Episódios de Escafandro

161: Comedores de amianto

27 de maio de 20261h12min
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Como uma fiscal do trabalho entediada se tornou uma das principais responsáveis pela proibição do amianto no Brasil? Como uma lei do estado de Goiás permite que a Sama (uma empresa do grupo Eternit) continue minerando este produto cancerígeno anos depois do banimento nacional?

Saiba mais sobre os microfones Shure Movemic Two.

Entrevistados do episódio

Fernanda Giannasi

Engenheira civil, fiscal do trabalho aposentada, pioneira do movimento que baniu o amianto no Brasil.

Ubiratan de Paula Santos

Médico assistente da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Erica Barbosa Coutinho Freire Souza

Advogada, sócia do escritório Mauro Menezes &Advogados.

Ficha técnica

Design das capas dos aplicativos e do site: Cláudia Furnari.

Trilha sonora tema: Paulo Gama.

Mixagem de som: Vitor Coroa.

Edição de áudio: Matheus Marcolino.

Direção, roteiro e apresentação: Tomás Chiaverini.

Assuntos8
  • Riscos à Saúde do AmiantoDoenças causadas pelo amianto · Asbestose · Câncer de pulmão, laringe e ovário · Mesotelioma · Ubiratan de Paula Santos · Johnson & Johnson
  • Doenças Respiratórias no BrasilHistória da proibição do amianto · Lei de Goiás e a Sama/Eternit · Movimento internacional pelo banimento · Fernanda Giannasi · Sama · Eternit
  • Questões legais e processuaisProibição municipal e estadual · Decisão do Supremo Tribunal Federal · Ações civis públicas · Desafios nas perícias e indenizações · Erica Coutinho · Mauro Menezes & Advogados
  • A vida no sertãoCriação da cidade para operários da Sama · Hierarquia social e segregação · Contaminação e ocultação · Márcia · Minasul · Sama
  • A Luta de Fernanda GiannasiTraumas de infância e motivação · Carreira e ingresso no Ministério do Trabalho · Combate à corrupção e à indústria do amianto · Criação do GIA · Fernanda Giannasi · Mário Bonciani
  • Legislação e Regulamentação AmbientalBrasil como destino de indústrias com legislação frouxa · Exportação para Ásia e Índia · Lei de Goiás e a exportação · Erica Coutinho · Saint-Gobain · Ronaldo Caiado
  • Análise do caso MárciaDiagnóstico de câncer de pulmão · Ocultação pela Sama · Batalha judicial e morte · Márcia · Sama
  • Detenção de ativistas em GazaPerseguição e intimidação
Transcrição188 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

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Oi. Antes de começar o episódio de hoje, eu vou fazer uma coisa que eu quase nunca faço aqui. Vou falar de um produto. Há algum tempo, a empresa de microfones Sure me convidou para testar um novo sistema de microfones de lapela sem fio chamado Move Mic 2. E eu topei na hora porque desde o primeiro episódio do Escafandro, a gente tem um grande desafio, que é fazer gravações fora de estúdio com boa qualidade.

O Movemic 2 é uma bela resposta para esse problema. Ele é discreto, tem uma interface direta com celular sem a necessidade de um receptor, tem soluções bem legais como redução de ruído e eliminação automática de barulhinhos de roupa raspando, por exemplo.

Mas o mais importante, a qualidade do áudio é muito melhor do que de todos os microfones de lapela que eu já tinha usado. Você, aliás, vai poder conferir essa qualidade já nesse episódio. Duas das entrevistas da história de hoje foram feitas com o Movemic 2, com a Fernanda Gianazzi e com a Érica Coutinho. Eu aposto que você vai perceber como o áudio dessas conversas está superior aos outros.

Se você quiser saber mais sobre esse microfonezinho malandro, eu coloquei o link para a página dele na Shur na descrição desse episódio. E agora, sem mais delongas... Rádio Guarda-Chuva. Jornalismo para quem gosta de ouvir.

Você está falando de Minasul? Isso, eu moro em Minasul. Eu vou chamar essa pessoa que está falando comigo de Márcia, mas ela tem medo de sofrer represálias, então esse não é o nome real dela. E você cresceu e viveu a vida toda aí? Não, na verdade eu sou paulistana, eu cheguei em Minasul com 17 anos. Minasul é uma cidade que hoje tem 27 mil habitantes, fica no norte do estado de Goiás, a quase 400 quilômetros de Brasília.

A Márcia se mudou para lá porque em meados da década de 1980, o pai dela arrumou um emprego numa empresa chamada Sama. A Sama, que hoje pertence à Eternite, é uma mineradora de amianto, um produto extremamente tóxico e proibido no Brasil e em boa parte do mundo. Mas apesar dessa proibição, graças a um decreto do governo do estado de Goiás, a Sama continua minerando amianto. Ela é a única empresa a fazer isso em território nacional.

Ele veio pra cá pra trabalhar dentro da Sama. Quando ele veio, ele não imaginava o perigo da Sama, né? Tanto é que ele veio e depois trouxe toda a família, minha mãe e meus irmãos. Ele trabalhava com o quê? Ele mexia com o compreensor de ar comprimido. Ia pro campo, né? Pra mina, onde furava a rocha, pra pôr as dinamites, pra quitar, pra tirar as pedras, né? Então esse era o trabalho dele, mexendo essas máquinas de compressão de ar comprimido. Pra fazer o furo onde eu explosivo, é isso?

Isso, o furo nas rochas. Essa mudança, de São Paulo para uma cidade no interior de Goiás, foi das mais estranhas. Porque dizer que a Sama fica em Minasul, talvez não seja a forma mais precisa de colocar as coisas. A verdade é que a Sama, em certa medida, é Minasul.

Minassu significa Mina Grande em Tupi-Guarani, e a cidade foi criada na década de 1960 para abrigar os operários da empresa. Antes disso, a região era habitada por indígenas da etnia Ava Canoeiro e por grupos esparços de garimpeiros. Mas quando a empresa descobriu a jazida cana brava de amianto crisotila, as coisas mudaram rápido e uma cidade acabou se formando.

Saímos de São Paulo, a capital, Perico, cidade grande, para uma cidadezinha do interior, onde tinha quadra, piscina, condomínio, com guarda, com policial, com hospital, tudo dentro, tudo perto. A Márcia me contou que boa parte da cidade era cercada e que a entrada e a saída eram controladas por uma portaria.

A gente tinha acesso dentro de Minasuki, a cidade, mas é como se fosse um bairro, não condomínio fechado naquela época, né? Em 1985, 1984. Então a gente se sentia seguro, ninguém se sentia ameaçado.

Me conta melhor, vocês, quer dizer, tinham a cidade e aí vocês tinham um bairro que era dos trabalhadores da Sama, é isso? Isso, porque a empresa e ao redor da empresa as casas. Então, quando você vinha, a família vinha para a Sama, tinha uma ala dos engenheiros, das pessoas que tinham mais estudo e mais...

cargos dentro da empresa e tinha uma hierarquia, né? E nessas, eles ofertavam a casa, ofertavam escola, os familiares e hospital. Tudo isso ficava nesse bar, dentro desse condomínio. Dentro dele tinha cinema, dentro dele tinha praça, dentro dele tinha banco, tinha comércio, pizzaria, padaria, né? Coisas que ofertavam para os trabalhadores da Sama.

E fora desse bairro que era dos trabalhadores da Sama, como é que era a cidade? Nossa, era assustador. Eu estava até lembrando esses dias, né? Não tinha a lei, não tinha a luz. A gente nem podia sair assim, a gente já escutava a tira numa terra sem lei. Eu escutava que mataram pessoas na cidade. Era como se fossem dois lugares, duas cidades, uma protegida e a outra à mercê da cidade. Não tinha evolução.

A Márcia me contou que dentro da cidade de Minasul, no bairro da Sama, o ambiente era totalmente hierarquizado. Os empregados com cargo mais alto, como engenheiros, tinham casas melhores, tinham acesso à piscina, jogavam tênis. Tudo separado. Eles também tinham medo de se envolver com a hierarquia mais baixa. O prefeito morava aqui dentro. E aí tinha um amianto, um pó branco que cobria tudo. Eu tive estudante contando... E aí

A Márcia trabalhou a maior parte da vida como professora em Minasul. Eles escreviam o nome em cima do carro essas coisas com o pó do amianto. Caramba. Quer dizer, era muito pó na cidade mesmo. Era. Quando vinha a vistoria, eles lavavam tudo. Pra não deixar rastro. Essa prática de lavar as coisas não era voltada só pro interior da empresa. De tempos em tempos, a Sama lavava ou tentava lavar a cidade inteira.

