Episódios de Escafandro

164: A redoma de Cristo

08 de julho de 20261h7min
0:00 / 1:07:39

Até que ponto os evangélicos vivem separados do restante do mundo? Como essa separação afeta o posicionamento político dessas pessoas? Por que as lideranças pentecostais estão cada vez mais próximas do espectro politico de direita?

Como essa guinada conservadora se reflete nos fieis? E como os frequentadores dessas igrejas que não se identificam com este caminho ideológico enfrentam esse movimento?

Ouça a resposta para essas e outras perguntas no nosso episódio 164: A redoma de Cristo.

Mergulhe mais fundo

Discípulos: a investida evangélica no esporte (link para o podcast)

Episódios relacionados

143: Sob a sombra de Israel

154: Hoje é dia de gospel, bebê

Entrevistada do episódio

Carô Evangelista

Cientista social, mestra em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER).

Ficha técnica

Design das capas dos aplicativos e do site: Cláudia Furnari.

Trilha sonora tema: Paulo Gama.

Mixagem de som: Vitor Coroa.

Produção, reportagem e edição de áudio: Matheus Marcolino.

Direção, roteiro e apresentação: Tomás Chiaverini.

Participantes neste episódio8
M

Matheus Marcolino

HostProdutor
T

Tomás Chiaverini

Hostjornalista
C

Carô Evangelista

ConvidadoCientista social
F

Fiamma

Convidado
J

Jonas

ConvidadoPastor
J

José Luiz Barbosa

ConvidadoPresidente do movimento Igreja Sem Política
L

Lúcia Helena Marcolino Lamberti

ConvidadoMãe do Matheus
R

Ruth Tobiaso Silveira

Convidado
Assuntos6
  • Evangélicos e PolíticaHistórico de participação política · Bordão 'irmão vota em irmão' · Influência no Congresso Nacional
  • Moda EvangélicaSeparação do mundo secular · Consumo de mídia e cultura · Visão de mundo cristã
  • Religiões PolíticasApoio a Lula em 2002 · Reação às pautas de costumes · Polarização política · Plano Nacional de Direitos Humanos 3
  • Igreja como famíliaConversão e milagres · Lúcia Helena Marcolino Lamberti · Matheus Marcolino
  • Marcha para Jesus em São Paulo e Rio de JaneiroConcentração e percurso · Comercialização do evento · Bandeiras de Israel e EUA · Presença de políticos
  • O Crente e a IgrejaRigidez doutrinária · Julgamento e exclusão · Congregação Cristã no Brasil · Igreja Presbiteriana
Transcrição245 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
CECarô Evangelista

Oi, Rádio Guarda-Chuva, jornalismo para quem gosta de ouvir.

?Voz B

Bom, é por onde começamos, Mateus?

MMMatheus Marcolino

Eu acho que para chegar na Marcha para Jesus, primeiro eu tenho que contar um pouco da minha experiência enquanto fiel de igreja evangélica.

?Voz B

Esse é o nosso produtor Mateus Marcolino, e o Mateus é um cara irritantemente jovem.

MMMatheus Marcolino

Eu nasci no começo do milênio, né?

?Voz B

Nesse período, o Brasil já tava vivendo um processo intenso de revolução religiosa que tinha começado nos anos 1970. O número de católicos, que sempre tinham sido hegemônicos, tava caindo, e o número de evangélicos tava subindo rápido.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Eu saí do mapa em 96, em 90, final de 96 eu me converti.

?Voz B

Essa é a Lúcia Helena Marcolino Lamberti. Mãe do Mateus. E o Mappin, para você que também é irritantemente jovem, era uma grande loja de departamentos que, como costuma acontecer com grandes lojas de departamentos, faliu em 1999.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Parece que tudo vai formando de uma bola, né, uma bola de neve. Quando você tem problema financeiro, aí você fica com problema emocional, porque você fica sem dinheiro, aí acaba refletindo nas áreas pessoais, no casamento e tudo. Então a gente tava mais ou menos nessa fase aí. E aí tinha uma menina que ela morava próximo de mim, que era uma minha vizinha, e ela era um amor de pessoa.

MMMatheus Marcolino

Qual era o nome dela?

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Você lembra? Lembro, ela chamava— eu tenho foto dela.

?Voz E

Ah, é?

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Tenho. Ela chama, acho que, Edilene.

?Voz B

A Edilene contou para Lúcia que era cristã evangélica, e isso desbloqueou uma memória de adolescência da mãe do Mateus.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Fui uma vez numa visita na Assembleia de Deus, mas eu achei muito estranho aquele culto assim, as pessoas gritando, falando em línguas, gritando pastor e tal. E eu contando para ela que eu não tinha gostado daquilo, que eu achava muito estranho aquilo. E no final ainda eles nos constrangeram para a gente aceitar Jesus. A gente não sabia nem o que que era aceitar Jesus.

MMMatheus Marcolino

Tipo, aceitar como, né?

?Voz E

Exatamente.

MMMatheus Marcolino

Quer aceitar Jesus?

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Claro, né?

?Voz E

Você acha que eu não vou aceitar Jesus?

RTRuth Tobiaso Silveira

Eu quero.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Então, quando disseram assim, disseram.

?Voz B

Mas aí, muito tempo depois, a Edilene chamou a mãe do Mateus para visitar a Igreja do Evangelho Quadrangular na Penha, em São Paulo.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Era uma outra coisa. Diferente da igreja assembleia, que era aquela doideira toda, aquela gritaria. E o grupo que era de louvor era igual o da Renascer, eles cantavam muito, muito. E o mais interessante, as batidas era meio rock and roll, porque eles cantavam muito Resgate, eles cantavam Cat's Barnet.

MMMatheus Marcolino

E aí você gostou?

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Gostei.

MMMatheus Marcolino

E aí você resolveu ficar lá?

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Isso. Aí o mais interessante, a coisa mais estranha que aconteceu foi que eu sempre fumei.

?Voz B

A Lúcia fumava muito, tinha um estoque de Marlboro e eu gostava de Marlboro. E aí naquele dia ela voltou da igreja animada com culto, conversou um pouco com o marido e foi dormir.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

No outro dia, quando fuma, a gente Primeira coisa que você faz, toma um café, quer fumar. Tomei o café, vou acender o cigarro, esqueci o cigarro. À noite, depois do almoço, eu fui percebendo que eu não tinha esquecido do cigarro, cara. Aí eu falei, estranho, né? Mas até então não tinha percebido. Eu fui perceber que já tinha uns 3 dias que eu não sentia vontade de fumar, e o pai fumando perto de mim. E eu desistia quando ele tava fumando.

Eu falava, vou acender o cigarro, mas sempre aparecia alguma coisa para fazer, o telefone tocava, eu tinha que comprar pão. E aí parei do nada, eu não senti mais vontade, cara. Depois desse dia eu nunca mais fumei.

MMMatheus Marcolino

Foi tipo você Entrou na igreja a primeira vez no sábado e no mesmo dia você nunca mais fumou.

?Voz B

A partir daquele dia, a Lúcia acabou se tornando evangélica depois desse pequeno milagre pessoal. O pai do Mateus também se converteu mais ou menos um ano depois, e os avós do Mateus e os 7 tios pelo lado materno também se converteram. E aí teve um segundo acontecimento que pra família figurou como um segundo milagre.

MMMatheus Marcolino

Tecnicamente, eu não deveria ter nascido. Não porque meus pais não me queriam, mas porque eles não conseguiam.

?Voz B

Os pais do Mateus tinham passado mais de 10 anos tentando engravidar sem sucesso. Depois de uma bateria de exames, eles acabaram constatando que o pai dele era quase infértil. A alternativa seria uma fertilização intracitoplasmática, que é quando o espermatozoide é inserido diretamente no óvulo maduro. O procedimento ia custar cerca de R$5.000 e a mãe do Mateus pegou dinheiro emprestado para pagar por ele.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Mas aí, quando chegava no Dia das Mães, eles faziam um culto especial para as mães. Sim, eu ficava muito emocionada, né, nesses dias. E aí teve um culto das mães. Quando ela me deu o presente, eu comecei a chorar. Aí, por que você tá chorando? Aí eu contei, ah, porque, nossa, faz tantos anos eu tô fazendo um monte de tratamento e não tenho filhos. Ah, Lúcia, mas você não acredita que Deus pode abrir sua madre? É claro, claro. Então vamos fazer uma, vamos orar. Deus é bom. Amém.

