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EP07 | Quem matou a política?

28 de setembro de 202655min
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Quem matou a política? é uma série documental em áudio que investiga por que a política parece não dar conta de responder a problemas e anseios contemporâneos.

A cada episódio, um novo suspeito é colocado sob lupa: a corrupção, o crime organizado, a religião e outros elementos que podem estar contribuindo para enfraquecer ferramentas e estratégias políticas e, por consequência, ferindo a política de morte.

Quem matou a política? é uma audiossérie Original Audible. A temporada completa já está disponível na Audible. Acesse agora o site ⁠⁠⁠⁠⁠⁠Audible.com.br⁠⁠⁠⁠⁠⁠, faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou 3 meses, se você for membro Amazon Prime.’

Os episódios de Quem Matou a Política vão ser veiculados no feed do Escafandro sempre às segundas-feiras. Os episódios de Escafandro continuam saindo normalmente, a cada 15 dias. Sempre às terças pra financiadores e às quartas para o público geral.

Ficha técnica

Quem matou a política? é um Original Audible.

Produzido por Rádio Escafandro, Rádio Guarda-Chuva e Audible.

Roteiro e apresentação: Tomás Chiaverini 

Direção e coordenação: Gabriela Mayer e Tomás Chiaverini

Produção-executiva: Gabriela Mayer

Reportagem: Allan de Abreu, Andrea Dip, Anna Virginia Balloussier, Flávio VM Costa, Jorge Cavalcanti, Juliana Dal Piva, Natália Silva e Pedro Pannunzio

Produção: Alrik Schubotz, Ana Schuchter, Davi Carlos Acácio, Elenilce Bottari e Natália André

Checagem: Bruna Barone

Edição de roteiros: Gabriela Mayer

Consultoria de conteúdo: Guilherme Casarões

Dublagem: Matheus Marcolino, Raphany Viegas Leal e Silva e Renan Sukevicius

Desenho de som: Tomás Chiaverini

Edição de som: Matheus Marcolino

Pós-produção e a mixagem: Vitor Coroa

Música original e Trilha Sonora: Gabriel Falcão

Trilha sonora tema: Paulo Gama 

Identidade Visual: Elisa Pessôa

Assessoria Jurídica: Flavia Penido

Estúdio de Gravação: Rádio Escafandro

No time de Conteúdo Original Audible Brasil, 

Direção de conteúdo original Brasil: Léo Neumann

Líder do projeto: Alyson Borges

Gerentes de produção: Fernando Schaer e Juliana Denden Arcanjo

Líder de conteúdo LATAM: Paulo Lemgruber

Diretora-geral Brasil: Adriana Alcântara

Líder Global de conteúdo: Rachel Ghiazza

Copyright 2026 por AMAZON SERVIÇOS DE VAREJO DOBRASIL LTDA

Copyright da gravação de som 2026 por Audible Inc.

 

Participantes neste episódio4
T

Tomás Chiaverini

Hostjornalista
E

Eduardo Coutinho

EntrevistadoEx-prefeito de Água Preta
G

Guilherme Casarões

EntrevistadoCientista político
J

Jorge Cavalcanti

ReporterJornalista
Assuntos5
  • A morte de Eduardo Campos e o impacto na polarização política brasileiraacidente aéreo em Santos·fortalecimento de polos opostos·descrédito do sistema eleitoral·surgimento do bolsonarismo
  • A polarização afetiva e seus riscos para a democraciaorganização política por identidade·radicalização e violência simbólica·normalização da extrema-direita·descarte da democracia
  • A polarização política em Água Preta e suas raízes históricasdisputa entre famílias Coutinho e Magalhães·polarização entre donos de engenho e trabalhadores·Massacre da Usina Estreliana·violência e intimidação eleitoral
  • As reviravoltas políticas em Água Preta e a Batalha dos Cocostraição de Neto Cavalcanti·cassação e prisão de Noé Magalhães·Miruca assume a prefeitura·aliança entre clãs rivais
  • A influência do dinheiro na política de Água Preta e a compra de votosvoto vendido por dinheiro·desigualdade de gastos eleitorais·acordos e conchavos políticos·falta de mobilização ideológica
Transcrição122 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
TCTomás Chiaverini

Esse episódio faz parte de uma audiosérie original Audible. A temporada completa já está disponível na Audible. Acesse agora o site audible.com.br, faça sua conta e teste grátis por 30 dias. Outros meses se você for membro Amazon Prime. Os episódios de Quem Matou a Política vão ser veiculados no feed do Escafandro sempre às segundas-feiras. Os episódios de Escafandro continuam saindo normalmente, a cada 15 dias, sempre às terças para financiadores e às quartas para o público geral.

JCJorge Cavalcanti

Oi!

TCTomás Chiaverini

Como nas grandes histórias de poder, a nossa, bem ao estilo shakespeariano, começa com a morte de um rei. Um rei no sentido figurado, né? Um homem dono de um grande poder político. A notícia dessa morte se alastrou rápido pelo reino, o Brasil no caso. Por volta das 10 da manhã do dia 13 de agosto de 2014, o 6º Grupamento de Bombeiros de Santos foi acionado para uma emergência das mais complexas: a queda de uma aeronave numa área povoada.

Os primeiros relatos falavam que tinha sido um helicóptero, Um bombeiro disse que chegou a ouvir relatos de gente pulando da aeronave pro telhado de uma casa. Mas a situação era bem pior. Era uma catástrofe em várias camadas, e os impactos dela iriam muito além daquele bairro de Santos. A primeira onda de choque desses impactos foi rápida e intensa. Mergulhou a maioria dos brasileiros numa névoa de comoção e incredulidade. Mas mesmo depois dessa onda arrefecer, o impacto continuou irradiando pelo país, causando um número infinito de mudanças imprevisíveis e muitas vezes contraditórias, paradoxais.

Essa onda de choque começou quando um dos bombeiros achou o manual da aeronave entre os escombros. Com um prefixo impresso na capa do manual, foi fácil descobrir que não era um helicóptero. Era um jato comercial. Daí para o plano de voo foi rápido. O jato tinha decolado do Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, com destino à Base Aérea de Santos. E daí para saber quem eram os tripulantes e passageiros foi outro passo simples.

O Cessna Citation tava levando 7 pessoas, entre elas o ex-governador de Pernambuco e candidato à presidência da República pelo PSB, Eduardo Campos. Nenhum deles sobreviveu ao acidente. Quando morreu, Eduardo Campos era o terceiro colocado na corrida presidencial, com 10% dos votos. Mas ele também era mais do que isso. Era um raro personagem de fora dos dois eixos políticos que vinham polarizando o Brasil desde a eleição de Fernando Henrique Cardoso.

