Episódios de Escafandro

163: Seleção Estrangeira

24 de junho de 20261h1min
0:00 / 1:01:54

Por que a gente se sente cada vez mais distante da seleção brasileira? Que peso as derrotas históricas têm nesse fenômeno? Por que nossos jogadores vão atuar fora do país cada vez mais cedo? Por que o Brasil não consegue organizar uma liga a exemplo do que fez a Europa? Que peso tudo isso tem na autoimagem dos brasileiros e no desmantelamento político deste começo de século?

Mergulhe mais fundo

Saudades do que nunca fomos: os brasileiros e o futebol (link para compra)

Episódios relacionados

113: Corro, logo existo

119: A Olimpíada sintética

Entrevistados do episódio

Juca Kfouri 

Escritor e jornalista. Em 50 anos de carreira, cobriu 14 edições da Copa do Mundo e foi diretor de redação de revistas como Placar e Playboy.

Fabio Luis Barbosa dos Santos

Historiador, escritor e professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele é autor de “Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol", Editora Elefante (2026).

Ficha técnica

Design das capas dos aplicativos e do site: Cláudia Furnari.

Trilha sonora tema: Paulo Gama.

Mixagem de som: Vitor Coroa.

Reportagem e edição de áudio: Matheus Marcolino.

Direção, roteiro e apresentação: Tomás Chiaverini.

Participantes neste episódio3
T

Tomás Chiaverini

Hostjornalista
F

Fabio Luis Barbosa dos Santos

ConvidadoHistoriador, escritor e professor
J

Juca Kfouri

ConvidadoJornalista
Assuntos7
  • Jornada 6x1 e disputa políticaA humilhação em casa contra a Alemanha · A vergonha e a ridicularização · O impacto na autoimagem nacional · A relação entre derrota esportiva e política · A captura da camisa da seleção pela extrema-direita
  • Campeonato Brasileiro de FutebolA falta de uma liga única · O poder das federações estaduais · A rivalidade entre clubes e dirigentes · A exportação de matéria-prima (jogadores)
  • Neymar e Seleção BrasileiraDesconhecimento dos jogadores atuais · Comparação com gerações passadas · Pesquisa de preferência entre time e seleção
  • Futebol Globalizado e Mudança de PotênciasFutebol de poesia vs. futebol de prosa · Impacto da televisão no futebol · Aumento da exigência física dos atletas · Lei Bosman e a fuga de chuteiras · Europeização do futebol mundial
  • Torcida e sentimento do torcedorJogadores como indústrias culturais · Neymar e a aspiração empreendedora · A perda da identificação nacional · A elitização e homogeneização do público nos estádios
  • Copa do Mundo e FutebolO time de craques de 82 · A magia e a poesia em campo · A derrota para a Itália (Tragédia do Sarriá) · Reação à derrota de 82
  • Confronto e detenções no entorno do MaracanãA construção do Maracanã · A derrota para o Uruguai em 1950 · O silêncio e o luto da torcida
Transcrição185 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
TCTomás Chiaverini

Oi, Rádio Guarda-Chuva, jornalismo para quem gosta de ouvir. Bom dia, Matheus Marcolino.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Bom dia para nós.

TCTomás Chiaverini

Você já tem o seu desse daqui?

?Voz C

Não tenho.

TCTomás Chiaverini

Tô aqui mostrando para o Matheus o álbum, livro ilustrado oficial da Copa do Mundo de 2026. Pois é, o assunto dessa minha conversa com o nosso produtor Matheus Marcolino Era o álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Eu tentei com todas as minhas forças paternas que meu filho não tivesse esse álbum, porque ele custa quase R$2.000 pra completar, sabia disso? Na verdade, tem estimativas que dizem que o filho de Darwin que quiser completar o álbum vai ter que desembolsar cerca de R$3.000.

Então eu tinha decidido que o meu filho não ia ter o álbum da Copa. E dá aquelas decepções Faz parte do amadurecimento. Só que a paternidade é um estado peculiar. O aumento radical de responsabilidade, ter de manter outro ser vivo e saudável, é proporcional à perda de qualquer ilusão de controle sobre o nosso próprio destino. E assim, uma designer de um conhecido podcast lusófono que também é madrinha do meu filho, deu de presente essa belezinha aqui para ele.

E aí, cara, eu fui olhar aqui a página da Confederação Brasileira de Futebol, que tem os nossos jogadores, e cara, eu conheço 2 jogadores dessa página. Eu conheci o Alisson porque ele tinha sido goleiro na última Copa, e o Vini Júnior. E o Vini Júnior eu conhecia pelo posicionamento antirracista dele. Não pela atuação como jogador de futebol. E só. E tudo bem, eu não sou exatamente um aficionado por futebol. Quando me perguntam pra que time eu torço, em geral eu digo que sou agnóstico.

Mas ainda assim, eu tenho a impressão de que a gente tá se afastando dessa estranha instituição chamada Seleção Brasileira. Eu lembro bem de agradáveis fantasmas de Copas passadas. Bebeto e Romário, Branco e Roberto Carlos, Os Ronaldinhos. Eram caras que, por mais que eu não tivesse proximidade com o futebol, faziam parte do universo das pessoas conhecidas. Hoje isso mudou. E não só pra mim. Pro Matheus Marcolino, que é, na definição dele mesmo, um cracudo do futebol, eles são conhecidos, mas ainda assim distantes. E a gente não tá sozinho nisso.

JKJuca Kfouri

Ô Tomás, o fato de você não ter sabido quando pegou o álbum do seu filho quase nenhum dos jogadores, eu te diria o seguinte.

TCTomás Chiaverini

Esse é o escritor, jornalista e ícone da cobertura esportiva Juca Kfouri.

JKJuca Kfouri

Eu acompanho o futebol do mundo inteiro diariamente.

TCTomás Chiaverini

O Juca tem 50 anos de carreira e já cobriu 15 Copas do Mundo.

JKJuca Kfouri

Alguns jogadores da seleção brasileira que se passarem na rua, na minha frente, eu não sei identificar.

TCTomás Chiaverini

Eu sou Tomás Chiaverini e o episódio 163 de Escafandro já começou. Nele, a gente vai tentar responder por que os atletas da seleção parecem cada vez mais pessoas desconhecidas Vivendo em um mundo que não tem a ver com a gente. Antes, eu preciso te lembrar que o Escafândrolo só tá há 7 anos pingando aí nos seus fones de ouvido a cada 15 dias porque uma parte dos ouvintes colabora com o projeto financeiramente. Isso é feito por meio de um financiamento coletivo.

Quem participa dele tem uma série de mimos: pode ouvir os episódios um dia antes, pode ter o nome citado aqui, pode entrar na fila pra gravar o encerramento de um programa, E a depender da contribuição, tem direito a uma caneca com o logotipo da Rádio Escafandro. Então, se você gosta do podcast, se quer ver ele ficar cada vez melhor, vem se juntar ao nosso financiamento coletivo. A melhor forma de fazer isso, mais simples e direta, é pelo Pix recorrente.

Você pode copiar a chave Pix no nosso site ou no nosso Instagram, ou usar direto o email apoie@radioescafandro.com. Se você quiser apoiar de outra forma, pelo Orelo, pelo PayPal ou pelo Catarse, é só ir no nosso site radioescafandro.com, clicar em apoie, que tem tudo explicadinho. No mais, se você já tá entre as pessoas luminosas que mantêm o podcast há mais de 7 anos, gente como a Letícia Jardim, a Maria Lígia Pastina, a Cassandra D'Alemoli Santos e o Marcos Quioto, muito obrigado, mas muito obrigado mesmo por isso.