?Voz B

A Lúcia orou para Deus, mas já tava se preparando para apelar para a ciência. Tudo pronto para fertilização in vitro, só que para isso acontecer, o ciclo menstrual dela tinha de acontecer e ele não acontecia.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

A minha tabelinha que eu fazia, a tabelinha, então tipo dia 21 para descer, vai. E era mais ou menos no dia 18, por aí. Aí esperei até o dia 21, não desceu. Dia 22 também não desceu. Dia 23, 24, 25. Aí eu fiquei, puxa, agora que eu precisava aqui resolver esse negócio, vamos resolver. Como é que faz? Aí contei para a irmã.

?Voz B

A irmã ouviu aquilo e não teve dúvida.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Você já tá grávida? Não, imagina. Eu acho que é porque eu sou um pouco nervosa, porque eu tô querendo que desce, não desce. Aí de repente apareceu uma outra irmãzinha. Aí ela falou assim, ah, ele deve nascer mais ou menos entre dezembro e janeiro, começo de janeiro, pode contar. Falei, mãe, mas não faça isso. Pode contar. Ela falou desse jeito, Matheus.

?Voz B

A Lúcia, claro, seguiu com a vida e com a ideia da fertilização, mas depois de uns 15 dias resolveu fazer uma ultrassom para ver por que a menstruação não tava descendo.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

No dia do ultrassom, a médica. Ah, vocês estão aqui? Então é que minha esposa, sabe, a gente tá fazendo tratamento lá na Santa Casa e a gente vai fazer fertilização in vitro e tal, né? Ah, entendi. Ah, tá. Adeita aí. Aí deitou. Ah, pegou, viu? Pegou o quê? Já, já pegou? Não, como assim pegou? Ali, olha ali o coraçãozinho já batendo. Aí, doutor, a gente não fez. Ah, você não fez, mas alguém fez. Já tá tudo aqui, ó. Olha aqui o coraçãozinho dele, tá tudo bem. Ó, tá mostrando, mano, mas você me deu lá assim.

MMMatheus Marcolino

Você acha que foi um milagre?

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Eu acho não, eu creio que milagres acontecem, eu creio, porque há muita coisa, né, que a gente não consegue compreender, muita coisa. E aí depois, mais interessante, é que depois que você nasceu, 11 meses depois, vem a Pri também, como se Deus Realmente abrisse uma madre assim, sabe? Abrisse as portas, né, Dô?

?Voz B

Depois de tudo isso, a família do Mateus abraçou o pentecostalismo de vez. Ele me contou que passou os primeiros 15 anos de vida enfurnado na igreja.

MMMatheus Marcolino

Então participei de todas as etapas, eu fiz escola para jovens, eu cantava na igreja, eu tocava instrumento na da igreja, participava ativamente. A gente ia em cultos de domingo de manhã, domingo à noite, terça à tarde, quarta à noite, sexta à noite, sábado à noite. A gente vivia dentro da igreja, a gente ajudava a limpar a igreja, a gente ensaiava antes de ter o culto, a gente vivia em torno da igreja.

?Voz B

Eles viviam em torno da igreja, numa bolha, uma redoma evangélica.

MMMatheus Marcolino

A gente não escutava músicas que não tivessem relação com a igreja. Então a gente vivia numa bolha, a gente vivia afastado do resto do mundo. Você tem que negar o mundo, você tem que negar tudo e seguir a Jesus. E se negar tudo envolve você parar de consumir coisas que não tenham relação com a sua fé, você vai fazer isso. Porque é isso que tá escrito na Bíblia.

?Voz B

Hoje você ainda se considera evangélico?

MMMatheus Marcolino

Eu me considero evangélico, cara, mas é que eu não— é uma coisa que mudou muito, porque eu acho que a palavra evangélico eu já não gosto mais, porque o evangélico associa uma outra coisa, saca? Mas eu não vou na igreja, e isso é o que os evangélicos chamam de desviado, né?

?Voz B

Não, fora que você também trabalha praticamente pro diabo, né, Matheus? Pra esse podcast igrejista comunista completamente É, tem meio isso também, cara. Hoje o Mateus não frequenta mais a igreja e a família do Mateus também não frequenta mais a igreja. E não, isso não tem nada a ver com o nosso podcast pagão.

?Voz G

Se eu batizar ali o Lula, batizaria, mal deixava uns 30 segundos ali debaixo da água.

?Voz B

Esse escolhido de Deus O nosso presidente, nós já nos convertemos em Jesus, nós não temos que nos converter ao Bolsonaro. Tem a ver com a política. Religião e política não se misturam.

?Voz E

Eu sou Tomás Chiaverini.

?Voz B

E o episódio 164 de Escafandro já começou. Nele, a gente vai tentar entender como funciona a redoma cristã em que vivem boa parte dos evangélicos e como essa redoma influencia nas decisões políticas dessas pessoas. Antes, eu preciso te lembrar que a Rádio Escafandro é orgulhosamente mantida por uma parte dos ouvintes que apoiam o projeto financeiramente. Isso é feito por meio de um financiamento coletivo e quem participa dele tem uma série de mimos.

Pode ouvir os episódios um dia antes, pode ter o nome citado aqui, pode entrar na fila para gravar o encerramento de um programa e, a depender da contribuição, tem direito a uma caneca com o logotipo da Rádio Escafandro. Então, se você gosta do podcast, se quer ver ele ficar cada vez melhor, vem se juntar ao nosso financiamento coletivo. A melhor forma de fazer isso, mais simples e direta, é pelo Pix recorrente. Você pode copiar a chave Pix no nosso site, no nosso Instagram, ou usar direto o email apoie @radioescafandro.com.

Se você quiser apoiar de outra forma, pelo Orelo, pelo PayPal ou pelo Catarse, é só ir lá no nosso site radioescafandro.com, clicar em apoie que tem tudo explicadinho. No mais, se você já tá entre as pessoas luminosas que mantêm o podcast há mais de 7 anos, gente como a Yara Fleury Vander Molen, a Silvia Regina Azul Esteves, o Marcelo Costa de Oliveira, E a Glenda Ferrino, muito obrigado, mas muito obrigado mesmo por isso. O Matheus me contou que em algum momento do começo desse século a política partidária se tornou tão intensa dentro das igrejas que eles frequentavam que a família dele simplesmente se afastou daquele ambiente.

E tem uma coisa curiosa nesse afastamento. Porque a família do Matheus não era exatamente politizada.

MMMatheus Marcolino

Tipo assim, a minha família votou, sei lá, no Lula. Mas votar no Lula não significa ser de esquerda, certo?

?Voz B

Não, de forma alguma. Mas você acha que vocês se politizaram porque vocês viram a política na igreja?

MMMatheus Marcolino

Eu acho que a gente se politizou porque a partir do momento que aconteceu essa desilusão com a igreja, abriu um pouco a mente. Para outras coisas.

?Voz B

Eles saíram da redoma e se politizaram. Com o tempo, o Matheus começou a se interessar por essa relação entre evangélicos e a política, e ele inclusive fez um podcast que fala bastante sobre isso, o Discípulos.

MMMatheus Marcolino

E eu senti que eu precisava ir até a marcha para sentir um pouco da energia geral do evento, assim, entender o que que os evangélicos de hoje pensam diferente dos evangélicos de ontem, né? Porque eu sou um evangélico de ontem, não entro numa igreja há muito tempo, né?

?Voz B

Antes de a gente mergulhar com o Mateus nos evangélicos de hoje, a gente precisa entender um pouquinho melhor os evangélicos de ontem.

CECarô Evangelista

O Brasil não se torna evangélico em 2018, o Brasil já vinha sendo o Brasil mais evangélico desde os anos 90. E eu fui entender isso depois, como pesquisadora, como analista.

?Voz B

Essa é a cientista social, mestre em gestão e políticas públicas e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião, Wise, Ana Carolina Evangelista, mais conhecida como Carô Evangelista.

CECarô Evangelista

Até então existia o bordão de que crente não se mete em política, isso é coisa do mundo, não é do nosso campo religioso, nosso campo de fé.

