguiria fazer. Eu acho que era esse o raciocínio. Talvez seja mais um raciocínio sobre a própria vivência do que sobre o que o outro faz e o que o outro pede, né?

Na verdade, é assim que funciona tudo na nossa vida, né? Tudo é um reflexo do que se passa na nossa cabeça e não na do outro. É difícil. Talvez esse raciocínio todo vá na contramão de uma das coisas que eu considero ter aprendido enquanto adulto, que é: adulto precisa dar conta de tudo sozinho. Essa é uma ideia muito errada que a gente tem. A não ser que você realmente viva completamente isolado, você pode pedir ajuda para as outras pessoas.

Você não precisa resolver tudo sozinho na sua vida, sabe? Quando a gente desbloqueia essa chave na nossa cabeça, as coisas se tornam mais leves. E às vezes as pessoas não têm ajuda de pessoas próximas para pedir, mas a gente pode pedir na internet ou em algum outro círculo de amigos, uma rede de apoio, sei lá o quê. Isso é uma coisa que eu aprendi na minha vida e na terapia, tipo A gente aprende que pedir ajuda é errado, né? E é engraçado como em algumas áreas da minha vida eu consegui colocar isso em prática.

Pra resolver perrengues ou tirar dúvidas sobre coisas extremamente banais da vida de adulto que eu não faço a mínima ideia de como funcionam, eu já não tenho mais vergonha de pedir ajuda pros outros. Porque eu penso assim: foda-se, não tem como eu saber disso, né? Mas daí pra outros lugares eu não consegui extrapolar isso ainda, tipo... Eu acho que eu preciso realmente colocar, eita, preciso colocar na minha mentalidade de que pedir ajuda em qualquer situação pode ser válido, que também não é uma obrigação de ajudar.

Porém, eu não vou deitar para ajuda do constrangimento. Me deixou constrangido, não ajudo não, não ajudo. E eu sou essa pessoa, sou essa aquariana, tá? Aí me constrangeu, eu vou saber falar não sim, vou saber. Eu não comprava os bombons que eu era obrigado e me chamavam de mão de vaca. Isso porque na época eu realmente era uma fodida. Gente, eu recebi um salário de R$800, sabe? E daí você anda ali com o povo que todo dia vai almoçar no shopping, não dá, né?

Você precisa ser a chata assim. E como eu sempre fui aquariana, a louca, e tem outra escolha? Não tem. Para mim não era um problema. Será que eu preciso revisitar o meu, meu, não vou falar ranço, a minha questão com pessoas que pedem ajuda para o próprio casamento? É que eu penso assim, ai, gente, é que casar é festa de casamento, é o supérfluo do supérfluo. Mas é para mim, né? Para outras pessoas é o alicerce de toda a história de uma vida.

Mas é difícil a gente se conectar com histórias que estão muito distantes de tudo que a gente vive, né? Muito distantes. A ideia é a história que conseguiu ir mais longe da menina. A gente falaram que a outra que pediu a vaquinha Como ela veio muito espertamente se expor e falar, ah, ela está falando de mim, o que várias pessoas poderiam ter feito, né, para entrar nesse hype. Diz que ela conseguiu, a vaquinha dela vai poder estudar lá no país onde ela queria e tal, porque é uma coisa de ciência e não sei o quê.

E destruíram a menina que passou 9 minutos reclamando de vaquinha, mas ela usava bons argumentos, gente. Quando eu vi o vídeo a primeira vez, eu falei assim, tá, realmente ela convence pelos argumentos. Mas ficou alguma coisa estranha na minha cabeça, mas acho que no final foi bom para todo mundo, tá? Eu saí com lições valiosas disso, você está saindo também depois desse relatório que eu fiz sobre essa treta. E digo mais, as pessoas ainda estão tentando fazer kinkshaming, não é kinkshaming, mas é meio que isso, porque essa menina que reclamou disse que ela é— eu não entendi direito— disse que ela é fã do Chico Moedas.

E ela cria vários conteúdos falando de Chico Moedas. Gente, onde isso é uma vergonha? Chico Moedas, não tem como, né, gente? Desculpa, todas nós faríamos. Não tem como criticar ela por conta disso. Ela tem bom gosto, porque além do Chico Moedas ser um padrão, né, vamos ser bem sinceros, ser rico e ainda ter consciência de classe, gente, Vocês já viram as entrevistas do Chico Moedas? Foi ali que ele me ganhou, não foi nem naquele bigodinho não, foi na entrevista dele.

