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Disconexo - Nova x Velha MPB

01 de maio de 202624min
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No primeiro episódio do Disconexo, falamos sobre o gênero que dá cara e identidade ao Brasil: a Música Popular Brasileira (MPB).

Ela se transformou muito ao longo do tempo, mas tudo sem perder suas maiores características: o foco na canção, letras cuidadosas e a interpretação como elemento central.

Para mostrar as raízes do MPB, trazemos uma retrospectiva da artista Gal Costa.

Suas transformações são exploradas através de uma análise da guitarra elétrica, divisora de mares na época do Tropicalismo, nos anos 60.

Para finalizar, nada como uma mesa de debate, discutindo o revolucionário “Clube da Esquina”, de Lô Borges e Milton Nascimento.

Esse programa foi produzido por estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, no primeiro semestre de 2026.

Apresentação e roteiro por Nico Vieira e Ana Gueiros. Sonoras de Nelson Motta e Chico Science retiradas dos perfis Sergio Massagli e Eterno Chico Science no Youtube.

Reportagens por Dora Bringhenti, Lilian Carlotto, Manuela Melo, Elis Virgílio e Paula de Milano. Mesa com Luiza Cardoso e Victoria Cruz. Trilha, Arte e redes por Luiza Cardoso e Ana Gueiros.

Coordenação de Nico Vieira e Ana Gueiros. Técnica por Peter Lobo. Orientação da professora Valci Zuculoto.

Assuntos5
  • TropicalismoGal Costa · Tropicalismo · Álbum Domingo · Álbum Tropicalia, Panis et Siscenses · Álbum Bem Bom
  • Crítica à MPBBossa Nova · Ditadura Militar · Nacionalismo e poesia na MPB
  • Artistas e apresentaçõesMelly · Marina Sena · Lineker · Mistura de ritmos nordestinos com R&B americano · Influência de indie, pop e eletrônica
  • A guitarra elétrica na MPBProtesto contra a guitarra elétrica · Normalização do uso da guitarra
  • Clube da EsquinaLô Borges · Milton Nascimento · Álbum Clube da Esquina · Influências musicais (rock progressivo, folk, pop, jazz, música erudita) · Capa do álbum Clube da Esquina · Influência na música atual
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Alô, ouvinte! Seja bem-vindo ao primeiro Desconexo do semestre. E ao primeiro Desconexo da história. O Desconexo é o novo programa de música da Rádio.ufesc, onde a gente não só ouve, mas aprende e debate sobre música, gêneros, artistas, além de comentar essa arte que move o mundo.

A cada episódio, vamos trazer um tema central e te sintonizar no universo da música. Dos clássicos que marcaram gerações aos lançamentos que não param de chegar. Afinal, a música da Ritma Vida. E eu sou Nico Vieira. E eu sou Ana Gueiros. Como começar de um jeito melhor do que falar do gênero que dá cara e identidade ao Brasil? No começo, misturava samba, bossa nova, choro. Depois vieram as influências do rock, jazz e forró.

passou pelo soul e pelo funk americano e com a industrialização da música ganhou traços do pop e da eletrônica. Mas tudo sem perder suas maiores características. O foco na canção, letras cuidadosas e a interpretação como elemento central. Claro que estamos falando da nossa música popular brasileira, a MPB. Ela se transformou muito desde seu surgimento. E no Desconexo de hoje vamos te ajudar a entender quantos brasis cabem nessas três letras.

É pau, é pedra, mas é apenas o início do caminho. E é desconexo. Peter, sobe o som!

Para entender o que é MPB, precisamos voltar para os anos 50. O surgimento da bossa nova veio como uma revolução cultural e marketing para trazer uma imagem mais leve, urbana e classuda do Brasil.

Nesse período, canções como Chega de Saudade, de João Gilberto e Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, nasceram e ganharam o mundo, importando essa ideia de tranquilidade tropical, sofisticação e otimismo urbano. Mas em abril de 1964, o Brasil entrou no período da ditadura militar. A bossa nova, já em sua segunda geração, se perguntava como continuar cantando sobre tranquilidade se não vivíamos tempos de paz.

Nesse momento, uniram-se forças com outros movimentos brasileiros para juntar a sofisticação da bossa nova com outras identidades da raiz brasileira, criando assim a MPB. Fortemente nacionalista, poética e interpretativa, a MPB surge para produzir uma música brasileira a partir de estilos tradicionais. Um pouco de bossa nova, um pouco de samba e baião e muitas letras políticas.