?Voz B

Isso começou a mudar com a Assembleia Constituinte de 1988, que teria uma forte participação da Igreja Católica. De olho nessa possibilidade de influenciar um documento que iria ditar o rumo do país por tempo indeterminado, Os evangélicos se chacoalharam e lançaram vários candidatos ao Congresso que formataria a nova Constituição.

CECarô Evangelista

Começa a ser trabalhado a partir da Constituinte e mais fortemente nos anos 90 o bordão irmão vota em irmão.

?Voz B

O bordão deu resultado. Hoje, mais de 100 deputados federais se dizem evangélicos.

MMMatheus Marcolino

Eu posso começar a contar da marcha, da cobertura da marcha especificamente?

?Voz B

Manda bala. No dia 4 de junho de 2026, às 6 horas da matina, no dia de Corpus Christi, então foi num feriado, numa quinta-feira, o Matheus Marcolino deixou o conforto do lar rumo a uma longa aventura jornalística.

MMMatheus Marcolino

Eu fui até a Estação da Luz, que era onde seria a concentração da marcha pra caminhada, né? Eles saem da Praça da Luz e vão até a Praça Heróis da FEB, que fica ali perto do Campo de Marte, fica no Campo de Marte, né?

?Voz B

Mateus chegou nessa praça por volta das 8 da manhã.

MMMatheus Marcolino

Passei uns 10 minutos caminhando, olhando pra todas as pessoas, pra ver quem que tava lá, pra ver qual o perfil mesmo de quem tava lá. A coisa que mais me chamou atenção quando eu desci do trem e saí da Estação da Luz foi o tanto de gente vendendo coisa. É um evento muito comercial, muito comercial. Tinha venda de tudo ali. Venda de bandeira, de boné, de camiseta, enfim. Tudo que dava pra vender tava sendo vendido ali. E as bandeiras chamam muita atenção. Inclusive eu tirei algumas fotos e tal.

?Voz B

A gente postou algumas dessas fotos no nosso Instagram, que é @radioescafandro.

MMMatheus Marcolino

Bandeiras de Israel, muitas bandeiras de Israel. Bandeiras dos Estados Unidos, bandeiras de Israel, metade Israel, metade Estados Unidos, metade Brasil, metade Israel, metade Brasil, metade Estados Unidos. E tinha uma que era um terço Brasil, um terço Israel, um terço Estados Unidos.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Sensacional!

?Voz B

E aí, depois desse primeiro reconhecimento, bora trabalhar, Matheus Marcolino.

RTRuth Tobiaso Silveira

O meu nome é Ruth Tobiaso Silveira, eu sou de São Paulo.

?Voz B

A Ruth Silveira tava com o marido, era a primeira vez deles na marcha.

RTRuth Tobiaso Silveira

A gente viemos aqui para adorar a Deus, né, para estar mais junto dos outros, porque aqui tem, são várias igrejas, né.

MMMatheus Marcolino

Eles não são da Renascer, inclusive todas as pessoas que conversaram comigo não eram da Renascer, o que prova que esse é um evento evangélico, ele não é um evento da Renascer. E vocês congregam em que igreja?

RTRuth Tobiaso Silveira

Olha, antigamente a gente era da Congregação Cristã no Brasil, só que a Congregação Cristã no Brasil eles não se misturam, né, com as outras religiões. A gente não achou isso certo, aí a gente saímos e fomos para uma comunidade assim, né, uma igreja presbiteriana.

?Voz E

Presbiteriana.

MMMatheus Marcolino

O que que mudou quando vocês saíram da congregação e foram para uma outra igreja? O que que vocês estavam buscando com essa mudança?

RTRuth Tobiaso Silveira

Tem muito assim tabu lá, muito tabu, doutrina também, né? A doutrina é bem rígida. O que me entristecia era assim, se tinha fornicação era pecado de morte, a pessoa não tinha perdão. No meu caso, conheci ele, tinha 18 anos, então a gente entramos em fornicação.

?Voz B

Quer dizer, a Ruth e o marido não escolheram mudar de igreja, eles foram obrigados a fazer isso depois de entrar em fornicação.

RTRuth Tobiaso Silveira

Eu já fui banida da igreja, então é como se eu não— na cabeça deles é que não tem perdão, é pecado de morte, não tem perdão. Então aí eu falei, o que vou ficar fazendo aqui? Se Deus não me perdoa, eu vou buscar Deus em outro ministério. E aí a gente encontrou, e eu vi que não é nada disso. Depois a gente, depois de 8 meses, a gente casamos, tivemos 4 filhos e estamos juntos já tem 31 anos.

MMMatheus Marcolino

Tem todo o julgamento ali de, ah, pessoa entrou em fornicação dentro da igreja, então ela entrou em pecado dentro da igreja, o que significa que ela pode estar endemoniada, por exemplo, pode ter um demônio dentro dela que levou ela a fazer algo que a lei reprova, né? A lei bíblica reprova.

RTRuth Tobiaso Silveira

Porque antigamente eles falavam que era uma seita as outras igrejas, para segurar a multidão, né, segurar as irmãs para não ir para outra igreja. Se você for para outra igreja, você tá indo para uma seita. Então eu tenho visto que seitas são eles, porque eles não aceitam, eles não aceitam as outras igrejas.

?Voz B

E aí a Ruth mudou de igreja, mas continuou dentro da Redoma.

RTRuth Tobiaso Silveira

Música secular nós já não gosta, nunca gostamos, né. Assistir uma novela em casa, eu não sei, eu me sinto um pouco afastada, eu fico fria espiritualmente, eu me sinto assim.

MMMatheus Marcolino

E aí quando você se sente assim fria espiritualmente, o que que você resolve fazer? Como que você resolve isso?

RTRuth Tobiaso Silveira

Deito no meu quarto, dobro meu joelho e peço para Deus assim, me perdoa, faço um jejum e aí eu volto de novo. Eu já tenho 50 anos, então Eu quero me gastar e me deixar ser gastado por Cristo. Eu não quero mais perder tempo.

MMMatheus Marcolino

Se Deus te limpou, por que você vai se sujar de novo? Ouvir aquelas mesmas músicas do passado vai trazer todo o passado, toda aquela maldição para sua vida de volta, sendo que o Espírito Santo fez uma grande obra na sua vida.

?Voz B

Você vai buscar tudo de novo?

MMMatheus Marcolino

Resistir o diabo.

?Voz B

E aí, voltando para a intersecção entre política e religião, para Carol Evangelista, a consolidação desse fenômeno teve um embaixador improvável. Uma novidade da semana que vem é que nós vamos transformar a semana que vem a música gospel, minha filha, em patrimônio, sabe?

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Brasileiro.

?Voz B

Então vamos fazer um reconhecimento. O então recém-eleito presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

CECarô Evangelista

O presidente Lula, no seu primeiro mandato, ele foi apoiado por pastores emblemáticos naquele momento, inclusive Silas Malafaia, que depois vem a ser um grande opositor. Naquele momento ele é muito apoiado, tem inclusive um encontro de pastores em apoio à candidatura do presidente Lula em 2002. Isso é bastante divulgado, um apoio ali pragmático.

?Voz B

Para Carol Evangelista, esse apoio tinha a ver sobretudo com um senso de oportunidade de se aliar ao lado que vai ganhar.

CECarô Evangelista

Mas com uma clareza de que o que hoje a gente tá chamando de campo progressista, ou que seria a esquerda partidária brasileira e o PT naquele momento, não representariam a totalidade das pautas caras a esse segmento representado na política brasileira. E aí a gente tá falando especialmente de divergências aqui nas pautas de diversidade sexual, direitos das mulheres, algumas pautas relacionadas a direitos humanos, discriminação das drogas, o que a gente convencionou a chamar de pautas de volumes.

?Voz B

E segundo a Carol, por causa dessas pautas, em pouco tempo os apoiadores foram virando oposição.

CECarô Evangelista

E aí essa oposição ela também não é absoluta, ela não é uma posição que acontece— se a gente olhar as votações no Congresso Nacional ou desenrolar do governo Lula 1 e do governo Lula 2, ela não é uma oposição a tudo, ela é uma oposição que acontece especialmente nessas pautas.

?Voz B

Ainda segundo a nossa entrevistada de sobrenome predestinado, Carol Evangelista, Esse movimento chegou ao auge em 2010, quando o Lula se tornou progressista demais. Isso teve a ver com o lançamento do Plano Nacional de Direitos Humanos 3.