É babado. Tem outra aqui comentando: influencer pedindo like, comentário, compartilhamento e apoio do público é normal, já que essa menina é uma influencer. Agora, doutor anda pedindo que divulguem sua vaquinha para representar a pesquisa brasileira no exterior, corre atrás do seu. Amo que todo mundo tá se importando com a pesquisa brasileira só para criticar outra menina aqui, né? Porque na verdade vocês estão cagando pra ciência o tempo inteiro, mas tudo bem.

E aqui tá uma coisa que sempre me deixou meio constrangida. Eu sempre tive vergonha nos primeiros anos do meu canal de pedir pras pessoas se inscreverem. Eu achava, me dava uma coisa estranha assim, ai, que tonta, né? Por isso que eu demorei tanto pra criar um clubinho de apoiadores e coisas assim. Pra pedir Super Chat, então, nossa, gente, Mas também depois que eu comecei não parei mais, né? Mas foi muito difícil para mim desbloquear essa ideia de que era errado pedir, sendo que eu não tava obrigando ninguém.

E mais, eu descobri que as pessoas gostam de participar disso de alguma forma, entendeu? Então as pessoas que te veem fazendo essa vaquinha e conquistando o que você se propunha, se propuseu, se propense ali, elas se sentem parte daquilo. Assim como eu sei que as pessoas que são meus apoiadores ou que participam com Super Chat sentem que são parte desse mundo também, e literalmente são, né? Porque meio que elas financiam tudo aquilo que tá acontecendo, elas são parte disso.

Então existe algo muito legal nisso, que, gente, foi muito difícil desbloquear em mim, tá? Foi muito difícil. É aí que eu volto na ideia de— nossa, eu tô me alongando nesse assunto, né? É aí que eu volto na ideia de que é uma ideia antiga e conservadora, de que a gente precisa dos nossos próprios méritos e que é errado pedir, e que a gente tem nossa honra, nosso orgulho, não sei o que lá, não sei o que lá. Que ideia tonta, gente!

Que ideia tonta! Ai, ai, mas também é da boa vontade dos outros que os aproveitadores aparecem, né, gente? Vamos deixar bem baixo. Próximo tópico, ó, vou ler o último comentário, gente. Aí que eu não quero sair desse assunto. A Mariana Oliveira no Twitter fala assim, comentando sobre o vídeo de outra menina aqui que comentou a comentação do comentário, enfim: gostaria respeitosamente de apresentar uma simples observação. Eu concordo quando ela diz que essa coisa de faz o teu sozinho é uma invenção capitalista, porque teve essa outra menina que também trouxe esses pontos, que é meio que eu falei, né, essa ideia construída na gente que tudo tem que ser sozinho e que esse orgulho de você ser o se fazer sozinho, né?

O ser humano sempre viveu em sociedades e grupos, todo mundo se ajudando. Acontece que alguns desses sonhos, tipo festa de 15 anos e casamento com festas exageradas, chá revelação, como são comemorados hoje, também são invenções capitalistas. As pessoas devem ter rede de apoio, sim, para realizar esses tipos de evento, Mas também devem alinhar sua expectativa à realidade delas. Veja bem, todo mundo pode e deve, se quiser, participar dessas convenções, mas hoje em dia elas viraram mais a celebração do olha o quanto eu pude proporcionar, quanto mais gastar melhor, do que algo sentimental de fato.

Claro, sem generalizações, existem vários tipos de pessoas e realidades, Mas a galera que faz vaquinha, na maioria das vezes, não é por não ter dinheiro para fazer, é por não ter exatamente como elas querem. E o que elas querem no final é só um desejo de ostentar, que foi o que se tornou a tradição desses eventos. Acho que tem muitas nuances. E de fato tem muitas camadas, gente, porque é isso. Acho que temos aqui. Obrigada, gente.

É nessa que eu tô pro próximo tópico, maluca. Outra discussão que tem surgido nas redes sociais. Amo quando fala, parece reportagem da Globo, que eles falam: ai, nas redes sociais. E quando eles estão querendo falar exatamente, sei lá, sobre Instagram ou sobre YouTube, mas eles não citam o nome dessas plataformas. Eu acho isso uma coisa tão idiota, gente, tão patética, tão retrógrada, tão vaquinha de se fazer, sabe? Tão ser contra vaquinha de se fazer.

É, mas não é nem sobre isso que eu quero falar. É gente performando. Começou a gerar aí uma discussão na internet sobre pessoas performando quando estão lendo em locais públicos. Gente, a internet realmente corroeu a cabeça das pessoas, elas não lembram mais como é viver fora de uma tela, né? Vamos começar por aí. Por quê? O que que isso daqui tá querendo dizer? Quer dizer que quando você tá com um livro na sua mão Lendo na praia, por exemplo, e todo mundo te olha e pensa assim: ai, tá querendo se aparecer.