Com a morte do Campos, esses polos opostos se fortaleceram. Marina Silva cresceu por algum tempo, mas foi fagocitada pelo sistema de polos opostos. No espectro mais à esquerda, Dilma Rousseff, do PT, se reelegeu presidente. No espectro mais à direita, Aécio Neves, do PSDB, foi derrotado na última hora, mas não aceitou o resultado, dando o primeiro passo num longo processo de descrédito do sistema eleitoral brasileiro. Com mais essa derrota, o PSDB passou a viver um processo de desmantelamento, que se agravou quando, ao questionar a vitória petista, o partido virou as costas ao ideal democrático, um ideal que era uma das características definidoras do partido.

Como resultado, o PSDB se esfacelou. As forças políticas que sustentavam o partido deram uma guinada para a direita, abrindo terreno para o bolsonarismo, E levando a polarização a um extremo tal que alguns analistas políticos dizem que essa palavra polarização já não serve mais. Porque polarização é a disputa entre dois polos. E hoje o debate está sendo travado por dois lados que não se entendem, não falam a mesma língua, não defendem as mesmas regras, não fazem parte de um mesmo universo.

Para esses analistas, não existem mais dois polos, porque os polos precisam estar no mesmo campo. Então a gente não tem um ambiente político polarizado, a gente tem um ambiente político que se partiu em dois. E aí, diante dessa democracia partida, a morte do Eduardo Campos ganha para mim uma camada extra de tristeza, porque eu acho difícil não pensar que talvez ele pudesse ter impedido essa ruptura. Ter mantido alguma multipolaridade, deixando a polarização sob controle, ou deixando a polarização ser uma polarização de fato.

Teria uma chance de ter virado presidente se não tivesse morrido naquele acidente, né?

JCJorge Cavalcanti

É, muita gente acha que em 2014 ele poderia ter quebrado a polarização, Dilma e Aécio. Algumas pessoas já acham que talvez ele não quebrasse polarização, mas ele se lançava e se consolidava como a liderança nacional.

TCTomás Chiaverini

Podia entrar em 2018, talvez a gente tivesse uma terceira via que fosse de fato viável, e talvez a gente não tivesse a desgraça que a gente teve.

JCJorge Cavalcanti

Talvez.

TCTomás Chiaverini

Esse que tá conversando comigo é o jornalista pernambucano Jorge Cavalcanti. Quando a onda de choque e comoção pela morte do Eduardo Campos se espalhou pelo Brasil, o Jorge Cavalcanti foi atingido em cheio.

JCJorge Cavalcanti

Perdi 3 amigos, amigos de ordem pessoal, pessoas que trabalhavam na equipe dele de comunicação. Caramba, fica um pouco impactado e decido sair jornal porque em uma década eu achava que já tinha visto muita coisa. Cobrir enchente, cobrir queda de avião, queda de avião de presidenciável.

TCTomás Chiaverini

Mas eu tô me adiantando. O assunto Eduardo Campos só apareceu nas nossas conversas um pouco mais tarde. Para entender como isso aconteceu, a gente tem de voltar alguns meses no tempo para quando eu propus que o Jorge investigasse alguma história sobre a polarização na política, mas que tivesse acontecido no estado dele, Pernambuco. Ele me respondeu falando de uma cidade, Água Preta.

JCJorge Cavalcanti

Polarização precisa ter dois lados bem definidos, né? Se um lado tem 80% dos votos e o outro tem 20%, não polarizou, né? Teve passeio. E Água Preta A diferença da última eleição foram 63 votos em favor de Miruca sobre Tonhão, o que dá 0,4% dos votos válidos.

TCTomás Chiaverini

O mundo tem hoje mais de 8 bilhões de pessoas, todas elas conectadas por uma rede invisível e intrincada de tecnologias que tornou a comunicação imediata. Quantidades incontáveis de decisões são tomadas a cada fração de segundo E cada uma dessas decisões modifica a realidade de forma instantânea. O mundo nunca foi tão complexo. Essa complexidade crescente tem desafiado a nossa capacidade de organização. Tem desafiado em especial uma das pedras fundamentais dessa organização: a política.

Líderes de diversas partes do planeta têm cada vez mais dificuldades para oferecer respostas e são frequentemente punidos pelas urnas. Muitas vezes, a impressão que se tem é que a política foi ferida de morte. Eu sou Tomás Chiaverini e nessa série original Audible, em parceria com a Rádio Escafândrolo e a Rádio Guarda-Chuva, eu vou acompanhar alguns dos maiores repórteres do país em investigações para tentar responder a uma pergunta inquietante: Quem matou a política?

TCTomás Chiaverini

Quem matou a política?

TCTomás Chiaverini

Quem matou a política? O suspeito da vez: a polarização. Em agosto de 2025, o Jorge Cavalcanti se descambou pra Água Preta.

JCJorge Cavalcanti

Saí daqui do Recife, da minha residência na zona norte da cidade, peguei um carro de aplicativo de carona, desci em Palmares, que é a cidade polo da região.

TCTomás Chiaverini

De Palmares pra frente, o Jorge mudou o meio de transporte.

JCJorge Cavalcanti

A partir dali é moto o meio de locomoção.

TCTomás Chiaverini

Até porque o trajeto é curto, menos de 10 minutos e ele tava no nosso alvo: Água Preta, a princesinha do Una. Uma cidade colada em Recife, mas que com uma população diminuta de 26 mil habitantes parece pertencer a um outro tempo.

JCJorge Cavalcanti

Água Preta é conhecida como a princesinha do Una porque é cortada pelo Rio Una. A entrada da cidade é belíssima, é um corredor de palmeiras imperiais imensas de um lado e de outro, muita terra, muita terra sem uso também, cana para todo lado, algumas cabeças de gado, algumas plantações, mas Muita cerca e muita terra. É uma cidade como se vivesse ainda décadas atrás. O tempo passa de outra forma.

TCTomás Chiaverini

E tem aquela cara de cidade, cidade interior, que a gente tá acostumado com a praça no meio, coreta, essas coisas?

JCJorge Cavalcanti

Não, é ainda menor. Tem uma igrejinha tímida, uma avenida principal com loja, padaria, pátio da feira, mas é uma cidade quase dormitório, é uma cidade pouco movimentada. À noite, quando eu saía para tentar jantar, tinha dificuldade de encontrar lugar para comer. Encontrei uma pizzaria e comi pizza os 3 dias porque era o único lugar que abria até 10 da noite.

TCTomás Chiaverini

O primeiro desafio do Jorge foi conseguir um lugar para se hospedar, porque a cidade só tem 2 pousadas, e uma delas, do Posto de Noé, chamado Barca de Noé, era do prefeito cassado da cidade. Noé Magalhães.

JCJorge Cavalcanti

Aí preferi não ficar nessa, né, preferi ficar numa mais independente. E aí eu vou para outra, fico hospedado lá. E assim, uma vez instalado, no mesmo dia sou recebido pelo Eduardo Coutinho na fazenda dele.