Eles tinham um caminhão pipa, furadinho atrás, ia passando as ruas e ia molhando. E tinha também com um canhão de alavar mesmo. A portaria da Samas, porque tinha muito movimento de caminhão, eles lavavam bem lavadinho.

Eu sou Tomás Chiaverini e o episódio 161 de Escafandro já começou. Nele, eu vou te contar como uma fiscal do trabalho entediada conseguiu proibir o amianto no Brasil e como uma empresa tem burlado essa proibição.

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Quando eu pedi para Fernanda Genasi me contar a história de como ela virou uma das maiores ativistas contra o amianto do mundo, ela começou falando de quando morava em Ribeirão Preto, bem na frente de um quartel do exército, em plena ditadura militar. A noite era a barulheira, a pancadaria, os gritos. Eu levantava e ficava atrás da janela com meus pais e eles ficavam quietinhas, ficavam quietinhas.

Eles pegavam as pessoas como se fossem sacos de batata depois das sessões de tortura e jogavam nos carros. Vocês viam isso da janela? A gente viu porque era uma janela que tinha, como se fosse uma veneziana, uma janela daquelas antigas. Pelas frestas a gente via isso, tá? Eu só me lembro dessa coisa de pegar como se fossem sacos. E a gritaria, era uma gritaria, era uma coisa assim horrível.

Eu lembro perfeitamente disso. Eu tive um trauma. Eu não podia dormir por muitos anos. Quer dizer, isso devia ser 68, talvez 72. Eu tive traumas que eu só consegui dormir no escuro em 81, que eu fui fazer terapia, porque eu ia me casar. E eu não dormia nem no escuro e nem sozinha no quarto. Eu tinha medo.

E você está me contando isso porque você acha que essa história fez você perceber a injustiça no mundo? É isso. O porquê que eu vou me envolver tanto com essas questões? Quer dizer, não é que eu caí de paraquedas. Hoje, olhando para trás, a Fernanda Genásia acredita que não fez tudo o que ela fez por acaso.

Ela vê a origem de tudo naquelas noites em que ficava espiando pela janela, totalmente impotente, enquanto pessoas eram torturadas e carregadas feitos sacos de batata. Mas essa noção de sentido, essa espécie de mito fundador da própria história, só veio depois.

Quando escolheu a faculdade, por exemplo, a Fernanda Janazzi estava mirando objetivos simples. Uma vida tranquila. Queria ser professora de matemática, era o meu sonho. Mas aí, quando contou para um professor de física dos planos mirabolantes de fazer faculdade de matemática, ela recebeu uma resposta um tanto direta. Ele fala para mim, se eu fazer matemática vai morrer de fome.

Vai fazer engenharia, você aprende matemática, mas tem outras possibilidades além de virar professora. Ela achou aquela sugestão uma boa, se formou em engenharia civil e foi estagiar no IPT, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas da USP. A essa altura, ela tinha recalculado a rota da própria vida, porque tinha se fascinado pela pesquisa ligada à engenharia.

Trabalhar em laboratório, pesquisa de materiais de construção. A Fernanda trabalhou um tempo com pesquisa, principalmente relacionada ao tempo de secagem do concreto. Estava se estudando o concreto que ia ser usado na hidrelétrica de Itaipu. Se casou. Caso virgem, como minha mãe sonhava e queria. Descobriu que o marido tinha uma doença rara que o tornava agressivo. Ele começou a me bater.

Teve de ser resgatada pelo pai. Meu pai só diz o seguinte, arruma o que você puder da tua escuta. Eu tô indo pra São Paulo. E acabou se convencendo a prestar concurso no Ministério do Trabalho. É função pública, tem instabilidade, a mulher ganha igual ao homem, então tal. Ah, tá bom. E aí? Quando eu chego lá, me dão uma carteira de fiscal.

Eu falei, não, mas eu pensei que é um curso de engenheira. Não, não, mas aqui você vai atuar na fiscalização. Eu quase morri. Eu queria ir embora. Porque eu falei, não, mas eu não estudei para isso. Eu quero continuar fazendo pesquisa, laboratório, materiais de construção. E além de gostar do trabalho em pesquisa de engenharia, a Fernanda achava que fiscalização era basicamente outro nome para corrupção. Fiscal, eu nunca achei que pudesse ser uma função nobre. Mas aí, ela começou a trabalhar e viu que não era nada disso, certo?

Na verdade, não. Na verdade, ela viu que era basicamente isso mesmo. O chefe do setor chega e fala assim, olha aqui, vocês não têm de vir todo dia, vem aqui uma vez por semana, pega os processos e vai para a rua. E eu vou dizer uma coisa para vocês, se vocês viram alguma coisa errada, olha para o outro lado, porque senão vocês vão desempregar e as mães desses empregados vão bater lá na porta de vocês.

Falei, mas o que nós vamos fazer? Qual é o nosso trabalho? Eu, engenheira civil, imaginando fiscalizar a construção civil, que era um horror. Você imagina naquela época como era trabalhador pendurado em corda, uma desgraça. Aí colocam um cara mais corrupto do ministério para nos treinar. A gente chegava nas fábricas com ele, ele dizia assim, vamos lá dar uma voltinha que eu vou ficar aqui no escritório.

onde ele fazia os acertos dele. Aquilo me incomodava profundamente. Mas, sem muita alternativa, ela continuou batendo ponto, fazendo o que dava para fazer. Vinha uns processinhos muito chechelentos, da aparecer sobre a SIPA de não sei o que que não funcionava, a eleição de SIPA, muito burocrático.

Aí, entre o final de 1983 e o começo de 1984, a Fernanda Janazia foi convocada para fazer uma inspeção na indústria de material bélico do Brasil, a INBEL, que era vinculada ao exército. E ele chamou vários engenheiros e disse assim, ó, o Láudu tá pronto, vocês vão lá, almoçam muito bem, vão ser muito bem recebidos, mas o Láudu tá pronto.

vocês só vão assinar e dar o carimbo do Ministério do Trabalho, que é o que ele precisava para que não caracterizasse a periculosidade que daria direito, inclusive, a um adicional de 30% a mais de salário para os funcionários.

Eu não quis. Eu disse, ah, não vou participar disso. Já vem pronto o laudo, o que eu vou fazer lá? Para ir para almoçar, não precisa ir lá. Eu não fui. E os colegas foram. E eu lembro que era época de Natal, porque começam a chegar cestas de Natal maravilhosas, tudo de produtos importados para aquela turma que foi fazer o tal laudo. E eles falavam, olha o que nós ganhamos. Quer dizer, aquilo para eles era tido como um mérito e não como uma tentativa de pagar por uma corrupção.

E eu lembro que uma secretária disse assim, isso é o seguinte, a gente ganha muito mal, a única coisa que compensa trabalhar aqui é isso, porque o que a gente ganha, ela disse, é só para usar alfinetes. Era uma dondoca. E aqui é o fim do ano, eles mandam material de construção, constroem a nossa casa, não sei o que, não sei o que. Parava o ministério para receber essa fila de presentes.

E conforme negava presentes, conforme torcia o nariz para os colegas corruptos, a Fernanda começou a chamar a atenção. Não só dos colegas corruptos, mas também dos colegas que não eram corruptos e que também torciam o nariz para a bandaleira. Em especial, um médico chamado Mário Bonciani. Ele já tinha entrado num concurso antes do meu, então ele já conhecia a máquina como funcionava.

E aí o Mário fala assim, Fernanda, vamos fazer um trabalho diferenciado. Ao invés de ficar esperando vir do protocolo, denúncia, nós vamos gerar demanda em cima de projetos. Eu achei aquela coisa ótima. E ela não só achou a ideia ótima, como ela sabia exatamente por onde começar. Porque diante da pasmaceira que tinha sido o emprego no Ministério até ali, ela tinha arrumado um trabalho paralelo. Fruto de uma pesquisa que ela tinha feito lá na época do IPT, com material bastante utilizado na construção civil, mas que era extremamente tóxico.

O asbesto, também conhecido como amianto.

Como o ministério não me ocupava em nada, eu fui trabalhar numa fábrica que fazia proteção individual. Luva, capacete e tal. E eu lembro que esse senhor era italiano, eu disse pra ele, vamos testar outros materiais, porque eu já soube que amianto faz mal. E esse senhor italiano falou assim, uma coisa pra mim. Bom, mas nós vamos tirar uma coisa que a gente sabe que faz mal e vai pra outra que a gente não sabe? É melhor ficar com o diabo que a gente conhece. Isso me marcou.