CECarô Evangelista

É um Plano Nacional de Direitos Humanos bastante avançado, bastante ousado em diferentes frentes, diferentes políticas. E aí, principalmente nas agendas de diversidade sexual e direitos das mulheres e direitos reprodutivos, aí a gente vai ver uma reação muito forte a esse plano. E aí uma organização desse campo no Congresso Nacional que extrapola e reúne uma bancada católica, únima bancada conservadora não religiosa, tudo em torno de uma reação ao Plano Nacional de Direitos Humanos 3.

?Voz B

Depois de conversar com o casal que entrou em fornicação prematuramente, o Matheus atravessou a rua para conversar com um fiel que tinha um nome deveras adequado.

MMMatheus Marcolino

Que você faz, o que você acha necessário para te apresentar assim.

?Voz B

Meu nome é Jonas, tenho 44 anos e sou de Bauru. De Bauru?

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Isso.

MMMatheus Marcolino

Então você veio de caravana?

?Voz B

De caravana, isso. Mais de 26 mil caravanas se cadastraram no site da marcha para edição de 2026. Muitas delas vieram de outros estados.

MMMatheus Marcolino

Que horas você chegou hoje?

?Voz B

8:30, 8:20 por aí.

?Voz G

Entendeu?

MMMatheus Marcolino

E que horas você saiu de lá de Bauru?

?Voz B

3 da manhã. Nossa, então é gratificante. É o terceiro ano que eu tô vindo, né? Entendeu?

MMMatheus Marcolino

E me diz assim, o que que faz você sair de casa para pegar um ônibus às 3 da manhã para chegar aqui às 8 para passar o dia assim?

?Voz B

Ah, eu vim pensando que Cristo fez um grande sacrifício para nós na Cruz do Calvário, né, para salvar todos nós. Então esse sacrifício que eu tô fazendo É pouco, né, pelo que isso veio. E eu venho com o coração, com sentimento de gratidão, sabe? Lá atrás, quando os evangélicos se colocaram abertamente contra o governo Lula, um novo campo de batalha ideológico se formou no país. De um lado, os evangélicos se encastelaram no ataque, emplacando, por exemplo, o pastor Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos.

De outro, o campo progressista organizou o contra-ataque e passou a atacar os parlamentares que tinham mudado de lado em duas frentes.

CECarô Evangelista

Criticando politicamente, de forma muito legítima, que aquele parlamentar não defenderia as pautas do governo e do campo da esquerda, mas muitas das críticas direcionadas a ele por ele ser evangélico, apenas por ele ser evangélico e não pelas suas pautas de defesa política. E aí a gente começa a ter aí um grande embate sobre quase que um exclusivismo aí de uma identidade evangélica que seria ruim e expura na sociedade, que aquilo deveria ser combatido.

Eu tô aqui caricaturando um pouco, mas o debate público começa a acontecer de forma mais polarizante naquele momento. Essa presença política já existia nesses espaços religiosos e ela vai ganhando uma nova assiduidade, uma nova ênfase e uma nova radicalização, eu diria aí a partir de 2016, um pouco antes das eleições de 2018, e culmina com as eleições de 2018, especialmente em reação a 4 mandatos, quase 16 anos de governos do PT.

Naquele momento, especialmente nas eleições de 2018, vai entendendo que é uma forma importante de mobilizar o eleitorado, é cobrar posse nessa radicalidade política. Especialmente no segmento evangélico. E aí entra nas famílias e entra nas igrejas e entra nas comunidades, como você relatou. E a gente vê e tem muitos relatos de comunidades evangélicas onde aí a política entra com muito mais força. E é um ativismo político anti, anti o outro campo político, que não é novo, já vinha, mas vai sendo mobilizado com mais força.

E a identificação do outro como inimigo, vão somando aí camadas de mobilização eleitoral desde 2018 e vai inclusive ganhando ares de engarçamento disso.

?Voz B

Você tem essa vantagem de ser fluente em evangeliquês, né, Matheus?

MMMatheus Marcolino

É, eu tenho isso sim. E eu acho que isso até foi bom para apuração, né, porque é mais fácil você ter respostas legais quando você demonstra que você sabe do que eles estão falando, né?

?Voz B

Sim, o evangeliquez do Matheus foi bem útil na entrevista seguinte com uma fiel chamada Fiamma.

?Voz E

Depois disso não tem nada.

MMMatheus Marcolino

Você tem cargo de liderança?

?Voz E

Eu sou atualmente líder de jovens.

MMMatheus Marcolino

Imaginei também.

?Voz B

A Fiamma tem 26 anos e tava junto do namorado, também evangélico.

?Voz E

A gente vai noivar para casar, né? Vamos, temos 2 anos de relacionamento.

RTRuth Tobiaso Silveira

Como que é isso?

MMMatheus Marcolino

Vocês estão noivando para casar, certo? Como que vocês decidiram isso? Como que vocês conheceram assim? Foi, teve alguma relação com a fé de vocês?

?Voz E

Como é que foi? Quando a gente entende que devemos viver para o propósito de Deus, a chavinha, nossa cabeça muda, né? Então a gente vive no mundo no qual infelizmente tem coisas ruins, mas ao mesmo tempo tudo tem coisas boas. E saber que Cristo nos motiva a cada dia faz a gente se concentrar. Então o intuito sempre foi, né, ele é meu primeiro namorado e vai ser o último. Então sempre o objetivo é esse, sempre foi esperar em Cristo para que Cristo me enviasse alguém que seja abençoador, né, através da palavra, que seja obediente.

Então é isso, é namoro, noivado, e casamento, né? A gente tem que seguir a base bíblica.

?Voz B

Eu não sou nada fluente em evangeliquez, mas depois eu confirmei com o Mateus e o que a Fiamma tá falando é isso mesmo que você tá pensando: nada de entrar em fornicação antes do casamento.

?Voz E

Infelizmente tem muitos aí, muitas congregações, né, que não vive diretamente a palavra, vive sentimentos.

?Voz B

A Fiamma contou para o Mateus que se converteu há alguns anos, no começo de 2019.

?Voz E

Né, minha família completa servia na Umbanda, né? A gente veio de outra religião, entendeu? Então quando o senhor nos encontrou foi um momento que a gente tava fragilizado, a gente tava passando por uma grande tribulação. A família tava numa chácara, todo mundo curtindo, né? E teve bebida, teve bebida alcoólica, tudo mais. Aí quando a outra parte tá vindo para casa Foi quando o carro capotou, o carro capotou numa ribanceira.

?Voz B

Segundo a Fiamma contou para o Matheus, ninguém da família dela sofreu um arranhão nesse acidente. E aí, em vez de atribuir isso a alguma proteção vinda da Umbanda, eles atribuíram ao Deus evangélico.

?Voz E

Então foi isso. Aí a gente viu, né, porque todos que nascem, quando o aperto chega, a primeira coisa que grita é quem? Ai, meu Deus!

RTRuth Tobiaso Silveira

Deus.

?Voz E

E se não fosse Deus? 5 pessoas, 5 caixões. E se não fosse oportunidade, entendeu? Então foi daí que a gente viu a oportunidade de adorar.

MMMatheus Marcolino

E aí essa entrevista, ela teve uma coisa mais assim de confronto entre a Fiamma e eu, porque ela fala muito bem e eu quis aproveitar isso para tirar respostas melhores ainda dela, né? Para vocês assim, faz vocês saírem de casa cedo no frio para estar aqui, para estar junto de mais de provavelmente 2 milhões de pessoas hoje?

?Voz E

A morte de cruz, para mim, para você, a gente seria capaz de morrer numa cruz por uma nação pecadora? Me responde se você consegue me responder.

?Voz G

Não sei.

?Voz E

Não, a resposta é não. Então isso aqui é o mínimo, é o mínimo.

?Voz B

Aí, meio que comendo pelas beiradas, o Matheus foi entrando no tema central do nosso episódio: a relação da fé com a política.

MMMatheus Marcolino

Como vocês veem essa relação que tem se aproximado bastante, né, entre a igreja e a política?

?Voz E

No meu ponto de vista, né, fui falando, o que eu mais almejo nessa terra é a volta de Cristo. Seja com o maior presidente, com o melhor presidente, com o melhor governador, não importa. Seja do melhor ao pior. O meu objetivo, a minha espera é em Cristo Jesus. Então eu não tenho essa dedicação de estar empenhada, eu não sou envolvida com política.