TCTomás Chiaverini

O Jorge foi de mototáxi até a sede da fazenda, uma casa no estilo colonial no alto de uma colina com vista a rótulo de requeijão para fazenda de gado. O Eduardo Coutinho foi prefeito de Água Preta 5 vezes, tem se dedicado à qualidade de vida ultimamente e recebeu o Jorge com roupa de caminhada, tênis, aquelas bermudas mais confortáveis, mais leves. Ele pediu para o Jorge ficar à vontade, tomou um banho, eles almoçaram, foi uma salada, um feijão verde, um peixe grelhado.

JCJorge Cavalcanti

Depois finalmente foram para o escritório do Eduardo Coutinho, aquela madeira mais escura, muita foto de jornal, muito diploma de justiça eleitoral.

TCTomás Chiaverini

Para entrevista propriamente dita, o Eduardo Coutinho, como você deve estar imaginando, representa um dos polos da política de Água Preta, um dos lados da polarização. A família Coutinho é ligada à linhagem política de Miguel Arraes e Eduardo Campos. Se isso valesse alguma coisa no interior do Brasil, a gente poderia dizer que os Coutinho estão mais à esquerda no espectro político.

?Voz E

Eu sempre defendi que o trabalhador pudesse ter uma moradia digna, com água, com luz, uma boa escola para o seu filho e um sistema de saúde bom. Tanto é que eu já fui chamado aqui na região de comunista, de incendiário, de agitador, de baderneiro.

TCTomás Chiaverini

No outro polo da família Magalhães.

JCJorge Cavalcanti

O patrono dos Magalhães já disputava em 72 com o pai de Eduardo Coutinho. Ambos eram deputados pelo antigo PFL, né, o PFL, que sucedeu o ARENA e sucedeu o PDS.

?Voz E

Em relação à família Magalhães, já em 74, né, meu pai como deputado federal aqui numa convenção municipal da ARENA já teve um desentendimento com o Edu Magalhães por conta de 2 ou 3 votos que ele tinha numa convenção municipal da Arena. Então já tiveram entrevero, então já não se davam muito bem.

TCTomás Chiaverini

O Eduardo Coutinho contou que a política de Água Preta sempre foi pautada por outro tipo de polarização para além de esquerda e direita, uma polarização que remete a um Brasil antigo, quase colonial. De um lado, os donos de engenho, do outro, os trabalhadores.

?Voz E

Um trabalhador, se trabalhar 8 horas, ele tem que receber por 8 horas. Mas antigamente não recebiam por 8 horas, recebiam por 6 horas, por 5 horas, tinha que comprar no barracão do engenheiro. Então eu sempre fui contra isso. E os fornecedores de cana e os usineiros eram contra esse tipo de coisa, que queriam cada vez mais benefício, enriquecimento próprio, e não que houvesse uma, digamos, uma diminuição da desigualdade social, um equilíbrio social maior.

Então esse é um tipo de polarização que aconteceu. E a polarização aqui em Água Preta específica era porque os caras queriam na base da pistola, da base da intimidação, do medo, da ameaça, do terror, de assassinatos que houveram aqui.

JCJorge Cavalcanti

Em 63 teve um episódio que ficou muito conhecido, o Massacre da Usina Estreliana. Em 62, a lei aprovou o pagamento do abono de Natal, que mais tarde viria a ser o 13º salário.

TCTomás Chiaverini

Então, dezenas de trabalhadores rurais, sabendo que isso era lei, foram cobrar o usineiro José Lopes de Siqueira Santos deputado federal do PTB, dono de muita terra na região.

JCJorge Cavalcanti

Ele manda os trabalhadores dele abrir fogo contra os trabalhadores.

TCTomás Chiaverini

5 trabalhadores foram mortos, alguns deles com tiros nas costas.

JCJorge Cavalcanti

No indicativo que eles estavam tentando fugir e no indicativo que não houve confronto.

TCTomás Chiaverini

Essa polarização historicamente tem transbordado para a política, E a cidade costuma se dividir em duas. Então o ambiente eleitoral nunca foi, vamos dizer, dos mais tranquilos.

?Voz E

Eu já como candidato a vereador teve um cacete na apuração, até pistola puxaram, né? Eu fui intimidado e ameaçado por Edu Magalhães, denunciei ao juiz, disse: esse rapaz aqui tá me ameaçando, eu não aceito intimidação dele não. Aí ele foi, todo mundo evacuado do salão. Eu como delegado do PMDB fiquei na apuração e ganhamos as eleições por 300 e poucos votos.

TCTomás Chiaverini

Alguns meses antes da viagem do Jorge Cavalcanti à Água Preta, eu me sentei com o cientista político Guilherme Casarões para tentar entender melhor os contornos desse fenômeno que parece cada vez mais presente na nossa realidade política, mas que na verdade sempre fez parte dela. A polarização.

TCTomás Chiaverini

Existem discussões na chamada filosofia política ocidental, por exemplo, Hannah Arendt, Jürgen Habermas, que é da Escola de Frankfurt, que defendem que a atividade política, por definição, na sua essência, é uma atividade de diálogo. Ela tem como objetivo último a construção de um consenso que possa produzir o bem comum ou o bem do maior número de pessoas. É claro que esse bem comum, ele não é espontâneo, ele não é natural, mas ele é construído a partir de uma atividade dialógica, a partir de uma construção coletiva.

TCTomás Chiaverini

Mas, assim como a vida real, a filosofia política ocidental também tem suas polarizações.

TCTomás Chiaverini

Existe uma figura como Carl Schmitt, um dos filósofos políticos que influenciou diretamente o regime nazista nos anos 30. Um jurista importantíssimo que tem um tratado sobre política no qual ele define política como a atividade a partir da qual você vai estabelecer quem é seu amigo e quem é seu inimigo. E essa definição do Carl Schmitt pode levar a uma leitura binária da política do tipo adversários de um lado e os meus aliados do outro, mas ela também tem um desdobramento muito perigoso que diz respeito ao que fazer com esse inimigo, né?

Esse inimigo, ele é simplesmente alguém com quem você concorre nas urnas, ou esse inimigo é alguém com quem você vai disputar um embate permanente que possa levar até a eliminação desse outro lado, que é um dos fundamentos do fascismo, né? Que é o fundamento do fascismo.

TCTomás Chiaverini

A ideia de eliminação do outro é um dos fundamentos do fascismo. Mas se a gente for pensar bem, existe um outro tipo de eliminação que não tem a ver com extermínio, e é uma eliminação com a qual todo mundo que se envolve com o processo político, todo mundo que já votou apaixonadamente em algum candidato, já flertou, que é a eliminação do outro por meio da vitória, do convencimento, a ideia de que em algum momento o outro lado vai ser derrotado e a nossa ideologia vai triunfar.