Porque na época já se sabia que o amianto era prejudicial de alguma forma. Ah, sim. Já havia estudos desde 1907 na Inglaterra que mostravam claramente que os trabalhadores adoeciam. E assim, quando o colega dela propôs que ele fizesse um grupo de trabalho dentro do ministério para produzir pesquisas que embasassem a fiscalização, a Fernanda tinha uma ideia era a ponta da língua. Eu falo, Mário, eu quero estudar o amianto.

Mais ou menos nessa época, meados dos anos 80, um médico chamado Biratandi Paula Santos, que hoje trabalha na divisão de pneumologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, estava se especializando em atender pessoas com doenças causadas pelo ambiente de trabalho. E nessa função, ele teve contato com trabalhadores de matem-selagem da Zona Norte de São Paulo.

E nessa tecelagem eles fabricavam o que eles chamam de gacheta. Que era uma espécie de corda de amianto, muito usada para fazer a vedação em torneiras, principalmente água quente. E tinha muita poeira de amianto, sacos de amianto. E nós começamos a atender pessoas com alterações pulmonares, asbestose.

Uma fibrose das pleuras, que é uma pele, uma membrana que envolve os pulmões. Na conversa que teve com o nosso produtor Matheus Marcolino, o Biratan Santos explicou que ao longo dos milênios, o sistema respiratório humano evoluiu para se proteger do que mais matava os nossos ancestrais. Ou do que matava mais rápido. Coisas vivas, no caso.

Nós temos pelo no encanamento dos pulmões, que são os brônquios, gânglios, nódulos, que a gente fala como íngua, nas amígdalas, nas adenoides e lá dentro do pulmão. É um sistema de defesa muito bom para a infecção, mas ele não é bom.

para combater coisas químicas, poeiras, gases, metais, isso não é bom. E aí, quando a gente inala uma partícula de alguma coisa química, o nosso pulmão interpreta como se aquilo fosse um bicho vivo. Um vírus, uma bactéria, um fungo. E ataca. O corpo tenta recrutar células de defesa, emitindo sinais para o sangue que vai até a nossa medula óssea.

que vai produzir glóbulos brancos e vai até lá para tentar combater. Como não consegue, começa a agredir o próprio pulmão, provocando, por exemplo, doenças. Esse é o mecanismo que ocorre, por exemplo, que inala fibras de amianto. Ele não consegue destruir uma fibra de amianto, uma partícula de sílica, que é areia.

Átomos de metal como cromo, cárbio, arsênico, etc. Essa fibra quando entra vai provocando uma inflamação no pulmão. E se a pessoa vai se expondo progressivamente ao longo dos anos, essa inflamação vira uma cicatrização. É um processo semelhante ao que acontece com um corte na pele, que depois dá lugar a uma cicatriz feita de um material diferente, mais rígido do que a pele original.

O problema é que quando isso acontece dentro do pulmão, na chamada asbestose, o resultado geralmente é mortal. E é uma doença que, como ela vai cicatrizando o pulmão, ocupando, murchando o pulmão, impedindo que o pulmão encha de ar, e com isso a gente inala menos oxigênio e com o tempo a pessoa morre.

Para além da asbestose, a inflamação causada pela fibra do amianto pode provocar a mutação no DNA das células, o que favorece o aparecimento de câncer no pulmão, mas também na laringe e, no caso das mulheres, no ovário. Vocês devem ter visto milhares de mulheres com câncer de ovário nos Estados Unidos, porque o talco cosmético da Johnson & Johnson tinha contaminação por fibras amiantas.

Segundo uma investigação da Reuters, a Johnson & Johnson produziu esse talco por décadas, sabendo que ele continha amianto. Só em 2022, depois de uma avalanche de processos, a empresa anunciou que ia parar de comercializar o produto no mundo inteiro. Outra coisa que a fibra do amianto, quando ela entra, ela provoca uma inflamação, mas ela tenta sair do pulmão, ela vai indo até o final do pulmão, sai do pulmão e cai na chamada pleura, e lá ela provoca uma outra inflamação.

que pode formar uma cicatrização nessa pele que se chama pleura, que envolve o pulmão. Porque quando a gente respira, enche o peito, as bestosas não permitem encher o peito. Quando você tem também inflamação da pleura, também há uma dificuldade de expansão do tórax, de encher o peito na plenitude.

E também pela ação da fibra em células da preula, ela pode provocar um tumor conhecido como mesotelioma, que é um tipo de câncer muito grave que as pessoas foram acometidas dessa doença.

praticamente 100% morre, vão a óbito entre 1 e 3 anos. Em outras palavras, inalamianto, aquele pó branco que recobriu os carros de Minasul na década de 1970, é mortal. E não só pelo mesotelioma. Como a gente já disse, a asbestose, ainda que avance mais lentamente, também é mortal, mesmo quando diagnosticada.

Para essa doença, não existe um medicamento que interrompa ou atrase a sua evolução. É diferente de algumas outras fibroses. Por exemplo, tem pessoas que inalam mofo numa parede mofada. Começa a ter sintoma de falta de ar, etc. Se ela percebe isso no começo...

A gente pode medicá-la e ela ficar curada, o pulmão voltar completamente à normalidade. Mas para doenças por poeiras, como a asbestose e também a silicose, não existe medicamento que cure a doença, que restaure o pulmão e nem que interrompa a sua evolução até o momento. Pro doutor Ubiratã, isso está ao menos em parte relacionado ao tipo de gente que normalmente sofre com asbestose.

Essas doenças são doenças de quem trabalha, são doenças de pobre. Não é uma doença que a indústria farmacêutica vai investir em grandes pesquisas. Os trabalhadores que se lixem e se virem. Quer dizer, se você tem uma caixa d'água de amianto, mora numa casa com telhas de amianto, ou dirige um carro com freios de amianto, não tem lá muito por que se preocupar.

a não ser em alguns casos específicos. Os moradores, quando compravam, usavam uma caixa d'água com o mianto, de vez em quando, uma vez por ano, cada dois anos varia muito, eles esvaziavam e iam dar uma limpada, porque às vezes fica um pouco de uma sujeirinha no fundo, nas paredes da caixa d'água.

Esvaziavam, secavam, iam lá com um bombril, uma palha de aço e raspavam. Então aí eu tenho uns dois pacientes que eles faziam isso, de ter asbestose. O doutor Biratan Santos conta pra gente que uma vez ele foi dar um curso em Goiás sobre leituras de radiografia para fazer diagnóstico de asbestose. E no intervalo ele foi abordado por uma pessoa, provavelmente um lobista da indústria.

Aparece o cidadão falar que caminhando não dá problema. E lá na Minasul, era uma maravilha, que não tinha nenhum problema. Ele falou, você conhece Minasul? Eu falei, não, não conheço. O senhor não quer conhecer? Eu falei, não, eu não preciso conhecer. Por que o senhor não precisa? Eu não precisei, não preciso, não precisei ir para Auschwitz para saber o que aconteceu lá.

Essa é uma conversa mole, vocês mexem com o produto cancerígeno, ponto final. Não preciso visitar nada ainda. E obviamente não quis ir. O pai da Márcia trabalhou na Sama, em Minasul, de 1982 a 1994. Ele trabalhou 12 anos. E ele não se aposentou por invalidez nem por doença, ele aposentou por tempos de trabalho.

Quando ele se aposentou, ele estava saudável? Estava. Quando o funcionário, ele se aposenta, ele ganhava, a gente achava que ganhava, né? Meu pai também achava, um acompanhamento médico. O termo usado aqui muito era que a Sam era mamãe.

Ainda hoje, mesmo depois de tudo que a gente vai te contar aqui, a Sama é chamada de mãe por muitos moradores de Minasul, e o amianto é reverenciado na cidade. Os minasuenses costumam fazer vistas grossas para a montanha de rejeito de amianto que fica na entrada do município, mas tem orgulho da pedra de amianto crisotila, que fica exposta numa pracinha em frente ao fórum.

E até então, a tua, meu pai, fazia esses exames como se fosse uma rotina, né? Saber se você está bem. E alguns ganhavam o benefício de ter um plano de saúde.

Aí, o pai da Mátia pegou um resfriado, estava reclamando um pouco de dor nas costas e resolveu passar numa consulta com a médica paga pela empresa. Aí essa médica fez os exames de rotina, que faz tomografia, e depois eles mandavam o resultado para casa, né? E nessa rotina, meu pai falou assim, eu estou com alguma pneumonia, eu estou com tolce, eu estou agripada, ela falou que ela não poderia falar sobre isso.

Ah, meu pai achou estranho, mas tá bom. Ele teve que sair de lá e passar por outra radiografia. Ele tinha um plano de saúde, né, que era o meu do estado. Ele fez o raio-x, viu que estava com pneumonia, tratou e pronto. O tratamento resolveu a pneumonia, mas o pai da Márcia continuou fraco e resolveu procurar um cardiologista.