Quando eu pedi para o nosso produtor e cracudo do futebol, Matheus Marcolino, achar um fio dessa meada para a gente começar a puxar, ele me respondeu com uma data: 1982.

JKJuca Kfouri

Tem já o processo de distensão lenta, segura e gradual da ditadura imposta no Brasil desde 64. Isto mudou o clima no país. A Copa foi na metade do ano, como sempre, exceção feita do Catar. Depois de mais de 18 anos teríamos eleição para governador e tinha todo um clima: vamos votar na oposição. E se elegeram Franco Montoro, Leonel Brizola, Tancredo Neves. Os principais estados do país elegeram a oposição.

TCTomás Chiaverini

E aí ia acontecer uma Copa do Mundo na Espanha. A seleção vinha de duas edições sem título desde que o Pelé tinha deixado o time e tinha um elenco de craques.

JKJuca Kfouri

Você tinha um time de 4 ou 5 jogadores extraordinários, como Leandro, como Falcão, como Cerezo, como Zico, como Sócrates, que eram craques também fora do gramado. Pessoas simpaticíssimas, pessoas muito dadas Pessoas que brilhavam também nas entrevistas.

TCTomás Chiaverini

Mas qual será o segredo desse futebol mágico?

JKJuca Kfouri

O segredo desse craque, gente, homem humilde, sincero e sempre atencioso?

TCTomás Chiaverini

Para nós da Rede Manchete de Televisão, o segredo é um só: o número 3.

JKJuca Kfouri

Quantos anos você tem?

TCTomás Chiaverini

Eu, 33.

JKJuca Kfouri

Você nasceu que dia?

TCTomás Chiaverini

3.

?Voz C

Que mês?

TCTomás Chiaverini

53.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Que ano?

JKJuca Kfouri

53.

TCTomás Chiaverini

Arthur Antunes Coimbra, vulgo Zico, dando show de simpatia numa entrevista para Manchete em 1986.

JKJuca Kfouri

Você voltou, ou melhor, a jogar na seleção brasileira em que jogo? No jogo número 3.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

O Brasil ganhou de 3. Você sabe o que que significa 13 no jogo do bicho?

JKJuca Kfouri

13 é o galo, é o galinho.

TCTomás Chiaverini

Ele está estranho, não sei se ele vai te vender.

JKJuca Kfouri

Vou dar uma chegadinha.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Dá uma entrada ali. Tá bom o negócio aqui, rapaz. Ouvido Fagner ainda.

TCTomás Chiaverini

Ali tá o Magrão, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, carinhosamente conhecido como Magrão. Numa entrevista ao então repórter esportivo José Luiz da Atena: quanto tempo de bola ainda, Magrão?

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Tem muito tempo ainda?

JKJuca Kfouri

Não pretende parar logo?

TCTomás Chiaverini

Pezinho de meia feito, tal?

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Pezinho de meia, eu acho, né? Tá ganhando muito ou não? Tô ganhando muito, absurdo em relação à realidade do povo brasileiro, mas eu acho pouco em relação àquilo que eu produzo, do consumo que se faz em relação ao povo, sabe? Porque nós somos mecanismos de ação em relação às pessoas que são consumidas.

TCTomás Chiaverini

Isso como todo artista, né?

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Como cantor, como ator, como jogador de futebol, qualquer coisa que tem uma habilidade especial.

TCTomás Chiaverini

Essa entrevista foi gravada em 1984, 2 anos depois da Copa, mas ela representa bem a figura do Sócrates.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Você acha que eu tô abusando ou não? Alguma coisa, né?

TCTomás Chiaverini

Como todo mundo, cara, muito popular entre os torcedores, que falava muito bem e que dava entrevista para Globo enquanto tocava Fagner ao fundo.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Ninguém me dá descanso nem em férias, né, mano? Então vamos fazer o seguinte, bota essa música linda do Corinthians no começo. Eu estudava numa escola em São Paulo que tinha duas unidades. E certa vez, na unidade dos maiores, se organizou uma feira de ciências. E aí a escola providenciou um ônibus, a gente foi. E quando eu tava na feira de ciências, a certa altura surgiu o boato de que o Sócrates ia visitar a escola. O Doutor Sócrates ia visitar a feira de ciências.

TCTomás Chiaverini

Esse é o historiador, escritor e professor da UNIFESP, Fábio Luiz Barbosa dos Santos. Ele é autor de Saudades do que Nunca Fomos: Brasileiros e o Futebol, lançado mês passado pela Editora Elefante.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Só que acabou a visita, a gente voltou o ônibus, o Sócrates não apareceu. E quando eu tô indo lá para o fundão do ônibus, sempre fui da turma do fundão, eu olho pela janela e vejo o Sócrates chegando na escola. Saí desesperado: Professor, é o Sócrates!

TCTomás Chiaverini

Só que ela não deixou a gente descer.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

A porta do ônibus já tava fechada.

TCTomás Chiaverini

O Fábio foi embora desolado, mas fez o diabo até arrumar um jeito de ser levado para outra unidade da escola que também ia receber uma visita do Magrão.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Eu desci correndo, cheguei na porta e falei, Sócrates, ainda tá aí? Não, ele já foi embora.

TCTomás Chiaverini

Mas ele não tinha realmente ido embora, ele tava indo.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Ele tá entrando no carro. E eu olhei lá do outro lado, no fim da calçada, e saí correndo. Sócrates! Sócrates! Aí ele parou, eu cheguei perto dele, era uma pessoa muito alta, né, acho que 1,90.

TCTomás Chiaverini

E aí, quando o menino Fábio Luiz se viu diante de toda a estatura de um cara que já tinha se firmado como um dos maiores craques da história do futebol As palavras simplesmente sumiram.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Me dei conta que eu não tinha nada para falar. Eu falei, Sócrates, você me dá um autógrafo? Aí ele, no banco do carro dele, era um Fusca vermelho, no banco do carro dele tinha um buquê de flores que acho que ele tinha ganhado da escola. Ele arrancou uma rosa, estendeu para mim e falou, tá aqui o meu autógrafo, garoto. Sócrates era o capitão daquela seleção de 82 e ele sabia poesia dentro de campo, mas também fora de campo.

TCTomás Chiaverini

Coincidentemente ou não, a primeira Copa de que o Fábio Luiz se lembra foi a de 1982.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Eu tenho duas lembranças. A primeira foi do jogo de estreia, o Brasil contra a União Soviética. A primeira lembrança que eu tenho é do frango que o Waldir Pérez tomou. E depois da virada espetacular, porque a União Soviética era um time muito difícil e tinha o melhor goleiro do mundo naquela época, provavelmente, o Dazayev. A virada veio no segundo tempo, primeiro gol aos 30 e poucos com um golaço do Sócrates, um chute de fora da área, e depois um gol do Éder quando faltava, se eu não me engano, 2 minutos para acabar.

Um lance fantástico que o Falcão sai andando como se ele tivesse indo passear e a bola passa no meio da perna dele. O Éder dá uma levantadinha, chuta. Essa é a minha primeira lembrança.

TCTomás Chiaverini

E foi a primeira de muitas boas lembranças. Nos jogos seguintes, o Brasil mastigou as seleções da Escócia e da Nova Zelândia. O clima era de empolgação máxima.

JKJuca Kfouri

Aquela seleção transmitida pela TV Globo com exclusividade Ela despertou coisas que você, nem eu, que já tinha àquela altura 12 anos de carreira como jornalista e 32 anos de idade, nunca tinha visto no estádio de futebol. O Brasil fazendo evoluções no gramado em Sevilha, no sol das 10 horas da noite, com a banda do navio-escola Custódio de Melo tocando a Quarela do Brasil. Que não era uma música típica dos estádios, mas que a banda, que o navio escola que tinha aportado ali no porto de Guanduquevira e desceu para ver o jogo proporcionou.

