Episódios de Escafandro

170: Fatal Model e a prostituição 4.0

29 de setembro de 20261h15min
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Como é a vida das pessoas que trocam sexo por dinheiro nos dias de hoje? Quais as diferenças da prostituição atual, para a prostituição na década de 1980? Como a plataforma Fatal Model se tornou um dos sites mais acessados do Brasil? Como cresceu a ponto de patrocinar o Corinthians? E o que muda na vida das trabalhadoras e dos trabalhadores sexuais com a plataformização da prostituição?

Ouça a resposta para essa e outras perguntas no episódio 170 do podcast Escafandro.

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Entrevistados do episódio

Mariana Brasil

Cientista Social, mestra em sociologia e antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com licenciaturas em sociologia e letras. Autora da tese "'Sem vergonha de ser puta".

Lorena Caminhas

Doutora em ciências sociais pela Unicamp, mestra em comunicação social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora assistente do Departamento de Estudos de Mídia da Maynooth University, na Irlanda. Pesquisadora especialista em trabalho sexual nas redes sociais.

Maíra Zapater

Coordenadora e professora de direito da Escola de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),  doutora em direitos humanos, especialista em direito penal e processual penal. É formada também em ciência sociais.

Ficha técnica

Design das capas dos aplicativos e do site: Cláudia Furnari.

Trilha sonora tema: Paulo Gama.

Mixagem de som: Vitor Coroa.

Produção, reportagem e edição de áudio: Matheus Marcolino.

Direção, roteiro e apresentação: Tomás Chiaverini.

Participantes neste episódio4
T

Tomás Chiaverini

Hostjornalista
L

Lorena Caminhas

EntrevistadoDoutora em ciências sociais pela Unicamp, mestra em comunicação social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora assistente do Departamento de Estudos de Mídia da Maynooth University, na Irlanda
M

Maíra Zapater

EntrevistadoCoordenadora e professora de direito da Escola de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
M

Mariana Brasil

EntrevistadoAnalista de redes sociais
Assuntos6
  • A experiência de Beatriz Andrade como trabalhadora sexual em plataforma digitalinício da prostituição por necessidade·primeiro atendimento e nervosismo·ganhos financeiros e tempo livre
  • A história de Soyla Mar e a prostituição na década de 1980início forçado da prostituição·violência e exploração por cafetão·relação com a polícia e tortura·fuga e apoio do NEP
  • A plataformização do trabalho sexual e suas implicaçõesbenefícios da plataforma para segurança·críticas à falta de retorno para trabalhadoras·formalização e rastreabilidade do trabalho
  • O sucesso e a estratégia de marketing da plataforma Fatal Modeldificuldade em patrocinar grandes mídias·patrocínio de clubes de futebol·faturamento e crescimento da empresa
  • A legalidade da prostituição e o enquadramento da Fatal Modelprostituição não é crime no Brasil·crime de rufianismo e sua interpretação·Fatal Model como plataforma de publicidade
  • A percepção e satisfação das trabalhadoras sexuais com a profissãofalta de opções e gosto pelo trabalho·descoberta de fetiches e prazer·autonomia e tempo livre proporcionados
Transcrição250 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
TCTomás Chiaverini

Oi, antes de começar, um aviso: esse episódio contém descrições de sexo e violência. Eu aconselho você a tirar as crianças da sala antes de escutar.

MZMaíra Zapater

Rádio Guarda-Chuva, jornalismo para quem gosta de ouvir.

TCTomás Chiaverini

Em 2018, a Beatriz Andrade tava com um problema relativamente sério: falta de dinheiro.

?Voz C

Eu tinha perdido meu emprego na época. Eu trabalhava numa empresa de petróleo, era estagiária.

TCTomás Chiaverini

A Beatriz contou que na época tinha um amigo barra ficante que costumava sair com profissionais do sexo.

?Voz C

E a conversa vai, conversa vem, e eu falei assim: fulano, aonde tu arruma essas mulheres que você sai? Aí: ah, aqui no Rio eu arrumo no site tal, tal, tal. Falei: ah, tá, beleza.

TCTomás Chiaverini

Nessa época ela morava em Macaé, no Rio de Janeiro.

?Voz C

Eu entrei no site, né, me inscrevi e tal. Foto acompanhante se no site? Criei um valor médio dentro do que eu tava percebendo ali, R$150 a hora. Coloquei lá um textinho muito do fuleiro comparado ao que eu faço hoje e coloquei as minhas fotos lá, umas fotos de biquíni, alguma coisa assim que eu lembro que eu tinha feito. E aí eu coloquei lá Beatriz tal, porque o meu nome é um nome que não é tão comum. Então se eu fosse colocar o meu nome lá, todo mundo ia saber que era eu naquela época, que a cidade era um ovo.

Então virou Beatriz Andrade, que hoje é o nome que eu uso nos anúncios. E aí, uma semana depois, e aí o rapaz entrou em contato comigo, ah, oi, você atende aonde, não sei o quê e tal. Eu falei, olha, eu atendo no lugar tal, bairro assim, assim, assado. Eu atendia no meu apartamento na época.

TCTomás Chiaverini

E aí a Beatriz se sentou no apartamento em que morava e esperou. Imagina a tensão!

?Voz C

Eu nervosíssima assim, eu tava numa pilha de nervos, porque uma coisa é você imaginar um cenário, outra coisa é quando a coisa tá realmente acontecendo. A primeira coisa que eu pensei é: eu vou morrer.

TCTomás Chiaverini

Aí pipoca uma mensagem. O primeiro cliente tava cancelando, tava pelo menos atrasado.

?Voz D

Nada disso.

?Voz C

Chegou em tanto tempo, né? Falou mais ou menos a distância onde ele tava. E eu nervosa assim, eu falava: meu Deus, e agora? O que que eu faço?

TCTomás Chiaverini

Corta para outra época, em outra cidade. Porto Alegre, começo da década de 1980.

?Voz E

Eu me apaixonei por um homem num baile e ele me disse que era contador, né?

TCTomás Chiaverini

A Soyla Mar era menor de idade na época, tinha 16 anos, e achou que o sujeito fazia contabilidade de imóveis, imposto de renda ou alguma coisa assim.

?Voz E

Dessas coisas, né?

TCTomás Chiaverini

Mas não.

?Voz E

Mas ele não disse que era contador de histórias.

TCTomás Chiaverini

Depois de algum tempo de namoro, a Soyla se mudou da casa da tia, onde morava em Porto Alegre, pra casa desse homem.

?Voz E

Ele me tirou de todos os círculos que eu tinha de família e amigos, né? Me tirou do meu emprego. E eu fui morar com ele numa casa lá no bairro chamado Ipanema. E ali nós tinha vida de casal, cuidava da casa, aquela coisa toda. Ele saía para trabalhar, né?

TCTomás Chiaverini

E ela nunca perguntou muito sobre o trabalho de contador dele, que talvez seja mesmo o menos perguntável dos trabalhos.

?Voz E

Até que um dia: hoje eu vou te levar lá no meu trabalho, tu vai conhecer aonde tu vai trabalhar junto comigo.

TCTomás Chiaverini

Ela entrou no carro e ele dirigiu até a Rua Voluntários da Pátria, no centro histórico de Porto Alegre.

?Voz E

Era de dia. E ele estacionou do lado de cá da rua e tinha as meninas trabalhando do lado de lá, né? Ele: tá vendo o que aquelas mulheres lá estão fazendo? Eu digo: tô, tô vendo. O que que tu acha? Eu acho que elas estão ali porque precisam. Foi isso que eu respondi para ele, né? Então vamos ali no bar do lado tomar um suco e lá eu te conto onde que tu vai trabalhar.

TCTomás Chiaverini

Eles saíram do carro e foram até um bar ali perto.

?Voz E

Bar do Dirceu ali só ia cafetão e puta, tá? Não tinha outra coisa que fosse ali.

TCTomás Chiaverini

A Suelen se sentou diante do homem que amava Pedir um suco e ouvir o que ele tinha pra dizer.

?Voz E

Bom, eu vou te contar agora pra ti o que que tu vai fazer. Vai fazer que nem essas meninas, tu vai ficar ali na quadra pegando homens pra transar, cobrando tal, não me lembro o preço do valor agora, faz muito tempo, né? E tu vai fazer isso porque é isso que eu faço. Eu tenho outras mulheres que trabalham pra mim, elas não tão aqui agora, quis trazer só tu nesse momento, né?

TCTomás Chiaverini

Ela não acreditou no que tava ouvindo e respondeu sem nem precisar pensar.

?Voz E

Daí eu disse que eu não ia fazer, não ia fazer, não ia fazer. Comecei a chorar, eu fiquei fora de mim assim, sabe, transtornada com aquilo, né.

TCTomás Chiaverini

A reação do cafetão foi brutal e imediata.

?Voz E

Ele pegou e me esbofeteou, tipo me trazendo para realidade assim. Começou a me xingar, vários palavrões assim, dizendo que eu tava pensando o quê, que ele tinha gasto todo aquele dinheiro comigo um ano e pouco para quê.

TCTomás Chiaverini

Ele disse que se ela quisesse ir embora, teria de pagar por tudo que ele tinha dado a ela, inclusive comida e hospedagem.

?Voz E

Eu me senti um lixo, na verdade. E fomos embora naquele dia. No outro dia eu viria preparada, porque no outro dia eu iria começar a trabalhar. Profissão dele era essa, e que é da família dele também era essa, né? Eram 4 irmãos, todos cafetões. E eram comandados por um delegado de polícia que era um chefe-mor dos cafetões. Na rua. Então era uma gangue, né, vamos dizer assim. E foi o que aconteceu.

TCTomás Chiaverini

No dia seguinte, ela fez exatamente o que ele queria. Foi para a Rua Voluntários da Pátria, no centro de Porto Alegre, e começou a se prostituir. Tinha 17 anos na época. A partir daí, ela perdeu o posto de namorada e teve de começar a pagar aluguel num apartamento escolhido pelo cafetão perto de onde ela fazia ponto.

?Voz E

Só que esse valor ele nunca terminava de pagar, né?

TCTomás Chiaverini

Na conversa que teve com o nosso produtor Mateus Marcolino, a Sueli contou que aprendeu logo a encarar sexo como trabalho, como algo impessoal e pragmático.

?Voz E

Não tinha sentimento nenhum. E era, a gente não podia ficar mais de 10 minutos no quarto, não podia tirar a blusa e nem beijar na boca. Essa é uma das regras, né? E também não se usava camisinha, que na camisinha não existia na época, né?