Aí o cardiologista falou, eu preciso fazer um dossiê dos seus exames, eu preciso ter os exames aqui comigo para a gente tratar. Meu pai era fumante também, ele falou, eu preciso de todos os exames, e pediu vários exames para ele, entre os exames Y e X.

O tabagismo é um poderoso agravante do risco para quem se expõe ao amianto. Quando se fuma e tem exposição ao amianto, o risco de câncer de pulmão é muito elevado. Agora, a pessoa pode ter câncer de pulmão pelo amianto e nunca ter fumado. E claro, as bestoses, sim, nunca ter fumado. Quando fuma, você prejudica as defesas do pulmão. Então, obviamente, essas outras doenças se instalam com maior facilidade. Quando meu pai pega esse raio-x, o que tinha nele? O módulo.

No pulmão. E aí, pelo tempo que tinha esse nódulo, o Cardio Luiz falou, isso não é novo, você tem muito tempo. E isso foi uma surpresa e tanto, porque ele estava fazendo um acompanhamento pago pela Sama, tinha feito inclusive uma radiografia do pulmão. Quando ele falou isso, que esse nódulo não era novo, que tinha muito tempo, ele lembrou da radiografia que ele tirou no mesmo dia que ele fez os exames pela Sama. E não estava o nódulo lá mesmo?

E vocês acreditam que a médica da Sama sabia o que tinha e não falou? Eu tenho toda certeza. Tanto é que, porque nós pegamos essa RAX, pegamos o da Sama, que eles não dão para a gente, mas dão laudo que não tem nada. Nós tínhamos a RAX da época dizendo que não tinha nada. O tamanho, porque tem a data lá, né?

A Márcia me contou que pegou o laudo da radiografia feita pela Sama, que dizia não ter nenhum problema, o laudo do cardiologista que apontava um nódoro no pulmão, e fui procurar o médico de trabalho da Sama.

Ele aceitou olhar meu pai. Eu falei, como você explica isso para a gente? Porque aí nós ficamos indignados. Nossa, eu fiquei acompanhando meu pai o tempo todo. Porque até para entrar na edação, você tem que agendar, você tem que ir lá. E aí eles já mobilizam uma cúpula. E já falaram, nós vamos curtir todo o tratamento do meu pai. Eu falei, olha, porque ele também não sabia se era amianto, mas eu achei isso o fim do mundo.

Eu falei, vocês omitiram, vocês não deram socorro para o meu pai. Eu não sei se isso amianta, porque no primeiro momento a gente não sabia. Podia ser um câncer. Segundo a Márcia me contou, assim que eles confrontaram o departamento médico com os exames, a empresa passou a se mexer rápido.

E aí nós fizemos um acordo de que eles iam cuidar do meu pai, até ficar bom, pela omissão deles. Eles deram um plano de saúde, mas deram um março. Passagem de avião, hotel. Meu pai fez a cirurgia no 9 de julho, tudo particular. Aqui em São Paulo? Aí em São Paulo, eu fiquei hospedada aí em São Paulo. Era o que começou a fazer os exames, PET scan, tudo de primeira linha.

E quando os resultados desses exames voltaram, não voltaram bons. O pai da Márcia estava com câncer de pulmão, que para piorar já tinha se espalhado para o rim. Olha o tempo que tinha esse nódulo, ele e meu pai fazendo de ano em ano. E aí travou-se a batalha, né?

Anos antes de o seu Oswaldo ser diagnosticado com câncer de pulmão, a Fernanda Janaz estava criando um grupo para estudar e fiscalizar especificamente o amianto. O GIA, Grupo Interinstitucional do Asbesto. Um grupo que era tripartite. Tinha trabalhadores, poder público e empresários. Então a nossa ideia inicial era juntar todas essas tribos e fazer um grande trabalho. Vamos fiscalizar as empresas do estado de São Paulo que usam amianto.

A gente faz um levantamento e descobre que 90 e tantos por cento eram usados na indústria da construção, telhas e caixas d'água. E que no estado de São Paulo nós tínhamos nove fábricas. Então a gente começa um processo de fiscalização sistemático.

Nesse começo, o foco de vocês era o quê? Proteção de equipamento, de proteção, ventilação? Tudo, limpeza das fábricas, exames médicos para detectar se já havia alguém com problema de saúde, aspiração, sistemas de exaustão, enclausuramento, uso de equipamento como medida complementar.

mas não a primeira medida. E a gente vai fazendo um mapeamento dessas fábricas. A indústria muito organizada era suíço, belga e francesa.

Na época, o Brasil tinha duas grandes marcas que eram responsáveis por quase 60% do mercado de amianto. A Brasilite, que era da multinacional francesa Saint-Gobain, e a Eternite, que era da empresa suíço-belga Etex, da qual a Sama, dona da mina em Minasul, era uma subsidiária. Esse universo empresarial sofreu uma série de reviravoltas ainda no começo da década de 1990, quando o bilionário suíço Stefan Schmidini resolveu mudar de vida. Pelo menos em público.

Na época, ele controlava a Etex, que era dona da Eternite, e vinha sofrido uma avalanche de processos relacionados à intoxicação por amianto, inclusive por homicídio culposo. Mas aí, ele resolveu reinventar a própria biografia. Virou um filantropo ambientalista. Pelo menos em público. Passou a investir numa fundação de combate à pobreza, criou a ideia de ecoeficiência e foi recebido com pompa na Rio 92.

Ele ganhou, inclusive, do Fernando Henrique a Ordem do Cruzeiro do Sul como um empresário de grande visão. Nesse pacote de rebranding, ele se desfez da filial brasileira da Eternite, que aqui no Brasil chegou a se juntar durante algum tempo com a Brasilite, que era da francesa Saint-Gobain. Mas, depois de algum tempo, a Joint Venture teve de ser desfeita porque o CAD identificou uma situação de monopólio. A solução foi criar uma empresa nacional.

Ele vende os interesses da Eternite para o sócio dele, da mina. E ela continua chamando Eternite? Ela continua chamando Eternite. Então a Eternite que a gente compra a caixa d'água hoje, que é de plástico, é essa Eternite que ficou, não é a Eternite do suíço? Do suíço, não é.

que já foi francesa. Ela ficou até 1990, Suíça. De 1990 até 2000, ela é Saint-Gobain, Francesa. A partir de 2000, ela é Eternite SA, nacionalizada com ações na Bolsa de Valores de São Paulo. No fim, o mais importante dessa confusão toda é que a Eternite virou uma empresa brasileira. Isso quer dizer que a Sama, que ainda está minerando amianto em Goiás, pertence a uma empresa brasileira.

Mas, antes de tudo isso, quando ainda se trabalhava com a ideia de investir num uso mais seguro, as empresas se aproximaram do grupo da Fernanda e começaram a fazer concessões. A gente começa a exigir lavanderia nas fábricas. Nenhum outro setor é obrigado a ter lavanderia nas fábricas. O uniforme não pode ir para casa. Tem de fazer medida de poeira. Tem de fazer exame dos trabalhadores até 30 anos após ele se desligar da empresa.

evidentemente que o Brasil tinha uma legislação mais antiga e falava em quatro fibras, nós conseguimos em 91 baixar pra dois. Mesmo assim é muita fibra. Só que essa foi a negociação. Bom, vocês querem lavanderia, vocês querem exame até 30 anos, tal, tal, mas o limite não pode ser mais do que dois, porque nós não temos tecnologia pra isso. Esse dois é o que? É por centímetro cúbico. De ar. A cada centímetro cúbico você pode ter duas fibras de amianto. De amianto, o que é muita coisa. Hoje a Europa tá com 0.001.

A gente queria, naquele momento, passar para 1, que já era praticada no Canadá, depois para 01, mas isso nós não conseguimos porque houve uma resistência. E aí, nessas resistências, a Fernanda começou a perceber que o grupo dela estava contaminado, aparelhado pelas empresas, e que esse aparelhamento estava acontecendo de forma velada com a cooptação de um grupo que mais devia estar do lado dos trabalhadores, os sindicatos.

Eles estavam todos nas mãos das duas grandes empresas, Etenit e Brasilit, que financiavam viagens internacionais dos sindicalistas. Como é que você percebeu isso? Eu percebi porque é o seguinte, nessas negociações, inicialmente, parecia que eles concordavam tudo com a gente. As empresas? Os sindicatos e as empresas. Então, o governo era a terceira parte, dizia, precisa fazer isso, os sindicatos não eram contra e as empresas aqueciam.

E cada vez que um novo direito era conquistado, isso era visto como uma vitória para os trabalhadores. E os sindicatos começaram a capitalizar essas vitórias e começaram a expandir as próprias bases. Usando o nosso trabalho, dizendo, olha, vejam como eles são bons, olha como eles são combativos.