Agora você imagina para um amante do futebol o que é estar vendo uma seleção tocando bola, Falcão para Cerezo, Cerezo para Zico, Zico para Sócrates, Sócrates para Éder, Éder de volta para Júnior, E a banda tocando.

TCTomás Chiaverini

E aqui até você, meu ouvinte, que como eu não é amante de futebol, há de convir que existe um bom tanto de poesia nessa descrição do Juca, né?

JKJuca Kfouri

Então isso tudo Criou um ambiente mágico que a gente dizia: não, o Brasil vai ganhar esse troço e vai ganhar sambando.

TCTomás Chiaverini

E quando a segunda fase do mata-mata começou, o ambiente seguiu mágico. No primeiro jogo, o Brasil ganhou fácil da Argentina, o que deixou a seleção a um empate com a Itália para chegar às semifinais. E assim a gente chega na segunda lembrança que o pequeno Fábio Luiz tem da Copa de 1982.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Foi a primeira vez que eu vi meu pai chorar.

TCTomás Chiaverini

Muito bem, esse é o locutor Luciano do Vale narrando para TV Globo.

JKJuca Kfouri

Tudo leva a crer que teremos hoje uma excelente apresentação e uma grande vitória, passando assim para a semifinal quando o Brasil pegaria a Polônia. Vai começar o grande jogo aqui em Barcelona.

TCTomás Chiaverini

A saída de bola era do Brasil e do outro lado dava uma Itália desacreditada. O principal jogador deles, Paolo Rossi, tinha cumprido 2 anos de suspensão por ter se envolvido com um cambalacho dos mais atuais, um escândalo relacionado a apostas.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Na primeira fase, para você ter uma ideia, o Brasil tinha feito 10 gols, a Itália tinha feito 2, a Itália tinha empatado todos os jogos, o Brasil tinha vencido os 3. Mas a Itália ganhou da Argentina por 2 a 1, o Brasil também ganhou da Argentina, mas por 3 a 1. Então o Brasil levava vantagem. Do empate.

JKJuca Kfouri

E essa seleção teve momentos de um futebol de sonhos que as pessoas pareciam ter esquecido que os brasileiros eram capazes de jogar.

TCTomás Chiaverini

Mas futebol é futebol, né? E quando a bola rolou, bateu bem aberto e o gol de Paulo Rossi! Gol de Paulo Rossi em pouco tempo, dentro da pequena área, fazendo o tiro, fazendo o giro e marcando o terceiro da Itália. O jogo começou a ficar traumático para o Brasil, terceiro da Itália, Paulo Rossi, e terminou na derrota que ficaria conhecida como a tragédia do Sarriá.

JKJuca Kfouri

Então virou a tragédia do Sarriá. Vai apitar, Klein.

TCTomás Chiaverini

Acabou o jogo, acabou o jogo.

JKJuca Kfouri

Classificou a Itália, está desclassificado o Brasil, 3 a 2, num dos maiores jogos de todos os tempos. Eu nunca me esqueço de uma manchete de um jornal andaluz que dizia isto quando o Brasil foi eliminado pela Itália: não se entende mais esse mundo. Brasil eliminado. E não é que tenha sido uma injustiça o jogo em Sarriá, porque a Itália aquela tarde jogou melhor que o Brasil. Jogasse 10 vezes, perderia 8, empatava uma e ganhava aquela. Mas aquela ganhou com justiça e foi um jogaço.

TCTomás Chiaverini

E aí, você me ouvinte que arrancou os cabelos no 7 a 1, mas não tinha idade para ver a Copa de 82, Talvez esteja se perguntando por que cato a gente foi desenterrar essa derrota para a Itália. E a primeira resposta para isso está na forma como o mundo e o Brasil em especial reagiram a essa derrota.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

O Brasil perde a Copa de 82 e termina. O Telê Santana é ovacionado na coletiva de imprensa. Os jornalistas se levantam e aplaudem. E o Falcão diz: o Brasil perdeu a Copa, mas conquistou o mundo. As melhores experiências, tudo que dá sentido à vida, não tem a ver com o imperativo da produtividade. O Vinícius de Moraes já falava que é melhor ser alegre do que ser triste, mas sem tristeza não se faz um samba não. Então a gente gosta da festa, mas o samba se faz na tristeza, assim como a vida é feita de alegrias e tristezas.

Então a derrota de 82, ela faz parte Vamos dizer, das tristezas, mas das tristezas que tem beleza por trás. Ali inclusive a postura dos jogadores até o final, né? O Sócrates aplaudindo a Itália quando termina o jogo.

JKJuca Kfouri

Aqueles caras mereciam ganhar, aqueles caras eu queria trazer para casa, aqueles caras eram pessoas com quem eu gostaria de conviver. Isso também se esgarçou. Com a distância entre as pessoas e com as novidades do media training, do treino secreto, do distanciamento físico entre os jogadores e o torcedor.

TCTomás Chiaverini

Eu tô escrevendo esse roteiro no comecinho da Copa do Mundo. O Brasil só enfrentou o Marrocos numa atuação medíocre que terminou com um empate. Ainda tem muito gramado pela frente e tudo pode mudar, porque enfim, futebol, né? Só que nesse momento, sem querer azarar, mas já pensando numa eventual derrota desse povo, eu não teria vontade de levar nenhum deles pra casa. E de novo, não sou só eu, ou no caso, não somos só nós. Uma pesquisa de 2023 do Grupo Itatiaia mostrou que 58% das pessoas preferiam ver o seu time jogar contra 38 que preferiam a seleção.

Diante disso tudo, eu achei uma boa perguntar pro Juca Kfouri por que afinal a gente tá cada vez mais afetivamente afastado daquele grupo de jovens que desempenham a brava missão de defender a bandeira nacional aos olhos do mundo. Antes de me responder, como bom contador de histórias que é, o Juca achou por bem dar uma contextualizada. Faz sentido, né? Bora entender melhor o amor, antes de tentar entender o desamor.

JKJuca Kfouri

Eu passei a cobrir Copas do Mundo nos bastidores da redação de placar em 1970. Assim foram as Copas de 70, 74, 78. Em 82 eu faço a primeira cobertura in loco e aí cobri todas até o Catar, com exceção da Copa na Ásia, que eu preferi ficar aqui porque eu queria muito ver como seria o comportamento do Brasil, de São Paulo, cidade onde eu vivo, numa Copa do Mundo que foi disputada de madrugada no horário brasileiro. Se ia ter fogos, queria ver os prédios se iluminando, enfim.

TCTomás Chiaverini

Mas uma coisa é cobrir Copa do Mundo, outra coisa é assistir Copa do Mundo.

JKJuca Kfouri

Eu não posso tentar te responder essa questão sem me lembrar de que a primeira Copa que eu tenho clareza na memória é a de 58, quando eu já tinha 8 anos de idade, gostava já muito de futebol.

TCTomás Chiaverini

Tinha figurinha na época?

JKJuca Kfouri

Sim, sim, as figurinhas eram bem menos sofisticadas, não eram autoadesivas e tal, eram melhores também para bater bafinha porque elas eram mais leves. Mas enfim, essa primeira Copa eu ouvi ao lado do meu pai ouvindo rádio, mas segui todos os jogos. 62, já com 12 anos, acompanhei também pelo rádio com meu pai, mas já víamos os tapes no dia seguinte aos jogos. Nem sempre o jogo inteiro, porque as fitas de videotape chegavam pela Varig, vindo de Santiago do Chile.