TCTomás Chiaverini

Aqui é modo de dizer, né? Camisinha existe desde o antigo Egito, ela só não era muito usada.

?Voz E

Eu trabalhei dos 17 até os 22 sem camisinha. Quando a gente descia as escadas assim, a gente sentia porra toda literalmente descendo assim, né? Só tinha um papel higiênico de quinta, não tinha banheiro no hotel também.

TCTomás Chiaverini

38 anos depois, a Beatriz estava vivendo algo ao mesmo tempo parecido e diferente. Ela tava prestes a trocar o uso do próprio corpo por dinheiro Mas de uma forma muito menos violenta e por escolha própria, dentro, claro, das escolhas que ela tinha à disposição. Não que tenha sido fácil no começo. Ela tava nervosa, com medo de ser morta, sem saber se teria coragem de ir adiante.

?Voz C

E quanto mais nervosa eu fico, mais piada eu faço. Tipo assim, eu fico uma palhacinha assim.

TCTomás Chiaverini

Mas aí o primeiro cliente da vida dela finalmente chegou.

?Voz C

E aí eu fui recepcionar ele no meu prédio. E o meu prédio tinha assim, acho que uns 2 lances de escada. Era escada pra cacete. E aí a gente foi subindo e tal, e eu fui tentando puxar assunto com ele. E aí a gente chegou no meu apartamento, ele falou, ah, você quer uma água? Não sei o quê. Eu falei, ah, a gente já tá aquecido, né? Já subimos escada pra caralho, não sei o quê. E aí ele começou a rir. Quando ele riu, eu falei, ah, ok, consegui alguma coisa.

TCTomás Chiaverini

Eu sou Tomás Chiaverini e o episódio 170 de Escafândrolo já começou. Nele, a gente vai falar sobre a vida das mulheres que trocam sexo por dinheiro, a gente vai falar sobre o milionário negócio das plataformas que anunciam esse trabalho, a gente vai discutir a legalidade de sites como a Fatal Model, a gente vai falar sobre a prostituição no mundo da internet 4.0. Antes, eu preciso te lembrar que o Escafandro é orgulhosamente mantido por uma parte dos ouvintes que apoia o projeto financeiramente por meio da nossa campanha de financiamento coletivo.

E as pessoas luminosas que apoiam o podcast fazem isso basicamente porque elas são pessoas luminosas mesmo. Porque elas entendem que o jornalismo é um treco caro, porque elas querem que o escafandro siga firme e forte, porque elas acham que o que tá sendo dito aqui precisa ser escutado por mais gente. Mas ao mesmo tempo, elas têm direito a alguns mimos. Podem ouvir o episódio um dia antes, podem entrar na fila pra gravar a ficha técnica de um episódio, podem ter o nome citado por aqui, e a depender do valor, podem receber em casa uma linda caneca customizada com o logotipo do Escafandro.

Então, se você tem uma sobrinha aí no seu orçamento, vem se juntar aos apoiadores do Escafandro. O melhor caminho pra fazer isso é por meio do fabuloso Pix recorrente usando a chave de email apoie@radioescafandro.com. apoie@radioescafandro.com. Mas tem vários outros caminhos que estão todos no nosso site, que é radioescafandro.com. E é isso. Pra você que já faz parte dos ouvintes luminosos, como a Laurice Scalise, a Maria Alice Teles, o João Luiz Vieira Salomão e o Ronaldo Carrilho, muito obrigado, mas muito obrigado mesmo por isso. 2023, Brasil pós-pandemia, mundo digital e mundo real devidamente embolados numa suruba mercadológica que faria o imponente bigodão de Karl Marx partir num sorriso maroto.

Nessa época, o administrador de empresas Samuel Ongarato tava revoltado. Por que ele tava revoltado? Porque ele não conseguia patrocinar o Big Brother Brasil.

?Voz D

Nosso objetivo inicial era estar na Globo, patrocinar o BBB, e ainda é nosso objetivo.

TCTomás Chiaverini

Aqui vale dizer que essa revolta poderia muito bem ser compartilhada pela vasta maioria de nós brasileiros que não temos condições de patrocinar o BBB. Mas no caso dele, a coisa era um pouco diferente. Ele tinha condições, quer dizer, tinha dinheiro. O problema, segundo o próprio Samuel contou pro Matheus, era que os executivos da Rede Globo e de outros veículos também tinham preconceito quanto ao ramo de atividade da empresa dele, a Fatal Model, uma plataforma de anúncios pra prostitutas ou acompanhantes, no léxico da própria Fatal Model.

?Voz D

Mas como lá em 2023 a gente não conseguiu nem ser recebido pelas emissoras de TV, nós começamos a tentar achar outros espaços.

TCTomás Chiaverini

A história do Samuel, um garoto com a fatal, começou meio que por acaso. Ele trabalhava numa incubadora de empresas ligada à Universidade Católica de Pelotas, a UCPel.

?Voz D

E foi lá que eu conheci—

TCTomás Chiaverini

os alunos estavam com essa ideia meio que de um Airbnb de acompanhantes. A ideia começou a sair do papel em 2018 com a criação da Atlas Technologies, Mas o Samuel entrou de cabeça no projeto em 2021. Quando se fala em plataformas digitais brasileiras, a Fatal é um caso de sucesso como poucos. Pra você ter uma ideia, segundo estimativa da SimilarWeb, em agosto de 2026, a plataforma era o 32º site mais acessado do país, o 4º mais acessado na categoria adulto, na frente de sites pornográficos mundialmente famosos como o Xvideos.

?Voz D

30 milhões de usuários únicos mensais. Isso é como se 15% da população brasileira acessasse a Fatal Model todo mês, para ter uma ideia. Isso é mais acesso do que Shopee, Casas Bahia, Magazine Luiza.

TCTomás Chiaverini

Mas ainda assim, nada de BBB. A saída: futebol, caro ouvinte, futebol.

?Voz D

Quando tu liga uma TV e vai assistir um Fantástico, um jornal de notícias, o que que tu enxerga? Enxerga notícias de jogo de futebol. Então, como a gente não conseguia fazer negócio com as emissoras em função do preconceito, a gente começou a ir nos clubes de futebol.

TCTomás Chiaverini

Com o alvo em vista, o Samuel e os sócios resolveram mirar alto.

?Voz D

O primeiro que a gente visitou foi o Corinthians.

TCTomás Chiaverini

A resposta não foi das mais animadoras.

?Voz D

Olha, Aqui no Corinthians nem pensar, a marca da Fatal. Na cabeça da pessoa, ele fica imaginando que vai entrar pela porta para conversar com ela, um cara com dente de ouro, com uma corrente de ouro na volta do pescoço, cheio de tatuagem, com aquele sobretudo preto. Acha que vai entrar um cafetão na porta com os brutamontes do lado e tal, com as mulheres seminuas junto. E aí quando vem uma figura sem tatuagem, branca, que é a característica do nerd, né, de computador, é não tomar sol, que foi professor universitário, que foi secretário de segurança, se surpreende, né, se surpreende.

TCTomás Chiaverini

O Samuel Ongarato foi secretário de Finanças da cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, entre 2020 e 2021.

?Voz D

Quando eu começo a dizer que é a nossa empresa, é a Atlas Tecnologia, que foi criada em Pelotas, no sul do Rio Grande do Sul, por universitários, que é uma empresa que emprega 300 colaboradores, tem parceria com o Sebrae, que é constantemente chamada pelas universidades para dar palestra, tem projeto social, a pessoa começa a se surpreender. E assim, aí a gente só, puxa, que conselho tu me dá para eu conseguir patrocinar um clube de futebol?

TCTomás Chiaverini

Melhor começar de baixo.

?Voz D

Procura clubes de futebol menor que estão jogando aí Série D, Série C. E aí a gente foi escalando até que a gente chegou no Vitória.

TCTomás Chiaverini

Vitória da Bahia, um dos maiores clubes do Nordeste.

?Voz D

E aí foi interessante que nesse momento a gente oferta pro clube de fazer o naming rights do Barradão.

TCTomás Chiaverini

O anúncio da proposta aconteceu na primeira coletiva de imprensa depois de o Vitória ser campeão da Série B.

?Voz D

Sabe o que aconteceu com os repórteres da sala? Nada, absolutamente nada. Ninguém falou nada, ninguém perguntou nada. Quando terminou a coletiva de imprensa, os celulares começaram a tocar de todos os repórteres, não era de um só.

TCTomás Chiaverini

Segundo Samuel, repórteres esportivos em geral ficaram chocados com a possibilidade de um site de acompanhantes investir R$100 milhões para o estádio Manuel Barradas ser rebatizado como Arena Fatal Model Barradão.

?Voz D

TV, por 10 anos, TV russa nos ligando. Tinha a imprensa na Espanha, em Portugal, na Inglaterra, nos Estados Unidos, a Forbes, porque um site de acompanhantes fez uma proposta milionária para um clube de futebol.

TCTomás Chiaverini

Eles chegaram ainda a fazer uma oferta para comprar o time e mudar o nome para Fatal Model Vitória, mas no fim nenhuma coisa nem outra andou. Eles só estamparam o nome do site na camiseta mesmo, como um patrocinador principal por um valor que não foi divulgado.

?Voz D

A gente vigorou em 2024 como o maior patrocinador de times da Série B.

TCTomás Chiaverini

E aí, com esse case de sucesso no currículo, eles voltaram ao Corinthians, que logo mudou de opinião, firmando um patrocínio de R$30 milhões para 2 anos e meio a partir de 2026. O resultado disso tudo? Tava lá a Fatal Model na Rede Globo.

?Voz D

Hoje, com patrocínio nos times de futebol, sem ter contrato com a Rede Globo, estamos nos gols do Fantástico, estamos nas maiores emissoras de TV do Brasil, nos jornais, em podcasts, nas rádios, estando no uniforme de times de futebol.

?Voz C

E eu tava super nervosa e tal, e aí ele me falou assim, olha, você me desculpa porque eu sou meio tímido. De volta para o primeiro programa da Beatriz Andrade. Aí eu falei, eu também. Aí eu pensando, Nanda, que a minha cabeça é lógica, sua tonta, ele nunca te viu e você também nunca viu ele, é óbvio que você vai ficar tímida. Falei, o rolê da escada, né? Eu falei, ah, você deve estar muito cansada, tu veio de longe. Ele, não, tava aqui pertinho.