Eles começam a reproduzir o que a empresa quer que eles façam. Então eu não tenho mais tripartismo. Eu não tenho três partes, eu tenho duas partes. Então eles passam a ter o controle da produção, da distribuição e da mão de obra. E eu começo a perceber que eu estou sendo usada...

E aí, a Fernanda me contou que o grupo de trabalho chegou a um nó. Porque, de um lado, estudos internacionais mostravam que não existia forma segura de se trabalhar com amianto. Os países nórdicos já estavam proibindo amianto. Havia um crescente movimento internacional pelo banimento. E a indústria já tinha achado substitutos mais seguros. Inclusive um Kevlar, que era da Dupont, e outras tecnologias, do plástico, principalmente do petróleo.

Do outro lado, os sindicatos, que dependiam das fábricas funcionando para existir, não queriam que a produção fosse proibida de vez. E esse momento, em que uma indústria gigantesca contemplava a própria finitude, teve capítulos tragicômicos. Um lobista de uma empresa, por exemplo, achou uma boa e contra o consenso científico planetário e ofereceu uma prova cabal de que o amianto não fazia mal à saúde.

E ele pega, leva o amianto, pega e come na frente de todo mundo, gente. No melhor estilo Darwin Awards, esse sujeito morreu de câncer no estômago. Ninguém falou que foi do amianto, mas ele morreu de câncer de estômago.

Aí, bom, eu começo a ter divergências com esse pessoal, dizendo o seguinte, olha, o caminho mostra que nós temos que pensar numa substituição futura. Não precisa ser de imediato, mas progressiva. E aí dá o embate.

Os sindicatos defendendo com a indústria o uso seguro do amianto, que não tinha problema nenhum, que o amianto brasileiro era totalmente seguro. Começam a aparecer umas pesquisas encomendadas pela indústria, dizendo que o amianto brasileiro é uma maravilha, e aí começa de tudo. Teses mirabolantes, que o amianto, só o azul faz mal, mas o amianto brasileiro, branco, de Goiás, é bom para a saúde, enfim.

E eu começo a me apropriar dessa literatura internacional e começo a combater essas teorias mirabolantes. E, lógico, eu começo a ter problemas e começo, inclusive, a receber ameaça de apanhar em reunião de sindicalista mais radical, mais radical para o lado da indústria.

Aí, em 1993, a Fernanda Gianazzi foi a um evento sobre amianto na Itália, que um ano antes tinha se tornado o primeiro país do mundo a banir completamente o amianto. E ela voltou de lá decidida.

E trago a proposta de repetir isso aqui em 94, num evento que a gente fez que chamava amianto, uso controlado ou banimento. O problema é que a Fernanda ainda trabalhava no Ministério do Trabalho. E defender condutas que não estão previstas na lei brasileira e que afetam milhares de empregos não era exatamente a função dela.

Então eu começo a sofrer pressão da indústria para dentro do Ministério do Trabalho, tentando me afastar, toda hora me denunciando como uma ativista anti-amianto contra os interesses do país, e uma atrás da outra. Sou chamada várias vezes em comissão de inquérito.

Querem saber com quem eu estou ligada e quem me financia. Sempre me acusando de estar defendendo interesses internacionais para a substituição do amianto, sempre. Contrataram o Pinheiro Neto, o maior escritório de advocacia desse país, para tudo que eu fizesse. Eles têm um armário lá, uma sala contra mim lá.

E esses processos deram alguma coisa? Não, deram trabalho e gasto, porque o tempo que eu perdi gasto com advogados, porque nunca o Ministério me defendeu, nunca. A Fernanda, claro, dobrou a aposta. Começou a criar associações de vítimas do amianto. Primeiro em São Paulo, depois em outros estados. Rio de Janeiro, duas na Bahia, uma em Pernambuco, uma no Rio Grande do Sul.

E assim, a partir desse trabalho nos estados, a Fernanda e outros ativistas acabaram pensando numa forma diferente de bani o amianto. Porque na esfera federal, qualquer proposta do tipo era barrada pelo Congresso e pelo Executivo. Então eles resolveram começar pelas beiradas.

ou pelos municípios, no caso. Vamos inverter a lógica disso. Ao invés de ficar esperando Brasília, vamos começar a aprovar nos municípios. Na época, a Fernanda Janazzi seguia no Ministério do Trabalho, mas no município de Osasco. E foi por lá que ela começou a confusão. Eu fiz um congresso internacional em Osasco, com 34 países que vieram. Ninguém sabia quem era Osasco, o que era Osasco.

e o prefeito gostou na época daquilo, nós dissemos, você vai aprovar uma lei municipal de banimento do Mianto. Ele aprovou em 2000, teve repercussão, e isso foi causando o que a gente chamava de efeito dominó. Outros municípios começaram a aprovar, até que São Paulo aprova. E aí a gente começa a trabalhar a ideia de proibir nos estados.

A lei de São Paulo, do Estado de São Paulo, que vai ser o Estopim e o MINK no Rio. Aprova a lei no Estado do Rio de Janeiro. Na sequência, Pernambuco aprova. Rio Grande do Sul aprova. Sempre com deputados próximos da gente, as leis estaduais. E com as leis avançando, o que fizeram as empresas? Foram para a justiça, caro ouvinte. Foram para a justiça.

Ela leva a questão para o Supremo, dizendo que os estados estavam legislando de maneira inconstitucional. Com isso, o dominó da Fernanda caiu para o outro lado, uma lei depois da outra. A primeira lei de São Paulo é derrubada no Supremo, a lei de Mato Grosso do Sul é derrubada no Supremo como inconstitucionais. A resposta do povo da Fernanda? Mudar o enfoque.

Já que nós não podíamos banir a produção mineral, que é competência exclusiva da União, por isso que deu a inconstitucionalidade e comércio também, nós mudamos a lei de São Paulo. A segunda, ela fala que está proibido o uso do ambiente. Aí pega consumidor e pega saúde, que são competências concorrentes com os estados.

E assim, depois de várias idas e vindas, em 2017, o Supremo, em um julgamento do plenário, decidiu pelo banimento do amianto em todo o país, uma decisão que passou a vigorar em 2019 com a publicação do Acórdão.

Depois de ser diagnosticado com câncer, o pai da Márcia passou três meses se tratando em São Paulo. No primeiro momento, os médicos disseram que ele tinha chance de cura. Tiraram uma parte do pulmão. Iniciaram um tratamento com quimioterapia. Também fizeram biópsia e mandaram para um laboratório nos Estados Unidos. Segundo a Márcia, o exame voltou dizendo que aquilo não tinha nada a ver com amianto. O que num primeiro momento era uma excelente notícia.

Respirei, agradeci a Deus. Falei, então agora eu tenho uma chance de viver. Mas, por outro lado, permitiu que a empresa se eximisse da responsabilidade pelo tratamento. Ele resolveu vir para o estado de Goiás, terminar o tratamento do estado de Goiás. E foi aí que a Sama também começou a parar de dar apoio no final do tratamento. Eu procurei eles e eles tipo assim, agora nós temos já o resultado, que não é a minha, eu disse, parabéns. O problema é que o pai da Márcia não estava melhorando.

que como que tirou um pedaço do pulmão, tirou um pedaço do índio, e ele não se recuperava. Sem muito o que fazer, o pai da Márcia começou a procurar pessoas que pudessem ajudar na briga contra a mineradora. E em pouco tempo, chegou a uma certa fiscal do trabalho de São Paulo. E a Fena já conhecia o esquema. E uma dessas conversas, e tinha o doutor Ubiratã em São Paulo, tipo, será que esse exame foi verdadeiro?

O doutor Biratã é, é claro, o doutor Biratã de Paula Santos, que inclusive lembrou desse caso na conversa com o Matheus. Esse paciente teve câncer, a empresa trouxe ele no hospital 9 de Júlios, que ele foi operado, e deram um nexo de câncer de pulmão pelo amianto. Aí mandaram um pedaço do pulmão para os Estados Unidos e voltou, dizendo que não era relacionado ao amianto, porque tinha pouca fibra.

Conforme as leis de banimento avançavam na justiça, as indústrias e empresas, no melhor estilo Al Capone, começaram um movimento para se livrar da maior quantidade possível de amianto. Eles estavam descarregando de madrugada para parecer que o que estava lá já era estoque velho. De qualquer jeito, andando em estrada vicinal, fazendo demônio para poder escoar a produção, porque eles começaram a ver que estava ficando problemática a história.