A nossa visão de mundo vai prevalecer. E assim, alerta de spoiler: isso não vai acontecer. O outro lado político vai continuar existindo por mais que o seu lado ganhe eleições. Na verdade, como a história mostra, o outro lado continua existindo, mesmo em situações extremas de guerra aberta, quando a tentativa de extermínio é literal e sem disfarces. Nazistas foram incapazes de exterminar o povo judeu, assim como o governo Netanyahu é incapaz de exterminar o povo palestino.

No campo da eliminação das ideias, progressistas vão continuar existindo, conservadores vão continuar existindo, e as ideias que eles carregam vão continuar a polarizar eleições, parlamentos e mesas de bar. Os políticos, claro, sabem disso, mas ao mesmo tempo eles parecem se alimentar da ideia de que sim, talvez um dos lados consiga vencer de uma vez por todas. Isso nem sempre tem a ver com um discurso fascista de eliminação do outro, mas quase sempre tem a ver com esticar ao máximo a corda da polarização.

Como Guilherme Casarões explicou, recentemente essa corda tem sido tão esticada que a polarização começou a extrapolar a esfera política, começou a invadir outras áreas, começou até a definir como as pessoas se enxergam. Nunca foi tão complexo organizar uma ceia de Natal sem as pessoas se engalfinharem por questões políticas quanto no século 21. Para o Casarões, se a gente for considerar a história recente, esse processo tem se agravado desde a crise de 2008.

TCTomás Chiaverini

O que acontece desde 2008, e vários autores já têm apontado para essa correlação, é um fortalecimento de uma outra natureza de polarização. Que muitos autores chamam de polarização afetiva, que é justamente quando você é capaz de organizar o seu projeto político não em torno de programa, mas em torno de identidade. Então, a construção de uma identidade política a partir de um movimento, de um partido, de uma liderança, ela vai realinhar completamente as expectativas dos eleitores ou dos cidadãos daquela sociedade.

E aí não se trata mais de uma escolha racional em que você vê o que é melhor para você efetivamente ou para sua família a partir de propostas que são apresentadas, por exemplo, num debate eleitoral. A polarização afetiva leva as pessoas a construírem a sua relação com aquele movimento a partir daquilo que elas são efetivamente. Não só a partir de ideologias ou convicções, mas a partir da existência, da essência delas.

TCTomás Chiaverini

Essa nova forma de polarização que invade a vida para além da política, que acaba ajudando a definir como as pessoas se veem no mundo, leva a uma série de questões.

TCTomás Chiaverini

Questão número 1: se você se identifica com um movimento político, mesmo que esse movimento jogue contra a democracia, você vai seguir apoiando esse movimento à custa da democracia. Problema número 2: quando você se identifica existencialmente com o movimento político e quando ele passa a descrever o outro lado como inimigo a ser derrotado, você acirra não só a violência simbólica como a violência muitas vezes real, a violência física. A disputa política, ela não deveria ser isso.

TCTomás Chiaverini

Esses dois problemas, como costuma acontecer com os problemas políticos, estão interligados.

TCTomás Chiaverini

Quando a polarização leva à violência, você também compromete a própria essência da democracia, na medida em que você acirra uma dinâmica em que o outro lado não pode nem sequer ser ouvido, nem sequer ser considerado como parte integral daquela sociedade.

TCTomás Chiaverini

E aí tem um terceiro problema que tá intimamente ligado com a nossa história.

TCTomás Chiaverini

A polarização, ela de fato cristaliza uma dinâmica política binária em que não há espaço ou perspectiva para terceiros ou quartas vias de surgirem com alternativas políticas reais.

TCTomás Chiaverini

Mesmo porque quando isso acontece, os dois polos, eles se alimentam, né? Quer dizer, a gente vê o bolsonarismo alimentar o petismo e vice-versa. Ou você acha que— porque também tem gente que fala, não, mas também não dá pra gente colocar o PT como uma oposição ao bolsonarismo na medida em que um é radical e outro não é, né? Mas ao mesmo tempo a gente vê que a polarização tá acontecendo nesses modos, né?

TCTomás Chiaverini

Os fenômenos se retroalimentam sim, mas o que eu acho importante frisar, e voltando à questão do Lula e do Bolsonaro, é que no caso do Brasil a gente viu um movimento de polarização afetiva se constituir ali desde 2014. Essa polarização afetiva ela permitiu que o bolsonarismo fizesse, construísse uma pauta política muito à direita, quer dizer, à extrema-direita. E o PT, ele ficou numa posição muito complicada, porque esse é um problema real que outras democracias também vivem, que é o seguinte: quando você puxa um dos lados dessa discussão, dessa disputa, dessa polarização para extrema-direita, o outro lado ele tem basicamente dois movimentos possíveis.

Ou ele se radicaliza também. O problema da radicalização para o lado da extrema esquerda é que ela também vai apostar na violência, tem um ímpeto revolucionário, ela vai tentar compensar o discurso da extrema direita com discurso igualmente agressivo e violento do outro lado. Ou esse lado que ficou ali parado no espectro político, ele vai ter que caminhar mais para o centro. O problema disso, que é o que a gente viu com Biden, que é o que a gente viu com o próprio Lula, é que ao caminhar para o centro você tá basicamente fazendo uma concessão ideológica, que é a seguinte: você tá aceitando que a extrema-direita ela se torna uma força política normal, você normaliza a extrema-direita.

TCTomás Chiaverini

E aí a gente acaba numa encruzilhada que tem a ver com a própria ideia de democracia, porque quando se escolhe o caminho da violência, a democracia sempre acaba machucada.

TCTomás Chiaverini

A opção dos sistemas democráticos, até porque essa esquerda tem um compromisso institucional com a defesa da democracia, com a defesa das instituições, é caminhar para o centro. Ela se descaracteriza um pouco ideologicamente. No fim das contas, esse é um problema real com que a gente tá lidando de novo nos Estados Unidos, no Brasil, em vários lugares da América Latina. É uma esquerda que não é mais tanto de esquerda assim. E ao mesmo tempo, a extrema-direita que conseguiu arregimentar um grande apoio popular ela vai conseguir trazer quase que magneticamente a direita moderada, que antes era um pedaço da polarização, para gravitar no seu entorno.

Então o grande desafio que a gente tem é não permitir que a direita moderada abrace a extrema-direita. Quando a direita moderada a direita conservadora tradicional abraça a extrema-direita, seja por vontade própria, por questões eleitorais ou para montar um governo, como é o caso, sei lá, da Alemanha, em que a gente viu esse flerte entre a CDU e a AfD.

TCTomás Chiaverini

Como você deve se lembrar, a gente mergulhou fundo nos meandros da AfD no nosso episódio anterior.

TCTomás Chiaverini

Você tem o mesmo problema, que é uma normalização de uma política radical que não é compatível com a democracia, ao fim e ao cabo, e que coloca em risco a própria sustentação de longo prazo do sistema democrático em que aquela extrema-direita surgiu.