Ah, sério? Ele falou, trabalho aqui perto. E ali a coisa foi desenrolando. E aí, né, começamos o atendimento, a coisa foi esquentando, né? De um copo d'água a gente foi, né? Ai, que muito obrigada, não sei o quê. E aí ele beijou minha mão e tal.

?Voz 1

Era um cara novo, um cara velho?

?Voz C

Ele devia ter seus 30 anos, assim, no máximo 35. Coloquei o pochote, a gente ficou sentadinho ali, e ali a coisa foi. Aí eu lembro que a gente, né, fomos para as vias de fato, tivemos a relação sexual ali, camisinha e tudo. E aí ele gozou mais ou menos em 15 minutos, assim. E aí eu falei, olha, você ainda tem tempo, se você quiser continuar, a gente pode continuar. E é uma política que eu levo até hoje. A gente pode continuar, não tem problema.

Aí ele falou, daí tocou, eu falei, não, vou precisar voltar pro trabalho, não sei o quê e tal, mas eu adorei te conhecer. Eu falei, ah, obrigada, não sei o quê. Aí ele foi embora. E eu lembro que eu fiquei assim, acho que eu fiquei quase uma hora sentada na cama assim, tentando processar tudo que tinha acontecido e que eu tava viva, tipo assim, que eu tinha sobrevivido. Eu lembro que eu peguei o dinheiro da mão assim. Nossa, a gente recebia dinheiro nessa época.

Peguei o dinheiro da mão assim e eu fiquei assim sentada na cama assim. Eu falei, caraca, cara, que loucura! E eu tinha ganhado, sei lá, na época o salário de estagiária era papo de R$600 e pouco, alguma coisa assim. E eu tinha feito R$150 em 20 minutos. Eu falei, peraí. Aí alguma coisa mudou, né, na química do meu cérebro.

TCTomás Chiaverini

Sites como o da Fatal Model têm contradições das mais saborosas e a gente vai falar delas mais pra frente. Mas eles trazem também alguns benefícios. A eliminação do cafetão como intermediário é um que não pode ser desprezado. Outro é a possibilidade de não trabalhar na rua, algo que traz riscos consideráveis e diversos.

?Voz E

Naquele tempo não tinha esses camburãs, eram os fusquinha.

TCTomás Chiaverini

A Suella, que começou a trabalhar bem antes da internet existir, Contou pra gente, por exemplo, da relação com a polícia. Uma relação que nunca foi das mais amigáveis, mas que na época em que ela começou, final da ditadura militar, era ainda mais abusiva.

?Voz E

Isquinha preta e branca que tinha, sabe? E a gente foi levado pra Palácio da Polícia, que é onde vai as maiores ocorrências da Polícia Civil, enfim, é uma grande delegacia, né? Fica na Avenida Ipiranga, lá em Porto Alegre. Era um dia de manhã, eu não me lembro em que dia da semana, eu sei que eu tava com um vestido azul. Nunca esqueço desse vestido, que eu fiquei com ele muitos dias, né?

TCTomás Chiaverini

A Suelen contou que foi detida com uma colega de trabalho, Fátima, sem qualquer explicação e largada numa cela.

?Voz E

Volta e meia eles botavam um pote de comida pra nós, água.

TCTomás Chiaverini

De tempos em tempos, os policiais tiravam elas da cela pra interrogatórios.

?Voz E

Como é que é teu nome? Pra quem que tu tá trabalhando? Tu ficava em silêncio, ou mesmo que tu falasse alguma coisa, eles te davam um choque no vagininho. Não, não, na ponta das tetas. Era tipo de uma tortura para tu fazer, tu falar mais. Apanhei de palmatória também, banho de mangueira gelada dentro da cela. Então eu fui literalmente presa assim, né, assistindo pessoas apanharem no pau de arara na época, né. Então uma coisa de tortura psicológica. Nos tortura com cacetete, nos fazem transar com eles sem querer.

TCTomás Chiaverini

Depois de 3 dias de tortura, a Fátima foi liberada. E a Suelen contou que foi levada para casa de um policial civil chamado Dinarte.

?Voz E

Para mim foi quase uma semana na casa desse Dinarte, sob o efeito de não sei que tipo de droga, eu não lembro, tá? Eu lembro de várias vezes na noite, que tava tudo escuro, devia ser à noite, eu acordar e estar algemada numa cama de ferro na casa dele. Isso eu lembro. Eu sei que são 3 dias porque a Fátima me falou, parecia que eu tava lá um mês lá.

TCTomás Chiaverini

Depois de mais 3 dias de tortura, ela foi largada na Avenida Protásio Alves, a quase 10 km do ponto em que tinha sido capturada.

?Voz E

Naquela época não existia nem celular, nem telefone. Tava tonta, zonza. Eu tive que me localizar para poder chegar no centro a pé, voltá-la para voluntários. Imagina, 3 dias eu com a mesma roupa.

TCTomás Chiaverini

Ela se limpou, se recuperou, e sem lá muita alternativa Voltou ao trabalho.

?Voz E

Depois que passou uns 2, 3 dias, esse fusquinha branco e preto teve lá na Voluntária de novo e me despegaram de novo. Daí, quando a viatura dobrou a esquina, o mimoso tinha moto.

TCTomás Chiaverini

A Sueli chama o cafetão dela, de forma irônica, de mimoso.

?Voz E

Encostou a moto na frente do branco e preto. Eu escutei ele falar: está, mas a gente não tinha feito um acordo? Vai levar ela de novo? Então quer dizer que tu não é homem? Tudo honra a tua palavra. Eu escutei ele, daí o Rato disse assim, não, eu tenho que levar elas até a entrada do Palácio da Polícia porque é protocolo, e depois eu solto elas lá. Então tá, nós vamos acompanhar. E foi isso, nos largaram na entrada do Palácio da Polícia.

O que que acontecia por trás, qual era o acordo, o porquê que faziam isso, não me pergunte. Eu só penso que é dinheiro, entendeu?

TCTomás Chiaverini

Além desse certo resguardo em relação à violência, pelo menos a violência das ruas, outra coisa que mudou foi o uso de camisinha. Hoje, na maioria dos anúncios da Fatal, as mulheres deixam claro que só aceitam penetração com preservativo. Mas isso não tem a ver necessariamente com a plataforma. Tem a ver com um trabalho longo de conscientização feito por pessoas como a assistente social Tina Rovira. Casada com um sacerdote anglicano, ela começou a se aproximar das mulheres da vida justamente para falar da importância de se usar preservativos.

?Voz E

A Tina chegava com aquela camisinha e a gente não queria conversa com ela porque o nosso problema não era o preservativo e tava bem no boom da AIDS. E o nosso problema era a violência da brigada, né? Então nós primeiro tivemos que cuidar de uma coisa para depois pensar na saúde. É assim que funciona, né? E ela não se importa em fazer amizade com esse cara dizendo para o cafetão que ela conseguiria advogados para tirar nós de cana e a gente não precisaria mais gastar com isso.

Quando ela fala em dinheiro para esse homem, ele dá ouvido para ela. Por quê? Porque dinheiro para ele era só o que pensava. E nessa época ele tinha 5 mulheres na quadra, então ele gastava muito com isso, sabe? Em dar dinheiro, soltar, dar dinheiro, soltar. Consegue conversar com esse cafetão e deixa nós ir nas reuniões assim, sabe? Foi quando a gente começa a usar o preservativo. Mas isso passou-se algum tempo, viu? Porque o NEP foi registrado em 1989.

TCTomás Chiaverini

A Soyla foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos da Prostituição, o NEP, junto com a Tina Rovira. E o NEP seria fundamental para ela conseguir algo com que sonhava desde a adolescência: se livrar do mimoso.

?Voz E

Tentei fugir várias vezes, não deu certo. Ele sempre me achava. Cheguei para o interior de volta, ele me achou no interior. Fui para casa do meu genitor, ele me achou lá na casa do meu genitor. E daí teve uma hora que eu cansei assim também, sabe, de ir embora, voltar, apanhar, ir embora, voltar e apanhar.

TCTomás Chiaverini

Isso sem falar nas ameaças.

?Voz E

Vou te cegar teus olhos, vou cegar os olhos da tua prima e tu vai vender bilhete da Loteria Federal lá na esquina junto com os ceguinhos lá na malandradas lá.

TCTomás Chiaverini

Muitos anos se passaram nessa relação.

?Voz E

Eu e a primeira mulher éramos as mulheres de confiança dele, de cuidar das outras mulheres, de cuidar do patrimônio, de cuidar de todas essas partes. A gente fazia os programas, tá, 5 mulheres trabalhando, 2 que são mais antigas fazendo 10 programas por noite, as mais novas fazendo 20, vamos botar assim. As mais novas davam o dinheiro para nós, que nós repassava o dinheiro todo para o meu Monroe dava para nós, a gente fez uma conta no nosso nome no banco e botava aquele dinheiro no banco todos os dias.

TCTomás Chiaverini

Elas moravam em locais determinados pelo cafetão, andavam nos carros determinados pelo cafetão e nunca tinham acesso ao dinheiro, porque tudo girava ao redor dele.

?Voz E

Chegou uma época que ele queria que eu engravidasse. Ele achou que eu tinha engravidado, eu nunca quis ser mãe. E ele me botou num sítio e me tirou os comprimidos e o carro.

TCTomás Chiaverini

Os comprimidos, no caso, são os anticoncepcionais.

?Voz E

E eu peguei e pedi para tomar remédio escondido, porque é só ela que podia ir lá. E ela me levava comprimido escondido, eu escondia dentro das panelas. É o único lugar que eu não mexia, né, nas panelas. Eu tomava todo dia. Tem mais de um ano ele tentando me engravidar, até hoje não vai conseguir.

TCTomás Chiaverini

Isso durou décadas, até 2004, quando Mimoso tentou transformar Soyla em cafetina.

?Voz E

Eu tenho que mentir para essas mulheres, coisa que ele fez comigo. Eu tenho que enganar essas mulheres, coisa que ele fez comigo.

TCTomás Chiaverini

Nessa hora, ela chegou ao limite e resolveu fugir. Só que nessa hora ela não tava mais sozinha, tinha o Nep.

?Voz E

Aí eu tenho uma outra rede, porque parente não ia jantar.

TCTomás Chiaverini

Ela contou que passou algum tempo arquitetando um plano.

?Voz E

Só tem uma maneira: eu achar um lugar, me esconder durante um tempo, procurar o movimento.