Era um voo que saía, se não me engano, às 9 horas da noite, e às vezes não conseguia esperar os dois tempos. Então você via um tempo num dia, numa noite, e o outro tempo na noite seguinte.

TCTomás Chiaverini

Preto e branco ainda, né, nessa época?

JKJuca Kfouri

Sim, preto e branco. A Copa de 70, que as pessoas todas, se você perguntar, te dirão que viram em cores, não viram em cores, viram em preto e branco. Só viram em cores aqueles mais próximos ao governo da ditadura militar que tinha um convite para os postos da Embratel. Na Embratel já se recebia os sinais coloridos, mas nós não tínhamos monitores em cores ainda no mercado brasileiro. Só que como depois, né, popularizou-se a TV em cores e os tapes eram em cores, todo mundo tem a ideia de que viu a Copa em cores, mas não, viu a Copa em preto e branco.

TCTomás Chiaverini

E assim, com um gol do Pelé ao fundo, a gente finalmente tem uma primeira resposta pra pergunta que guia esse episódio: por que a gente não vê mais a seleção como via antes? E é uma resposta um tanto quanto previsível.

JKJuca Kfouri

É que esses jogadores foram embora muito cedo do Brasil. E você não criou vínculos com eles. Isto dificulta o vínculo com a seleção.

TCTomás Chiaverini

Mas, como costuma acontecer por aqui, ela é só uma parte da resposta. A parte visível. A gente ainda vai mergulhar na parte invisível. No que tá por trás da fuga de chuteiras cada vez mais novas. Mas antes, eu vou dar um passo atrás. Pra gente investir em outra resposta que vai se somar a essa do Juca. Fábio Luiz, por favor.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

No futebol se projetava a melhor versão de nós mesmos enquanto potencial de humanidade. Pasolini, intelectual italiano, descreveu como futebol de poesia, em oposição ao futebol europeu, que seria o futebol de prosa, né? A intuição que tá por trás dessa leitura é de que é a possibilidade de você vencer jogando bonito, que na vida ser o equivalente de você ter uma sociedade, vamos dizer, produtiva, enriquecida, mas com prazer, com fruição, com gozo da vida.

Então, o futebol brasileiro, eu entendo que ele, como poesia, ele se projetava como uma espécie de antítese do trabalho, no sentido de que é um jogo, é um futebol que nem sempre é produtivo. Num jogo de futebol há muitos momentos de improdutividade, Pelé é muito lembrado na Copa de 70 por dois gols maravilhosos que ele não fez.

TCTomás Chiaverini

Existe até o gol que o Pelé não fez, um chute de antes do meio do campo contra a Tchecoslováquia que devia ter entrado, mas não entrou.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Claro que o futebol brasileiro sempre teve esquema, sempre teve tática, mas a sua grande força residiu na improvisação de talentos em todas as posições, né?

TCTomás Chiaverini

Isso, claro, não quer dizer que o futebol não fosse levado a sério. Um dos maiores traumas da história do Brasil tem a ver com uma derrota no futebol. E não, caro ouvinte, eu não tô falando do 7 a 1 ainda. Eu tô falando da final da outra Copa disputada no Brasil, há 76 anos.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

O Maracanã foi construído como o maior estádio público da sua época. E aquele é, eu acredito, que é o maior público registrado numa Copa do Mundo até hoje, quase 200 mil pessoas, né? Então a vocação do Maracanã, que eu acho que era a vocação do Brasil que tava colocado naquele momento, é uma vocação integradora. Vamos todos entrar. Uma Copa que o Brasil era franco favorito, era também um quadrangular final. O Brasil tinha amassado a Espanha por 6 a 1, a Suécia por 7 a 1, jogava contra o Uruguai pelo empate. Maracanã completamente lotado, o Brasil sai ganhando, mas leva a virada, né?

TCTomás Chiaverini

Essa derrota, como só ia acontecer com as derrotas verdadeiramente maiúsculas, tem nome próprio: Maracanaço.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

A reação da torcida é o silêncio, uma reação de luto.

TCTomás Chiaverini

E talvez isso se deva a uma pátina de nostalgia, mas o Fábio Luiz vê alguma beleza no Maracanaço.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

E aquele silêncio que foi vivido em 1950, ele foi triste, como Vinícius de Moraes sabe, mas ele podia dar samba, né? Ele é um silêncio que, vivido em comunhão, ele teve a sua beleza. Naquele momento, o Brasil não tinha ganhado nenhuma Copa ainda. O Brasil era um país do futuro e as glórias do futebol brasileiro ainda estavam por ser construídas. Então, aquele luto, ele foi vivido como uma tristeza profunda, mas não como algo paralisante, né?

TCTomás Chiaverini

E assim a gente volta à pergunta do episódio, porque para o Fábio Luiz Borges de Santos, uma parte da resposta está justamente numa derrota que não é o Maracanaço, é outra derrota da qual a gente já falou, de 1982. Porque pro Fábio Luiz, ainda que os jogadores tenham reagido bem, ainda que o mundo tenha aplaudido e louvado a beleza do futebol, esse futebol foi derrotado. O jeito brasileiro de jogar futebol foi derrotado.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Ali eu tive a percepção de que alguma coisa havia se quebrado. Esse sentimento de que aquela poesia nunca mais voltará é que foi chorado pelas lágrimas do meu pai.

TCTomás Chiaverini

Pro Fábio Luiz, a partir dessa derrota, o futebol brasileiro entrou num processo de extinção.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

O futebol brasileiro entendido como essa forma própria de jogar, não futebol jogado no Brasil, que continua competitivo, vence a Copa em 94, vence em 2002, mas no longo prazo, como a gente está percebendo agora, fica mais evidente, né? Essa europeização do futebol mundial, essa nivelação do futebol segundo a régua do padrão europeu de jogar, ela tem desfavorecido inclusive a competitividade internacional da seleção de jogadores do Brasil.

TCTomás Chiaverini

Nesse momento, você, meu ouvinte arguta, pode estar se perguntando: tá, mas o Brasil perdeu 1,50 no Maracanã lotado, por que essa derrota não fez o nosso futebol entrar num processo de extinção? Pro Fábio Luiz, isso tem a ver com um grande motor do nosso mundo: a grana. Que, por sua vez, tem a ver com o tamanho que o futebol ganhou. Que, por sua vez, tem a ver com ela: a televisão.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

A partir do momento que o futebol é televisionado, e a Copa de 70 é a primeira que tem a televisão ao vivo, aquilo rompe com um limite econômico do futebol, que é o limite das pessoas que podem comparecer para assistir um jogo. Isso multiplica as cifras e vai levar a profissionalização dos atletas a um outro patamar, inclusive de exigência física, atlética, que, para resumir, a sensação que vai dar é que o campo vai encolher, os atletas vão correr muito mais, o jogo vai ficar muito mais físico.

TCTomás Chiaverini

Nesse processo, os atletas viraram super-humanos. Tem um estudo mostrando que na década de 1970 os jogadores corriam em média 5 km numa partida. Hoje, um jogador chega a correr 15 km, 3 vezes mais.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Essas transformações dentro do campo, elas vão desfavorecer o futebol do drible, quando é o futebol de poesia, que exige espaço. Tudo isso tá mais próximo do estilo europeu, desfavoreceu a iniciativa pessoal, individual, que caracterizava a poesia brasileira. Ao mesmo tempo, você tem um processo que ia estar acontecendo fora. Que tá ligada à globalização.