TCTomás Chiaverini

No Brasil, isso tem ficado bem claro, né? Com partidos que antes se colocavam como defensores da democracia relativizando uma tentativa de golpe. Com políticos de centro, como Geraldo Alckmin, por exemplo, tendo de migrar para um campo que antes para eles era oposição.

TCTomás Chiaverini

Esse episódio faz parte de uma audiosérie original Audible. A temporada completa já está disponível na Audible. Acesse agora o site audible.com.br, faça sua conta e teste grátis por 30 dias. Outros meses se você for membro Amazon Prime.

TCTomás Chiaverini

E no fim, ouvindo de novo essa conversa com o Casarões, ouvindo sobre os impactos da polarização, eu voltei a lembrar do Eduardo Campos como uma possível saída para esse nó. Claro que não dá para saber o que teria acontecido se ele não estivesse naquele avião, mas o que ele representava naquele momento e a entrada no eleitorado que ele tava alcançando me empurram a olhar essa hipótese como plausível. A hipótese de que talvez ele pudesse ser uma alternativa democrática que mudasse um pouco o rumo desse círculo vicioso.

E assim a gente volta à Água Preta. Porque lembra que eu te falei que a morte do Eduardo Campos gerou uma cascata de consequências múltiplas e imprevisíveis? Pois é, a política de Água Preta foi diretamente afetada por ela. Porque antes da morte do Eduardo Campos, a cidade tava curiosamente indo para o caminho contrário, como contou o ex-prefeito Eduardo Coutinho.

?Voz E

Com a ascensão de Eduardo Campos ao poder, principalmente em 2011, ele querendo já reeleito, né, ser candidato a presidente e poder unificar o estado, ele conseguiu temporariamente, digamos, uma aliança entre os Coutinhos e os Magalhães. E nós convivemos inclusive nesse escritório aqui. Eu recebi Clodoaldo Magalhães, Hildo Magalhães, Noelino Magalhães, Noé Magalhães, e vieram nessa casa, nas vaquejadas.

TCTomás Chiaverini

Mas aí, já viu, né? Sem a força aglutinadora do Eduardo Campos, essa união se esfacelou rápido. Em 2020, os Magalhães e os Coutinho foram pras urnas em lados opostos, ainda que sem o nome do Eduardo Coutinho nas cédulas digitais. Quem disputou pelos Coutinho foi um assessor do Eduardo Coutinho, Tonhão. A gente vai falar mais dele daqui a pouco, Mas antes você precisa saber mais de outra figura e de outras reviravoltas. Então, para facilitar, a gente vai seguir a ordem em que as coisas aconteceram.

?Voz E

E a polarização volta a acontecer na eleição de 2020. Noé Magalhães veio com muito dinheiro, juntou-se com um grande aliado meu, que era um secretário que eu fiz, o Neto Cavalcanti, que foi vice-deputado ele e nós perdemos as eleições por 75. Então, eleição bem acirrada, bem polarizada, bem agressiva ainda.

TCTomás Chiaverini

Pois é, em 2020, a diferença entre o candidato derrotado e o prefeito eleito foi de 75 votos. Ou seja, a polarização parecia ter voltado para onde ela sempre estivera: de um lado os Magalhães, do outro os Coutinhos. E a gente poderia ir de vida que segue, mas não foi assim que aconteceu. Porque esse nome que o Eduardo Coutinho citou é importante para o que tá por vir: Neto Cavalcanti. No melhor estilo Shakespeare nos Trópicos, essa parte do nosso episódio, caro ouvinte, é uma história de traição, ou de traições. No plural.

JCJorge Cavalcanti

E um dos personagens principais nessa história é, claro, o traidor Neto Cavalcante, que também é filho de político, também é neto de um cara que foi prefeito de Água Preta, também tem esse passado aí da família que governou a cidade em algum período.

TCTomás Chiaverini

O Neto Cavalcante foi colocado na política pelas mãos do Eduardo Coutinho, A quem ele chama de mentor. Ele foi secretário quando Coutinho era prefeito em 2020 e achou que já tinha musculatura para se lançar a vereador. Aí entrou em cena um novo personagem shakespeariano: o filho em crise com o legado do pai. João Fernando Coutinho, filho do Eduardo, um cara que tinha passado boa parte da vida em Recife e era visto com alguma desconfiança por parte da população de Água Preta.

JCJorge Cavalcanti

As pessoas olham ele como um forasteiro, né? Uma coisa meio de elite assim, um cara mais playboy, esnobe, diferentemente do pai, que é um homem simples, que conversa com as pessoas, que chama a liderança pelo nome, que entra na casa, toma um café.

TCTomás Chiaverini

Não que o João Fernando tivesse virado as costas para política, pelo contrário, ele foi deputado estadual e federal, mas a política que ele fazia era diferente da do pai. Principalmente porque acontecia longe de Água Preta.

JCJorge Cavalcanti

O João Fernando era visto como alguém que já cresceu no outro mundo, já cresceu ali sem querer se vincular muito com Água Preta, querendo ser mais recifense do que água-pretense, digamos assim.

TCTomás Chiaverini

E aí, conforme as eleições de 2020 se aproximavam, o Neto se preparava para se lançar vereador pela ala dos Coutinho, mas ninguém sabe exatamente por quê Tem uma briga, tem um bate-boca quase que físico com o filho do Eduardo, o João Fernando.

JCJorge Cavalcanti

Dentro dessa questão da masculinidade, desse machismo da política, o Neto acha que ficou desautorizado e não tinha mais condições de seguir no grupo político do Eduardo porque foi desautorizado pelo filho, e também entenderia que o pai não ia ficar contra o filho.

TCTomás Chiaverini

Neto Cavalcanti mudou de lado pela primeira vez. Em vez de sair para vereador pelo lado dos Coutinho, se candidatou a vice-prefeito pelo lado oposto, dos Magalhães. O Jorge foi entrevistar o Neto Cavalcanti, que em certo momento se colocou no polo oposto aos Coutinho, no segundo dia de campo em Água Preta. Dessa vez não teve mototáxi.

JCJorge Cavalcanti

Ele mandou um carro, uma caminhonete 4x4. Chego lá no escritório, um escritório pequeno, mas todo novo, organizado, uma construção recente.

TCTomás Chiaverini

Aonde que era o escritório dele? Na cidade mesmo?

JCJorge Cavalcanti

Na cidade, no centro da cidade.

TCTomás Chiaverini

Quando chegou lá, o Jorge foi recebido por, bom, por um capanga.

JCJorge Cavalcanti

Ele se apresenta como assessor. O Neto diz que ele é policial militar. E aí eu fico sem saber se ele é policial, se ele é assessor, se ele é segurança, se ele é capanga. O detalhe é que esse camarada tava armado, fez questão de mostrar que tava armado, com revólver na cintura, uma bermuda, a camisa sempre marcando o cabo do revólver.

TCTomás Chiaverini

Quer dizer, capanga.