TCTomás Chiaverini

E assim foi.

?Voz E

E a Tina me arrumou um lugar lá no interiorzão, lá em Júlio de Castilhos. Tem uma conhecida dela que tem um cabaré lá e eu consigo lá uma rede grande de apoio que eu consigo ver até quem é que entra primeiro dentro, vai entrar dentro do cabaré sem as pessoas me verem.

TCTomás Chiaverini

A Suelen passou a viver escondida nesse cabaré, separada das outras mulheres por medo que alguma delas conhecesse o mimoso.

?Voz E

Fica noiada. Eu enxergava ele, eu escutava a voz dele. Foi torturante assim, sabe? Foi loucuragem.

TCTomás Chiaverini

Ela contou que passou 3 anos escondida até que se cansou e tomou uma decisão arriscada. Resolveu voltar para Porto Alegre.

?Voz E

E vou para Praça da Alfândega, lugar público aberto. É óbvio que o mimoso me acha, né? É óbvio que ele me acha, porque lá tem outros cafetões que se dão com ele. E me pega pelo braço e diz assim, ó, seguinte, cara, assim, ó, bom, daí pensa num discurso de elogios.

MZMaíra Zapater

Só que não.

?Voz E

Isso foi uma vez, foi duas vezes e foi três vezes, até que ele cansou.

TCTomás Chiaverini

A Soyla contou pro Mateus que o mimoso foi perdendo o interesse, talvez porque ela estivesse com mais de 40 anos, o que a tornava uma mercadoria menos valiosa, e que a maior preocupação do mimoso nesse momento era que ela não falasse pras outras que tinham trabalhado pra ele, provavelmente pra que ele não tivesse a própria capacidade de ameaça diminuída. Afinal, se uma conseguiu escapar do sistema, outras poderiam acabar tendo ideia. Diante disso, ela continuou trabalhando, mas agora por conta própria.

?Voz E

E assim se passaram vários anos, até que em 2024 ele ficou doente, muito doente, veio a morrer. E a Renata, a primeira mulher dele, me chama para ir no enterro, para ir lá. Eu fui lá, tirei foto, fiz Reels, tirei foto do cachorro, do corvejo, do caixão dele assim. Botei, levantei o véu para ver se ele tava realmente morto, tava tudo sem nada aqui. Bati nele, se bate em mim agora, malandro! Aí fiquei muito feliz, hoje foi o melhor dia da minha vida.

TCTomás Chiaverini

A história da Suyla é emblemática e se repete em vários lugares do mundo. A prostituição frequentemente está associada a esse esquema que no fim é um tipo de escravidão, servidão por dívida. Mas essa é uma parte da história, a parte que tá por trás do trabalho. E o trabalho em si? Como é esse ofício tão ubíquo e tão misterioso? A primeira coisa que eu preciso te falar é que sim, existem homens se prostituindo, existem mulheres contratando gigolôs, mas no geral esse é um mercado que serve para atender aos desejos do público masculino. 80% do tráfego da Fatal, por exemplo, é composto por homens. E no caso da prostituição em si, boa parte desses homens são casados.

?Voz E

90% casado.

?Voz 1

90%?

?Voz E

Acho 95%. Quase todo mundo.

TCTomás Chiaverini

Pois é. Fora isso, a Suelen disse que os clientes dela são homens normais.

?Voz E

São nossos tios, são nossos primos, é normais assim. Não tem nem nada de que diga, não, aquele lá é cliente, aquele lá não é cliente. Tem muito cara da igreja evangélica também, tenho agora 2 evangélicos de cliente. Agora tem pouco cliente, viu?

TCTomás Chiaverini

Hoje a Suelen tem 4 clientes fixos e mistura o trabalho sexual com o trabalho no NEP. Mas a renda dela vem toda da prostituição.

?Voz E

E o mais antigo que eu tenho, eu conheci ele com 23 anos de idade.

TCTomás Chiaverini

Aí tem a questão da intimidade. Tem gente que faz programa na rua, no carro, nos estacionamentos dos parques, nos banheiros públicos. Mas tem também quem prefira algum conforto.

?Voz E

Nunca fazia programa em outro lugar que não fosse o hotel. O próprio cafetão fez uma rede de proteção, caso ele não tivesse ali, né? Tinha olheiro, tinha uma das mulheres dele também que era responsável disso, de cuidar o tempo, se ia dar algum tipo de problema no quarto, principalmente na época da camisinha, porque alguns aceitava camisinha lá embaixo, daí chegava lá em cima, queria tirar. Nós tinha uma estratégia: quando chegava na portaria, sempre pagar antes, nunca pagar depois, sempre pagar antes na portaria.

Passa a mão na cintura do bonito para ver se tem alguma arma envolvida. Passar na cintura não é um carinho, entendeu? É isso. Se tu sentir que tem arma, tem que deixar na portaria ou não vai. Porque antes disso, a cara chegava lá dentro, o cara tirava a arma, botava em cima assim, tipo uma intimidação, né?

TCTomás Chiaverini

Mas esses casos eram exceção. No geral, os clientes são homens normais mesmo, casados, mas normais, homens mais jovens.

?Voz E

Tinha senhorzinhos que geralmente no domingo né, que eu não só não trabalhava sexta-feira santa porque meu moço achava que sexta-feira santa era pecado. A gente trabalhava sábado, domingo, feriado, véspera de Natal, véspera de Ano Novo, aniversário, enfim.

?Voz 1

Começava que horas e terminava que horas?

?Voz E

Dia de semana, de segunda a sexta, a gente iniciava 7 horas, que era o horário que fechava o comércio da volta do hotel. E sábado e domingo a gente podia ir de tarde, tipo 2 horas da tarde, que tava tudo fechado. Sempre tempo reduzido. Lá na Voluntários era menos, tá? Ali no centro, onde a gente subiu ali, um pouquinho mais de tempo, que a gente começou a cobrar mais. Tipo, vamos supor, eu não me lembro quanto até que era programa na vontade, que é muito tempo.

Se fosse R$20, sei que era um preço bem baixo porque era uma zona bem pobre assim, vamos dizer. Mas a gente fazia muito programa para poder compensar. No centro a gente foi taxada para fazer menos programa com valor mais alto. Daí então a gente fazia tipo 10 programas de R$200. Esse era a tua meta. Se tu não fizesse 10, ou tu não ia embora até fazer, ou tu deixava para outro dia.

TCTomás Chiaverini

Essa meta diária variava de acordo com a idade das trabalhadoras.

?Voz E

Então as meninas que chegavam com 20, 22 anos, elas tinham que fazer, ao invés de fazer 15, elas tinham que fazer 25 programas, sabe? Elas faziam mais do que nós.

TCTomás Chiaverini

Quando o Matheus perguntou sobre a clientela pra Beatriz, a prostituta que começou a trabalhar já numa plataforma, ela fez uma descrição mais subjetiva.

?Voz C

As pessoas dentro do sexo, elas mostram muito mais do que só o sexo. Elas mostram as suas inseguranças, elas mostram seus gatilhos, elas mostram suas curiosidades, aquilo que elas não compartilham com outras pessoas. Então assim, eu acho isso muito rico. Além disso, rola também uma parada de identificação, porque tipo assim, eu sou uma mulher preta, eu sou uma mulher não padrão, tenho celulite e o caralho. E tem caras que me procuram justamente por isso, porque também são caras que são não padrão.

Então assim, rola essa coisa de conversar, inclusive com outros caras negros, né, quando eles me contratam, rola também esse rolê de identificação também.

TCTomás Chiaverini

A questão da cor da pele em relação ao sexo é algo que sempre foi muito presente pra Beatriz. Ela disse que sempre foi objetificada por causa disso, marginalizada de alguma forma.

?Voz C

Uma coisa que eu percebia assim, sendo mulherneira, é que, por exemplo, pra me chamar pra sair era sempre tipo assim, ai, dentro de um carro, ai, vamos ali no beco, ou então, ai, vamos pra sua casa. Nunca era nada muito elaborado, tipo assim, um jantar, ou tipo assim, ah, vamos num museu, não sei o quê.

TCTomás Chiaverini

E quando ela começou a cobrar por sexo, isso mudou.

?Voz C

Eu achei até meio irônico porque eu falei, ah não, aqui eu já tô, né, vai ser só sexo mesmo, vou cobrar minha parte, acabou. E quando eu comecei a cobrar, eu percebi o fenômeno quase que o contrário, tipo assim, as pessoas me chamarem para sair, de eu acompanhar em jantares, de eu dar, sei lá, voltinhas no parque, de eu ir para os barzinhos e tal.

TCTomás Chiaverini

Para Beatriz, quando o dinheiro começa a intermediar o sexo, essa troca ganha uma característica dicotômica, paradoxal. Porque ela escancara a fragilidade de ambos os lados.

?Voz C

Ao mesmo tempo que o cara tenta subjulgar a mina porque ela tá cobrando por sexo, ela também devolve no sentido tipo assim: tá, você tá pagando para comer alguém, e aí? Então essas forças, elas meio que entram, e o dinheiro ele meio que serve para isso, ele quase que nivela o jogo.

TCTomás Chiaverini

E aí, claro, tem o desejo. Como fica essa questão tão subjetiva? Como fica o prazer quando um dos lados tá ali pelo dinheiro?

?Voz E

Nem com ele não gozava, que eu acho que eu nem sabia o que que era. Eu fui descobrir isso foi depois, nos programas, com mais tempo lá no centro, que eu tinha alguns clientes que eu gostava de ficar com eles, entendeu? Que era diferente, bagulho. Eu digo, opa, eu sabia que aquilo tava errado, que eu não podia contar, mas eu sabia o que eu tava sentindo, sabe? Então foi outro tipo de trança, né? Eu cobrava igual, mas eu sentia um algo mais.

Eu digo, opa, isso aqui tá diferente, nunca aconteceu isso com o Mimoso. Então acho que é isso que eles chamam de tesão.

TCTomás Chiaverini

Aqui não custa lembrar que a Suelen começou a vida sexual dela com o Mimoso. Não devia ser o mais atencioso dos homens, né?

?Voz E

Tá ali dentro do negócio, mas não tá entendendo nada nessa parte feminina. Tá entendendo só masculina, que os cara vão lá para transar e alguns chegam já com pau duro. Verdade é essa. Agora daí vem mais as outras formas de sexo ali no centro. Descobriu outros tipos de fetiches que os homens chegam até mim. Eu tenho que fazer isso por mais um dinheiro, mas eu faço. Aí eu começo a me especializar e descubro que eu adoro pisar em cima dos homens de salto e machucar eles, sabe?