Logo no início, a MPB colocou em foco novos artistas, como intérpretes, compositores e instrumentistas. Entre eles, uma jovem com uma das vozes mais potentes do Brasil e do mundo, segundo a revista Rolling Stone. Como uma luminosa rainha Midas, a diva baiana transformava em ouro tudo o que tocava. E como discordar dessa revista? As repórteres Elis Virgílio, Manuela Mello e Paula de Milano te contam mais sobre a vida e arte de Gal Costa.

Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina, Chico Buarque, Maria Bethânia, ícones da música popular brasileira que marcaram a história do país com suas vozes. Esses são alguns dos nomes que compõem o que conhecemos como Velha MPB.

A MPB surgiu na década de 60, no cenário da ditadura militar. O estilo musical é um resultado da junção de duas gerações da bossa nova. A primeira, caracterizada pela influência do jazz estadunidense e da música erudita. A segunda nasceu como oposição e buscava exaltar as raízes brasileiras.

O marco inicial da MPB aconteceu em 1965, durante o primeiro festival de música popular da TV Excélsior, quando Elis Regina interpretou Arrastão, de Vinícius de Moraes e Edu Lobo. A MPB foi berço de diversos movimentos culturais, dentre eles a Tropicália, que tecia críticas à ditadura militar e ao conservadorismo, buscando se afastar do aspecto intelectual da bossa nova.

É impossível falar de tropicalismo sem citar o álbum Tropicalia, Panis et Siscenses, de Caetano, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes, Tom Zé. E é claro, da nossa queridíssima Gal Costa, conhecida também como a Padroeira das Gostosas.

Maria da Graça Costa Pena Burgos, ou simplesmente Gal Costa, nasceu em Salvador em 1945. Iniciou sua relação com a música já na adolescência, quando cantava, tocava violão em festas escolares e trabalhava em uma loja de discos. Sua estreia aconteceu no festival Nós, por exemplo, em 1964, ao lado de vozes como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé.

Em 65, ainda como Maria da Graça, grava um compacto com as faixas. Eu vim da Bahia e sim, foi você.

E é em 1967 que Gal lança o seu primeiro álbum, intitulado Domingo. Com esse lançamento, seu nome artístico tornou-se oficialmente Gal. O disco que inaugurou o movimento tropicalista no Brasil, o Pony Zetsistensis, foi lançado ainda na década de 60. O álbum é considerado o manifesto musical desse movimento e uma das canções de sucesso interpretada por Gal é Baby.

Um dos maiores sucessos da carreira de Gal é o disco Bem Bom, de 1985, que alcançou mais de 600 mil vendas no Brasil. Entre as mais ouvidas estão Sorte, cantada com Caetano Veloso, e Um Dia de Domingo, com Tim Maia. Entrando no século 21, Gal foi incluída no Hall of Fame do Carnage Hall, uma casa de concertos musicais em Nova York, nos Estados Unidos.

Não sabia dessa, né? A Gal é a única brasileira a ter recebido essa homenagem. E é claro, uma das nossas queridinhas para estar aqui no primeiro episódio do Disco Nexo. E pra finalizar, segue uma palinha da guitarra elétrica na versão da Gal. E essas foram as grandes devotas da Gal. Manuela Melo, Paula de Milano e Elis Virgílio para o Disco Nexo.

Obrigado, meninas! Agora vocês já sabem que a MPB veio para romper com as ideias de uma geração anterior. Mas e depois? O que aconteceu? Como sempre, a inovação causa susto. E a música popular brasileira reagiu com espanto à modernidade. Mas como diria nosso poeta Chico Saenz... Modernizar o passado é uma evolução musical. Cadê as notas que estavam aqui? Não preciso delas, basta deixar tudo soando bem aos ouvidos.

Enquanto o Brasil se redescobria no tropicalismo, uma novidade chegou de surpresa. Eram as guitarras elétricas. Uma novidade importada por grandes nomes como os Beatles, que causou muitas discussões. A comoção foi tanta que, em julho de 1967, uma marcha liderada por Elis Regina e outros artistas saiu em São Paulo para protestar contra um instrumento. Muitos eram contra misturar nossos ritmos tão brasileiros com um instrumento tão... americanizado?