?Voz D

Mas enfim, quando eu assumi a Secretaria de Administração, a prefeitura começou a ter movimento de pessoas. As pessoas me viam como um prefeito não tá, ouvisse tá, ia lá procurava para pelo menos demandar, receber um não, um encaminhamento. Vou falar com o prefeito.

TCTomás Chiaverini

E assim foi se desenhando a reviravolta seguinte, quando o Neto, que traiu os Coutinho para se aliar com os Magalhães, começou a ter problema com os Magalhães. O Neto contou para o Jorge que o próprio prefeito Noé Magalhães tinha dado liberdade de gestão para ele, por isso também muita gente ia procurá-lo. E aqui tem um detalhe importante, porque o Jorge foi atrás do prefeito eleito em 2020, Noé Magalhães, para escutar o lado dele da história, mas ele não quis falar com a gente.

Então você vai ficar com o lado do vice-prefeito, o Neto Cavalcanti, que é importante dizer também, não tem nenhum parentesco com o nosso repórter. Jorge Cavalcanti. A gente checou tudo que foi possível da história, mas tem alguns detalhes que ficam só na palavra dele. Sempre que for esse o caso, eu vou deixar bem claro para você. Por exemplo, esse diálogo que o Neto disse ter tido com o prefeito.

?Voz D

E na época ele até falou: eu sou muito ausente, eu vou cuidar das minhas coisas, eu tenho meus negócios, eu viajo muito, e na minha ausência tu vai responder.

TCTomás Chiaverini

Mas aí, ainda segundo o relato do vice-prefeito, outros políticos que tinham mais proximidade com os Magalhães começaram a criar intriga.

?Voz D

Alguns vereadores começaram a colocar na cabeça dele que, ó, Neto quer ser mais do que tu, ele tá sendo prefeito. Isso foi criando um certo ciúme.

TCTomás Chiaverini

Aí o Neto contou que começou a ter os poderes dele cerceados dentro da prefeitura.

?Voz D

As pessoas próximas a mim que tinham a gratificação, que tinham um acesso ao governo, começaram a ser restringidos, aquilo limitado, fazendo com que as coisas políticas começassem a ter um afastamento natural. E quando foi em junho de 2021, 6 meses de governo, a gente chegou a um ponto onde não dava mais. Eu segui meu lado, ele seguiu o dele. Eu até queria respirar, sair um pouco daquela tensão política por ter passado por momentos difíceis em 2020. Eu me afastei.

TCTomás Chiaverini

Apesar do afastamento, segundo a história do Neto Cavalcanti, as coisas encresparam ainda mais. Em 2022, eu comecei a ser perseguido Seria esse inclusive o motivo do capanga armado durante a entrevista.

?Voz D

Não sei se por uma ameaça política ou pessoal, mas passei a ser perseguido, atingindo minha mãe, que era aposentada no município, minhas irmãs, que eram funcionárias públicas, meus cunhados, meu pai, que faleceu em 2015, mas que deixou uma pensão para minha mãe. Ou seja, buscaram formas de me atingir. Para que eu ficasse mais enfraquecido politicamente e até economicamente, ao ponto de querer reduzir o salário do vice-prefeito na época.

TCTomás Chiaverini

Diante disso tudo, o Neto Cavalcanti, que aqui tá contando a versão dele da história, teria contra-atacado com as armas da lei, no que poderia ser visto como uma segunda traição. Agora, no lado oposto.

?Voz D

Eu, como representante do povo na época, busquei os meios legais, as instituições que deveriam fiscalizar a prefeitura, como Câmara do Vereador, Tribunal de Contas, Ministério Público. Comecei a mostrar os erros que tinha no governo. Por infelicidade do ex-prefeito, ele tinha muitos problemas além da gestão, muitas coisas da vida pessoal que já vem de lá de trás. Ele já vinha sendo investigado pelo Ministério Público Federal e Polícia Federal, e aí se tornou uma bomba atômica, onde veio à tona um caso da cidade, se tornou algo até da vida pessoal dele, dos negócios dele, que tinha muitas coisas ilícitas.

TCTomás Chiaverini

No fim desse longo processo de tramas, conspirações, puxações de tapete, desgaste político, o Noé Magalhães acabou cassado e preso. E aí, o que acontece quando o prefeito é cassado e preso? Assume o vice, Método Cavalcante, no caso.

?Voz D

Eu assumi por 7 meses, depois ele voltou. E comenta-se que nesse retorno dele, ele tentou fazer um trabalho político para que pudesse resgatar sua imagem e disputar a reeleição, mas identificou através de pesquisas de marqueteiro que se ele disputasse contra mim, ele não ganharia. E aí, ainda segundo a história que o Neto contou para o Jorge, e ele em uma atitude até de sacrifício, suicídio político e jurídico, comenta-se que ele trabalhou em Brasília para que pudesse caçar a chapa, fazendo com que nos tornássemos inelegeíveis, que estamos hoje até 2028.

TCTomás Chiaverini

Em maio de 2024, o Tribunal Superior Eleitoral caçou a chapa Noé Neto. Com isso, mais um personagem clássico das histórias de poder subiu ao palco em Pernambuco: o herói acidental, Antônio Manuel da Silva, mais conhecido como Miruca, que na época ocupava o cargo de presidente da Câmara dos Vereadores e foi automaticamente alçado ao posto de prefeito de Água Preta.

JCJorge Cavalcanti

Miruca é um vereador de 6 mandatos de um distrito da cidade que nunca sonhou em ser prefeito, que nunca talvez tenha alimentado nem no melhor sonho dele. Miruca politicamente era conhecido como Miruca de Noé, tamanha a ligação dele e subordinação com o grupo dos Magalhães.

TCTomás Chiaverini

Miruca era visto como um homem do povo, simplão, que tava ali havia décadas remando no ofício pacato de um vereador de cidade pequena. E aí, de repente, tava na cadeira do prefeito. E aqui é importante prestar atenção a um componente a mais. É importante olhar não só para onde o Miruca tava, mas para quando ele tava. Maio de 2024, ano eleitoral. Diante desse claro não narrativo, do que a gente precisa? De outro traidor, claro.

Quem entra em cena? Antônio Marcos de Melo Fragoso Lima, o Tonhão. Sim, aquele Tonhão que eu falei que ia voltar aqui para nossa história, o Tonhão que representava os Coutinho.

JCJorge Cavalcanti

Eduardo Coutinho se elege em 2016, Tonhão é secretário dele. 2020, o Eduardo Coutinho abre mão de disputar a reeleição e apoia Tonhão.

TCTomás Chiaverini

Pois é, nas eleições de 2020, em que Noé Magalhães, com Neto Cavalcanti de vice, ganharam por 75 votos, quem tava do outro lado, o lado dos Coutinho, era o Tonhão. E daquela vez ele tinha disputado com a bênção dos Coutinho, mas 4 anos depois as coisas tinham mudado. João Fernando Coutinho, o filho pródigo, que era mais ligado à política de Recife e Brasília, tinha retornado ao lar e era o pré-candidato natural a prefeito do lado dos Coutinho.