E daí eu tinha o prazer nisso também. Daí eu me descubro fazendo outras coisinhas mais especialistas e ganhando muito, porque eu tenho um pé pequeno, eu tenho pé 34. Isso chamava muita atenção dos homens que passavam ali na calçada, me enxergavam, me traziam sandálias para pisar por cima deles, porque o meu pé era muito pequenininho, muito lindinho, não sei o quê, não sei o quê. Daí eu me descubro tendo prazer nisso, sabe?

TCTomás Chiaverini

A Suela contou ao Matheus que foi se especializando nessas práticas pouco convencionais de sexo e que só tem uma coisa que ela não topa fazer de jeito nenhum.

?Voz E

A única coisa que eu não faço de jeito nenhum é imitar criança. Não faço. Pode me pagar a grana que for.

TCTomás Chiaverini

Ageplay é o nome dessa prática sexual. A Beatriz deu mais detalhes sobre ela.

?Voz C

São pessoas adultas, tá, com plena capacidade de consentir, que usam trejeitos e acessórios infantis, né? Então você vai ver a pessoa de vestidinho ou de macacãozinho, de fraldinha, chupeta, mamadeira e tal.

TCTomás Chiaverini

Os fetiches são bem presentes nesse mercado. E faz sentido, né? Os caras vão procurar ali o que têm vergonha de pedir pras próprias parceiras.

?Voz C

Que é a questão da podolatria, a dominação, e aí você inclui dominação física, verbal e tal. O chamado CBT, que é basicamente chute no sapo, entre outras coisas, que é uma coisa que eu tinha curiosidade, que eu achava meio absurdo. E aí eu pesquisei, eu falei, antes ele do que eu, né? Se for para recebê-la, que seja outra pessoa. Ah, esqueci de citar algo que eu faço, né, que é inversão ou pegging, né, que é você penetrar o homem e tal.

E o roleplay, né, que é você criar um cenário. Então dali você tem vários cenários, por exemplo, professora, secretária. Isso é o roleplay.

TCTomás Chiaverini

E aí, claro, tem um papel histórico que essas mulheres desempenham desde sempre, que é o de iniciar muitos homens na vida sexual.

?Voz C

O cara que vem para ter a sua primeira vez nem sempre ele vem para sexo, ele vem para tirar dúvida. Uma coisa é você falar para o cara, tipo assim, ah, use camisinha, mas ele não sabe segurar a ponta da camisinha. Então esse atendimento de virgindade é um atendimento de sexo, obviamente, mas ele envolve muito mais coisa e exige muito mais paciência e muito mais tato. Para você lidar com isso, ciente obviamente da realidade que a gente tem hoje, que é uma realidade que a gente não tem espaços seguros para educação sexual nem nada disso.

A gente tinha educação sexual focada nas ISTs, que é muito importante, extremamente válido, mas a gente não fala de consentimento, a gente não fala de prazer, a gente não fala de fetiche, a gente não fala de diálogo, né? E tudo isso faz parte da educação sexual. Eles vão encontrar essas outras coisas que talvez são importantes Aonde? Nos cabarés.

TCTomás Chiaverini

Certo. E quanto aos valores desse trabalho tão multifacetado? Quanto uma profissional do sexo costuma ganhar hoje em dia? A resposta para isso é complicada. Tem mulheres que se prostituem por uma pedra de crack. Por outro lado, na palavra fatal, tem mulheres que cobram R$2.000 a hora. E tem exemplos ainda mais extremos. A prostituta que supostamente atendeu o ministro do Supremo, Cássio Nunes Marques, Teria recebido R$10 mil, segundo mensagens apreendidas pela PF no celular do banqueiro Daniel Vorcaro. De qualquer forma, a Beatriz falou de quanto ela ganha.

?Voz C

Um atendimento normal, em média, ele é de R$300 a R$350 a hora. E aí, com fetiche, vai variar do número de práticas envolvidas e do tipo de prática que vai ser. Por exemplo, um atendimento com inversão, normalmente eu cobro R$400, R$450 a hora. Porque aí entra o uso do dildo, entra o uso do lubrificante, entra o tempo também, porque eu tenho que preparar a pessoa para penetração e tal. Então isso acaba exigindo um pouco mais, mas eu diria que a média é essa assim, de R$300 a R$450 a hora. E aí casal já é outro preço, enfim.

TCTomás Chiaverini

E no fim do mês, quanto pinga na conta mensalmente?

?Voz C

Assim, em torno de R$7.000 a R$8.000 também.

TCTomás Chiaverini

E assim, com essa sequência luxuriosa de mistérios desvendados, a gente chega à metade do episódio. E com isso a gente chega a uma grande pergunta, que tem a ver com a legalidade desse buzines todo. Porque, como você provavelmente sabe, a prostituição em si não é crime.

MZMaíra Zapater

De fato, a prostituição não é crime. Ou seja, a conduta de uma pessoa que autonomamente decide praticar qualquer ato sexual mediante pagamento não está previsto no Código Penal ou em qualquer legislação, não é previsto como crime.

TCTomás Chiaverini

Essa é a coordenadora e professora de direito da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São de São Paulo, a UNIFESP, Maíra Cardoso Zapater. A Maíra Zapater também é formada em Ciências Sociais, é especialista em Direito Penal e Processual Penal. E você que é escafandrista raiz vai se lembrar dela do nosso episódio 160, Inconstitucionalissimamente.

MZMaíra Zapater

Primeiro ponto que a gente precisa ajustar aqui é para a gente pensar do que que a gente está falando quando se trata do termo prostituição. Então tudo que eu falar aqui a respeito de prostituição, eu tô me referindo à conduta praticada por pessoas adultas Então, maiores de 18 anos, capazes de consentir e que praticam atos sexuais mediante pagamento em dinheiro, em bens, o que quer que seja. Atos sexuais praticados com crianças e adolescentes menores de 14 anos sempre é crime, ainda que consintam, né? Isso vai ser crime com a pena de 8 a 15 anos de reclusão.

TCTomás Chiaverini

A Maíra falou pra gente especificamente do caso da Soylamar.

MZMaíra Zapater

Se ela tinha 17 anos, o homem que tava fazendo a exploração dela, ele poderia ser enquadrado em crime de sedução Caso ela fosse virgem quando começou, porque virgindade era um bem jurídico do Código Penal até 2005. Crime de sedução era seduzir mulher virgem e honesta se utilizando da sua confiança. Corrupção de menores poderia ser enquadrado.

TCTomás Chiaverini

E aqui a Maíra Zapatri tá falando dos crimes que têm a ver com a idade da vítima, mas mesmo se ela fosse maior na época, ele estaria cometendo um crime.

MZMaíra Zapater

E depois qualquer tipo de favorecimento da prostituição, rufianismo, a partir do momento que ela tem 18 anos de idade, antes dos 18 anos. Favorecimento da prostituição com aumento de pena correspondente.

TCTomás Chiaverini

A Maíra citou a Lei das Contravenções Penais, incluindo, claro, a vadiagem.

MZMaíra Zapater

O uso do termo vadia para se referir a mulheres que se prostituem tem origem na Lei de Contravenções Penais, porque isso desde a ditadura Vargas e passando pela ditadura militar, muitas mulheres, e aí tanto mulheres cis quanto mulheres trans, travestis, a gente tem muito caso, principalmente até a época da ditadura militar, dessas mulheres serem levadas ao espaço público sob acusação de vadiagem. Então elas são presas, são levadas para delegacia, enquadradas como vadias.

Mas não é vadia pela prostituição, vadia pela contravenção de vadiagem, que acabou ficando como sinônimo.

TCTomás Chiaverini

E aí a gente tem os sites como a Fatal Model.

?Voz D

Ele é um modelo já bastante antigo.

TCTomás Chiaverini

Eu diria que Samuel, um garoto sócio da plataforma, de volta.

?Voz D

Quem começou nesse mercado foram os grandes veículos de imprensa.

TCTomás Chiaverini

E aqui tá o pulo do gato do serviço da Fatal. Que, pelo menos na narrativa do Samuel, é diferente do Uber e do Airbnb, que servem como plataformas de intermediação de serviços. Na visão dele, a Fatal faz algo diferente e muito antigo, que é simplesmente vender espaço publicitário. Para exemplificar o modelo de negócio da Fatal, ele usou uma analogia que pode ser impressão minha, mas caberia muito bem na boca de um cafetão de 1980. Ele comparou as mulheres com automóveis.

?Voz D

Quando alguém vai num jornal colocar um anúncio de um carro para vender, por exemplo, o jornal não faz a checagem se aquele carro realmente é o único dono, se aquele carro tem aquela quilometragem. Jornal simplesmente publica o anúncio que lhe é contratado, ele não tem responsabilidade sobre esse anúncio. O que nós aqui da Fatal fizemos foi: não, a gente precisa Checar as informações que estão sendo colocadas no anúncio. E aí a gente utiliza a tecnologia para fazer isso.

TCTomás Chiaverini

Existe, por exemplo, um sistema de verificação de idade com leitura facial e comparação com documentos, que é a mesma que é utilizada no Nubank, em Banco Inter.

?Voz D

A gente faz a mídia de comparação.

?Voz C

A gente tem o que se chama vídeo de comparação, né? Beatriz Andrade, que desde 2018 anuncia na Fatal, que é um vídeo que você grava sem filtro, sem nada, E aí esse vídeo que você fazia, né, você tinha a plaquinha lá do anúncio, e aí, se eu não me engano, você tinha que dar uma volta 360, né, mostrando ali e tal, pro cliente ver que é você, que não tem filtro, que não tem nada.

?Voz D

Que é muito comum a acompanhante que tem 30 anos falar que tem 25, porque entende que tendo 25 anos, sendo mais jovem, a probabilidade de ser contratada é maior. Só que essa mentira que parece numa primeira olhada ser algo inocente pode ser crime. Quando uma pessoa que vai criar um anúncio tem 17 anos e mente que tem 19 para poder criar aquele anúncio. Nós também temos um setor antifraude com 15 pessoas trabalhando em cima de denúncias de golpe, em cima de denúncias de violação de políticas da plataforma, né, onde a gente tem uma conexão com a Polícia Civil, onde casos de extorsão, casos de agressão, a gente entrega o conteúdo e provas que possam ajudar as forças policiais a investigar aqueles casos.