Então era engraçado porque na época se dizia que a MPB era a música brasileira e a Jovem Guarda era a música jovem. E a gente se perguntava, meu Deus do céu, por que não pode haver uma música jovem e brasileira ao mesmo tempo? Mesmo com a marcha, o uso da guitarra elétrica foi inevitável e continua sendo usado nos mais diversos gêneros musicais. Muitos do agora clássicos foram experimentações desse instrumento.

Mas o seu uso só foi normalizado pelo fim da ditadura militar, com o Brasil em reconstrução, mas com esperança de tempos melhores. Isso descreve muito bem o que foi a MPB dali em diante. Eram tempos bons para explorar ritmos e nos misturar com o resto do mundo. As letras já não precisavam de uma preocupação ideológica e a inovação tecnológica deixaram o P do MPB mais pop mesmo. Ainda tem muita voz e violão, é claro. Mas agora tudo isso pode flertar com o folk, como faz o Dua na Vitória.

Ou misturar a carnavalesca guitarra baiana com o rock eletrônico igual o grupo Baiana System. Quer um exemplo melhor? Agora, as repórteres Dora Bringuente e Lilian Carlotto falam mais sobre a cantora baiana Melly, expoente da nova MPB que mescla ritmos nordestinos com o R&B americano.

A nova MPB é a renovação de um estilo já conhecido e difundido pelo Brasil. Essa nova onda chega trazendo novas caras, ritmos e estilos para a música popular brasileira. A música popular se renova junto com a alegria de se tornar um país cada vez mais popular, pela vontade de trazer uma nova geração de artistas que sigam dando vals à nossa cultura. Essa nova forma de fazer música mistura elementos do indie, do pop e da eletrônica.

transparecendo a cara da nova geração, mas independente e influenciada pelas redes sociais. Se nossos pais embalavam suas noites de sexta-feira ao som de nomes como Gal Costa, Chico Buarque e Jorge Versilho, nós nos conectamos com Marina Sena, Lineker e, é claro, Meli.

Dona de hits como Azul, Peixin, Cacau, a baiana Meli venceu na categoria de Artista Revelação do Prêmio Multishow em 2023 e se consagrou como uma das artistas brasileiras mais influentes do país. Meli iniciou sua carreira com 16 anos e consolidou sua carreira ao participar de festivais como Afrofunk.

A cantora foi indicada na categoria Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa, no Grammy Latino de 2024. Meli é conhecida pelo estilo único que mescla R&B e Soul brasileiro. Meli encerrou sua turnê nacional do seu álbum Amarríssima com apresentação na Maratona Cultural de Florianópolis, no dia 21 de março, no palco do Largo da Alfândega. O álbum possui participação especial de Lineker, vencedora do Grammy Latino. Eu sou Lilian Carlotto e autória bringuente para o Disco Nexo.

Obrigada, Dori Lillian. Ah, mas imagina só. Um jovem apaixonado por escrever músicas e tocar violão se muda do interior para a capital. Lá, ele encontra outros jovens também apaixonados por música e juntos criam um som único que muda a história da música.

Parece roteiro de filme, mas é o que aconteceu numa esquina de Belo Horizonte no início dos anos 60. Milton já trabalhava como músico quando fez amizade com os irmãos Márcio, Marilton e Lô Borges. Com o costume de tocar na calçada, vieram outros músicos, como Beto Guedes, Toninho Horta e Fernando Branche. E assim é formado o Clube da Esquina, um movimento mineiro que vai além da banda.

Lançado em 1972, o álbum Clube da Esquina revolucionou a música brasileira, misturando a MPB com rock progressivo, folk, pop, jazz, música erudita e mais. Hoje temos aqui no Clube do Disco, Vitória Cruz e Luísa Cardoso para conversar sobre esse álbum especial. Oi, gente! Então, gente, a gente tá aqui pra falar do álbum Clube da Esquina, um álbum muito importante. Acho que pra começar, nada melhor do que saber qual a música favorita de cada uma de vocês e por quê.

Eu sou a Victoria Cruz e eu acho que a minha música favorita, eu gosto de várias, mas minha música favorita é Paisagem da Janela, porque eu acho que ela me traz uma sensação de nostalgia e me lembra quando eu escutava no carro com os meus pais, voltando da praia principalmente.

Bem, eu gosto de vários, é difícil, é um álbum muito bom, mas eu vou destacar aqui que acho que com a melhor letra é tudo que você podia ser, só que já que eu não gosto muito de soul, a música acabou não me pegando, eu gosto muito de cais, porque...