A Fernanda, claro, foi atrás desse povo, que era um tanto criativo. Ela me contou, por exemplo, de uma noite perto do Natal. Antes do Natal, duas semanas, tal. Em que recebeu uma denúncia de um caminhão da Balduco. Um caminhão da Balduco. Descarregando numa fábrica de freios em salto, no interior de São Paulo. Numa fábrica de freios em salto, chamada Termórdia.

O amianto, pela resistência a temperaturas, era muito usado na produção de freios. A Fernanda, se fingindo de desentendida, vestindo minissai e salto alto como em todas as diligências, e esse é um detalhe que ela fez questão de incluir na história, foi falar com o motorista. Nossa, vocês estão em pré-falimentar? Vocês estão distribuindo panetones aqui? Ele falou, não, não, é que está cheio de amianto dentro do caminhão. Mal sabia com o que ele estava falando.

Tinha 26 toneladas de amianto descarregando nessa fábrica que estava já em processo, não chamava a recuperação, já tinha concordata. E esse não era um caso isolado. A Fernanda começou a ouvir relatos de caminhões de panetone entrando e saindo de tudo que era a fábrica que usava amianto. Aí o que eu fiz? Chamei a Balduco. É isso que a gente perguntava, onde é que a Balduco entra nessa história? Pois é. Eles pagavam a publicidade para essa grande transportadora.

Eu cheguei para a Valduco, chamei no Ministério do Trabalho, falei o seguinte, eu estou com as fotos de um produto cancerígeno dentro do caminhão que está dizendo que tinha panetone, que tinha torradas. Eu estou chamando a Rede Globo para anunciar as pessoas não comerem o produto de vocês porque pode estar contaminado o caminhão. E mostrei as fotos da carroceria do caminhão. Os caras vão meter esse arrepiado.

Tirar a propaganda rápida. Foi o que funcionou. Foi a única forma que funcionou. Multa não funcionou, nada funcionou. Porque a Balduco estava fazendo propaganda. Sim. E a empresa estava usando a propaganda como disfarce, é isso? Não tinha indicação nas placas de que produto era perigoso, nem nada. Era um caminhão inofensivo. Passeando nas estradas, ninguém vai parar. Um caminhão inocente de torradas da Balduco.

Segundo a Márcia me contou, depois que o laudo do laboratório americano voltou eximindo a culpa do amianto no câncer do pai dela, eles foram em busca de evidências que provassem o contrário. E a sorte deles foi que o hospital, como costuma acontecer em casos desse tipo, tinha guardado amostras da biópsia, que no caso do pulmão, são conservadas em parafina. O doutor Ubiratã é quem caminhou para um laboratório daqui do Brasil. E o resultado era o quê? Amianto. Mais uma vez.

E aqui, como a gente já falou lá atrás, tem um agravante na condição de saúde do pai da Márcia, que foi usado pela defesa da Sama, o tabagismo. O cigarro, como a gente também já falou lá atrás, aumenta exponencialmente os danos causados por qualquer infecção de pulmão, inclusive os danos do amianto. A questão aqui, como o doutor Biratã explicou, as coisas não são excludentes. Muito pelo contrário. Se uma pessoa que fumou e expôs o amianto, quem é culpado? O cigarro e o amianto? Os dois.

A indústria do cigarro fala que não é com ela, a indústria do amianto fala que não é com ela. Os dois são os responsáveis por expor uma pessoa a um risco. O amianto é porque tem uma exposição ocupacional do ambiente de trabalho. O outro, apesar de ser um consumo voluntário, mas a indústria do tabaco trabalha...

100 anos para incentivar o consumo e a dependência das pessoas do cigarro através da nicotina presente no fumo. Então, eu lembro que eu fiz o laudo e eu não sei qual foi o resultado da ação judicial.

se o juiz levou em conta meu parecer ou não. Foi contrário ao que disse um patologista conhecido e famoso americano e, obviamente, os médicos da Sâmara. O problema é que, a essa altura, ficou a palavra de um médico contra a palavra de outro. O caso foi para a justiça e, nesse meio tempo, segundo a Márcia, a empresa parou de dar qualquer suporte. E o câncer não espera.

O meu pai, ele fez químio, ele fez um monte de coisa. Aí ele foi emagrecendo, emagrecendo. Nos últimos dias dele, que ele estava em casa, ele tinha home care, né? Ele estava perdendo fôlego já. E a hora que eu fui sentá-lo para ver se vinha o ar... Sabe quando a pessoa busca o ar assim, de uma dor?

que foi a hora que veio a ambulância e que levou-a para o hospital. Foi um dos finais dele. É muito doloroso, é muito triste, é desumão. Ela faleceu em 2008. 18 anos que meu pai entrou, meu pai estava vivo, quando ele entrou contra a Sama.

A Márcia continuou brigando na justiça para que a empresa reconhecesse a culpa na morte do pai dela. Ela procurou a Fernanda, procurou outros ex-trabalhadores, veio para um encontro da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto em São Paulo, e tudo isso morando em Minasul, uma cidade que chama mineradora de mãe, que tem uma pedra de amianto em frente ao fórum. Meus irmãos ficaram temerosos por mim, como eu estava pegando uma briga tão grande, e realmente era uma briga muito grande.

A Marcia me contou que criou um grupo de afeitados pelo amianto, seguindo o exemplo do que a Fernanda tinha feito em São Paulo. Mas Minasul não era São Paulo. Minasul era a cidade da Sama. Essa reunião foi num hotel e foi tipo escondido. As pessoas não gostavam de se mostrar ou de se aparecer com medo de perseguição. E aí começaram a temer pela minha vida. Foi a gente falou, não, sai, sai, você está correndo risco. Por que você começou a temer pela sua vida?

O lobby da ação, não. Mas você foi ameaçada em algum momento? Gente, é seguindo. Sabe seus passos. É muito grande. Você não imagina isso daqui. Ninguém busca. Se vê até hoje, o silêncio é grande. Mas você chegou a ver alguém te seguindo? Sim, sim. Aí a Fernanda ficou preocupada. E eu, na ativa, porque assim, eu queria justiça não só pro meu pai, né?

Aqui, Márcia acordava-se morto. Não tem. Não tinha proteção. A Márcia me contou que as ameaças chegaram a um ponto em que a promotoria recomendou que ela entrasse no programa de proteção à testemunha. E, num primeiro momento, ela aceitou. Resolveu sair de Minasul. O que não foi exatamente fácil.

Chegou dois policiais, alinhados com colete, me colocaram no carro e passaram. Eu tinha que pegar o documento de prefeitura, porque eu estava saindo, ele podia desaparecer, né? E não podia aparecer também, tanto é que eu não podia falar que eu estava com um policial. Os policiais estavam com roupas civis, mas de alguma forma... Eles perceberam que eu estava com um policial, a pazana. E o que eles fizeram? Chamaram a polícia, caro ouvinte. Chamaram a polícia.

Chamaram polícia para os policiais da Paisana. Imagina a situação de nervos da Márcia. Na hora que ela estava fugindo, com dois policiais da Paisana, levou em quadro de dois policiais militares da cidade. Ainda bem que não foi tirado até. Um confrontou o outro, se identificaram. Aí você tem noção de tanto que estava sendo vista. Estava tão de olho em mim. Caramba. E aí você saiu da cidade? Saí da cidade.

A Márcia me contou que saiu de Minasul, mas no fim optou por não entrar no programa de proteção à testemunha. Porque eu ia ter que cortar vínculo com todo mundo. E eu criei muito em Deus, Deus sabia do meu propósito. E eu falei, não, já saindo da cidade, eu acredito que eu parando de falar sobre isso, eu não estando lá, eu não vou com esse risco e arrisquei.

No fim, anos depois de o pai dela ter falecido, a Sama perdeu o processo e foi condenada a indenizar os familiares. O valor? 30 mil reais. Em 2021, a Sama foi condenada a pagar exames médicos para todos os empregados por 30 anos.

o que é, no mínimo, um contrassenso da justiça. Na esteira da proibição do amianto, em maio de 2019, a Eternite veio a público dizer que os ativos da Sama seriam colocados em hibernação, ou seja, a mina seria paralisada e todos os 400 funcionários seriam demitidos.

Mas a hibernação durou pouco. Ainda em 2019, o governo de Goiás sancionou uma lei que permite que o amianto continue a ser minerado em solo nacional. Ainda hoje, em 2026.

Então agora a gente está nesse momento. A gente tem banimento do amianto no Brasil. É totalmente proibido esse material. Sim. Mas a gente pode minerá-lo e enviar para outro lugar. Quer dizer, nós temos o trabalho da extração, da usina, do beneficiamento, do transporte, até chegar ao porto.