A Fatal Model, ela é uma marca que ela, veja que nas suas peças publicitárias ela não tem erotização, não há objetificação do corpo dos acompanhantes, não há sensualização, não há nudez.

TCTomás Chiaverini

Aqui basta dar dois cliques no site para questionar essa ideia. A plataforma tá coalhada de fotos de mulheres sem roupas e cortes de sexo explícito. E o Samuel falou sobre isso sem o Matheus precisar perguntar.

?Voz D

E aí você pode me questionar, tá, mas Samuel, se eu acessar a Fata Moda, tem um monte de nudez lá. Sim, mas essa nudez é a nudez colocada nos perfis pelos usuários da plataforma. A gente não faz uma peça publicitária de um monte de pessoas correndo seminus numa praia em meio ao sol assim como é muito comum ver comerciais de bebida alcoólica fazendo isso. A gente qualifica o empreendedor que trabalha no mercado adulto, aquela micro e pequena empresa que trabalha no mercado adulto.

Olha que interessante, Matheus, eu fui a primeira pessoa a apresentar preconceito com relação à ideia da Fatal Moda. Quando me trouxeram a ideia, só olha A gente pensou em trabalhar o mercado aqui, de fazer uma plataforma de acompanhantes. Cara, vamos procurar outro mercado, né? A gente vai começar a empreender nisso, não vão, né, os nossos familiares não vão mais convidar a gente para festa de aniversário de sobrinho e tal. Vamos achar outro negócio.

Eu fui o primeiro a apresentar preconceito, porque naquela época, para mim, a profissão de acompanhante era uma profissão que tava muito vinculada, na minha percepção, a consumo de droga, drogas ilícitas, a consumo de álcool, a violência. E hoje, conhecendo o perfil dos acompanhantes, são pessoas normais como eu, como tu aqui, como qualquer outra pessoa. São pessoas que têm educação, são pessoas inteligentes.

TCTomás Chiaverini

Em 2020, a antropóloga Mariana Brasil de Matos tava meio que num limbo acadêmico. Ela tinha acabado de publicar pela UFRJ a dissertação Sem Vergonha de Ser Puta sobre o jornal Beijo na Rua, um periódico tocado pelo movimento de prostitutas logo depois da ditadura militar. E ela tava com aquela sensação comum depois das bancas em geral de que precisava mudar de ares.

MBMariana Brasil

No final de 2020, pandemia, foi um caos. Eu fiquei: não quero mais, cansei. E aí foi isso, eu defendi em 2020. Mas aí Minha irmã é muito fã de futebol, ela tava assistindo um dia um programa esportivo e tavam debatendo esse site. E eu fiquei assim, meu Deus, droga, o doutorado me encontrou, vou ter que voltar agora.

TCTomás Chiaverini

Resultado: Mariana Brasil de Matos tá no segundo ano de um doutorado sobre a Fatal Model e outras plataformas do tipo.

?Voz 1

Vamos falar da Fatal Model? E eu queria que você falasse primeiro assim como que funciona, porque eu entrei no site pra dar uma olhada e a primeira sensação que bate É que eu abri o Airbnb.

MBMariana Brasil

É, exatamente, é muito clean, né?

?Voz 1

Sim. E aí o sistema de nota e tal, eu queria que você falasse um pouco sobre o funcionamento da plataforma.

MBMariana Brasil

Bom, a Fatal Model é uma plataforma de tipo marketplace. Então pensa Uber, pensa iFood, é on demand, né, que chama. Então é automático, você escolhe o produto e a plataforma te conecta com uma pessoa que vai realizar esse serviço ali automaticamente.

TCTomás Chiaverini

Esse não é o caso da Fatal Model.

MBMariana Brasil

É mais parecido com o Mercado Livre, com a Amazon, no sentido de que você vai abrir uma página e vão ter vários anúncios, anúncios de pessoas diferentes anunciando serviços diferentes. É um feed, né? Você pode buscar por localização, você pode buscar por filtros. Então tem filtros de tipos de serviço, local de atendimento. Enfim, você vai usar o filtro que você quiser, ou não. Você pode ir só para, tipo assim, top acompanhantes Rio de Janeiro, top acompanhante São Paulo, vai aparecer lá.

Outras plataformas de serviço você paga a plataforma. Isso a Fataal Moda não pode fazer. Você como usuário cliente, você vai acessar a plataforma, você vai escolher o serviço que te apetece ali, a pessoa faz a própria precificação E você vai entrar em contato e pagar por fora. A pessoa tem que ter um outro canal de comunicação, porque a conversa tem que ser via WhatsApp ou Telegram ou Instagram, o que seja. A pessoa tem que ter um local de atendimento.

?Voz D

Como a gente não intermedia compra e venda de serviços sexuais, nós não temos como saber se uma prestação de serviço realmente aconteceu, se uma contratação realmente aconteceu. Então, nesse sentido, para que um usuário possa fazer a avaliação daquele acompanhante, ele precisa ter cadastro na plataforma. Então, esse usuário, ele faz um cadastro na plataforma, tem um login e senha de contratante. Os contratantes também são avaliados pelos acompanhantes.

E aí, dentro do painel do acompanhante, tem ferramentas para ele avaliar o contratante.

TCTomás Chiaverini

Isso, segundo a Beatriz, gerou um problema comum a plataformas que rankeiam prestadores de serviço, tipo TripAdvisor.

?Voz C

Gerou um mercado paralelo de venda de avaliações e feedbacks. E às vezes nos grupos que eu tô, eu recebo mensagem tipo assim: ah, faço avaliação no seu perfil, aumente seu engajamento já, coisa desse tipo, né? Aí a pessoa cobra tantas avaliações, tantos reais e por aí vai.

TCTomás Chiaverini

O Samuel garantiu que isso tem sido combatido ativamente.

?Voz D

Nós temos um setor com mais ou menos 40 pessoas de atendimento. E uma parte desta equipe, ele é direcionado para curadoria das avaliações.

TCTomás Chiaverini

E aqui tem um daqueles aspectos da contradição: quem anuncia não precisa necessariamente pagar a Fatal Model para aparecer, mas, mas para subir no ranqueamento, aí é compra de pontos que é feito dentro do site.

?Voz D

E é possível acumular esses pontos de duas formas: A primeira é comprando esses pontos, que é igual ao mercado do Google Ads, que é igual a WebMotors, por exemplo, né? Você paga, você vai estar em destaque. Se você não paga, seu anúncio vai ficar um pouco mais escondido.

TCTomás Chiaverini

A Beatriz contou que chegou a assinar um plano de destaque que custava R$400 por mês.

?Voz C

Lembrando que eu pagava um anúncio básico, assim, não pagava nem nada muito extraordinário.

TCTomás Chiaverini

Aí tem uma segunda forma de ganhar destaque que é chamando a atenção de quem acessa o site. Como? Publicando fotos e vídeos eróticos ou pornográficos.

?Voz D

Estar ativo na plataforma também rende destaque dentro da plataforma.

LCLorena Caminhas

O que eu acho que a Fatal Model fez, né, que foi— enfim, a gente pode discutir o quanto é ético, né, ali o que a Fatal Model tá fazendo e o quanto que é bom para as trabalhadoras e para os trabalhadores, que eu acho que não é.

TCTomás Chiaverini

Essa é a doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, mestre em Comunicação Social pela UFMG e professora assistente do Departamento de Estudos de Mídia da Maynooth University. Na Irlanda, Lorena Caminhas. Ela é especialista em trabalho sexual nas redes sociais.

LCLorena Caminhas

Coloca essas pessoas realmente numa situação de mais precariedade, porque aí você tem que lidar com nota, você tem que lidar com como que você vai ser avaliado. É pesado para essas pessoas. E essa avaliação, ela costumava ser de boca a boca, né? Ou as profissionais falando do cliente, ou os clientes falando, ah, eu fui com essa profissional, não gostei, não vai. Então era uma coisa muito circunscrita, um grupo pequeno de pessoas.

E hoje tá ali online, né, disponível. E aí você tem que lidar com essas notas, que às vezes a pessoa vai te dar uma nota baixa porque, enfim, você se negou a fazer alguma coisa que você já tinha avisado que não faria. É uma coisa que a gente nunca viu. Isso formaliza no sentido de que essas pessoas são facilmente encontradas. Você vai ali, você consegue ver até a nota que ela ganhou, né? Até que posição que ela vai estar nessa plataforma.

Então eu acho que é basicamente é o mesmo movimento, né? É usar essa infraestrutura das plataformas exatamente para poder administrar o trabalho sexual da maneira como a gente administra outros trabalhos plataformizados e tornar eles mais controláveis.

TCTomás Chiaverini

E assim a gente chega a uma das contradições que para mim é das mais gritantes. Porque lembra que lá atrás a gente falou que a Fatal era o 32º site mais acessado do país? Pois é, é evidente que esses acessos todos não são de pessoas à procura de acompanhantes. A gente teve acesso, por exemplo, ao tráfego de janeiro de 2025. Nesse mês, o site teve 23 milhões de usuários únicos, mas só 3 milhões de contratantes. E é importante frisar que esse dado de contratantes não é dos mais precisos, Já que a negociação toda é feita por fora da plataforma.

De qualquer forma, no fim, a maior parte das pessoas que entram no site da Fatal fazem isso pra assistir conteúdo pornográfico. E a princípio não tem nada de errado com isso. O problema é que as mulheres que estão ali produzindo conteúdo não são pagas por esse conteúdo. É um sistema parecido com o que o Instagram faz com a gente. A gente posta stories porque quer ser visto, ou porque precisa ser visto e, de quebra, estamos trabalhando de graça para as pessoas mais ricas do planeta.

A diferença é que enquanto você e eu postamos fotos do nosso gato, da nossa última refeição, elas postam fotos delas mesmas, por exemplo, fazendo sexo oral. E por um lado, a Fatal não monetiza esse material, mas ela ganha um tráfego gigantesco que permite, por exemplo, a divulgação de outros produtos como o FatalFans, um site da mesma empresa Onde aí sim os inscritos podem vender conteúdo pornográfico, pagando, claro, uma fatia para os donos da plataforma.

?Voz 1

Eu queria que você me contasse assim, enquanto você trabalhou utilizando o site, se você sentiu de alguma forma esse respeito, essa segurança, essa dignidade, esse empoderamento.

?Voz C

E se sim ou se não, ok.