Me lembra a música que eu escutaria num filme Me Muda, assim. É muito dramático, eu gosto muito do final também. Só que minha favorita mesmo é o Trem Azul, que é muito fofa. Ela me dá um sentimento muito bom, me lembra o que eu sinto quando eu tô olhando pela janela do carro, pensando, nossa, que linda a vida. E me lembra também o que a gente escuta num MPB moderno, né? Me lembra muito.

Sim. Pra mim, até, enfim, sendo super óbvio, mas desde a primeira vez que eu escutei um girassol da cor dos seus cabelos, eu não costumava escutar quando eu era criança esse álbum, meus pais não escutavam. Mas depois de adulto e de ter escutado, é uma sensação, tipo, meu Deus, como eles fizeram isso, né? É uma música com uma letra muito, muito simples. É uma letra simples, mas ela funciona muito bem. E quando tem aquela quebra por orquestral, é uma coisa que fica tatuada na mente pra sempre, pelo menos pra mim.

Ai, esse álbum, ele é um xodó meu, assim. Eu ainda não tenho uma coleção de disco, mas ele tá no meu coração. Que assim que eu tiver, ele vai ser um dos primeiros que eu vou adquirir. Mas a minha preferida ainda é o Trend Doido. Porque eu sou uma pessoa que eu gosto muito de ver as curiosidades das histórias por trás da música, né? E Trend Doido, ele também carrega muito da história de Minas. Eu gosto muito de Minas Gerais, assim.

Queria trocar minha essência de São Paulo pra Minas, às vezes. Eu gosto de me fingir lá, me imaginar. Mas o álbum inteiro, assim, pra mim é muito difícil escolher uma. Porque elas são tão diferentes, né? E muito boas, todas elas. Sim.

Queria fazer também uma ressalva aqui à San Vicente, que eu acho uma música incrível. E tem aquele detalhe das palmas no instrumental, que eu acho genial também. Mas enfim, continuando, gente. Como que vocês enxergam as influências que tem dentro do álbum, né? Do que tava tocando naquela época, né? E como é que elas funcionam ali dentro? Porque foi um álbum bem revolucionário por essa questão mesmo, né? Juntar tanta coisa num álbum brasileiro. Então como que vocês enxergam isso?

Eu acho que as influências mostram um pouco da liberdade que eles tinham para construir o álbum. E ele ficou, como foi uma mistura de vários estilos musicais, o álbum fica uma coisa mais simples, mas bem autoral e bem feita. Então, eu acho que dá uma sonoridade legal, ainda mais que cada música, geralmente eles usam uma combinação diferente dos estilos. Então, tem música que vai ter música erudita com rock, ou mais MPB com rock. Eu acho que fica bacana. Concordo.

Então, eu concordo muito com a Vitória. O que mais... O que acho que relaciona isso é a parceria mesmo do Lou Borges com o Milton Nascimento, que ele traz esse negócio do Beatles, que dá guitarra elétrica mesmo, com essa música mais clássica do Milton. E isso é muito legal porque eles são duas influências tão distintas, mas eles conseguem unir a instrumentalidade dos dois e criar esse álbum revolucionário, que até hoje influencia tanta música.

nacional quanto internacional. Eu acho que o álbum, assim, ele mostra muito bem. Igual quando você ouve o Tropicália pela primeira vez, e você vê que o Tropicália realmente foi uma coisa de doido, assim, que é diferente daquilo ali. Você ouve esse álbum, você sabe que ele mudou as coisas quando estava lá. E que ele foi feito por muita gente, né? Quando o Beto Guedes está envolvido, quando ele está envolvido, você sabe quem está lá, basicamente. Quando é uma mais do Milton, mais do Loh. E eu acho que tudo nele... E aí

Do sonoro, encapsula bem o nome ser clube da Skinny. Tipo, você percebe que realmente esse pessoal tocava junto, resolveu fazer essa parada ali, que deu muito certo. Mas as minhas partes preferidas são, realmente... Eu gosto muito do uso da guitarra elétrica, eu gosto muito dos sons graves. Essa parte das palmas também. Mas eu gosto muito das pontes das músicas também. Principalmente da do girassol, da cor do cabelo. Quando vem aquele final, realmente pega bastante.