Quer dizer, as pessoas estão expostas a isso. Isso sem falar que a gente tem que pensar numa questão... Os acidentes que acontecem nas estradas. E, de fato, isso está indo para algum lugar. Sim, estão indo para o porto. E quem que compra esse amianto? A Ásia. O continente que mais compra. Porque na Ásia só está banido. No Japão e na Coreia do Sul. O resto todo mundo usa. E muito. A Índia é o que mais usa. Quer dizer, a gente está matando o indiano. Sim.

Na verdade, o que acontece com essas empresas é aquilo que a gente chama de obsolescência regulatória. Essa é a advogada especialista em direito trabalhista, Érica Coutinho. Você tem um momento em que a legislação dos lugares de onde elas vêm vai ficando mais rígida, mais protetiva a população, então elas têm que migrar para lugares em que essa legislação ambiental seja mais afrouxada. E o Brasil foi esse lugar durante muito tempo.

Então, muitas indústrias vieram para cá e as empresas sabiam dos produtos que faziam mal, tinham noção dos malefícios, tudo isso, mas ainda assim se instalaram aqui porque do ponto de vista regulatório, legal, era muito mais afrouxado do que nos países de origem. Então, para você ter uma ideia, a Saint-Gobain deixou de usar amianto na França há muitas décadas atrás. Aí nós levamos uma delegação de indianos para falar com o Toffoli quando ele era presidente. Antônio Dias Toffoli, ministro do Supremo Tribunal Federal.

Sabe o que ele falou? Por que vocês não fazem lá o que nós fizemos aqui? Bane o amianto lá, assim, não recebe. Não, olha, eu engasguei. A gente procurou o gabinete do ministro para ouvir sobre essa conversa, mas não obteve resposta até o fechamento desse episódio.

Mas enfim, assim que o Ronaldo Caiado baixou a lei autorizando a mineração para exportação, dizendo sem qualquer embasamento que o amianto goiano era, abre aspas, o único reconhecido mundialmente por não causar nenhuma consequência ou sequela à população, uma ação direta de inconstitucionalidade pingou no Supremo. Foi movida pela Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho. Essa discussão de 2019 até ontem.

A minha conversa com a Fernanda Janazzi foi no dia 16 de abril, então ontem aqui significa dia 15 de abril. Nós já temos cinco votos proferidos pela inconstitucionalidade dessa lei. Dois se declararam impedidos, então nós temos sete posições já tomadas, saltam quatro.

Só que ontem o Fux, que é um dos quatro, pediu vista. O STF vem dando sinais de que efetivamente a lei do Goiás é inconstitucional. A advogada Érica Coutinho. A discussão vai se referir à modulação. Qual que vai ser esse prazo? E isso está em aberto ainda, nós não sabemos como vai ficar. Agora, uma coisa que nos chamou muita atenção é que tem um princípio chamado no double standard, que é você não pode...

exportar um produto que é proibido internamente e que tenha razão de saúde ou razão ambiental, que é exatamente o caso do amianto. Não pode matar o coleguinha. Não pode. E os países para os quais o Brasil mais exporta são Índia e Indonésia. E são países que têm a legislação de saúde e ambiental em relação a essa matéria muito mais frágil. Então, basicamente, o que acontece é aquele mecanismo que nós falamos no início. É o Brasil da década de 80. Exatamente.

O Brasil vai se tornando um pouco mais rígido com regulação e aí outros países com outra legislação um pouco mais afrouxada vão recebendo também esse escoamento, digamos assim.

E aí tem um agravante dos trabalhadores aqui também, né? Claro, porque não tem como você tirar amianto para Porto de Santos por osmose. Não tem como, é. Agora, é uma obra impressionante como ela está durando, né? Porque isso faz quanto tempo? Pelo menos desde 2019 há aí uma continuidade do uso do amianto. É até difícil explicar isso às vezes para pessoas que são ativistas contra o amianto no mundo.

Porque basicamente as pessoas falam, como é que aconteceu? É um país com essa dimensão, que faz uma proibição via judicial, que tem mina. Assim, poderia ser um grande caso de banimento do mundo e acontece uma coisa que baniu, mas não baniu.

Enquanto a mina continua em atividade, os afetados pelo amianto seguem se organizando para buscar compensações por parte da empresa. Esse processo é tão grande, tão complexo, que o escritório de advocacia Mauro Menezes resolveu abrir uma filial em São Paulo para cuidar especificamente dos casos relacionados ao amianto e outros semelhantes. A cidade de São Paulo foi um braço do escritório porque nós começamos a ver que tinha espaço aqui para fazer disputa nessas áreas, como eu estava te falando.

A Erika Coutinho é sócia do Mauro Menezes e uma das responsáveis pelas ações civis coletivas de afetados pelo amianto. E aí depois nós passamos a representar outras associações também de trabalhadores expostos à radiação, a mercúrio metálico.

E pessoas físicas também com problemas envolvendo saúde, segurança do trabalho, basicamente. Então, no caso do amianto, por exemplo, a gente já chegou a pedir dano pela mera exposição ao amianto, porque, na minha opinião, a situação é tão grave que a simples exposição causa um dano psicológico, que a pessoa tem medo de adoecer. E aí, isso não vem sendo reconhecido pelo Poder Judiciário, como uma possibilidade de indenizar o Poder Judiciário, que é um dano concreto.

Um risco de saúde mental. Sim, sim. Você saber que está trabalhando em um lugar perigoso. Sim, exatamente. A Erika Coutinho explicou que ações civis públicas, como as que ela está movendo, têm uma série de particularidades. Uma das mais interessantes é que elas funcionam quase como uma lei. A decisão do juiz é universal e vale para todo mundo que está ou vai estar em determinada situação.

Por exemplo, determino que a empresa pague X reais às pessoas que têm diagnósticos relacionados ao amianto. Nós não sabemos quem são essas pessoas, elas serão conhecidas depois do processo de liquidação, quando a ação encerra e é aí que essas pessoas vão ser conhecidas. Então, na verdade, é um remédio que possibilita você alcançar um número muito grande de pessoas, muitas vezes que é desconhecido pela própria autora da ação.

Entendi. Quer dizer, a gente não sabe quantas pessoas foram afetadas. A gente não sabe quantas pessoas foram afetadas. Depois que você tem uma decisão genérica, é que essas pessoas podem ser apresentadas. Inclusive no futuro. Pode ser que apareçam pessoas que não estavam na hora da ação. E muitas pessoas, inclusive só, acabam tendo conhecimento do risco que elas estavam submetidas porque essas ações grandes, às vezes, elas são publicizadas. Porque são ações com alto impacto, com possibilidade de realmente atingir muitas pessoas, e isso acaba tendo um apelo midiático também.

Então, assim, é um mecanismo muito democrático, poderoso também. Para se ter uma ideia, uma das coisas que muitas pessoas jurídicas e organizações sociais têm receio são a questão da sucumbência, né? Sucumbência? Sucumbência, assim, quanto que eu vou ter que pagar se eu perder esse processo?

Essa ação do amianto chegou para vocês quando? A primeira que nós fizemos, que foi em 2013,

A gente deve ter começado a construí-la mais ou menos em 2011, 2012, por aí. De entender, colher provas, traçar dados, montar estratégia. Acho que foi mais ou menos isso. Um ano, mais ou menos, decidindo como fazer, o que fazer. Essa ação, ela foi movida pelo pessoal? Pela Associação Brasileira dos Espostos ao Amianto. Que é a associação que a Fernanda foi uma das...

cofundadoras ali, né, ao lado de alguns trabalhadores. Eles são os autores dessa ação. E aí, paralelamente, existe também uma ação do Ministério Público do Trabalho. E aí como é que funciona? Tem um advogado do escritório que fica à frente? É, nós somos uma equipe enorme, né, e aí basicamente a gente vai se dividindo e aí redige, enfim, mas... Mas várias pessoas atuando no armamento. Várias pessoas atuam, várias pessoas, são muitas pessoas.