?Voz 1

E se sim ou se não, se isso se difere de alguma forma de outros sites, de outras plataformas, ou se é uma coisa que não muda muito em relação aos sites. Foi uma risada muito sincera.

?Voz C

É, eu tentei, eu tentei, eu tentei. Mas vamos lá, assim, para quem tá ali no tete a tete, para quem não é embaixadora da Fatal, agora falando com todas as letras, para quem não é testa de ferro da empresa, eu percebi muito pouco dessa coisa dessa valorização e tal e não sei o quê. Cara, para você ter uma ideia, para eu mudar de cidade, por exemplo, meu anúncio está alocado em São Paulo. Para eu mudar de cidade eu pago R$200 ida e volta.

Ou seja, eu vou para o Rio visitar minha família e às vezes eu colocava meu anúncio lá porque vai que pinga alguma coisa. Eu vou para o Rio, eu pago R$200 e eu pago R$200 para voltar o meu anúncio para São Paulo de novo. Como você quer me dizer que você está valorizando e trazendo dignidade cobrando R$400 de uma puta média? Com todo respeito, porque a maioria são putas médias, tá fazendo, sei lá, pouco mais de um salário mínimo.

Como que você cobra R$400, considerando a ida e a volta, para trocar de cidade do anúncio, sabendo que prostitutas se locomovem constantemente? E esse valor vai para time de futebol, que é um negócio que não retorna para gente. Com todo respeito, não retorna. Desde quando começou esse rolê de time de futebol até hoje, eu tive 2 clientes que vieram desse tipo de anúncio. Agora, a quantidade de hate, a quantidade de violência, né, de comentários violentos que a gente recebe, extrapolou.

TCTomás Chiaverini

A Fatal Model se vende como uma plataforma de sucesso igual a todas as outras plataformas de sucesso.

?Voz D

Hoje a Fatal, ela fatura R$17 milhões por mês. É um recorde que a gente estabeleceu. Nosso recorde anterior era R$15 milhões por mês.

TCTomás Chiaverini

O Samuel contou que o faturamento anual da empresa tá em cerca de R$150 milhões e que esse número vem saltando ano a ano. 60 milhões em 2023, 100 milhões em 2024, 150 milhões em 2025. Num documento promocional deles, ao qual a gente teve acesso, eles apresentam uma numeralha dourada com dados invejáveis, como uma nota 9 no Reclame Aqui. E isso leva à pergunta que acompanhou a gente durante toda essa apuração: como tratar esse mercado?

Até que ponto uma trabalhadora ou um trabalhador sexual podem ser vistos como outras pessoas que trabalham em plataformas de serviços Como alguém que dirige um Uber ou trabalha fazendo entregas no iFood. O Matheus falou sobre isso com a cientista social Lorena Caminhas.

LCLorena Caminhas

Qual que é o problema do trabalho sexual? É que ele socialmente, historicamente, é um trabalho que foi estigmatizado e que foi colocado como um trabalho que é menor que outras formas de trabalho. Então, numa categoria de não trabalho. Eu acho que esse é que é o principal ponto pra gente pensar. Não é se a execução daquela tarefa enquanto trabalho é similar ou não a outras. Mas é como que socialmente, moralmente, a gente qualifica aquela atividade.

Aí a gente precisa diferenciar. Por quê? Porque ele é um trabalho que tem baixo status social, então ele é visto como um trabalho que a gente chama, né, de dirty work, que é um trabalho sujo mesmo. Os exemplos que a gente tem de dirty works, por exemplo, o gari, né, que é um trabalho que as pessoas acham sujo, mas ele ainda tem alguma coisa de dignidade. O trabalho sexual, ele é sujo no sentido de que envolve o corpo, envolve uma certa troca de fluidos, ali, sobretudo na prostituição, mas ele ao mesmo tempo envolve uma corrosão moral da própria pessoa que executa.

Aí você abre para uma série de exploração, de formas de explorações, né, assim, que o trabalho mais tradicional não vai enfrentar. Violência dos clientes com quem oferece trabalho sexual ou da polícia mesmo, né, do Estado contra essas pessoas. No trabalho digital, o que a gente vê muito é perseguição. Mesmo de cliente contra essas pessoas que exercem esse trabalho, ou das próprias plataformas se aproveitando da marginalização, da falta de regulação, para explorar ainda mais as pessoas que fazem esse trabalho.

E abusa-se exatamente porque não é regulado, porque é marginalizado, a pessoa é desmoralizada.

TCTomás Chiaverini

E assim a gente chega a outra pergunta que caminhou com a gente durante toda a apuração, que tem a ver com a legalidade. Seria a Fatal Model um grande gigolô digital, portanto passível de ser enquadrada no artigo 230 do Código Penal, que define o crime de rufianismo: tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar no todo ou em parte por quem a exerça. Pena: reclusão de 1 a 4 anos e multa.

A Maíra Zapata começou a responder a essa questão falando dos lugares físicos onde esse crime acontece ou não.

MZMaíra Zapater

Como que a gente define casa de massagem? Entra naquilo, entre aspas, que todo mundo sabe o que acontece, porém não se coloca o nome de casa de massagem. E aí acho que vale trazer aqui uma questão que ela acontece justamente por conta da forma como a lei é escrita.

TCTomás Chiaverini

Porque lembra que a gente falou que o rufianismo ou a cafetinagem era considerado um crime contra os costumes até 2009?

MZMaíra Zapater

Quando a gente indica na legislação contra o que que o crime tá sendo praticado, o juiz, quando vai aplicar a lei num caso que chega ali para ele, ele fala, bom, Isso aqui que tá sendo protegido foi violado?

TCTomás Chiaverini

Um homicídio é um crime contra a vida, não tem subjetividade aí. Já um crime contra os costumes, que que são costumes?

MZMaíra Zapater

Costumes de quem? De onde? E tudo isso vai impactar nos julgados e vai impactar no que que o próprio juiz pensa a respeito disso tudo. Então imagina você que até 2005, então é relativamente recente, a gente tá falando de 20 anos atrás, não de 100, né? Situações do tipo casas de massagem Locais como, eu não sei se a gente pode citar o nome do local aqui ou se eu só indico, por favor, Maíra Zapatero, tipo Bahamas, Café Foto. Isso nos anos 90, era época que eu era estudante, toda hora tinha processo criminal por causa de prostituição e que acabava sendo impetrados habeas corpus em que as defesas diziam, olha, não é uma casa de prostituição, é uma casa de entretenimento.

A gente tem shows, a gente tem um bar, a gente tem quartos. Se as pessoas quiserem se prostituir aqui, levar um cliente para lá, a gente não pode fazer nada. Em geral dava certo. Quer dizer, então a gente pode ter situações como de um Bahamas, de um café-foto, de uma dessas casas de prostituição de alto luxo que a gente tem nas grandes cidades, que não vão sofrer reprimenda nenhuma. E às vezes uma pequena casa de massagem ou uma casa de uma pessoa que se prostitui, chama mais duas amigas ali, e as pessoas vão ser presas por causa de prostituição.

Tudo isso porque na verdade existe uma moralização por trás desse discurso penal que acaba selecionando as pessoas mais fragilizadas e mais vulnerabilizadas economicamente.

TCTomás Chiaverini

Tá, mas e a Fata Model? O Matheus começou perguntando para o sócio da plataforma, Samuel Ongarato.

?Voz 1

Como que é a sustentação jurídica de vocês? Para vocês, quando alguém acusar vocês que vocês estão tirando proveito da prostituição alheia, por exemplo, como que vocês rebatem isso? Por que que vocês não enxergam dessa forma?

?Voz D

Por que que a gente não se enxerga como um cafetão? Porque veja, não compete a nós definir horário de trabalho, local de trabalho, preço, serviços prestados. Então, quando um acompanhante nos contrata para fazer um anúncio, o que a gente tá entregando a ele, para esse acompanhante, contabilmente, é venda de publicidade. Quando o usuário acessa esse anúncio, clica no botão ver telefone, a gente não sabe o que acontece a partir daí.

Se a prestação do serviço ocorre, se a contratação ocorre, como ocorre, de que forma, que serviço prestado, que valor, né? A gente enxerga a nossa ferramenta até pelo contrário do que envolve ali o termo do cafetão, né? A Fatal Moda é uma ferramenta que promove a independência financeira do acompanhante, porque ele não precisa estar na rua, ou ela não precisa estar na rua para conseguir cliente à mercê de violência. Da chuva, do sol.

O acompanhante, se ele não quiser, ele não precisa estar na boate usando salto alto a noite toda, aturando bêbado para conseguir um cliente. Então ela é uma ferramenta de independência. Você pode colocar no arcabouço do entendimento jurídico de que a Fatal Model pratica rufianismo numa leitura muito pouco flexível da lei, pode. Não é o entendimento dos ministérios públicos que já avaliaram o nosso negócio. Nós temos pareceres de 3 ou 4 ministérios públicos, sendo que a gente não é cafetão.

Mas veja, se a gente fizer uma leitura muito inflexível sobre a lei que define o rufianismo, a gente pode acabar incorrendo e dizendo que a Visa e a Mastercard praticam rufianismo no Brasil. Porque quando o acompanhante é contratado e o cliente vai lá pagar com o seu cartão Visa, a Visa fica com percentual do cachê do acompanhante, não fica? Seus 3 ou 5%, né?

TCTomás Chiaverini

Professora Maíra Zapatero, por favor.

MZMaíra Zapater

Pessoalmente, eu não vejo muita diferença de uma página de classificados. E aí, o que me parece que é a grande sacada do pessoal do jurídico, que é: a assinatura não muda o preço a partir do programa que a pessoa fez. Então, se ela botou um anúncio ali e não fez programa nenhum, assinatura é a mesma do que se ela fizer não sei quantos programas por dia. Então, realmente é uma plataforma de divulgação e de encontros. Eu não veria como enquadrar em nenhuma categoria penal da forma como ela tá posta no código.

TCTomás Chiaverini

Lembra do argumento da Visa e do Mastercard?

MZMaíra Zapater

Pois é, o fionismo é tirar proveito da prostituição alheia participando dos seus lucros. O termo que o código usa é lucro. Então, se a Mastercard ou a Visa participaram dos lucros, aí não acho que seja uma interpretação muito rígida. Ao contrário, uma interpretação super estendida. Então, se a gente for querer estender todo mundo que tira lucro da prostituição alheia, é a pessoa que se prostitui, qualquer coisa que ela for comprar, qualquer consumo que ela for ter, então tirando proveito da prostituição alheia.