TCTomás Chiaverini

E assim, as respostas que pareciam separadas acabam se juntando para explicar um mesmo fenômeno: a famigerada fuga de chuteiras, que cresceu exponencialmente na segunda metade do século passado. Uma boa forma de exemplificar isso é olhando para os convocados do Brasil em cada Copa. Até 1978, todos os jogadores do Brasil atuavam em território nacional. Isso só mudou em 1982, quando Falcão, da Roma, e Dirceu, do Atlético de Madrid, foram chamados pelo Telê Santana.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Falcão jogou na Itália, por exemplo. Sócrates também teve uma curta experiência, o Zico. Todos eles tiveram curtas experiências, mas são curtas. Tanto é que cada um deles é associado a um clube brasileiro.

TCTomás Chiaverini

E aí vieram os anos 90, e com eles veio a Lei Bosman, batizada em homenagem ao jogador belga Jean-Marc Bosman. O Bosman jogava na Bélgica num time belga, e quando o contrato com esse time terminou, ele resolveu que ia atuar na França. O time belga deu aquela conferida no contrato e disse: não, você não vai não, queridão. E o time tava amparado na legislação vigente até ali. Naquela época, um jogador não podia mudar de clube quando quisesse, mesmo com o contrato terminado.

O clube era dono do passe do jogador, enquanto o contrato só regia o salário. Isso deixava os atletas totalmente amarrados aos clubes. O Bosman não achou graça e processou as federações nacionais e continentais, alegando que estavam impedindo ele de decidir onde trabalhar. Como no fim das contas era isso mesmo que estava acontecendo, ele ganhou o processo. E isso mudou o futebol para sempre quando a Lei Bosman entrou em vigor.

Cada vez mais jogadores entraram nos campeonatos europeus, abrindo espaço para os sul-americanos, que viviam num contexto de hiperinflação e, claro, também queriam ganhar mais dinheiro. Como resultado, na Copa de 1990, pela primeira vez na história, a maioria dos 22 brasileiros convocados jogavam em times europeus. Esse fenômeno foi se agravando nas Copas seguintes, até que em 2006 só 3 dos convocados atuavam no Brasil.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

A abertura dos mercados vai mudar, afetar profundamente a natureza do futebol jogado no Brasil, porque os clubes cada vez mais eles vão deixar de operar em função do objetivo de formar equipes para vencer campeonatos e vão operar cada vez mais como vitrines de jogadores para serem comercializados com futebol internacional, preferencialmente europeu.

?Voz C

Sei lá quantos jogadores brasileiros profissionais tem no mundo, né? Tem jogador brasileiro jogando na Indonésia, no Catar, em todos os países do mundo deve ter pelo menos um jogador brasileiro, mas os bons eles estão indo cada vez mais cedo para Europa.

TCTomás Chiaverini

Um exemplo recente é o Endrick, promessa da Copa de 2026.

?Voz C

E aí ele foi para o profissional com 16 anos, e quando ele pisou no profissional do Palmeiras para jogar o primeiro jogo dele, ele já estava vendido para o Real Madrid por mais de 60 milhões de euros, que na conversão deve dar uns 300 milhões de reais. Ele nunca tinha chutado uma bola profissionalmente na vida dele e ele já estava vendido.

TCTomás Chiaverini

O Hendrik só ficou no Palmeiras até os 18 anos porque não é permitido que menores sejam vendidos para o exterior. E aí esse fenômeno envolve vários fatores. O mais elementar deles é o financeiro. Os clubes europeus têm muito dinheiro e para completar tem um câmbio jogando a favor deles.

?Voz C

Em 2002, o dólar e o euro para o real tinha uma conversão que não era de 5 para 1 nem de 6 para 1, entendeu?

TCTomás Chiaverini

Entendi.

?Voz C

E aí do final ali da década de 2000 pra frente, o dólar e o euro, eles começam uma disparada. E aí os times brasileiros, eles não têm mais dinheiro pra manter os caras aqui.

TCTomás Chiaverini

Isso é meio que jogo jogado, não tem muito como escapar dessa lógica.

JKJuca Kfouri

Porque veja, o Real Madrid, quando resolve, vai na Alemanha e compra o melhor jogador do campeonato alemão, vai na Inglaterra e compra o melhor jogador do campeonato inglês.

TCTomás Chiaverini

Mas aí, de novo, isso explica uma parte do problema.

JKJuca Kfouri

O Brasil é uma economia mais forte que a espanhola, é mais forte que a italiana. O mercado publicitário brasileiro é maior do que o italiano, do que o espanhol. Isto não impede que o Real Madrid venha aqui e leve o Neymar embora, ou Barcelona, mas deveria impedir que leve o Endrick, que leve o Estevão, que leve o Vini Júnior ainda antes dos 18 anos. Como se o futebol brasileiro fosse organizado nos termos em que a Primeira Liga é organizada, nos termos em que a Bundesliga na Alemanha é organizada.

Nós não temos sequer uma liga. Até hoje os clubes brasileiros não chegaram a um acordo para ter uma liga. E quem organiza o futebol no Brasil é a CBF, cujo maior interesse é a seleção brasileira, e fará tudo pela seleção brasileira E se isso custar como custa, a subalternidade dos clubes manterá os clubes subalternos. Nós não temos mais essa oportunidade de expor os nossos times, de fazer dinheiro para manter aqui os nossos jogadores. Então a gente virou vendedor de commodities, vendedor de matéria-prima.

TCTomás Chiaverini

E nessa sua analogia, a gente vende cada vez mais commodities, né? Aqui só para desdobrar a analogia. Commodity é matéria-prima. O Brasil tem um problema histórico de exportar matéria-prima e comprar produtos manufaturados, o que gera um desequilíbrio eterno nas contas, porque produtos manufaturados são mais caros. Na analogia, um jogador em começo de carreira é a matéria-prima que vai sendo trabalhada, no caso por treinadores, preparadores físicos, nutricionistas e fisioterapeutas, para virar um atleta de ponta devidamente manufaturado. Como a gente vem dizendo, ele é mais commodity do que manufatura, certo?

JKJuca Kfouri

Exatamente. E depois reimportamos quando eles estão no final da carreira, como tantos jogadores. Como a gente fazia no Brasil Colônia e no Brasil agrícola durante muitos anos, de vender matéria-prima e comprar manufaturado, a gente faz hoje com jogador.

TCTomás Chiaverini

E isso não afeta só a nossa relação afetiva com a seleção, afeta também o tipo de futebol que tá sendo jogado.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

O futebol brasileiro, ele vai sendo nivelado, vai sendo organizado em função da régua do futebol europeu. Então os jogadores indo cada vez mais cedo, eles vão se desenvolver para atender aos requisitos do futebol jogado na Europa. Então a Copa do Mundo hoje, se você tira as camisas dos times e mistura, você não sabe o time de que continente é.

TCTomás Chiaverini

E mais, hoje a gente pode até questionar até que ponto a seleção segue sendo genuinamente brasileira. Em 2025, a CBF renovou o contrato de fornecimento de materiais esportivos com a Nike. O primeiro contrato entre CBF e Nike tinha sido assinado em 1996 e tinha intensificado o movimento de internacionalização da seleção. Um dos efeitos colaterais desse movimento foi que a seleção basicamente parou de jogar no Brasil, pelo menos quando tinha chance de escolher.

A venda de amistosos fora do país virou uma fonte de renda relevante para a CBF, que fechou contrato com empresas europeias especializadas nisso. Entre 2002 e 2012, por exemplo, só 8 de 62 amistosos do Brasil foram jogados em estádios nacionais. E aí, já viu, né?

JKJuca Kfouri

Todo mundo esperava quando chegaram de novo, chegaram de novo, chegaram de novo.

TCTomás Chiaverini

Não tem como falar do afastamento da seleção sem falar do 7 a 1.