?Voz B

Diante dessa resposta, o Matheus deu um passo atrás. Perguntou para a Fiamma como era a relação dela com o mundo fora da Redoma. O mundo dos ímpios, o mundo secular.

?Voz E

Então eu não escuto música secular, né? Eu não vou a shows, porque servir a Cristo é 100%, é Ezequiel 47, mergulhar e buscar Cristo. É esse o meu ponto de vista, né? Muitos hoje prega a religião, muitos têm esquecido de pregar o evangelho, pregar o amor. Por isso que infelizmente nem todas as almas são alcançadas. Entendeu?

?Voz B

Aí Matheus perguntou sobre uma aparente incongruência na fala da Fiamma, porque se os evangélicos se fecharam completamente na redoma deles, como eles vão conseguir conversar com o lado de fora para cumprir a missão maior de espalhar o evangelho?

MMMatheus Marcolino

Você acha que esse distanciamento de alguma forma não pode atrapalhar nessa missão de espalhar o evangelho?

?Voz E

Não, se eu tenho foco, se eu tenho objetivo, não tem como. A palavra diz que a ovelha se perdeu para conhecer no pasto, né? A dracma se perdeu dentro de casa, mas o filho pródigo se perdeu para conhecer o mundo, entendeu? Se eu me perco estando dentro da igreja, estando dentro do templo, é porque eu nunca quis Cristo. E se eu me perco fazendo o que eu fui chamada, é porque eu nunca fui chamada para fazer aquilo. Então, se o foco 100% é Cristo, não tem como se perder.

?Voz B

Aqui de novo a fala da Fiamma é um pouco paradoxal, que ela disse que precisa estar 100% na igreja Mas ao mesmo tempo diz que não é possível separar os dois mundos.

?Voz E

Não tem como a gente separar secular, evangélico, não tem como. A gente vai viver numa sociedade, a gente tem que ser luz do mundo e sal da terra. Então é através disso, é necessário que eu esteja dentro do meio desse povo para falar de Cristo. É necessário que nós estamos infiltrados no mundo para que o evangelho seja pregado.

?Voz B

Essa visão é bem interessante, né? Eles tão infiltrados num mundo que não é realmente deles pra cumprir uma missão. Tipo um agente da KGB vivendo nos Estados Unidos durante a Guerra Fria. E por mais que a Fiamma diga que não tá envolvida com política, não tem como fugir. Essa forma que ela e tantos evangélicos têm de se colocar no mundo como agentes da mudança é profundamente política. E se a gente for pensar nessas primeiras interações do Mateus na marcha, fica a impressão de que muitos evangélicos vivem na redoma e quando são obrigados a sair dela fazem desse jeito, quase como se entrassem num país inimigo.

E quando assumem essa postura, é quase como se eles levassem uma parte da redoma com eles, porque a forma do inimigo viver não é válida Assim como a informação do inimigo não deve ser levada em consideração. A única informação que vale é a informação que flui pelos canais confiáveis da igreja, que claro não se resumem ao que é dito nos cultos.

CECarô Evangelista

Tem muitas outras formas de formação, de interação social, grupos de jovens, grupos de mulheres, alfabetização, formação financeira, reunião comunitária, festas, muitas outras formas. E tudo aquilo para essas pessoas é estar na comunidade, né, é frequentar a igreja evangélica. Então, obviamente que a forma como se fala sobre política, como se dissemina informação política nesses espaços, é fundamental e tem incidência.

?Voz B

E aí, para além de todos esses espaços do mundo real, tem os espaços onde a gente passa boa parte do nosso tempo hoje em dia, os espaços do mundo virtual.

CECarô Evangelista

Tanto os grupos de oração que migraram para o WhatsApp, grupos comunitários que migraram para plataformas digitais, viver, praticar sua religião e seu vínculo comunitário com seus irmãos de fé em espaços digitais, como o espaço informacional. Você se informa sobre política não só nesses espaços físicos, offline, mas também pelo digital. E aí a famosa desinformação, informações falsas que circulam sobre diversos temas, isso tem uma incidência.

E aí é um pouco inegável, isso não acontece apenas no campo evangélico, evangélico. Pesquisas também mostram que acontece com muita incidência e presença e força no campo evangélico, né?

?Voz B

Por volta das 10:30 da manhã do dia 4 de junho, a multidão começou de fato a marchar e o Mateus começou a marchar junto.

MMMatheus Marcolino

Comecei a caminhada junto com o pessoal. Não tinha 1 milhão de pessoas, isso eu posso dizer com certeza, porém esse momento da caminhada ele não representa o todo, né? Porque o pessoal vai e volta e tem a concentração lá no Campo de Marte, onde vai ter os shows. E também o pessoal vai e volta. E lá a USP não consegue medir, porque como é área de voo, né, eles não podem subir o drone pra poder medir.

?Voz B

O ritmo dessa caminhada foi bem lento. Eles levaram quase 2 horas pra vencer 4 km.

MMMatheus Marcolino

Conforme foi indo em direção ao Campo de Marte, A rua foi ficando pequena, principalmente perto do carro de som onde estavam os líderes da Renascer, né, onde estava o Bispo Estevam Hernandes, tava junto dele o governador Tarcísio de Freitas, tava o prefeito de São Paulo Ricardo Nunes e tava o Flávio Bolsonaro. Quando o Estevam Hernandes anuncia o Tarcísio, eu esperava uma recepção mais calorosa.

?Voz G

Ao Tarcísio.

MMMatheus Marcolino

Ele foi aplaudido de forma um pouco tímida e algumas pessoas começaram a falar atrás de mim, aquele cochicho, tipo, ah, que que ele tá fazendo aí?

?Voz B

E aqui tem um dado importante: o governador Tarcísio de Freitas é fluente em evangeliquez, que apesar de não ser evangélico, ele é filho de uma missionária.

MMMatheus Marcolino

Então ele tem exatamente o que eu tenho, que é um pouco engraçado de falar, né? O Tarcísio tem exatamente o que eu tenho, mas o Tarcísio, ele é fluente em evangeliquez, então ele consegue ativar aquelas frases que vão conseguir levar a simpatia do público evangélico. Eu achei muito engraçado, isso tem gravado, que eu fui passar bem perto assim do carro e uma pessoa na minha frente apontou para o Tarcísio e falou, olha lá, o filho da puta!

Que é engraçado, né? Porque Pô, é um evento evangélico, minha senhora, isso é pecado, não pode xingar o irmão, né? E aí quando acabam os carros de som, a gente vai andando em direção ao Campo de Marte. Tem muita gente vendendo coisa, todo tipo de comida, então de bala baiana a açaí, a hot dog, todo tipo de comida tinha ali, bandeiras. E aí eu perguntei para um dos vendedores de bandeira, ele tava com uma bandeira horrorosa assim, metade Estados Unidos, metade Israel.

Eu perguntei para ele, opa, amigo, quanto que é? Ele me falou que eram R$100, R$100 a bandeira de Israel com Estados Unidos. Eu falei, ah, não, não, obrigado. Ele falou, para você eu faço por R$80. Aí chegando lá, a impressão era que tava chegando no festival mesmo de música, assim uma coisa meio Lollapalooza, meio Woodstock, com o pessoal deitado no chão com umas barraquinhas assim e tal.

?Voz B

Deus não nos desampara em momento nenhum. A gente pode ser afligido, mas não será vencido. A gente pode ser perseguido, mas não será desamparado. A gente pode ser derrubado, mas a gente vai levantar. Quem crê nisso? E assim, com essa fala do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, a gente chega à questão central do nosso episódio. Que tem a ver com o voto. Por que os evangélicos tendem a votar em candidatos de direita? Por que nomes como Flávio Bolsonaro ou o próprio Tarcísio geram simpatia em boa parte dos fiéis?

Por que as pessoas que escutam música evangélica, que veem programas evangélicos na TV, que têm na igreja os principais momentos de lazer, votam nessas pessoas? Como elas combinam os valores cristãos com figuras que levam a vida na contramão desses valores? A Ana Carolina Evangelista começou essa longa e complexa resposta falando das pautas políticas.