Sim, eu gosto, óbvio, de toda a referência aos Beatles ali dentro. E ainda me pega bastante como que eles conseguiram fazer isso. Porque, enfim, eles não tinham um referencial de alguém que tinha misturado essas coisas antes deles. Então, eles pegam e eles misturam tudo daquele jeito, né? De uma forma muito, realmente, dá pra ver o trabalho coletivo ali. Que essa é um tipo de arte que ela não é individual, é uma arte muito coletiva que eles fizeram. Onde tudo passava ali por muitas mãos.

Pra ter esse produto final gigantesco, né? E arrisco dizer que ele ainda é um pouquinho, assim, mais divertido e mais bem explorado do que o Tropicália. Que muito quando a gente vai falar das misturas, a gente fala do Tropicália. Mas a gente esquece dessa belíssima pérola aqui. E é um álbum muito pop, né? Tipo...

escutando hoje em dia, ele soa muito, muito, muito pop, muito atual ainda. E, claro, falando, a gente não pode falar do Clube da Esquina sem passar pela capa do álbum, né? Essa capa que foi feita pelo fotógrafo Carlos da Silva Assunção Filho, o Cafi, né? E de um momento super tranquilo, tava ali no carro, viu dois meninos na beira de uma estrada, resolveu tirar a foto, né? Esses meninos que são o Cacau e o Tonho.

E a gente queria saber de vocês como que vocês enxergam essa capa, qual sensação ela passa e como que vocês relacionam ela aos temas dentro do álbum.

Então, a Capo, eu acho que ela reflete muito bem o álbum, tanto que ele surge dessa união entre o Lou e o Milton, né? Então, tanto que tem muita gente que acha que os dois meninos são eles pequenos, mas não, não é. Mas, então, remete muito a eles e eu gosto que ele é simples, porque o álbum, ele revolucionou, mas de verdade ele tem uma sonoridade limpa, gostosa de se ouvir, não é um negócio que, ai, nossa, vou fazer um álbum aqui muito refinado. Não, é uma música popular.

E é isso. Também tem um detalhe da capa, que no cantinho tem tipo um fio de arame, assim, que o fotógrafo falou que é como se fosse uma representação da ditadura, né? E eu gosto disso que remete até ao tempo que foi feito o álbum. Com certeza. Sim.

E, enfim, eu vejo essa capa como um exemplo do primeiro do coletivo ali, que são duas crianças, dois amigos. Enfim, talvez seja a forma como eles se enxergavam ali, né? Enquanto eles estavam juntos criando. E também que aquela capa é realmente... Parece que todo mundo, pelo menos todo brasileiro, já viu aquela cena. Já viu aqueles dois meninos na beira de uma estrada que estavam ali juntos. Então é quase uma memória coletiva, assim, de todo mundo.

Sim, eu acho que a capa traz um pouco mais da sensação de simplicidade para o álbum. E da juventude também, não que você se reconheça, mas como o Nico disse, é uma cena bem... Que a gente consegue ver, você consegue imaginar ver duas crianças numa esquina.

E eu gosto que ela tenha uma pequena dualidade, né? Você vê o rosto de um dos meninos bem sério, assim, encanhando a câmera, e o outro muito feliz com o seu pãozinho na mãozinha dele. Eu acho que também isso traz muito do que, como a Luiza falou, que o pessoal achava que era o Milton e o Loborges, por mais que não fossem, mas reflete das personalidades deles quando você vê.

E vendo um pouquinho dos trabalhos do Lô, depois que tem... Ai, me fugiu o nome do disco, mas que tem a capa do tênis, que ele tirou foto em protesto, que ele não queria aparecer, e era o tênis que eles davam pra todo lado. A Clary também traz muito do que você sente, né? É uma parceria, uma amizade. E eu também acho muito engraçado a história que o pessoal, os dois da foto só foram se reconhecer ali 40 anos depois.

Porque começaram a ligar de telefone em telefone, bater de porta em porta, até achar eles ali, eles não tinham noção que eles estavam nessa capa, que é conceituadíssima no mundo inteiro. E ainda quiseram processar o Milton Lombardi. Mas pra quem não tá sabendo aí, ouvinte, fica essa. Eles processaram o Loh e o Milton, só que eles processaram a pessoa errada, porque deviam ter ido atrás do fotógrafo, então eles perderam essa causa.

É verdade. E, enfim, continuando... É, meninas, a gente queria saber como vocês veem a influência desse álbum na música atual.