JKJuca Kfouri

Nem o mais pessimista torcedor poderia imaginar que a essa altura do primeiro tempo, o Juca Kfouri, claro, tava lá quando a tragédia aconteceu, a Alemanha estivesse vencendo por 3 a 0.

TCTomás Chiaverini

E quando a gente perguntou sobre isso, ele lembrou da interação com uma colega jornalista alemã que falava português e que ele conhecia de outras coberturas.

JKJuca Kfouri

Intervalo do jogo no Mineirão, 5 a 0 para Alemanha. Eu vou em busca de uma garrafa d'água, encontro com ela no meio do caminho, ela também em busca de uma garrafa d'água. Ela olha para mim e diz assim: Xuca, o que está acontecendo? E eu falo para ela: eu não sei te explicar, eu não sou nem capaz de estar triste e eu não sou nem capaz de estar alegre. Parece um jogo de crianças contra adultos. Eu escrevia, olhava para o gramado, escrevia, olhava para o gramado, que eu tinha que pôr a minha coluna imediatamente após o jogo.

De repente, eu olhei para o gramado e vi um gol igualzinho o gol que tinha acabado de escrever no laptop. Pensei, viciado na televisão, ah não, isso é replay.

TCTomás Chiaverini

Só que você tava lá.

JKJuca Kfouri

Eu tava lá, não era replay. Era, sei lá, o quarto gol, e eu tava achando que era o replay do terceiro.

TCTomás Chiaverini

Era Deus brincando de replay.

JKJuca Kfouri

Exatamente. E lá vem mais, e lá vem mais! Olha a bola tocada, virou passeio! Gol da Alemanha! As lágrimas do menino. Isso significa tudo e não significa nada ao mesmo tempo, porque não existe essa diferença de 7 a 1 de ninguém para a seleção brasileira. Por quê? Por quê? Nunca aconteceu nada nem parecido e nunca mais vai acontecer de um país 5 vezes campeão mundial numa semifinal de Copa do Mundo em casa perder de 7 a 1. Isso é um negócio assim Isso é bom para quem acredita em Deus, entendeu?

Foi um sinal que Deus quis mandar para arrogância brasileira, que ninguém é rei de coisa alguma, que ninguém domina nada a esse ponto, entendeu? E tanto isso é verdade que, se não me engano, um ano depois, ou pouco mais de um ano depois, o Brasil fez um amistoso com a Alemanha na Alemanha e ganhou da Alemanha. Se a diferença fosse 7 a 1, No mínimo não teria ganhado.

TCTomás Chiaverini

Esse amistoso foi disputado em março de 2018, quase 4 anos depois do 7 a 1. Entre os brasileiros, só 5 dos 14 jogadores tinham entrado em campo no 7 a 1.

JKJuca Kfouri

E na Copa seguinte, o Brasil foi como um dos favoritos e foi para o Catar também como um dos favoritos.

TCTomás Chiaverini

Você tinha que idade nesse jogo, Matheus?

?Voz C

2014, tinha 11, 12, 11.

TCTomás Chiaverini

Você assistiu esse jogo?

?Voz C

Você assistiu esse jogo, cara? É criança, criança é foda, né, mano? Assistir, eu lembro depois do quinto gol, é uma anestesia, né, geral. Parece que não tá acontecendo. Levar 5 gols num primeiro tempo é muito gol, cara.

JKJuca Kfouri

Eu vou te dizer uma coisa, não sei se o Mateus que acompanha mais de perto vai concordar, porque eu sei que é polêmico, mas eu defendo a tese que é a seguinte: o Brasil sofreu muito mais em 50 no Maracanã. Eu tinha 6 meses, tá? Não tinha nenhuma lembrança disso. O Brasil sofreu muito mais no Maracanazo do que sofreu no 7 a 1.

TCTomás Chiaverini

Você chorou, Matheus? Caiu no choro?

?Voz C

Se eu chorei? Se eu chorei? Se eu chorei? Você tá perguntando se uma criança chorou assistindo 7 a 1? Depois do terceiro gol já tava chorando, cara, e ainda levou mais 4 depois disso. E isso porque o segundo tempo eu assisti bem espaçadamente, eu não tava assistindo inteiro mais, porque os pais têm que ter alguma responsabilidade com as crianças, né? Não tem porque deixar a criança 45 minutos a mais chorando na frente da televisão, virou tortura já.

TCTomás Chiaverini

E aí, 4 dias depois A ferida do trauma ainda em carne viva, o Brasil foi disputar o terceiro lugar contra a Holanda.

?Voz C

E já tava todo mundo tipo, porra, pra quê, né? A gente levou 7, não precisa ter mais um jogo. E aí teve uma disputa de terceiro lugar contra a Holanda, que foi a seleção que eliminou o Brasil na Copa anterior, em 2010, que o Matheus de, sei lá, 7 anos também já chorou muito por causa dos holandeses. E na disputa de terceiro lugar, a Holanda enfiou 3 a 0 no Brasil também. Então o Brasil, em um intervalo de 5 dias, 2 jogos, levou 10 gols.

Foi muito humilhante. Na história do futebol mundial não existe nada mais humilhante do que o Brasil viveu nesses 5 dias.

JKJuca Kfouri

Sobre o Maracanazo, Eu vi milhares de depoimentos, li 4 ou 5 livros terríveis, e de alguma maneira me dói até hoje que o Brasil perdeu do Uruguai por 2 a 1 quando jogava pelo empate e saiu na frente ganhando de 1 a 0 no Maracanã. Em mim dói até hoje. O 7 a 1 virou meme em 5 minutos depois que acabou o jogo no Mineirão. Foi um negócio tão absolutamente fora da casinha que virou graça. Não é uma coisa que traumatiza, é uma coisa que ridiculariza. 2 a 1 para o Uruguai traumatizou.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Em 1950, claro, teve tristeza. O afeto prevalente foi tristeza. Em 2014 foi vergonha. Eu acho que ali naquele 7 a 1 do drama, daqueles gols, 4 gols que aconteceram em 6 minutos, isso sim deve ser um recorde mundial. É como se os brasileiros assistissem ao derretimento da promessa de nação ao vivo, né, numa linguagem que muitos brasileiros entendem, né. Então, diante da vergonha, essa disposição de reclamar, de recuperar uma nação expropriada pelo outro vermelho.

TCTomás Chiaverini

Sim, o outro vermelho no caso é o PT. E isso faz a gente pensar, fez muita gente pensar, Qual foi o peso do 7 a 1, dessa humilhação clara, explícita, pornográfica num palco mundial? Qual foi o impacto desse trauma coletivo na nossa autoimagem como nação? E mais, até que ponto essa derrota influenciou no desmantelamento político que começou ali por 2013?

JKJuca Kfouri

Eu acho que a vergonha da seleção brasileira, a vergonha da CBF. Veja você, Matheus, para aqueles que fazem uma conexão entre a vitória esportiva e a vitória eleitoral. O Brasil tomou de 7, foi eliminado em casa, e a presidenta que tava no governo foi reeleita. O presidente do Brasil campeão do mundo em 58, Juscelino Kubitschek, morreu caçado pela ditadura militar. O presidente do bicampeonato, João Goulart, morreu caçado pela ditadura militar.

O João Figueiredo, que foi, aliás, presidente Médici, não Figueiredo, o presidente da ditadura quando o Brasil ganhou o tricampeonato mundial, o presidente do radinho de pilha, entrou para a história como presidente do período mais terrível da ditadura brasileira, onde mais se matou e torturou patriotas brasileiros. A Copa não é imputada a ele, é imputada ao Pelé, ao Tostão, ao Rivelino, ao Gerson, ao Carlos Alberto, aos heróis verdadeiros daquela Copa. Então essa relação não é direta deste jeito.