CECarô Evangelista

E as nossas pesquisas desde os anos 90 mostram isso. Uma pessoa evangélica não vota necessariamente em alguém evangélico. A sua orientação de voto, ela não é a partir apenas da identidade evangélica. A gente também faz muitas pesquisas sobre motivação do voto, o que que as pessoas valorizam de pauta. E dentro da diversidade do campo evangélico, As pessoas valorizam as pautas conectadas à sua vida cotidiana, assim como pessoas que não estão no campo evangélico. Demandas por segurança pública, demandas por economia, saúde, educação.

?Voz B

E aqui tem uma coisa curiosa, porque a impressão que a gente tem é de que as pautas de costume, o banheiro único na firma, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o direito ao aborto, parece ser o que faz os evangélicos não votarem em determinado político ou partido. As pautas que fazem os evangélicos votarem em um determinado político ou partido são meio que as pautas que uma parcela maior dos brasileiros defende.

CECarô Evangelista

Recortado pelo segmento evangélico, o eleitor votou sempre nos candidatos do PT até 2018. É a primeira vez que aparece uma grande diferença marcada no segmento evangélico. Então isso é um pouco para dizer que assim, o voto do evangélico não é o único, que ele foi muito diferente por alguns anos e depois ele apareceu mais marcado.

?Voz B

E essa inflexão, de novo, parece ter a ver com uma aversão aos rumos do governo petista, há uma repulsa às pautas morais, em especial 4 delas: a descriminalização do aborto, a legalização do casamento civil homoafetivo, a adoção de crianças por casais homoafetivos e a legalização das drogas.

CECarô Evangelista

Elas foram trabalhadas politicamente, sistematicamente, desde os anos 2000, em reação aos avanços que aconteceram políticos nessas pautas. E com um resultado eleitoral aí nas urnas para dividir o eleitorado pela primeira vez nesse segmento a partir de 2018. E aí eu tenho escrito também sobre isso, costumo dizer que levantou-se um muro no eleitorado evangélico a partir de 2018 e esse muro continua de pé até agora. Ele vai mudando um pouquinho a altura desse muro, ele oscilou um pouco em 2022, especialmente numa mudança ali do eleitorado feminino evangélico, mas esse muro continua lá.

?Voz B

E aqui vale dizer que os evangélicos são um grupo tradicionalmente conservador.

MMMatheus Marcolino

Mesmo os que votam no Lula dentro da igreja são conservadores, tem uma posição conservadora de sociedade. Então aí entra a questão do aborto, do casamento gay, coisas que são importantes para a igreja evangélica. Ah, não pode aborto? Então qualquer político que falar que não pode aborto, ele tá seguindo o que tá escrito na Bíblia. A gente tem que votar em quem tá seguindo o que tá escrito na Bíblia, certo?

?Voz B

E aí, quando a sociedade como um todo passou a pender mais para direita, os evangélicos foram junto.

CECarô Evangelista

Lideranças religiosas mais aliadas a um campo político ultraconservador, um pouco como político da extrema-direita brasileira, começam a apoiar e a trabalhar mais fortemente uma agenda mais punitivista. Isso é novo, uma agenda mais intolerante. Ou seja, exclusivista para o seu campo religioso, intolerante com os demais, né?

?Voz B

Com esse crescimento, com esse fortalecimento, parece ter se criado a ideia de que os espiões podiam ser substituídos pela infantaria, de que era hora da ocupação.

CECarô Evangelista

Uma agenda que pela primeira vez começa a não só reivindicar a representação na política deste segmento, mas impor a sua agenda moral como agenda total da sociedade. E aí uma agenda também que aí vai extrapolando o campo evangélico, mas que começa a ser defendida pelos políticos evangélicos eleitos, que é uma agenda econômica, uma agenda de desenvolvimento para o país mais privatizante, mais ligada a determinados mercados, mercado financeiro ou agronegócio.

Uma pauta de país, uma visão de mundo, uma visão política, um projeto político para o país que extrapola as agendas estritamente morais desse segmento. E aí nesse momento, Matheus, é uma aliança ultraconservadora que de religiosa não tem muita coisa não. É um casamento perfeito entre políticos conservadores, ultraconservadores não religiosos, com políticos ultraconservadores religiosos. E aí quando a gente olha para a política, na verdade é um alinhamento de pautas, é um alinhamento de pauta política, um alinhamento de visão de país.

E quando a gente olha, parece que todo mundo é religioso, todo mundo religioso. De repente a política ficou religiosa, ou de repente o Congresso Nacional ficou religioso. Ou de repente todas as pautas começaram a ser pautas religiosas?

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Não.

CECarô Evangelista

A gente está falando aqui de um alinhamento e uma somatória de pautas mais conservadoras que extrapolam o campo moral.

?Voz B

Por volta das 4 da tarde, o Matheus estava se preparando para voltar para casa quando recebeu um sinal.

MMMatheus Marcolino

Eu parei na frente de uma lanchonete e eu olhei na faixa de pedestres Tinham 3 pessoas segurando um cartaz escrito Igreja Sem Política, o movimento, conheça. E aí eu li isso, eu pensei, pô, muito interessante, né?

?Voz B

Quase um sinal divino, né, Matheus?

MMMatheus Marcolino

Eu acredito, foi Deus me salvando aí de uma pauta menos legal. Eu olho e penso, pô, isso aqui é muito legal, não posso ir embora sem ouvir alguém falar sobre isso. Eu falo assim, moça, esse movimento aqui, você é líder? Você consegue falar? Ela falou, não. Aí chamou uma pessoa do outro lado da rua A pessoa atravessou e aí eu falei: Oi, tudo bem? Não, eu sou jornalista, tal, queria falar com o líder do movimento. Aí o outro moço falou: Ó, eu não posso falar também, mas se você voltar 2 quarteirões e atravessar a rua, na esquininha tem o José Luiz, você procura ele, ele vai falar com você.

Aí eu já desisti da minha missão de ir embora, dei meia volta e fui atrás do José Luiz. Então eu tô voltando agora em busca da notícia, vamos ver o que que eu vou arrumar aqui.

?Voz E

Oi, tudo bem?

MMMatheus Marcolino

Boa tarde. Eu tava ali no outro cruzamento e aí eu recebi um papel escrito Igreja Sem Política. Eu sou jornalista, então me chamou muita atenção. Aí eu perguntei se tinha alguém que eles indicavam para falar e eles falaram José. Isso mesmo, é isso mesmo. Então tudo bem, você aceita responder umas perguntinhas?

?Voz B

O José Luiz Barbosa é presidente do movimento Igreja Sem Política, que existe desde 2001, que como ele fez questão de ressaltar, tá devidamente registrado em ata pública.

?Voz G

O movimento visa defender uma igreja exclusiva para Cristo, identificando nas Escrituras Sagradas e na atividade de Jesus Cristo quando esteve aqui entre nós, em que essa igreja que ele estabeleceu, ela jamais teve qualquer tipo de envolvimento ou interesse com a política.

MMMatheus Marcolino

Você é pastor? Você é presbítero? E no momento vocês têm, vocês são ligados a alguma?

?Voz G

Cada um de nós tem a sua igreja, o seu ministério, e nós não defendemos uma igreja que seja, vai nesse lugar e aqui vai ser assim.

MMMatheus Marcolino

O movimento ele também não quer criar uma nova igreja.

?Voz G

Exatamente. Entendi.

MMMatheus Marcolino

E aí esse tipo de intervenção assim vocês fazem com que frequência?

?Voz G

Hoje foi especial porque teve a marcha que identificamos essa união de igreja com um ato político, o que acontece na Paulista, por exemplo, muitas vezes, da convocação das igrejas para defender uma determinada pauta. Toda vez que existe essa defesa dessa pauta política unindo igreja, nós nos posicionamos nesses locais, vamos lá um dia antes, né, no mínimo um dia antes desse local, e estendemos faixas como você tá vendo aqui, distribuindo os panfletos e notificamos as pessoas acerca dessa mentira que tá sendo falada do evangelho.

?Voz B

Me parece que tem uma confusão entre política e politicagem, né, Matheus?

MMMatheus Marcolino

Eu acho que tem.

?Voz B

Se a gente for pegar a figura de Jesus na Bíblia, ele era um cara político, ele se colocou contra o Império Romano, certo?

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Sim.

MMMatheus Marcolino

Não, e ele foi condenado à morte por causa disso. Viam ele como um potencial líder revolucionário do povo hebreu, né?