A Erika me explicou que as ações civis públicas foram movidas contra as empresas, mas focando em condições fabriz específicas. São várias ações em vários estados, mas ela destacou uma que está sendo movida em São Caetano do Sul, contra a Brasilite, e outra que está sendo movida em Osasco, contra a Eternite S.A., que é a empresa brasileira que se originou da Eternite gringa, que é uma marca da suíça belga Etex, e que ainda é dona da Sama. As ações são ligeiramente diferentes entre si,

Mas a Erika me explicou que elas têm basicamente dois eixos. Um eixo de pedidos indenizatórios e um eixo de pedidos relacionados à assistência à saúde. E aí não tem um número de pessoas? É, o número é sempre parcial, né? Porque as pessoas vão falecendo, os familiares vão aparecendo também, né? Mas são centenas de pessoas? Acho que são centenas de pessoas. Acho que são centenas de pessoas. Se a gente for contar todas as ações civis públicas em curso do Brasil, eu acho que englobaria aí centenas de pessoas, né? E aí

Essa grande quantidade de pessoas afetadas faz com que essas ações sejam também uma questão de saúde pública. Até houve muitos avanços, principalmente do Sistema Único de Saúde, que passou a acompanhar esses trabalhadores e monitorar.

com bastante rigor, né? Até do ponto de vista epidemiológico também. Mas ainda assim, outra coisa é você colocar a responsabilidade para que a empresa faça isso, né? Até porque existe também o argumento de que quando a empresa não está fazendo, existe uma oneração do SUS de fazer... Claro, todo mundo pagando imposto. Exatamente. Caca que a empresa fez. Exatamente. Onera-se o SUS enquanto as empresas não estão fazendo aí os seus deveres, né? light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light

E aí tem um complicador a mais que, paradoxalmente, vem do banimento do amianto. Porque esse foi um processo gradual, as fábricas foram fechando ao longo das décadas e as doenças provocadas pelo amianto levam às vezes 30 anos para aparecer. Eles são obrigados a manter a guarda desses dados de condições de trabalho, lista de trabalhadores, enfim, fazer acompanhamento periódico por pelo menos 30 anos. E aí a fábrica lá fechou em 1993.

Aqui, a Erika Coutinho está falando da fábrica da Eternite de Osasco, uma das primeiras que fechou antes ainda da proibição, na época em que a marca se nacionalizou. Isso dá mais de 30 anos. Então, o argumento que a empresa usa é que ela não está mais obrigada a fazer essa guarda. Só que, assim, existiram uma série de iniciativas judiciais para que essa guarda fosse mantida de alguma maneira.

Mas acho que as grandes empresas que usaram amianto no Brasil permanecem ativas e com boa saúde financeira, aparentemente. A Eternite passou por um processo de recuperação judicial e já saiu da recuperação judicial.

Aí, eu perguntei pra Erika sobre os desafios dessas ações. Ela me disse que a justiça tem avançado, até porque, fora o Ronaldo Caiado e meia dúzia de lobistas da Eternite, todo mundo já tá mais do que convencido de que a Mianto mata. Mas, ainda segundo ela, o grande entrave tem sido as perícias. Como provar a relação de causa e efeito? E como desmontar o argumento de que, sei lá, é culpa do cigarro?

E aí a discussão é, o tabagismo é um fator de hora ou de surgimento de placas pleurais? Do ponto de vista científico, não é. Aqui é importante fazer uma distinção, né? Porque a Érica está falando de placas pleurais, que são aquelas cicatrizes que ficam no pulmão. O que é diferente de câncer de pulmão. Esse sim é influenciado por vários fatores, inclusive o amianto, inclusive o tabagismo. Mas... light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light light

A perícia traz esse elemento para poder dizer, ah, todos esses sintomas que essa pessoa está sentindo não tem a ver com amianto, tem a ver porque ele foi fumante. E aí isso vai gerando dúvidas no julgador. Ah, porque se fumou, logo vai ter problema pulmonar, não pode culpar o amianto. Mas veja, a obrigação de verificar quais eram os hábitos do trabalhador e se eles poderiam ou não interferir ou serem piorados por causa do amianto era da empresa.

Aí existem outras situações que às vezes fogem um pouco da normalidade. O trabalhador aparece com mesotelioma, por exemplo.

Mesotelioma, como a gente já disse, é aquele câncer que só aparece em quem teve contato com amianto e que afeta principalmente a membrana que reveste o pulmão. Ele não tem cura. É uma sentença de morte, que em geral chega em 24 meses. Quer dizer, como a justiça pode dar uma resposta a essa pessoa? Que resposta é válida? Nenhum trabalhador nunca viu o resultado de um processo judicial, um trabalhador que tivesse mesotelioma.

Então, já era o espólio ali representado na justiça, né? E aí veio o parecer do perito dizendo que ele tinha hábitos que poderiam ter causado mesotelioma, como, por exemplo, exposição ao sol, alimentação e tudo. E assim, qualquer pessoa que conhece muito bem a produção científica sobre isso sabe que não é verdade, né? E aí isso leva a gente à pergunta. Por que o perito falou isso?

Às vezes foi desconhecimento. Eu não estou nem dizendo aqui que necessariamente envolve construção nem nada. Mas você não deveria saber... Deveria. Eu também... Essa resposta eu vou ficar devendo. Mas é difícil para a gente também. Quando a gente olha certas coisas, é inacreditável, né? E as ações, elas são montadas, em geral, com muitas evidências científicas.

E aí, por último, mas não menos importante, a Erika Coutinho me falou sobre a figura do juiz, que muitas vezes economiza no valor das indenizações. Muitas vezes o Poder Judiciário Trabalhista fixa valores indenizatórios para esses trabalhadores que tiveram contato com a Amianto.

muito baixas. E muitas vezes isso vem conectado com alguns argumentos. Por exemplo, nós não podemos fixar o valor de indenização muito alto sob pena de haver enriquecimento ilícito por parte do trabalhador. E as empresas também usam esse argumento.

E aí tem um outro caminho clássico que as empresas têm buscado, que é levar a confusão para fora do sistema judiciário. Eles ofereciam para o trabalhador uma indenização e ou o plano de saúde de acordo com a doença. E aí, nesse instrumento de parte falada de transação, tinha uma cláusula que dizia que era impedido o acesso ao poder judiciário. Então, é como se aquele contrato ali fosse o que fosse regular a relação entre a empresa e o trabalhador para o futuro em relação à doença.

Isso é legal, não é? É, a gente entende que essa cláusula obstativa de acesso ao Poder Judiciário é inválida, inconstitucional, pode ser questionada.

E aí como é que é o andamento disso? Vocês começaram, você falou, começou a montar em 2011. É, ação coletiva, né? Ação coletiva, começou a montar em 2011, começou a ser julgado, entraram com a ação em 2013. Em 2013, é. Aí a ação foi julgada, a gente ganhou na primeira instância, a decisão foi ratificada em alguns pontos na segunda instância, agora está no Tribunal Superior de Trabalho. Essa de 2013 que eu estava te falando, que é a de Osasco.

Cara, como demora, né, meu? Porque 2013 é o quê? Faz 13 anos. Sim. E as pessoas morrendo. Sim, sim. E aí vai até onde? Vai até o Supremo, será? Com matéria constitucional, você pode levar para o Supremo, em recurso extraordinário. No caso da Justiça do Trabalho, o TST também tem competência para julgar matéria constitucional trabalhista. Mas em tese, cabe recurso até o STF.

Como é que está hoje a cidade? A Sama está funcionando ainda? Então, a Sama funciona, tanto é que semana passada tinha um caminhão tombado. É uma serra que é entre Minas Sul e Campinas Sul, acho que é uma serra do Fomoço, que esse caminhão tombou. Não tem sinalização e é como se fosse tudo normal.

Tudo normal, mas os negócios não estão assim de vento em popa. Muito menos funcionários, poucas pessoas. Ela deu férias coletivas devido a essa baixa venta. Por que será que está vendendo pouco? Mas continuam tirando amianto, continuam vendendo amianto, continuam minerando na cidade. E como é que a população da cidade vê a Sama hoje em dia? Como mamãe.

continua a mesma coisa. A gente procurou a Sama e a Eternich para ouvir a posição das empresas sobre as denúncias feitas durante o episódio. A assessoria respondeu o seguinte. Abre aspas. A Sama não está se manifestando sobre o tema no momento. Fecha aspas.

A gente também tentou ouvir a posição do governo de Goiás, mas não teve resposta até o fechamento desse episódio. Antes de terminar, eu quero te falar de novo do Vida de Jornalista, nosso parceiro de Rádio Guarda-Chuva.

Dessa vez eu quero te recomendar a série Lugar de Jornalista é na Rua. Nela, em três episódios, o Rodrigo Alves vai, claro, para as ruas. E faz uma pequena investigação sobre jornalistas e outros personagens que as nomeiam.

Enfim, procure aí pelo Vida Jornalista no seu aplicativo de áudio preferido. Escuta que você não vai se arrepender. Eu sou Tomás Chiaverini e termino aqui o episódio 161 de Escafandro. Obrigado por escutar e até o próximo mergulho.

Oi, aqui é Vitor Hugo Vogel. Estou falando da cidade de Paulínia, no estado de São Paulo. O design das capas é da Cláudia Furnari. A trilha sonora tema é do Paulo Gama. A mixagem de som deste episódio é do Vitor Coroa. A edição de áudio é do Matheus Marcolino. O roteiro, a direção e a sonorização são do Tomás Chiaverini.

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