TCTomás Chiaverini

O historiador Fábio Luiz Borges Santos tem uma visão um pouco diferente.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

O Brasil conquistou sediar a Copa do Mundo em 2007, num momento muito diferente, né, em que o lulismo tava no seu auge, ainda em ascensão, até 2010, né. 2014 era um momento muito diferente. Mas veja você o paradoxo, né, porque aquela Copa e aquele estádio só foram possíveis por causa do prestígio internacional e da competência que aquela gestão teve empleitear essa possibilidade de sediar a Copa e depois ainda por cima as Olimpíadas.

Mas as pessoas que entraram, que estavam, vamos dizer, participando da festa naquela arena, não eram os torcedores que se acostumaram a ver os jogos nas arquibancadas, nas gerais dos estádios pelo Brasil, mas era uma classe alta, média alta, numa melhor das hipóteses branca, e que ali se rebelou contra aqueles que tinham permitido, criado as condições daquela experiência que elas estavam vivendo.

TCTomás Chiaverini

E aí, de novo, é importante a gente lembrar de 2013, dos protestos que começaram como uma luta por tarifas mais baixas no transporte, foram sendo ocupados por uma classe média alta com descontentamentos difusos, até que acabaram capturados por movimentos de direita como o Vem Pra Rua e o Movimento Brasil Livre, o MBL, que inclusive fagocitou o nome do movimento original, o Movimento Passe Livre, ou MPL.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Em 2014, você tinha um desencanto geral também com as possibilidades de realização do próprio país. E então o que emerge ali naquele estado não é um grito, não é um sentimento, uma disposição afetiva de quem quer fazer país, mas é uma disposição afetiva de quem quer se rebelar contra esse horizonte, reivindicar o país para si numa outra linguagem, que não vai ser mais a linguagem da inclusão, da integração social, mas vai ser a linguagem do nós contra eles.

TCTomás Chiaverini

O paradigma máximo desse movimento foi o sequestro da camisa da seleção pela extrema-direita. E mesmo o Juca, que como você escutou vê com certa desconfiança essa transposição do clima em campo para o clima político, se irrita com a elitização e a homogeneização do público nos estádios.

JKJuca Kfouri

Essa foi uma das razões pelas quais eu pedi para não ir para esta Copa, porque não aguentava mais pela quarta vez assistir essa cena. É a torcida uniformizada brasileira paga pelos patrocinadores cantando Sou Brasileiro com muito orgulho, com muito amor, que não é uma canção de incentivo, é de acalanto, é para você dormir. Põe o seu menino para dormir cantando essa música, ele dorme em 3 minutos. É, em última análise, uma canção da elite brasileira que pode ir para Copa do Mundo fora do Brasil e tal, tem esse dinheiro todo.

Não é do cara que se sacrifica para ir ver o seu time de coração. Não é o corinthiano que vendeu o carro para ir para o Japão ver Corinthians e Chelsea. Não, é outra gente.

TCTomás Chiaverini

E se o fenômeno mudou, mudaram também os ídolos.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Ele está no mundo das redes sociais, que transformam eles também em indústrias culturais de si mesmo. Então Neymar, como a gente tá percebendo no Brasil, é muito mais do que um jogador. Ele Ele carrega significados muito além do que ele faz em campo. O Ronaldo já era, foi o primeiro jogador que se produzia como imagem, mas o Ronaldo é pré-redes sociais, né? Então o Neymar pôde inclusive influenciar a sua própria convocação. Então todos esses jogadores são produtores de imagens, eles têm muita consciência disso.

Aquele episódio em que o Ronaldo convidou 3 jogadores para comer picanha banhada a ouro, né? É um prato que não faz sentido você pedir no iFood, porque é um consumo que existe para ser mostrado. E aquela seleção também se mostrava em campo. Segundo o Rafinha, eles ensaiaram 10 danças para os gols. Vocês lembram que eles faziam danças quando aconteciam os gols? É como se a falta de irreverência com a bola dentro de campo pudesse ser compensada por uma irreverência fora de campo, né?

Só que a gente não viu todas aquelas danças porque o Brasil só fez 8 gols. E no gol mais importante, porque foi o mais dramático, mais necessário, esse gol do Neymar contra a Croácia, naquele gol espetacular que condensa o melhor do futebol brasileiro, futebol brasileiro na sua hora mais verdadeira, naquele gol ninguém dançou. Tem uma filha que tava assistindo um documentário sobre a Copa de 94 do Brasil. Aí eu assisti só um pedacinho em que o Romário e o Bebeto falavam do gol que eles fizeram, que o Bebeto fez, contra os Estados Unidos na Copa de 94, que foi um jogo muito difícil porque o Leonardo foi expulso no primeiro tempo.

Eles falam do medo de voltar para o Brasil no intervalo, que eles acham que eles, que eles se confrontam com a possibilidade que eles não vão ganhar aquele jogo. E eles falam do medo de voltar para o Brasil. Isso não tá mais colocado, né? Primeiro porque os jogadores nem voltam para o Brasil.

TCTomás Chiaverini

Para o Fábio Luiz, esse movimento todo fez com que a relação do torcedor com os jogadores mudasse radicalmente. Ele fez uma comparação com o presidente de extrema-direita de El Salvador, Nayib Bukele. E tá, se você sabe quem é o Nayib Bukele, talvez você esteja achando que o nosso historiador tá forçando um pouco a mão. Mas calma, vem comigo, que no fim a coisa faz algum sentido.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

El Salvador tem um presidente chamado Nayib Bukele, é a vanguarda, vamos dizer, dos bolsonarismos mundiais, porque ele é um profissional da política do espetáculo, um cara que veio da propaganda, é um jovem Ele não tem improvisação, ele é um profissional disso. E ele é um bilionário, nasceu milionário. E aí você fala assim, como é que ele constrói identificação com o povo? Ele não constrói identificação. O povo salvadorenho, muitos que o apoiam, né, é por uma espécie de aspiração.

Então eu entendo que esses jogadores, o Neymar, né, que tem tantos milhões de seguidores, eles produzem por um outro caminho que não é mais o caminho da identificação. Nem pessoal e nem a identificação que passa pelo nacional. Ela passa por uma sensibilidade, um aspiracionismo que tem a ver com uma subjetividade, vamos dizer, empreendedora. Ele fala com brasileiros que, se tivessem a oportunidade, também sairiam do Brasil.

TCTomás Chiaverini

E assim, é claro que tem muita gente querendo sair do Brasil, É claro que tem muita gente querendo viver em iates, cercado por modelos, comendo picanha folheada a ouro. Mas esse é o sintoma de um problema, não é a causa. E onde tá a causa? Lá atrás o Juca falou da desorganização do futebol, de como a gente não consegue nem ter uma liga única. Mas isso também tem cara de sintoma, não de causa. Então, Juca Kifuri, a causa, por favor?

E se a gente fosse um pouquinho atrás assim, porque tá tudo bem, é organização, né? Então a gente tem um problema sério de organização do futebol que é histórico. E onde que tá a origem dessa desorganização? É política? É corrupção? É por que que a gente não consegue se organizar? A gente consegue organizar outras coisas, né?

JKJuca Kfouri

Tomás, tem a ver com tanta coisa da nossa herança genética judaico-cristã. Cartorial das capitanias hereditárias. Eu vou te dar só uma explicação, Tomás. O futebol brasileiro é organizado de acordo com quem estudou história sabe, as velhas capitanias hereditárias. Nós temos 27 federações estaduais que têm mais peso do que todos os clubes de futebol no Brasil. Com todo respeito, a Federação de Roraima tem mais peso que o Flamengo.