Ou você tá no metrô lendo: ai, tá querendo se aparecer, blá blá blá. Por quê? Porque isso é performar. Só que não é, gente. A arte da performance começou a ser vista como tal a partir do momento que as pessoas estavam lendo na praia, mas na verdade a intenção não era leitura, era se filmar ou se fotografar lendo numa praia para mostrar que você é uma pessoa que lê numa praia. Isso é performance. Uma performance precisa de um público.

Se você está fazendo isso para que ninguém veja, não esperando que ninguém se importe, isso não é performance. Se você está lendo no metrô porque é o único momento que você tem ali 40 minutos sozinho com tempo livre ocioso e você não quer ficar no Instagram, você vai ficar lendo um livro erótico sobre jogadores de hóquei, É o que você vai fazer, sem se importar se os outros estão vendo aquilo ou não. As pessoas são burras hoje em dia, achando que tudo que a gente faz na nossa vida, tipo, ai, comprar um Starbucks, ai, performático, ai, muito performático, sendo que eu só quero tomar um café gostoso, sabe?

E é gostoso sim, não adianta vocês falarem que não é. Me desculpa, gente, eu não caio nessa de falar mal do Starbucks não, é uma delícia. Então, se a questão da performance é sobre você se filmar e se postar, ai, mas os homens performáticos, isso e aquilo, gente, às vezes ele só mora em Santa Cecília, o único referencial que ele tem é usar maletê bigode. Se ele não tá fazendo isso para se aparecer para os outros, para criar um conteúdo ou algo assim, não é ser performático.

É só você seguir o que você acredita da moda. Se você tá lendo em algum lugar, você só está lendo. A performance é a partir do momento que você transforma aquilo, não vou dizer num conteúdo, mas que você transforma aquilo em algo pro mundo ver, sabe? Que você quer que os outros vejam. Queria só pontuar isso porque essa discussão me irritou bastante. Tô lendo aqui uma matéria que dá vários exemplos de coisas performáticas. Daí tem aqui, ai, aquele cara que tá ali tomando um matcha e desenhando ao ar livre e sendo performático.

Daí tem esses que eu já citei, que estão lendo em público. Daí tem outros exemplos aqui de pessoas jogando Uno e sendo performáticos porque estão jogando Uno e blá blá blá. Também tem uma questão de que tudo que é performático é tudo que não envolve o mundo online, né? É uma coisa muito estranha pensar isso. Parece que se você está ali em público vendo o seu feed, rolando o seu feed, isso é o que é para você estar fazendo. E tudo que foge dessa lógica do online, do virtual, é performance.

Como se o mundo fora das redes— e aqui eu tô extrapolando bastante, mas é meio nítido isso— como se o mundo fora das redes todo fosse uma performance. Como se você estar treinando numa academia, por exemplo, e você se fotografar, se filmar ali, beleza, não é performance. Mas se você não estiver fazendo isso, vai ser performático. Ai, como ele quer se aparecer, porque ele é assim, né? Parece que tudo que vai para o mundo virtual não é— gente, é uma coisa, um raciocínio de louco, né?

Olha isso daqui. Um caso célebre foi o da influenciadora Rafa Kalimann, que costuma divulgar em seu perfil de Instagram indicações de leitura. Criticada em julho nas redes sociais por compartilhar com seus seguidores uma compra de R$10 mil em livros para decorar sua nova casa, Os críticos consideraram a atitude performática, dizendo que a ex-BBB tratou as obras apenas como enfeites. Gente, mas não é performático sendo que ela estava comprando os livros?

Não era para fingir que tava lendo, ela deixou claro que era para decorar a casa dela. Foda-se, gente, é o que mais tem, tem livro para decoração. Esses livros grandes de capa bonita é para você deixar numa mesa decorando. Ai, as pessoas também se passam para criticar. Entendo que a Rafa Kalimann é péssima, mas essa não é uma questão para mim, tá? Diversos hábitos comuns e até inofensivos, como ir ao cinema sozinho, acordar cedo para fazer uma corrida ou ler em público, podem ser tratados como performance, desde que o autor da crítica acredite que aquilo é uma farsa e feita apenas para ser compartilhado.

Exatamente. Mas daí as pessoas começam a fazer o quê? Filmar outros fazendo isso, às vezes até sem essas pessoas saberem, e reclamar que elas estão sendo performáticas. E não é isso, né? Claro que quando você coloca o seu celular parado assim, começa a gravar, você senta numa posição de yoga e fala que, ah, estou começando meu dia fazendo alongamentos e não sei o que lá, isso é performance, bicha. Porque não existe yoga com celular no meio do seu cu, né?