?Voz D

A interpretação de hufianismo no Brasil as jurisprudências, ela tá muito amarrada a condições análogas à escravidão. Temos notícias, né, na própria imprensa, de casas de massagem que foram obrigadas pelo Ministério do Trabalho a assinar carteira dos acompanhantes, que não estão ali incorrendo crime.

MZMaíra Zapater

Me parece que o crime de rufianismo, para ele se caracterizar, eu preciso ter uma pessoa que chega em outra e fale: você vai lá se prostituir, você vai dividir seus lucros comigo. Eu acho que é isso que o código quer incriminar. E a gente pode discutir se deveria ser crime ou não, mas se for querer aplicar a norma, me parece que é essa. Eu não acho que a Fábrica Omoda incorra nisso.

TCTomás Chiaverini

E assim a gente chega àquela que, para mim, é a grande pergunta do episódio: a prostituição 4.0, a plataformização do trabalho sexual, melhora a vida das pessoas que usam o corpo para pagar os próprios boletos? Para responder a isso, a gente precisa dar um passo atrás para tentar entender até que ponto as pessoas com as quais a gente conversou tão satisfeitas com essa atividade?

?Voz E

A princípio é só o que eu sei fazer. Eu sei fazer isso, eu continuo fazendo isso.

TCTomás Chiaverini

Tá, então é uma questão de falta de opções? É também, mas não é só isso. A Suelen contou de uma época que um pouco por culpa e um pouco por pressão da família, ela começou a trabalhar com massagem. Massagem do tipo casto, sem final feliz.

?Voz E

Daí fui fazer essas experiências que a gente faz em estéticas, daí as pessoas vão assinando, né, pra tu poder ter o certificado, dadã, enfim, e fui fazer. Tá, mas aquelas mulheres tão chatas, meu, e não sei o que que tem, começaram a implicar com a minha massagem. Você quer saber de uma coisa? Eu vou lá para sala de uma amiga minha lá na Galeria do Rosário, que eu ganhava muito mais assinatura mais rápido, sabe? Cheguei lá, o cara assim: não faço, mas tem que ter finalização, né?

Tu sabe o que é finalização? Transar, né? Tá tudo bem. E comecei. E daí eu descubro o quê? Que eu sempre quis fazer aquilo, eu só tava tentando deixar aquilo por causa dos outros. O que que eu fiz? Mandei a família toda puta que pariu, peguei, aluguei uma sala para mim, comecei a fazer, botar anúncio no jornal, que naquela época tinha no Diário Gaúcho, na 08, das massagens com finalização. É uma questão de querer ou gostar. Eu não sei, para mim é gostar, porque eu poderia simplesmente não fazer mais.

O que eu mais tenho de coisa certificado lá na minha casa, podia montar um salão de beleza para mim então. Mas acontece que eu gosto, não adianta. Eu gosto de falar com outros homens, eu gosto de atender esses homens, ver o que que eu posso tentar fazer com que esse homem entenda que ele gosta de dar dinheiro. Porque tem homem que só volta a pedir para tirar dinheiro dele, tem homem que chega a implorar para ser explorado.

TCTomás Chiaverini

A Sueli, ela disse que nunca vai deixar de ser prostituta. Ela pode até virar uma prostituta aposentada, mas ainda assim uma prostituta. A Beatriz tem uma visão um pouco diferente.

?Voz C

Eu comecei a me dedicar mais aos estudos quando eu virei puta, tipo assim, isso foi muito louco. Porque eu finalmente tive mais tempo para estudar e estudar mesmo com afinco, com gosto, com vontade de fazer. Porque quando eu trabalhava em comércio era aquela loucura, né? Eu falo que para mim hoje essa é a maior riqueza que eu tenho dentro do trabalho sexual, que é o tempo.

TCTomás Chiaverini

Com esse tempo disponível, a Beatriz tá fazendo graduação em Ciências Biológicas.

?Voz C

Eu me vejo assim no meu mundinho ideal, assim meio que conciliando as duas coisas, assim trabalhando a biologia, óbvio reduzindo, né, o meu tempo dentro do trabalho sexual, com certeza, Mas eu me vejo assim meio que fazendo as duas coisas, ou talvez, sei lá, ficando só na parte de conteúdo, coisa do tipo, ou até trabalhando também com mentoria. Eu não me vejo largando do trabalho sexual assim totalmente, sabe?

TCTomás Chiaverini

Certo. E as plataformas nisso tudo? Para Lorena Caminhas, se por um lado elas lucram com essa marginalização, por outro elas talvez contribuam para um passinho na direção contrária. Algo que é diferente do que aconteceu em outros mercados. A popularização da Uber, por exemplo, desestruturou um setor que já existia, e os maiores prejudicados com isso foram os taxistas.

LCLorena Caminhas

Agora vamos para o trabalho sexual, né? Ele nunca foi formalizado, ele nunca foi considerado trabalho, ele nunca entrou em nenhuma lei trabalhista, ele não tem nenhuma regulamentação, ele nunca foi CLT, mal, mal ele tá ali, né, na Ele é uma profissão ali, pode se cadastrar como autônomo e profissional do sexo, mas você não tem os mesmos direitos que uma pessoa numa CLT. Você não é formalizado perante a lei, você não é regulamentado.

Então como que você vai dizer que as plataformas estão desregulamentando uma coisa que já não é regulamentado e que já não é formalizado? É informal.

TCTomás Chiaverini

A única formalização que existe hoje é que o trabalho sexual figura na classificação brasileira de ocupações O que dá direito, entre outras coisas, a recolher INSS.

LCLorena Caminhas

Você tem realmente uma relação contratual assinada num papel e que eu, por exemplo, como pesquisadora, eu posso ir lá e ler o termo de uso e ver quais são as condições que aquela plataforma tá exercendo. É informal, continua informal, mas adiciona um elemento de formalidade que a gente nunca tinha visto. Eu acho que a gente tá olhando para um processo de transformação de um trabalho que tá até mais formalizado. Que você consegue até localizar essas pessoas de uma maneira mais formal do que você consegue localizar, por exemplo, a prostituição na rua.

Você pode saber alguns pontos, muitos você não vai saber, né? Você sabe alguns bordéis, algumas casas, muitos você não vai achar. Agora, os sites, assim, quer achar uma plataforma para qualquer— você acha facilmente, né? Então essas pessoas são mais rastreáveis.

TCTomás Chiaverini

E aí a gente perguntou para a Sônia e para Beatriz até que ponto as plataformas melhoraram de fato a vida delas. A Beatriz, que é mais crítica, reclamou que a preocupação com a segurança não é tão efetiva quanto a empresa diz.

?Voz C

A gente coloca, sei lá, nossa cara lá pelo menos 3 vezes por semana naquela verificação facial. E aí você fala, olha, aconteceu tal coisa, eu preciso dos dados do cliente. A gente não tem os dados do cliente. Como que você diz para mim que é segurança e dignidade o escambau? Eu acho muito difícil. Por outro lado, eu nunca trabalhei na rua, né? Eu sempre trabalhei por site, né?

TCTomás Chiaverini

Reserva feita.

?Voz C

Fato é que a rua, de uma maneira geral, é um lugar hostil, é um lugar perigoso, tem uma série de problemáticas a serem discutidas, mas isso também passa pela autonomia das trabalhadoras. Foi percebido que muitas trabalhadoras também não queriam sair da rua porque a rua te dava mais autonomia, a rua ditava um ritmo completamente diferente do site, um ritmo ao qual elas já estavam habituadas. Quando você fala sobre tirar as mulheres da rua, sem pensar na autonomia, sem pensar num modelo de negócio que funcione, que continue funcionando para essas mulheres, a gente tá falando de higienização.

Porque a puta da rua, ela é aquela reprodução do estereótipo, né, da marginalização, da coisa suja e tal. Então falar sobre as mulheres da rua, falar sobre tirar as mulheres da rua, é um tópico muito delicado e tem que ser feito com muita responsabilidade.

?Voz E

Eu acho, por um lado, até bom, porque tem muita rua que tem que dar propina, essas coisas, né?

TCTomás Chiaverini

Sou Ilhamar.

?Voz E

O que não deixa de dar propina também para os sites, né? Que é isso, que é uma maneira de falar de ter que pagar por isso, né? Mas eu acredito que a rua sempre, sempre vai existir, tá? Eu acho que, como eu sou de rua, eu ainda continuo, sou mais do presencial, né? Mas também acredito que todos têm seu lugar. Eu acho que é bom ter todos esses nichos assim de cada uma sua especificidade, sabe? Algumas das gurias também, quando trabalham presencial, as lésbicas, por exemplo, elas preferem sites agora, isso, e migraram para o site, para o digital, porque por causa disso, para não ter esse contato direto, entendeu?

É uma questão disso também, a questão do preço, do valor. Tem umas que os sites, os aplicativos, que as gurias ganham bem mais dinheiro que se fosse presencial. Então acho que tudo isso aí é uma questão de adaptação, eu acho que é isso, sabe? Sabe, sei lá, se eu tivesse 25 anos, se eu não me adaptaria, né? É isso, eu acho que é uma questão de idade também. Mas também vejo umas com mais idade também ingressando, então é muito difícil falar sobre isso, é ruim e é bom, sabe? Eu acho que cada uma acha a sua maneira de ganhar dinheiro.

TCTomás Chiaverini

Antes de terminar, eu quero te indicar um podcast parceiro da Rádio Guarda-Chuva. E esse vem com uma credencial de destaque: o selo Mateus Marcolino de qualidade. Se você não sabe do que eu tô falando, procura aí pelo podcast Discípulos no seu aplicativo de áudio preferido. São 5 episódios nos quais o nosso produtor Mateus Marcolino investiga a misteriosa afinidade entre o esporte e os evangélicos. Sério, procura aí por Discípulos no seu aplicativo de áudio favorito, escuta que você não vai se arrepender.

Eu sou Tomás Chiaverini e termina aqui o episódio 170 de Escafandro. Obrigado por escutar e até o próximo mergulho.

?Voz D

Oi, aqui é o Lucas Tadeu. E eu tô falando do Rio de Janeiro. O design das capas é da Cláudia Fornari. A trilha sonora tema é do Paulo Gama. A mixagem de som deste episódio é do Vitor Coroa. A reportagem e a edição de áudio são do Matheus Marcolino. O roteiro, a direção e a sonorização são do Tomás Chiaverini.

170: Fatal Model e a prostituição 4.0 | Castnews Index — Castnews Index