TCTomás Chiaverini

Caramba!

JKJuca Kfouri

A Federação de Rondônia tem mais peso que o Corinthians. Falei dos dois clubes mais populares do Brasil.

TCTomás Chiaverini

Esse peso vem de onde? Me explica, Juca, por que que eles têm? Da onde que vem o poder da Federação de Roraima?

JKJuca Kfouri

São os fundadores da CBF, que então chamava-se CBD antes de chamar a CBF.

TCTomás Chiaverini

A CBD, Confederação Brasileira de Desportos, foi rebatizada de CBF, Confederação Brasileira de Futebol, em 1980.

JKJuca Kfouri

E até hoje, o peso dessas federações na eleição do presidente da CBF é peso 3. São 27 federações. Os 40 clubes da Série A e da Série B, os da Série A, 20 clubes, têm peso 2. E os da Série B têm peso 1. Os clubes têm peso 60. As federações têm peso 81.

TCTomás Chiaverini

Quer dizer, uma coisa bem de capitania hereditária mesmo, né? Um poder que tá ali pelo poder, não pelo—

JKJuca Kfouri

Isso. O atual presidente da CBF vem de uma dessas federações.

TCTomás Chiaverini

Samir Chaldi, eleito presidente da CBF em maio de 2025, era presidente da Federação de Roraima.

JKJuca Kfouri

Senhor Chaldi, que nunca ninguém tinha ouvido falar. Um ano atrás, um ano e meio atrás, quem é essa Mirchaud? Eu falei, Tomás, não faço a menor ideia. Fruto deste arranjo das capitanias hereditárias.

TCTomás Chiaverini

E os clubes não têm poder para mudar isso?

JKJuca Kfouri

Hoje, os dois clubes que têm maior poderio técnico no futebol brasileiro, Palmeiras e Flamengo, se engalfiam. Corinthians e Flamengo, se se unissem, comandariam uma liga, obrigariam os outros a vir atrás. Mas não tem condição.

TCTomás Chiaverini

É uma briga de que eu fico pensando, sabe? Porque assim, me parece que em termos de negócio, por exemplo, faria sentido, certo, Juca? O Corinthians e Palmeiras se unirem em São Paulo, tal, os clubes do Rio também, não?

JKJuca Kfouri

Mas veja bem, o futebol dentro da chamada indústria do entretenimento, que é hoje talvez a maior indústria do mundo, maior até do que a indústria da energia, O futebol tem um peso brutal. Então nós estamos falando de um negócio. Este negócio se materializa no chamado campeonato, no torneio, na disputa de uma taça. Os 20 integrantes desta disputa devem ter um objetivo no gramado, que é ganhar a taça. Outro objetivo em torno da mesa, que é fazer esta taça ser cada vez mais valorizada.

A NBA faz assim no basquete nos Estados Unidos, a NFL faz assim no futebol americano, a Premier League faz na Inglaterra, e assim por diante. No Brasil, eles não conseguem terminar uma reunião na mesma mesa, xingam a mãe um do outro. Eles não se tratam como adversários, se tratam como inimigos. E cometem a estupidez de querer matar o inimigo.

TCTomás Chiaverini

Tá, mas daí eu te pergunto de novo: por que isso?

JKJuca Kfouri

Mas você vai querer que eu te explique o que desde que eu entrei nessa profissão 57 anos atrás eu tento convencer as pessoas e não consigo? Eu escrevi um livro, Tomás, Confesso que Perdi. Você vai me fazer contar toda a história desse livro?

TCTomás Chiaverini

Gostaria muito.

JKJuca Kfouri

Houve uma época, Tomás, que eu abria colunas dizendo assim: se um marciano descesse aqui no Brasil Não entenderia por quê. E continua, Tomás, continua. Em 1990, Tomás, se a gente fizesse essa entrevista, eu te diria, otimista que era aos 40 anos, até 2000 o capitalismo vai atropelar essa gente medíocre e o futebol brasileiro na virada do século será a NBA do futebol. Eu tenho isso escrito, eu tenho isso dito em entrevistas. Cada vez que eu me deparo com uma delas, eu morro de vergonha, porque nós estamos em 2026 e eu não sou capaz de dizer isso para você em 36, depois que eu tiver morto.

Nós teremos— não, não, eu espero que minhas netas vejam. Os meus filhos eu já acho que não verão.

TCTomás Chiaverini

Eu juro que eu vou parar de insistir nessa pergunta, tá? Mas eu vou insistir só mais um pouquinho. Você acha que essa incapacidade de conversar tem a ver com essa rivalidade do futebol que a gente vê? A gente vê até menos hoje, né? Mas das torcidas organizadas e de confundir as coisas.

JKJuca Kfouri

Você acha que a rivalidade entre Real Madrid e Barcelona é menor que a entre Flamengo e Vasco? Ou entre o Grenal, o Atlético e Cruzeiro, o Corinthians e Palmeiras? É tão grande ou maior?

TCTomás Chiaverini

Eu acho que a questão é que isso não deveria chegar nos dirigentes, certo?

JKJuca Kfouri

Então eu vou te contar, eu vou encerrar essa conversa com você te contando uma piada.

TCTomás Chiaverini

Vai.

JKJuca Kfouri

Do dia em que Deus criou o mundo, Deus primeiro criou a Europa, daí disse: agora vou criar aqui um continente chamado América, vou fazer um país chamado Brasil com 8 mil quilômetros de litoral, não vai ter terremoto, não vai ter vulcão, e mais, vou botar ali os melhores jogadores de futebol do mundo. Aí o italiano Mas que é Dio? Por quê? Aí Deus disse para ele: fica tranquilo, eu vou botar lá os piores cartolas do mundo. É isso.

TCTomás Chiaverini

E é isso, mas ao mesmo tempo é futebol, né?

JKJuca Kfouri

Se o Brasil vier a fazer uma boa campanha nessa Copa, você vai ver o Brasil inteirinho mobilizado em torno da seleção brasileira, como você viu. Por incrível que pareça, até me surpreendeu. Mais de 70 mil pessoas no Maracanã, num amistoso mequetrefe contra ninguém.

TCTomás Chiaverini

Amistoso contra o Panamá no dia 31 de maio. 72.140 pessoas assistiram a seleção ganhar de 6 a 2 no Maracanã. Se você gostou desse episódio, se quer saber mais sobre questões socioculturais relacionadas ao esporte e ainda ouvir boas histórias, eu tenho uma boa sugestão de podcast para você. É o nosso parceiro de rádio guarda-chuva Discípulos, uma série de 4 episódios que investiga a relação entre o esporte e os evangélicos. Por trás dessa série tá o mesmo intrépido jornalista que produziu e que registrou boa parte do episódio de hoje, nosso produtor Mateus Marcolino.

Então procura aí por Discípulos na sua plataforma de áudio preferida, escuta que você não vai se arrepender. Eu sou Tomás Chiaverini e termina aqui o episódio 163 de Escafandro. Obrigado por escutar e até o próximo mergulho.

FLFabio Luis Barbosa dos Santos

Oi, aqui é a Ana Cecília Pontes Rodrigues e eu tô falando de Lyon, na França. A mixagem de som deste episódio é do Vitor Coroa, a trilha sonora tema é do Paulo Gama, o design das capas é da Cláudia Furnari, a reportagem e a edição de áudio são do Mateus Marcolino, o roteiro, a direção E a sonorização são do Tomás Chiaverini.

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163: Seleção Estrangeira | Castnews Index — Castnews Index