É, acho que ele, dessa questão de que ele revolucionou um pouco a sonoridade do MPB moderno, ele faz esse negócio que é unir estilos que já existiam para algo novo. Eu acho que é assim que a gente cria algum som novo, qualquer coisa nova, a gente tem que pegar os clássicos, o que já existe, fazer essa união.

Então, até hoje, né? Quando ele lançou, ele não foi muito reconhecido, era só mais um álbum que tinha lançado, mas depois de um tempo, começaram a observar, e ele saiu, foi até pro cenário internacional, influenciou, teve influências lá na Europa, nos Estados Unidos, dizem que pegou um pouco da Bjork, pegou um pouco. Nossa, a Bjork virou a melhor amiga do meu conhecimento.

Eu vejo nesse álbum muito do que a gente. Primeiro, eu acho que Um Girasol da Cor dos Seus Cabelos, a primeira parte, antes da quebra melódica ali, é como toda banda alternativa indie quer suar. Até hoje, sabe? É o sonho dessas bandas até hoje, suar daquele jeito. E também vejo ali no jeito como o Milton canta várias vezes ali, que ele solta notas bem altas no final das músicas, junto com a melodia. Uma coisa que até hoje, por exemplo, a Marina Sena.

antes dela, uma Vanessa da Mata, que as pessoas continuaram fazendo muito, do mesmo jeito.

Eu ia falar bem isso, que o que vem mais na minha cabeça agora é o Coisas Naturais, né? Porque pelo que eu sinto, que eu vejo, é um álbum que saiu agora, agora sim, um ano, mas que ainda é bem comentado, que você vê essa mesma coisa da palma, essa mesma coisa do grito. E o Milton, ele traz um vocal muito diferente também do que a gente ouvia, né? A mesma coisa que, pra mim, o Neymato Grosso fez e que muita gente tenta fazer. Ao mesmo tempo que você falou das bandas índias, os cantores, principalmente os masculinos, adoram tentar alcançar.

Aquele tom de voz diferente. Já me lembra o filho do Caetano, trazendo lá do Todo Homem Precisa de Uma Mãe, que ele canta bem agudo, bem fino, já traz essa coisa. Mas a parte da composição também das letras, dessa coisa simples e querer soar poética, porque...

Você observa muito que a galera, às vezes, quer dessa desconstruída, quer sonhar, às vezes, aquele negócio meio mar, maremoto, mar morto. Eu acho que alguém que tem uma dessa de fazer construções mais poéticas é o Tim Bernardo.

Eu acho que os álbuns dele têm uma pegada meio clube da esquina e mais experimental. Concordo muito com o que a Ana falou da voz. Eu até anotei aqui qual música, em Nuvem Cigana. Que a voz do Milton soa super andrógina. É aquela coisa que o Neymato Grosso fez, que é esse soar sem gênero. Eu acho isso incrível também.

E muitos desses que eles traziam vinham da música asiática também. Não é desse mesmo álbum, mas o Milton depois ele canta no álbum dele, se não me engano, é o Gerais, que tem o Ponta de Areia. Ele vem com uma sonoridade no começo que é... Nossa, é muito música japonesa quando você pega os clássicos, assim. Tudo. Enfim, gente, muito obrigado pela participação, tá? Obrigada, meninas. Que esse seja o primeiro de muitos debates aqui no Desconexo.

E para fechar o nosso primeiro programa, não poderíamos deixar de fora vocês, apaixonados por música como nós. Muito obrigada! Nos vemos no próximo episódio para debater e conhecer novas sintonias. Mas enquanto isso, acompanhe a gente no Instagram, arroba Programa Desconexo. Um beijo e até breve! Tchau, tchau! Tchau!

Esse programa foi produzido por estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, no primeiro semestre de 2026. Apresentação e roteiro por Nico Vieira e Ana Gueiros. Sonoras de Nelson Mota e Chico Science retirada dos perfis Sérgio Massagli e Eterno Chico Science no YouTube.

Boletins por Dora Bringuente, Lilian Carlotto, Manuela Melo, Elis Virgílio e Paula de Milano. Mesa com Luísa Cardoso e Victoria Cruz. Trilha, Arte e Redes por Luísa Cardoso e Ana Gueiros. Coordenação de Nico Vieira e Ana Gueiros. Técnica por Peter Lobo. Orientação da professora Valciso Culotto. Rádio.ufsk. É música. É popular. É brasileira. É rádio. E ponto.

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