Vamos ser bem sincera, não é assim que funciona. Isso é performance. Mas pessoas que fazem yoga e às vezes falam sobre isso por aí, ou que você descobre sobre elas, não é performance, sendo que o grosso daquilo não tá sendo feito para um público, né? Ai, gente, não sei, o mundo é insuportável, eu que tô velha, ou tudo isso é insuportável, os dois lados da moeda, não sei. Daí na matéria que eles continuam, estão entrevistando algumas pessoas Vou abrir aqui umas aspas: no final, caímos de novo na discussão da autorrepresentação, como se apresentar nas redes e apresentar seus gostos.

Isso sempre vai estar conformado aos valores do nosso tempo e às lógicas algorítmicas. Não é como se a denúncia de um tipo de performance nos libertasse dela de maneira geral. Cortiz, que é a pessoa entrevistada, vê de maneira positiva a tentativa de usuários de promover conteúdos que escapam do que já é conhecido. Aqui é uma coisa interessante, né? Por mais que seja uma performance, as pessoas às vezes, né, se filmarem propositalmente para postarem fazendo coisas assim, lendo ou desenhando só para ser performático, correndo, se exercitando só para ser performático, são coisas positivas que as pessoas estão mostrando.

E por que que isso irrita tanto a gente, né? Isso irrita tanto a gente porque a gente não tem acesso a coisas positivas e cada vez tem mais Cada vez mais ter esse tempo livre para poder fazer coisas só para, só para gente, coisas saudáveis, é algo muito mais raro e caro, né? Então, de alguma forma, essas pessoas estão mostrando que elas têm valor porque elas têm tempo, e o tempo delas é investido em coisas que você não pode participar fazendo.

Você não vai ter tempo para ler um livro e tomar um matcha na liberdade às 3 da tarde. Sabe, você não vai ter tempo para sair correr ou fazer yoga no meio da tarde. E nossa, eu sigo os influenciadores assim, eu fico pensando, caraca, essa pessoa não trabalha? Porque tipo, ela não faz uma publi e a vida dela é criar conteúdo dela malhando e treinando, e ela não trabalha com isso. Tipo, ela não é professor de academia, nada disso, ela só passa o dia inteiro na internet.

Eu sempre penso assim, É prostituição? Porque se é gostoso, pode estar sendo. Mas vamos voltar aqui à performance, tá? Apesar da divulgação potencialmente surgir de um fingimento, a mensagem passada pelos performáticos é de que existem outras dinâmicas de interação com a cultura que incluem obras além das populares. Ou melhor, eles estão lendo Dostoiévski em vez de estar lendo Hit Rivalry, né? Elas se acham por isso. Eu não vejo valor nenhum.

O julgamento sempre diz mais sobre as pessoas que estão julgando e sobre a dinâmica do ecossistema em que vivemos hoje. Acredito que, se começarmos a colocar esses rótulos, isso será prejudicial para esse consumo de outros tipos de conteúdo, o que fará com que fiquemos cada vez mais dentro de uma cultura digital homogeneizada, disse o professor. De fato, é um fenômeno que não ajuda na mudança que queremos trazer ao mundo, de entender que existe muito mais cultura para além das redes sociais, e os algoritmos recortam.

E nos entregam. Ou melhor, é que tá falando que a gente tem que ver de um lado mais positivo as pessoas conseguirem mostrar coisas que a gente não tem acesso, né? Mostrar que assiste filmes mais cult ou livros diferentões e blá blá blá. Mas primeiro, a partir do momento que é uma performance, eu já acho que a pessoa nem gosta daquilo de verdade, nem gosta. Eu desvalorizo tudo que eu acho que é só pela performance, tá, gente? Me desculpa.

Talvez seja pelo fato de eu julgar tanto os outros que eu posto tão pouco sobre as minhas vivências nas redes sociais, que eu tenho medo que as pessoas achem que eu sou performático, né? Mas também acho que a gente precisa ter esse olhar atento, como diz a senhorita Bira, para o que que a gente tá holofotizando, para onde tá indo nossa atenção. O fato dessas pessoas usarem o tempo delas para se filmar fazendo coisas, elas quererem mostrar que elas têm tempo e esse tempo é um grande valor que a gente tem hoje em dia.

Estar fora da internet é um luxo para as pessoas, ter um tempo de lazer é um luxo. Então é o equivalente sim a você comprar uma bolsa de grife e você ter tempo para fazer um yoga e se filmar, tá bom? É isso, esses são os meus raciocínios. Peço desculpas, esse episódio daqui não fez sentido nenhum. O que faz sentido também nessa vida, né, gente? Desculpa aí, bora reencarnar. Um beijo e é nessa que eu vou.

#282 - Vaquinha do intercâmbio, reencarnar e performar | Castnews Index — Castnews Index