JCJorge Cavalcanti

2024, Tonhão rompe com Eduardo Coutinho.

TCTomás Chiaverini

Mais um rompimento. E esse rompimento criou um impasse. Porque o Miruca, o vereador que chegou a prefeito depois da cassação do Noé do Neto e resolveu se candidatar à reeleição, era meio que mais do mesmo. Era do grupo dos Magalhães. Tanto que o apelido dele era Miruca de Noé, lembra? Já o Tonhão, de uma hora pra outra, apareceu como algo novo. Algo de fora da polarização. E assim, a população de Água Preta, acostumada a votar em um lado ou outro lado, assistiu atônita a um fenômeno que não acontecia desde que Eduardo Campos era candidato à presidência do Brasil. O próprio Eduardo Coutinho contou sobre isso para o Jorge Cavalcanti.

?Voz E

João Fernando foi candidato, mas não tinha muito vínculo com a cidade. Pegou-se um pouco em cima do voto dele no governo Temer da reforma trabalhista, votou contra trabalhadores, consolidou na cabeça do povo.

TCTomás Chiaverini

Segundo Jorge apurou, o João Fernando Coutinho tinha feito um acordo com Miruca. Você entendeu certo, um acordo entre um Coutinho e um aliado dos Magalhães, algo que só tinha acontecido uma vez, quando o Eduardo Campos estava fazendo aquele grande movimento para unificar a política do estado. Eles se colocariam os dois como pré-candidatos pelo PSB. Aquele que saísse melhor nas pesquisas ganharia o direito de competir. E o Miruca, o homem do povo, pontuou melhor do que o filho playboy.

?Voz E

Não era a mesma coisa que eu, o povo dizia, não, se fosse Eduardo eu ia, mas aí João não teve muita competitividade e o Tonhão se aliou com o Neto, que tinha traído o Tonhão e me traído, e se aliou com Tonhão contra o candidato de Noé, que eu terminei, entre aspas, me aliando a Noé também para votar no Miruca, que é o atual prefeito, que é um cara bom, tá fazendo até um bom trabalho, entendeu?

TCTomás Chiaverini

Aqui talvez você tenha se perdido nesse inacreditável enxame de nomes e idas e vindas, mas o que importa mesmo é que em 2024 a famosa polarização de Água Preta entre duas famílias caiu por terra. Quando o Tonhão apareceu como outsider, os clãs rivais subiram prontamente no mesmo palanque.

?Voz E

Eu não queria que os caras que eu criei a vida inteira, que me traíram, que não quiseram nem conversar comigo durante o processo eleitoral, ganhassem a eleição.

TCTomás Chiaverini

E o resultado? Paz na política? Água Preta unida cantando feliz numa grande ciranda? Não, nada disso. O que melhor resume o resultado dessa longa novela é a famigerada Batalha dos Cocos. O nosso repórter ficou sabendo dessa história na conversa com o Neto Cavalcanti.

?Voz D

Houve uma inesquecível guerra de coco ali em frente ao João Vicente de Queiroz, o maior colégio eleitoral da cidade. Havia alguns vendedores vendendo aqueles cocos e algum infeliz utilizou aquilo ali até como arma e começou a jogar. O outro pegava e jogava.

JCJorge Cavalcanti

Alguém teve a brilhante ideia de arremessar um coco, foi a senha para o outro lado devolver. E aí as pessoas começam a pegar pedra e coco jogando de um lado para o outro, com duas viaturas da polícia no meio.

TCTomás Chiaverini

Nas cenas, a divisão fica bem clara. Porque o polo do Tonhão usava a cor laranja e o outro, o do Miruca, a cor vermelha.

JCJorge Cavalcanti

Na imagem dá para ver 6 policiais e tinham umas 500 pessoas.

TCTomás Chiaverini

Caramba!

JCJorge Cavalcanti

Os policiais começaram a disparar spray de pimenta. Tem um vídeo que é fantástico, o locutor narrando engasgado ao mesmo tempo que tenta falar. E aí tem uma hora que ele termina e diz, ah, mas eleição em Água Preta é assim. Se não for assim, não serve, não é Água Preta, né? Ficou conhecido como a Guerra dos Copos.

TCTomás Chiaverini

No fim, apesar dos ânimos exaltados, a população conseguiu votar. Miruca, o candidato das Famílias Unidas, foi eleito com míseros 63 votos a mais do que o Tonhão, uma diferença de 0,4%. E eu fiquei pensando sobre isso, sobre esses números, porque se a polarização era entre duas famílias, como ela permaneceu ali quando as duas famílias se bandearam para o mesmo lado? Eu levei essa dúvida para o Jorge Cavalcanti. Será que a gente pode colocar essa polarização como um embate entre conservadores e progressistas?

E aqui eu tô falando no sentido menos político-partidário e mais psicológico e psicossocial, no sentido de que as pessoas progressistas tendem a lidar melhor com mudança e os de direita, né, que normalmente são conservadores, tendem a querer menos mudança, né. E aí, nesse sentido, as duas famílias que são tradicionais da política ficam de um lado e do outro lado vem o outsider. Aí a gente poderia ver esse embate como conservadores e progressistas. Você acha que pode fazer algum sentido isso?

JCJorge Cavalcanti

Acho que faz um sentido, acho que faz um sentido. O Tonhão passa a ser o cara visto como alguém capaz, uma carta nova, alguém que pode tentar trazer ali um outro paradigma além das duas famílias que estão há décadas nisso.

TCTomás Chiaverini

O Eduardo Coutinho, que aliás vendeu a fazenda dele em Água Preta e foi morar no mato, na Chapada dos Guimarães, tem uma visão mais triste sobre o que tem motivado o voto em Água Preta.

?Voz E

O sertanejo é um homem de fibra e de palavra. Infelizmente, é muito triste dizer o que eu vou dizer aqui hoje. Isso aqui não existe mais na Mata Sul, em Água Preta principalmente não. O que vale hoje, sabe o que é? É o dinheiro, meu amigo. O voto é vendido, é comprado a troco de banana por R$100, R$200. Eu participei desse processo recente agora, né? Não peguei um real para botar no meu bolso, mas peguei alguma estrutura para conversar com algumas pessoas. E eu virei voto na base do dinheiro. E assim é que funciona.

TCTomás Chiaverini

Aqui eu preciso fazer uma pausa para a gente prestar atenção no que tá acontecendo. O Eduardo Coutinho, 4 vezes prefeito de Água Preta, tá falando assim como se nada fosse, que virou voto na base do dinheiro. Pausa feita, sigamos.