?Voz B

Sim. De qualquer forma, para o José Luiz Essa tentativa de ocupação do campo político é um movimento apóstata, de falsos profetas.

?Voz G

O que você tá vendo ali no palco é um exemplo disso. O que tá na direita diz: Deus tá dizendo que a pauta tem que ser moralista. O que tá na esquerda, o que que ele fala? Nós temos que agir em benefício aos pobres, temos que agir na questão social, temos que dar liberdade de todos serem aquilo que querem ser, até no sentido de de temas que confrontam com a palavra de Deus, como homossexualismo, por exemplo, ok? Onde Deus fica nessa posição aqui?

O evangelho, ele não é imposto a ninguém. Eu prego para você se você quiser ouvir, e se você quiser aceitar, você aceita. Deus disse que é assim.

MMMatheus Marcolino

Na sua visão e na visão do movimento, até que ponto esse tipo de evento ele é positivo, é legal porque traz mais gente para o evangelho, ou ele é negativo porque ele leva as pessoas para um evangelho que não é o que vocês julgam ser. No caso, eu tô usando vocês julgam ser, mas obviamente vocês estão se baseando na Bíblia, né? Até que ponto leva as pessoas para um evangelho que não tá no caminho certo, tá num caminho que não tá seguindo a Bíblia?

?Voz G

Qual o critério que nós utilizamos para julgar qualquer evento ou qualquer tipo de comportamento que se volte para aquele que assume evangélico ou cristão, que seria o termo mais puro disso, tá? Tudo aquilo que nós vamos fazer tem que estar identificado numa atividade que já foi registrada por Cristo. Quando nós tentamos fazer além ou aquém do que ele fez, nós estamos assumindo que o que ele trouxe é insuficiente. E o evangelho de Cristo, ele representa uma totalidade e uma suficiência, uma completude daquilo que era necessário de uma providência de Deus para o homem para gerar redenção, ok?

Então ele tem o governo da igreja, ele é autoridade da igreja, e ele trouxe um conteúdo pronto para que todos nós já pudéssemos cumprir. Não há abertura nesse contexto para você interpretar. Então se eu for ali agora julgar, eu tenho que identificar se o que eles estão cumprindo, falando e fazendo, e se posicionando e atuando nas próprias vidas representa o que Jesus cumpriu. Ali não tem pauta evangélica, porque eu tô ouvindo música, sim, perfeito, sim, as pessoas estão se alegrando.

Então, se o evangelho puro fosse pregado ali, primeiro sinal seria que você não teria multidão tão grande. É muito difícil, porque o evangelho ele traz para o homem a verdade, mas no caráter de que o homem que o homem decida se ele quer ou não. Uma vez escolhendo, ele tem que estar disposto a pagar o preço por isso.

MMMatheus Marcolino

Naquele sentido de cada um carrega sua cruz.

?Voz G

Sim, entenda, quando a gente fala de pagar o preço, as pessoas jogam muito para o lado de usos e costumes. Não existe isso na palavra. Existe uma retratação, uma reformulação do homem interior. Todas as pautas que estão ali sendo tratadas, se eu for identificar nas Escrituras, nesse governo de Cristo que eu tô te comentando aqui, não se estabelece.

?Voz B

Aqui tem um ponto interessante que tem a ver com a organização das igrejas evangélicas, que ao contrário da Igreja Católica, que tem uma organização vertical, um Papa ao qual todos devem obediência, as igrejas pentecostais são um movimento horizontal. A princípio, qualquer um pode ser pastor, e os discursos de cada pastor variam da água para o vinho. Quando se fala em política, por exemplo, ainda que a maioria hoje penda para o conservadorismo de direita, a gente tem pastores evangélicos de esquerda.

Na marcha, inclusive, teve espaço para políticos progressistas discursarem, ainda que de forma mais tímida, provavelmente por vontade dos dois lados. O nome mais destacado do campo da esquerda foi o ex-futuro ministro do Supremo, Jorge Messias. Tudo isso para a gente introduzir uma nova pergunta dentro da nossa grande pergunta: por que tantas lideranças evangélicas têm fechado com a extrema-direita E até que ponto o fato delas terem fechado com a extrema-direita faz os fiéis irem pelo mesmo caminho? Carol Evangelista, por favor.

CECarô Evangelista

Essas lideranças sim têm um papel importante, elas têm um papel importante na mediação do diálogo com essas comunidades, na mediação da escuta e na mediação política. E não necessariamente na orientação pura e simplesmente. Orientação existe, existe. Ela tem aderência ou não, é muito difícil de quantificar isso. Eu gosto muito mais de trabalhar na chave da mediação. São mediadores da comunicação, intermediadores aí dessa comunicação política com o que tá acontecendo no chão da vida. E eles são importantes lideranças comunitárias e daqueles espaços religiosos.

?Voz B

E assim, é claro que os pastores têm alguma voz sobre o rebanho, mas é importante a gente entender que eles também estão reagindo a esse rebanho e ao mundo em que esse rebanho vive. Eles também são influenciados pelos ventos políticos que sopram do lado de fora da redoma.

CECarô Evangelista

Essas lideranças, elas também se posicionam politicamente e muitas delas têm um posicionamento político tardio numa eleição nacional. Se você parar para ver, por exemplo, porque elas param para entender o que a sua comunidade, o que a sua base está pedindo.

MMMatheus Marcolino

A minha dúvida é se o que acontece após 2018 acontece por uma afinidade religiosa entre os políticos e a Igreja Evangélica. Então a gente está defendendo uma pauta religiosa ou se essa afinidade ela não é necessariamente o que guia, e sim uma junção de um momento político, uma junção de fatores que construíram esse momento político, e que esses pontos religiosos eles estão sendo usados como pautas aliadas a este movimento político, não necessariamente algo em que se constrói sobre. Entende?

CECarô Evangelista

Sim, sim, sim, é exatamente isso, a sua segunda opção, a sua segunda hipótese. E vão se somando camadas, tem um elemento da sua primeira hipótese da conexão religiosa que ela também vai sendo mais explorada. Então ela não define todo esse modo desse campo, ou que a gente tem chamado de a religião sendo usada como uma arma de radicalização política em resposta às inseguranças e às crises que as pessoas vivem e estavam vivendo muito fortemente em 2018.

?Voz B

E aí tem um outro tipo de hipótese moral que tem a ver com a corrupção.

CECarô Evangelista

E os políticos que estão roubando naquele momento, como era trabalhado discursivamente, eram os políticos que vinham dos governos do PT dos 16 anos anteriores. Então esse trabalho também da camada de colar a corrupção a um único campo político, como se ela fosse oriunda de um único campo político, e como se a corrupção também fosse a responsável pela crise econômica vivida na ponta pelas pessoas, isso também é uma camada importante que é trabalhada nessa mudança do eleitorado.

A gente tá falando aí, não importa principalmente ou fundamentalmente a identidade, mas importa o alinhamento político, importa a concordância e um alinhamento sobre a pauta política. E esses políticos entenderam que um campo evangélico mais mobilizado, que vai às ruas, o que é mais praticante, que é mais ativo, é mais alinhado politicamente às suas propostas. Então ali a gente tá falando de um espaço de comício político mesmo, e que não se originou assim, mas se transformou também num espaço de comício político, né?

?Voz G

Há uma autoridade que é Cristo.

?Voz B

José Luiz, do movimento Igreja Sem Política.

?Voz G

E essa autoridade não é dividida com a igreja, que é um engano que todo mundo pensa. Não é porque o camarada que tá ali é pastor ou tem uma determinada função que tudo que ele fala em nome de Deus vai se cumprir. Só vai se cumprir se o que ele tá falando foi o mesmo que Jesus falou. Tem um exemplo até bastante rápido que a gente pode citar aqui, né? Um dos atos de Cristo, ele estava à porta do templo e viu o comércio sendo feito à porta do templo.

Ele pegou e fez um chicote de 7 pontas e começou a expulsar os mercadores na na porta do templo e disse exatamente isso, que aquele lugar, aquela casa que estava ali, né, não o templo em si, mas o objetivo de ter uma igreja para que as pessoas estivessem ali e aquela casa fosse uma casa de oração, não um templo de mercadores, não comércio.

?Voz B

Na nossa conversa sobre a marcha, a gente ficou imaginando como Jesus teria reagido ao espetáculo do capitalismo, onde se vende de um tudo. Se ele chegasse hoje, ia zoar as bandeiras tudo.