?Voz E

Um candidato a prefeito de Água Preta pode ser o melhor possível ideologicamente, tem a maior história, pode ter assim realizado muito trabalho, mas se não tiver 2, 3 milhões para gastar no processo eleitoral, você nem se meta. É tudo nos últimos 5, 6, 8 dias da eleição, na véspera e no dia. É uma coisa intensa a compra de voto. Então quem tem dinheiro ganha eleição hoje em dia, entendeu? É muito desigual, muito desigual. Você pega um deputado que tem 50 milhões, 60 milhões de emenda, o cara bota sei lá, 3 milhões no município, não é?

Faz os acordos que tem que fazer, os conchavos. É endêmico, é triste demais dizer isso. Então assim, não tem mais aquela mobilização em termos de você ter uma bandeira vermelha e uma bandeira amarela. Já teve isso aqui, inclusive guerra de bandeira aqui, não é? Você tem que enfeitar a cidade toda, mas hoje em dia o que vale é o dinheiro. É muito triste isso.

TCTomás Chiaverini

Certo, mas esse não é um episódio sobre corrupção nem sobre o poder da grana. É um episódio sobre polarização. E assim, agora que você chegou até aqui comigo, eu posso te confessar um segredo. Quando eu comecei a conversar com o Jorge sobre Água Preta, eu não tava esperando esse furdúncio todo. Eu tava esperando uma história clássica faroeste, 100 anos de solidão, Romeu e Julieta, duas famílias rivais se enfrentando ao longo de gerações.

Ou numa esfera mais teórica, eu tava pensando nos processos de ruptura, decisão democrática de que o Casarões tinha me falado.

TCTomás Chiaverini

A gente pode pensar ali desde as manifestações de 2013 e a reeleição da Dilma em 2014. Você vai se lembrar, por exemplo, que muita gente chamava Aécio Neves naquele momento da história disputando eleição com a Dilma de fascista. E chamar de fascista, assim como para extrema-direita chamar alguém de comunista, é um convite à interdição do debate. A partir daquele momento, quer dizer, se eu chego para você e falo: Tomás, você é fascista, eu tô dizendo mais do que as características políticas que eu atribuo a você.

Eu tô basicamente dizendo para o mundo que eu não tenho disposição de conversar com você. O comunista do outro lado é mais ou menos a mesma coisa. E a partir do momento em que você chama alguém de fascista, é muito difícil voltar atrás. É muito difícil você mudar de opinião e falar assim: não, aquele que era o fascista, o golpista, agora é meu aliado.

TCTomás Chiaverini

Era sobre isso que eu esperava ter escutado na volta do Jorge, sobre uma história de rupturas inconciliáveis. Mas o que chegou foi radicalmente diferente. Foi, na verdade, quase o oposto, né? E aí eu fiquei pensando sobre onde essa polarização de fato existe. E pra mim ficou claro que ela certamente existe na política, mas talvez ela não exista nos políticos. Pelo menos não nas proporções que eles querem que a gente acredite que ela exista.

Polarização afetiva? Talvez em alguns extremos. Jean Wyllys e Carlos Bolsonaro Roberto Jefferson e Zé Dirceu, Getúlio Vargas e Carlos Lacerda. Mas no geral, boa parte do que a gente assiste é teatro. Voltando à erudição do Casarões, enquanto o povo se engalfinha no modo extermínio total do Carlos Schmitt, os políticos contemporizam e se acomodam no esquema dialógico do vem cá, bora conversar da Hannah Arendt. As eleições de Água Preta são um exemplo perfeito disso.

Porque quando foi conveniente, os políticos de famílias historicamente rivais não viram problema em subir no mesmo palanque. E olha só, a história não acabou quando abriram as urnas, porque alguns meses depois da eleição, o Tonhão, o candidato derrotado, também se bandeou para o mesmo lado. E no fim, em pouco tempo, praticamente todos os atores da nossa tragicomédia estavam vestindo o mesmo figurino, o figurino da ocasião.

JCJorge Cavalcanti

Os Coutinhos têm cargo na prefeitura, os Magalhães, além de cargo na prefeitura, têm contratos na prefeitura, e o Tonhão se alia agora à Miruca também por cargo na prefeitura.

TCTomás Chiaverini

Isso me fez lembrar de outro trecho da conversa com o Casarões, que traz um questionamento inerente a todos os episódios da nossa série.

TCTomás Chiaverini

Acho que a questão mais importante, a questão de fundo mais importante é: será que a democracia vai resolver os nossos problemas? A democracia até aqui ela foi o pano de fundo inquestionável, né? A gente mesmo não questiona a democracia como algo intrinsecamente bom. Aí você olha para a China, os caras estão crescendo a 10% por ano num sistema comunista. Aí você olha para lugares autoritários, você tem resultados mais tangíveis economicamente ou mesmo politicamente.

Aí você olha para as democracias, todas elas estão completamente perdidas, desorganizadas, sabe, sem rumo. E isso provoca uma frustração. E acha, Munk, cientista político alemão estudioso da polarização, no livro dele O Povo Contra a Democracia, ele tem na introdução um comentário que ele fala: a frustração com relação à política é comum, é absolutamente normal. A frustração com relação à política ao sistema que sustenta essa vida coletiva, isso é novo.

E isso é o problema. E quando você tem uma polarização tão acirrada e quando você tem um descontentamento generalizado com relação ao que tá acontecendo, a democracia ela fica sob risco, porque diante dessas afinidades afetivas ela vai ser facilmente descartada se um dos lados dessa disputa oferece para você uma solução que é essencialmente identitária. Eu não tô aqui pra melhorar a vida de todo mundo, eu tô aqui pra melhorar a sua vida.

TCTomás Chiaverini

Essa solução identitária dos políticos prometendo resolver a vida dos eleitores individualmente é outro fenômeno antigo que tem sido revisitado pelos políticos, né? Pensa no desabafo final do Eduardo Coutinho sobre a compra de votos. Quer mais individualismo do que trocar voto por cesta básica? Uma relação de troca assistencialista da pior espécie, mas que de fato nunca saiu de moda. Sempre foi eficiente, sempre moveu multidões.

Em certa medida, tá relacionada com o egoísmo humano primitivo. O meu bando, que me ajuda a proteger os meus filhotes. O meu lago, o meu pé de tâmaras. Um instinto de sobrevivência que permitiu que a nossa espécie prosperasse e sobre o qual se ergueram grandes sistemas intersubjetivos, realidades inventadas que só existem porque muita gente acredita nelas, estruturas complexas como o sistema financeiro, as nações, a própria política e as religiões.

Formas de organização que se misturam, se chocam e se alimentam, e que muitas vezes se atacam e se canibalizam, como no caso da política e da religião. Se historicamente as duas andaram juntas e misturadas, feito miruque noé, hoje a religião figura como mais um dos suspeitos pela morte da política. Mas esse, caro ouvinte, é o tema do nosso próximo episódio.

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EP07 | Quem matou a política? | Castnews Index — Castnews Index