MMMatheus Marcolino

Nossa, imagina o tanto de bandeira de Israel que teria sido queimada ali, né? Mas é legal essa contradição, cara. Eu acho que isso representa muito do que é o evangélico. Eu acho que em todo o meio evangélico tem essa contradição aí de admirar Jesus Cristo pelo que ele fez pelos pobres, pelos oprimidos, pelo perdão, pelo amor ao próximo, e ao mesmo tempo se vê muitas das coisas que Jesus Cristo fazia como coisas de política, como coisas ligadas à esquerda, por exemplo, né?

?Voz G

Quer dizer que para eu ser evangélico eu tenho que ser bem-sucedido? Eu tenho que ser empresário? Usa o versículo lá que tá em Deuteronômio: tem que ser cabeça, não cauda, como outras denominações conhecidas também fazem isso. Então a gente tem uma série de deturpações do evangelho. E como eu disse para você, que no meio político hoje tá sendo usado protestante, eles estão tentando e atuando de uma forma para dar outro significado aos termos bíblicos.

?Voz B

E aí tem um outro ponto importante nesse movimento todo, que como a gente já disse lá no primeiro governo Lula, quando assumiram um lado claro, as igrejas pentecostais geraram uma reação no campo oposto. Criou-se uma batalha com dois lados claros, e quando se cria essa ideia de guerra, a derrota ganha contornos existenciais. Os governos progressistas passam a figurar também como comunistas e, se eles seguirem no poder, em pouco tempo as igrejas vão ser proibidas.

E essa questão existencial para os evangélicos vai bem além do fechamento dos templos.

MMMatheus Marcolino

No momento em que começa a se perseguir as igrejas evangélicas, na visão dos evangélicos, significa que é um sinal do fim dos tempos, que é um sinal de que o anticristo está prestes a se estabelecer. Tem esse medo do governo do anticristo, governo mundial que vai proibir as igrejas evangélicas.

?Voz B

E se para boa parte dos evangélicos essa linha de pensamento é mais um motivo para abraçar a política, para o José Luiz é o contrário.

?Voz G

A volta dele é iminente, que nós sabemos que os sinais estão se cumprindo. Esse sinal de apostasia extrema dentro da igreja, esse sinal que nós vemos— eu não sei se você estuda isso, tá? A ONU tem alguns organismos dela que reúne igrejas evangélicas, inclusive igrejas brasileiras como Assembleia de Deus, e a grande maioria delas, ok, que fazem um pacto ecumênico hoje. Então há uma preocupação desde esses órgãos ligados à ONU, que a WEA, por exemplo, ok, de se unir para trazer uma determinação do que as igrejas devem pregar, não forçar, mas motivar tanto financeiramente com cursos para que a pregação da igreja não seja mais para essa leitura reverente da palavra e para essa crença de que nós trabalhamos por um reino vindouro, mas sim de que devemos viver o que tá aqui, que para nós é um sinal de apostasia extrema.

E o movimento até muitas vezes nós desafiamos essas, essas figuras públicas, né, do meio evangélico, a virem debater conosco exatamente esse ponto. Que tipo de figura pública vocês já desafiaram para vir debater com vocês? Se você vê o nosso material, nós já fomos a eventos até, acho que da Renascer, na última eleição presidencial, quando tava, eu acho que eles estavam ali na Vila Olímpia. Sim, nós estávamos entrevistando pessoas, um líder deles veio dizer para nós, vocês estão debatendo com pessoas aqui que não conhecem da palavra, debatam comigo.

Eles não querem debater porque eles sabem que não tem argumento, mas digo publicamente exatamente para você, tá gravado aqui, ok? Qualquer um que quiser debater conosco, nós vamos debater com respeito, e desde que cada parte tenha seu tempo de oportunidade, porque quando você vai falar com eles, eles tentam— entendi.

MMMatheus Marcolino

Como que é a recepção assim? As pessoas, igual eu recebi o papel, me interessei. Isso costuma acontecer com vocês?

?Voz G

Não há muito interesse. Se você for, se a gente for falar de número de massa, não.

MMMatheus Marcolino

Se a gente for falar em números, quantas pessoas aderiram já?

?Voz G

São poucas pessoas, nós somos por volta de 50, 70 membros. Ok, certo. Então, óbvio, se você perguntar para mim se nós visamos uma quantidade, temos uma meta, não existe essa meta para nós. Se um ouvir, se dois ouvirem, tá bom, porque o que nós fazemos, aquilo que o evangelho também representa, ele nunca vai estar respaldado quantidade. Nós entendemos que alguém tem que fazer isso, defender a Igreja de Cristo e dizer para as pessoas que elas têm o direito de entrar numa igreja sem ter que assumir ou defender um lado ou outro, mas para ouvir a palavra e ter uma relação com Cristo.

?Voz B

Esse desinteresse pelo movimento do José Luiz poderia ser o sinal de que os evangélicos estão vendo essa aproximação com a política como algo positivo. Mas ao longo de todo o episódio ficou claro que não é bem assim, né?

CECarô Evangelista

Por exemplo, a nossa observação das eleições de 2024, subnacionais, municipais, já há um relato aí, a gente tá falando o quê, de 6 anos depois, um relato de cansaço, de recusa por esse excesso de política nos púlpitos e nas igrejas, onde é um espaço que as pessoas querem ir para congregar com seus irmãos, elas querem ir para encontrar sua comunidade, elas querem ir para encontrar seus irmãos de fé, elas querem ir para viver a sua espiritualidade.

E muitas vezes aquele espaço tá muito mais dominado por política formal, com pessoas oriundas da política formal, e por discursos políticos dominantes.

?Voz B

A Carol Evangelista é pesquisadora especialista em religião. Ela olha para dados. Eu sou jornalista, olho para os fatos. E esses dois ofícios têm algo em comum: eles funcionam melhor quando a gente tem algum afastamento do objeto em questão. Mas nesse caso eu tive uma experiência um pouco diferente. Eu só percebi o impacto real da invasão política na Igreja na reta final da produção, quando eu escutei um trecho da entrevista da mãe do Mateus.

Eu, claro, já tinha lido as transcrições da fala dela, tinha selecionado esse trecho com a minha cabeça de editor. Mas ler é diferente de escutar, e quando eu escutei, eu percebi a emoção dela e entendi um pouco melhor a dimensão real desse fenômeno.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Agora, quando a gente vê hoje em dia a igreja usando as pessoas dessa mão, a gente fica muito triste. Eu queria poder encontrar um lugar assim de novo, que a gente ficasse tão preenchido de amor, sabe? Porque a gente vê essa política entrando dentro da igreja, parece que é o amor esfriando mesmo.

?Voz B

Você, meu ouvinte, que não é evangélica, Para por um momento e pensa nisso. Imagina que a sua vida foi construída embaixo de uma redoma, uma rede de segurança e de amor que fez inclusive você ir cortando laços com o mundo de fora. E aí, de repente, essa redoma é invadida. De repente, a sua redoma vira palco para homens como Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

Não posso me considerar uma evangélica, posso me considerar uma Pessoa que foi alcançada pelo amor de Cristo de verdade. Quisera que todos pudessem experimentar o que eu experimentei, que é muito, é, como é que fala, Posso dizer que eu conheço, que eu conheci o amor de Deus mesmo.

?Voz B

Antes de terminar, eu quero te convidar a conhecer os outros podcasts da Rádio Guarda-Chuva. Tem muita coisa legal e o melhor jeito de você achar o que mais combina com o seu gosto é ir lá no site da Rádio Guarda-Chuva, que é radioguardachuva.com.br, ou no Instagram, que é Guarda-Chuva Pod. Eu sou Tomás Chiaverini e termina aqui o episódio 164 de Escafandro. Obrigado por escutar e até o próximo mergulho.

?Voz G

Eu tô falando de Campinas, no estado de São Paulo.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

O design das capas é da Cláudia Fornari.

?Voz G

A trilha sonora tema é do Paulo A mixagem de som deste episódio é do Vitor Coroa.

MMMatheus Marcolino

A produção, a reportagem e a edição de áudio são do Mateus Marcolino.

LHLúcia Helena Marcolino Lamberti

O roteiro, a direção e a sonorização são do Tomás Chiaverini.

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164: A redoma de Cristo | Castnews Index — Castnews Index